
	O LIVRO NEGRO DO COMUNISMO
	Crimes, terror e represso
	
	JEAN-LOUIS PANN, ANDRZEJ PACZKOWSKI, KAREL BARTOSEK, JEAN-LOUIS MARGOLIN
	
	com a colaborao de Remi Kauffer, Pierre Rigoulot, Pascal Fontaine, Yves Santamaria e Sylvain Boulouque
	
	Traduo CAIO MEIRA
	
	BERTRAND BRASIL
	
	Ttulo original: L livre noirdu communisme Obra publicada sob a direo de Charles Ronsac Capa: Raul Fernandes Editorao: Art Line 1999 
	Impresso no Brasil 
	Printed in Brazil 
	CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte 
	Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
	L762	O livro negro do comunismo: crimes, terror e represso / Stphane
	Courtois... [et ai.]; com a colaborao de Remi Kauffr... [et ai.]; traduo Caio Meira. - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999. 924p., [32] p. de estampas: il.
	Traduo de: L livre noir du communisme ISBN 85-286-0732-1
	1. Comunismo - Histria - Sculo XX. 2. Perseguio poltica. 3. Terrorismo. I. Courtois, Stphane, 1947-.
	CDD - 320.299-1236	CDU-321.
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	Contracapa e orelha:

	Outubro de 1917: o golpe de estado bolchevique significou bem mais do que a queda do czarismo e a subida ao poder de um grupo de polticos idealistas. A revoluo liderada por Lenin tornou-se o cone que representaria o comeo de uma nova era para a humanidade, anunciando uma sociedade mais justa e um homem mais consciente de sua relao com seu semelhante.
Novembro de 1989: a queda do Muro de Berlim e a conseqente abertura dos arquivos dos pases comunistas apareceram para o mundo como a derrocada final do sonho comunista.
	O   LIVRO NEGRO DO COMUNISMO traz a pblico o saldo estarrecedor de mais de sete dcadas de histria de regimes comunistas: massacres em larga escala, deportaes de populaes inteiras para regies sem a mnima condio de sobrevivncia, expurgos assassinos liquidando o menor esboo de oposio, fome e misria provocadas que dizimaram indistintamente milhes de pessoas, enfim, a aniquilao de homens, mulheres, crianas, soldados, camponeses, religiosos, presos polticos e todos aqueles que, pelas mais diversas razes, se encontraram no caminho de implantao do que, paradoxalmente, nascera como promessa de redeno e esperana.
	Os autores, historiadores que permanecem ou estiveram ligados  esquerda, no hesitam em usar a palavra genocdio, pois foram cerca de 100 milhes de mortos! Esse nmero assustador ultrapassa amplamente, por exemplo, o nmero de vtimas do nazismo e at mesmo o das duas guerras mundiais somadas. Genocdio, holocausto, portanto, confirmado pelos vrios relatos de sobreviventes e, principalmente, pelas revelaes dos arquivos hoje acessveis.
	O terror - o Terror Vermelho - foi o principal instrumento utilizado por comunistas tanto para a tomada do poder quanto para a sua manuteno, e tambm por grupos de oposio que jamais chegaram ao governo. Os fatos demonstram: o terrorismo de oposio e o terrorismo de Estado, com freqncia praticados contra o seu prprio povo, so as grandes caractersticas do comunismo no sculo XX.
	Obstinados, pragmticos, carismticos, os lderes comunistas, que guiariam o mundo a seu destino inelutvel, tm revelada a sua face sombria: Lenin, Stalin, Mao Zedong, Pol Pot, Ho Chi Minh, Fidel Castro e muitos outros tornam-se os responsveis diretos pelas atrocidades cometidas em nome do ideal comunista. Sob seus olhares zelosos, os "obstculos" - qualquer homem, cidade ou povo - foram sendo exterminados com violncia e brutalidade.

	O   LIVRO NEGRO DO COMUNISMO no quer justificar nem encontrar causas para tais atrocidades. Tampouco pretende ser mais um captulo na polmica entre esquerda e direita, discutindo fundamentos ou teorias marxistas. Trata-se, sobretudo, de dar nome e voz s vtimas e a seus algozes. Vtimas ocultas por demasiado tempo sob a mquina de propaganda dos PCs espalhados pelo mundo. Algozes muitas vezes festejados e recebidos com toda a pompa pelas democracias ocidentais.
Todos que de algum modo tomaram parte na aventura comunista neste sculo esto, doravante, obrigados a rever as suas certezas e convices.
	Encontra-se, assim, uma das principais virtudes deste livro:  luz dos fatos aqui revelados, o Terror Vermelho deve estar presente na conscincia dos que ainda crem num futuro para o comunismo.
	Como um ideal de emancipao e de fraternidade universal pode ter-se transformado, na manh seguinte ao Outubro de 1917, numa doutrina de onipotncia do Estado, praticando a disseminao sistemtica de grupos inteiros, sociais ou nacionais, recorrendo s deportaes em massa e, com demasiada freqncia, aos massacres gigantescos? O vu da denegao pode enfim ser completamente destrudo. A rejeio do comunismo pela maioria dos povos em questo, a abertura de inmeros arquivos que ainda ontem eram secretos, a multiplicao de testemunhos e contatos trazem o foco para o que amanh ser uma evidncia: os pases comunistas tiveram maior xito no cultivo de arquiplagos de campos de concentrao do que nos do trigo; eles produziram mais cadveres do que bens de consumo.
	Uma equipe de historiadores e de universitrios assumiu o empreendimento - - em cada um dos continentes e dos pases envolvidos - - de fazer um balano o mais completo possvel dos crimes cometidos sob a bandeira do comunismo: os locais, as datas, os fatos, os carrascos, as vtimas contadas s dezenas de milhes na URSS e na China, e aos milhes em pequenos pases como a Coreia do Norte e o Camboja.

	8O ANOS APS O GOLPE DE ESTADO BOLCHEVIQUE, O PRIMEIRO LIVRO DE REFERNCIA SOBRE UMA TRAGDIA DE DIMENSO PLANETRIA.
	NUMEROSOS TESTEMUNHOS, MAPAS DOS "GULAGS" E DAS DEPORTAES, 32 PGINAS DE FOTOGRAFIAS.

	Os autores:
	Pesquisador-chefe do CNRS, o Centro Nacional de Pesquisa Cientfica francs, Stphane Courtois dirige a revista Communisme e  co-autor do livro Histoire du parti communiste franais. Professor agrg de histria, pesquisador do CNRS, Nicolas Werth, especialista em URSS,  principalmente o autor de uma Histoire de L'Union Sovitique. Jean-Louis Pann  o autor da biografia Boris Souvorine. Pesquisador do CNRS, diretor da revista La Nouvelle Alternative, Karel Bartosek  o autor de Aveux des Archives. Praga-Paris-Praga. Professor agrg de histria, jean-Louis Margolin  matre de confrences da Universidade de Provence. Professor do Instituto de Estudos Polticos de Varsvia, Andrzej Paczkowski  membro do Conselho dos Arquivos do Ministrio do Interior. Com a colaborao de Remi Kauffer, Pierre Rigoulot, Pascal Fontaine, Yves Santamaria e Sylvain Boulouque.
	BERTRAND BRASIL
	
	O editor e os autores dedicam este livro
	 memria de Franois Furet, que havia concordado em redigir o seu prefcio.
	
	SUMRIO

	OS CRIMES DO COMUNISMO	 

	PRIMEIRA PARTE - UM ESTADO CONTRA O POVO

	1. Paradoxos e equvocos de Outubro
	2. O brao armado da ditadura do proletariado
	3. O Terror Vermelho
	4. A guerra suja
	5. De Tambov  grande fome
	6. Da trgua  grande virada
	7. Coletivizao forada e deskulakizao
	8. A grande fome
	9. Elementos estranhos  sociedade e ciclos repressivos
	10. O Grande Terror (1936-1938)
	11. O imprio dos campos de concentrao
	12. O avesso de uma vitria
	13. Apogeu e crise do Gulag
	14. O ltimo compl
	15. A sada do Stalinismo
	 guisa de concluso

	SEGUNDA PARTE - REVOLUO MUNDIAL, GUERRA CIVIL E TERROR

	1. O Komintern em ao	 
	A revoluo na Europa	 
	Komintern e guerra civil	 
	Ditadura, incriminao dos opositores e represso no interior do Komintern
	O grande terror atinge o Komintern
	Terror no interior dos partidos comunistas
	A caa aos trotskistas
	Antifascistas e revolucionrios estrangeiros vtimas do terror na URSS
	Guerra civil e guerra de libertao nacional
	2. A sombra do NKVD sobre a Espanha
	A linha geral dos comunistas
	Conselheiros e agentes
	Depois das calnias... as balas na nuca
	Maio de 1937 e a liquidao do POUM
	O NKVD em ao
	Um julgamento de Moscou em Barcelona
	Dentro das Brigadas Internacionais
	Exlio e morte na ptria dos proletrios
	3. Comunismo e terrorismo

	TERCEIRA PARTE - A OUTRA EUROPA VTIMA DO COMUNISMO

	1. Polnia, a nao inimiga
	O caso do POW (Organizao Militar Polonesa) e a operao polonesa do NKVD (1933-1938)
	Katyn, prises e deportaes (1939-1941)
	O NKVD contra a Armia Krajowa (Exrcito Nacional)
	Bibliografia
	Polnia 1944-1989: o sistema de represso
	 conquista do Estado ou o terror de massa (1944-1947)
	A sociedade como objetivo de conquista ou o terror generalizado (1948-1956)
	O socialismo real ou o sistema de represso seletiva (1956-1981)
	O estado de guerra, uma tentativa de represso generalizada
	Do cessar-fogo  capitulao, ou a confuso do poder (1986-1989)
	Bibliografia
	2. Europa Central e do Sudeste
	Terror importado?
	Os processos polticos contra os aliados no comunistas
	A destruio da sociedade civil
	O sistema concentracionrio e a gente do povo
	Os processos dos dirigentes comunistas
	Do ps-terror ao ps-comunismo
	Uma gesto complexa do passado
	Bibliografia selecionada
	
	QUARTA PARTE - COMUNISMOS DA SIA: ENTRE REEDUCAO E MASSACRE

	1. China: uma longa marcha na noite
	Uma tradio de violncia?
	Uma revoluo inseparvel do terror (1927-1946)
	Reforma agrria e expurgos urbanos (1946-1957)
	Os campos: submisso e engenharia social
	As cidades: ttica do salame e expropriaes
	A maior fome da histria (1959-1961)
	Um Gulag escondido: o laogai
	A Revoluo Cultural: um totalitarismo anrquico (1966-1976)
	A era Deng: desagregao do terror (depois de 1976)
	Tibet: um genocdio no teto do mundo?
	2. Coreia do Norte, Vietn e Laos: a semente do Drago
	Crimes, terror e segredo na Coreia do Norte
	Antes da constituio do Estado comunista
	Vtimas da luta armada
	Vtimas comunistas do Partido-Estado norte-coreano
	As execues
	Prises e campos
	O controle da populao
	Tentativa de genocdio intelectual?
	Uma hierarquia estrita
	A fuga
	Atividades no exterior
	Fome e misria
	Balano final
	Vietn: os impasses de um comunismo de guerra
	Laos: populaes em fuga
	3. Camboja: no pas do crime desconcertante
	A espiral do horror
	Variaes em torno de um martirolgio
	A morte cotidiana no tempo de Pol Pot
	As razes da loucura
	Um genocdio?
	Concluso
	Seleo bibliogrfica sia

	QUINTA PARTE - O TERCEIRO MUNDO
	1. A Amrica Latina e a experincia comunista
	Cuba. O interminvel totalitarismo tropical
	Nicargua: o fracasso de um projeto totalitrio
	Peru: a longa marcha sangrenta do Sendero Luminoso
	Orientaes bibliogrficas
	2. Afrocomunismos: Etipia, Angola, Moambique
	O comunismo de cores africanas
	O Imprio Vermelho: a Etipia
	Violncias lusfonas: Angola, Moambique
	A Repblica Popular de Angola
	Moambique
	3. O comunismo no Afeganisto
	O Afeganisto e a URSS de 1917 a 1973
	Os comunistas afeganes
	O golpe de Estado de Mohammed Daud
	O golpe de Estado de abril de 1978 ou a Revoluo de Saur
	A interveno sovitica
	A amplitude da represso

	PORQU?
	OS AUTORES
	NDICE ONOMSTICO
	
	OS CRIMES DO COMUNISMO
	[por Stphane Courtois |

	A vida perdeu para a morte,
	mas a memria ganha
	seu combate contra o nada.
	
	Tzvetan Todorov
	Os abusos da memria
	
	J se escreveu que a histria  a cincia da infelicidade dos homens; nosso sculo de violncia parece confirmar essa frmula de maneira eloquente.  verdade que nos sculos precedentes poucos povos e poucos Estados estiveram isentos da violncia de massa. As principais potncias europias estiveram implicadas no trfico de negros; a repblica francesa praticou uma colonizao que, apesar de algumas contribuies, foi marcada por numerosos episdios repugnantes, e isso at o seu trmino. Os Estados Unidos permanecem impregnados de uma certa cultura da violncia que se enraza em dois dos mais terrveis crimes: a escravido dos negros e o extermnio dos ndios.
	No resta dvida de que, a esse respeito, nosso sculo deve ter ultrapassado seus predecessores. Um olhar retrospectivo impe uma concluso incmoda: este foi o sculo das grandes catstrofes humanas - duas guerras mundiais, o nazismo, sem falar das tragdias mais circunscritas, como as da Armnia, Biafra, Ruanda e outros pases. Com efeito, o Imprio Otomano entregou-se ao genocdio dos armnios, e a Alemanha ao dos judeus e dos ciganos. A Itlia de Mussolini massacrou os etopes. Os tchecos tm dificuldades em admitir que seu comportamento em relao aos alemes dos Sudetos, em 1945-1946, no esteve acima de qualquer suspeita. A prpria Sua  hoje alcanada por seu passado como o pas que gerenciava o ouro roubado pelos nazistas dos judeus exterminados, apesar desse comportamento no ser em nenhuma medida to atroz quanto o do genocdio.
	O comunismo insere-se nessa faixa de tempo histrico transbordante de tragdias, chegando mesmo a constituir um de seus momentos mais intensos e mais significativos. O comunismo, um dos fenmenos mais importantes deste curto sculo XX - que comea em 1914 e termina em Moscou em 1991 -, encontra-se no centro desse quadro. Um comunismo que preexistia ao fascismo e ao nazismo, e que sobreviveu a eles, atingindo os quatro grandes continentes.
	O que designamos precisamente com a denominao comunismo?
	Devemos, desde j, introduzir uma distino entre a doutrina e a prtica. Como filosofia poltica, o comunismo existe h sculos, e quem sabe, h milnios. Pois no foi Plato quem, em A Repblica, fundou a idia de uma cidade ideal na qual os homens no seriam corrompidos pelo dinheiro e pelo poder, na qual a sabedoria, a razo e a justia comandariam? No foi um pensador e estadista to eminente quanto Sir Thomas More, chanceler da Inglaterra em 1530, autor da famosa Utopia e morto sob o machado do carrasco de Henrique VIII, um outro precursor da idia dessa cidade ideal? O mtodo utpico parece perfeitamente legtimo como instrumento crtico da sociedade. Ele participa do debate das idias - oxignio de nossas democracias. Entretanto, o comunismo aqui abordado no se situa no cu das idias.  um comunismo bem real, que existiu numa determinada poca, em determinados pases, encarnado por lderes clebres - Lenin, Stalin, Mo, Ho Chi Minh, Castro, e te., e, mais prximos da histria poltica francesa, Maurice Thorez, Jacques Duelos, Georges Marchais.
	Qualquer que seja o grau de envolvimento da doutrina comunista anterior a 1917 na prtica do comunismo real - retornaremos a esse ponto -, foi este quem ps em prtica uma represso metdica, chegando a instituir, em momentos de grande paroxismo, o terror como modo de governo. Isso faz com que a ideologia seja inocente? Os espritos ressentidos ou escolsticos sempre podero sustentar que o comunismo real no tem nada a ver com o comunismo ideal. Evidentemente, seria absurdo imputar a teorias elaboradas antes de Cristo, durante a Renascena ou mesmo o sculo XDC, eventos que surgiram no decorrer do sculo XX. Entretanto, como escreve Ignazio Silone, na verdade, as revolues so como as rvores, elas so reconhecidas atravs de seus frutos. No foi sem razo que os social-democratas russos, conhecidos como bolcheviques, decidiram, em novembro de 1917, chamar a si prprios de comunistas. Tampouco foi por acaso que erigiram junto ao Kremlin um monumento em glria daqueles que eles consideravam seus precursores: More ou Campanella.
	Excedendo os crimes individuais, os massacres pontuais, circunstanciais, os regimes comunistas erigiram, para assegurar o poder, o crime de massa como verdadeiro sistema de governo.  certo que no fim de um perodo de tempo varivel - alguns anos no Leste Europeu ou vrias dcadas na URSS ou na China - o terror perdeu seu vigor, os regimes estabilizaram-se na gesto da represso cotidiana, censurando todos os meios de comunicao, controlando as fronteiras, expulsando os dissidentes. Mas a memria do terror continuou a assegurar a credibilidade e, consequentemente, a eficcia da ameaa repressiva. Nenhuma das experincias comunistas, populares durante algum tempo no Ocidente, escapou a essa lei: nem a China do Grande Timoneiro, nem a Coreia de Kim II Sung, nem mesmo o Vietn do gentil Tio Ho ou a Cuba do flamejante Fidel, ladeado pela pureza de um Che Guevara, no se esquecendo da Etipia de Mengistu, da Angola de Neto e do Afeganisto de Najibullah.
	Ora, os crimes do comunismo no foram submetidos a uma avaliao legtima e normal, tanto do ponto de vista histrico quanto do ponto de vista moral. Sem dvida, trata-se aqui de uma das primeiras vezes que se tenta uma aproximao do comunismo, perguntando-se sobre esta dimenso criminosa como uma questo ao mesmo tempo global e central. Podero retorquir-nos que a maioria dos crimes respondia a uma legalidade, ela prpria sustentada por instituies pertencentes aos regimes vigentes, reconhecidos no plano internacional e cujos chefes eram recebidos com grande pompa por nossos prprios dirigentes. Mas no ocorreu o mesmo com o nazismo? Os crimes que expomos neste livro no se definem em relao  jurisdio dos regimes comunistas, mas ao cdigo no escrito dos direitos naturais da humanidade.
	A histria dos regimes e dos partidos comunistas, de sua poltica, de suas relaes com as sociedades nacionais e com a comunidade internacional no se resume a essa dimenso criminosa, ou mesmo a uma dimenso de terror e de represso. Na URSS e nas democracias populares depois da morte de Stalin, na China aps a morte de Mo, o terror atenuou-se, a sociedade comeou a retomar suas cores, a coexistncia pacfica - mesmo sendo ainda uma continuao da luta de classes sob outras formas - tornou-se um dado permanente da vida internacional. Entretanto, os arquivos e os testemunhos abundantes mostram que o terror foi, desde sua origem, uma das dimenses fundamentais do comunismo moderno. Abandonemos a idia de que tal execuo de refns, tal massacre de trabalhadores revoltados, tal hecatombe de camponeses mortos de fome, foram somente acidentes conjunturais, prprios a tais pases ou a tal poca. O nosso mtodo ultrapassa a especificidade de cada terreno e considera a dimenso criminosa como uma das dimenses prprias ao conjunto do sistema comunista, durante todo o seu perodo de existncia.
	Do que falaremos, de quais crimes? O comunismo cometeu inmeros: inicialmente, crimes contra o esprito, mas tambm crimes contra a cultura universal e contra as culturas nacionais. Stalin ordenou a demolio de centenas de igrejas em Moscou; Ceaucescu destruiu o corao histrico de Bucareste para construir edifcios e traar perspectivas megalomanacas; Pol Pot fez com que fosse desmontada pedra por pedra a Catedral de Phnom Penh e abandonou  selva os templos de Angkor; durante a revoluo cultural maosta, tesouros inestimveis foram quebrados ou queimados pelas Guardas Vermelhas. Entretanto, por mais graves que tenham sido essas destruies, a longo prazo, para as naes envolvidas e para a humanidade inteira, em que medida elas pesam em face do assassinato em massa de pessoas, de homens, de mulheres, de crianas?
	Portanto, consideramos apenas os crimes contra as pessoas, os que constituem a essncia do fenmeno do terror. Esses respondem a uma nomenclatura comum, mesmo que tal prtica seja mais acentuada neste ou naquele regime: execuo por meios diversos - fuzilamento, enforcamento, afogamento, espancamento e, em alguns casos, gs de combate, veneno ou acidente de automvel; destruio pela fome - indigncia provocada e/ou no socorrida; deportao - a morte podendo ocorrer no curso do transporte (em caminhadas a p ou em vages para animais) ou nos locais de residncia e/ou de trabalhos forados (esgotamento, doena, fome, frio). O caso dos perodos ditos de guerra civil  mais complexo: no  fcil distinguir o que decorre do combate entre poder e rebeldes e o que  massacre da populao civil.
	Contudo, podemos estabelecer os nmeros de um primeiro balano que pretende ser somente uma aproximao mnima e que necessitaria ainda de uma maior preciso, mas que, de acordo com estimativas pessoais, d uma dimenso da grandeza e permite sentir a gravidade do assunto:
	- URSS, 20 milhes de mortos,
	- China, 65 milhes de mortos,
	- Vietn, 1 milho de mortos,
	- Coreia do Norte, 2 milhes de mortos,
	- Camboja, 2 milhes de mortos,
	- Leste Europeu, 1 milho de mortos,
	- Amrica Latina, 150.000 mortos,
	- frica, 1,7 milho de mortos,
	- Afeganisto, 1,5 milho de mortos,
	- Movimento comunista internacional e partidos comunistas fora do poder, uma dezena de milhes de mortos.
	O total se aproxima da faixa dos cem milhes de mortos.
	Essa escala de grandeza recobre situaes de grande disparidade.  incontestvel que, em valor relativo, o trofeu vai para o Camboja, onde Pol Pot, em trs anos e meio, conseguiu matar da maneira mais atroz - a fome, a tortura - aproximadamente um quarto da populao total do pas. Entretanto, a experincia maosta choca pela amplitude das massas atingidas. Quanto  Rssia leninista ou stalinista, ela d calafrios por seu lado experimental, porm perfeitamente refletido, lgico, poltico.
	Essa abordagem elementar no poderia esgotar a questo cujo aprofundamento implica a utilizao de um mtodo qualitativo que repouse na definio de crime. Tal definio deve apoiar-se em critrios objetivos e jurdicos. A questo do crime cometido por um Estado foi tratada pela primeira vez, do ponto de vista jurdico, em 1945, no tribunal de Nuremberg institudo pelos Aliados para julgar os crimes nazistas. A natureza desses crimes foi definida pelo artigo 6 dos estatutos do tribunal, que designa trs crimes maiores: os crimes contra a paz, os crimes de guerra, os crimes contra a humanidade. Ora, um exame do conjunto dos crimes cometidos sob o regime leninis-ta/stalinista, e tambm no mundo comunista em geral, conduz-nos ao reconhecimento de cada uma dessas trs categorias.
	Os crimes contra a paz so definidos pelo artigo 6a e concernem a dire-o, a preparao, o incio ou o prosseguimento de uma guerra de agresso, ou de uma guerra de violao de tratados, garantias ou acordos internacionais, ou a participao num plano concertado ou num compl para a consecuo de qualquer um dos atos precedentes. Stalin cometeu incontestavelmente esse tipo de crime, pelo menos quando negociou secretamente com Hitler, atravs dos tratados de 23 de agosto e de 28 de setembro de 1939, a partilha da Polnia e a anexao dos Pases Blticos, da Bucovina do Norte e da Bessarbia  URSS. O tratado de 23 de agosto, libertando a Alemanha do perigo de um combate em duas frentes, provocou diretamente o incio da Segunda Guerra Mundial. Stalin perpetrou um novo crime contra a paz ao agredir a Finlndia em 30 de novembro de 1939. O ataque imprevisto da Coreia do Norte contra a Coreia do Sul em 25 de junho de 1950 e a interveno macia do exrcito da China comunista so atos da mesma ordem. Os mtodos de subverso, assumidos durante um tempo pelos partidos comunistas comandados por Moscou, poderiam igualmente ser assimilados aos crimes contra a paz, pois sua ao desembocou em algumas guerras; assim, o golpe de Estado comunista no Afeganisto acarretou, em 27 de dezembro de 1979, uma interveno militar macia da URSS, inaugurando uma guerra que ainda no terminou.
	Os crimes de guerra so definidos no artigo 6b como as violaes das leis e costumes da guerra. Essas violaes compreendem - sem estarem limitadas a isto, porm - o assassinato, maus-tratos ou deportao para trabalhos forcados, ou ainda com outro objetivo, das populaes civis dos territrios ocupados, o assassinato ou maus-tratos de prisioneiros de guerra e de pessoas no mar, a execuo de refns, a pilhagem dos bens pblicos ou privados, a destruio sem motivos de cidades e povoados ou a devastao no justificada por exigncias militares. As leis e costumes de guerra esto inscritos em convenes, sendo que a mais conhecida dentre elas  a Conveno de Haia de 1907, que estipula: Em tempos de guerra, as populaes e os beligerantes permanecem sob o imprio dos princpios do direito internacional, tais como os que resultam dos usos estabelecidos pelas naes civilizadas, as leis da humanidade e as exigncias da conscincia pblica.
	Ora, Stalin ordenou ou autorizou numerosos crimes de guerra, sendo a execuo da quase-totalidade dos oficiais poloneses aprisionados em 1939 -dos quais os 4.500 mortos de Katyn so apenas um episdio - o crime mais espetacular. Mas outros crimes de amplitude ainda maior passaram despercebidos, como o assassinato ou a morte no Gulagfreqncia de centenas de milhares de militares alemes aprisionados entre 1943 e 1945; a isto acrescentam-se os estupros em massa de mulheres alems pelos soldados do Exrcito Vermelho na Alemanha ocupada; sem falar da pilhagem sistemtica de todo o parque industrial dos pases ocupados pelo Exrcito Vermelho. Incorrem no mesmo artigo 6b o aprisionamento, o fuzilamento ou a deportao das resistncias organizadas que combatiam abertamente o poder comunista: por exemplo, os militares das organizaes polonesas de resistncia antinazista (POW, AK), os membros das organizaes de partidrios blticos e ucranianos armados, as resistncias afegs, etc.
	A expresso crimes contra a humanidade apareceu pela primeira vez em 18 de maio de 1915, numa declarao d Frana, da Inglaterra e da Rssia contra a Turquia, em razo do massacre dos armnios, qualificado como novo crime da Turquia contra a humanidade e a civilizao. As extorses nazistas levaram o tribunal de Nuremberg a redefinir a noo em seu artigo 6c: O assassinato, o extermnio, a escravido, a deportao e todo ato inumano cometido contra toda e qualquer populao civil, antes ou durante a guerra, ou ainda perseguies por motivos polticos, raciais ou religiosos, quando estes atos ou perseguies forem cometidos na sequncia de todo crime que entre na competncia do tribunal, ou que esteja ligado a este crime, quer violem ou no o direito interno do pas onde foram perpetrados.
	Em seu requisitrio em Nuremberg, Franois de Menthon, procurador geral francs, destacava a dimenso ideolgica dos crimes:
	Proponho-me a demonstrar-lhes que toda criminalidade organizada e sistemtica decorre do que me permitirei chamar de crime contra o esprito, quero dizer, de uma doutrina que, negando todos os valores espirituais, racionais ou morais, sob os quais os povos tentaram h milnios fazer progredir a condio humana, visa a devolver a Humanidade  barbrie, no mais a barbrie natural e espontnea dos povos primitivos, mas a barbrie demonaca, j que consciente dela prpria e utilizando para os seus fins todos os meios materiais postos  disposio dos homens pela cincia contempornea. Esse pecado contra o esprito  a falta original do nacional-socialismo da qual todos os crimes decorrem. Essa doutrina monstruosa  a do racismo. [...] Que se trate de crime contra a Paz ou de crimes de guerra, no nos encontramos diante de uma criminalidade acidental, ocasional, que os eventos pudessem, talvez, no apenas justificar, mas explicar, encontramo-nos sim diante de uma criminalidade sistemtica, que decorre direta e necessariamente de uma doutrina monstruosa, servida pela vontade deliberada dos dirigentes da Alemanha Nazista.
	Franois de Menthon explicava tambm que as deportaes destinadas a assegurar mo-de-obra suplementar para a mquina de guerra alem e as que visavam a exterminar os oponentes eram apenas consequncia natural da doutrina nacional-socialista, segundo a qual o homem no tem nenhum valor em si quando no est a servio da raa alem. Todas as declaraes no tribunal de Nuremberg insistiam numa das caractersticas maiores do crime contra a humanidade: o fato de que a potncia do Estado esteja a servio de polticas e de prticas criminosas. Porm, a competncia do tribunal estava limitada aos crimes cometidos durante a Segunda Guerra Mundial. Era ento indispensvel ampliar a noo jurdica a situaes no implicadas nessa guerra. O novo Cdigo Penal francs, adotado em 23 de julho de 1992, define assim o crime contra a humanidade: a deportao, a escravido, ou a prtica macia e sistemtica de execues sumrias, de sequestro de pessoas seguido de sua desapario, da tortura ou de atos inumanos, inspirados por motivos polticos, filosficos, raciais ou religiosos, e organizados em execuo de um plano concertado que atinja um grupo de populao civil (grifo nosso).
	Ora, todas essas definies, em particular a recente definio francesa, aplicam-se a numerosos crimes cometidos no perodo de Lenin, e sobretudo no de Stalin, e tambm por todos os pases de regime comunista, com exceo (sob reserva de verificao) de Cuba e da Nicargua dos sandinistas. A condio principal parece incontestvel: os regimes comunistas trabalharam em nome de um Estado praticante de uma poltica de hegemonia ideolgica.  exatamente em nome de uma doutrina, fundamento lgico e necessrio do sistema, que foram massacrados dezenas de milhes de inocentes sem que nenhum ato particular possa lhes ser censurado, a menos que se reconhea que era criminoso ser nobre, burgus, kulak, ucraniano, ou mesmo trabalhador ou... membro do Partido Comunista. A intolerncia ativa fazia parte do programa posto em prtica.  assim que Tomski, o grande lder dos sindicatos soviticos, declarava em 13 de novembro de 1927, no Trud. Em nosso pas, outros partidos tambm podem existir. Mas eis o princpio fundamental que nos distingue do Ocidente; a situao imaginvel  a seguinte: um partido reina, todos os outros esto na priso.
	A noo de crime contra a humanidade  complexa e recobre crimes designados formalmente. Um dos mais especficos  o genocdio. Aps o genocdio dos judeus pelos nazistas, e a fim de tornar mais preciso o artigo 6c do tribunal de Nuremberg, a noo foi definida por uma conveno das Naes Unidas, de 9 de dezembro de 1948: O genocdio  compreendido como um dos atos infracitados, cometidos na inteno de destruir, todo ou em parte, um grupo nacional, tnico, racial ou religioso, como tal: a) mortes de membros do grupo; b) atentado grave  integridade fsica ou mental de membros do grupo; c) submisso intencional do grupo s condies de existncia que acarretem sua destruio fsica, total ou parcial; d) medidas que visem a impedir nascimentos no seio do grupo; e) transferncias foradas de crianas do grupo a um outro grupo.
	O novo Cdigo Penal francs d ao genocdio uma definio ainda mais ampla: O fato, a execuo de um plano concertado que tenda  destruio total ou parcial de um grupo nacional, tnico racial ou religioso, ou de um grupo determinado a partir de qualquer outro critrio arbitrrio (grifo nosso). Essa definio jurdica no contradiz a abordagem mais filosfica de Andr Frossard, para quem h crime contra a humanidade quando se mata algum sob o pretexto de que ele nasceu. Em seu curto e magnfico relato intitulado Toutpasse, Vassili Grossman diz a respeito de Ivan Grigorievitch, seu heri oriundo do campo: Ele permaneceu o que ele era em seu nascimento, um homem.  precisamente esse o motivo de ele sucumbir ao golpe do terror. A definio francesa permite sublinhar que o genocdio no  sempre do mesmo tipo - racial, como no caso dos judeus - e que tambm pode visar grupos sociais. Em um livro publicado em Berlim, em 1924 - intitulado La terreur rouge en Russie-, o historiador e socialista russo Serguei Melgunov cita Latzis, um dos primeiros chefes da Tcheka (a polcia poltica sovitica) que, em 19 de novembro de 1918, deu as seguintes diretivas a seus esbirros: Ns no fazemos uma guerra especfica contra as pessoas. Ns exterminamos a burguesia enquanto classe. No procurem, na investigao, documentos e provas do que o acusado fez, em atos ou palavras, contra a autoridade sovitica. A primeira questo que vocs devem colocar-lhe  a que classe ele pertence, qual  sua origem, sua educao, sua instruo, sua profisso.
	Desde o incio, Lenin e seus camaradas se situaram no contexto de uma guerra de classes sem perdo, na qual o adversrio poltico, ideolgico, ou mesmo a populao recalcitrante eram considerados - e tratados - como inimigos e deveriam ser exterminados. Os bolcheviques decidiram eliminar legalmente, mas tambm fisicamente, toda oposio ou toda resistncia - e mesmo a mais passiva - ao seu poder hegemnico, no somente quando esta era formada por grupos de adversrios polticos, mas tambm por grupos sociais propriamente ditos - tais como a nobreza, a burguesia, a intelligentsia, a Igreja, etc., e tambm as categorias profissionais (os oficiais, os policiais...) - conferindo, por vezes, uma dimenso de genocdio a esses atos. Desde 1920, a descossaquizao corresponde abertamente  definio de genocdio: o conjunto de uma populao com implantao territorial fortemente determinada, os cossacos, era exterminado, os homens fuzilados, as mulheres, as crianas e os idosos deportados, os povoados destrudos ou entregues a novos habitantes no cossacos. Lenin assimilava os cossacos  Vendia,freqncia durante a revoluo francesa, e desejava aplicar-lhes o tratamento que Gracchus Babeuf, o inventor do comunismo moderno, qualificava como populicdio.
	A deskulakizao de 1930-1932 no foi seno a retomada, em grande escala, da descossaquizao, com a novidade de a operao ser reivindicada por Stalin, para quem a palavra de ordem oficial, alardeada pela propaganda do regime, era exterminar os kulaks enquanto classe. Os kulaks que resistiam  coletivizao eram fuzilados, os outros eram deportados junto com suas mulheres, crianas e os idosos. De fato, eles no foram todos diretamente exterminados, mas o trabalho forado ao qual foram submetidos, nas zonas no desbravadas da Sibria ou do Grande Norte, deixou-lhes pouca chance de sobrevivncia. Vrias centenas de milhares deixaram ali suas vidas, mas o nmero exato de vtimas permanece desconhecido. Quanto  grande fome ucraniana de 1932-1933, relacionada  resistncia das populaes rurais  coletivizao forada, ela em poucos meses provocou a morte de seis milhes de pessoas.
	Aqui, o genocdio da classe junta-se ao genocdio da raa: matar de fome uma criana kulak ucraniana deliberadamente coagida  indigncia pelo regime stalinista vale o matar de fome uma criana judia do gueto de Varsvia coagida  indigncia pelo regime nazista. Essa constatao de modo algum repe em causa a singularidade de Auschwitz: a mobilizao dos mais modernos recursos tcnicos e a implantao de um verdadeiro processo industrial - a construo de uma usina de extermnio, o uso de gases, a cremao. Mas destaca uma particularidade de muitos regimes comunistas: a utilizao sistemtica da arma da fome; o regime tende a controlar a totalidade do estoque de comida disponvel e, por um sistema de racionamento por vezes bastante sofisticado, s o distribui em funo do mrito e do demrito de uns e de outros. Este procedimento pode mesmo provocar gigantescas situaes de indigncia. Lembremo-nos de que, no perodo posterior a 1918, somente os pases comunistas conheceram essa grande fome que levou  morte de centenas de milhares, ou quem sabe at de milhes de pessoas. Ainda nesta ltima dcada, dois pases da frica que se dizem marxistas-leninistas - Etipia e Moambique - sofreram dessas indigncias assassinas.
	Um primeiro balano global desses crimes pode ser esboado:
	- fuzilamento de dezenas de milhares de refns, ou de pessoas aprisionadas sem julgamento, e massacre de centenas de milhares de trabalhadores revoltados entre 1918 e 1922;
	- a fome de 1922, provocando a morte de cinco milhes de pessoas;
	- execuo e deportao dos cossacos da regio do Don em 1920;
	- assassinato de dezenas de milhares de pessoas em campos de concentrao entre 1919 e 1930;
	- execuo de cerca de 690.000 pessoas por ocasio do Grande Expurgo de 1937-1938;
	- deportao de dois milhes de kulaks (ou supostos kulaks) em 1930-1932;
	- destruio por fome provocada e no socorrida de seis milhes de ucranianos em 1932-1933;
	- deportao de centenas de milhares de poloneses, ucranianos, blticos, moldvios e bessarbios em 1939-1941, e posteriormente em 1944-1945;
	- deportao dos alemes do Volga em 1941;
	- deportao-abandono dos trtaros da Crimia em 1943;
	- deportao-abandono dos chechenos em 1944;
	- deportao-abandono dos inguches em 1944;
	- deportao-abandono das populaes urbanas do Camboja entre 1975 e 1978;
	- lenta destruio dos tibetanos pelos chineses, desde 1950, etc.
	No terminaramos nunca de enumerar os crimes do leninismo e do stalinismo, com freqncia reproduzidos de modo quase idntico pelos regimes de Mo Zedong, Kim II Sung, Pol Pot.
	Permanece uma difcil questo epistemolgica: o historiador est apto a usar, em sua caracterizao e em sua interpretao, fatos ou noes tais como crime contra a humanidade ou genocdio, relativos, como vimos acima, ao domnio jurdico? No seriam essas noes demasiado dependentes de imperativos conjunturais - a condenao do nazismo em Nuremberg - para serem integradas a uma reflexo histrica que vise estabelecer uma anlise pertinente a mdio prazo? Por outro lado, essas noes no esto demasiado carregadas de valores suscetveis de falsearem o objetivo da anlise histrica?
	Sobre o primeiro ponto, a histria deste sculo mostrou que a prtica do massacre de massa, feita por Estados ou por Partidos-Estados, no foi uma exclusividade nazista. Bsnia e Ruanda provam que essas prticas perduram e que elas constituiro, sem dvida, uma das caractersticas principais deste sculo.
	Sobre o segundo ponto, no se trata de modo algum de um retorno s concepes histricas do sculo XIX, segundo as quais o historiador procurava bem mais julgar do que compreender. Contudo, diante das imensas tragdias humanas diretamente provocadas por certas concepes ideolgicas e polticas, pode o historiador abandonar todo princpio de referncia a uma concepo humanista - ligada  nossa civilizao judaico-crist e  nossa cultura democrtica - como, por exemplo, o respeito pela pessoa humana? Numerosos e renomados historiadores, tais como Jean-Pierre Azema num artigo sobre Auschwitz? ou Pierre Vidal-Naquet com respeito ao processo de Touvier, no hesitam em utilizar a expresso crime contra a humanidade para qualificar os crimes nazistas. Parece-nos, ento, que no  ilegtimo utilizar essas noes para caracterizar alguns dos crimes cometidos pelos regimes comunistas.
	Alm da questo da responsabilidade direta dos comunistas no poder, coloca-se a questo da cumplicidade. O Cdigo Criminal canadense, modificado em 1987, considera, em seu artigo 7 (3.77), que as infraes de crime contra a humanidade incluem as infraes de tentativa, cumplicidade, conselho, ajuda e encorajamento ou de cumplicidade de fato? So tambm assimilados aos crimes contra a humanidade - artigo 7 (3.76) - a tentativa, o compl, a cumplicidade aps o fato, o conselho, a ajuda ou o encorajamento a respeito desse fato (grifo nosso). Ora, dos anos 20 aos anos 50, os comunistas do mundo inteiro e vrias outras pessoas aplaudiram com entusiasmo a poltica de Lenin e, em seguida, a de Stalin. Centenas de milhares de homens engajaram-se nas fileiras da Internacional Comunista e nas sees locais do partido mundial da revoluo. Nos anos 50-70, outras centenas de milhares de homens veneraram o Grande Timoneiro da revoluo chinesa e cantaram os grandes mritos do Grande Salto Adiante ou os da Revoluo Cultural. J em nosso meio, muita gente se felicitou quando Pol Pot tomou o poder. Alguns respondero que no sabiam.  verdade que nem sempre foi fcil saber, j que os regimes comunistas fizeram do segredo uma das estratgias de defesa privilegiadas. Mas, frequentemente, essa ignorncia era to-somente resultado de uma cegueira devida  crena militante. E, desde os anos 40 e 50, muitos fatos eram conhecidos e incontestveis. Ora, se vrios desses bajuladores abandonaram seus dolos de ontem, foi com silncio e discrio. Mas o que pensar do profundo amoralismo que h em abandonar um engajamento pblico no maior dos segredos, sem tirar dele qualquer lio?
	Em 1969, um dos pioneiros no estudo do terror comunista, Robert Conquest, escreveu: O fato de tantas pessoas 'engolirem' efetivamente [o Grande Expurgo] foi, sem dvida, um dos fatores que tornaram possvel qualquer Expurgo. Os processos, principalmente, teriam tido muito pouco interesse se no tivessem sido validados por certos comentadores estrangeiros - ou seja, 'independentes'. Estes ltimos devem, pelo menos em parte, arcar com a responsabilidade de uma certa cumplicidade para com essas mortes polticas, ou, em todo caso, para com o fato de que elas vieram a se repetir quando a primeira operao, o processo Zinoviev [de 1936], foi beneficiada com um crdito injustificado. Se atribumos, atravs desse parmetro, uma cumplicidade moral e intelectual a um certo nmero de no-comunistas, o que dizer da cumplicidade dos comunistas? E no nos lembramos de ver Louis Aragon arrepender-se publicamente por ter, num poema de 1931, evocado a vontade da criao de uma polcia poltica comunista na Frana,12 mesmo que, algumas vezes, ele tenha criticado o perodo stalinista.
	Joseph Berger, antigo membro do Komintern, ele prprio expurgado e conhecedor dos campos, cita a carta recebida de uma antiga deportada do Gulag, mas que permaneceu membro do Partido aps ter retornado dos campos de concentrao: Os comunistas de minha gerao aceitaram a autoridade de Stalin. Eles aprovaram seus crimes. Isso vale no somente para os comunistas soviticos, mas tambm para aqueles do mundo inteiro, e essa ndoa nos marca individual e coletivamente. S podemos apag-la fazendo com que isso nunca mais se reproduza. O que aconteceu? Havamos perdido a razo ou somos traidores do comunismo? A verdade  que todos ns, inclusive os que estavam mais prximos a Stalin, fizemos dos crimes o contrrio do que eles realmente eram. Ns os consideramos como uma importante contribuio para a vitria do socialismo. Acreditamos que tudo o que fortalecia a potncia poltica do Partido Comunista na Unio Sovitica e no mundo era uma vitria para o socialismo. No imaginvamos jamais que pudesse haver um conflito no interior do partido entre a poltica e a tica.
	Por sua vez, Berger desenvolve essa afirmao: Estimo que se podemos condenar a atitude daqueles que aceitaram a poltica de Stalin, o que no foi o caso de todos os comunistas,  bem mais difcil censur-los por no terem tornado esses crimes impossveis. Acreditar que homens, mesmo aqueles com postos mais elevados, podiam opor-se a seus desejos  no compreender nada do que foi o seu despotismo bizantino. Berger tem a desculpa de ter estado na URSS e, portanto, de ter sido tragado pela mquina infernal, sem poder escapar dela. Mas e os comunistas da Europa Ocidental que no sofriam nenhum constrangimento direto do NKVD, que cegueira fez com que continuassem fazendo a apologia do sistema e de seu chefe? Seria preciso que a poo mgica que os mantinha em submisso fosse potente! Em sua notvel obra sobre a Revoluo Russa - La Tragdie Sovitique - , Martin Malia traz um pouco de luz ao assunto falando desse paradoxo: um grande ideal que levou a um grande crime. Annie Kriegel, uma outra grande analista do comunismo, insistia nessa articulao quase necessria das duas faces do comunismo: uma luminosa e outra escura. 
	A esse paradoxo, Tzvetan Todorov traz uma primeira resposta: O habitante de uma democracia ocidental queria pensar no totalitarismo como algo completamente estranho s aspiraes humanas normais. Ora, o totalitarismo no teria se mantido por tanto tempo, no teria arrastado tantos indivduos em sua senda, se ele fosse assim. Ele , ao contrrio, uma mquina de tremenda eficcia. A ideologia comunista prope a imagem de uma sociedade melhor e nos incita a desej-la: no faz parte da identidade humana o desejo de transformar o mundo em nome de um ideal? [...] Alm do mais, a sociedade comunista priva o indivduo de suas responsabilidades: so sempre eles quem decidem. Ora, a responsabilidade  frequentemente um fardo pesado a ser carregado. [...] A atrao pelo sistema totalitrio, experimentada inconscientemente por numerosos indivduos, provm de um certo medo da liberdade e da responsabilidade - o que explica a popularidade de todos os regimes autoritrios ( a tese de Erich Fromm em O medo da liberdade); o que existe  uma 'servido voluntria', j dizia La Botie.
	A cumplicidade daqueles que enveredaram na servido voluntria no foi - e continua no sendo - abstrata e terica. O simples fato de aceitar e/ou assumir uma propaganda destinada a esconder a verdade demonstrava e continua demonstrando uma cumplicidade ativa. Pois tornar pblico  o nico meio - ainda que no seja sempre eficaz, como acaba de mostrar a tragdia de Ruanda - de lutar contra os crimes de massa cometidos em segredo, protegidos dos olhares indiscretos.
	A anlise dessa realidade central do fenmeno comunista no poder - ditadura e terror - no  simples. Jean Ellenstein definiu o fenmeno stalinis-ta como uma mistura de tirania grega e despotismo oriental. A frmula  sedutora, mas no d conta do carter moderno dessa experincia, de seu alcance totalitrio, distinto das formas anteriormente conhecidas de ditadura. Um rpido sobrevoo comparativo permitir uma melhor compreenso.
	Poder-se-ia inicialmente evocar a tradio russa da opresso. Os bolcheviques combatiam o regime terrorista do Czar, que, entretanto, empalidece diante dos horrores do bolchevismo no poder. O Czar denunciava os prisioneiros polticos diante de uma verdadeira justia; a defesa podia exprimir-se tanto quanto ou ainda mais do que a acusao e tomar o testemunho de uma opinio pblica nacional inexistente no regime comunista e, sobretudo, de uma opinio pblica internacional. Os prisioneiros e os condenados se beneficiavam de uma regulamentao nas prises, e o regime de desterro, ou mesmo o de deportao, era relativamente leve. Os deportados podiam partir com suas famlias, ler e escrever o que quisessem: caar, pescar e se encontrarem, nos momentos de lazer, com seus companheiros de infortnio. Lenin e Stalin puderam experimentar essa situao pessoalmente. Mesmo as Recordaes da casa dos mortos, de Dostoievski, que tanto chocaram a opinio pblica na poca de sua publicao, parecem andinas em face dos horrores do comunismo. Seguramente, houve, na Rssia dos anos 1880 a 1914, tumultos populares e insurreies duramente reprimidos por um sistema poltico arcaico. Porm, de 1825 a 1917, o nmero total de pessoas condenadas  morte nesse pas, por sua opinio ou sua ao poltica, foi de 6.360, dos quais 3.932 foram executados - 191 de 1825 a 1905, e 3.741 de 1906 a 1910 - quantidade que j havia sido ultrapassada pelos bolcheviques em maro de 1919, aps somente quatro meses de exerccio de poder. O balano da represso czarista , assim, sem paralelo com o do terror comunista.
	Entre os anos 20 e 40, o comunismo censurou violentamente o terror praticado pelos regimes fascistas. Um rpido exame dos nmeros mostra que as coisas no so assim to simples. O fascismo italiano, o primeiro em ao e tambm quem abertamente reivindicou para si o ttulo de totalitrio, aprisionou e com freqncia maltratou seus adversrios polticos. Entretanto, ele raramente chegou a cometer assassinatos, de modo que, na metade dos anos 30, a Itlia tinha algumas centenas de prisioneiros polticos e vrias centenas de confinati - postos em residncia vigiada nas ilhas -, mas,  verdade, tinha tambm dezenas de milhares de exilados polticos.
	At a guerra, o terror nazista visou alguns grupos; os oponentes ao regime - principalmente comunistas, socialistas, anarquistas, alguns sindicalistas - foram reprimidos de maneira aberta, encarcerados em prises e sobretudo internados em campos de concentrao, submetidos a humilhaes severas. No total, de 1933 a 1939, aproximadamente 20.000 militantes de esquerda foram assassinados com ou sem julgamento nos campos e prises; sem falar dos acertos de contas internos ao nazismo, como a noite dos punhais em junho de 1934. Outra categoria de vtimas destinadas  morte foram os alemes que supostamente no correspondiam aos critrios raciais do grande ariano loiro - doentes mentais, deficientes fsicos, idosos. Hider decidiu executar seus intentos por ocasio da guerra: 70.000 alemes foram vtimas de um programa de eutansia com asfixia por gs, entre o fim de 1939 e o incio de 1941, at que as Igrejas protestassem e que o programa fosse encerrado. Os mtodos de asfixia por gs aperfeioados na ocasio so os que foram aplicados no terceiro grupo de vtimas, os judeus.
	At a guerra, as medidas de excluso contra eles eram generalizadas, mas sua perseguio teve seu apogeu na ocasio da Noite de Cristal - vrias centenas de mortos e 35.000 internamentos em campos de concentrao. Foi somente com a guerra, e sobretudo com o ataque  URSS, que se desencadeou o terror nazista, cujo balano sumrio  o seguinte: 15 milhes de civis mortos nos pases ocupados; 5,1 milhes de judeus; 3,3 milhes de prisioneiros de guerra soviticos; 1,1 milho de deportados mortos nos campos; vrias centenas de milhares de ciganos.  essas vtimas se juntaram 8 milhes de pessoas destinadas a trabalhos forados e 1,6 milho de detentos sobreviventes em campos de concentrao.
	O terror nazista chocou as imaginaes por trs razes. Inicialmente, por ter atingido diretamente os europeus. Por outro lado, uma vez vencidos os nazistas, e com seus principais dirigentes julgados em Nuremberg, seus crimes foram oficialmente designados e condenados como tais. Enfim, a revelao do genocdio dos judeus foi um choque por seu carter de aparncia irracional, sua dimenso racista, o radicalismo do crime.
	Nosso propsito aqui no  o de estabelecer uma macabra aritmtica comparativa qualquer, uma contabilidade duplicada do horror, uma hierarquia da crueldade. Entretanto, os fatos so tenazes e mostram que os regimes comunistas cometeram crimes concernentes a aproximadamente 100 milhes de pessoas, contra 25 milhes de pessoas atingidas pelo nazismo. Essa simples constatao deve, pelo menos, provocar uma reflexo comparativa sobre a semelhana entre o regime que foi considerado, a partir de 1945, como o regime mais criminoso do sculo, e um sistema comunista que conservou, at 1991, toda a sua legitimidade internacional e que, at hoje, est no poder em alguns pases, mantendo adeptos no mundo inteiro. Mesmo que muitos dos partidos comunistas tenham reconhecido tardiamente os crimes do stalinis-mo, eles no abandonaram, em sua maioria, os princpios de Lenin e nunca se interrogam sobre suas prprias implicaes no fenmeno terrorista.
	Os mtodos postos em prtica por Lenin e sistematizados por Stalin e seus mulos, no somente lembram os mtodos nazistas como tambm, e com freqncia, lhes so anteriores. A esse respeito, Rudolf Hoess, encarregado de criar o campo de Auschwitz, e tambm seu futuro comandante, sustentou afirmaes bastante indicativas: A direo da Segurana fizera chegar aos comandantes dos campos uma detalhada documentao sobre os campos de concentrao russos. Baseando-se nos testemunhos dos fugitivos, estavam expostas em todos os detalhes as condies reinantes no local. Destacava-se particularmente que os russos exterminavam populaes inteiras utilizando-as em trabalhos forados. Porm, se  fato que a intensidade e as tcnicas da violncia de massa foram inauguradas pelos comunistas e que os nazistas tenham se inspirado nelas, isto no implica, a nosso ver, que se possa estabelecer uma relao direta de causa e efeito entre a tomada do poder pelos bolcheviques e a emergncia do nazismo.
	Desde o fim dos anos 20, a GPU (novo nome da Tcheka) inaugurou o mtodo das quotas: cada regio e cada distrito deviam deter, deportar ou fuzilar uma determinada percentagem de pessoas pertencentes s camadas sociais inimigas. Essas percentagens eram definidas centralmente pela direo do Partido. A loucura planificadora e a mania estatstica no diziam respeito somente  economia; elas tambm se aplicavam ao domnio do terror. Desde 1920, com a vitria do Exrcito Vermelho sobre o Exrcito Branco, na Crimia, surgiram mtodos estatsticos, e mesmo sociolgicos: as vtimas so seleciona-das segundo critrios precisos, estabelecidos com a ajuda de questionrios aos quais ningum poderia deixar de responder. Os mesmos mtodos sociolgicos'' sero postos em prtica pelos soviticos para organizar as deportaes e execues em massa nos Estados Blticos e na Polnia ocupada de 1939-1941. O transporte dos deportados em vages de animais acarretou as mesmas aberraes que as cometidas pelo nazismo: em 1943-1944, em plena batalha, Stalin fel com que milhares de vages e centenas de milhares de homens das tropas especiais do NKVD deixassem o fronte para assegurar em um curtssimo espao de tempo a deportao das populaes do Cucaso. Essa lgica do genocdio -	que consiste, retomando o Cdigo Penal francs, na destruio total ou par
	cial de um grupo nacional, tnico, racial ou religioso, ou de um determinado grupo, a partir de qualquer outro critrio arbitrrio - aplicada pelo poder comunista a grupos designados como inimigos, a fraes de sua prpria socie
	dade, foi conduzida ao seu paroxismo por Pol Pot e seus khmers vermelhos.
	Fazer a aproximao entre o nazismo e o comunismo, no que diz respeito a seus respectivos extermnios, pode chocar. Entretanto,  Vassili Grossman - cuja me foi morta pelos nazistas no gueto de Berditchev, escritor do primeiro texto sobre Treblinka e tambm um dos mestres do Livre noir sobre o extermnio dos judeus na URSS - que, em seu relato Tout passe, faz um de seus personagens dizer a respeito da fome na Ucrnia: Os escritores e o prprio Stalin diziam todos a mesma coisa: os kulaks so parasitas, eles queimam o trigo, matam as crianas. E nos disseram sem rodeios:  preciso que as massas se revoltem contra eles, para aniquil-los todos, enquanto classe, esses mal ditos. E acrescenta: Para mat-los, seria preciso declarar: os kulaks no so seres humanos. Do mesmo modo que os alemes diziam: os judeus no so seres humanos. Foi o que Lenin e Stalin disseram: os kulaks no so seres humanos. E Grossman conclui, a respeito das crianas kulaks:  como os alemes que assassinaram as crianas judias nas cmaras de gs: vocs no tm direito de viver, vocs so judeus.
	 cada vez, no so tanto os indivduos que so atingidos, mas os grupos. O terror tem como objetivo exterminar um grupo designado como inimigo, que, na verdade, constitui-se somente como uma frao da sociedade, mas que  atingido enquanto tal por uma lgica do genocdio. Assim, os mecanismos de segregao e de excluso do totalitarismo da classe se parecem singularmente queles do totalitarismo da raa.  sociedade nazista futura devia ser construda em torno da raa pura; a sociedade comunista futura, em torno de um povo proletrio, purificado de toda escria burguesa. O remodelamento dessas duas sociedades foi planejado do mesmo modo, apesar de os critrios de excluso no serem os mesmos. Portanto,  falso pretender que o comunismo seja um universalismo: se o projeto tem uma vocao mundial, uma parte da humanidade  declarada indigna de existir neste mundo, como no caso do nazismo; a diferena  que um recorte por estratos (classes) substitui o recorte racial e territorial dos nazistas. Logo, os empreendimentos leninista, stalinista, maosta e a experincia cambojana pem  humanidade - assim como aos juristas e historiadores - uma nova questo: como qualificar o crime que consiste em exterminar, por razes poltico-ideolgicas, no mais indivduos ou grupos limitados de oponentes, mas partes inteiras da sociedade?  preciso inventar uma nova denominao? Alguns autores anglo-saxes pensam dessa forma, criando o termo politicdio. Ou  preciso chegar, como o fazem os juristas tchecos, a qualificar os crimes cometidos pelos regimes comunistas como crimes comunistas?
	O que se sabia dos crimes do comunismo? O que se queria saber? Por que foi preciso esperar o fim do sculo para que esse tema obtivesse o status de objeto de cincia? Pois  evidente que o estudo do terror stalinista e comunista em geral, comparado ao estudo dos crimes nazistas, tem um enorme atraso a recuperar, mesmo que, no Leste, os estudos se multipliquem.
	Um grande contraste no pode deixar de nos causar surpresa: foi com legitimidade que os vencedores em 1945 situaram o crime - e em particular o genocdio dos judeus - no centro de sua condenao ao nazismo. Numerosos pesquisadores em todo o mundo trabalham h dcadas sobre essa questo. Milhares de livros lhe foram consagrados, dezenas de filmes, dos quais alguns muito famosos nos mais diferentes gneros - Noite e Neblina ou Shoah, A Escolha de Sofia ou A Lista de Schindler. Raul Hilberg, para citarmos apenas um autor, fez da descrio detalhada das modalidades da matana aos judeus no III Reich o centro de sua obra mais importante.
	Ora, no existe um trabalho como esse sobre a questo dos crimes comunistas. Enquanto que nomes como os de Himmler ou o de Eichman so conhecidos em todo o mundo como smbolos da barbrie contempornea, os de Dzerjinski, lagoda ou de lejov so ignorados da maioria. Quanto a Lenin, Mo, Ho Chi Minh e o prprio Stalin, eles sempre foram tratados com uma surpreendente reverncia. Um rgo do Estado francs, a Loto, chegou a ter a inconscincia de associar Stalin e Mo a uma de suas campanhas publicitrias! Quem teria a idia de utilizar Hitler ou Goebbels numa operao semelhante?
	A ateno excepcional concedida aos crimes hitleristas  perfeitamente justificada. Ela responde  vontade dos sobreviventes de testemunhar, dos pesquisadores de compreender e das autoridades morais e polticas de confirmar os valores democrticos. Mas por que os testemunhos dos crimes comunistas tm uma repercusso to fraca na opinio pblica? Por que o silncio constrangido dos polticos? E, sobretudo, por que um silncio acadmico sobre a catstrofe comunista que atingiu, h aproximadamente 80 anos, um tero da espcie humana, sobre quatro continentes? Por que essa incapacidade de situar no centro da anlise do comunismo um fator to essencial quanto o crime, o crime de massa, o crime sistemtico, o crime contra a humanidade? Estamos diante de uma impossibilidade de compreenso? No se trata, antes, de uma recusa deliberada de saber, de um medo de compreender?
	As razes dessa ocultao so mltiplas e complexas. Inicialmente, estava em jogo a vontade clssica e constante dos carrascos de apagar as marcas de seus crimes e de justificar o que eles no podiam esconder. O relatrio secreto de Kruschev (1956), que se constituiu como o primeiro reconhecimento dos crimes comunistas pelos prprios dirigentes comunistas,  tambm o relato de um carrasco que vai procurar mascarar e encobrir seus prprios crimes - como chefe do Partido Comunista ucraniano no auge do terror - atribuindo-os somente a Stalin e valendo-se do fato de que obedecia a ordens; ocultar a maior parte do crime - ele fala somente das vtimas comunistas, bem menos numerosas do que todas as outras; atenuar o significado desses crimes - ele os qualifica como abusos cometidos pelo regime stalinista; e, enfim, justificar a continuidade do sistema com os mesmos princpios, as mesmas estruturas e os mesmos homens.
	Kruschev nos d um testemunho franco, relacionando as oposies com as quais ele se chocou ao preparar o relatrio secreto, particularmente no que diz respeito ao homem de confiana de Stalin: Kaganovitch era de tal modo um adulador, que ele teria cortado a garganta de seu pai se Stalin assim o ordenasse com uma piscada de olhos, dizendo-lhe que era no interesse da Causa: a causa stalinista,  claro, f...] Ele argumentava contra mim por causa do medo egosta de perder o pescoo. Ele obedecia ao desejo impaciente de fugir a toda responsabilidade. Se havia crimes, Kaganovitch queria somente uma coisa: estar certo de que suas marcas foram apagadas. O fechamento absoluto dos arquivos dos pases comunistas, o controle total da imprensa, da mdia e de todas as sadas para o exterior, a propaganda do sucesso do regime, toda essa mquina de ocultar informaes visava, em primeiro lugar, impedir que viesse  luz a verdade sobre os crimes.
	No contentes em esconder seus delitos, os carrascos combateram por todos os meios aqueles que tentavam relat-los. Pois alguns observadores e analistas tentaram esclarecer seus contemporneos. Aps a Segunda Guerra Mundial, isso foi particularmente claro em duas ocasies na Frana. De janeiro a abril de 1949 teve lugar em Paris o processo que ops Victor Kravchenko - um ex-alto funcionrio sovitico que havia escrito Jai choisi Ia liberte, livro no qual era descrita a ditadura stalinista - ao jornal comunista dirigido por Louis Aragon, Ls Lettres Franaises, que cobria Kravchenko de injrias. Teve lugar tambm em Paris, de novembro de 1950 a janeiro de 1951, um outro processo entre Ls Lettres Franaises (mais uma vez) e David Rousset, um intelectual, ex-trotskista, deportado da Alemanha pelos nazistas e que, em 1946, havia recebido o prmio Renaudot por seu livro LUniven concentrationnaire; Rousset convocara, em 12 de novembro de 1949, todos os antigos deportados dos campos nazistas para formar uma comisso de investigao sobre os campos soviticos, sendo ento violentamente atacado pela imprensa comunista, que negava a existncia desses campos. Em seguida  convocao feita por Rousset, em 25 de fevereiro de 1950, num artigo do Figaro littraire intitulado Pour lenqute sur les camps sovitiques. Qui est pire, Satan ou Belzbuth? Margaret Buber-Neumann expunha sua dupla experincia de deportada dos campos nazistas e soviticos.
	Contra todos esses esclarecedores da conscincia humana, os carrascos desenvolveram, num combate sistemtico, todo o arsenal dos grandes Estados modernos, capazes de intervir no mundo inteiro. Eles procuraram desqualific-los, desacredit-los, intimid-los. A. Soljenitsyne, V. Bukovsky, A. Zinoviev L. Plichki foram expulsos de seu pas, Andr Sakharov foi exilado em Gorki, o general Piotr Grigorenko, abandonado num hospital psiquitrico, Markov, assassinado com um guarda-chuva envenenado.
	Diante de tal poder de intimidao e de ocultao, as prprias vtimas hesitavam em se manifestar, tornando-se incapazes de reintegrar a sociedade onde desfilavam seus delatores e carrascos. Vassili Grossman20 narra essa desesperana. Ao contrrio da tragdia dos judeus - em relao  qual a comunidade judia internacional encarregou-se da celebrao dos mortos do genocdio - durante muito tempo foi impossvel s vtimas do comunismo e aos seus interessados manter uma memria viva da tragdia, estando proibido qualquer tipo de celebrao ou demanda de reparao. 
	Quando no conseguiam manter a verdade escondida - a prtica dos fuzilamentos, os campos de concentrao, a fome imposta -, os carrascos tramavam a justificao dos fatos maquiando-os grosseiramente. Depois de terem reivindicado o terror, eles o erigiram como figura alegrica da revoluo: quando se corta a floresta, as farpas voam, no se pode fazer uma omelete sem se quebrarem os ovos. A isto Vladimir Bukovski replicava ter visto os ovos quebrados, mas no ter nunca provado omeletes. Mas, sem dvida, foi com a perverso da linguagem que se chegou ao pior. Atravs da magia vocabular, o sistema dos campos de concentrao tornou-se obra de reeducao, e os carrascos, educadores aplicados em transformar os homens de uma sociedade antiga em homens novos. Pedia-se, atravs da fora, aos zeks - termo que designa os prisioneiros dos campos de concentrao soviticos - para que acreditassem num sistema que os subjugava. Na China, o interno na concentrao  denominado estudante: ele deve estudar o pensamento justo do partido e reformar o seu prprio pensamento imperfeito.
	Como acontece com freqncia, a mentira no , strcto sensu, o inverso da verdade, e toda mentira se apoia sobre elementos verdadeiros. As palavras pervertidas aparecem como uma viso deslocada que deforma a perspectiva de conjunto: somos confrontados a um astigmatismo social e poltico. Ora,  fcil corrigir a percepo deformada pela propaganda comunista, mas  muito difcil reconduzir aquele que percebeu erroneamente a uma concepo intelectual pertinente. A impresso primeira permanece e torna-se preconceito. Como fazem os praticantes do judo - e graas a sua incomparvel potncia propagandista, amplamente baseada na perverso da linguagem -, os comunistas utilizaram toda a fora das crticas feitas aos seus mtodos terroristas para retorn-las contra essas prprias crticas, reunindo, a cada vez, as fileiras de seus militantes e simpatizantes na renovao do ato de f comunista. Assim, eles reencontraram o princpio primeiro da crena ideolgica, formulada por Tertuliano, em sua poca: Creio porque  absurdo.
	No contexto dessas operaes de contrapropaganda, os intelectuais, literalmente, se prostituram. Em 1928, Gorki aceitou ir em excurso s ilhas Solovki, um campo de concentrao experimental que, atravs de suas metstases (Soljenitsyne), dar origem ao sistema do Gulag. Ele trouxe de l um livro exaltando Solovki e o governo sovitico. Henri Barbusse, escritor francs ganhador do Goncourtfreqncia de 1916, no hesitou, em troca de uma recompensa financeira, em exaltar o regime stalinista, publicando, em 1928, um livro sobre a maravilhosa Gergia - onde, precisamente em 1921, Stalin e seu aclito Ordjonikidze se entregaram a uma verdadeira carnificina, e onde Beria, chefe do NKVD, se fazia notar por seu maquiavelismo e seu sadismo - e, em 1935, a primeira biografia oficiosa de Stalin. Mais recentemente, Ma-ria-Antonietta Macciochi fez a apologia de Mo, Alain Peyrefitte lhe fez coro, enquanto Danielle Mitterrand passeava ao lado de Castro. Cupidez, apatia, vaidade, fascinao pela fora e pela violncia, paixo revolucionria: qualquer que seja a motivao, as ditaduras totalitrias sempre encontraram os bajuladores dos quais necessitavam, tanto a ditadura comunista quanto as outras.
	Diante da propaganda comunista, o Ocidente mostrou-se durante muito tempo de uma cegueira excepcional, mantida tanto pela inocncia em face de um sistema astuto, quanto pelo medo da potncia sovitica, sem falar do cinismo dos polticos e dos interesseiros. Cegueira presente em Yalta, quando o presidente Roosevelt deixou o Leste Europeu entregue a Stalin, contra a promessa, redigida de forma clara e limpa, de que ele organizaria eleies livres na regio o mais rapidamente possvel. O realismo e a resignao estavam presentes em Moscou quando, em dezembro de 1944, o General de Gaulle trocou o abandono da infeliz Polnia ao Moloch pela garantia da paz social e poltica, assegurada pela volta de Maurice Thorez a Paris.
	Cegueira que foi fortalecida, quase que legitimada, por uma crena - entre os comunistas ocidentais e muitos homens de esquerda - segundo a qual esses pases estavam construindo o socialismo, e que a utopia que nas democracias alimentava os conflitos sociais e polticos tornava-se para eles uma realidade cujo prestgio Simone Weil destacou: Os trabalhadores revolucionrios so felizes por terem um Estado por detrs deles - um Estado que d s suas aes esse carter oficial, uma legitimidade, uma realidade que somente ele, o Estado, pode conferir, e que, ao mesmo tempo, est situado longe deles o suficiente para no causar-lhes desgosto. O comunismo apresentava, ento, sua face clara: ele se declarava Iluminado, inserido numa tradio de emancipao social e humana, de sonho da igualdade real e da felicidade para todos inaugurada por Gracchus Babeuf.  essa face luminosa que ocultava quase que totalmente a face das trevas.
	 ignorncia - desejada ou no - da dimenso criminosa do comunismo juntou-se, como sempre, a indiferena de nossos contemporneos para com seus irmos humanos. No que o homem tenha o corao de pedra. Pelo contrrio, em inmeras situaes-limite, ele mostra insuspeitadas fontes de solidariedade, de amizade, de afeio e mesmo de amor. Entretanto, como destaca Tzvetan Todorov, a memria de nossos lutos nos impede de percebermos o sofrimento dos outros. E, terminada a Primeira e, em seguida, a Segunda Guerra Mundial, que povo europeu ou asitico no estava ocupado em curar as chagas de inmeros lutos? As dificuldades encontradas na prpria Franca no afrontamento dos anos sombrios so suficientemente eloquentes. A histria - ou melhor, a no-histria - da Ocupao continua a envenenar a conscincia francesa. Acontece o mesmo, talvez com menos intensidade, com a histria dos perodos nazi na Alemanha, fascista na Itlia, franquista na Espanha, da guerra civil na Grcia, etc. Neste sculo de ferro e sangue, cada um esteve demasiadamente ocupado com suas prprias mazelas para poder compadecer-se das dos outros.
	A ocultao da dimenso criminosa do comunismo remete, porm, a trs razes especficas. A primeira refere-se ao apego  prpria idia da revoluo. Ainda hoje, o luto dessa ideia, tal como ela foi preconizada nos sculos XIX e XX, est longe de terminar. Seus smbolos - bandeira vermelha, a Internacional, punho erguido - ressurgem por ocasio de todo movimento social importante. Che Guevara retorna  moda. Grupos declaradamente revolucionrios permanecem ativos e se manifestam com toda legalidade, tratando com desprezo a menor reflexo crtica sobre os crimes dos seus predecessores e no hesitando em reiterar os velhos discursos justificativos de Lenin, de Trotski ou de Mo. Paixo revolucionria que no acometeu somente aos outros. Muitos dos prprios autores deste livro acreditaram durante algum tempo na propaganda comunista.
	A segunda razo refere-se  participao dos soviticos na vitria sobre o nazismo, o que permitiu aos comunistas mascarar sob um patriotismo intenso seus fins ltimos, que visavam  tomada do poder. A partir de junho de 1941, os comunistas do conjunto dos pases ocupados entraram numa resistncia ativa - e com freqncia armada -  ocupao nazista ou italiana. Do mesmo modo que os demais resistentes aos regimes de sujeio, eles tiveram de pagar o imposto da represso, com milhares de fuzilados, massacrados, deportados. Eles se serviram desses mrtires para sacralizar a causa do comunismo e proibir toda crtica a seu respeito. Alm disso, no curso dos combates da Resistncia, muitos dos no-comunistas estabeleceram laos de solidariedade, de combate, de sangue com comunistas, o que impediu que muitos olhos se abrissem; na Frana, a atitude dos gaullistas foi com freqncia comandada por essa memria comum e encorajada pela poltica do general de Gaulle que utilizava o contrapeso sovitico diante dos americanos.
	A participao dos comunistas na guerra e na vitria sobre o nazismo fez triunfar definitivamente a noo de antifascismo como critrio de verdade da esquerda, e, certamente, os comunistas se colocaram como os melhores representantes e os melhores defensores desse antifascismo. O antifascismo tornou-se um rtulo definitivo para o comunismo, sendo fcil, em nome do antifascismo, silenciar os recalcitrantes. Franois Furet escreveu pginas esclarecedoras sobre esse assunto crucial. Com o nazismo vencido, designado pelos Aliados como o Mal Absoluto, o comunismo saltou quase que mecanicamente para o campo do Bem. O que ocorreu, evidentemente, na ocasio do processo de Nuremberg, quando os soviticos estiveram sentados no banco da acusao. Assim, episdios embaraosos para os valores democrticos foram escamoteados, tais como os pactos germano-soviticos de 1939 ou o massacre de Katyn. A vitria sobre o nazismo deveria supostamente fornecer a prova da superioridade do sistema comunista. Na Europa libertada pelos anglo-americanos, ela teve, sobretudo, o efeito de suscitar um duplo sentimento de gratido para com o Exrcito Vermelho (do qual no se teve que suportar a ocupao) e de culpa em face dos sacrifcios suportados pela populao da URSS, sentimentos que a propaganda comunista no hesitou em manipular a fundo.
	Paralelamente, as modalidades de libertao feitas pelo Exrcito Vermelho no Leste Europeu permanecem amplamente desconhecidas no Ocidente, onde os historiadores assimilaram dois tipos de libertao bastante diferentes: o primeiro deles conduzia  restaurao das democracias, o outro abria caminho  instaurao das ditaduras. Na Europa Central e no Leste Europeu, o sistema sovitico postulava  sucesso do Reich de mil anos, e Witold Gombrowicz exprimiu em poucas palavras o drama desses povos: O fim da guerra no trouxe libertao aos poloneses. Nesta triste Europa Central, significou somente a troca de uma noite por outra, dos carrascos de Hitler pelos de Stalin. No momento exato em que, nos cafs parisienses, as nobres almas saudavam com um canto radiante a 'emancipao do povo polons do jugo feudal', na Polnia, o mesmo cigarro aceso simplesmente mudava de mo e continuava a queimar a carne humana. Aqui reside a falha entre duas memrias europias. Entretanto, certas obras revelaram rapidamente a maneira pela qual a URSS libertou do nazismo poloneses, alemes, tchecos e eslovacos.
	A ltima razo dessa ocultao  a mais sutil, e tambm a mais delicada a exprimir. Aps 1945, o genocdio dos judeus apareceu como o paradigma da barbrie moderna, chegando mesmo a ocupar todo o espao reservado  percepo do terror de massa no sculo XX. Aps negarem, durante algum tempo, a especificidade da perseguio dos nazistas aos judeus, os comunistas compreenderam toda a vantagem que eles podiam tirar de um tal reconhecimento, reutilizando regularmente o antifascismo. O espectro do animal imundo cujo ventre  ainda fecundo - segundo a frmula famosa de Bertolt Brecht - foi agitado com freqncia, com ou sem motivo justificado. Mais recentemente, o fato de ter sido posta em evidncia a singularidade no genocdio dos judeus, focalizando a ateno sobre sua atrocidade excepcional, tambm impediu que se percebessem outras realidades da mesma natureza no mundo comunista. Como imaginar que eles prprios, que tinham contribudo com sua vitria na destruio de um sistema de genocdio, pudessem tambm praticar os mesmos mtodos? A reao mais corrente foi a recusa em admitir tal paradoxo.
	A primeira grande virada no reconhecimento oficial dos crimes comunistas situa-se em 24 de fevereiro de 1956. Nessa noite, Nikita Kruschev, primeiro-secretrio, vem  tribuna do XX Congresso do Partido Comunista da Unio Sovitica, o PCUS. A sesso  a portas fechadas; somente os delegados do congresso esto presentes. Em silncio absoluto, aterrorizados, eles escutam o primeiro-secretrio do Partido destruir metodicamente a imagem do pequeno pai dos povos, do Stalin genial que foi, durante 30 anos, o heri do comunismo mundial. Esse relato, conhecido como o relatrio secreto, constitui uma das inflexes fundamentais do comunismo contemporneo. Pela primeira vez, um dirigente comunista do mais alto escalo reconheceu oficialmente, ainda que assistido somente pelos comunistas, que o regime que tomara o poder em 1917 cometera uma deriva criminosa.
	As razes que levaram o Senhor K a quebrar um dos maiores tabus do regime sovitico eram mltiplas. Seu principal objetivo era o de imputar os crimes do comunismo somente a Stalin, circunscrevendo e extraindo o mal para poder salvar o regime. Tambm fazia parte de sua deciso a vontade de atacar o cl dos stalinistas que se opunham a seu poder em nome dos mtodos de seu antigo chefe. Alis, aps o vero de 1957, esses homens foram demitidos de todas as suas funes. Contudo, pela primeira vez desde 1934, a morte poltica destes ltimos no foi acompanhada da morte real, podendo-se inferir, atravs desse simples detalhe, que as razes de Kruschev eram mais profundas. Ele, que tinha sido durante anos o grande chefe da Ucrnia e, por isso mesmo, havia conduzido e acobertado gigantescas chacinas, parecia cansado de todo esse sangue. Em suas memrias, onde, sem dvida, tem o papel de mocinho, Kruschev relembra o que lhe passava pelo esprito: O Congresso vai terminar; resolues sero tomadas, todas para cumprir com as formalidades. Mas para qu? Aqueles que foram fuzilados s centenas de milhares permanecero em nossas conscincias.
	Ao mesmo tempo, ele censura duramente seus camaradas:
	O que faremos com os que foram detidos, assassinados? [...] Sabemos agora que as vtimas das represses eram inocentes. Temos a prova irrefutvel de que, longe de serem inimigos do povo, eram homens e mulheres honestos, devotados ao Partido,  Revoluo,  causa leninista da edificao do socialismo e do comunismo. [...]  impossvel tudo esconder. Cedo ou tarde, os que esto na priso, nos campos, sairo e retornaro a suas casas. Eles relataro ento aos seus parentes, seus amigos, seus camaradas o que lhes aconteceu. [...]  por isso que somos obrigados a confessar aos delegados tudo a respeito do modo como o Partido foi dirigido naqueles anos. [...] Como pretender nada saber do que acontecia? [...] Sabemos que reinava a represso e a arbitrariedade no Partido, e devemos dizer ao Congresso o que sabemos. [...] Na vida de todos os que cometeram um crime, vem o momento em que a confisso assegura a indulgncia, e mesmo a absolvio.
	Em alguns dos homens que haviam participado diretamente dos crimes perpetrados pelo regime stalinista - e que, em sua maioria, deviam sua promoo ao extermnio de seus predecessores na funo - emergia um certo tipo de remorso; um remorso constrangido,  claro, um remorso interesseiro, um remorso poltico, mas, ainda assim, um remorso. Efetivamente, era preciso que algum terminasse com o massacre; Kruschev teve essa coragem, mesmo no tendo hesitado, em 1956, em enviar uma frota de tanques soviticos a Budapeste.
	Em 1961, na ocasio do XXII Congresso do PCUS, Kruschev evocou no somente as vtimas comunistas, mas tambm todo o conjunto das vtimas de Stalin, chegando a propor que fosse erigido um monumento em memria delas. Sem dvida, ele havia transposto o limite invisvel alm do qual o prprio princpio do regime estava posto em causa: o monoplio do poder absoluto reservado ao Partido Comunista. O monumento jamais veio  luz. Em 1962, o primeiro-secretrio autorizou a publicao de Une journe d'Ivan Denissovitch, de Alexandre Soljenitsyne. Em 24 de outubro de 1964, Kruschev foi brutalmente demitido de todas as suas funes, mas ele tampouco foi assassinado, morrendo no anonimato em 1971.
	Todos os analistas reconhecem a importncia decisiva do relatrio secreto que provocou a ruptura fundamental na trajetria do comunismo no sculo XX. Franois Furet, que justamente acabava de deixar o Partido Comunista Francs em 1954, escreve a este respeito: Ora, eis que o 'relatrio secreto' de fevereiro de 1956 transtorna de uma s vez, assim que ele veio a pblico, o estatuto da idia comunista no universo. A voz que denuncia os crimes de Stalin no vem mais do Ocidente, mas de Moscou, e do santo dos santos de Moscou, o Kremlin. No se trata mais de um comunista infringindo seu exlio, mas do primeiro dos comunistas no mundo, o chefe do Partido Comunista da Unio Sovitica. Ento, em lugar de ser alvo das suspeitas que acometem os discursos dos ex-comunistas, esta voz est investida da autoridade suprema outorgada pelo sistema ao seu chefe. [...] O extraordinrio poder do 'relatrio secreto' sobre as conscincias vem do fato de ele no ter contraditores.
	Desde o comeo, o evento era to paradoxal, que numerosos contemporneos haviam prevenido os bolcheviques contra os perigos de seus procedimentos. Desde 1917-1918 batiam-se no prprio interior do movimento socialista os que acreditavam no grande claro do Leste e os que criticavam sem remisso os bolcheviques. A disputa recaa essencialmente sobre o mtodo de Lenin: violncia, crimes, terror. Enquanto que, dos anos 20 aos anos 50, o lado sombrio da experincia bolchevique foi denunciado por numerosas testemunhas, vtimas, observadores qualificados, e tambm por incontveis artigos e obras, foi preciso esperar que os prprios comunistas no poder reconhecessem essa realidade - ainda que de modo limitado - para que uma frao cada vez maior da opinio pblica pudesse tomar conhecimento do drama. Reconhecimento enviesado, j que o relatrio secreto abordava somente a questo das vtimas comunistas. Ainda assim, um reconhecimento que trazia a primeira confirmao de testemunhos e estudos anteriores, e que corroborava o que muitos desconfiavam h bastante tempo: o comunismo havia provocado na Rssia uma imensa tragdia.
	Os dirigentes de muitos dos partidos irmos no se persuadiram, de imediato, de que era preciso que se engajassem no caminho das revelaes. Ao lado do precursor Kruschev, eles pareciam um tanto retardados: foi necessrio esperar 1979 para que o Partido Comunista chins distinguisse na poltica de Mo grandes mritos - at 1957 - e grandes erros em seguida. Os vietnamitas somente abordam essa questo  luz da condenao do genocdio perpetrado por Pol Pot. Quanto a Castro, ele nega as atrocidades cometidas sob sua gide. 
	At ento, a denncia dos crimes comunistas vinha somente da parte dos seus inimigos, dos dissidentes trotskistas ou dos anarquistas; e ela no tinha sido particularmente eficaz. A vontade de testemunhar era to forte nos sobreviventes dos massacres comunistas quanto nos sobreviventes dos massacres nazistas. Mas eles foram muito pouco - ou quase nada - escutados, em particular na Frana, onde a experincia concreta do sistema de campos de concentrao sovitico s afetou diretamente a grupos restritos, tais como os Malgr-nous da Alsace-Lorraine.^ Na maior parte das vezes, os testemunhos, as erupes de memria, os trabalhos das comisses independentes criadas sob a iniciativa de algumas pessoas - assim como a Commission Internationale sur l regime concentrationnaire, de David Rousset, ou a Commission pour Ia vritsur ls crimes de Stalinefreqncia - foram encobertos pelo tamanho da verba para a propaganda comunista, acompanhado por um silncio covarde ou indiferente. Esse silncio, que sucede geralmente a algum momento de sensibilizao provocado pela emergncia de uma obra - UArchipel du Goulag, de Soljenitsyne -. ou de um testemunho mais incontestvel do que outros - Ls Rcits de Ia Kolyma, de Variam Chalamov, ou LUtopie meurtrire, de Pin Yathay -, mostra uma resistncia prpria aos vrios e diferentes segmentos das sociedades ocidentais no que diz respeito ao fenmeno comunista; eles se recusam, at o momento, a encarar a realidade: o sistema comunista comporta, ainda que em graus diversos, uma dimenso fundamentalmente criminosa. Com esta recusa, as sociedades participaram da mentira, no sentido aludido por Nietzsche: Recusar-se a ver algo que se v; recusar-se a ver algo como se v.
	A despeito de todas essas dificuldades na abordagem da questo, vrios observadores tentaram a empreitada. Dos anos 20 aos anos 50 - na falta de dados mais confiveis, cuidadosamente dissimulados pelo regime sovitico - a pesquisa repousava essencialmente sobre os testemunhos dos desertores. Suscetveis de estarem imbudos de um esprito vingativo, ou difamatrio, ou ainda de serem manipulados por um poder anticomunista, esses testemunhos - passveis de contestao pelos historiadores, como todo testemunho - eram frequentemente desconsiderados pelos bajuladores do comunismo. O que se poderia pensar, em 1959, da descrio do Gulag feita por um desertor dos altos escales da KGB, tal como ela fora recuperada no livro de Paul Barton32 E o que pensar de Paul Barton, ele prprio um exilado tcheco, cujo verdadeiro nome  Jiri Veltrusky, um dos organizadores da insurreio antinazista de 1945 em Praga, obrigado a fugir de seu pas em 1948? Ora, a confrontao com os arquivos doravante abertos mostra que essa informao era perfeitamente confivel.
	Nos anos 70 e 80, a grande obra de Soljenitsyne  LArchipel du Goulag, e depois o ciclo dos Ns da Revoluo Russa - provocou um verdadeiro choque na opinio pblica. Sem dvida, um efeito produzido muito mais pela literatura, pelo cronista genial, do que por uma tomada de conscincia geral do horrvel sistema por ele descrito. Entretanto, Soljenitsyne encontrou dificuldades em perfurar a crosta da mentira, chegando a ser comparado, em 1975, por um jornalista de um grande jornal francs, a Pierre Lavai, Doriot e Dat, que acolhiam os nazistas como libertadores. Seu testemunho foi, todavia, decisivo para uma primeira tomada de conscincia, assim como o de Chalamov sobre a Kolyma, ou o de Pin Yathay sobre o Camboja. Mais recentemente, Vladimir Bukovski, uma das principais figuras da dissidncia sovitica no perodo Brejnev, ergueu um novo grito de protesto que reclamava, sob o ttulo Jugement  Moscou, a instaurao de um novo tribunal de Nuremberg para julgar as atividades criminosas do regime; seu livro foi recebido no ocidente com grande sucesso de crtica, mas no de pblico. Simultaneamente, vemos as publicaes que tentam a reabilitao de Stalin35 florescerem.
	Que motivao pode encorajar, neste fim de sculo XX, a explorao de um domnio to trgico, to tenebroso, to polmico? Hoje, no somente os arquivos confirmam a exatido desses testemunhos, como tambm permitem ir muito mais adiante. Os arquivos internos do sistema de represso da ex-Unio Sovitica, das ex-democracias populares e do Camboja evidenciam uma realidade aterradora: o carter macio e sistemtico do terror, que, em vrios casos, conduziu ao crime contra a humanidade. Chegou o momento de abordar de maneira cientfica - documentada por fatos incontestveis, e livre das implicaes pol-tico-ideolgicas que a sobrecarregavam - a questo recorrente que todos os observadores se puseram: que lugar ocupa o crime no sistema comunista?
	Nessa perspectiva, qual pode ser a nossa contribuio especfica? Procuramos utilizar procedimentos que respondam, em primeiro lugar, a um dever para com a histria. Nenhum tema  tabu para o historiador, e as implicaes e presses de todo tipo - polticas, ideolgicas, pessoais - no devem impedi-lo de seguir o caminho do conhecimento, da exumao e da interpretao dos fatos, sobretudo quando estes estiveram por um longo tempo voluntariamente enterrados no segredo dos arquivos e das conscincias. Ora, a histria do terror comunista constitui-se como um dos maiores panos de fundo da histria europeia, sustentando com firmeza os dois extremos da grande questo historiogrfica do totalitarismo. Este ltimo teve uma verso hitlerista como tambm as verses leninista e stalinista, no sendo mais aceitvel elaborar uma histria hemiplgica, que ignore a vertente comunista. Do mesmo modo, a posio defensiva que consiste em reduzir a histria do comunismo unicamente a sua dimenso nacional, social e cultural  insustentvel. Sobretudo porque o fenmeno totalitrio no se limitou  Europa e ao episdio sovitico. Ela compreende tambm a China maosta, a Coreia do Norte, o Camboja de Pol Pot. Cada comunismo nacional esteve ligado por algum tipo de cordo umbilical  matriz russa e sovitica, o que tambm contribuiu para o progresso desse movimento mundial. A histria com a qual nos confrontamos  a de um fenmeno que se desenvolveu em todo o mundo e que diz respeito a toda a humanidade.
	O segundo dever ao qual responde esta obra  o de um dever para com a memria. E uma obrigao moral honrar a memria dos mortos, sobretudo quando so vtimas inocentes e annimas do Moloch conduzido por um poder absoluto que procurou, inclusive, apagar a sua prpria lembrana. Aps a queda do Muro de Berlim e o desmoronamento do centro do poder comunista em Moscou, a Europa, continente matricial das experincias trgicas do sculo XX, est prestes a recompor uma memria comum; podemos, por nossa parte, dar a nossa contribuio. Os prprios autores deste livro so portadores dessa memria: um mais ligado  Europa Central devido a sua vida profissional; outro, s idias e prticas revolucionrias, em seus engajamentos contemporneos a 1968 ou mesmo mais recentes.
	Esse duplo dever, para com a memria e a histria, inscreve-se nos mais diversos contextos. Para alguns, ele se refere a pases onde o comunismo praticamente nunca pesou, nem sobre a sociedade nem sobre o poder - Gr-Bretanha, ustria, Blgica, etc. Para outros, ele se manifesta em pases em que o comunismo foi uma potncia temida - como nos Estados Unidos aps 1946 - ou temerria, mesmo no tendo jamais chegado ao poder - como na Frana, Itlia, Espanha, Grcia, Portugal. Do mesmo modo, ele se impe com fora nos pases onde o comunismo perdeu o poder que detivera por vrias dcadas - Leste Europeu, Rssia. Por fim, sua pequena chama vacila em meio ao perigo nos lugares onde o comunismo ainda est no poder - China, Coreia do Norte, Cuba, Laos, Vietn.
	De acordo com essas situaes, a atitude dos contemporneos diante da histria e da memria  distinta. Nos dois primeiros casos, eles se ligam a um procedimento relativamente simples de conhecimento e de reflexo. No terceiro caso, h um confronto com as necessidades da reconciliao nacional, havendo ou no o castigo dos carrascos; a esse respeito, a Alemanha reunificada oferece, sem dvida, o exemplo mais surpreendente e milagroso - basta considerar o exemplo do desastre da Jugoslvia. Mas a ex-Tchecoslovquia -que se tornou Repblica Tcheca e Eslovquia -, a Polnia e o Camboja se chocam do mesmo modo com os tormentos da memria e da histria do comunismo. Um certo grau de amnsia, espontnea ou oficial, pode parecer indispensvel  cura das feridas morais, psquicas, afetivas, pessoais, coletivas, provocadas por meio sculo ou mais de comunismo. Nos lugares onde o comunismo continua no poder, os carrascos e seus herdeiros ou organizam uma denegao sistemtica - como em Cuba ou na China - ou talvez at continuem a reivindicar o terror como modo de governo - como na Coreia do Norte.
	Esse dever para com a histria e a memria tem, incontestavelmente, um alcance moral. Alguns poderiam nos censurar: Quem os autoriza a dizer o que  o Bem e o que  o Mal?
	Segundo critrios que lhe so prprios,  exatamente esse o efeito pretendido pela Igreja Catlica quando, com poucos dias de intervalo, o Papa Pio XI condenou, em duas encclicas distintas, o nazismo - Mit Brennender Sorge, de 14 de maro de 1937 - e o comunismo - Divini redemptoris, de 19 de maro de 1937. Esta ltima afirmava que Deus havia dotado o homem de prerrogativas: o direito  vida,  integridade do corpo e aos meios necessrios  existncia; o direito de se dirigir ao seu fim ltimo na via traada por Deus; o direito de associao, de propriedade e o direito de usufruir dessa propriedade. Mesmo que possamos denunciar uma certa hipocrisia da Igreja que caucionava o enriquecimento excessivo de uns atravs da explorao de outros, o seu apelo em favor da dignidade humana no  desprovido de importncia.
	J em 1931, na encclica Quadragsimo Armo, Pio XI havia escrito: O comunismo tem em seu ensinamento e em sua ao um duplo objetivo, que so perseguidos no em segredo, ou por vias indiretas, mas abertamente,  luz do dia e por todos os meios, mesmo os mais violentos: uma luta de classes implacvel e a desapario completa da propriedade privada. Na perseguio desse objetivo, no h nada que ele no ouse, nada que ele respeite; nos lugares onde tomou o poder, ele se mostra selvagem e desumano com tanta intensidade que temos dificuldades em crer, chegando mesmo a nos parecer inexplicvel, como atestam os terrveis massacres e as runas por ele acumuladas nos imensos pases da Europa Oriental e da sia. A advertncia ganhava pleno sentido por vir de uma instituio que havia, durante vrios sculos e em nome da f, justificado o massacre dos Infiis, desenvolvido a Inquisio, amordaado a liberdade de pensamento e que iria apoiar os regimes ditatoriais como os de Franco ou Salazar.
	Contudo, se a Igreja cumpria seu papel de censor moral, qual deve ser, ou melhor, qual pode ser o discurso do historiador diante do relato herico dos partidrios do comunismo, ou do relato pattico de suas vtimas? Em suas Memrias de Alm-Tmulo, Franois Ren de Chateaubriand escreve: Quando, no silncio da abjeo, no escutamos mais repercutir seno a corrente do escravo e a voz do delator; quando tudo treme diante do tirano, e que  to perigoso expormo-nos a seu favor quanto merecer sua desgraa, o historiador aparece, encarregado da vingana dos povos. A prosperidade de Nero  v, Tcito j nasceu sob o imprio. Longe de ns a idia de nos instituirmos como defensores da enigmtica vingana dos povos,  qual Chateaubriand j no mais cr no fim de sua vida; mas, em sua modstia, o historiador torna-se, quase que contra a sua prpria vontade, o porta-voz daqueles que, por causa do terror, se viram na impossibilidade de dizer a verdade sobre a sua condio. Ele se faz presente para trabalhar com o conhecimento; sua primeira tarefa  estabelecer fatos e elementos de verdade que se tornaro conhecimento. Alm disso, sua relao com a histria do comunismo  particular: ele  obrigado a ser o historigrafo da mentira. Mesmo que a abertura dos arquivos lhe fornea materiais indispensveis, ele deve se preservar de toda ingenuidade, j que um grande nmero de questes complexas se apresentam como objeto de controvrsias que no esto de modo algum isentas de segundas intenes. Todavia, este conhecimento histrico no se pode abster de um juzo que responda a alguns valores fundamentais: o respeito s regras da democracia representativa e, sobretudo, o respeito  vida e  dignidade humana.  atravs deste parmetro que o historiador emite um juzo sobre os atores da histria.
	Um motivo pessoal juntou-se s razes gerais para empreender esse trabalho sobre memria e sobre histria. Alguns dos autores do livro nem sempre estiveram alheios  fascinao exercida pelo comunismo. Por vezes, eles foram participantes, dentro dos limites de cada um, do sistema comunista, seja em sua verso ortodoxa leninista-stalinista, seja em verses anexas e dissidentes (trotskista, maosta). Se eles permanecem ligados  esquerda - e porque eles permanecem ligados  esquerda -  preciso que eles reflitam sobre as razes desta cegueira. Essa reflexo tambm seguiu os caminhos do conhecimento, balizados pela escolha dos respectivos temas de estudo, pelas publicaes cientficas prprias e pelas participaes de cada um nas revistas La NouvelleAlternativee Communisme. O presente livro no  seno um momento dessa reflexo. Se seus autores a conduzem incansavelmente,  por terem a conscincia de que no se pode deixar a uma extrema direita cada vez mais presente o privilgio de dizer a verdade;  em nome dos valores democrticos, e no dos ideais nacional-fascistas, que se devem analisar e condenar os crimes do comunismo.
	Essa abordagem implica um trabalho comparativo, da China  URSS, de Cuba ao Vietn. Ora, no dispomos, at o momento, de uma qualidade homognea na documentao. Em alguns casos, os arquivos esto abertos - ou entreabertos - enquanto em outros, no. Isto no nos pareceu uma razo suficiente para adiar o trabalho; sabemos o bastante, de fonte segura, para nos lanarmos num empreendimento que, embora no tenha nenhuma pretenso de ser exaustivo, quer ser pioneiro e deseja inaugurar um vasto campo para a pesquisa e a reflexo. Empreendemos, assim, uma primeira verificao de um nmero mximo de fatos, uma primeira aproximao que dever instigar, com o tempo, muitos outros trabalhos. Mas  preciso comear, considerando apenas os fatos mais claros, mais incontestveis, mais graves.
	Nosso trabalho contm muitas palavras e poucas imagens. Atingimos aqui um dos pontos sensveis da ocultao dos crimes do comunismo: numa sociedade mundial supermidiatizada, onde a imagem - fotografada ou televisionada - ser em breve a nica a merecer crdito da opinio pblica, dispomos to-somente de algumas e raras fotos de arquivo sobre o Gulag ou o Laogai, nenhuma foto sobre a deskulakizao ou sobre a fome do Grande Salto Adiante. Os vencedores de Nuremberg puderam fotografar e filmar  vontade os milhares de cadveres do campo de Bergen-Belsen, onde tambm foram encontradas fotos tiradas pelos prprios carrascos, corno aquela de um alemo abatendo com um tiro de fuzil  queima-roupa uma mulher com seu filho nos braos. Nada igual ocorreu no mundo comunista, onde o terror era organizado no mais estrito segredo.
	Que o leitor no se contente apenas com os poucos documentos icono-grficos reunidos aqui. Que ele consagre o tempo necessrio para tomar conhecimento, pgina por pgina, do calvrio sofrido por milhes de homens. Que ele faa o esforo de imaginao indispensvel para compreender o que foi essa imensa tragdia que vai continuar a marcar a histria mundial pelas dcadas vindouras. Ento, a ele ser apresentada a questo capital: por qu? Por que Lenin, Trotski, Stalin e os outros julgaram necessrio exterminar todos aqueles que eram designados como inimigos? Por que eles se autorizaram a infringir o cdigo no escrito que rege a vida da Humanidade: No matars? Tentamos responder a esta questo no fim deste livro.
	
	PRIMEIRA PARTE
	
	UM ESTADO CONTRA O POVO
	Violncia, represso e terror na Unio Sovitica
	por Nicolas Werth
	
	1. Paradoxos e Equvocos de Outubro
	
	Com a queda do comunismo, desapareceu a necessidade de demonstrar o carter 'historicamente inelutvel' da Grande Revoluo Socialista de Outubro. Enfim, 1917 podia tornar-se um objeto histrico 'normal'. Infelizmente, nem os historiadores nem, sobretudo, nossa sociedade esto prontos para romper com o mito fundador do ano zero, o ano em que tudo teria comeado: a felicidade ou a infelicidade do povo russo.
	Essas afirmaes de um historiador russo contemporneo ilustram uma permanncia: 80 anos aps o evento, a luta pelo relato de 1917 continua.
	Para uma primeira escola histrica, que poderamos chamar de liberal, a Revoluo de Outubro foi apenas um putsch imposto com violncia a uma sociedade passiva, resultado de uma habilidosa conspirao tramada por um punhado de fanticos cnicos e disciplinados, desprovidos de qualquer real sustentao no pas. Hoje, quase todos os historiadores russos, assim corno as elites cultas e os dirigentes da Rssia ps-comunista, adotaram como sua essa vulgata liberal. Privada de toda densidade social e histrica, a revoluo de Outubro de 1917  revista como um acidente que desviou de seu curso natural a Rssia pr-revolucionria, uma Rssia rica, laboriosa e a caminho da democracia. A ruptura simblica com o monstruoso parntese do sovie-tismo - aclamada to alto e forte quanto na realidade perdura uma notvel continuidade das elites dirigentes, todas pertencentes  nomenklatura comunista - apresenta um trunfo de grande importncia: o de libertar a sociedade russa do peso da culpa, do pesado arrependimento durante os anos da peres-troika, marcados pela dolorosa redescoberta do stalinismo. Se o Golpe de Estado bolchevique de 1917 no foi seno um acidente, ento o povo russo foi apenas uma vtima inocente.
	Diante dessa interpretao, a historiografia sovitica tentou demonstrar que Outubro de 1917 havia sido a concluso lgica, previsvel e inevitvel de um itinerrio libertador, conscientemente empreendido pelas massas aliadas ao bolchevismo. Em seus vrios avatares, essa corrente historiogrfica amalgamou a luta pelo relato de 1917  questo da legitimidade do regime sovitico. Se a Grande Revoluo Socialista de Outubro foi a realizao do sentido da Histria, um evento portador de uma mensagem de emancipao dirigida aos povos do mundo inteiro, ento o sistema poltico, as instituies e o Estado dela oriundos permaneciam legtimos, apesar de todo e qualquer erro que o stalinismo possa ter cometido. Naturalmente, o desmoronamento do regime sovitico acarretou uma completa deslegitimao da revoluo de Outubro de 1917 e a desapario da vulgata marxizante, devolvida, retomando uma clebre frase do bolchevismo, ao lixo da Histria. Contudo, do mesmo modo que a memria do medo, a memria dessa vulgata continua viva, com uma intensidade to grande, ou talvez ainda maior no Ocidente do que na ex-URSS.
	Rejeitando a vulgata liberal e a vulgata marxista, uma terceira corrente historiogrfica esforou-se para desideologizar a histria da Revoluo Russa, procurando compreender, conforme escreveu Marc Ferro, como a insurreio de Outubro de 1917 havia sido ao mesmo tempo um movimento de massa e [que] apenas poucos tinham participado dela. Entre as numerosas questes feitas pelos vrios historiadores que recusam a representao simplista da historiografia liberal, hoje em dia predominante a respeito de 1917, figuram algumas questes decisivas. Qual foi o papel representado pela militarizao da economia e pela brutalizao das relaes sociais consecutivas  entrada do Imprio russo na Primeira Guerra Mundial? Houve a emergncia de uma violncia social especfica que preparava o terreno de uma violncia poltica exercida em seguida contra a sociedade? Como uma revoluo popular e plebeia, profundamente antiautoritria e antiestatal, conduziu ao poder o grupo poltico mais ditatorial e mais estatizante? Que ligao se pode estabelecer entre a inegvel radicalizao da sociedade russa no decorrer de 1917 e o bolchevismo?
	Com o decorrer dos anos e graas aos numerosos trabalhos de uma historiografia conflituosa - intelectualmente estimulante, portanto - a revoluo de Outubro de 1917 surge como a convergncia entre dois eventos: a tomada do poder poltico, fruto de um minucioso preparo insurrecional, por um partido que se distingue radicalmente, em suas prticas, sua organizao e sua ideologia, de todos os outros atores da revoluo; uma vasta revoluo social, multiforme e autnoma. Essa revoluo social manifesta-se nos mais diversos aspectos: inicialmente, uma enorme rebelio camponesa, amplo movimento de fundo enraizado numa longa histria, marcada no somente pelo dio aos proprietrios de terras, mas tambm por uma profunda desconfiana dos camponeses em relao  cidade, ao mundo exterior, em relao a toda ingerncia estatal.
	Assim, o vero e o outono de 1917 surgem como a concluso, enfim vitoriosa, de um grande ciclo de revoltas que comeou em 1902 e que teve seu primeiro ponto culminante em 1905-1907. O ano de 1917  uma etapa decisiva da grande revoluo agrria, da disputa entre os camponeses e os grandes proprietrios pela apropriao das terras e pela realizao da to esperada partilha negra, a partilha de todas as terras em funo do nmero de bocas a serem alimentadas em cada famlia. Mas  tambm uma etapa importante da disputa entre os camponeses e p Estado pela rejeio de toda a tutela das cidades sobre o campo. Sob esse aspecto, 1917  apenas uma das marcas dentro do ciclo de confrontos que culminar em 1918-1922 e depois nos anos 1929-1933, terminando-se com a derrota total do mundo rural, cortado junto  raiz pela coletivizao forada da terra.
	Paralelamente  revoluo camponesa, assistimos, no decorrer de 1917,  profunda decomposio do exrcito formado por cerca de dez milhes de camponeses-soldados, mobilizados havia mais de trs anos para uma guerra de cujo sentido eles nada compreendiam; quase todos os generais lamentavam a falta de patriotismo desses soldados-camponeses, pouco integrados politicamente  nao, e cujo horizonte cvico no ia muito alm de sua comunidade rural.
	Um terceiro movimento de fundo refere-se a uma minoria social que mal representava 3% da populao economicamente ativa, mas uma minoria politicamente eficiente, bastante concentrada nas grandes cidades do pas, o mundo operrio. Esse meio, que condensava todas as contradies sociais da modernizao econmica encaminhada havia apenas uma gerao, deu origem a um movimento especificamente reivindicador e operrio, a partir das palavras de ordem autenticamente revolucionrias - o controle operrio e o poder aos sovietes.
	Enfim, um quarto movimento se esboa atravs da rpida emancipao das nacionalidades e dos povos algenos do ex-Imprio Czarista, exigindo sua autonomia e tambm sua independncia.
	Cada um desses movimentos tem sua prpria temporalidade, sua dinmica interna, suas aspiraes especficas, que, evidentemente, no poderiam ser reduzidas nem aos slogans nem  ao poltica do Partido Bolchevique. No decorrer de 1917, esses movimentos agem tambm como foras corrosivas que contribuem poderosamente para a destruio das instituies tradicionais e, de modo geral, de todas as formas de autoridade. Durante um breve mas decisivo instante - o fim do ano de 1917 - a ao dos bolcheviques, minoria poltica que agia no vazio institucional reinante, vai ao encontro das aspiraes da maioria, ainda que os objetivos a mdio e longo prazos sejam diferentes para uns e para outros. Momentaneamente, Golpe de Estado poltico e revoluo social convergem ou, com mais exatido, interpenetram-se, antes de virem a divergir durante as dcadas de ditadura.
	Os movimentos sociais e nacionais eclodidos no outono de 1917 desenvolveram-se em favor de uma conjuntura bastante particular, combinando, numa situao de guerra total - ela prpria fonte de regresso e de brutaliza-o generalizadas, crise econmica, transformao das relaes sociais e falncia do Estado.
	Longe de dar um novo impulso ao regime czarista, reforando a coeso, ainda bastante imperfeita, do corpo social, a Primeira Guerra Mundial agiu como um formidvel revelador da fragilidade de um regime autocrtico, j muito abalado pela revoluo de 1905-1906 e enfraquecido por uma poltica inconsequente que alternava concesses insuficientes e retomada do conservadorismo. A guerra acentuou igualmente as fraquezas de uma modernizao econmica inacabada, dependente do afluxo regular de capitais, de especialistas e de tecnologias estrangeiras. Ela reativou a fratura profunda entre a Rssia urbana, industrial e governante e a Rssia rural, politicamente desintegrada e ainda amplamente fechada em suas estruturas locais e comunitrias.
	Como os outros beligerantes, o governo czarista previra que a guerra seria de curta durao. O fechamento dos estreitos e o bloqueio econmico da Rssia revelaram de forma brutal a dependncia do imprio para com seus fornecedores estrangeiros. A perda das provncias ocidentais, invadidas pelos exrcitos alemes e austro-hngaros desde 1915, privou a Rssia dos produtos da indstria polonesa, uma das mais desenvolvidas do imprio. A economia nacional no resistiu muito tempo  continuao da guerra: a partir de 1915, o sistema de transportes ferrovirios desorganizou-se, devido  falta de peas de reposio. A reconverso da maior parte das fbricas para fins militares quebrou o mercado interior. Decorridos alguns meses, faltaram produtos manufaturados  retaguarda e o pas instalou-se na penria e na inflao. No, campo, a situao rapidamente se degradou: o violento corte no crdito e no remembramento agrcola, a mobilizao macia de homens no exrcito, as requisies de cereais e de arrendamento do gado, a penria de bens manufaturados e o rompimento dos circuitos de trocas entre cidades e campo detiveram francamente os processos de modernizao das propriedades rurais, preparados com sucesso, desde 1906, pelo primeiro-ministro Piotr Stolypine, assassinado em 1910. Trs anos de guerra reforaram a percepo camponesa do Estado como fora hostil e estrangeira. As afrontas cotidianas de um exrcito em que o soldado era tratado mais como um servo do que como um cidado exacerbaram as tenses entre os combatentes e oficiais enquanto que as derrotas minavam o que sobrava do prestgio de um regime imperial demasiadamente longo. O antigo fundo de arcasmo e violncia - sempre presente no campo e que j havia demonstrado sua fora durante as grandes insurreies dos anos 1902-1906 - saiu reforado dessa guerra.
	Desde o fim de 1915, o poder no dominava mais a situao. Diante da passividade do regime, viu-se por todo o pas a organizao de associaes e Comits encarregados da gesto de um cotidiano que o Estado parecia no poder mais assegurar: cuidar dos feridos, abastecer as cidades e o exrcito. O povo russo comeou a se autogovernar; um grande movimento vindo das entranhas da sociedade, cuja importncia no fora at ento calculada, se pusera em movimento. Mas, para que esse movimento vencesse as foras corrosivas que estavam tambm ativas, teria sido necessrio que o poder o encorajasse, e que lhe estendesse a mo.
	Ora, em lugar de construir uma ponte entre o poder e os elementos mais progressistas da sociedade civil, Nicolau II agarrou-se  utopia monr-quico-populista do papaizinho-czar-comandando-o-exrcito-de-seu-belo-povo-campons. Ele assumiu pessoalmente o comando supremo dos exrcitos, ato suicida para a autocracia em plena derrocada nacional. Isolado em seu trem especial no quartel-general de Mogilev, Nicolau II deixou, de fato, de dirigir o pas a partir do outono de 1915, confiando-o a sua esposa, a imperatriz Alexandra, muito impopular por ser de origem alem.
	No decorrer de 1916, o poder pareceu dissolver-se. A Duma, nica assembleia eleita, era to pouco representativa, que se reunia apenas algumas semanas por ano; governantes e ministros se sucediam, todos igualmente incompetentes e impopulares. O rumor pblico acusava o influente corrilho dirigido pela imperatriz e por Rasputin de abrir conscientemente o territrio nacional  invaso inimiga. Tornava-se manifesto que a autocracia no era mais capaz de conduzir a guerra. No fim de 1916, o pas tornou-se ingovern-vel. Em uma atmosfera de crise poltica, ilustrada pelo assassinato de Rasputin no dia 31 de dezembro, as greves, reduzidas a um nmero insignificante no incio da guerra, retomaram sua fora. O tumulto alcanou o exrcito; a desorganizao total dos transportes interrompeu todo o sistema de abastecimento. Um regime ao mesmo tempo desacreditado e enfraquecido foi surpreendido pela chegada dos dias de fevereiro de 1917.
	A queda do regime czarista, vencido ao fim de cinco dias de manifestaes de operrios e da amotinao de vrios milhares de homens da guarnio de Petrogradofreqncia, revelou no somente a fraqueza do czarismo e o estado de decomposio do exrcito ao qual o estado-maior no ousou apelar para dominar o levante popular, como tambm o despreparo poltico de todas as foras de oposio, profundamente divididas, desde os liberais do Partido Constitucional Democrata at os social-democratas.
	Em nenhum momento dessa revoluo popular espontnea, iniciada nas ruas e terminada nos gabinetes silenciosos do palcio de Taurida, sede da Duma, as foras polticas da oposio conduziram o movimento. Os liberais tinham medo das ruas; quanto aos partidos socialistas, eles temiam uma rea-o militar. Entre os liberais, inquietos com a extenso dos tumultos, e os socialistas, para quem o momento era manifestamente favorvel  revoluo burguesa - primeira etapa de um longo processo que poderia, com o passar do tempo, abrir caminho a uma revoluo socialista -, engajaram-se negociaes que culminaram, aps longos arranjos, na frmula indita de um poder duplo. O primeiro, o governo provisrio, um poder preocupado com a ordem, cuja lgica era parlamentarista e tendo como objetivo uma Rssia capitalista, moderna e liberal, firmemente consolidada em suas alianas com franceses e britnicos. O outro, o poder do soviete de Petrogrado, que um punhado de militantes socialistas acabava de constituir e que pretendia ser, na grande tradio do soviete de So Petersburgo de 1905, uma representao mais direta e mais revolucionria das massas. Mas este poder dos sovietes era em si uma realidade mvel e varivel, ao sabor da evoluo de suas estruturas descentralizadas e efervescentes e, principalmente, ao sabor das mudanas de uma opinio pblica volvel.
	Os trs governos provisrios que se sucederam, de 2 de maro a 25 de outubro de 1917, se mostraram incapazes de resolver os problemas deixados como herana pelo Antigo Regime: a crise econmica, a continuao da guerra, a questo operria e o problema agrrio. Os novos homens no poder - os liberais do Partido Constitucional Democrata, majoritrios nos dois primeiros governos; os mencheviques e os socialistas-revolucionrios, majoritrios no terceiro - pertenciam todos s elites urbanas cultas, aos elementos progressistas da sociedade civil, divididos entre a confiana ingnua e cega no povo e o medo das massas escuras que os circundavam e que, alis, eles mal conheciam. Em sua maioria, eles consideravam necessrio - pelo menos nos primeiros meses de uma revoluo que havia chocado as conscincias por seu aspecto pacifista - deixar o caminho livre para o impulso democrtico libertado pela crise e pela queda do Antigo Regime. Fazer da Rssia o pas mais livre do mundo, esse era o sonho de idealistas tais como o prncipe Lvov, chefe dos dois primeiros governos provisrios.
	O esprito do povo russo, diz ele numa de suas primeiras declaraes, revelou-se, por sua prpria natureza, um esprito universalmente democrtico. Ele est pronto no somente para fundir-se na democracia universal, mas tambm para lider-la no caminho do progresso delimitado pelos grandes princpios da Revoluo Francesa: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.
	Certo de suas convices, o governo provisrio multiplicou as medidas democrticas - liberdades fundamentais, sufrgio universal, supresso de toda discriminao de casta, raa ou religio, reconhecimento do direito da Polnia e da Finlndia  autodeterminao, promessa de autonomia s minorias nacionais, etc. - que deviam, segundo se acreditava, permitir um amplo movimento patritico, consolidar a coeso social, assegurar a vitria militar junto aos Aliados e atar solidamente o novo regime s democracias ocidentais. Entretanto, por excesso de escrpulos legais, o governo recusou-se, em uma situao de guerra, a tomar, antes da reunio de uma Assembleia Constituinte que deveria ser eleita em outubro de 1917, toda uma srie de medidas importantes que teriam assegurado sua continuao. Ele se ateve, de forma deliberada, a permanecer provisrio, deixando em suspenso os problemas mais explosivos: o problema da paz e o problema da terra. Quanto  crise econmica, ligada  continuao da guerra, o governo provisrio no conseguiu, do mesmo modo que o regime precedente, ter xito em resolv-los durante seus poucos meses de existncia; problemas de abastecimento, penrias, inflao, ruptura do circuito de trocas, fechamento de empresas e exploso do desemprego fizeram apenas exacerbar as tenses sociais.
	Diante da vacilao do governo, a sociedade continuou a organizar-se de maneira autnoma. Em poucas semanas, abundaram milhares de sovietes, Comits de fbricas e bairros, milcias operrias armadas (as Guardas Vermelhas), Comits de camponeses, Comits de soldados, de cossacos e de donas-de-casa. Abundaram tambm os lugares para debates, propostas e confrontos, onde a opinio pblica manifestava suas reivindicaes, suas alternativas ao modo de se fazer poltica. O mitingovanie (o comcio permanente) - verdadeira festa de libertao - tornou-se, com o decorrer dos dias, cada vez mais violento, uma vez que a revoluo de fevereiro havia liberado ressentimentos e frustraes sociais por muito tempo acumulados; ele opunha-se francamente  democracia parlamentar sonhada pelos polticos do novo regime. No decorrer de 1917, assistiu-se a uma inegvel radicalizao das reivindicaes dos movimentos sociais.
	Os operrios passaram das reivindicaes econmicas - jornada de oito horas, supresso de multas e de outras medidas humilhantes, seguridade social, aumentos de salrio -  demanda poltica, o que implicava uma mudana radical das relaes sociais entre patres e assalariados e, tambm, uma outra forma de poder. Organizados em Comits de fbrica - cujo primeiro objetivo era o de controlar a contratao e as demisses, impedindo, assim, que os patres fechassem injustamente suas empresas alegando o rompimento de abastecimento -, os operrios chegaram a exigir que a produo estivesse sob o controle operrio. Mas, para que nascesse esse controle operrio, era necessria uma forma de governo absolutamente nova, o poder dos sovietes, a nica capaz de tomar medidas radicais, especialmente o sequestro judicial e nacionalizao das empresas, uma reivindicao desconhecida na primavera de 1917, porm cada vez mais proposta nos seis meses que se seguiram.
	No decorrer das revolues de 1917, o papel dos soldados-camponeses - uma massa de dez milhes de homens mobilizados - foi decisivo. A rpida decomposio do exrcito russo, vencido pelas deseres e pelo pacifismo, teve um papel catalisador na falncia geral das instituies. Os Comits de soldados, autorizados pelo primeiro texto aprovado pelo governo provisrio - o famoso decreto n l, uma verdadeira declarao dos direitos do soldado, pois abolia as mais humilhantes regras disciplinares do Antigo Regime -, ultrapassavam com bastante freqncia suas prerrogativas. Eles chegaram a recusar as ordens de alguns oficiais, elegendo obedecer a outros, a intrometer-se em estratgia militar, posando como um tipo indito de poder soldado. Esse poder soldado preparou o terreno para um bolchevismo de trincheira especfico, que o general Brussilov, chefe supremo do exrcito russo, caracterizava assim: Os soldados no tinham a menor idia do que eram o comunismo, o proletariado ou a Constituio. Eles queriam a paz, a terra e a liberdade de viver sem leis, sem oficiais, nem grandes proprietrios de terra. Seu 'bolchevismo' era na verdade apenas um formidvel anseio pela liberdade sem entraves, pela anarquia.
	Aps o fracasso da ltima ofensiva do exrcito russo, em junho de 1917, o exrcito desagregou-se: centenas de oficiais - suspeitos pela tropa de serem contra-revolucionrios - foram detidos e, muitas vezes, massacrados pelos soldados. O nmero de desertores subiu assustadoramente, atingindo, em agosto-setembro, vrias dezenas de milhares por dia. Os camponeses-soldados tinham apenas uma idia na cabea: voltar para casa, para no perderem a diviso das terras e do gado dos grandes proprietrios. De junho a outubro de 1917, mais de dois milhes de soldados, cansados de combater ou de esperar com o estmago vazio nas trincheiras e guarnies, desertaram de um exrcito deliquescente. O retorno s suas cidades alimentou, por sua vez, o tumulto no campo.
	At o vero, o tumulto agrrio estava bastante circunscrito, sobretudo em comparao com o que se passara por ocasio da revoluo de 1905-1906. Depois de conhecida a notcia da abdicao do czar, a assembleia camponesa reuniu-se, como era costume quando se produzia um evento de maior importncia, e redigiu uma petio expondo as queixas e desejos dos camponeses. A primeira reivindicao era de que a terra pertencesse aos que trabalhavam nela, que as terras no cultivadas dos grandes proprietrios fossem imediatamente redistribudas e que os arrendamentos fossem reavaliados com valores mais baixos. Pouco a pouco, os camponeses se organizaram em Comits agrrios, tanto nos povoados quanto nos cantes, dirigidos frequentemente pelos membros da intelligentsia rural - professores, sacerdotes, agrnomos, agentes de sade -, prximos dos meios socialistas-revolucionrios. A partir de maio-junho de 1917, o movimento campons recrudesceu: para no deixar que a base impaciente se excedesse, vrios Comits agrrios comearam a apreender material agrcola e gado dos proprietrios rurais, apropriando-se de bosques, pastos e terras inexploradas. Essa luta ancestral pela partilha negra das terras fez-se s expensas dos grandes proprietrios rurais, mas tambm dos kulaks, esses camponeses abastados que, em razo das reformas de Stolypine, haviam deixado a comunidade rural para se estabelecerem em pequenos lotes em plena propriedade, liberados de todas as obrigaes comunitrias. Desde antes da revoluo de Outubro de 1917, o kulak - bicho-papo de todos os discursos bolcheviques, significando o campons rico e predador, o burgus rural, o usurrio, o kulak bebedor de sangue - no era mais a sombra do que fora. Com efeito, ele teve de devolver  comunidade do povoado a maior parte do gado arrendado, as mquinas e as terras, despejadas no caldeiro comum e distribudas segundo o princpio ancestral de bocas a alimentar.
	No decorrer do vero, os tumultos agrrios, fomentados pelo retorno s cidades de centenas de milhares de desertores armados, tornaram-se cada vez mais violentos. A partir do fim de ms de agosto, decepcionados com as promessas de um governo que no cessava de adiar a reforma agrria, os camponeses partiram para o assalto dos domnios senhoriais, sistematicamente saqueados e queimados, para expulsar de uma vez por todas o amaldioado proprietrio rural. Na Ucrnia e nas regies centrais da Rssia - Tambov, Penza, Voronezh, Saratov, Orei, Tuia, Ryazan - milhares de residncias senhoriais foram queimadas, com centenas de proprietrios massacrados.
	Diante da extenso dessa revoluo social, as elites dirigentes e os partidos polticos - com a notvel exceo dos bolcheviques, atitude sobre a qual ainda falaremos - hesitavam entre as tentativas de controlar, bem ou mal, o movimento social e a seduo do putsch militar. Tendo aceitado, desde o ms de maio, entrar para o governo, mencheviques, populares nos meios operrios, e socialistas-revolucionrios, melhor situados no mundo rural do que todas as outras formaes polticas, se revelaram incapazes, pelo fato de alguns de seus dirigentes participarem de um governo preocupado com a ordem e com a legalidade, de realizar as reformas por eles sempre preconizadas - especialmente, no que diz respeito aos socialistas-revolucionrios, a partilha das terras. Os partidos socialistas moderados tornaram-se gestores e guardies do Estado burgus, deixando a rea da contestao entregue aos bolcheviques, sem, entretanto, se beneficiarem da participao num governo que a cada dia controlava menos a situao no pas.
	Em face da anarquia crescente, os meios patronais, os proprietrios rurais, o estado-maior e alguns liberais desiludidos foram tentados pela soluo do golpe militar proposto pelo general Kornilov. Essa soluo fracassou diante da oposio do governo provisrio dirigido por Alexandre Kerenski. Com efeito, a vitria do putsch militar teria aniquilado o poder civil que, por mais fraco que fosse, sustentava a conduo formal dos negcios do pas. O fracasso do putsch do general Kornilov, de 24-27 de agosto de 1917, precipitou a crise final de um governo provisrio que no controlava mais nenhuma das tradicionais trocas de governantes. Enquanto nos altos escales os jogos de poder punham em disputa civis e militares aspirantes a uma ilusria ditadura, os pilares sobre os quais o Estado repousava - a justia, a administrao e o exrcito - cediam, o direito era ridicularizado, a autoridade era contestada sob todas as suas formas.
	Seria a radicalizao incontestvel das massas urbanas e rurais um sintoma de sua bolchevizao? Nada menos certo. Por detrs dos slogans comuns - controle operrio, todo poder aos sovietes - operrios militantes e dirigentes bolcheviques no davam aos termos a mesma significao. No exrcito, o bolchevismo de trincheira refletia, antes de tudo, um generalizado anseio pela paz, partilhado pelos combatentes de todo o pas, engajados havia mais de trs anos na mais sangrenta e total das guerras. Quanto  revoluo camponesa, ela seguia uma via completamente autnoma, bem mais prxima do programa socialista-revolucionrio, favorvel  partilha negra, do que do programa bolchevique que preconizava a nacionalizao da terra e sua explorao em grandes unidades coletivas. Nos campos, os bolcheviques eram conhecidos apenas segundo os relatos feitos pelos desertores, precursores de um bolchevismo difuso, portadores das duas palavras mgicas: a paz e a terra. Nem todos os descontentes aderiam ao Partido Bolchevique, que contava, de acordo com nmeros controversos, com algo entre cem mil e duzentos mil membros no incio de outubro de 1917. Contudo, no vazio institucional do outono de 1917, quando toda autoridade do Estado havia desaparecido para dar lugar a uma pliade de Comits, sovietes e outros grupelhos, bastava que um ncleo bem-organizado e decidido agisse com determinao para to logo exercer uma autoridade desproporcional a sua fora real. Foi o que o Partido Bolchevique fez.
	Desde sua fundao em 1903, esse partido havia se distanciado das outras correntes da social-democracia, tanto russa quanto europeia, especialmente em sua estratgia voluntria de ruptura radical para com a ordem existente e em sua concepo de partido, um partido fortemente estruturado, disciplinado, elitista e eficaz, vanguarda de revolucionrios profissionais, bastante afastado do grande partido de reunio - amplamente aberto aos simpatizantes de diferentes tendncias -, tal como concebiam os social-democratas europeus em geral.
	A Primeira Guerra Mundial acentuou ainda mais a especificidade do bolchevismo leninista. Rejeitando toda colaborao com as outras correntes social-democratas, Lenin, cada vez mais isolado, justificou teoricamente sua posio em seu ensaio O Imperialismo, estdio supremo do capitalismo. Ele explicava nesse ensaio que a revoluo explodiria no no pas em que o capitalismo estivesse muito forte, mas num Estado economicamente pouco desenvolvido, como a Rssia, com a condio de que o movimento revolucionrio fosse dirigido por uma vanguarda disciplinada, pronta para ir at o fim, ou seja, at a ditadura do proletariado e a transformao da guerra imperialista numa guerra civil.
	Em uma carta de 17 de outubro de 1914, endereada a Alexandre Chliapnikov, um dos dirigentes bolchevistas, Lenin escreveu:
	De imediato, o menor dos males seria a derrota do czarismo na guerra. [...] Toda a essncia do nosso trabalho (persistente, sistemtico e, talvez, de longa durao) visa  transformao da guerra numa guerra civil. Quando  que isso vai se produzir  uma outra questo, ainda no est claro. Devemos deixar que o momento amadurea, forando tal amadurecimento sistematicamente... No podemos prometer a guerra civil, nem decret-la, mas temos o dever de trabalhar - o tempo que for necessrio - nessa direo.
	Revelando as contradies interimperialistas, a guerra imperialista lanava, assim, os termos do dogma marxista, tornando sua exploso ainda mais provvel na Rssia do que em qualquer outro pas. No decorrer da guerra, Lenin retomou a idia de que os bolcheviques deviam estar prontos para encorajar, por todos os meios, o desenvolvimento de uma guerra civil.
	Quem quer que reconhea a guerra de classes, escreveu ele em setembro de 1916, deve reconhecer a guerra civil, que em toda sociedade de classes representa a continuao, o desenvolvimento e a acentuao naturais da guerra de classes.
	Aps a vitria da revoluo de fevereiro, na qual nenhum dirigente bolchevique de peso tomou parte, uma vez que todos estavam ou no exlio ou no exterior, Lenin, contra a opinio dos prprios dirigentes do Partido, previu a falncia da poltica de conciliao com o governo provisrio que o soviete de Petrogrado - dominado por uma maioria de socialistas-revolucionrios e de social-democratras, todas as tendncias confundidas - tentava implantar. Em suas quatro Canas de longe- escritas em Zurique de 20 a 25 de maio de 1917, das quais o jornal bolchevique Pravda ousou publicar apenas a primeira, tanto esses escritos rompiam com as posies polticas ento defendidas pelos dirigentes bolcheviques de Petrogrado - Lenin exigia a ruptura imediata entre o soviete de Petrogrado e o governo provisrio, assim como a preparao ati-va da fase seguinte, a fase proletria da revoluo. Para Lenin, o surgimento dos sovietes era a demonstrao de que a revoluo j havia ultrapassado sua fase burguesa. Sem mais esperar, esses rgos revolucionrios deviam tomar o poder pela fora e pr fim  guerra imperialista, mesmo pagando o preo de uma guerra civil, inevitvel a todo o processo revolucionrio.
	De volta  Rssia em 3 de abril de 1917, Lenin continuou a defender suas posies extremadas. Em suas clebres Teses de abril, ele repetiu sua hostilidade incondicional  repblica parlamentar e ao processo democrtico. Acolhida com estupefao e hostilidade pela maioria dos dirigentes bolcheviques de Petrogrado, as idias de Lenin progrediram rapidamente, especialmente entre os novos recrutas do Partido, os que Stalin chamava, com justia, de os praktiki (os praticantes) em oposio aos tericos. Em alguns meses, os elementos plebeus, entre os quais os soldados-camponeses, ocupavam um lugar central, sufocaram os elementos urbanizados e intelectuais, velhos de guerra nas lutas sociais institucionalizadas. Portadores de grande violncia, enraizada na cultura camponesa e exacerbada por trs anos de guerra, ainda no prisioneiros do dogma marxista do qual eles nada conheciam, esses militantes de origem popular, pouco formados politicamente, representantes tpicos de um bolchevismo plebeu que ia to logo fortemente distinguir-se do bolchevismo terico e intelectual dos bolcheviques originais, nunca se punham a questo: uma etapa burguesa seria necessria ou no para atingir o socialismo? Defensores da ao direta, do golpe de fora, eles eram os mais exaltados ativistas de um bolchevismo em que os debates tericos cederam lugar  doravante nica questo na ordem do dia, a da tomada do poder.
	Entre uma base plebeia cada vez mais impaciente, pronta para a aventura - os marinheiros da base naval de Kronstadt, na costa de Petrogrado, algumas unidades da guarnio da capital, as Guardas Vermelhas dos bairros operrios de Vyborg -, e os dirigentes temerosos do fracasso de uma insurreio prematura, destinada a ser esmagada, o caminho do leninismo permanecia estreito. Durante todo o ano de 1917, o Partido Bolchevique conservou-se, ao contrrio do que diz uma idia bastante difundida, profundamente dividido, oscilando entre os excessos de uns e a reticncia de outros. A famosa disciplina do Partido era bem mais um ato de f do que uma realidade. No incio do ms de julho de 1917, os excessos da base, impaciente por bater-se com as foras governamentais, quase prevaleceram no Partido Bolchevique, declarado ilegal logo em seguida s manifestaes sangrentas de 3 a 5 de julho em Petrogrado, e cujos dirigentes foram presos ou, como Lenin, obrigados ao exlio.
	A impotncia do governo na soluo dos grandes problemas, a falncia das instituies e das autoridades tradicionais, o desenvolvimento dos movimentos sociais e o fracasso da tentativa de putsch militar do general Kornilov permitiram ao Partido Bolchevique reerguer-se, em agosto de 1917, em uma situao propcia para a tomada do poder atravs de uma insurreio armada.
	Mais uma vez, foi decisivo o papel pessoal de Lenin enquanto terico e estrategista da tomada do poder. Nas semanas que precederam o Golpe de Estado bolchevique de 25 de outubro de 1917, Lenin estabeleceu todas as etapas de um Golpe de Estado militar, que no podia ser ultrapassado por uma agitao imprevista das massas nem ser freado pelo legalismo revolucionrio dos dirigentes bolcheviques, tais como Zinoviev ou Kamenev, que, escaldados pela experincia amarga dos dias de julho, desejavam subir ao poder com uma maioria plural de socialistas-revolucionrios e de social-democratas de diversas tendncias, majoritrios nos sovietes. Do seu exlio finlands, Lenin no parava de enviar ao Comit Central do Partido Bolchevique cartas e artigos convocando  insurreio.
	Propondo uma paz imediata e dando terra aos camponeses, os bolcheviques estabelecero um poder que ningum derrubar, escreveu Lenin. Ser intil esperar por uma maioria formal em favor dos bolcheviques. Nenhuma revoluo espera por isso. A Histria no nos perdoar se no tomarmos j o poder.
	Esses apelos deixavam ctica a maior parte dos dirigentes bolcheviques. Por que apressar as coisas, uma vez que a situao se radicalizava a cada dia mais? No bastaria unir-se s massas encorajando a sua violncia espontnea, deixar agirem as forcas corrosivas dos movimentos sociais, esperar a reunio do II Congresso Panrusso dos Sovietes, previsto para 20 de outubro? Os bolcheviques tinham todas as chances de obter uma maioria relativa nessa assembleia em que os delegados dos sovietes dos grandes centros operrios e dos Comits de soldados estavam muito bem representados em relao aos sovietes rurais onde dominavam os socialistas-revolucionrios. Ora, se para Lenin a transferncia do poder fosse feita atravs do voto no Congresso dos Sovietes, o governo ento escolhido seria um governo de coalizo, em que os bolcheviques deveriam partilhar o poder com as outras formaes socialistas. Lenin, que reclamava h meses todo o poder para os seus bolcheviques, queria antes de tudo que os prprios bolcheviques se apoderassem do poder atravs de uma insurreio militar, antes da convocao do II Congresso Panrusso dos Sovietes. Pois ele sabia que os outros partidos socialistas condenariam o Golpe de Estado insurrecional e que no caberia a estes ltimos mais do que passar para a oposio, deixando todo o poder aos bolcheviques.
	Em 10 de outubro, de volta a Petrogrado clandestinamente, Lenin reuniu 12 dos 21 membros do Comit Central do Partido Bolchevique. Aps dez horas de discusses, ele conseguiu convencer a maioria dos presentes a votar a mais importante deciso tomada pelo Partido: dar incio a uma insurreio armada o mais brevemente possvel. Essa deciso foi aprovada por dez votos contra dois - os de Zinoviev e de Kamenev, resolutamente determinados na idia de que nada deveria ser empreendido antes da reunio do II Congresso dos Sovietes. Em 16 de outubro, Trotski constituiu, apesar da oposio dos socialistas moderados, uma organizao militar - o Comit Militar Revolucionrio de Petrogrado (CMRP), teoricamente proveniente do soviete de Petrogrado, mas cuja administrao era de fato formada por bolcheviques - encarregada de conduzir a tomada do poder atravs de uma insurreio militar, opondo-se a uma revolta popular espontnea e anarquista suscetvel de sobrepujar o Partido Bolchevique.
	Como desejava Lenin, o nmero de participantes diretos da Grande Revoluo Socialista de Outubro de 1917 foi bastante limitado: poucos milhares de soldados da guarnio, marinheiros de Kronstadt, Guardas Vermelhas aliadas ao CMRP e umas poucas centenas de militantes bolcheviques dos Comits de fbrica. Os raros combates e o nmero insignificante de vtimas atestavam a facilidade de um Golpe de Estado esperado, cuidadosamente preparado e perpetrado praticamente sem oposio. A tomada do poder fez-se, significativamente, em nome do CMRP. Assim, os dirigentes bolcheviques atribuam a totalidade do poder a uma instncia que no havia sido delegada por ningum, exceto pelo Comit Central Bolchevique, e que, portanto, no era de modo algum dependente do Congresso dos Sovietes.
	A estratgia de Lenin mostrou-se correta: diante de um fato j consumado, os socialistas moderados, aps denunciarem a conspirao militar organizada pelas costas dos sovietes, abandonaram o II Congresso dos Sovietes. Os bolcheviques, a partir de ento mais numerosos ao lado de seus nicos aliados - os membros do pequeno grupo socialista-revolucionrio de esquerda -, ratificaram o seu Golpe de Estado junto aos deputados ainda presentes no Congresso, votando um texto redigido por Lenin, que atribua todo o poder aos sovietes. Essa resoluo puramente formal fez com que os bolcheviques tornassem credvel uma fico que iria iludir vrias geraes de crdulos: eles governavam em nome do povo no pas dos sovietes. Algumas horas mais tarde, o Congresso homologou, antes de se encerrarem os trabalhos, a criao do novo governo bolchevique - o Conselho dos comissrios do povo, presidido por Lenin - e aprovou os decretos sobre a paz e sobre a terra, primeiros atos do novo regime.
	Rapidamente, multiplicaram-se os equvocos e os conflitos entre o novo poder e os movimentos sociais, que haviam agido de maneira autnoma, como forcas corrosivas da antiga ordem poltica, econmica e social. Primeiro equvoco: relativo  revoluo agrria. Os bolcheviques, que sempre preconizaram a estatizao das terras, foram obrigados, dentro de uma relao de foras que no lhe era favorvel, a adotar, ou melhor, a roubar o programa socialista-revolucionrio e aprovar a distribuio das terras aos camponeses. O decreto sobre a terra - cujo principal dispositivo proclamava que a propriedade privada da terra est abolida sem direito a indenizao, estando todas as terras  disposio dos Comits agrrios locais, para a sua distribuio - limitava-se, na verdade, a legitimar o que vrias comunidades camponesas j haviam praticado desde o vero de 1917: a brutal apropriao das terras pertencentes aos grandes proprietrios rurais e aos camponeses abastados, os kulaks. Obrigados momentaneamente a aderir a essa revoluo camponesa autnoma que havia facilitado de modo inequvoco sua subida ao poder, os bolcheviques s viriam retomar seu programa algumas dcadas mais tarde. A coleti-vizao forada do campo, apogeu do confronto entre o regime oriundo de Outubro de 1917 e o campesinato, seria a resoluo trgica do equvoco de 1917.
	Segundo equvoco: as relaes do Partido Bolchevique com todas as instituies - Comits de fbrica, sindicatos, partidos socialistas, Comits de bairro, Guardas Vermelhas e, sobretudo, sovietes - que tinham participado da destruio das instituies tradicionais, alm de terem lutado pela afirmao e a extenso de sua prpria competncia. Em poucas semanas, essas instituies foram despojadas de seu poder, subordinadas ao Partido Bolchevique ou mesmo eliminadas. O poder aos sovietes, sem dvida a palavra de ordem mais popular na Rssia de Outubro de 1917, tornou-se, num passe de mgica, o poder do Partido Bolchevique sobre os sovietes. Quanto ao controle operrio, outra importante reivindicao daqueles em nome dos quais os bolcheviques pretendiam agir - os proletrios de Petrogrado e de outros grandes centros industriais -, foi rapidamente descartado em nome do controle do Estado, supostamente operrio, sobre as empresas e os trabalhadores. Uma incompreenso mtua instalou-se entre o mundo operrio - atormentado pelo desemprego, pela degradao contnua de seu poder de compra e pela fome - e o Estado preocupado com a eficcia econmica. Desde o ms de dezembro de 1917, o novo regime teve de enfrentar uma onda de reivindicaes operrias e de greves. Em poucas semanas, os bolcheviques perderam boa parte da confiana que o conjunto dos trabalhadores havia neles depositado durante o ano de 1917.
	Terceiro equvoco: as relaes do novo poder com as naes do ex-Imprio Czarista. O Golpe de Estado bolchevique acelerou a tendncia centrfuga que os novos dirigentes davam ares de, a princpio, afianar. Reconhecendo a igualdade e a soberania - o direito  autodeterminao,  federao e  sucesso - dos povos do antigo imprio, os bolcheviques pareciam convidar os povos algenos a se emanciparem da tutela do poder central russo. Em poucos meses, poloneses, finlandeses, blticos, ucranianos, georgianos, armnios e azeris proclamaram sua independncia. Ultrapassados, os bolcheviques pouco depois subordinaram essa autodeterminao  necessidade de conservarem o trigo ucraniano, o petrleo e os minerais do Cucaso, ou seja, os interesses vitais do novo Estado, que rapidamente se afirmou, pelo menos do ponto de vista territorial, como um herdeiro direto do ex-Imprio, mais ainda do que o prprio governo provisrio.
	A interpenetrao de revolues sociais e nacionais multiformes e de uma prtica poltica especfica que exclua completamente a partilha do poder devia rapidamente conduzir a um confronto, gerador de violncia e de terror, entre o novo governo e amplos segmentos da sociedade.
	
	2. O Brao Armado da Ditadura do Proletariado
	
	O novo poder surge como uma construo complexa: uma fachada, o poder dos sovietes, formalmente representado pelo Comit Executivo Central; um governo legal, o Conselho dos Comissrios do Povo, que se esfora para adquirir uma legitimidade tanto internacional quanto interna; e uma organizao revolucionria, o Comit Militar Revolucionrio de Petrogrado (CMRP), a estrutura operacional no centro do dispositivo de tomada do poder. Feliks Dzerjinski caracterizava este Comit, no qual ele prprio desempenhou um papel decisivo, da seguinte maneira: Uma estrutura gil, flexvel, prontamente operacional, sem futilidade legal. Nenhuma restrio para agir, para bater nos inimigos do brao armado da ditadura do proletariado.
	E como funcionava, desde os primeiros dias do novo regime - segundo a expresso retomada da figura de linguagem de Dzerjinski, utilizada mais tarde para qualificar a polcia poltica bolchevique, a Tcheka - o brao armado da ditadura do proletariado? De maneira simples e diligente. O CMRP era composto por cerca de 60 membros, dos quais 48 eram bolcheviques, e os outros eram socialistas-revolucionrios de esquerda e anarquistas; ele estava submetido  direo formal de um presidente, um socialista-revolucionrio de esquerda, Lazimir, devidamente assessorado por quatro suplentes bolcheviques, entre os quais figuravam Antonov-Ovseenko e Dzerjinski. Na verdade, cerca de 20 pessoas redigiram e assinaram, sob o ttulo de Presidente ou de Secretrio, as quase seis mil ordens emitidas pelo CMRP, em geral em pequenos pedaos de papel escritos a lpis, durante seus 53 dias de existncia.
	A mesma simplicidade operacional valia para a difuso das diretivas e execuo de ordens: o CMRP agia pelo intermdio de uma rede com cerca de mil comissrios, nomeados junto s mais diversas organizaes, tais como unidades militares, sovietes, Comits de bairro e administraes. nicos responsveis diante do CMRP, esses comissrios frequentemente tomavam decises sem o aval do governo nem o do Comit Central bolchevique. A partir do dia 26 de outubro (8 de novembro),! na ausncia de todos os grandes lderes bolcheviques, ocupados com a formao do governo, obscuros comissrios, que permanecem annimos, decidiram recrudescer a ditadura do proletariado com as seguintes medidas: interdio dos panfletos contra-revolu-cionrios; fechamento dos sete principais jornais da capital, tanto os burgueses quanto os socialistas moderados; controle da rdio e do telgrafo, e o estabelecimento de um projeto de requisio de apartamentos e automveis privados. O fechamento dos jornais foi legalizado dois dias mais tarde atravs de um decreto do governo e, uma semana mais tarde, no sem cidas discusses, pelo Comit Executivo Central dos Sovietes.
	Ainda no muito seguros de sua fora, os dirigentes bolcheviques encorajaram, num primeiro momento - e segundo a ttica que lhe fora favorvel no decorrer de 1917 -, o que eles chamavam de espontaneidade revolucionria das massas. Respondendo a uma delegao de representantes dos sovietes rurais, vindos das provncias em busca de informaes junto ao CMRP sobre as medidas a serem tomadas para evitar-se a anarquia, Dzerjinski explicou que temos agora a obrigao de romper com a antiga ordem. Ns, bolcheviques, no somos numerosos o suficiente para cumprir essa tarefa histrica.  necessrio deixar agir livremente a espontaneidade revolucionria das massas que lutam por sua emancipao. Em um segundo momento, ns, bolcheviques, mostraremos os caminhos a serem seguidos. So as massas que falam atravs do CMRP; so elas que agem contra os inimigos da classe, contra os inimigos do povo. Nosso nico papel aqui  o de dirigir e canalizar o dio e o desejo legtimo de vingana dos oprimidos contra os opressores.
	Alguns dias antes, na reunio do CMRP de 29 de outubro (10 de novembro), entre os presentes, algumas vozes annimas haviam evocado a necessidade de lutar com mais energia contra os inimigos do povo, uma frmula que conheceria um grande sucesso nos meses, anos e dcadas futuras, e que foi retomada numa proclamao do CMRP datada de 13 de novembro (26 de novembro): Os funcionrios de alto escalo na administrao do Estado, dos bancos, do Tesouro, das ferrovias e dos correios e telgrafos esto sabotando as medidas tomadas pelo governo bolchevique. Doravante, essas pessoas so declaradas inimigas do povo. Seus nomes sero publicados em todos os jornais, e as listas de inimigos do povo sero afixadas em todos os locais pblicos. Alguns dias aps a instituio dessas listas de proscrio, uma nova proclamao: Todos os indivduos suspeitos de sabotagem, de especulao ou de monoplio so suscetveis de serem imediatamente detidos como inimigos do povo e serem transferidos para as prises de Kronstadt.
	Em poucos dias, o CMRP introduziu duas noes particularmente amedrontadoras: a de inimigo do povo e a de suspeito.
	Em 28 de novembro (10 de dezembro), o governo institucionalizou a noo de inimigo do povo; um decreto, assinado por Lenin, estipulava que os membros das instncias dirigentes do Partido Constitucional Democrata, partido dos inimigos do povo, so declarados fora da lei, passveis de priso imediata e de comparecimento diante dos tribunais revolucionrios. Esses tribunais acabavam de ser institudos pelo decreto n l sobre os tribunais. Segundo os termos desse texto, estavam abolidas todas as leis que estivessem em contradio com os decretos do governo operrio e campons assim como com os programas polticos dos Partidos Social-Democrata e Socialista Revolucionrio. Enquanto era aguardada a redao do novo Cdigo Penal, os juizes tinham toda a liberdade de apreciar a validade da legislao existente em funo da ordem e da legalidade revolucionrias, uma noo to vaga, que permitia todo tipo de abuso. Os tribunais do Antigo Regime foram suprimidos e substitudos pelos tribunais populares e tribunais revolucionrios, competentes para todos os crimes e delitos cometidos contra o Estado Proletrio, a sabotagem, a espionagem, os abusos de funo e outros crimes contra-revolucionrios. Como reconhecia Kurski, comissrio do povo para a Justia de 1918 a 1928, os tribunais revolucionrios no eram tribunais no sentido habitual, burgus, do termo, mas tribunais da ditadura do proletariado, rgos de luta contra a contra-revoluo, mais preocupados em erradicar do que em julgar. Entre os tribunais revolucionrios figurava um tribunal revolucionrio para a imprensa, encarregado de julgar os delitos de imprensa e suspender toda publicao que semeasse a perturbao nos espritos, publicando notcias voluntariamente falsas.?
	Enquanto apareciam categorias inditas (suspeitos, inimigos do povo), instauradas como os novos dispositivos judicirios, o Comit Militar Revolucionrio de Petrogrado continuava a estruturar-se. Em uma cidade onde os estoques de farinha eram inferiores a um dia de racionamento miservel - um quarto de quilo de po por adulto -, a questo do abastecimento era, obviamente, primordial.
	Em 4 (17) de novembro foi criada uma Comisso para o Abastecimento, cuja primeira proclamao acusava as classes ricas que se aproveitavam da misria e afirmava:  chegada a hora de requisitar todo o excedente dos ricos, e tambm, por que no?, seus bens. Em 11 (24) de novembro, a Comisso para o Abastecimento decidiu enviar, imediatamente, destacamentos especiais compostos por soldados, marinheiros, operrios e Guardas Vermelhas nas provncias produtoras de cereais, a fim de obter os produtos alimentares de primeira necessidade para Petrogrado e para o Fronte. Essa medida tomada por uma comisso do CMRP prefigurava a poltica de requisio praticada, durante cerca de trs anos, pelos destacamentos do exrcito do abastecimento, e que viria a ser o fator essencial nos confrontos entre o novo pcder e os camponeses, com a consequente gerao de violncia e terror.
	A Comisso de Investigao Militar, criada em 10 (23) de novembro, foi encarregada da priso dos oficiais contra-revolucionrios (denunciados, com freqncia, por seus prprios comandados), dos membros dos partidos burgueses e dos funcionrios suspeitos de sabotagem. Rapidamente, essa comisso ocupou-se dos mais diversos casos. No clima de revolta de uma cidade atingida pela fome - onde destacamentos das Guardas Vermelhas e de soldados improvisados inquiriam, extorquiam e pilhavam em nome da revoluo, protegidos por um mandato incerto, assinado por um tal comissrio - a cada dia, centenas de indivduos compareciam diante da Comisso pelos mais diversos tipos de delitos: pilhagem, especulao, monoplio de produtos de primeira necessidade, mas tambm estado de embriaguez e por pertencer a uma classe hostil.
	O apelo dos bolcheviques em favor da espontaneidade revolucionria das massas era uma arma de manuseio delicado. Os acertos de contas e os atos violentos multiplicaram-se, em particular os roubos  mo armada e a pilhagem de lojas, especialmente as que vendiam lcool e as adegas do Palcio de Inverno. Com o decorrer dos dias, o fenmeno tomou uma tal proporo, que, por sugesto de Dzerjinski, o CMRP decidiu criar uma comisso de luta contra a bebedeira e as desordens. Em 6 (20) de dezembro, essa comisso declarou a cidade de Petrogrado em estado de stio e decretou o toque de recolher, com o objetivo de pr fim  revolta e  desordem iniciadas por alguns elementos obscuros e mascarados que se diziam revolucionrios.
	Na realidade, o governo temia - mais do que essas revoltas espordicas - a extenso da greve dos funcionrios, que durava desde os dias que se seguiram ao Golpe de Estado de 25 de outubro (7 de novembro). Foi essa ameaa que se constituiu como o pretexto para a criao, em 7 (20) de dezembro, da Vserossiskaa tchrezvytchanaa komissiapo bor'be s kontr'-revoliutsii, spekuliat-sie i sabotagem - a Comisso Panrussa Extraordinria de Luta Contra a Contra-Revoluo, a Especulao e a Sabotagem -, que entraria para a Histria com as iniciais Vetcheka, ou de forma abreviada, Tcheka.
	Alguns dias antes da criao da Tcheka, o governo havia decidido, depois de alguma hesitao, dissolver o CMRP. Estrutura operacional provisria, fundada s vsperas da insurreio para dirigir as operaes de campo, o CMRP cumprira as tarefas que lhe haviam sido reservadas. Ele havia permitido a tomada do poder e a defesa do novo regime at o momento em que este ltimo pudesse criar seu prprio aparelho de Estado. Ele devia, a partir de ento - para evitar a confuso dos poderes e o cruzamento de competncias - transferir suas prerrogativas ao governo legal, o Conselho dos Comissrios do Povo.
	Mas como dispensar o brao armado do proletariado, esse instrumento considerado, em determinado momento, como fundamental pelos dirigentes comunistas? Durante a reunio de 6 de dezembro, o governo encarregou o camarada Dzerjinski de estabelecer uma comisso especial para examinar os meios de lutar, com a maior energia revolucionria possvel, contra a greve geral dos funcionrios e determinar os mtodos de suprimir a sabotagem. A escolha do camarada Dzerjinski no somente no suscitou nenhum tipo de discusso, como tambm pareceu evidente. Alguns dias antes, Lenin, eterno apreciador dos paralelos entre a Grande Revoluo - francesa - e a revoluo russa de 1917, confidenciara a seu secretrio, V. Bontch-Bruevitch, a necessidade de encontrar com urgncia nosso Fouquier-Tinvillefreqncia, para castigar toda essa ral contra-revolucionria. Em 6 de dezembro, a escolha de um slido jacobino proletrio, retomando uma outra expresso de Lenin, recaiu com unanimidade sobre Feliks Dzerjinski, que se tornou em poucas semanas, atravs de sua ao enrgica frente o CMRP, o grande especialista nas questes de segurana. Alis, explicou Lenin a Bontch-Bruevitch, de ns todos, foi Feliks quem passou mais tempo nas celas czaristas e quem mais desafiou a Okhranka [a polcia poltica czarista]. Ele sabe o que faz!
	Antes da reunio governamental de 7 (20) de dezembro, Lenin enviou uma nota a Dzerjinski:
	A respeito de seu relatrio de hoje, seria interessante compor um decreto com um prembulo deste tipo: a burguesia prepara-se para cometer os crimes mais abominveis, recrutando a escria da sociedade para organizar badernas. Os cmplices da burguesia, especialmente os funcionrios de alto escalo, os diretores dos bancos, etc., fazem sabotagens e organizam greves para minar as medidas do governo destinadas a pr em prtica a transformao socialista da sociedade. A burguesia no recua nem mesmo diante da sabotagem do abastecimento, condenando, dessa maneira, milhes de homens  fome. Medidas excepcionais devem ser tomadas para lutar contra os sabotado-res e os contra-revolucionrios. Como consequncia, o Conselho dos Comissrios do Povo decreta.. . 
	Na noite de 7 (20) de dezembro, Dzerjinski apresentou seu projeto ao Conselho dos Comissrios do Povo. Ele abriu sua interveno discorrendo sobre os perigos que ameaavam a revoluo no fronte interior:
	Devemos enviar a esse fronte - o mais perigoso e cruel dos frontes - os camaradas mais determinados, duros e slidos, sem muito esprito ponderador, prontos a se sacrificarem pela integridade da revoluo. Temos apenas de fazer 'justia'! Estamos em guerra no fronte mais cruel, pois o inimigo ataca mascarado, e  uma luta de morte! Eu proponho, eu exijo, que se crie um rgo que faa o acerto de contas com os contra-revolucionrios da maneira revolucionria, autenticamente bolchevique!
	Em seguida, Dzerjinski abordou o ncleo de sua interveno, que ns transcrevemos tal como aparece na ata da reunio:
	A Comisso tem como tarefa: 1) suprimir e liquidar toda tentativa e ato de contra-revoluo e de sabotagem, de quaisquer fronteiras que possam vir, e sobre todo o territrio da Rssia; 2) transferir todos os sabotadores e os contra-revolucionrios a um tribunal revolucionrio.
	A Comisso limita-se a uma investigao preliminar, uma vez que esta ltima  indispensvel  conduo de sua tarefa.
	A comisso est dividida em departamentos: 1) Informao; 2) Organizao; 3) Operao.
	A Comisso dispensar uma ateno toda especial aos casos relativos  imprensa,  sabotagem, aos KD [constitucionalistas-democratas], aos SR [socialistas-revolucionrios] de direita, aos sabotadores e aos grevistas.
	Medidas repressivas reservadas  Comisso: confisco de bens, expulso do domiclio, privao de cartes de racionamento, publicao de listas de inimigos do povo, etc.
	Resoluo: aprovar o projeto. Nomear a Comisso de Comisso Panrussa Extraordinria de Luta Contra a Contra-Revoluo, a Especulao e a Sabotagem. A ser publicado.
	Inicialmente, este texto fundador da polcia poltica sovitica suscita uma interrogao. Como interpretar a discordncia entre o discurso agressivo de Dzerjinski e a relativa modstia das atribuies conferidas  Tcheka? Os bolcheviques estavam prestes a concluir um acordo com os socialistas-revolucionrios de esquerda (seis de seus dirigentes entraram para o governo em 12 de dezembro), a fim de romper seu isolamento poltico, num momento em que lhes era necessrio lidar com a questo da convocao da Assembleia Constituinte, na qual eles eram minoritrios. Desse modo, eles adoraram uma postura mais modesta. Contrariamente  resoluo adotada pelo governo em 7 (20) de dezembro, nenhum decreto anunciando a criao da Tcheka e definindo o alcance de sua competncia foi publicado.
	Comisso extraordinria, a Tcheka iria prosperar e agir sem a menor base legal. Dzerjinski, que desejava, como Lenin, ter as mos livres, emitiu esta frase surpreendente:  a prpria vida quem mostra o caminho da Tcheka. A vida, ou seja, o terror revolucionrio das massas, a violncia das ruas que a maioria dos dirigentes bolcheviques encorajava abertamente na ocasio, esquecendo-se momentaneamente da profunda desconfiana que eles tinham em relao  espontaneidade popular.
	Em 19 (13) de dezembro, Trotski, Comissrio do povo para a Guerra, dirigindo-se aos delegados do Comit Central dos Sovietes, previu: Em menos de um ms, o terror, do mesmo modo que ocorreu durante a Grande Revoluo francesa, vai ganhar formas bastante violentas. No ser mais somente a priso, mas a guilhotina - essa notvel inveno da Grande Revoluo francesa, que tem como a maior vantagem reconhecida a de encurtar o homem em uma cabea - que estar pronta para os nossos inimigos.
	Algumas semanas mais tarde, tomando a palavra numa assembleia de operrios, Lenin mais uma vez invocou o terror, essa justia revolucionria de classe:
	O poder dos sovietes agiu como deveriam ter agido todas as revolues proletrias: ele acabou de uma vez por todas com a justia burguesa, esse instrumento das classes dominantes. [...] Os soldados e os operrios devem compreender que ningum os ajudar se eles no se ajudarem a si prprios. Se as massas no se levantarem espontaneamente, no conseguiremos nada. f...] Enquanto no aplicarmos o terror sobre os especuladores - uma bala na cabea, imediatamente - no chegaremos a lugar algum! 
	 verdade que esses apelos ao terror atiavam uma violncia que no havia esperado a subida dos bolcheviques ao poder para ser desencadeada. Desde o outono de 1917, milhares de grandes domnios rurais haviam sido saqueados pelos camponeses enraivecidos, e centenas de grandes proprietrios haviam sido massacrados. Na Rssia do vero de 1917, a violncia era onipre-sente. Essa violncia no era nova, mas os eventos do decorrer daquele ano permitiram a convergncia de vrias formas de violncia, presentes em estado latente: uma violncia urbana, reativa  brutalizao das relaes capitalistas no seio do mundo industrial; uma violncia camponesa tradicional; a violncia moderna da Primeira Guerra Mundial portadora de uma extraordinria regresso e de uma formidvel brutalizao das relaes humanas.  mistura dessas trs formas de violncia constitua um coquetel explosivo, cujo efeito podia ser devastador na conjuntura bastante particular da Rssia em processo de revoluo, marcada ao mesmo tempo pela falncia das instituies da ordem e da autoridade, pelo crescimento dos ressentimentos e das frustraes sociais durante muito tempo acumuladas e pela instrumentalizao poltica da violncia popular. Entre os citadinos e a populao rural, a desconfiana era recproca; para estes ltimos, a cidade era, mais do que nunca, o lugar do poder e da opresso. Para a elite urbana e para os revolucionrios profissionais, oriundos em sua imensa maioria da intelligentsia, os camponeses permaneciam, como escrevia Gorki, uma massa de pessoas metade selvagens cujos instintos cruis e o individualismo animal deviam ser submetidos  razo organizada da cidade. Ao mesmo tempo, os polticos e intelectuais estavam perfeitamente conscientes do fato de que era o desencadear das revoltas camponesas que havia abalado o governo provisrio, permitindo aos bolcheviques, minoritrios em grande parte do pas, se apoderarem do poder no vazio institucional ambiente.
	Entre o fim de 1917 e o comeo de 1918, nenhuma oposio ameaava seriamente o novo regime que, um ms aps o Golpe de Estado bolchevique, controlava a maior parte do norte e do centro da Rssia at o Mdio Volga, mas tambm um bom nmero de aglomeraes at mesmo no Cucaso (Baku) e na sia Central (Tachkent). E se a Ucrnia e a Finlndia haviam se separado, elas no demonstravam nenhuma inteno belicosa em relao ao poder bolchevique. A nica fora militar organizada antibolchevique era um pequeno exrcito de voluntrios, com a fora de cerca de trs mil homens, embrio do futuro exrcito branco, erguido no sul da Rssia pelos generais Alexeiev e Kornilov. Esses generais czaristas baseavam todas as suas esperanas nos cossacos da regio do Don e do Kuban. Os cossacos se diferenciavam radicalmente dos outros camponeses russos; seu principal privilgio, durante o Antigo Regime, era receber 30 hectares de terra em troca de um servio militar at a idade de 36 anos. Se eles no aspiravam adquirir novas terras, eles queriam conservar as que eles j possuam. Desejando, antes de tudo, salvar o seu estatuto e sua independncia, os cossacos, inquietos diante das declaraes bolcheviques culpando todos os kulaks, se juntaram s foras antibolchevi-ques na primavera de 1918.
	Pode-se falar de guerra civil a respeito das primeiras escaramuas ocorridas no sul da Rssia, no inverno de 1917 e na primavera de 1918, entre os vrios milhares de homens do exrcito de voluntrios e as tropas bolcheviques do general Sivers que mal contava com seis mil homens? O que  surpreendente, inicialmente,  o contraste entre os exguos efetivos engajados e a violncia inaudita da represso exercida pelos bolcheviques, no somente contra os militares capturados, mas tambm contra os civis. Instituda em junho de 1919 pelo general Denikin, comandante das forcas armadas do sul da Rssia, a Comisso de Investigao Sobre os Crimes Bolcheviques esforou-se no recenseamento, durante os poucos meses de atividade, das atrocidades cometidas pelos bolcheviques na Ucrnia, no Kuban, regio do Don e da Crimia. Os testemunhos recolhidos por essa comisso - que constituem a principal fonte do livro de S. P. Melgunov, O terror vermelho na Rssia, 1918-1924, o grande clssico sobre o terror bolchevique, publicado em Londres em 1924 -do conta das inmeras atrocidades perpetradas a partir de janeiro de 1918. Em Taganrog, os destacamentos do exrcito de Sivers haviam jogado 50 fidal-gotes e oficiais brancos, com os ps e os punhos atados, dentro de um alto-forno. Em Evpatria, vrias centenas de oficiais e burgueses foram amarrados e jogados ao mar, aps terem sido torturados. Violncias idnticas ocorreram na maior parte das cidades da Crimia ocupadas pelos bolcheviques: Sebastopol, Yalta, Aluchta, Simferopol. Mesmas atrocidades, a partir de abril-maio de 1918, nos grandes burgos cossacos rebelados. Os dossis bastante precisos da comisso de Denikin do conta de cadveres com as mos cortadas, ossos quebrados, cabeas decepadas, maxilares arrebentados, rgos genitais cortados.
	Entretanto, como observa Melgunov,  difcil de distinguir entre o que seria a prtica sistemtica de um terror organizado e o que aparece como 'excessos' descontrolados. At agosto-setembro de 1918, no h quase nenhuma meno de que a Tcheka local teria dirigido os massacres. Alis, at aquela altura dos acontecimentos, a rede de Tchekas permaneceu bastante dispersa. Os massacres, dirigidos conscientemente no apenas contra os combatentes do lado inimigo, mas tambm contra os civis inimigos do povo - assim, entre as 240 pessoas assassinadas em Yalta no incio do ms de maro de 1918, figuravam, alm de 165 oficiais, cerca de 70 polticos, advogados, jornalistas e professores -, foram quase sempre perpetrados por destacamentos armados, Guardas Vermelhas e outros elementos bolcheviques no especificados. Exterminar o inimigo do povo foi apenas o prolongamento lgico de uma revoluo ao mesmo tempo poltica e social em que uns eram os vencedores e os outros eram os vencidos. Essa concepo de mundo no havia aparecido bruscamente aps outubro de 1917, mas as posies tomadas pelos bolcheviques, bastante explcitas sobre esse ponto, haviam-na legitimado.
	Lembremos o que j havia escrito um jovem capito a respeito da revoluo em seu regimento, em maro de 1917, numa carta extremamente perspicaz: Entre ns e os soldados, o abismo  insondvel. Para eles, ns somos e permaneceremos barines [senhores]. Para eles, o que acaba de acontecer no  uma revoluo poltica, mas sim uma revoluo social, na qual eles so os vencedores e ns os vencidos. Eles nos dizem: 'Antes, vocs eram os barines, agora  a nossa vez de os sermos!' Eles tm a impresso de enfim se vingarem aps sculos de servido. 17
	Os dirigentes bolcheviques encorajavam tudo o que, nas massas populares, podia animar essa aspirao a uma vingana social que passava pela legitimao moral da delao, do terror, da guerra civil justa, segundo os termos de Lenin. Em 15 (28) de dezembro de 1917, Dzerjinski publicou nos Izvestia uma convocao convidando todos os sovietes a organizarem Tchekas. O resultado foi uma formidvel abundncia de comisses, destacamentos e outros rgos extraordinrios que as autoridades centrais tiveram muita dificuldade de controlar quando elas decidiram, alguns meses mais tarde, pr um fim  iniciativa das massas e organizar uma rede estruturada e centralizada de Tchekas.
	Em julho de 1918, Dzerjinski escreveu, caracterizando os seis primeiros meses de existncia da Tcheka: Foi um perodo de improvisao e de tatea-mento, durante o qual nossa organizao no esteve sempre  altura da situao. Naquela data, entretanto, o balano da ao da Tcheka como rgo de represso contra as liberdades j estava bastante pesado. E a organizao, que contava com uma pequena centena de pessoas em dezembro de 1917, havia multiplicado seus efetivos por 120, em seis meses!
	Evidentemente, o incio da organizao foi mais modesto. Em 11 de janeiro de 1918, Dzerjinski enviou um recado a Lenin: Encontramo-nos numa situao impossvel, apesar dos importantes servios j prestados. Nenhum financiamento. Trabalhamos dia e noite sem po, acar, ch, manteiga ou queijo. Tome alguma medida para raes decentes ou nos autorize a requisio junto aos burgueses. Dzerjinski havia recrutado uma centena de homens, entre eles muitos antigos camaradas de clandestinidade, em sua maioria poloneses e baltas que haviam quase todos trabalhado no Comit Militar Revolucionrio de Petrogrado, sendo que entre eles j figuravam os futuros burocratas da GPU dos anos 20 e do NKVD dos anos 30: Latsis, Menjinski, Messing, Moroz, Peters, Trilisser, Unchlicht e lagoda.
	A primeira ao da Tcheka foi interromper a greve dos funcionrios de Petrogrado. O mtodo foi expeditivo - priso dos mentores - e a justificativa, simples: Quem no quer trabalhar com o povo no tem lugar junto dele, declarou Dzerjinski, que mandou prender um bom nmero de deputados socialistas-revolucionrios e mencheviques, eleitos pela Assembleia Constituinte. Esse ato arbitrrio foi rapidamente condenado pelo comissrio do povo para a Justia, Steinberg, um socialista-revolucionrio de esquerda que se juntara ao governo havia alguns dias. Esse primeiro incidente entre a Tcheka e a Justia levantava a questo, capital, do estatuto extralegal dessa polcia poltica.
	Para o que serve um Comissariado do Povo para a Justia?, perguntava ento Steinberg a Lenin. Seria melhor cham-lo de 'Comissariado do Povo para o Extermnio Social', e o negcio ser entendido!
	- Excelente idia - respondeu Lenin. -  exatamente por esse ngulo que eu vejo a coisa. Infelizmente, no podemos cham-la assim! 
	Naturalmente, Lenin arbitrou o conflito entre Steinberg, que exigia uma estrita subordinao da Tcheka  Justia, c Dzerjinski, que se insurgia contra a futilidade legal da velha escola do Antigo Regime, em favor deste ltimo. A Tcheka s deveria responder por seus atos ao governo.
	O dia 6 (19) de janeiro de 1918 marcou uma etapa importante no recru-descimento da ditadura bolchevique. Na madrugada desse dia, a Assembleia Constituinte eleita em novembro-dezembro de 1917 - na qual os bolcheviques estavam em minoria, j que dispunham apenas de 175 deputados do total de 700 eleitos - foi dispersada pela fora, aps ter funcionado por apenas um dia. Contudo, esse ato arbitrrio no despertou nenhuma reao notvel no pas. Uma pequena manifestao organizada para protestar contra a dissoluo foi reprimida pela tropa. Houve vinte mortos, pesado tributo de uma experincia democrtica parlamentar com apenas poucas horas de durao.
	Nos dias e semanas que se seguiram  dissoluo da Assembleia Constituinte, a posio do governo bolchevique em Petrogrado tornou-se ainda mais desconfortvel, no exato momento em que Trotski, Kamenev, lofF e Radek negociavam, em Brest-Litovsk, as condies de paz com as delegaes dos imprios centrais. Em 9 de janeiro de 1918, o governo consagrou a ordem do dia  questo de sua transferncia para Moscou.^
	O que menos inquietava os dirigentes bolcheviques era a ameaa alem - o armistcio sustentava-se desde 15 (28) de dezembro - mas a de uma insurreio operria. Com efeito, entre os operrios, que dois meses antes os haviam apoiado, crescia o descontentamento. Com a desmobilizao e o fim dos comandos militares, as empresas despediam s dezenas de milhares; o agravamento das dificuldades de abastecimento havia causado a queda da rao coti-diana de po para pouco mais de cem gramas. Incapaz de reverter a situao, Lenin culpava os monopolizadores e os especuladores, designados como bodes expiatrios. Cada fbrica, cada companhia deve organizar destacamentos de requisio.  necessrio mobilizar para a busca de comida no somente os voluntrios, mas todo mundo, sob pena de confisco imediato do carto de racionamento, escreveu Lenin, em 22 de janeiro (3 de fevereiro) de 1918.
	A nomeao de Trotski, de volta de Brest-Litovsk em 31 de janeiro de 1918, chefiando uma Comisso Extraordinria Para o Abastecimento e o Transporte, era um signo exato da importncia decisiva concedida pelo governo  caa de provises, primeiro passo da ditadura da proviso. Foi a essa comisso que Lenin props, em meados de fevereiro, um projeto de decreto que at os membros desse organismo - entre os quais figurava, alm de Trotski, Tsiurupa, comissrio do povo para o Abastecimento - julgaram oportuno retirar. O texto preparado por Lenin previa que todos os camponeses estariam obrigados a entregarem seus excedentes contra um recibo. Em caso de no-entrega nos prazos determinados, os contraventores seriam fuzilados. Quando lemos esse projeto, ficamos embasbacados, escreveu Tsiurupa em suas memrias. Aplicar um tal decreto teria conduzido a execues em massa. Finalmente, o projeto de Lenin foi abandonado. 
	Entretanto, esse episdio  bastante revelador. Desde o incio do ano de 1918, Lenin, encurralado no impasse produzido por sua poltica, inquieto com a situao catastrfica de abastecimento dos grandes centros industriais -considerados como nicas ilhas bolcheviques em meio a um oceano campons -, estava pronto a tudo para tomar os cereais antes mesmo de modificar uma vrgula em sua poltica. Entre os camponeses, que desejavam guardar todos os frutos de seu trabalho e rejeitavam toda e qualquer ingerncia de uma autoridade exterior, e o novo regime, que queria impor sua autoridade, recusando-se a compreender o funcionamento dos circuitos econmicos, e que aspirava - e pensava - controlar o que lhe parecia ser somente uma manifestao de anarquia social, o conflito era inevitvel.
	Em 21 de fevereiro de 1918, diante do avano fulminante dos exrcitos alemes, consecutivo  ruptura dos colquios de Brest-Litovsk, o governo proclamou a Ptria socialista em perigo. O apelo  resistncia aos invasores era acompanhado de uma convocao ao terror de massa: Todo agente inimigo, especulador, hooligan [baderneiro], agitador contra-revolucionrio, espio alemo, ser imediatamente fuzilado. Essa proclamao tornava a instaurar a lei marcial nas operaes militares. Com a concluso do acordo de paz, em 3 de maro de 1918 em Brest-Litovsk, ela tornou-se caduca. Legalmente, a pena de morte s foi restabelecida na Rssia em 16 de junho de 1918. Entretanto, a partir de fevereiro de 1918, a Tcheka procedeu a vrias execues sumrias fora das zonas de operaes militares.
	Em 10 de maro de 1918, o governo deixou Petrogrado por Moscou, que foi promovida  capital. A Tcheka instalou-se prximo ao Kremlin, Rua Bolchaia-Lubianka, nos prdios de uma companhia de seguros que ela iria ocupar, sob suas sucessivas siglas - GPU, NKVD, MVD, KGB - at a queda do regime sovitico. O nmero de tchekistas trabalhando em Moscou passou de 600 em maro para dois mil em julho de 1918, sem contar as tropas especiais. Cifra considerada razovel, quando se sabe que o Comissariado do Povo Para o Interior, encarregado de dirigir o imenso aparelho dos sovietes locais em todo o pas, contava, nessa mesma data, com apenas 400 funcionrios!
	A Tcheka lanou sua primeira operao de grande envergadura na noite do 11 ao 12 de abril de 1918: mais de mil homens de suas tropas especiais tomaram de assalto em Moscou cerca de 20 casas mantidas por anarquistas. No fim de vrias horas de um disputado combate, 520 anarquistas foram presos, sendo que 25 entre eles foram sumariamente executados como bandidos, uma denominao que, a partir de ento, serviria para designar operrios em greve, desertores rugindo do servio militar ou camponeses rebelados contra as requisies.
	Aps este primeiro sucesso, que se seguiu de outras operaes de pacificao, tanto em Moscou quanto em Petrogrado, Dzerjinski solicitou, em carta dirigida ao Comit Executivo Central, em 29 de abril de 1918, um considervel aumento nos recursos da Tcheka: No momento atual, ele escreveu,  inevitvel que a Tcheka tenha um crescimento exponencial, diante da multiplicao da oposio contra-revolucionria por todos os lados. 
	Com efeito, o momento atual ao qual Dzerjinski fazia referncia aparece como um perodo decisivo na instaurao da ditadura poltica e econmica e no reforo da represso contra uma populao cada vez mais hostil aos bolcheviques. Desde outubro de 1917, essa populao no havia conhecido nenhuma melhora em seu cotidiano nem salvaguardado as liberdades fundamentais adquiridas no decorrer de 1917. nicos entre todos os polticos a deixarem os camponeses se apossarem das terras cobiadas por tanto tempo, os bolcheviques tinham se transformado, para eles, nos comunistas que lhes tomavam os frutos de seu trabalho. Sero os mesmos?, se perguntavam inmeros camponeses, fazendo, em suas queixas, a distino entre os bolcheviques que lhes haviam dado a terra e os comunistas que extorquiam o trabalhador honesto, lhe roubando at mesmo a camisa do corpo.
	A primavera de 1918 foi, de fato, um momento-chave, em que as apostas ainda no haviam terminado; os sovietes, que no haviam ainda sido silenciados e transformados em simples rgos da administrao estatal, eram o local de verdadeiros debates polticos entre os bolcheviques e os socialistas moderados. Os jornais de oposio, ainda que perseguidos cotidianamente, continuavam a existir. A vida poltica local conhecia uma abundncia de instituies concorrentes. Durante esse perodo, marcado pela piora das condies de vida e pela total ruptura dos circuitos de trocas econmicas entre cidade e campo, socialistas-revolucionrios e mencheviques obtiveram inegveis vitrias polticas. No decorrer das eleies para a renovao dos sovietes, apesar das presses e manipulaes, eles venceram em 19 das 30 capitais canto-nais do interior do pas onde houve eleies e os resultados foram tornados pblicos.
	Diante desse quadro, o governo bolchevique reagiu atravs do recrudes-cimento da ditadura, tanto no plano econmico quanto no poltico. Os circuitos econmicos de distribuio estavam interrompidos, tanto no que concerne aos recursos, em razo da espetacular degradao das vias de comunicao, em particular a ferroviria, como tambm em relao s motivaes, pois a ausncia de produtos manufaturados no incitava os camponeses  venda. O problema vital era o de assegurar o abastecimento do exrcito e das cidades, local do poder e sede do proletariado. Duas possibilidades eram oferecidas ao bolcheviques: ou restabelecer um mercado aparente numa economia arruinada, ou utilizar a fora. Eles escolheram a ltima opo, persuadidos da necessidade de prosseguir com a luta pela destruio da antiga ordem.
	Tomando a palavra em 29 de abril de 1918, diante do Comit Executivo Central dos Sovietes, Lenin declarou sem rodeios: Sim, quando se tratou de derrubar os grandes proprietrios rurais, os camponeses abastados e os pequenos proprietrios estiveram do nosso lado. Mas, agora, nossos caminhos divergem. Os pequenos proprietrios tm horror  organizao e  disciplina.  chegada a hora de levarmos adiante uma batalha cruel e sem perdo contra esses pequenos proprietrios, esses camponeses abastados.  Alguns dias mais tarde, o comissrio do povo para o abastecimento acrescentou, dentro da mesma assembleia: Vou dizer abertamente: trata-se propriamente de uma guerra e  somente com o uso de fuzis que obteremos os cereais. E Trotski ainda disse mais: Nosso partido  a favor da guerra civil. A guerra civil  luta pelo po... Viva a guerra civil!
	Citemos um ltimo texto, escrito em 1921 por um outro dirigente bolchevique, Karl Radek, que esclarece perfeitamente a poltica bolchevique na primavera de 1918, ou seja, vrios meses antes do desenvolvimento do confronto armado que oporia, durante dois anos, Vermelhos e Brancos: O campons havia recebido a terra h pouqussimo tempo, acabava de voltar do fronte para a casa, havia guardado suas armas, e sua atitude em relao ao Estado podia ser resumida assim: para que serve o Estado? Para ele, nenhuma utilidade! Se tivssemos decidido introduzir um imposto em espcie, no teramos conseguido nada, pois no tnhamos um aparelho de Estado, o antigo tinha sido destrudo, e os camponeses no nos teriam dado nada se no os forssemos a faz-lo. Nossa tarefa, no incio de 1918, era simples; tnhamos de fazer com que os camponeses compreendessem duas coisas elementares: o Estado tinha direitos sobre uma parte dos produtos do campo para as suas prprias necessidades, e ele tinha a fora para fazer valer os seus direitos. 
	Em maio-junho de 1918, o governo bolchevique tomou duas medidas decisivas que inauguraram o perodo de guerra civil comumente conhecido como comunismo de guerra. Em 13 de maio de 1918, um decreto atribuiu poderes extraordinrios ao comissrio do povo para o Abastecimento, encarregado de requisitar os produtos alimentares e organizar um verdadeiro exrcito para o abastecimento. Em julho de 1918, cerca de 12 mil homens j participavam desses destacamentos para o abastecimento que contaram, em seu apogeu, com quase 80 mil homens, dos quais perto da metade eram operrios desempregados de Petrogrado, atrados por um salrio decente e uma remunerao em espcie proporcional aos cereais confiscados. A segunda medida, o decreto de 11 de junho de 1918, instituiu o Comit de Camponeses Pobres, encarregados de colaborar estreitamente com os destacamentos para o abastecimento e tambm de requisitar, contra uma parte do que fosse obtido, os excedentes da produo agrcola dos camponeses abastados. Esses Comits de Camponeses Pobres deviam, tambm, substituir os sovietes rurais, encarados pelo poder como pouco confiveis, pois estavam impregnados de uma ideologia socialista-revolucionria. Consideradas as tarefas que lhes eram atribudas - tomar, pela fora, o fruto do trabalho de outrem - e os motivos que supos-tamente os tentavam - o poder, o sentimento de frustrao e de inveja para com os ricos, a promessa de uma parte dos ganhos -, podemos imaginar como foram esses primeiros representantes do poder bolchevique no campo. Como escreveu, com perspiccia, Andrea Graziosi, para essas pessoas, a inegvel capacidade operacional e a devoo  causa - ou, antes, ao novo Estado - estavam estritamente ligadas a uma conscincia poltica e social balbuciante, a um grande arrivismo e a comportamentos 'tradicionais', tais como a brutalidade para com os subordinados, o alcoolismo e o nepotismo. [...] Temos aqui um bom exemplo da maneira pela qual 'o esprito' da revoluo plebeia penetrava no novo regime
	Apesar de alguns sucessos iniciais, a organizao de Comits de camponeses pobres foi malsucedida. A prpria idia de se colocar na linha de frente a pane mais pobre dos camponeses refletia o profundo desconhecimento que os bolcheviques tinham da sociedade camponesa. Segundo um esquema marxista simplista, eles a imaginavam dividida em classes antagnicas, ao passo que ela estava sobretudo solidria em face do mundo exterior e dos estrangeiros vindos da cidade. Logo que se tratou de se entregarem os excedentes, o reflexo igualitrio e comunitrio da assembleia camponesa marcou sua presena; em lugar de incidir sobre os camponeses abastados, o peso das requisies foi repartido em funo das disponibilidades de cada um. A massa dos camponeses mdios foi atingida, e o descontentamento foi geral. Tumultos explodiram em vrias regies. Diante da brutalidade dos destacamentos de abastecimento apoiados pela Tcheka ou pelo exrcito, uma verdadeira guerrilha formou-se a partir de junho de 1918. Em julho-agosto, 110 insurreies camponesas, qualificadas pelo poder como rebelies dos kulaks - terminologia utilizada pelos bolcheviques para designar os tumultos em que cidades inteiras participavam, com todas as categorias sociais misturadas - explodiram nas zonas controladas pelo novo poder. O crdito desfrutado durante um breve perodo pelos bolcheviques, por no terem feito oposio  apreenso das terras, em 1917, foi aniquilado em poucas semanas. Durante trs anos, a poltica de requisio ia provocar milhares de revoltas e rebelies, que se degeneraram em verdadeiras guerras camponesas, reprimidas com a maior violncia.
	No plano poltico, o recrudescimento da ditadura, na primavera de 1918, acarretou o fechamento definitivo de todos os jornais no bolcheviques, a dissoluo dos sovietes no bolcheviques, a priso dos oponentes e a represso brutal de vrios movimentos de greve. Em maio-junho de 1918, 205 jornais de oposio socialista foram definitivamente fechados. Os sovietes com maioria menchevique ou socialista-revolucionria, de Kaluga, Tver, Yaroslav, Riazan, Kostroma, Kazan, Saratov, Penza, Tambov, Voronej, Orei e Volonezh, foram dissolvidos com o uso da fora. A histria era quase sempre a mesma: alguns dias antes das eleies que dariam a vitria aos partidos de oposio e a formao do novo soviete, o segmento bolchevique convocava a fora armada, com freqncia um destacamento da Tcheka, que proclamava a lei marcial e prendia os oponentes.
	Dzerjinski, que enviara seus principais colaboradores s cidades onde a oposio era vitoriosa, preconizava, sem rodeios, o uso da fora, como provam de maneira eloquente as diretivas que ele deu, em 31 de maio de 1918, a Eiduk, seu plenipotencirio em misso em Tver: Os operrios, influenciados pelos mencheviques, SR e outros porcos contra-revolucionrios, fizeram greve e manifestaram-se em favor da constituio de um governo de unio entre todos os 'socialistas'. Voc deve afixar por toda a cidade uma proclamao indicando que a Tcheka executar imediatamente todo bandido, ladro, especulador e contra-revolucionrio que conspire contra o poder sovitico. Sirva-se da contribuio dos burgueses da cidade. Recenseie-os. Essas listas nos sero teis se por acaso eles se mobilizem. Investigue com que elementos poderemos formar uma Tcheka local. Engaje pessoas resolutas, que saibam que no h nada de mais eficaz do que uma bala para calar quem quer que seja. A experincia me ensinou que mesmo um nmero pequeno de pessoas decididas  capaz de reverter toda uma situao. 
	A dissoluo dos sovietes dirigidos por oponentes e a expulso, em 14 de junho de 1918, dos mencheviques e dos socialistas-revolucionrios do Comit Executivo Panrusso dos Sovietes suscitaram protestos, manifestaes e movimentos de greve em vrias cidades operrias, onde, alis, a situao no cessava de se degradar. Em Kolpino, perto de Petrogrado, o comandante de um destacamento da Tcheka atirou sobre uma caminhada contra a fome, organizada pelos operrios, cuja rao mensal cara a um quilo de farinha! Houve dez mortos. No mesmo dia, na fbrica Berezovski, perto de Ekaterin-burgo, 15 pessoas foram assassinadas por um destacamento da Guarda Vermelha durante um encontro de protesto contra os comissrios bolcheviques acusados de se apropriarem das melhores casas da cidade e de terem desviado em proveito prprio os 150 rublos de impostos sobre a burguesia local. No dia seguinte, as autoridades do setor decretaram a lei marcial nessa cidade operria, e 14 pessoas foram imediatamente fuziladas pela Tcheka local, sem que nada fosse relatado a Moscou.
	Na segunda quinzena de maio e no ms de junho de 1918, inmeras manifestaes operrias foram reprimidas com sangue em Sormovo, Yaroslav e Tuia, assim como nas cidades industriais do Ural, Nijni-Taguil, Beloretsk, Zlatus e Ekaterinburgo. A participao cada vez mais ativa das Tchekas locais na represso  atestada pela freqncia crescente, no meio militar, das palavras de ordem e dos slogans contra a nova Okhranka (polcia poltica czarista) a servio da comissariocracia.
	De 8 a 11 de junho de 1918, Dzerjinski presidiu a primeira conferncia Panrussa das tchekas,  qual assistiram cerca de cem delegados de 43 sees locais, totalizando algo em torno de 12 mil homens - eles sero 40 mil no fim de 1918 e mais de 280 mil no incio de 1921. Colocando-se acima dos sovie-tes, e mesmo acima do Partido, segundo disseram alguns bolcheviques, a conferncia declarou assumir o peso da luta contra a contra-revoluo em todo o territrio nacional, enquanto rgo supremo do poder administrativo da Rssia sovitica. O organograma ideal adotado no fim dessa conferncia revelava o vasto campo de atividade atribudo  polcia poltica sovitica a partir de junho de 1918, ou seja, antes da grande onda de insurreies contra-revolucionrias do vero de 1918. Calcada sobre o modelo da matriz em Lubianka, cada Tcheka do interior devia, no menor espao de tempo possvel, organizar os seguintes departamentos e secretarias: 1) Departamento da Informao. Secretarias: Exrcito Vermelho, monarquistas, cadetes, SR de direita e mencheviques, anarquistas e prisioneiros comuns, burguesia e pessoas religiosas, sindicatos e Comits operrios e estrangeiros. Para cada uma dessas categorias, as secretarias apropriadas deviam redigir uma lista de suspeitos. 2) Departamento de Luta Contra a Contra-Revoluo. Secretarias: Exrcito Vermelho, monarquistas, cadetes, SR de direita e mencheviques, anarquistas, sindicalistas, minorias nacionais, estrangeiros, alcoolismo, pogroms e ordem pblica, casos relativos  imprensa. 3) Departamento de Luta Contra a Especulao e o Abuso de Autoridade. 4) Departamento dos Transportes, Estradas de Comunicao e Portos. 5) Departamento Operacional, reagrupando as unidades especiais da Tcheka.
	Dois dias aps o fim dessa Conferncia Panrussa de Tchekas, o governo declarou o restabelecimento legal da pena de morte. Abolida aps a revoluo de fevereiro de 1917, ela havia sido restaurada por Kerenski em julho de 1917. Entretanto, ela s se aplicava s regies do fronte, sob a jurisdio militar. Uma das primeiras medidas tomadas pelo II Congresso de Sovietes, em 26 de outubro (8 de novembro) de 1917, foi suprimir mais uma vez a pena capital. Essa deciso suscitou o furor de Lenin:  um erro, uma fraqueza inadmissvel, uma iluso pacifista! Lenin e Dzerjinski no descansaram enquanto no restabeleceram legalmente a pena de morte, sabendo perfeitamente que ela podia ser aplicada, sem nenhuma futilidade legal, pelos rgo extralegais tais como as Tchekas. A primeira condenao  morte legal, pronunciada por um tribunal revolucionrio, ocorreu em 21 de junho de 1918: o almirante Tchastnyi foi o primeiro contra-revolucionrio fuzilado legalmente.
	Em 20 de junho, V. Volodarski, um dos dirigentes bolcheviques de Petrogrado, foi abatido por um militante socialista-revolucionrio. Esse atentado aconteceu num perodo de extrema tenso na antiga capital. No decorrer das semanas precedentes, as relaes entre os bolcheviques e o mundo operrio vinham gradativamente se deteriorando; em maio-junho de 1918, a Tcheka de Petrogrado calculou cerca de 70 incidentes - greves, encontros antibolcheviques, manifestaes - implicando principalmente os metalrgicos das fortalezas operrias, que haviam sido os mais ardentes partidrios dos bolcheviques em 1917 e at mesmo antes disso. As autoridades responderam  greve atravs do fechamento das grandes fbricas nacionalizadas, uma prtica que seria generalizada nos meses subsequentes, para quebrar a resistncia operria. O assassinato de Volodarski foi seguido de uma violenta onda de prises, sem precedentes nos meios operrios de Petrogrado; a assembleia dos plenipotencirios operrios, uma organizao de maioria menchevique que coordenava a oposio operria em Petrogrado, foi dissolvida. Mais de 800 mentores foram detidos em dois dias. Os meios operrios responderam a essas prises em massa convocando uma greve geral para 2 de julho de 1918.
	Lenin enviou de Moscou uma carta a Zinoviev, presidente do Comit de Petrogrado do Partido Bolchevique, um documento revelador da concepo leninista do terror e, ao mesmo tempo, de uma extraordinria iluso poltica. Assim, Lenin cometia um espetacular contra-senso poltico ao afirmar que os operrios se revoltaram contra o assassinato de Volodarski!
	Camarada Zinoviev! Acabamos de saber neste instante que os operrios de Petrogrado desejavam responder com terror de massa ao assassinato do camarada Volodarski e que vocs (no voc pessoalmente, mas o membros do Partido de Petrogrado) os impediram. Eu protesto energicamente! Ns nos comprometemos: preconizamos o terror de massa nas resolues do soviete, mas, quando se tratou de agir, ns obstrumos a iniciativa absolutamente cor-reta das massas. Isto  i-nad-mis-s-vel. Os terroristas vo nos considerar uns moleires. A hora  ultramarcial.  indispensvel encorajar a energia e o car-ter de massa do terror dirigido contra os contra-revolucionrios, especialmente em Petrogrado, cujo exemplo  decisivo. Saudaes. Lenin.
	
	3. O Terror Vermelho
	
	Os bolcheviques dizem abertamente que esto com os dias contados, relatava a seu governo Karl Helfferich, embaixador alemo em Moscou, em 3 de agosto de 1918. Um verdadeiro pnico est tomando conta de Moscou... Circulam os mais loucos rumores sobre 'traidores' que se teriam infiltrado na cidade.
	Os bolcheviques nunca haviam sentido o seu poder to ameaado quanto no decorrer do vero de 1918. Com efeito, eles controlavam apenas o pequeno territrio da Moscvia histrica, diante dos trs grandes frontes anti-bolcheviques, solidamente estabelecidos a partir de ento: um na regio de Don, ocupada pelas tropas cossacas do ataman Krasnov e pelo Exrcito Branco do general Denikin; o segundo, na Ucrnia, em poder dos alemes e do Rada (governo nacional) ucraniano; o terceiro, ao longo do Transiberiano, onde a maior parte das cidades cara sob poder da Legio Tcheca, cuja ofensiva era sustentada pelo governo socialista-revolucionrio de Samara.
	Nas regies mais ou menos controladas pelos bolcheviques, explodiram cerca de 140 revoltas e insurreies de grande amplitude durante o vero de 1918; as mais frequentes eram devidas a comunidades camponesas que recusavam as requisies conduzidas com violncia pelos destacamentos para o abastecimento, alm das limitaes impostas ao comrcio privado e novos recrutamentos militares iniciados pelo Exrcito Vermelho. Os camponeses enfurecidos se dirigiam em massa  cidade mais prxima e cercavam o sovie-te, tentando, s vezes, atear fogo a ele. Geralmente, os incidentes se degeneravam: as tropas, as milcias encarregadas de manterem a ordem e, cada vez mais, os destacamentos da Tcheka no hesitavam em abrir fogo sobre os manifestantes.
	Os dirigentes bolcheviques viam nesses confrontos, cada vez mais numerosos com o passar dos dias, uma ampla conspirao contra-revolucio-nria, dirigida por kulaks disfarados de soldados do Exrcito Branco.
	 evidente que est sendo preparado um levante de soldados do Exrcito Branco em Nijni-Novgorod, telegrafou Lenin, em 9 de agosto de 1918, ao presidente do Comit Executivo do Soviete dessa cidade, que acabara de informar sobre incidentes implicando camponeses protestando contra as requisies.  preciso formar imediatamente uma 'troika ditatorial (composta por voc, Markin e um outro), introduzindo imediatamente o terror de massa, fuzilar ou deportar as centenas de prostitutas que do de beber aos soldados, todos os ex-oficiais, etc. No h um minuto a perder...  necessrio agir com deciso: prtica em massa de buscas. Execuo por porte de arma. Deportaes em massa de mencheviques e outros elementos suspeitos. No dia seguinte, dia 10 de agosto, Lenin enviou outro telegrama com o mesmo teor ao Comit Executivo do Soviete de Penza:
	Camaradas! O levante kulak nos cinco distritos de sua regio deve ser esmagado sem piedade. Os interesses de toda a revoluo o exigem, pois a luta final com os kulaks est doravante engajada por toda parte.  necessrio dar o exemplo: 1) Enforcar (e digo enforcar de modo que todos fossam ver) no menos de 100 kulaks, ricos e notrios bebedores de sangue. 2) Publicar seus nomes. 3) Apoderar-se de todos os seus gros. 4) Identificar os refns do modo como indicamos no telegrama de ontem. Faam isso de maneira que a cem lguas em torno as pessoas vejam, tremam, compreendam e digam: eles matam e continuaro a matar os kulaks sedentos de sangue. Telegrafem em resposta dizendo que vocs receberam e executaram exatamente estas instrues. Seu, Lenin.
	P.S. Encontrem as pessoas mais fortes.
	De fato, como demonstra uma leitura atenta dos relatrios da Tcheka sobre as revoltas do vero de 1918, ao que parece, apenas os levantes de Yaroslav, Rybinsk e Murom - organizados pela Unio de Defesa da Ptria, do dirigente socialista-revolucionrio Boris Savinkov - e o dos operrios das fbricas de armamentos de Ijevsk, inspirado pelos mencheviques e socialistas-revolucionrios locais, foram fruto de preparao anterior. Todas as outras insurreies desenvolveram-se espontaneamente e localmente a partir de incidentes implicando as comunidades camponesas que recusavam as requisies ou o recrutamento militar. Em poucos dias, elas foram ferozmente reprimidas pelos destacamentos mais confiveis do Exrcito Vermelho ou da Tcheka. Apenas a cidade de Yaroslav, onde os destacamentos de Savinkov haviam deposto o poder bolchevique local, resistiu cerca de 15 dias. Aps a queda da cidade, Dzerjinski enviou a Yaroslav uma comisso especial de investigao que, em cinco dias, de 24 a 28 de julho de 1918, executou 428 pessoas.
	Durante todo o ms de agosto de 1918, ou seja, antes do desencadeamento oficial do Terror Vermelho de 3 de setembro, os dirigentes bolcheviques, com Lenin e Dzerjinski  frente, enviaram um grande nmero de telegramas aos responsveis locais da Tcheka ou do Partido, pedindo-lhes que tomassem medidas profilticas para a preveno de toda tentativa de insurreio. Entre essas medidas, explicava Dzerjinski, as mais eficazes so a tomada de refns entre os burgueses, a partir das listas que vocs estabeleceram para as contribuies excepcionais exigidas dos burgueses, [...] a deteno e o encarceramento de todos os refns e suspeitos nos campos de concentrao.freqncia Dia 8 de agosto, Lenin pediu a Tsuriupa, comissrio do povo para o Abastecimento, que redigisse um decreto segundo o qual em cada distrito produtor de cereais, 25 refns, escolhidos entre os habitantes mais abastados, pagaro com suas vidas pela no-realizao do plano de requisio. Uma vez que Tsuriupa se fez de surdo, sob o pretexto de que era difcil organizar essa tomada de refns, Lenin enviou-lhe uma segunda nota, ainda mais explcita: Eu no estou sugerindo que sejam feitos refns, mas que eles sejam nomeadamente designados em cada distrito. O objetivo dessa designao  que os ricos, do mesmo modo que eles so responsveis pela prpria contribuio, sejam, com o risco de suas vidas, responsveis pela realizao imediata do plano de requisio em seu distrito.
	Alm do sistema de refns, os dirigentes bolcheviques experimentaram, em agosto de 1918, um outro instrumento de represso, surgido na Rssia em guerra: o campo de concentrao. Em 9 de agosto de 1918, Lenin telegrafou ao Comit Executivo da provncia de Penza pedindo que fossem aprisionados os kulaks, os padres, os soldados do Exrcito Branco e outros elementos duvidosos num campo de concentrao.?
	Alguns dias antes, Dzerjinski e Trotski haviam, do mesmo modo, prescrito o aprisionamento de refns em campos de concentrao. Esses campos de concentrao eram campos de internao onde deveriam ser encarcerados, atravs de uma simples medida administrativa e sem qualquer julgamento, os elementos duvidosos. Existiam, tanto na Rssia quanto nos outros pases beligerantes, numerosos campos onde haviam sido internados os prisioneiros de guerra.
	Entre os elementos duvidosos a serem preventivamente aprisionados, figuravam, em primeiro lugar, os responsveis polticos, ainda em liberdade, dos partidos de oposio. Em 15 de agosto de 1918, Lenin e Dzerjinski assinaram a ordem de priso dos principais dirigentes do Partido Menchevique - Martov, Dan, Potressov e Goldman - cujo jornal j havia sido silenciado e os representantes expulsos dos sovietes.
	Doravante, para os dirigentes bolcheviques, as fronteiras entre as diferentes categorias de oponentes estavam apagadas, numa guerra civil que, segundo eles, tinha suas prprias leis.
	A guerra civil no conhece leis escritas, escrevia Latsis, um dos principais colaboradores de Dzerjinski, nos Izvestia de 23 de agosto de 1918. A guerra capitalista tem suas leis escritas [...] mas a guerra civil tem suas prprias leis [...].  necessrio no somente destruir as foras ativas do inimigo, mas tambm demonstrar que qualquer um que erga a espada contra a ordem de classes existente perecer pela espada. Tais so as regras que a burguesia sempre observou nas guerras civis perpetradas contra o proletariado. [...] Ns ainda no assimilamos essas regras suficientemente. Os nossos esto sendo mortos s centenas e aos milhares. Ns executamos os deles um a um, aps longas deliberaes e diante de comisses e tribunais. Na guerra civil, no h tribunais para o inimigo. Trata-se de uma luta mortal. Se voc no mata, voc ser morto. Ento mate, se voc no quer ser morto!
	Em 30 de agosto de 1918, dois atentados - um contra M. S. Uritski, chefe da Tcheka de Petrogrado, e outro contra Lenin - fortaleceram a certeza dos dirigentes bolcheviques de que uma verdadeira conspirao ameaava at a prpria vida de cada um deles. Na verdade, esses dois atentados no tinham nenhuma relao entre si. O primeiro fora cometido, na mais pura tradio do terrorismo revolucionrio populista, por um jovem estudante desejoso de vingar um amigo oficial executado havia alguns dias pela Tcheka de Petrogrado. Quanto ao segundo, dirigido contra Lenin - atribudo durante muito tempo a Fanny Kaplan, uma militante prxima dos meios anarquistas e socialistas-revolucionrios, detida e imediatamente executada sem julgamento trs dias aps os fatos - hoje em dia parece ter sido resultado de uma provocao, organizada pela Tcheka, que escapou ao controle de seus instigadores. O governo bolchevique imputou de imediato esses atentados aos socialistas-revolucionrios de direita, servos do imperialismo francs e ingls. Desde o dia seguinte, artigos publicados na imprensa e declaraes oficiais convocaram o crescimento do terror:
	Trabalhadores, escrevia o Pravdas. 31 de agosto de 1918,  chegada a hora de aniquilar a burguesia, seno vocs sero aniquilados por ela. As cidades devem ser impecavelmente limpas de toda putrefao burguesa. Todos esses senhores sero fichados, e aqueles que representem qualquer perigo para a causa revolucionria, exterminados. [...] O hino da classe operria ser um canto de dio e de vingana! 
	No mesmo dia, Dzerjinski e seu adjunto, Peters, redigiram uma Convocao  classe operria com o seguinte esprito: Que a classe operria esmague, atravs do terror em massa, a hidra da contra-revoluo! Que os inimigos da classe operria saibam que todo indivduo detido com posse ilcita de uma arma ser executado imediatamente, que todo indivduo que ouse fazer a menor propaganda contra o regime sovitico ser de imediato detido e encarcerado num campo de concentrao! Publicado no Izvestia de 3 de setembro, essa convocao foi seguida, no dia 4 de setembro, da publicao de uma instruo enviada por N. Petrovski, comissrio do povo para o Interior, a todos os sovietes. Petrovski queixava-se do fato de que, apesar da represso em massa exercida pelos inimigos do regime contra as massas laboriosas, o Terror tardava a se fazer perceber:
	 chegada a hora de pr um ponto final a toda essa moleza e a esse sentimentalismo. Todos os socialistas-revolucionrios de direita devem ser imediatamente detidos. Um grande nmero de refns deve ser tomado entre a burguesia e os oficiais. Ao menor sinal de resistncia,  necessrio recorrer s execues em massa. Os Comits executivos das provncias devem dar o exemplo de iniciativa nesse terreno. As Tchekas e outras milcias devem identificar e deter todos os suspeitos e executar imediatamente todos aqueles que tenham algum compromisso com atividades contra-revolucionrias. [...] Os responsveis pelos Comits executivos devem informar imediatamente ao Comissariado do Povo para o Interior sobre toda moleza e indeciso da parte dos sovietes locais. [...] Nenhuma fraqueza, nenhuma hesitao pode ser tolerada na instaurao do terror em massa. 
	Esse telegrama, sinal oficial do Terror Vermelho em grande escala, refuta a argumentao desenvolvida a posteriori por Dzerjinski e Peters, segundo a qual o Terror Vermelho, expresso da indignao geral e espontnea das massas contra os atentados de 30 de agosto de 1918, comeou sem a menor dire-tiva do Centro. De fato, o Terror Vermelho era o alvio natural de um dio quase abstrato que a maior parte dos dirigentes bolcheviques alimentava contra os opressores, a quem eles estavam prontos para liquidar, no somente individualmente, mas enquanto uma classe. Em suas memrias, o dirigente menchevique Raphael Abramovitch relata uma conversa bastante reveladora que ele tivera, em agosto de 1917, com Feliks Dzerjinski, o futuro chefe da Tcheka:
	Abramovitch, voc se lembra do discurso de Lassalle sobre a essncia de uma Constituio?
	- Certamente.
	Ele dizia que toda Constituio era determinada pela relao das for cas sociais em um pas em um dado momento. Eu me pergunto como essa correlao entre a poltica e o social poderia mudar.
	Pois bem, pelos diversos processos de evoluo econmica e poltica, pela emergncia de novas formas econmicas, a ascenso de certas classes sociais, etc., todas as coisas que voc conhece perfeitamente, Feliks.
	Sim, mas no se poderia mudar radicalmente essa correlao? Por exemplo, pela submisso ou pelo extermnio de certas classes da sociedade? 13
	Essa crueldade calculada, fria, cnica, fruto de uma lgica implacvel de guerra de classes levada a seu extremo, era compartilhada por muitos bolcheviques. Em setembro de 1918, um dos principais dirigentes bolcheviques, Grigori Zinoviev, declarou: Para nos desfazermos de nossos inimigos, devemos ter o nosso prprio terror socialista. Devemos ter a nosso lado, digamos, cerca de 90 dos cem milhes de habitantes da Rssia sovitica. Quanto aos outros, no h nada que possamos dizer-lhes. Eles devem ser aniquilados. 
	Dia 5 de setembro, o governo sovitico legalizou o terror pelo famoso decreto Sobre o Terror Vermelho: Na situao atual,  absolutamente vital reforar a Tcheka [...], proteger a Repblica Sovitica contra os inimigos da classe, isolando estes ltimos em campos de concentrao, fuzilando de imediato todo indivduo implicado nas organizaes dos Exrcitos Brancos, em compls, em insurreies ou tumultos, publicar o nome dos indivduos fuzilados, dando as razes pelas quais eles foram abatidos a tiro. Como Dzerjinski reconheceu mais adiante, os textos de 3 e de 5 de setembro de 1918 nos atribuam legalmente, enfim, aquilo contra o que at mesmo alguns camaradas de Partido chegaram a protestar, o direito de acabar imediatamente com a ral contra-revolucionria, sem ter de dar satisfao a quem quer que seja.
	Em uma circular interna, datada de 17 de setembro, Dzerjinski convidou todas as tchekas locais a acelerar os procedimentos e a terminar, ou seja, liquidar, com o que estivesse em suspenso. As liquidaes tinham comeado, de fato, desde o dia 31 de agosto. Em 3 de setembro, os Izvestia, relataram que, no decorrer dos dias precedentes, mais de 500 refns haviam sido executados em Petrogrado pela Tcheka local. Segundo os tchekistas, 800 pessoas teriam sido executadas, durante o ms de maio a setembro de 1918, em Petrogrado. Este nmero , em grande parte, subestimado. Uma testemunha dos eventos relatava os seguintes detalhes: Para Petrogrado um balano superficial d um total de 1.300 execues. [...] Os bolcheviques no consideram, em suas 'estatsticas', as centenas de oficiais e civis fuzilados em Kronstadt, sob a ordem das autoridades locais. Apenas em Kronstadt, durante uma nica noite, 400 pessoas foram fuziladas. Foram cavados no pado trs grandes fossos, 400 pessoas foram colocadas diante deles e executadas uma aps o outra. Em uma entrevista concedida ao jornal Outro Moskvy, em 3 de novembro de 1918, o brao direito de Dzerjinski, Peters, reconheceu que, em Petrogrado, os tchekistas muito sensveis [sic] acabaram perdendo a cabea e passaram da medida. Antes do assassinato de Uritski, ningum havia sido executado - e, creia-me, a despeito de tudo o que se pretende, no sou assim to sanguinrio quanto dizem - enquanto que aps, o nmero de execues passou um pouco alm da conta e, frequentemente, sem nenhum discernimento. Mas, por outro lado, Moscou no respondeu ao atentado contra Lenin seno com a execuo de alguns poucos ministros do Czar. Ainda segundo o Izvestia, apenas 29 refns, pertencentes ao campo da contra-revoluo, foram abatidos a tiro em Moscou, em 3 e 4 de setembro. Entre eles figuravam dois ministros de Nicolau II, N. Khvostov (Interior) e I. Chtcheglovitov (Justia). Todavia, vrios testemunhos concordantes do conta de centenas de execues de refns no decorrer dos massacres de setembro nas prises moscovitas.
	Nesses tempos de Terror Vermelho, Dzerjinski fez com que fosse publicado um jornal, Ejenedelnik VCK (O Semanrio da Tcheka), claramente encarregado de elogiar os mritos da polcia poltica e de encorajar o justo desejo de vingana das massas. Durante seis semanas e at a sua suspenso, por ordem do Comit Central, num momento em que a Tcheka estava sendo contestada por um certo nmero de responsveis bolcheviques, esse semanrio relatou, sem pesar ou pudor, as tomadas de refns, os internamentos em campos de concentrao, as execues, etc. Ele constitui-se como uma fonte oficial e a mnima do Terror Vermelho nos meses de setembro e outubro de 1918. L-se ali que a Tcheka de Nijni-Novogorod, particularmente pronta a reagir, sob as ordens de Nicolau Bulganin - futuro chefe de Estado sovitico de 1954 a 1957 - executou, desde 31 de agosto, 141 refns; 700 refns foram detidos nessa cidade de tamanho mdio da Rssia. Sobre Viatka, a Tcheka regional do Ural, evacuada de Ekaterinburgo, relatava a execuo de 23 ex-policiais, 154 contra-revolucionrios, 8 monarquistas, 28 membros do Partido Constitucional Democrata, 186 oficiais e 10 mencheviques e SR de direita, tudo isso no espao de uma semana. A Tcheka de Ivano-Voznessensk anunciava a tomada de 181 refns, a execuo de 25 contra-revolucionrios e a criao de um campo de concentrao com l.000 lugares. Para a Tcheka da pequena cidade de Sebejsk,  kulaks abatidos a tiro e l padre que havia celebrado uma missa para o tirano sanguinrio Nicolau II; para a Tcheka de Tver, 130 refns e 39 execues. Para a Tcheka de Perm, 50 execues. Poder-se-ia prolongar este catlogo macabro, tirado de alguns extratos dos seis nmeros publicados do Semanrio da Tcheka.^
	Outros jornais de provncias deram conta, do mesmo modo, das milhares de prises e execues durante o outono de 1918. Assim, para citar somente alguns exemplos: o nico nmero publicado das Izvestia Tsaritsynskoi Goubtcheka (Notcias da Tcheka da Provncia de Tsarytsine) dava conta da execuo de 103 pessoas na semana de 3 a 10 de setembro de 1918. De 19 a 8 de novembro de 1918, 371 pessoas passaram diante do tribunal local da Tcheka: 50 foram condenados  morte, os outros ao encarceramento num campo de concentrao, na qualidade de refns, como medida profiltica, at a liquidao completa de todas as insurreies contra-revolucionrias. O nico nmero das Izvestia Penzenskoi Goubtcheka (Notcias da Tcheka da Provncia de Penza) relatava, sem outros comentrios: Pelo assassinato do camarada Egorov, operrio de Petrogrado em misso oficial num destacamento de requisio, 152 soldados do Exrcito Branco foram executados pela Tcheka. Outras medidas, ainda mais rigorosas [sic], sero tomadas no futuro contra todos aqueles que ergam o brao contra o brao armado do proletariado. 
	Os relatrios confidenciais (svodk!) das Tchekas locais enviados a Moscou, consultveis h pouco tempo, confirmam, alis, a brutalidade com a qual foram reprimidos, desde o vero de 1918, os menores incidentes entre as comunidades camponesas e as autoridades locais, que tinham como origem mais frequente a recusa das requisies ou do recrutamento militar, e que foram sistematicamente catalogadas como tumultos kulaks contra-revolucio-nrios e reprimidos sem piedade.
	Seria vo tentar calcular o nmero de vtimas dessa primeira grande onda de Terror Vermelho. Um dos principais dirigentes da Tcheka, Latsis, pretendia que, no transcurso do segundo semestre de 1918, a Tcheka houvesse executado 4.500 pessoas, acrescentando com cinismo: Se  possvel acusar a Tcheka de qualquer coisa, no  excesso de zelo nas execues, mas de insuficincia nas medidas supremas de punio. Uma mo de ferro sempre diminui a quantidade de vtimas. No final de outubro de 1918, o dirigente menchevique luri Martov estimava o numero de vtimas diretas da Tcheka, desde o incio do ms de setembro, em mais de 10.000.
	Qualquer que seja o nmero exato das vtimas do Terror Vermelho do outono de 1918 - uma vez que apenas a adio das execues relatadas na imprensa nos sugere um nmero que no poderia ser inferior a 10.000-15.000 - esse Terror consagrava definitivamente a prtica bolchevique de tratar toda forma de contestao real ou potencial dentro do contexto de uma guerra civil sem perdo, submetida, segundo a expresso de Latsis, a suas prprias leis. Se alguns operrios fazem greve - como foi, por exemplo, o caso da fbrica de armamentos de Motovilikha, na provncia de Perm, no incio do ms de novembro de 1918, para protestar contra o princpio bolchevique de racionamento em funo da origem social e contra tambm os abusos da Tcheka local - toda a fbrica  de imediato declarada em estado de insurreio pelas autoridades. Nenhuma negociao com os grevistas: fechamento da fbrica, todos os operrios despedidos, priso dos mentores, busca dos con-tra-revolucionrios mencheviques suspeitos de estarem na origem dessa greve.  fato que essas prticas foram correntes a partir do vero de 1918. Entretanto, no outono, a Tcheka local, a partir de ento bem organizada e estimulada pela incitao  morte vinda do Centro, foi mais longe na represso; ela executou cem grevistas sem qualquer outra forma de processo.
	Apenas a ordem de grandeza - de 10 mil a 15 mil execues sumrias em dois meses - marcava ento uma verdadeira mudana de escala com relao ao perodo czarista. Basta lembrar que, para o conjunto do perodo de 1825-1917, o nmero de sentenas de morte proferidas pelos tribunais czaris-tas (includas as cortes marciais) em todos os casos relacionados  ordem poltica que foram julgados se elevara, em 92 anos, a 6.321, com o mximo de 1.310 condenaes  morte em 1906, ano da reao contra os revolucionrios de 1905. Em poucas semanas, somente a Tcheka havia executado duas a trs vezes mais pessoas do que todo o imprio czarista havia condenado  morte em 92 anos; alm disso, por se tratar de condenaes que ocorreram como consequncia de procedimentos legais, nem todas as penas foram executadas, uma boa parte das sentenas foi comutada em penas de trabalhos forados.
	Essa mudana de escala ia muito alm dos nmeros.  introduo de novas categorias tais como suspeito, inimigo do povo, refm, campo de concentrao, tribunal revolucionrio, de prticas inditas tais como encarceramento profiltico ou execuo sumria, sem julgamento, de centenas de milhares de pessoas detidas por uma polcia poltica de um tipo novo, acima das leis, constitua uma verdadeira revoluo copernicana.
	Essa revoluo era tamanha, que alguns dirigentes bolcheviques no estavam preparados para ela; como prova disso a polmica que se desenvolveu nos meios dirigentes bolcheviques, entre outubro e dezembro de 1918, a respeito do papel da Tcheka. Na ausncia de Dzerjinski - enviado por um ms, incgnito, para cuidar de sua sade mental e fsica na Sua -, o Comit Central do Partido bolchevique discutiu, em 25 de outubro de 1918, um novo estatuto para a Tcheka. Criticando os plenos poderes entregues a uma organizao que pretende agir acima dos sovietes e do prprio Partido, Bukharin, Olminski, um dos veteranos do Partido, e Petrovski, comissrio do povo para o Interior, pediram que fossem tomadas medidas para limitar os excessos intempestivos de uma organizao recheada de criminosos, de sdicos e de elementos degenerados do lumpem-proletariado. Uma comisso de controle poltico foi criada. Kamenev, que fazia parte dessa comisso, chegou mesmo a propor a pura e simples abolio da Tcheka.
	Mas logo o campo dos torcedores incondicionais da Tcheka retomou as rdeas. Nela figuravam, alm de Dzerjinski, algumas sumidades do Partido, tais como Sverdlov, Stalin, Trotski e,  claro, Lenin. Este ltimo defendeu com afinco uma instituio injustamente atacada, pelo fato de ter cometido alguns poucos excessos, por uma intelligentsia limitada [...] incapaz de considerar o problema do terror numa perspectiva mais ampla. Em 19 de dezembro de 1918, atravs de uma proposta de Lenin, o Comit Central adotou uma resoluo proibindo a imprensa bolchevique de publicar artigos caluniosos sobre as instituies, especialmente sobre a Tcheka, que faz o seu trabalho em condies particularmente difceis. Assim, encerrou-se o debate. O brao armado da ditadura do proletariado recebeu o seu atestado de infalibilidade. Como disse Lenin, um bom comunista  igualmente um bom tchekista.
	No incio de 1919, Dzerjinski conseguiu com o Comit Central a criao de departamentos especiais da Tcheka, a partir de ento responsveis pela segurana militar. Em 16 de maro de 1919, ele foi nomeado comissrio do povo para o Interior e determinou a reorganizao, sob a gide da Tcheka, do conjunto das milcias, tropas, destacamentos e unidades auxiliares ligadas, at aquele momento, a administraes diversas. Em maio de 1919, todas essas unidades - milcias das estradas-de-ferro, destacamentos de abastecimento, agentes de fronteira, batalhes da Tcheka - foram reagrupadas num corpo especial, as Tropas para a Defesa Interna da Repblica, que chegaria ao nmero de 200 mil homens em 1921. Essas tropas estavam encarregadas de garantir a segurana nos campos, estaes ferrovirias e outros pontos estratgicos, de conduzir as operaes de requisio e, sobretudo, de reprimir as rebelies camponesas, os levantes operrios e os motins no Exrcito Vermelho. As Unidades Especiais da Tcheka e as Tropas para a Defesa Interna da Repblica - ou seja, cerca de 200 mil homens no total - representavam uma fora extraordinria para o controle e para a represso, um verdadeiro exrcito no seio do Exrcito Vermelho, este ltimo minado por deseres, e que no chegava jamais alinhar mais de 500 mil soldados equipados, apesar dos efeti-vos teoricamente bastante elevados, algo entre trs e cinco milhes de homens.
	Um dos primeiros decretos do novo comissrio do povo para o Interior recaiu sobre as modalidades de organizao dos campos que j existiam desde o vero de 1918 sem a menor base jurdica ou regulamentar. O decreto de 15 de abril de 1919 distinguia dois tipos de campos: os campos de trabalho coercitivo, onde eram, em princpio, internados aqueles que haviam sido condenados por um tribunal, e os campos de concentrao, reagrupando as pessoas encarceradas, na maior parte das vezes na qualidade de refns, em virtude de uma simples medida administrativa. De fato, as distines entre esses dois tipos de campos permaneciam em grande parte tericas, como demonstra a instruo complementar de 17 de maio de 1919, que, alm da criao de pelo menos um campo em cada provncia, com uma capacidade mnima de 300 lugares, previa uma lista padro de 16 categorias de pessoas a serem internadas. Entre elas, figuravam contingentes to diversos quanto refns oriundos da alta burguesia, funcionrios do Antigo Regime at o nvel de assessor de colgio, procurador e seus auxiliares, prefeitos e ajudantes de cidades que sejam capitais de seus distritos, pessoas condenadas pelo regime sovitico a todas as penas, pelo delito de parasitismo, proxenetismo e prostituio, desertores comuns (no recidivos), e soldados prisioneiros da guerra civil etc.
	O nmero de pessoas internadas nos campos de trabalho ou de concentrao teve um aumento constante no decorrer dos anos 1919-1921, passando de cerca de 16 mil em maio de 1919 a mais de 60 mil em setembro de 1921. Esses clculos no levam em conta um certo nmero de campos instalados nas regies rebeladas contra o poder sovitico: assim, por exemplo, na provncia de Tambov, contavam-se, no vero de 1921, pelo menos 50 mil bandidos e membros das famlias dos bandidos tornados refns nos sete campos de concentrao abertos pelas autoridades encarregadas da represso ao levante campons.
	
	4. A guerra suja
	
	A guerra civil na Rssia  geralmente analisada como um conflito entre os Vermelhos (bolcheviques) e os Brancos (monarquistas). Na realidade, alm dos confrontos militares entre os dois exrcitos, o Exrcito Vermelho e as unidades que compunham de forma bastante heterognea o Exrcito Branco, o mais importante foi sem dvida o que se passou atrs dessas linhas de frente em incessante movimento. Essa dimenso da guerra civil  conhecida como o fronte interior. Ela se caracteriza por uma represso multiforme exercida pelos poderes estabelecidos, branco ou vermelho - sendo a represso vermelha muito maior e mais frequente -, contra os militantes polticos dos partidos ou grupos de oposio, contra os trabalhadores em greve por alguma reivindicao, contra os desertores que rugiam da convocao militar ou de sua unidade, ou simplesmente contra os cidados pertencentes a uma classe social suspeita ou hostil, e cujo nico erro era o de morar em uma cidade ou um burgo conquistado pelo inimigo. Essa luta pelo fronte interior da guerra civil foi tambm, antes de tudo, a resistncia oposta por milhares de camponeses, insubmissos e desertores, que eram chamados de Verdes tanto pelos Vermelhos quanto pelos Brancos, e que muitas vezes desempenharam um papel decisivo na vitria ou na derrota de um ou de outro lado.
	Assim, o vero de 1919 foi pleno de grandes revoltas camponesas contra o poder bolchevique, na regio do Mdio Volga e na Ucrnia, que permitiram ao almirante Koltchak e ao general Denikin penetrar centenas de quilmetros nas linhas bolcheviques. Por outro lado, foi a revolta dos camponeses siberianos exasperados com o restabelecimento dos direitos dos proprietrios rurais que precipitou a derrota do almirante branco Koltchak em face do Exrcito Vermelho.
	Enquanto as operaes militares de grande envergadura entre Brancos e Vermelhos duraram pouco mais de um ano, do fim de 1918 ao incio de 1920, o principal do que se acostumou designar com o termo guerra civil aparece, de fato, como uma guerra suja, uma guerra de pacificao conduzida pelas vrias autoridades, militares ou civis, vermelhas ou brancas, contra todos os potenciais ou reais oponentes nas zonas controladas alternadamente por cada um dos campos. Nas regies dominadas pelos bolcheviques, foi a luta de classes contra os aristocratas,freqncia os burgueses, os elementos estranhos  sociedade, a caa aos militantes de todos os partidos no bolcheviques, a represso s greves operrias, aos motins das unidades incertas do Exrcito Vermelho e s revoltas camponesas. Nas regies dominadas pelos Brancos, foi a caa aos elementos suspeitos de possveis simpatias judaico-bolcheviques.
	Os bolcheviques no detinham o monoplio do terror. Existia um Terror Branco, cuja expresso mais terrvel foi a onda de pogroms cometida na Ucrnia durante o outono de 1919 pelos destacamentos do exrcito de Denikin e as unidades de Simon Pediura, fazendo cerca de 150 mil vtimas. Mas, como observaram a maioria dos historiadores do Terror Vermelho e do Terror Branco durante a guerra civil russa, estes dois ltimos no podem ser postos no mesmo plano. A poltica de terror bolchevique foi mais sistemtica, mais organizada, pensada e posta em prtica como tal muito antes da guerra civil, teorizada contra grupos inteiros da sociedade. O Terror Branco no foi nunca erigido como um sistema. Ele foi, quase sempre, produzido por destacamentos que escaparam ao controle e  autoridade de um comando militar que tentava, sem grande sucesso, fazer o papel de governo. Excetuados os pogroms, condenados por Denikin, o Terror Branco se mostra muito mais como uma represso policial praticada no mesmo nvel que um servio de contra-espionagem militar. Diante dessa contra-espionagem das unidades brancas, a Tcheka e as Tropas de Defesa Interna da Repblica constituam um instrumento de represso muito mais estruturado e poderoso, beneficiando-se de toda prioridade do regime bolchevique.
	Como em toda guerra civil,  difcil fazer um balano completo das formas de represso e dos tipos de terror perpetrados por ambos os campos presentes no conflito. O Terror Bolchevique, o nico a ser abordado aqui, exige vrias apologias pertinentes. Com seus mtodos, suas especificidades e seus alvos privilegiados, ele foi bastante anterior  guerra civil propriamente dita, que s veio a ser iniciada a partir do fim do vero de 1918. Escolhemos uma tipologia que permite ressaltar, na continuidade de uma evoluo que podemos seguir desde os primeiros meses do regime, os principais grupos de vtimas submetidos  represso consequente e sistemtica:
	- os militantes polticos no bolcheviques, desde os anarquistas at os monarquistas;
	- os operrios em luta por seus direitos mais elementares - o po, o trabalho e um mnimo de liberdade e dignidade;
	- os camponeses - em sua maioria desertores - implicados em uma das inmeras revoltas camponesas ou motins de unidades do Exrcito Vermelho;
	- os cossacos, deportados em massa como um grupo social e tnico considerado hostil ao regime sovitico. A descossaquizao prefigura as grandes operaes de deportao dos anos 30 (deskulakizao, deportao de grupos tnicos) e destaca a continuidade das fases leninista e stalinista no que diz respeito  poltica repressiva;
	- os elementos estranhos  sociedade e outros inimigos do povo, suspeitos e refns executados preventivamente, principalmente durante a evacuao das cidades pelos bolcheviques ou, ao contrrio, durante a retomada das cidades e territrios ocupados um certo tempo pelos Brancos.
	A represso que atingiu os militantes polticos dos diversos partidos de oposio ao regime bolchevique , sem dvida, a mais conhecida. Vrios testemunhos foram deixados pelos principais dirigentes dos partidos de oposio. Eles foram encarcerados, algumas vezes exilados, mas geralmente foram deixados vivos, ao contrrio da grande massa de militantes operrios e camponeses, fuzilados sem processo ou massacrados durante as operaes punitivas da Tcheka.
	Uma das primeiras incurses armadas da Tcheka foi o ataque de 11 de abril de 1918 aos anarquistas de Moscou, com dezenas de milhares de pessoas sendo executadas de imediato. A luta contra os anarquistas no deu trgua nos anos seguintes, se bem que alguns dentre eles tenham se juntado s fileiras bolcheviques, chegando mesmo a ocupar postos importantes da Tcheka, tais como Alexandre Goldberg, Mikhail Brener ou Timofei Samsonov. O dilema da maioria dos anarquistas, que recusavam tanto a ditadura bolchevique quanto o retorno dos partidrios do antigo regime,  ilustrado pelas repentinas mudanas do grande lder anarquista e campons Makhno, que teve de, ao mesmo tempo, aliar-se ao Exrcito Vermelho no combate aos Brancos e, uma vez afastada a ameaa branca, lutar contra os vermelhos para salvaguardar seus ideais. Milhares de militantes anarquistas annimos foram executados como bandidos durante a represso aos exrcitos camponeses de Makhno e seus aliados. Ao que parece, esses camponeses constituram t imensa maioria das vtimas anarquistas, se podemos acreditar nesse balano - incompleto, sem dvida, mas o nico disponvel - da represso bolchevique apresentada pelos anarquistas russos exilados em Berlim em 1922. Esse balano estimava cerca de 138 militantes anarquistas executados durante os anos 1919-1921,281 exilados e 608 ainda encarcerados em 19 de janeiro de 1922.
	Aliados dos bolcheviques at o vero de 1918, os socialistas revolucionrios de esquerda beneficiaram-se, at fevereiro de 1919, de uma relativa clemncia. Em dezembro de 1918, Maria Spiridonova, sua dirigente histrica, presidiu um congresso de seu partido que foi tolerado pelos bolcheviques. Condenando rigorosamente o terror praticado cotidianamente pela Tcheka, ela foi presa em 10 de fevereiro de 1919, ao mesmo tempo que outros 210 militantes, e condenada pelo Tribunal Revolucionrio  deteno em um sanatrio, considerado seu estado histrico; este  o primeiro exemplo de internao, feita pelo regime sovitico, de um oponente poltico em um estabelecimento psiquitrico; Maria Spiridonova conseguiu fugir e dirigir, na clandestinidade, o Partido Socialista Revolucionrio de Esquerda proibido pelos bolcheviques. Segundo fontes tchekistas, 58 organizaes socialistas revolucionrias de esquerda teriam sido desmanteladas em 1919, e 45 em 1920. Durante esses dois anos, 1.875 militantes teriam sido encarcerados como refns, de acordo com as ordens de Dzerjinski, que havia declarado, em 18 de maro de 1919: A partir de hoje, a Tcheka no far mais distino entre os Soldados Brancos como Krasnov e os Soldados Brancos do campo socialista. [...] Os SR e os mencheviques detidos sero considerados refns, e seu destino depender do comportamento poltico de seu partido.
	Para os bolcheviques, os socialistas-revolucionrios de direita sempre apareciam como os mais perigosos rivais polticos. Ningum se esquecera de que eles haviam sido amplamente majoritrios no pas durante as eleies livres no sufrgio universal de novembro-dezembro de 1917. Aps a dissoluo da assembleia constituinte na qual eles dispunham da maioria absoluta das cadeiras, os socialistas-revolucionrios continuavam a se reunir nos sovietes e no Comit Executivo Central dos Sovietes, de onde eles foram expulsos junto com os mencheviques em junho de 1918. Uma parte dos dirigentes socialistas-revolucionrios constituram ento, com constitucional-democratas e os mencheviques, alguns governos efmeros em Samara e Omsk, logo depostos pelo almirante branco Koltchak. Presos em meio ao tiroteio entre bolcheviques e brancos, socialistas-revolucionrios e mencheviques tiveram enorme dificuldade em definir uma poltica coerente de oposio a um regime bolchevique que exercia uma poltica hbil diante da oposio socialista, alternando medidas de apaziguamento e manobras de infiltrao e de represso.
	Depois de autorizar, no auge da ofensiva do almirante Koltchak, a reabertura, de 20 a 30 de maro de 1919, do jornal socialista revolucionrio Delo Naroda (A Causa do Povo), a Tcheka se lana, em 31 de maro de 1919, numa grande onda de aprisionamento dos militantes socialistas revolucionrios e mencheviques, apesar de esses partidos ainda no terem sorrido nenhum tipo de interveno legal. Mais de 1.900 militantes foram presos em Moscou, Tuia, Smolensk, Voronezh, Penza, Samara e Kostroma. Qual foi o nmero de pessoas sumariamente executadas na represso s greves e s revoltas camponesas, nas quais os mencheviques e os socialistas revolucionrios desempenhavam na maior parte das vezes o papel principal? Os dados quantificados disponveis so bem reduzidos, pois se conhecemos aproximadamente o nmero de vtimas dos principais episdios de represso recenseados, ignoramos a proporo de militantes polticos envolvidos nesses massacres.
	Uma segunda onda de prises sucedeu  publicao de um artigo de Lenin no Pravda de 28 de agosto de 1919, no qual ele fustigava mais uma vez os SR e os mencheviques, cmplices e servos dos Brancos, dos proprietrios rurais e dos capitalistas. Segundo fontes da Tcheka, 2.380 socialistas-revolu-cionrios e mencheviques foram detidos durante os quatro ltimos meses de 1919. Em 23 maio de 1920, depois de o presidente socialista-revolucionrio, Victor Tchernov - presidente por um dia da Assembleia Constituinte que foi dissolvida, ativamente procurado pela polcia poltica - ter ridicularizado a Tcheka e o governo, tomando a palavra disfarado sob uma falsa identidade, num encontro organizado pelo sindicato dos tipgrafos em homenagem a uma delegao de operrios ingleses, a represso aos militantes socialistas retornou com toda a fora. Toda a famlia de Tchernov foi tomada como refm, e os dirigentes socialistas-revolucionrios ainda em liberdade foram jogados na pri-so. Durante o vero de 1920, mais de dois mil militantes socialistas-revolucionrios e mencheviques, devidamente fichados, foram presos e encarcerados como refns. Um documento interno da Tcheka, datado de 19 de julho de 1920, assim explicitava - e com um raro cinismo - as grandes linhas de ao a serem desenvolvidas contra os oponentes socialistas: Em vez de interditar esses partidos, fazendo-os cair na clandestinidade, o que poderia ser difcil de controlar,  bem melhor deix-los com um status de semilegalidade. Desse modo, ser mais fcil t-los sob a mo e extrair deles, assim que se faa necessrio, os desordeiros, renegados e outros fornecedores de informaes teis. [...] Frente a esses partidos anti-soviticos,  indispensvel que ns possamos tirar proveito da situao atual de guerra para imputar a seus membros crimes tais como 'atividade contra-revolucionria', 'alta traio', 'desorganizao da retaguarda', 'espionagem para uma potncia estrangeira intervencionista', etc.
	De todos os episdios de represso, um dos mais cuidadosamente ocultados pelo novo regime foi a violncia exercida contra o mundo operrio, em nome do qual os bolcheviques haviam tomado o poder. Iniciada a partir de 1918, essa represso desenvolveu-se em 1919-1920, culminando na primavera de 1921, com o episdio bem conhecido de Kronstadt. O mundo operrio de Petrogrado j havia manifestado, desde o incio de 1918, o clima de desafio aos bolcheviques. Aps o fracasso da greve geral de 2 de julho de 1918, veio  tona, em maro de 1919, o segundo grande evento das revoltas operrias na antiga capital, depois de os bolcheviques terem prendido um bom nmero de dirigentes socialistas-revolucionrios, entre os quais Maria Spiridonova, que acabava de efetuar uma srie de memorveis visitas s principais fbricas de Petrogrado, tendo sido aclamada em todas elas. Essas prises desencadearam, numa conjuntura j bastante tensa devido s dificuldades de abastecimento, um vasto movimento de protestos e greves. Em 10 de maro de 1919, a assembleia geral dos operrios das fbricas de Putilov, com a presena de dez mil participantes, adotou uma proclamao condenando solenemente os bolcheviques: Esse governo no  seno a ditadura do Comit Central do Partido Comunista que governa com a ajuda da Tcheka e dos tribunais revolucionrios. 
	A proclamao exigia a passagem de todo o poder aos sovietes, a liberdade de serem realizadas eleies nos sovietes e nos Comits de fbrica, a supresso das limitaes da quantidade de comida que os operrios estavam autorizados a trazer do campo de Petrogrado (1,5 pud, ou seja, 24 quilos), a libertao de todos os prisioneiros polticos dos autnticos partidos revolucionrios, principalmente de Maria Spiridonova. Para tentar deter um movimento que crescia a cada dia, Lenin foi pessoalmente a Petrogrado, em 12 e 13 de maro de 1919. Mas quando ele quis tomar a palavra nas fbricas em greve e ocupadas pelos operrios, ele e Zinoviev foram vaiados, aos gritos de: abaixo os judeus e os comissrios!. O velho fundo popular de anti-semitis-mo, sempre pronto a vir  tona, associou imediatamente os judeus aos bolcheviques, to logo estes ltimos perderam todo o crdito que eles momentaneamente tiveram nos dias que se seguiram a Outubro de 1917. O fato de uma grande proporo dos mais conhecidos lderes soviticos serem judeus (Trotski, Zinoviev, Kamenev, Rykov, Radek, etc.) justificava, do ponto de vista das massas, esse amlgama entre bolcheviques e judeus.
	Em 16 de maro de 1919, os destacamentos da Tcheka tomaram de assalto a fbrica de Putilov, que foi defendida de armas na mo. Cerca de 900 operrios foram detidos. Durante os dias que se seguiram, algo em torno de 200 grevistas foram executados sem julgamento na fortaleza de Schliisselburg, a mais ou menos de 50 quilmetros de Petrogrado. Segundo um novo ritual, os grevistas, todos demitidos, s foram readmitidos depois de assinarem uma declarao na qual eles reconheciam terem sido usados e induzidos ao crime por mentores contra-revolucionrios. A partir de ento, os operrios foram submetidos a uma grande vigilncia. Depois da primavera de 1919, o departamento secreto da Tcheka ps em prtica, em alguns centros operrios, uma grande rede de agentes infiltrados encarregados de informar regularmente sobre o estado de esprito dessa ou daquela fbrica. Classes trabalhadoras, classes perigosas...
	A primavera de 1919 foi marcada por um grande nmero de greves, reprimidas de maneira selvagem, nos vrios centros operrios da Rssia, em Tuia, Sormovo, Orei, Briansk, Tver, Ivanovo-Voznessensk e Astrakhan. As reivindicaes dos trabalhadores eram quase todas idnticas. Levados  fome por salrios miserveis que mal davam para um carto de racionamento que assegurasse cerca de 250 gramas de po por dia, os grevistas exigiam inicialmente a igualizao de sua rao quela do Exrcito Vermelho. Mas as suas exigncias eram tambm, e sobretudo, polticas: supresso de privilgios para os comunistas, libertao de todos os prisioneiros polticos, eleies livres no Comit de fbrica e no soviete, trmino da convocao militar pelo Exrcito Vermelho, liberdade de associao, de expresso, de imprensa, etc.
	O que tornava esses movimentos perigosos aos olhos do poder bolchevique  que eles muitas vezes contaminavam as unidades militares aquarteladas nas cidades operrias. Em Orei, Briansk, Gomei e Astrakhan, os soldados amotinados se juntaram aos grevistas, com gritos de morte aos judeus, abaixo os comissrios bolcheviques!, ocupando e pilhando uma parte da cidade que s foi reconquistada pelos destacamentos da Tcheka e pelos grupos que permaneceram fiis ao regime, aps vrios dias de combate. A represso a essas greves e esses motins foi diversa, indo do fechamento em massa da totalidade das fbricas, com confisco dos cartes de racionamento - uma das armas mais eficientes do poder bolchevique era a arma da fome - at a execuo em massa, s centenas, de grevistas e amotinados.
	Entre os episdios repressivos mais significativos figuram, em maro-abril de 1919, os de Tuia e de Astrakhan. Dzerjinski foi pessoalmente a Tuia, capital histrica da fabricao de armas da Rssia, em 3 de abril de 1919, para acabar com a greve dos operrios das fbricas de armamentos. Durante o inverno de 1918-1919, essas fbricas, vitais para o Exrcito Vermelho - onde eram fabricados 80% dos fuzis produzidos na Rssia -, j tinham sido palco de suspenses de produo e de greves. Mencheviques e socialistas-revolucio-nrios eram amplamente majoritrios entre os militantes polticos implantados nesse meio operrio altamente qualificado. A priso, no incio de maro de 1919, de centenas de militantes socialistas suscitou uma onda de protestos, que culminaram em 27 de maro, durante uma imensa marcha pela liberdade e contra a fome reunindo milhares de operrios e trabalhadores ferrovirios. Em 4 de abril, Dzerjinski ordenou a priso de mais 800 mentores e a evacuao com uso da fora das fbricas ocupadas durante semanas pelos grevistas. Todos os operrios foram demitidos. A resistncia operria foi quebrada pela arma da fome. J havia vrias semanas que os cartes de racionamento no eram mais respeitados. Para obter novos cartes que dessem direito aos mesmos 250 gramas de po por dia, e recuperar o trabalho aps o fechamento geral das fbricas, os operrios foram forados a assinar um pedido de emprego que estipulava que toda interrupo da produo seria, a partir de ento, considerada uma desero passvel da aplicao da pena de morte. Em 10 de abril a produo foi retomada. No dia anterior, 26 mentores haviam sido executados.
	A cidade de Astrakhan, perto da foz do Volga, tinha uma importncia estratgica toda particular na primavera de 1919; ela formava o ltimo ferrolho bolchevique que impedia a juno das tropas do almirante Koltchak, no nordeste, com as do general Denikin, no sudoeste. Sem dvida, essa circunstncia explica a extraordinria violncia com a qual foi reprimida, em maro de 1919, a greve operria nessa cidade. Iniciada no princpio de maro por razes tanto econmicas - normas de racionamento muito baixas - quanto polticas - a priso de militantes socialistas -, a greve degenerou em 10 de maro, quando o 45. regimento da infantaria recusou-se a atirar nos operrios que desfilavam no centro da cidade. Juntando-se ao grevistas, os soldados saquearam a sede do Partido Bolchevique, matando vrios dos seus dirigentes. Serguei Kirov, presidente do Comit Militar Revolucionrio dessa regio, ordenou, ento, o extermnio sem perdo e por todos os meios desses vermes, os Guardas Brancos. As tropas que permaneceram fiis ao regime e os destacamentos da Tcheka bloquearam todos os acessos da cidade antes de metodicamente comearem a sua reconquista. Quando as prises ficaram chias a ponto de explodir, amotinados e grevistas foram embarcados em balsas de onde eles foram jogados s centenas, com uma pedra amarrada ao pescoo, no rio Volga. De 12 a 14 de maro, foram fuzilados ou afogados entre dois mil e quatro mil operrios grevistas e amotinados. A partir do dia 15, a represso atingiu os burgueses da cidade, sob o pretexto de que eles haviam inspirado o compl dos Guardas Brancos, dos quais os operrios e os soldados no passavam de subalternos. Durante dois dias, as ricas lojas de mercadorias de Astrakhan estiveram entregues  pilhagem, seus proprietrios foram presos e fuzilados. As avaliaes, incertas, do nmero de vtimas burguesas dos massacres de Astrakhan oscilam entre 600 e mil pessoas. No total, em uma semana, entre trs mil e cinco mil pessoas foram executadas ou afogadas. Quanto ao nmero de comunistas mortos e enterrados com grande pompa em 18 de maro - dia do aniversrio da Comuna de Paris, como as autoridades fizeram questo de destacar -, eles eram 47. Durante muito tempo lembrada como um simples episdio da guerra entre Vermelhos e Brancos, a matana de Astrakhan atualmente revela,  luz dos documentos e dos arquivos disponveis, sua verdadeira natureza: o maior massacre de operrios cometido pelo poder bolchevique antes do massacre de Kronstadt.^
	No fim de 1919 e no incio de 1920, as relaes entre o poder bolchevique e o mundo operrio degradaram-se ainda mais, como consequncia da militarizao de mais de duas mil empresas. Principal defensor da militarizao do trabalho, Leon Trotski desenvolveu, durante o DC Congresso do Partido, em maro de 1920, suas concepes sobre essa questo. O homem  naturalmente voltado para a preguia, explicou Trotski. No capitalismo, os operrios devem procurar trabalho para sobreviverem.  o mercado capitalista que impulsiona o trabalhador. No socialismo, a utilizao dos recursos do trabalho substitui o mercado. Portanto, o Estado tem a tarefa de orientar, destinar e adaptar o trabalhador, que deve obedecer como um soldado ao Estado operrio, defensor dos interesses do proletariado. Eram esses os fundamentos e o sentido da militarizao do trabalho, vivamente criticada por uma minoria de sindicalistas e dirigentes bolcheviques; isso significava, na prtica, a proibio das greves, considerada uma desero em tempos de guerra, o reforo da disciplina e dos poderes da direo, a subordinao completa dos sindicatos e Comits de fbrica - cujo papel se resumiria a partir de ento a pr em prtica uma poltica produtivista -, a proibio aos operrios de deixarem seus cargos, a punio de ausncias e atrasos - muito (requentes nesses dias em que os operrios estavam  procura, sempre problemtica, de comida.
	Ao descontentamento suscitado no mundo do trabalho pela militarizao vinham juntar-se as dificuldades crescentes da vida cotidiana. Como reconhecia um relatrio da Tcheka enviado ao governo em 6 de dezembro de 1919, nesses ltimos tempos a crise de abastecimento no parou de agravar-se. A fome atormenta as massas operarias. Os operrios no tm mais fora fsica para continuarem a trabalhar e ausentam-se cada vez mais, sob os efeitos conjugados do frio e da fome. Em toda uma srie de empresas metalrgicas de Moscou, as massas esto prontas a tudo - greve, desordens, insurreio - se no resolvermos, no menor espao de tempo possvel, a questo do abastecimento. 
	Em Petrogrado, no incio de 1920, o salrio operrio variava entre 7.000 e 12.000 rublos por ms. Alm desse insignificante salrio de base - meio quilo de manteiga custava no mercado livre 5.000 rublos, meio quilo de carne 3.000 rublos, um litro de leite 750 rublos! -, cada operrio tinha direito a um certo nmero de produtos, em funo da categoria na qual era classificado. No fim de 1919, em Petrogrado, um trabalhador braal tinha direito a 250 gramas de po por dia, meio quilo de acar por ms, meio quilo de gorduras e dois quilos de arenque defumado...
	Teoricamente, os cidados eram classificados em cinco categorias de estmagos, dos trabalhadores braais e os soldados do Exrcito Vermelho aos ociosos - categoria na qual entravam os intelectuais, particularmente mal situados -, com raes de classe decrescentes. Na realidade, o sistema era ainda mais complexo e injusto. Atendidos por ltimo, os mais desfavorecidos - ociosos, intelectuais e aristocratas - muitas vezes no recebiam nada. Quanto aos trabalhadores, eles estavam, de fato, divididos em vrias categorias, de acordo com uma hierarquia de prioridades que privilegiava os setores vitais para a sobrevivncia do regime. Em Petrogrado, podiam-se contar, durante o inverno de 1919-1920, 33 categorias de cartes de racionamento, cuja validade no excedia nunca um ms! No sistema de abastecimento centralizado que os bolcheviques haviam posto em prtica, a arma alimentar possua uma grande importncia na estimulao ou na punio desta ou daquela categoria de cidados.
	A rao de po deve ser reduzida para aqueles que no trabalham no setor de transportes, e aumentada para aqueles que trabalham nesse setor que consideramos de extrema importncia nos dias de hoje, escreveu Lenin a Trotski em 1. de fevereiro de 1920. Que milhares de pessoas peream se for necessrio, mas o pas deve ser salvo.
	Diante dessa poltica, os que mantiveram relaes com o campo - e tratava-se de muita gente - esforavam-se para voltar a sua cidade o mais frequentemente possvel, tentando trazer de l algo do que comer.
	Destinadas a repor a ordem dentro das fbricas, as medidas de militarizao do trabalho suscitaram, ao contrrio do efeito pretendido, vrias e frequentes paralisaes, suspenses de produo, greves e insurreies, sempre reprimidas sem piedade. Como se podia ler no Pravda. de 12 de fevereiro de 1920, o melhor lugar para o grevista, esse verme amarelo e nocivo,  o campo de concentrao! Segundo as estatsticas oficiais do Comissariado do Povo para o Trabalho, 77% das grandes e mdias indstrias da Rssia foram atingidas pelas greves durante o primeiro semestre de 1920. Significativamente, os setores onde houve mais perturbao - a metalurgia, as minas e as ferrovias - foram tambm aqueles onde a militarizao era mais adiantada. Os relatrios do departamento secreto da Tcheka, destinados aos dirigentes bolcheviques, mostram de maneira crua a represso aos operrios resistentes  militarizao: presos, eles eram, na maior parte dos casos, julgados no tribunal revolucionrio por sabotagem ou desero. Assim, tomando somente um exemplo, 12 operrios da fbrica de armamentos em Simbirsk foram condenados a cumprirem uma pena em campo de concentrao por terem sabotado, atravs de uma greve italiana [...], por terem feito propaganda contra o poder sovitico a partir das supersties religiosas e da pouca conscincia poltica das massas [...] e por terem dado uma falsa interpretao da poltica salarial sovitica.!6 Decifrando esse politiqus, pode-se deduzir que esses acusados faziam pausas no autorizadas pela direo da empresa, protestavam contra a obrigao de trabalhar aos domingos, criticavam os privilgios dos comunistas e denunciavam os salrios miserveis...
	Os mais importantes dirigentes do Partido, entre eles Lenin, convocavam a uma represso exemplar das greves. Em 29 de janeiro de 1920, preocupado com a extenso dos movimentos operrios do Ural, Lenin telegrafou a Smirnov, chefe do Conselho Militar do V Exrcito: P. informou-me que h uma clara sabotagem da parte dos ferrovirios. [...] Disseram-me que os operrios de Ijevsk tambm fazem pane da trama. Estou surpreso com a sua acomodao e que voc no tenha promovido execues em massa para dissuadir a sabotagem.? Em 1920, houve inmeras greves provocadas pela militarizao do trabalho: em Ekaterinburgo, em maro de 1920, 80 operrios foram presos e condenados a cumprirem penas em campos de concentrao; na linha frrea Ryazan-Ural, em abril de 1920, 100 ferrovirios foram condenados; na linha frrea de Moscou-Koursk, 160 ferrovirios foram condenados em maio de 1920; na fbrica metalrgica de Briansk, em junho de 1920, 152 operrios foram condenados. Dentro desse aspecto de militarizao do trabalho, poderamos multiplicar ao infinito esses exemplos de greves reprimidas severamente.
	Uma das mais notveis foi, em junho de 1920, a dos trabalhadores na fabricao de armas de Tuia, local que, apesar de j ter sido duramente castigado em abril de 1919, era palco de grandes protestos operrios contra o regime. No domingo, 6 de junho de 1920, um grande nmero de operrios metalrgicos recusou-se a fazer as horas extras exigidas pela direo. Os operrios recusavam-se a trabalhar naquele e nos demais domingos, explicando que o domingo era o nico dia em que eles podiam ir em busca de alimentos nas pequenas cidades circunvizinhas. Convocado pela direo, um grande destacamento de tchekistas veio prender os grevistas. A lei marcial foi decretada, e a troika composta por representantes do Partido e da Tcheka foi encarregada de denunciar a conspirao contra-revolucionria fomentada por espies poloneses e pelos Cem-Negros, com o objetivo de enfraquecer a fora de combate do Exrcito Vermelho.
	Enquanto a greve se prolongava e se multiplicavam as prises dos mentores, um fato novo veio perturbar o contorno habitual da situao: s centenas, e depois aos milhares, operrias e simples donas-de-casa se apresentaram  Tcheka pedindo para que elas tambm fossem presas. O movimento ampliou-se, e, por sua vez, os operrios exigiram a prpria priso em massa, a fim de tornar absurda a tese do compl dos poloneses e dos Cem-Negros. Em quatro dias, mais de dez mil pessoas foram encarceradas, ou melhor, alojadas num grande local ao ar livre, vigiadas por tchekistas. Sobrecarregadas, no sabendo mais como apresentar tais acontecimentos a Moscou, as organizaes locais do Partido e da Tcheka conseguiram finalmente convencer as autoridades centrais da veracidade de uma ampla conspirao. Um Comit de Liquidao da Conspirao de Tuia interrogou milhares de operrios, homens e mulheres, na esperana de encontrar os culpados ideais. Para serem libertados, readmitidos e para obterem um novo carto de racionamento, todos os trabalhadores presos tiveram de assinar a seguinte declarao: Eu, abaixo assinado, cachorro fedorento e criminoso, arrependo-me diante do Tribunal Revolucionrio e do Exrcito Vermelho, confesso os meus pecados e prometo trabalhar conscienciosamente.
	Ao contrrio de outros movimentos de protesto operrio, a desordem poltica em Tuia no vero de 1920 deu lugar a condenaes bastante leves: 28 pessoas foram condenadas a cumprirem pena em campos de concentrao, e 200 pessoas foram exiladas. Diante da penria de mo-de-obra altamente qualificada, o poder bolchevique no podia, sem dvida, dispensar o trabalho dos melhores fabricantes de armas do pas. A represso, assim como o abastecimento, teve de considerar os setores importantes e os grandes interesses do regime.
	Por mais importante que fosse - simbolicamente e estrategicamente - a frente operria, ela representava apenas uma nfima parte dos engajamentos nos vrios frontes interiores da guerra civil. A luta contra os camponeses que recusavam a convocao militar e a requisio de parte de sua produo - os Verdes - mobilizava todas as energias dos bolcheviques. Os relatrios, atual-mente disponveis, dos departamentos especiais da Tcheka e das Tropas de Defesa Interna da Repblica, encarregadas de lutar contra as revoltas, as deseres e as insurreies camponesas, revelam em todo o seu horror a extraordinria violncia dessa guerra suja de pacificao, praticada  margem dos combates entre Vermelhos e Brancos.  nesse confronto crucial entre o poder bolchevique e o conjunto dos camponeses que se produziu definitivamente uma prtica poltica terrorista fundada numa viso radicalmente pessimista das massas a tal ponto obscuras e ignorantes, escreveu Dzerjinski, que elas no so nem mesmo capazes de ver onde est o seu verdadeiro interesse. Essas massas bestiais s podem ser domadas pela fora, por essa vassoura de ferro que Trotski evocava para caracterizar, atravs de imagens, a represso que devia ser aplicada para se poder limpar a Ucrnia desses bandos de bandidos dirigidos por Nestor Makhno e outros lderes camponeses.
	As revoltas camponesas haviam comeado a partir do vero de 1918. Elas atingiram uma maior amplitude em 1919-1920 para culminar durante o inverno de 1920-1921, obrigando o regime sovitico a recuar momentaneamente.
	Duas razes imediatas levavam os camponeses a se revoltarem: as requisies e a convocao militar para o Exrcito Vermelho. Em janeiro de 1919, a busca desordenada por excedentes agrcolas, que havia marcado, desde o vero de 1918, as primeiras operaes, foi substituda por um sistema centralizado e planejado de requisies. Cada cidade, cada distrito, cada regio, cada comunidade devia entregar ao Estado uma cota previamente fixada, em funo da estimativa das colheitas. Essas cotas no se limitavam aos cereais, pois incluam cerca de 20 outros produtos variados, assim como batatas, mel, ovos, manteiga, gros oleferos, carne, creme, leite... Cada comunidade era solidariamente responsvel pela colheita. Somente quando a cidade como um todo preenchia suas cotas  que as autoridades distribuam os recibos que davam direito  aquisio de bens manufaturados - em nmero muito inferior s necessidades, pois, no fim de 1920, estas ltimas eram cobertas em apenas 15%. Quanto ao pagamento das colheitas agrcolas, ele era efetuado atravs de preos meramente simblicos, uma vez que, no fim de 1920, o rublo havia perdido 96% de seu valor em relao ao rublo-ouro. De 1918 a 1920, as requisies de cereais foram triplicadas. Embora seja difcil avaliar com exati-do, o nmero de revoltas camponesas parece ter seguido uma progresso no mnimo paralela.
	A recusa  convocao do Exrcito Vermelho, depois de trs anos nos frontes e trincheiras de guerra imperialista, constitua a segunda grande motivao das revoltas camponesas, conduzida na maior parte das vezes por desertores escondidos nas florestas, os Verdes. Estima-se que o nmero de desertores em 1919-1920 era de mais de trs milhes. Em 1919, cerca de 500 mil desertores foram detidos pelos destacamentos da Tcheka e comisses especiais de luta contra os desertores; em 1920, o nmero foi de 700 a 800 mil. Porm, entre um milho e meio e dois milhes de desertores, camponeses, em sua imensa maioria, conheciam muito bem a regio e conseguiram escapar das buscas.
	Diante da gravidade do problema, o governo tomou medidas repressivas cada vez mais duras. Milhares de desertores foram fuzilados, e suas famlias foram tratadas como refns. De fato, desde o vero de 1918, o princpio de se fazer refns era aplicado nas circunstncias as mais cotidianas. Tomemos como exemplo o decreto governamental de 15 de fevereiro de 1919, assinado por Lenin, que ordenava s Tchekas locais que, nos lugares em que as vias frreas cobertas de neve no tiverem sido desobstrudas de maneira satisfatria, fossem feitos refns entre os camponeses: Se a desobstruo no for feita, os refns sero executados. Em 12 de maio de 1920, Lenin enviou as seguintes instrues a todas as comisses provinciais de luta contra os desertores: Aps a expirao do prazo final de sete dias, concedido aos desertores para que se rendam,  preciso reforar ainda mais as sanes a esses incorrigveis traidores do povo trabalhador. As famlias e todos os que de algum modo ajudarem os desertores sero a partir de agora considerados como refns e tratados como tais. Esse decreto apenas legalizava o que j era prtica cotidiana. Mas o fluxo de deseres no deixou de aumentar. Em 1920-1921, assim corno em 1919, os desertores constituram a maior parte dos militantes verdes, contra os quais os bolcheviques praticaram, durante trs anos (chegando a cinco anos em algumas regies), uma guerra impiedosa, de uma crueldade inaudita.
	De um modo geral, os camponeses rejeitavam, alm da requisio e da convocao militar, toda intruso de um poder que eles consideravam estrangeiro, o poder dos comunistas oriundos da cidade. Para os camponeses, os comunistas que praticavam as requisies eram diferentes dos bolcheviques que haviam encorajado a revoluo agrria de 1917. No campo,  merc da soldadesca branca e dos destacamentos de convocados vermelhos, a violncia transbordava.
	Uma fonte excepcional para a apreenso das mltiplas facetas dessa guerrilha camponesa so os relatrios dos diversos departamentos da Tcheka encarregados da represso. Eles distinguem dois tipos especiais de movimentos camponeses: o bunt, uma revolta circunscrita, breve exploso de violncia implicando um nmero relativamente restrito de participantes, que vai de algumas dezenas a uma centena de pessoas; a vosstanie, a insurreio que implicava a participao de milhares, e mesmo de dezenas de milhares de camponeses, organizados em verdadeiros exrcitos capazes de tomarem um burgo ou uma cidade e dotados de um programa poltico coerente, com tendncia social-revolucionria ou anarquista.
	 de abril de 1919. Provncia de Tambov. No incio de abril, no distrito de Lebiadinski, estourou uma revolta de kulaks e de desertores protestando contra a mobilizao dos homens, dos cavalos e contra a requisio de cereais. Com gritos de 'Abaixo os comunistas! Abaixo os sovietes!', os rebelados armados saquearam quatro Comits executivos da regio, mataram barbaramente sete comunistas, cortados vivos com uma serra. O 212 batalho da Tcheka, chamado pelos membros do destacamento de requisio, esmagou os kulaks rebelados. Sessenta pessoas foram presas, sendo que 50 delas executadas de imediato, e a cidade de onde partiu a rebelio foi inteiramente queimada.
	Provncia de Voronezh, 11 de junho de 1919, 16h15min. Por telgrafo. A situao melhora. A revolta do distrito de Novokhopersk est praticamente liquidada. Nosso avio bombardeou e queimou inteiramente o burgo de Tretiaki, um dos principais ninhos de bandidos. As operaes de limpeza prosseguem.
	Provncia de Yaroslav, 23 de junho de 1919. A revolta dos desertores na volost Petropavlovskaia foi liquidada. As famlias dos desertores foram tomadas como refns. Quando comeamos a fuzilar um homem em cada famlia de desertores, os Verdes comearam a sair do bosque e a se renderem. Para dar o exemplo, 34 desertores foram fuzilados.?
	Milhares de relatrios semelhantes26 mostram a extraordinria violncia dessa guerra de pacificao aplicada pelas autoridades contra a guerrilha camponesa, alimentada pela desero, mas qualificada, na maior parte das vezes, de revolta de kulaks ou de insurreio de bandidos. Os trs extratos citados acima revelam os mtodos de represso utilizados com mais freqncia: priso e execuo dos refns das famlias dos desertores ou dos bandidos, cidades no campo bombardeadas e queimadas. A represso cega e desproporcional repousava no princpio da responsabilidade coletiva da comunidade camponesa como um todo. Geralmente, as autoridades davam aos desertores um prazo para que eles se rendessem. Passado esse prazo, o desertor era considerado como um bandido da floresta, passvel de execuo imediata. Alis, os textos das autoridades civis e militares deixavam explcito que se os habitantes de uma cidade camponesa ajudassem de algum modo os bandidos a se esconderem nas florestas vizinhas, essa cidade seria inteiramente queimada.
	Alguns relatrios finais da Tcheka do indicaes numricas sobre a extenso dessa guerra de pacificao camponesa. Assim, no perodo de 15 de outubro a 30 de novembro de 1918, em apenas 12 regies da Rssia, estouraram 44 revoltas (bunty), durante as quais 2.320 pessoas foram presas, 620 mortas durante os combates e 982 fuziladas. Nessas rebelies, 480 funcionrios soviticos foram mortos, assim como 112 homens dos destacamentos de abastecimento, do Exrcito Vermelho e da Tcheka. No ms de setembro de 1919, nas dez provncias russas sobre as quais dispomos de informaes sintticas, contam-se 48.735 desertores e 7.325 bandidos presos, 1.826 mortos em combate e 2.230 fuzilados, com 430 vtimas do lado dos funcionrios e militares soviticos. Esses nmeros esto bastante incompletos e no levam em conta as perdas, ainda maiores, sofridas durante as grandes insurreies camponesas.
	Essas insurreies tiveram vrios pices: maro-agosto de 1919, principalmente nas provncias do Mdio Volga e na Ucrnia; fevereiro-agosto de 1920, nas provncias de Samara, Ufa, Kazan, Tambov e, novamente, na Ucrnia, retomada dos Brancos pelos bolcheviques, mas ainda controlada, no interior do pas, pela guerrilha camponesa. A partir do fim de 1920 e durante todo o primeiro semestre de 1921, o movimento campons, malogrado na Ucrnia e nas regies do Don e do Kuban, culminou na Rssia com um enorme levante centrado nas provncias de Tambov, Penza, Samara, Saratov, Sim-birsk e Tsaritsyne.? O calor dessa guerra camponesa apagou-se apenas com a chegada de uma das mais terrveis fomes que o sculo XX jamais conheceu.
	Foi nas ricas provncias de Samara e de Simbirsk - que tiveram de suportar sozinhas cerca de um quinto de todas requisies de cereais feitas na Rssia em 1919 - que pela primeira vez, desde o estabelecimento do regime bolchevique, as revoltas camponesas circunscritas se transformaram, em maro de 1919, numa verdadeira insurreio. Dezenas de burgos foram tomados por um exrcito rebelde campons que contava com quase 30 mil homens armados. Durante cerca de um ms, o poder perdeu o controle da provncia de Samara. Essa rebelio favoreceu o avano das unidades do Exrcito Branco comandadas pelo almirante Koltchak em direo ao Volga, obrigando os bolcheviques a enviarem vrias dezenas de milhares de homens para conseguirem vencer esse exrcito campons muito bem organizado, que propunha um projeto poltico coerente, reclamando a supresso das requisies, a liberdade do comrcio, eleies livres nos sovietes e o fim da comissariocracia bolchevique. No comeo de abril de 1919, fazendo o balano do trmino das insurreies camponesas na provncia, o chefe da Tcheka de Samara dava conta de, entre os rebeldes, 4.240 mortos em combate, 625 fuzilados e 6.210 desertores e bandidos presos...
	Mal ocorria o cessar-fogo na provncia de Samara e os conflitos j recomeavam com um alcance impressionante na maior parte da Ucrnia. Depois da partida dos alemes e dos austro-hngaros no fim de 1918, o governo bolchevique havia decidido reconquistar a Ucrnia. Sendo a mais rica regio agrcola do ex-Imprio Czarista, ela devia alimentar o proletariado de Moscou e de Petro-grado. Nessa regio, mais do que em qualquer outro lugar, as cotas de requisio eram extremamente elevadas. Cumpri-las significava condenar  fome centenas de milhares de pequenas cidades que j haviam sido extorquidas durante todo o ano de 1918 pelos exrcitos de ocupao alemes e austro-hngaros. Alm disso, ao contrrio da poltica que eles foram obrigados a aceitar na Rssia no fim de 1917 - a partilha das terras entre as comunidades camponesas -, os bolcheviques russos desejavam estatizar todas as grandes propriedades rurais na Ucrnia, as mais modernas do ex-imprio. Essa poltica, que visava transformar todos os grandes domnios cerealstas e aucareiros em grandes propriedades coletivas, onde os camponeses passariam a ser operrios agrcolas, s podia ter suscitado um enorme descontentamento em toda a populao do campo. Eles se haviam aguerrido na luta contra as foras de ocupao alems e austro-hn-garas. No incio de 1919, existiam na Ucrnia verdadeiros exrcitos camponeses com dezenas de milhares de homens, comandados pelos chefes militares e polticos ucranianos, tais como Simon Petliura, Nestor Makhno, Hryhoryiv, ou ainda Zeleny. Esses exrcitos camponeses estavam firmemente decididos a fazer com que sua concepo de revoluo agrria triunfasse: terra para os camponeses, liberdade de comrcio e sovictes eleitos com liberdade, sem moscovitas nem judeus. Para a maioria dos camponeses ucranianos, marcados por uma longa tradio de antagonismo entre o campo - onde a populao majoritria era a ucraniana - e cidades - onde a populao majoritria era composta por russos e judeus -, era simples e tentador realizar esse amlgama: moscovitas = bolcheviques = judeus. Todos deveriam ser expulsos da Ucrnia.
	Essas particularidades prprias  Ucrnia explicam a brutalidade e a durao dos conflitos entre os bolcheviques e uma grande parte da populao camponesa ucraniana. A presena de um outro ator, os Brancos, combatidos ao mesmo tempo pelos bolcheviques e pelos diversos exrcitos camponeses ucranianos que no queriam o retorno dos grandes proprietrios, tornava ainda mais complexo o imbrglio poltico e militar nessa regio onde algumas cidades, como Kiev, chegaram a mudar 14 vezes de dominador em dois anos!
	As primeiras revoltas contra os bolcheviques e seus odiados destacamentos de requisio explodiram a partir de abril de 1919. Durante esse nico ms, ocorreram 93 revoltas camponesas nas provncias de Kiev, Tchernigov, Poltava e Odessa. Nos primeiros 20 dias de julho de 1919, os dados oficiais da Tcheka do conta de 210 revoltas, implicando cerca de cem mil combatentes armados e vrias centenas de milhares de camponeses. Em abril-maio de 1919, os exrcitos camponeses de Hryhoryiv - cerca de 20 mil homens armados, entre os quais vrias unidades amotinadas do Exrcito Vermelho, com 50 canhes e 700 metralhadoras - tomaram toda uma srie de cidades no sul da Ucrnia, entre as quais Tcherkassy, Kherson, Nikolaiev e Odessa, estabelecendo nelas um poder autnomo cujas palavras de ordem no deixavam margem a equvocos: Todo o poder aos sovietes do povo ucraniano!, A Ucrnia aos ucranianos, sem bolcheviques nem judeus!, Reforma Agrria e Liberdade para as empresas e o comrcio. Os partidrios de Zeleny, ou seja, cerca de 20 mil homens armados, mantinham o domnio da provncia de Kiev, exceto nas cidades principais. Utilizando-se da palavra de ordem Viva o poder sovitico, abaixo os bolcheviques e os judeus!, eles organizaram dezenas de pogroms sangrentos contra a comunidade judia dos burgos e pequenas cidades das provncias de Kiev e Tchernigov. Bastante conhecida atualmente graas aos numerosos estudos que lhe foram dedicados, a ao de Nestor Makhno  frente de um exrcito campons de dezenas de homens apresentava um programa ao mesmo tempo nacional, social e anarquizante, elaborado durante verdadeiros congressos, tais como o Congresso dos Delegados Camponeses, Rebeldes e Operrios de Guliai-Pole, que teve lugar em abril de 1919, em meio aos eventos da rebelio makhonovista. Como tantos outros movimentos camponeses menos estruturados, os makhnovistas exprimiam antes de tudo a recusa a toda ingerncia do Estado nos negcios camponeses e o desejo de um self-government campons - um tipo de autogesto - fundado em sovietes livremente eleitos. A essas reivindicaes de base se juntava um pequeno numero de exigncias comuns a todos os movimentos camponeses: o trmino das requisies, a supresso das taxas e impostos, a liberdade para todos os partidos socialistas e grupos anarquistas, a reforma agrria, a supresso da comissariocracia bolchevique, das tropas especiais e da Tcheka.
	Na primavera e no vero de 1919, as centenas de insurreies camponesas na retaguarda do Exrcito Vermelho tiveram um papel determinante na vitria sem futuro das tropas brancas do general Denikin. Partindo do sul da Ucrnia em 19 de maio de 1919, o Exrcito Branco avanou com muita rapidez diante das unidades do Exrcito Vermelho engajadas nas operaes de represso s rebelies camponesas. As tropas de Denikin tomaram Kharkov em 12 de junho, Kiev em 28 de agosto e Voronezh em 30 de setembro. A retirada dos bolcheviques, que s conseguiam restabelecer o poder nas maiores cidades, deixando o campo entregue aos camponeses rebelados, foi acompanhada de execues em massa de prisioneiros e refns, sobre as quais retornaremos mais adiante. Em sua retirada precipitada atravs do interior do pas dominado pela guerrilha camponesa, os destacamentos do Exrcito Vermelho e da Tcheka no foram nem um pouco indulgentes: centenas de cidades queimadas, execues em massa de bandidos, de desertores e de refns. O abandono e a posterior reconquista da Ucrnia foram a ocasio de um extraordinrio despejar de violncia sobre as populaes civis, o que foi muito bem demonstrado na obra-prima de Isaak Babel, Cavalaria Vermelha.
	No princpio de 1920, os exrcitos brancos comandados pelo sucessor de Denikin, o Baro de Wrangel, j estavam desfeitos, com a exceo de umas poucas unidades dispersas que haviam encontrado refgio na Crimia. Ficaram face a face as foras bolcheviques e as camponesas. At 1922, uma represso impiedosa se abateria sobre as regies do campo em luta contra o poder. Em fevereiro-maro de 1920, explodia uma nova revolta, conhecida pelo nome de insurreio dos forcados, numa grande extenso territorial que ia do Volga ao Ural, incluindo as provncias de Kazan, Simbirsk e Ufa. Povoadas por russos, alm de Tatarsk e Bashkir, essas regies foram submetidas a requisies particularmente pesadas. Em poucas semanas, a rebelio alcanou uma dezena de distritos. O exrcito campons rebelde dos guias Negras chegou a ter, em seu apogeu, cerca de 50 mil combatentes. Armadas com canhes e metralhadoras, as Tropas de Defesa Interna da Repblica dizimaram os rebeldes armados com forcados e lanas. Em poucos dias, milhares de rebeldes foram massacrados, e centenas de povoados queimados.
	Aps a rpida aniquilao da insurreio dos forcados, o clamor das revoltas camponesas propagou-se novamente nas provncias do Mdio Volga, elas tambm bastante depredadas pelas requisies: em Tambov, Penza, Samara, Saratov e Tsaritsyne. Se os planos das requisies de 1920-1921 fossem seguidos - como admitiu Antonov-Ovseenko, o dirigente bolchevique que organizou a represso aos camponeses rebeldes de Tambov - os camponeses seriam inexoravelmente condenados  morte: em mdia, eles receberiam umpud(l6 quilos) de gros e 1,5 pud(24 quilos) de batatas por pessoa durante um ano, ou seja, uma poro de dez a 12 vezes menor do que o mnimo vital! Assim, foi uma luta pela sobrevivncia que os camponeses dessas provncias engajaram a partir do vero de 1920. Essa luta durou dois anos inteiros, at que a fome venceu a resistncia desses camponeses rebelados.
	O terceiro grande plo de conflito entre os bolcheviques e os camponeses em 1920 ainda era a Ucrnia, retomada em dezembro de 1919-fevereiro de 1920 do domnio dos exrcitos brancos, mas cujo interior permanecia controlado por centenas de destacamentos verdes independentes ou por unidades mais ou menos ligadas ao comando de Makh.no. Ao contrrio dos guias Negras, os destacamentos ucranianos, compostos principalmente por desertores, estavam bem armados. Durante o vero de 1920, o exrcito de Makhno contava ainda com cerca de 15 mil homens, 2.500 cavaleiros, uma centena de metralhadoras, duas dezenas de canhes de artilharia e dois veculos blindados. Centenas de bandos menores, com grupos que iam de poucas dezenas at algumas centenas de combatentes, tambm opunham uma resistncia feroz  penetrao bolchevique. Para lutar contra essa guerrilha camponesa, o governo nomeou, no incio de maio de 1920, o chefe da Tcheka, Feliks Dzerjinski, comandante chefe da retaguarda sudoeste. Dzerjinski permaneceu mais de dois meses em Kharkov, organizando 24 unidades especiais das forcas de segurana interna da Repblica, unidades de elite, dotadas de uma cavalaria encarregada de perseguir os rebeldes, alm de avies destinados a bombardear os ninhos de bandidos. A tarefa que lhes foi dada era a de erradicar, em apenas trs meses, a guerrilha camponesa. Na realidade, as operaes de pacificao se prolongaram por mais de dois anos, do vero de 1920 ao outono de 1922, ao custo de dezenas de milhares vtimas.
	Entre os diversos episdios de luta praticada pelo poder bolchevique contra os camponeses, a descossaquizao - ou seja, a eliminao de todo o grupo social dos cossacos do Don e do Kuban - ocupa uma posio particular. Com efeito, pela primeira vez o novo regime tomou um certo nmero de medidas repressivas para eliminar, exterminar, deportar, segundo o princpio da responsabilidade coletiva, a totalidade da populao de um territrio que os dirigentes bolcheviques tinham se habituado a chamar de Vendia Sovi-tica. Essas operaes no foram o resultado de medidas de retaliao militar tomadas no calor dos combates, mas foram planejadas antecipadamente, sendo objeto de vrios decretos elaborados nos mais altos nveis do Estado, onde estavam implicados diretamente inmeros responsveis polticos de alto escalo (Lenin, Ordjonikidze, Syrtsov, Sokolnikov, Reingold). Fracassada uma primeira vez, na primavera de 1919, por causa dos reveses militares dos bolcheviques, a descossaquizao foi retomada, em 1920, durante a reconquista bolchevique das terras cossacas do Don e do Kuban.
	Os cossacos - privados desde dezembro de 1917 do estatuto do qual eles se beneficiavam desde no Antigo Regime, catalogados pelos bolcheviques como kulaks e inimigos da classe - haviam se juntado, sob a bandeira do ataman Krasnov, s forcas brancas que se haviam constitudo no sul da Rssia na primavera de 1918. Foi somente em fevereiro de 1919, durante a progresso geral dos bolcheviques em direo  Ucrnia e o sul da Rssia, que os primeiros destacamentos do Exrcito Vermelho penetraram nos territrios cossacos do Don. Em princpio, os bolcheviques tomaram um certo nmero de medidas que aniquilavam tudo o que era especificamente cossaco: as terras que lhes pertenciam foram confiscadas e distribudas entre colonos russos ou a camponeses locais que no tinham o estatuto de cossacos; os cossacos foram obrigados, sob ameaa de pena de morte, a entregarem as suas armas - ora, de acordo com o seu estatuto tradicional de guardies dos confins do Imprio Russo, todos os cossacos deveriam se armar; as assemblias e circunscries administrativas cossacas foram dissolvidas.
	Todas essas medidas faziam parte de um plano preestabelecido de des-cossaquizao, assim definido em uma resoluo secreta do Comit Central do Partido Bolchevique, datada de 24 de janeiro de 1919: Em vista da experincia da guerra civil contra os cossacos,  necessrio reconhecer como nica medida politicamente correta uma luta sem perdo, um terror em massa contra os ricos cossacos, que devero ser exterminados e fisicamente liquidados at a ltima pessoa.
	Na realidade, como reconheceu Reingold - presidente do Comit Revolucionrio do Don e encarregado de impor a ordem bolchevique nas terras cossacas - em junho de 1919, ns temos a tendncia a aplicar uma poltica de extermnio em massa dos cossacos, sem a menor distino. Em poucas semanas, de meados de fevereiro a meados de maro de 1919, os destacamentos bolcheviques j haviam executado mais de oito mil cossacos. Em cada stanitsa (burgo cossaco), os tribunais revolucionrios procediam, em poucos minutos, a julgamentos sumrios de listas de suspeitos, nos quais todos eram invariavelmente condenados  pena capital por comportamento contra-revolucionrio. Diante dessa torrente repressiva, os cossacos no tiveram outra alternativa a no ser se rebelarem.
	O levante partiu do distrito de Veshenskaia em 11 de maro de 1919. Bem organizados, os cossacos revoltosos decretaram a mobilizao geral de todos os homens de 16 a 50 anos de idade; eles enviaram a todas as regies do Don, chegando  provncia limtrofe de Voronezh, vrios telegramas convocando a populao a se insurgir contra os bolcheviques. Ns, cossacos, eles explicavam, no somos contra os sovietes. Somos favorveis  realizao de eleies livres. Somos contra os comunistas, as comunas [cultivo coletivo da terra] e os judeus. Somos contra as requisies, os roubos e as execues perpetradas pelas Tchekas. No incio do ms de abril, os cossacos rebelados representavam uma fora armada considervel de cerca de 30 mil homens bem-armados e aguerridos. Operando nas retaguardas do Exrcito Vermelho que combatia mais ao sul as tropas de Denikin aliadas aos cossacos de Kuban, os rebeldes do Don contriburam, como todos os camponeses revoltados, para a fulminante progresso dos exrcitos brancos em maio-junho de 1919. No incio do ms de junho, os cossacos do Don se juntaram ao grosso dos exrcitos brancos, apoiados pelos cossacos do Kuban. Toda a Vendia Cossaca estava livre do maldito poder dos moscovitas, judeus e bolcheviques.
	Entretanto, com a virada da sorte militar, os bolcheviques retornaram em fevereiro de 1920. Comeava uma segunda ocupao militar das terras cossacas, bem mais assassina do que a primeira. A regio do Don foi submetida a uma contribuio de 36 milhes de puas de cereais, uma quantidade que ultrapassava largamente o total da produo local; a populao rural foi sistematicamente espoliada, no somente de suas magras reservas alimentares, mas tambm da totalidade de seus bens, sapatos, roupas, travesseiros e samo-var includos, explicitava um dos relatrios da Tcheka. Todos os homens em condies de combate responderam a essa pilhagem e a essa represso sistemtica juntando-se aos bandos de partidrios verdes. Em julho de 1920, estes ltimos contavam, pelo menos, 35 mil homens no Kuban e no Don. Bloqueado na Crimia desde fevereiro, o general Wrangel decidiu, numa ltima tentativa para se ver livre do aperto bolchevique, atuar em conjunto com os cossacos e os Verdes do Kuban. Em 17 de agosto de 1920, cinco mil homens desembarcaram perto de Novorossisk. Sob a presso conjugada dos Brancos, dos Cossacos e dos Verdes, os bolcheviques tiveram de abandonar Ekaterinodar, a principal cidade do Kuban, e depois toda a regio. Por sua vez, o general Wrangel avanava na Ucrnia do Sul. O sucesso dos Brancos foi, entretanto, de curta durao. Suplantadas pelas foras bolcheviques, bastante superiores em nmero de homens, as tropas de Wrangel, cada vez mais lentas e pesadas com o imenso afluxo de civis, retrocederam, na mais indescritvel desordem, em direo  Crimia no fim do ms de outubro. A retomada da Crimia pelos bolcheviques, ltimo episdio do conflito entre Brancos e Vermelhos, deu lugar s maiores chacinas da guerra civil: pelo menos 50 mil civis foram massacrados pelos bolcheviques em novembro e em dezembro de 1920.
	Encontrando-se, mais uma vez, do lado dos vencidos, os cossacos foram submetidos a um novo Terror Vermelho. Um dos principais dirigentes da Tcheka, o leto Karl Lander, foi nomeado plenipotencirio do Cucaso Norte e do Don. Ele ps em prtica as troiki, tribunais especiais encarregados da descossaquizao. Durante apenas o ms de outubro de 1920, essas troiki condenaram  morte mais de seis mil pessoas, imediatamente executadas. As famlias - e, muitas vezes, mesmo os vizinhos dos partidrios verdes ou dos cossacos que tinham ido  luta armada contra o regime e que ainda no tinham sido alcanados - foram sistematicamente presas corno refns e encarceradas em campos de concentrao, verdadeiros campos de morte, como reconheceu Martyn Latsis, o chefe da Tcheka da Ucrnia em um de seus relatrios: Reunidos num campo perto de Maikop, os refns - mulheres, crianas e idosos - sobrevivem em condies assustadoras, na lama e no frio de outubro. [...] Eles morrem como moscas. [...] As mulheres esto prontas a tudo para escapar da morte. Os soldados que guardam o campo se aproveitam para fazer comrcio de mulheres.
	Toda resistncia era impiedosamente punida. Quando o chefe da Tcheka de Piatigorsk caiu numa emboscada, os tchekistas decidiram organizar o Dia do Terror Vermelho. Indo alm das instrues do prprio Lander - que desejava que esse ato terrorista fosse aproveitado para fazer mais preciosos refns para poder execut-los, e para acelerar os procedimentos de execuo dos espies brancos e contra-revolucionrios em geral -, os tchekistas de Piatigorsk se lanaram numa torrente de prises e de execues. Segundo Lander, a questo do Terror Vermelho foi resolvida de maneira simplista. Os tchekistas de Piatigorsk decidiram executar 300 pessoas em um,  dia. Eles definiram as cotas por cada municpio de Piatigorsk e por cada burgo das redondezas e ordenaram s organizaes do Partido que fossem feitas listas de execuo. [...] Esse mtodo insatisfatrio acarretou um grande nmero de acertos de contas. [...] Em Kislovodsk, na falta de outro critrio, foi decidido que seriam executadas as pessoas que se encontrassem no hospital.
	Um dos mtodos mais rpidos de descossaquizao era a destruio dos burgos cossacos e a deportao de todos os sobreviventes. Os arquivos de Sergo Ordjonikidze, um dos principais dirigentes bolcheviques, na poca presidente do Comit Revolucionrio do Cucaso Norte, conservaram os documentos de uma dessas operaes que ocorreram entre fins de outubro e meados de novembro de 1920.
	Dia 23 de outubro, Sergo Ordjonikidze ordenou:
	1. queimar inteiramente o burgo de Kalinovskaia;
	2. esvaziar de todos os seus habitantes o burgo de Ermolovskaia, Romanovskaia, Samachinskaia e Mikhailovskaia; as casas e as terras pertencentes aos habitantes sero distribudas entre os camponeses pobres, em particular os chechenos, que sempre demonstraram sua profunda ligao com o poder sovitico;
	3. embarcar em vages de trem toda a populao masculina, de 18 a 50 anos, dos burgos supramencionados e deport-los sob escolta, em direo ao norte, onde eles faro trabalhos forcados de natureza pesada;
	4. expulsar mulheres, crianas e idosos, deixando-lhes, porm, a autorizao para que se reinstalem em outros burgos mais ao norte;
	5. apreender todo o gado e todos os bens dos habitantes dos burgos supramencionados.
	Trs semanas mais tarde, um relatrio endereado a Ordjonikidze assim descrevia o desenrolar das operaes:
	- Kalinovskaia: burgo inteiramente queimado, toda a populao (4.220) deportada e expulsa.
	- Ermolovskaia: limpa de todos os seus habitantes (3.218).
	- Romanovskaia: 1.600 deportados; restam 1.661 a serem deportados.
	- Samachinskaia: 1.018 deportados; restam 1.900 a serem deportados.
	- Mikhailovskaia: 600 deportados; restam 2.200 a serem deportados. Alis, 154 vages de produtos alimentares foram enviados a Groznyi.
	Nos trs burgos em que a deportao ainda no foi concluda, foram deportadas em primeiro lugar as famlias dos elementos brancos-verdes, assim como os elementos que participaram da ltima insurreio. Entre os que ainda no foram deportados, figuram os simpatizantes do regime sovitico, famlias de soldados do Exrcito Vermelho, funcionrios e comunistas. O atraso nas operaes de deportao explica-se pela falta de vages. Em mdia, recebemos apenas um vago por dia para dar conta das operaes. Para concluir as operaes de deportao, nos so necessrios 306 vages suplementares com urgncia. Como terminaram essas operaes? Infelizmente, nenhum documento preciso esclarece esse ponto. Sabe-se que as operaes foram muito arrastadas e que, no final das contas, os homens deportados foram enviados no em direo ao Grande Norte, como seria feito em seguida, mas, na maior parte das vezes, para as minas de Donetz, mais prximas. Considerado o estado dos trens ferrovirios nesse fim de 1920, tinha-se muita dificuldade em prosseguir com a intendncia... Entretanto, as operaes de descossaquizao de 1920 prefiguravam, em vrios aspectos, as grandes operaes de deskula-kizao que foram lanadas dez anos mais tarde: a mesma concepo de responsabilidade coletiva, o mesmo processo de deportao em vages de trem, os mesmos problemas de intendncia e de locais de abrigo no preparados para receber os deportados, a mesma idia de explorar os deportados, submetendo-os a trabalhos forados. As regies cossacas do Don e do Kuban pagaram um pesado tributo por terem feito oposio aos bolcheviques. Segundo as estimativas mais superficiais, para uma populao total que no ultrapassava os trs milhes de pessoas, entre 300 e 500 mil pessoas foram mortas ou deportadas em 1919-1920.
	Entre as operaes repressivas mais difceis de serem classificadas e avaliadas figuram os massacres de presos e de refns encarcerados unicamente por pertencerem a uma classe inimiga ou socialmente estranha. Esses massacres se inscreviam na continuidade da lgica do Terror Vermelho da segunda metade de 1918, mas em uma escala ainda mais ampla. Essa torrente de massacres de acordo com a classe era permanentemente justificada pelo fato de que um mundo novo estava nascendo. Tudo era permitido, como explicava a seus leitores o editorial do primeiro nmero do Krasnyi Metch (O Gldio Vermelho), jornal da Tcheka de Kiev:
	Ns rejeitamos os velhos sistemas de moralidade e de 'humanidade' inventados pela burguesia com o objetivo de oprimir e explorar as 'classes inferiores'. Nossa moralidade no tem precedentes, nossa humanidade  absoluta pois ela repousa sobre um novo ideal: destruir toda forma de opresso e de violncia. Para ns, tudo  permitido pois somos os primeiros no mundo a erguermos a espada no para oprimir, mas para libertar a humanidade de suas correntes... Sangue? Que o sangue jorre aos montes! Somente o sangue pode colorir para sempre a bandeira negra da burguesia pirata como um estandarte vermelho, bandeira da Revoluo. Somente a morte final do velho mundo pode nos libertar para sempre do retorno dos chacais!
	Essa instigao ao assassinato atiava o velho fundo de violncia e o desejo de vingana social presente em muitos dos tchekistas, recrutados na maior parte das vezes entre os elementos criminosos e socialmente degenerados da sociedade, como reconheciam os prprios dirigentes bolcheviques. Em uma carta endereada a Lenin em 22 de maro de 1919, o dirigente bolchevique Gopner assim descrevia as atividades da Tcheka de Ekaterinoslav: Nessa organizao gangrenada pela criminalidade, violncia e arbitrariedade, dominada pelos canalhas e criminosos comuns, homens armados at os dentes executavam toda pessoa que no lhes agradasse, devassando, pilhando, violando, aprisionando, passando dinheiro falso, exigindo suborno, chantageando os que haviam sido extorquidos e subornados e depois liberando-os em troca de somas dez ou vinte vezes superiores.
	Os arquivos do Comit Central, assim como os de Feliks Dzerjinski, contm inmeros relatrios de responsveis do Partido ou inspetores da polcia poltica descrevendo a degenerescncia das tchekas locais, brias de violncia e de sangue. O desaparecimento de toda norma jurdica ou moral favorecia com freqncia a autonomia dos responsveis locais da Tcheka, que no respondiam mais por seus atos nem mesmo diante de sua hierarquia e se transformavam em tirnicos sanguinrios, descontrolados e incontrolveis. Trs extratos de relatrio, entre dezenas de outros com o mesmo teor, ilustram essa deriva da Tcheka em um ambiente de total arbitrariedade, de absoluta ausncia de direito.
	De Sysran, na provncia de Tambov, em 22 de maro de 1919, eis o relatrio de Smirnov, instrutor da Tcheka, a Dzerjinski: Verifiquei o caso do levante kulak na volost Novo-Matrionskaia. A instruo foi aplicada de maneira catica. Setenta e cinco pessoas foram interrogadas sob tortura, mas  impossvel ler o que quer que seja das confisses transcritas. [...] Cinco pessoas foram fuziladas dia 16 de fevereiro, e 13 no dia seguinte. Os autos das condenaes e das execues datam do dia 28 de fevereiro. Quando pedi ao responsvel local que se explicasse, ele me respondeu: 'No temos nunca o tempo de escrever os autos. De todo modo, para que serviriam, j que estamos exterminando kulaks e burgueses enquanto uma classe?'
	De Yaroslav, eis o relatrio de 26 de setembro de 1919 do secretrio de organizao regional do Partido Bolchevique: Os tchekistas esto pilhando e prendendo a esmo. Sabendo que eles no sero punidos, eles transformaram a sede da Tcheka num imenso bordel para onde eles levam as 'burguesas'. A bebedeira  geral. A cocana est sendo utilizada correntemente pelos pequenos chefes. 
	De Astrakhan, de 16 de outubro de 1919, eis o relatrio de misso de N. Rosental, inspetor de direo dos departamentos especiais: Atarbekov, chefe dos departamentos especiais do XI Exrcito, no reconhece mais nem mesmo o poder central. Em 30 de julho ltimo, quando o camarada Zakovski, enviado por Moscou para controlar o trabalho dos departamentos especiais, foi ter com Atarbekov, este ltimo lhe disse: 'Diga a Dzerjinski que eu no me deixarei mais controlar...' Nenhuma norma administrativa  respeitada pelo pessoal composto em sua maioria por elementos duvidosos e, muitas vezes, criminosos. Os dossis do departamento operacional so praticamente inexistentes. A respeito das condenaes  morte e da execuo das sentenas, no encontrei protocolos individuais de julgamento e de condenao, apenas listas, s vezes incompletas, com uma nica meno: 'Fuzilado sob as ordens do camarada Atarbekov'. Quanto aos eventos do ms de maio,  impossvel ter uma idia de quem foi fuzilado e o porqu. [...] As bebedeiras e as orgias so cotidianas. Quase todos os tchekistas fazem uso frequente de cocana. Isso lhes permite, segundo dizem, suportar melhor a viso cotidiana do sangue. brios de violncia e de sangue, os tchekistas cumprem com o seu dever, mas so, indubitavelmente, elementos descontrolados e que devem ser vigiados bem de perto. 
	Os relatrios da Tcheka e do Partido Bolchevique confirmam hoje os vrios testemunhos recolhidos, a partir dos anos 1919-1920, pelos adversrios dos bolcheviques, principalmente pela Comisso Especial de Investigao dos Crimes Bolcheviques, instaurada pelo general Denikin e cujos arquivos, transferidos de Praga a Moscou em 1945, esto agora disponveis, depois de ficarem fechados durante muito tempo. O historiador social-revolucionrio russo Serguei Melgunov tentou classificar, a partir de 1926, em sua obra O Terror Vermelho na Rssia, os principais massacres de detentos, refns e civis comuns executados em massa pelos bolcheviques, quase sempre por pertencerem a uma determinada classe. Ainda que incompleta, a lista dos principais episdios ligados a esse tipo de represso, tal como ela  mencionada nessa obra pioneira, est plenamente confirmada pela totalidade concordante de fontes documentais bastante diversas, emanadas dos dois campos conflitantes. Permanece, entretanto, a incerteza quanto ao nmero de vtimas executadas durante os principais episdios repressivos atualmente identificados com preciso, haja vista o caos organizacional que reinava na Tcheka naquela poca. Pode-se, no mximo, recorrendo-se a fontes diversas, arriscar a afirmao de algumas ordens de grandeza.
	Os primeiros massacres de suspeitos, refns e outros inimigos do povo - encarcerados preventivamente, e com uma simples medida administrativa, nos campos de concentrao e nas prises - haviam comeado em setembro de 1918, durante o primeiro Terror Vermelho. Estabelecidas as categorias de suspeitos, refns e inimigos do povo e, rapidamente, tornados operacionais os campos de concentrao, a mquina repressiva estava pronta para funcionar. O elemento desencadeador dessa guerra de frontes mveis, e para a qual cada ms trazia seu lote de ganhos da fortuna militar, era, naturalmente, a tomada de uma cidade at ento ocupada pelo adversrio, ou, ao contrrio, seu abandono precipitado.
	A imposio da ditadura do proletariado nas cidades conquistadas ou retomadas passava pelas mesmas etapas: dissoluo de todas as assemblias eleitas anteriormente; interdio de todo o comrcio - medida que acarretava de imediato a elevao dos preos de todas as mercadorias, seguida de seu desaparecimento; confisco de empresas, estatizando-as ou municipalizando-as; imposio  burguesia de uma contribuio financeira muito elevada - em Kharkov, 600 milhes de rublos em fevereiro de 1919; em Odessa, 500 milhes em abril de 1919. Para garantir a boa execuo dessa contribuio, centenas de burgueses eram feitos refns e encarcerados em campos de concentrao. Na realidade, essa contribuio era um sinnimo de pilhagens, de expropriaes e de humilhaes, primeira etapa da aniquilao da burguesia enquanto classe.
	De acordo com as resolues do soviete de trabalhadores, esse 13 de maio foi decretado como um dia de expropriao da burguesia, lia-se nos Izvestia do Conselho de Deputados Operrios de Odessa de 13 de maio de 1919. As classes abastadas devero preencher um questionrio detalhado, relacionando os produtos alimentares, os calados, as roupas, as jias, as bicicletas, os cobertores, os lenis, a prataria, as louas e outros objetos indispensveis ao povo trabalhador. [...] Todos devem auxiliar as comisses de expropriao nessa tarefa sagrada. [...] Os que no obedecerem s ordens das comisses de expropriao sero imediatamente detidos. Os que resistirem sero fuzilados no ato.
	Como reconhecia Latsis, o chefe da Tcheka ucraniana, em sua circular endereada s Tchekas locais, todas essas expropriaes iam para o bolso dos tchekistas e de outros pequenos chefes dos vrios destacamentos de requisio, de expropriao e das Guardas Vermelhas que pululavam nessa ocasio.
	A segunda etapa das expropriaes era o confisco dos apartamentos dos burgueses. Nessa guerra de classes, a humilhao dos vencidos tambm tinha um papel importante: O peixe gosta de ser temperado com creme. A burguesia gosta da autoridade que sevcia e mata, lia-se no j citado jornal de Odessa, datado de 26 de abril de 1919. Se executamos alguns desses emprestveis e idiotas, se os rebaixamos a varredores de ruas, se forcamos suas mulheres a lavarem as casernas das Guardas Vermelhas (o que seria mais do que uma pequena honraria para elas), eles compreendero ento que o nosso poder  slido, e que no h nada a se esperar dos ingleses ou dos hotentotes.
	Tema recorrente de vrios artigos de jornais bolcheviques em Odessa, Kiev, Kharkov, Ekaterinoslav, alm de Perm, no Ural, ou Nijni-Novgorod, a humilhao das burguesas obrigadas a limpar as latrinas e as casernas dos tchekistas ou das Guardas Vermelhas parece ter sido uma prtica corrente. Mas era tambm uma verso edulcorada e politicamente apresentvel de uma realidade bem mais brutal: o estupro, fenmeno que, segundo vrios testemunhos concordantes, alcanou propores gigantescas, particularmente durante a segunda reconquista da Ucrnia, das regies cossacas e da Crimia em 1920.
	Etapa lgica e final do extermnio da burguesia enquanto classe, as execues de detentos, suspeitos e refns encarcerados somente por pertencerem s classes abastadas so atestadas em muitas cidades tomadas pelos bolcheviques. Em Kharkov, entre 2.000 e 3.000 execues em fevereiro-junho de 1919; entre 1.000 e 2.000 durante a segunda retomada da cidade, em dezembro de 1919. Em Rostov-sobre-o-Don, cerca de 1.000 em janeiro de 1920; em Odessa, 2.200 entre maio e agosto de 1919, depois 1.500 a 3.000 entre fevereiro de 1920 e fevereiro de 1921; em Kiev, pelo menos 3.000 entre fevereiro e agosto de 1919; em Ekaterinodar, pelo menos 3.000 entre agosto de 1920 e fevereiro de 1921; em Armavir, pequena cidade do Kuban, entre 2.000 e 3.000 entre agosto e outubro de 1920. Poderamos prolongar indefinidamente essa lista.
	Na realidade, ocorreram muitas outras execues em outras regies, mas essas no foram alvo de investigao feita logo aps os massacres.  mais bem conhecido o que se passou na Ucrnia ou no sul da Rssia do que no Cucaso, na sia Central ou no Ural. Com efeito, as execues geralmente eram apressadas com a aproximao do adversrio, no momento em que os bolcheviques abandonavam suas posies e descarregavam as prises. Em Kharkov, durante os dois dias que precederam a chegada dos Brancos, 8 e 9 de junho de 1919, centenas de refns foram executados. Em Kiev, mais de 1.800 pessoas foram fuziladas entre 22 e 28 de agosto de 1919, antes da retomada da cidade pelos Brancos em 30 de agosto. Mesma coisa em Ekaterinodar, onde, em face do avano das tropas cossacas, Atarbekov, o chefe local da Tcheka, executou em trs dias, de 17 a 19 de agosto de 1920, 1.600 burgueses nessa pequena cidade provinciana que possua, antes da guerra, menos de 30.000 habitantes.
	Os documentos das comisses de investigao das unidades do Exrcito Branco, que chegaram no local alguns dias - ou quem sabe at algumas horas - aps as execues, contm uma massa de depoimentos, testemunhos, relatrios de autpsia, de fotos dos massacres e carteiras de identidade das vtimas. Se os executados de ltima hora, eliminados com a pressa de uma bala na nuca, no apresentavam sinais de tortura, a situao dos cadveres exumados nos abatedouros mais antigos era outra. O uso das mais terrveis torturas  atestado por relatrios de autpsia, por elementos materiais e por testemunhos. Descries detalhadas dessas torturas figuram principalmente no livro j citado se Serguei Melgunov e tambm na Tcheka, a publicao do Escritrio Central do Partido Socialista Revolucionrio, editada em Berlim em 1922.
	Foi na Crimia, durante a evacuao das ltimas unidades brancas de Wrangel e dos civis que rugiam do avano dos bolcheviques, que os massacres atingiram seu apogeu. Em poucas semanas, de novembro ao fim de dezembro de 1920, cerca de 50 mil pessoas foram fuziladas ou enfbrcadas. Um grande nmero de execues ocorreu logo aps o embarque das tropas de Wrangel. Em Sebastopol, vrias centenas de estivadores foram fuzilados, em 26 de novembro, por terem ajudado na evacuao dos Brancos. Em 28 e 30 de novembro, os Izvestia do Comit Revolucionrio de Sebastopol publicaram duas listas de fuzilados. A primeira continha 1.634 nomes, a segunda, 1.202. No incio de dezembro, quando a febre das primeiras execues em massa decresceu, as autoridades comearam a produzir uma listagem, to completa quanto possvel, consideradas as circunstncias, da populao das principais cidades da Crimia onde, segundo se pensava, estavam escondidas dezenas, ou mesmo centenas de burgueses que, de toda a Rssia, fugiam em direo aos locais de vilegiatura tradicional. Em 6 de dezembro, Lenin declarou diante de uma assembleia de responsveis em Moscou que 300 mil burgueses se encontravam na Crimia. Ele assegurou que, num futuro prximo, esses elementos que constituam um reservatrio de espies e de agentes prontos para emprestar o brao ao capitalismo seriam castigados.freqncia
	Os cordes militares que fechavam o istmo de Perekop, nico ponto de fuga terrestre, foram reforados. Feita a armadilha, as autoridades ordenaram que todos os habitantes se apresentassem  Tcheka para o preenchimento de um longo questionrio de investigao, comportando cerca de 50 questes sobre a sua origem social, seu passado, suas atividades, seus ganhos, mas tambm sobre a sua ocupao cotidiana em novembro de 1920, sobre o que eles pensavam da Polnia, de Wrangel, dos bolcheviques, etc. Com base nessas investigaes, a populao foi dividida em trs categorias: a serem fuzilados; a serem enviados aos campos de concentrao; a serem poupados. Os testemunhos dos raros sobreviventes, publicados nos jornais da emigrao de 1921, descrevem Sebastopol, uma das cidades mais atingidas pela represso, como uma cidade de enforcados. O panorama de Nakhimovski estava coberto de corpos pendurados de oficiais enforcados, de soldados, de civis detidos nas ruas. [...] A cidade estava mona, a populao se escondia nos stos e nos pores. Todas as paliadas, os muros das casas, os postes telegrficos, as vitrines de lojas estavam cobertos de cartazes 'Morte aos traidores'. [...] Enforcava-se nas ruas, como fator edificador. 
	O ltimo episdio de confronto entre Brancos e Vermelhos no ps fim  represso. Os frontes militares da guerra civil no existiam mais, mas a guerra de pacificao e de erradicao se prolongaria ainda por cerca de dois anos.
	
	5. De Tambov  grande fome
	
	No fim de 1920, o regime bolchevique parecia vitorioso. O ltimo exrcito branco fora vencido, os cossacos foram batidos, e os destacamentos de Makhno estavam sendo derrotados. Entretanto, se a guerra reconhecida, aquela que os Vermelhos empreendiam contra os Brancos, estava terminada, o confronto entre o regime e enormes segmentos da sociedade continuava de vento em popa. As guerras camponesas atingiram seu apogeu no incio de 1921, quando provncias inteiras escapavam do controle do poder bolchevique. Na provncia de Tambov, numa parte das provncias do Volga (Samara, Saratov, Tsaritsyne, Simbirsk) e na Sibria Ocidental, os bolcheviques controlavam apenas as cidades de maior porte. O campo estava sob o controle de centenas de bandos de Verdes e, s vezes, de verdadeiros exrcitos camponeses. Nas unidades do Exrcito Vermelho, novos motins estouravam a cada dia. Greves, rebelies e protestos operrios multiplicavam-se nos ltimos centros industriais ainda em atividade no pas, em Moscou, Petrogrado, Ivanovo-Voznessensk e Tuia. No fim do ms de abril de 1921, foi a vez dos marinheiros da base naval de Kronstadt, na costa de Petrogrado, se amotinarem. A situao tornava-se explosiva, e o pas, ingovernvel. Diante da ameaa de uma torrente de desordem social que poderia acabar com o regime, os dirigentes bolcheviques foram obrigados a retroceder e tomar a nica medida capaz de momentaneamente acalmar o descontentamento mais frequente, mais geral e mais perigoso: o descontentamento campons; eles prometeram acabar com as requisies, substituindo-as pelo imposto em espciesfreqncia.  nesse contexto de confrontos entre o regime e a sociedade que comeou a esboar-se, a partir de 1921, a NPE, a Nova Poltica Econmica.
	Uma histria poltica por muito tempo dominante deu exagerada importncia  ruptura de maro de 1921. Ora, adotada precipitadamente no ltimo dia do X Congresso do Partido Bolchevique - sob a ameaa de uma convulso social - a substituio das requisies pelo imposto em espcies no acarretou nem o fim das revoltas camponesas e das greves operrias nem a diminuio da represso. Os arquivos hoje disponveis demonstram que a paz civil no foi instaurada da noite para o dia na primavera de 1921. Pelo menos at o vero de 1922 - e, em algumas regies, indo muito alm disso - o ambiente permaneceu bastante tenso. Os destacamentos de requisio continuaram a agir no campo, as greves operrias foram interrompidas de maneira selvagem, os ltimos militantes socialistas foram detidos, e a erradicao dos bandidos das florestas prosseguiu com fora total: fuzilamentos em massa de refns e bombardeio de povoados com gazes asfixiantes. No final das contas, foi a grande fome de 1921-1922 que venceu as resistncias nos locais mais conturbados do campo, regies mais assoladas pelos destacamentos de requisio e que se tinham rebelado para a prpria sobrevivncia. O mapa da fome superpe exatamente as zonas em que as requisies foram mais intensas e as zonas em que as revoltas camponesas foram mais intensas. Aliada objetiva do regime e arma absoluta de pacificao, a fome serviu, alm disso, como pretexto para que os bolcheviques pudessem dar um golpe decisivo na Igreja Ortodoxa e na intelligentsia que se haviam mobilizado para lutar contra esse flagelo.
	De todas as revoltas camponesas deflagradas a partir da instaurao das requisies, no vero de 1918, a revolta dos camponeses de Tambov foi a mais longa, a mais importante e a mais bem organizada. A menos de 500 quilmetros a sudoeste de Moscou, a provncia de Tambov era, desde o comeo do sculo, um dos basties do Partido Socialista Revolucionrio, o herdeiro do populismo russo. Em 1918-1920, apesar da represso que acometia esse partido, seus militantes permaneciam numerosos e ativos. Mas a provncia de Tambov era tambm o celeiro de trigo mais prximo de Moscou e, a partir do outono de 1918, mais de cem destacamentos de requisio agiam nessa provncia agrcola densamente povoada. Em 1919, dezenas de bounty, rebelies sem futuro, foram deflagradas, todas impiedosamente reprimidas. Em 1920, as cotas de requisio foram elevadas de forma substancial, passando de 18 a 27 milhes de puds, apesar de os camponeses terem diminudo sensivelmente a semeadura, pois eles sabiam que tudo aquilo que eles no tivessem tempo para consumir seria imediatamente requisitado. Preencher as cotas significava ento fazer com que os camponeses morressem de fome. Em 19 de agosto de 1920, os incidentes habituais que implicavam os destacamentos de abastecimento saram do controle no burgo de Khitrovo. Como as prprias autoridades locais reconheciam, os destacamentos cometiam todo tipo de abuso; eles pilhavam tudo em sua passagem, dos travesseiros aos utenslios de cozinha, partilhavam entre si o produto dos saques e espancavam idosos de 70 anos,  vista e com o conhecimento de todos. Esses idosos eram punidos pela ausncia de seus filhos desertores que se escondiam nos bosques. [...] O que revoltava os camponeses era que os gros confiscados, transportados at as estaes de trem mais prximas, apodreciam ao ar livre no local de estocagem.
	Partindo de Khitrovo, a revolta se espalhou como fogo na palha. No fim de agosto de 1920, mais de 14 mil homens, em sua maioria desertores, armados com fuzis, forcados e foices, caaram ou massacraram todos os representantes do poder sovitico em trs distritos da provncia de Tambov. Em poucas semanas, essa revolta camponesa, que em seu princpio no se distinguia em nada das outras revoltas deflagradas havia dois anos na Rssia ou na Ucrnia, transformou-se, nesse tradicional bastio dos socialistas revolucionrios, num movimento rebelde bem-organizado, sob a direo de um comandante inspirado, Alexandre Stepanovitch Antonov.
	Militante socialista revolucionrio desde 1906, exilado poltico na Sibria de 1908 at a revoluo de fevereiro de 1917, Antonov, como outros socialistas revolucionrios de esquerda, aliou-se por um tempo ao regime bolchevique, ocupando a funo de chefe da milcia de Kirsanov, seu distrito natal. Em agosto de 1918, ele rompeu com os bolcheviques, assumindo a liderana de um dos inmeros bandos de desertores que dominavam o interior profundo do campo, batendo-se com os destacamentos de requisio e atacando os raros funcionrios soviticos que se arriscavam nos povoados. Quando a revolta camponesa se inflamou, em agosto de 1920, Antonov criou, em seu distrito de Kirsanov, uma organizao eficaz de milcias camponesas, alm de um notvel servio de informaes que se infiltrou at mesmo na Tcheka de Tambov. Ele tambm organizou um servio de propaganda que denunciava, atravs de panfletos e proclamas, a comissariocracia bolchevique, mobilizando os camponeses em torno de algumas reivindicaes populares, como a liberdade de comrcio, o fim das requisies, eleies livres e a abolio dos comissrios bolcheviques e da Tcheka.
	Paralelamente, a organizao clandestina do Partido Socialista Revolucionrio instaurava a Unio Camponesa Trabalhadora, uma rede clandestina de militantes camponeses bem implantados localmente. A despeito das fortes tenses entre Antonov, socialista-revolucionrio dissidente, e a direo da Unio Camponesa Trabalhadora, o movimento campons da provncia de Tambov dispunha de uma boa organizao militar, de um servio de informaes e de um programa poltico que lhe dava a fora e a coerncia que no teve, anteriormente, a maior parte dos outros movimentos camponeses, com exceo do movimento makhnovista.
	Em outubro de 1920, o poder bolchevique controlava somente a cidade de Tambov e alguns raros centros urbanos nas provncias. Aos milhares, desertores juntavam-se ao exrcito campons de Antonov, que chegaria a ter em seu apogeu mais de 50 mil homens armados. Em 19 de outubro, ao tomar enfim conscincia da gravidade da situao, Lenin escreveu a Dzerjinski:  indispensvel esmagar esse movimento da maneira mais rpida e mais exemplar possvel. [...]  preciso darmos provas de toda a nossa energia!
	No incio de novembro, os bolcheviques enviaram ao combate apenas cinco mil homens das Tropas de Segurana Interna da Repblica, mas, aps a derrota de Wrangel na Crimia, os efetivos das Tropas Especiais enviados a Tambov aumentaram rapidamente, chegando ao total de cem mil homens - incluindo os destacamentos do Exrcito Vermelho, sempre minoritrios, pois eram considerados pouco confiveis na represso s revoltas populares.
	No incio de 1921, as revoltas camponesas incendiaram outras regies: todo o Baixo Volga (as provncias de Samara, Saratov, Tsaritsyne, Astrakhan), alm da Sibria Ocidental. A situao tornava-se explosiva, a fome ameaava essas regies ricas, mas impiedosamente pilhadas desde h muitos anos. Na provncia de Samara, o comando do distrito militar do Volga relatava, em 12 de fevereiro de 1921: Multides de milhares de camponeses famintos cercam os galpes onde os destacamentos estocaram os gros requisicionados para as cidades e o exrcito. Em vrias oportunidades, a situao saiu do controle, e o exrcito teve de atirar sobre a multido raivosa. De Saratov, os dirigentes bolcheviques locais telegrafaram a Moscou: O banditismo ganhou toda a provncia. Os camponeses apoderaram-se de todas as reservas - trs milhes de puds- nos galpes do Estado. Graas aos fuzis fornecidos pelos desertores, eles esto fortemente armados. Unidades inteiras do Exrcito Vermelho se volatilizaram.
	No mesmo momento, a mais de mil quilmetros a leste dali, um novo foco de rebelies camponesas se formava. Tendo exaurido todos os recursos possveis nas regies agrcolas prsperas do sul da Rssia e da Ucrnia, o governo bolchevique voltou-se, no outono de 1920, em direo  Sibria ocidental, cujas cotas arbitrrias de entrega foram fixadas em funo das exportaes de cereais realizadas em... 1913! Seria possvel, entretanto, comparar os rendimentos destinados s exportaes pagas em tilintantes rublos-ouro e os rendimentos guardados pelo campons para as requisies feitas sob ameaa? Como em todos os outros locais, os camponeses siberianos se rebelaram para defender o fruto de seu trabalho e assegurar a sua sobrevivncia. Em janeiro-maro de 1921, os bolcheviques perderam o controle das provncias de Tiumen, Omsk, Tcheliabinsk e de Ekaterinburgo, um territrio maior do que um pas como a Franca. O Transiberiano, nica estrada de ferro que ligava a Rssia europeia  Sibria, foi interrompido. Em 21 de fevereiro, um exrcito popular campons apoderou-se da cidade de Tobolsk, que s foi retomada pelas unidades do Exrcito Vermelho em 30 de maro.
	No outro extremo do pas, nas capitais - a antiga, Petrogrado, e a nova, Moscou -, a situao no incio de 1921 era quase explosiva. A economia estava quase que inteiramente parada; os trens no circulavam mais; por falta de combustvel, quase todas as fbricas estavam fechadas ou funcionavam apenas parcialmente; o abastecimento dessas cidades no era mais assegurado. Os operrios estavam ora na rua, ora em busca de alimento nas cidades circunvizinhas, ora discutindo nas oficinas geladas, semidestrudas, onde cada um j tinha roubado o que era possvel carregar para trocar a manufatura por um pouco de alimento.
	O descontentamento  geral, conclua, em 16 de janeiro, um relatrio do departamento de informao da Tcheka. No meio operrio, prev-se que o regime est por um fio. Ningum trabalha mais, as pessoas esto passando fome. Greves de grande porte so iminentes. As unidades de guarnio de Moscou esto cada vez menos seguras e podem a todo momento escapar a nosso controle. Medidas profilticas se impem.
	Em 21 de janeiro, um decreto do governo ordenou a reduo em um tero, a comear no dia seguinte, das raes de po em Moscou, Petrogrado, Ivanovo-Voznessensk e Kronstadt. Essa medida, que chegava num momento em que o governo no podia mais lanar mo da ameaa contra-revolucionria para convocar o patriotismo das classes trabalhadoras - os ltimos exrcitos brancos j tinham sido derrotados -, ps fogo no barril de plvora. Do fim de janeiro a meados de maro de 1921, greves, assemblias de protesto, marchas contra a fome, manifestaes e ocupao de fbricas aconteciam cotidiana-mente, atingindo seu apogeu, tanto em Moscou quanto em Petrogrado, entre o fim de fevereiro e o incio de maro. Entre 22 e 24 de fevereiro, em Moscou, graves incidentes opuseram os destacamentos da Tcheka a manifestantes operrios que tentavam forar a entrada nas casernas para confraternizar com os soldados. Vrios operrios foram mortos, e centenas de outros, presos.
	Em Petrogrado, as rebelies alcanaram um novo patamar a partir de 22 de fevereiro, quando os operrios de vrias grandes fbricas elegeram, assim como havia sido feito em maro de 1918, uma assembleia de operrios plenipotencirios com grande colorao menchevique e socialista revolucionria. Em sua primeira proclamao, essa assembleia exigiu a abolio da ditadura bolchevique, eleies livres nos sovietes, liberdade de palavra, de associao, de imprensa, e a libertao de todos os prisioneiros polticos. Para chegar a esses objetivos, a assembleia convocava uma greve geral. O comando militar no conseguiu impedir que vrios de seus regimentos mantivessem assemblias, no decorrer das quais foram adotadas moes de suporte aos operrios. Em 24 de fevereiro, os destacamentos da Tcheka abriram fogo sobre uma manifestao operria, matando 12 operrios. Nesse dia, cerca de mil operrios e militantes socialistas foram presos. Porm, as fileiras manifestantes cresciam sem parar, e milhares de soldados desertavam de suas unidades para se juntarem aos operrios. Quatro anos aps os dias de fevereiro que derrubaram o regime czarista, a mesma situao parecia repetir-se: a confraternizao dos manifestantes operrios e dos soldados amotinados. Em 26 de fevereiro, s 21 horas, Zinoviev, o dirigente da organizao sovitica de Petrogrado, enviou a Lenin um telegrama no qual o pnico era patente: Os operrios entraram em contato com os soldados dentro das casernas. [...] Ns continuamos esperando o reforo das tropas pedidas a Novgorod. Se essas tropas no chegarem nas prximas horas, ns seremos invadidos.
	Dois dias depois ocorreu o que os dirigentes bolcheviques temiam acima de tudo: o motim dos marinheiros dos dois encouraados da base de Kronstadt, situado na costa de Petrogrado. Em 28 de fevereiro, s 23 horas, Zinoviev endereou um novo telegrama a Lenin: Kronstadt: os dois principais navios, o Sebastopol e o Petropavlovsk, adotaram medidas SR-Cem-Negros e nos enderearam um ultimato ao qual devemos responder em 24 horas. Entre os operrios de Petrogrado, a situao permanece bastante instvel. As grandes empresas esto em greve. Acreditamos que os SR vo acelerar o movimento.^
	As reivindicaes que Zinoviev qualificava de SR-Cem-Negros eram as mesmas formuladas por uma imensa maioria dos cidados aps trs anos de ditadura bolchevique: aps a realizao de debates e de eleies livres, a reeleio dos sovietes por voto secreto; liberdade de expresso e de imprensa -porm, com o detalhe de ser em favor dos operrios, dos camponeses, dos anarquistas e dos partidos socialistas de esquerda; igualdade no racionamento para todos e libertao de todos os presos polticos membros dos partidos socialistas, de todos os operrios, camponeses, soldados e marujos aprisionados em razo de atividades polticas nos movimentos operrios e camponeses; criao de uma comisso encarregada de examinar o caso de todos os detentos nas prises e nos campos de concentrao; supresso das requisies; abolio dos destacamentos especiais da Tcheka; liberdade absoluta para os camponeses para fazer o que quiserem em sua terra e de criar seus prprios rebanhos, desde que o faam por seus prprios meios.
	Em Kronstadt, os eventos se aceleravam. Em primeiro de maro teve lugar uma enorme assembleia reunindo mais de 15 mil pessoas, um quarto de toda a populao civil e militar da base naval. Enviado ao local para tentar salvar a situao, Mikhail Kalinin, presidente do Comit Executivo Central dos Sovietes, foi expulso debaixo das vaias da multido. No dia seguinte, os rebeldes, junto a pelo menos a metade dos dois mil bolcheviques de Kronstadt, formaram um Comit Revolucionrio provisrio que tentou de imediato entrar em contato com os grevistas e os soldados de Petrogrado.
	Os relatrios cotidianos da Tcheka sobre a situao em Petrogrado durante a primeira semana de maro de 1921 demonstram a amplitude do apoio popular ao motim de Kronstadt: O Comit Revolucionrio de Kronstadt espera um iminente levante geral em Petrogrado. O contato entre os amotinados e um grande nmero de fbricas foi estabelecido. [...] Hoje, durante a assembleia na fbrica Arsenal, os operrios votaram uma resoluo convocando a adeso  insurreio. Foi eleita uma delegao de trs pessoas -um anarquista, um menchevique e um socialista revolucionrio - para manter contato com Kronstadt. 
	Para interromper o movimento, a Tcheka de Petrogrado recebeu, no dia 7 de maro, a ordem de empreender aes decisivas contra os operrios. Em 48 horas, mais de dois mil operrios, simpatizantes e militantes socialistas ou anarquistas foram presos. Ao contrrio dos amotinados, os operrios no possuam armas e no podiam opor nenhuma resistncia diante dos destacamentos da Tcheka. Tendo cortado a base da insurreio em sua retaguarda, os bolcheviques planejaram minuciosamente o assalto a Kronstadt. O general Tukhatchevski foi encarregado de liquidar a rebelio. Para atirar sobre a populao, o vencedor da campanha de 1920 na Polnia convocou os jovens recrutas da Escola Militar, sem tradio revolucionria, assim como as tropas especiais da Tcheka. As operaes foram engajadas em 8 de maro. Dez dias mais tarde, Kronstadt tombava com o custo de milhares de vidas de ambas as partes. A represso  insurreio foi impiedosa. Vrias centenas de rebeldes prisioneiros foram fuzilados nos dias que se seguiram  derrota. Os arquivos publicados recentemente do conta de, somente para os meses de abril a junho de 1921, 2.103 condenaes  morte e de 6.459 condenaes a penas de priso ou de campo de concentrao. Um pouco antes da tomada de Kronstadt, cerca de oito mil pessoas haviam conseguido fugir, atravs das extenses glaciais do golfo, para a Finlndia, sendo ento internadas em campos de trnsito, em Te-rijoki, Vyborg e Ino. Enganadas por uma falsa anistia, vrias dentre essas pessoas voltaram  Rssia, onde foram imediatamente presas e enviadas aos campos das ilhas Solovki e a Kholmogory, um dos mais sinistros campos de concentrao, perto de ArkhangelskJ3 Segundo uma fonte nos meios anarquistas, dos cinco mil detentos de Kronstadt enviados a Kholmogory, menos de 1.500 permaneciam ainda vivos na primavera de 1922.
	O campo de Kholmogory, vizinho ao grande rio Dvina, tinha a triste reputao de se desembaraar com extrema rapidez de um grande nmero de detentos. Estes ltimos infelizes eram embarcados em balsas e jogados, com uma pedra amarrada no pescoo e as mo atadas, nas guas do rio. Mikhail Kedrov, um dos principais dirigentes da Tcheka, havia inaugurado esses afogamentos coletivos em junho de 1920. Segundo vrios testemunhos concordantes, um grande nmero de amotinados em Kronstadt, de cossacos e de camponeses da provncia de Tambov, deportados em Kholmogory, teriam sido afogados no rio Dvina em 1922. Nesse mesmo ano, uma Comisso Especial de Evacuao deportou para a Sibria 2.514 civis de Kronstadt apenas por terem permanecido na praa de guerra durante os eventos!15
	Vencida a rebelio de Kronstadt, o regime engajou todas as suas forcas na caa aos militantes socialistas, na luta contra as greves e o corpo mole dos trabalhadores, no esmagamento das insurreies camponesas que continuavam com toda a fora - apesar da proclamao oficial do fim das requisies - e na represso  Igreja.
	Em 28 de fevereiro de 1921, Dzerjinski ordenou a todas as tchekas provinciais: ) que fossem imediatamente presos todos os membros da intelli-gentsia anarquizante menchevique, socialista-revolucionria e, particularmente, os funcionrios que trabalhassem nos comissariados do povo para a agricultura e o abastecimento; 2) aps esse incio, que tambm fossem presos todos os mencheviques, socialistas-revolucionrios e anarquistas que trabalhassem nas fbricas e fossem suscetveis de incitarem greves ou manifestaes. 
	Longe de marcar uma diminuio na poltica repressiva, a introduo da NPE, a partir de maro de 1921, foi acompanhada por um recrudescimen-to da represso aos militantes socialistas moderados. Essa represso no era incitada pelo perigo de v-los se oporem  Nova Poltica Econmica, mas pelo fato de eles j a terem reclamado h bastante tempo, mostrando, assim, a perspiccia e a justeza de sua anlise. O nico lugar para os mencheviques e os SR, quer eles sejam declarados ou camuflados, escrevia Lenin em abril de 1921,  a priso.
	Alguns meses mais tarde, julgando que os socialistas ainda estavam bastante ativos, ele escreveu: Se os mencheviques e os SR ainda derem as caras, fuzile-os sem piedade! Entre maro e junho de 1921, mais de dois mil militantes e simpatizantes socialistas moderados foram detidos. Todos os membros do Comit Central do Partido Menchevique foram aprisionados; ameaados com o desterro na Sibria, eles iniciaram, em janeiro de 1922, uma greve de fome; 12 dirigentes, entre os quais Dan e Nikolaievski, foram expulsos do pas, chegando a Berlim em fevereiro de 1922.
	Uma das prioridades do regime na primavera de 1921 era a retomada da produo industrial que fora reduzida a um dcimo da sua capacidade em 1913. Longe de diminuir a presso sobre os operrios, os bolcheviques mantiveram, ou mesmo reforaram, a militarizao do trabalho iniciada no decorrer dos anos precedentes. A conduo poltica em 1921, aps a adoo da NPE, na grande regio industrial e mineira de Donbass - que produzia mais de 80% do carvo e do ao do pas -, aparece, em vrios aspectos, como reveladora dos mtodos ditatoriais empregados pelos bolcheviques para que os operrios retornassem ao trabalho. No fim de 1920, Piatakov, um dos principais dirigentes e prximo de Trotski, havia sido nomeado para a chefia da Direo Central da Indstria Carvoeira. Em um ano, ele conseguiu quintuplicar a produo de carvo, mas a custo de um poltica de explorao e de represso da classe operria sem precedentes, que se baseava na militarizao do trabalho dos 120 mil mineiros que realizavam esses servios. Piatakov imps uma disciplina rigorosa: toda ausncia era qualificada como ato de sabotagem e sancionada com penas em campo de concentrao, ou at mesmo com a pena de morte - 18 mineiros foram executados em 1921 por para-sitismo agravado. Para obter dos operrios um aumento de produtividade, ele introduziu um aumento das horas de trabalho (atravs, principalmente, do trabalho aos domingos) e generalizou a chantagem com o carto de racionamento. Todas essas medidas foram tomadas no momento em que os operrios recebiam,  guisa de todo pagamento, entre um tero e a metade de todo o po necessrio a sua sobrevivncia; alm do mais, eles ainda eram obrigados, no final de sua jornada de trabalho, a emprestar o nico par de sapatos aos camaradas que assumiam seus postos. Como reconhecia a Direo da Indstria Carvoeira, entre as razes do grande nmero de ausentes do lado operrio figuravam, alm das epidemias, a fome permanente e a falta quase que total de roupas, de calas e de sapatos. Para se reduzir o nmero de bocas a serem alimentadas, j que a fome era ameaadora, Piatakov ordenou, em 24 de junho de 1921, que fossem expulsas das cidades mineiras todas as pessoas que no trabalhassem nas minas, pois elas representavam necessariamente um peso morto. Os cartes de racionamento foram retirados dos membros das famlias dos mineiros. As normas de racionamento foram estritamente alinhadas s performances individuais de cada mineiro, sendo introduzida uma forma primitiva de salrio, por quantidade produzida.
	Todas essas medidas se opunham aos ideais de igualdade e de racionamento garantido que ainda serviam de consolo a vrios operrios, iludidos pela ideologia pr-operria bolchevique. Esses ideais prefiguravam, de maneira notvel, as medidas antioperrias dos anos 30. As massas operrias eram apenas a rabsila (fora de trabalho) que era necessrio explorar da maneira mais eficaz possvel, contornando a legislao do trabalho e os inteis sindicatos - reduzidos ao simples papel de incentivadores da produtividade. A militarizao do trabalho aparecia como a forma mais eficaz de enquadramento dessa mo-de-obra afamada e pouco produtiva. No podemos deixar de nos interrogar sobre o parentesco entre essa fornia de explorao do trabalho livre e o trabalho forado dos grandes conjuntos penitencirios criados no incio dos anos 30. Como vrios outros episdios desses anos iniciais do bolchevis-mo - que no poderiam ser reduzidos somente  guerra civil -, o que se passava em Donbass em 1921 prenunciava um certo nmero de prticas que iam direto ao cerne do stalinismo.
	Entre as operaes prioritrias ao regime bolchevique na primavera de 1921, figurava a pacificao de todas as regies dominadas por bandos e destacamentos de camponeses. Em 27 de abril de 1921, o Politburo nomeou o general Tukhatchevski como responsvel pelas operaes de liquidao dos bandos de Antonov na provncia de Tambov. Liderando cerca de cem mil homens, dos quais a grande maioria pertencia aos destacamentos especiais da Tcheka, equipados com artilharia pesada e avies, Tukhatchevski venceu os destacamentos de Antonov atravs de uma represso e de uma violncia raramente vistas. Tukhatchevski e Antonov-Ovseenko - presidente da Comisso Plenipotenciria do Comit Executivo Central, nomeado para estabelecer um verdadeiro regime de ocupao da provncia de Tambov - praticaram sistemticas capturas de refns, execues, internao em campos de concentrao, extermnio por gases asfixiantes e deportaes de povoados inteiros, suspeitos de ajudar ou abrigar os bandidos.
	A ordem do dia de n 171, datada de 11 de junho de 1921, assinada por Antonov-Ovseenko e por Tukhatchevski, deixa claro quais foram os mtodos utilizados na pacificao da provncia de Tambov. Essa ordem estipulava principalmente:
	1. Fuzilar de imediato e sem julgamento todo cidado que se recuse a dizer seu nome.
	2. As comisses polticas de distrito e as comisses polticas de bairros tm o poder de pronunciar, contra os povoados que estiverem escondendo armas, o veredicto de priso de refns e de fuzilamento desses refns caso as armas no sejam entregues.
	3. Caso sejam encontradas armas escondidas, fuzilar de imediato e sem julgamento o primognito da famlia.
	4. A famlia que tiver escondido um bandido em sua casa  passvel de priso e de deportao para fora da provncia, seus bens podem ser confisca dos, e o primognito dessa famlia ser fuzilado sem julgamento.
	5. Considerar como bandidos as famlias que esconderem membros da famlia ou bens de bandidos, e fuzilar de imediato e sem julgamento o primognito dessa famlia.
	6. Em caso de fuga de uma famlia de bandido, distribuir seus bens entre os camponeses fiis ao poder sovitico e queimar ou demolir as casas abandonadas.
	7. Aplicar a presente ordem do dia rigorosamente e sem piedade.
	No dia seguinte  promulgao da ordem n. 171, o general Tukhatchevski ordenou que os rebeldes fossem mortos com o uso de gases. Os restos dos bandos desfeitos e bandidos isolados continuam a se reunir nas florestas. [...] As florestas onde se escondem os bandidos devem ser limpas por meio de gases asfixiantes. Tudo deve ser calculado para que a nuvem de gs penetre na floresta e extermine todos que ali estiverem escondidos. O inspe-tor da artilharia deve fornecer imediatamente as quantidades requeridas de gases asfixiantes assim como os especialistas competentes para esse tipo de operao. Dia 19 de julho, diante da oposio de vrios dirigentes bolcheviques a essa frmula extrema de erradicao, a ordem 171 foi anulada.
	Nesse ms de julho de 1921, as autoridades militares da Tcheka j haviam instalado sete campos de concentrao onde, segundo informaes ainda parciais, estavam internadas pelo menos 50 mil pessoas, na maioria mulheres, velhos, crianas, refns e membros das famlias dos camponeses-desertores. A situao nesses campos era espantosa: o tifo e o clera eram endmicos, e aos detentos, seminus, faltava tudo. Durante o vero de 1921, a fome apareceu. No outono, a mortalidade chegou a ser de 15% a 20% por ms! Em l. de setembro de 1921, contavam-se apenas alguns bandos, reunindo com dificuldade um pouco mais de mil homens armados, contra os 40 mil do apogeu do movimento campons, em fevereiro de 1921. A partir de novembro de 1921, uma vez que o campo j havia sido desde h muito tempo pacificado, vrios milhares de detentos, escolhidos entre os que estavam em melhores condies, foram deportados para os campos de concentrao ao norte da Rssia, em Arkhangelsk e Kholmogory.
	Como testemunham os relatrios semanais da Tcheka aos dirigentes bolcheviques, a pacificao do campo continuou, em vrias outras regies - Ucrnia, Sibria Ocidental, provncias do Volga, Cucaso -, pelo menos at a segunda metade do ano de 1922. Os hbitos adquiridos no decorrer dos anos precedentes resistiam e, se oficialmente as requisies tinham sido abolidas, a arrecadao dos impostos em espcies, que havia substitudo as requisies, era frequentemente feita com extrema brutalidade. As cotas, bastante elevadas diante da situao catastrfica da agricultura em 1921, mantinham uma tenso permanente no campo, onde muitos camponeses ainda possuam armas.
	Descrevendo suas impresses de viagem na provncia de Tuia, de Orei e de Voronezh, em maio de 1921, o comissrio adjunto do povo para a agricultura, Nikolai Ossinski, relatava que os funcionrios locais estavam convencidos de que as requisies seriam restabelecidas no outono. As autoridades locais no podiam considerar os camponeses de outra maneira, a no ser como sabotadores-natos.
	Relatrio do Presidente da Comisso Plenipotenciria de Cinco Membros sobre as Medidas Repressivas contra os Bandidos da Provncia de Tambov. 10 de julho de 1921.
	As operaes de limpeza do volost (canto) Kudriukovskaia comearam em 27 de junho no povoado de Ossinovki, que no passado havia abrigado alguns grupos de bandidos. Os camponeses tinham uma atitude bastante desconfiada diante de nossos destacamentos repressores. Eles no denunciavam os bandidos das florestas e sempre respondiam que no sabiam de nada s questes que lhes eram feitas.
	Fizemos 40 refns, declaramos o povoado em estado de stio e demos duas horas aos seus habitantes para entregarem os bandidos e as armas escondidas. Reunidos em assembleia, os habitantes hesitavam sobre que conduta seguir, mas no se decidiam a colaborar ativamente com a caa aos bandidos. Sem dvida, eles levavam a srio as nossas ameaas de execuo dos refns. Expirado o prazo, executamos 21 refns diante da assembleia de moradores. A execuo pblica, por fuzilamento individual, com todas as formalidades usuais, na presena de todos os membros da Comisso Plenipotenciria, comunistas, etc., provocou um efeito considervel entre os camponeses...
	Quanto ao povoado de Kareievka, que, decorrente de sua situao geogrfica, era um local privilegiado para os bandidos... a Comisso decidiu risc-lo do mapa. Toda a populao foi deportada, seus bens confiscados, exceo feita s famlias dos soldados que servem no Exrcito Vermelho, que foram transferidas para o burgo de Kurdiuki e alojados nas casas confiscadas das famlias dos bandidos. Aps a recuperao dos poucos objetos de valor - molduras de janelas, obje-tos em vidro e madeira, etc. -, o fogo foi ateado nas casas do povoado...
	Em 3 de julho, comeamos as operaes no burgo de Bogoslovka. Raramente podemos encontrar camponeses assim to insubmissos e organizados. Quando discutamos com eles, do mais jovem ao mais idoso, todos respondiam unanimemente, fazendo cara de espantados: Bandidos, aqui? No acreditem nisso! Talvez tenhamos visto um ou outro passar de vez em quando por estas paragens, mas no sabamos que eram bandidos. Ns vivemos tranquilamente, no fazemos mal a ningum, no sabemos de nada.
	Tomamos medidas semelhantes s de Ossinovka: fizemos 58 refns. Em 4 de julho, fuzilamos um primeiro grupo de 21 pessoas, depois 15 no dia seguinte, e pusemos sob estreita vigilncia 60 famlias de bandidos, ou seja, cerca de 200 pessoas. No final das contas, alcanamos nossos objetivos, e eles foram obrigados a partir em busca dos bandidos e das armas escondidas...
	A limpeza dos povoados e burgos supracitados acabou em 6 de julho. A operao foi coroada de sucesso e tem consequncias que vo muito alm dos dois volosts (cantes) limtrofes. A rendio dos elementos bandidos continua.
	Presidente da Comisso Plenipotenciria de 5 Membros, Uskonin.
	Para acelerar a coleta de impostos na Sibria, regio que deveria fornecer a maior parte da colheita de produtos agrcolas, no momento em que a fome devastava todas as provncias do Volga, Feliks Dzerjinski foi enviado  Sibria, em dezembro de 1921, como plenipotencirio extraordinrio. Ele instaurou os tribunais revolucionrios mveis, encarregados de percorrer os povoados e condenar de imediato, a penas em priso ou em campos de concentrao, os camponeses que no pagassem os impostos. Como os destacamentos de requisio, esses tribunais, respaldados por destacamentos fiscais, cometeram tantos abusos, que o prprio presidente do Supremo Tribunal, Nikolai Krylenko, foi obrigado a ordenar uma investigao sobre os atos desses rgos remunerados pelo chefe da Tcheka. De Omsk, em 14 de fevereiro de 1922, um inspetor escreveu: Os abusos dos destacamentos de requisio atingiram um grau inimaginvel. Os camponeses detidos so sistematicamente encerrados em galpes no aquecidos, so chicoteados e ameaados de execuo. Os que no preencheram a totalidade de sua cota de entrega so amarrados, obrigados a correr, nus, ao longo da rua principal do povoado, sendo ento encerrados num galpo no aquecido. Muitas mulheres foram espancadas at perderem os sentidos, sendo ento jogadas nuas em buracos cavados na neve... Em todas as provncias, a tenso permanecia bem viva.
	Tais fatos so demonstrados por esses extratos de um relatrio da polcia poltica de outubro de 1922, um ano e meio aps o incio da NPE:
	Na provncia de Pskov, as cotas fixadas para o imposto em espcies representavam 2/3 da colheita. Quatro distritos pegaram em armas. [...] Na provncia de Novgorod, as cotas no sero preenchidas, apesar da baixa de 25% concedida em razo da colheita ruim. Nas provncias de Ryazan e de Tver, a realizao de 100% das cotas condenaria os camponeses a morrerem de fome. [...] Na provncia de Novo-Nikolaievsk, a fome ameaa e os camponeses fazem provises de ervas e razes para consumo prprio. [...] Mas todos esses fatos parecem andinos com relao s informaes que nos chegam da provncia de Kiev, onde se assiste a uma onda de suicdios como nunca se viu antes: os camponeses se suicidam em massa porque eles no podem pagar os impostos nem pegar em armas, pois estas lhes foram confiscadas. Em toda a regio, a fome que os atingiu h mais de um ano deixa os camponeses bastante pessimistas sobre o prprio futuro.
	Entretanto, no outono de 1922, o pior j havia passado. Aps dois anos de fome, os sobreviventes haviam acabado de armazenar uma colheita que deveria lhes permitir passar o inverno, com a condio de que os impostos no fossem exigidos em sua totalidade. Neste ano, a colheita de cereais ser inferior  mdia dos ltimos dez anos: Foi nesses termos que o Pravda mencionou pela primeira vez, em 2 de julho de 1921, na ltima pgina e num pequeno excerto, a existncia de um problema alimentar no fronte agrcola. Dez dias mais tarde, Mikhail Kalinin, presidente do Comit Executivo Central dos Sovietes, reconhecia, num Apelo a todos os cidados da RSFSR, publicado noPravdae 12 de julho de 1921, que a seca deste ano destruiu a colheita de cereais em vrios distritos.
	Essa calamidade, explicava uma resoluo do Comit Central datada de 21 de julho, no resulta somente da seca. Ela decorre e procede de toda a histria passada, do atraso de nossa agricultura, da ausncia de organizao, do baixo nvel de conhecimento em agronomia, da tcnica indigente e das formas caducas de rotao das culturas. Ela foi agravada pelas consequncias da guerra e do bloqueio econmico e militar, pela luta ininterrupta dos proprietrios, dos capitalistas e de seus lacaios contra o nosso regime, pelas aes incessantes dos bandidos que executam ordens de organizaes hostis  Rssia Sovitica e a toda a sua populao trabalhadora. 
	Na longa enumerao das causas dessa calamidade, a qual no se ousava ainda nomear, faltava o principal fator: a poltica das requisies que h vrios anos sangrava uma agricultura j bastante frgil. Os dirigentes das provncias atingidas pela fome, convocados a Moscou em junho de 1921, destacaram com unanimidade a responsabilidade do governo e, principalmente, a do todo-poderoso comissrio do povo para o abastecimento na extenso e no agravamento da fome. O representante da provncia de Samara, um certo Vavilin, explicou que o Comit provinciano para o abastecimento no havia cessado, desde a instaurao das requisies, de superestimar as colheitas.
	Apesar da colheita ruim de 1920, dez milhes de puas haviam sido requisitados nesse ano. Todas as reservas, inclusive as sementes para a futura colheita, foram tomadas. A partir de janeiro de 1921, vrios camponeses no tinham mais nada do que comer. A mortalidade comeara a aumentar em fevereiro. Em dois ou trs meses, os tumultos e as revoltas contra o regime na provncia de Samara haviam praticamente terminado. Hoje, explicava Vavilin, no h mais revoltas. Assistimos a novos fenmenos: multides de milhares de famintos cercam pacificamente o Comit Executivo dos Sovietes ou o do Partido e esperam, durante dias, no se sabe por que miraculosa chegada de alimentos. No conseguimos expulsar essa multido na qual a cada dia as pessoas morrem como moscas. [...] Creio que h pelo menos 900 mil famintos na provncia. 
	Ao lermos esses relatrios da Tcheka e do servio de informao militar, constatamos que a escassez j se instalara em vrias regies desde 1919. No decorrer de todo o ano de 1920, a situao se degradou sem cessar. Em seus relatrios internos, a Tcheka, o Comissariado do Povo para a Agricultura e o Comissariado do Povo para o Abastecimento, perfeitamente conscientes da situao, faziam, desde o vero de 1920, uma lista de provncias e de distritos famintos ou  beira da misria. Em janeiro de 1921, um relatrio destacava, entre as causas da fome que ganhava a provncia de Tambov, a orgia de requisies do ano de 1920. De acordo com o relato das expresses coletadas pela polcia poltica, era evidente aos mais humildes que o regime sovitico quer matar de fome todos os camponeses que ousem fazer-lhe resistncia. Ainda que perfeitamente informado das consequncias inelutveis de sua poltica de requisies, o governo no tomou nenhuma medida. Mesmo quando a fome comeou a ganhar um nmero cada vez maior de regies, Lenin e Molotov enviaram, em 30 de julho de 1921, um telegrama a todos os dirigentes dos Comit regionais e provincianos do Partido, pedindo-lhes para reforarem os servios de coleta [...], para desenvolverem uma intensa propaganda junto  populao rural, explicando a todos a importncia econmica e poltica do pagamento pontual e total dos impostos [...] e para que pusessem  disposio das agncias de coleta do imposto em espcies toda a autoridade do Partido e a totalidade do poder de represso do aparelho de Estado! 
	Diante da atitude das autoridades, que prosseguiam a todo custo com a sua poltica de sangria do campo, os setores cultos e instrudos da intelligent-sia constituram, no seio da Sociedade Moscovita de Agricultura, o Comit Social de Luta Contra a Fome. Entre os primeiros membros desse Comit figuravam os eminentes economistas Kondratiev e Prokopovitch, antigo ministro do Abastecimento do governo provisrio, Ekaterina Kuskova, uma jornalista prxima de Mximo Gorki, alm de escritores, mdicos e agrnomos. Graas ao intermdio de Gorki, bem aceito nos meios bolcheviques, uma delegao do Comit, que Lenin se recusava a receber, obteve, em meados de julho de 1921, uma audincia junto a Lev Kamenev. Depois dessa entrevista, Lenin, sempre desconfiado da pieguice de alguns dirigentes bolcheviques, enviou um recado aos seus colegas do Politburo: Coloquem Kuskova sobre estreita vigilncia. [...] Aceitamos de Kuskova o nome, a assinatura e um ou dois vages da parte dos que tm simpatia por ela (e dos iguais a ela). Nada mais. 
	Finalmente, os membros do Comit conseguiram convencer um bom nmero de dirigentes de que eles podiam ser teis. Representantes mais ramosos da cincia, da literatura e da cultura russa, conhecidos pelo Ocidente, eles j haviam, em sua maioria, participado da organizao de ajuda s vtimas da fome em 1891. Alm disso, eles tinham numerosos contatos com intelectuais do mundo inteiro e podiam servir de garantia para a justa distribuio de uma eventual ajuda internacional aos famintos. Eles estavam prontos a dar o seu aval, mas exigiam que fosse concedido um estatuto oficial ao Comit de ajuda aos famintos.
	Em 21 de julho de 1921, o governo bolchevique decidiu, no sem alguma hesitao, legalizar o Comit social, que passou a ser chamado de Comit Panrusso de Ajuda aos Famintos. Ao Comit foi conferido o emblema da Cruz Vermelha. Ele teve o direito de procurar, na Rssia e no exterior, vveres, forragem e medicamentos; de partir em socorro da populao carente; de fazer uso de transportes especiais para encaminhar suas entregas; de organizar sopas populares; de criar sees e Comits locais; de comunicar-se livremente com os organismos e os procuradores por ele designados no exterior; e mesmo de debater as medidas tomadas pelas autoridades centrais e locais que, em sua opinio, dizem respeito  questo da luta contra a fome. Em nenhum momento da histria sovitica, uma organizao social havia sido contemplada com tais direitos. As concesses do governo correspondiam  gravidade da crise que atravessava o pas, quatro meses aps a instaurao oficial, e bem tmida, da NPE.
	O Comit entrou em contato com o chefe da Igreja Ortodoxa, o patriarca Tikhon, que logo criou o Comit Eclesistico Panrusso de Ajuda aos Famintos. Em 7 de julho de 1921, o patriarca fez que com que uma carta pastoral fosse lida em todas as igrejas: A carnia tornou-se uma iguaria no cardpio da populao faminta, e mesmo essa iguaria no  fcil de se encontrar. Choro e gemidos so ouvidos por toda parte. J se chegou ao canibalismo... Estenda uma mo caridosa a seus irmos e irms! Com a permisso dos fiis, voc pode utilizar o tesouro das igrejas que no tenham o valor do sacramento para socorrer os famintos, tais como anis, correntes e braceletes, decoraes que adornem os santos cones, etc.
	Aps conseguir a ajuda da Igreja, o Comit Panrusso entrou em conta-to com diversas instituies internacionais, entre elas a Cruz Vermelha, os Quakers e a American Relief Association (ARA), sendo que todas responderam positivamente. Entretanto, a colaborao entre o regime e o Comit no duraria mais do que cinco semanas: em 27 de agosto de 1921, o Comit foi dissolvido, seis dias aps o governo ter assinado um acordo com o representante da American Relief Association, presidida por Herbert Hoover. Para Lenin, assim que os americanos enviaram seus primeiros trens com provises, o Comit j havia cumprido seu papel: o nome e a assinatura de Kuskova havia servido de calo aos bolcheviques. Isso bastava.
	Proponho, hoje mesmo, sexta-feira, 26 de agosto, a dissoluo do Comit. [...] Prender Prokopovitch por propostas sediciosas [...] e mante-lo trs meses na priso. [...] Expulsar imediatamente de Moscou todos os outros membros do Comit; coloc-los em priso domiciliar nas capitais dos distritos, separados uns dos outros, se possvel longe da rede ferroviria. [...] Publicaremos amanh um breve e seco comunicado governamental, de cinco linhas: Comit dissolvido por recusar-se a trabalhar. Dar aos jornais a diretiva de comear, a partir de amanh, a cobrir de injrias as pessoas do Comit. Filhinhos-de-papai, guardas brancos, mais dispostos a passear no exterior do que ir s provncias, ridiculariz-los por todos os meios e difam-los pelo menos uma vez por semana durante dois meses. 
	Seguindo essas instrues ao p da letra, a imprensa atacou raivosamente os 60 intelectuais de renome que faziam parte do Comit. Os ttulos dos artigos publicados demonstram com eloquncia o carter dessa campanha difamatria: Com a fome no se brinca! (Pravda, de 30 de agosto de 1921); Eles especulavam com a fome! (Komunistitcheski TnuL, de 31 de agosto de 1921); O Comit de ajuda...  contra-revoluo (Izvestia, de 30 de agosto de 1921). A uma pessoa que tentava interceder em favor dos membros do Comit que foram detidos e deportados, Unschlicht, um dos adjuntos de Dzerjinski na Tcheka, declarou: Vocs dizem que o Comit no cometeu nenhum ato desleal.  verdade. Mas ele surgiu como um plo atrativo para a sociedade. E isso ns no podemos admitir. Sabe, quando colocamos um ramo ainda sem brotos num copo d'gua, ele logo comea a germinar. Do mesmo modo, o Comit comeou a estender suas ramificaes na coletivida-de social. [...] Foi preciso tirar o ramo d'gua e esmag-lo.
	Em lugar do Comit, o governo organizou uma Comisso Central de Ajuda aos Famintos, um organismo pesado e burocrtico, composto por funcionrios de diversos comissariados do povo, bastante ineficaz e corrompido. No ponto alto da fome - que atingiu em seu apogeu, durante o vero de 1922, cerca de 30 milhes de pessoas - a Comisso Central assegurou uma ajuda alimentar irregular a menos de trs milhes de pessoas. Por sua vez, a ARA, a Cruz Vermelha e os Quakers alimentavam cerca de 11 milhes de pessoas por dia. Apesar dessa mobilizao internacional, pelo menos cinco milhes de pessoas, das 29 milhes atingidas, morreram de fome em 1921-1922. A ltima grande fome sofrida pela Rssia, em 1891, aproximadamente nas mesmas regies (O Mdio e o Baixo Volga e uma parte do Caza-quisto), havia feito entre 400 e 500 mil vtimas. Naquela ocasio, o Estado e a sociedade civil disputaram entre si quem fornecia mais ajuda aos camponeses vtimas da seca. Jovem advogado, Vladimir Ulianov Lenin residia, no incio dos anos 1890, em Samara, capital de uma das provncias mais atingidas pela fome em 1891. Ele foi o nico membro da intelligentsia local que no somente no participou da ajuda social aos famintos, como pronunciou-se categoricamente contra uma tal ajuda. Como lembrava um de seus amigos, Vladimir Ilitch Ulianov teve a coragem de declarar abertamente que a fome tinha vrias consequncias positivas, entre elas, a apario de um proletariado industrial, esse coveiro da ordem burguesa. [...] A fome, ao destruir a economia camponesa atrasada, explicava ele, nos aproxima de nosso objetivo final, o socialismo, etapa imediatamente posterior ao capitalismo. Alm disso, a fome no somente destruiu a f no Czar, como tambm a f em Deus.
	Trinta anos mais tarde, esse jovem advogado, agora chefe do governo bolchevique, retomava as suas idias: a fome podia e devia servir para dar um golpe mortal na cabea do inimigo. Esse inimigo era a Igreja Ortodoxa. A eletricidade substituir a Deus. Deixem o campons rezar pela eletricidade e ele sentir que o poder das autoridades  bem maior que o dos cus, dizia Lenin em 1918, durante uma discusso com Leonid Krassin a respeito da ele-trificao na Rssia. Desde a chegada dos bolcheviques ao poder, as relaes entre o novo regime e a Igreja Ortodoxa vinham se deteriorando. Em 5 de fevereiro de 1918, o governo bolchevique decretou a separao da Igreja e do Estado, da escola e da Igreja, proclamou a liberdade de conscincia e dos cultos e anunciou a estatizao dos bens da Igreja. Contra esse ataque ao papel tradicional da Igreja Ortodoxa, religio de estado durante o czarismo, o patriarca Tikhon protestou com rigor atravs de quatro cartas pastorais aos fiis. Os bolcheviques multiplicavam as provocaes, vistoriando - isto , profanando - as relquias dos santos, organizando carnavais anti-religiosos durante as grandes comemoraes religiosas, exigindo que o grande monast-rio da Trindade So Srgio, nos arredores de Moscou, onde esto conservadas as relquias de So Srgio de Radongia, fosse transformado num museu para o atesmo. Foi nesse clima j bastante tenso, enquanto vrios padres e bispos tinham sido presos por se oporem a essas provocaes, que os dirigentes bolcheviques, com a iniciativa de Lenin, usaram o pretexto da fome para lanar uma grande operao poltica contra a Igreja.
	Em 26 de fevereiro de 1922, a imprensa publicou um decreto governamental ordenando o confisco imediato nas igrejas de todos os objetos preciosos em ouro e prata, de todas as pedras preciosas que no sirvam diretamente ao culto. Esses objetos devero ser entregues aos rgos do Comissariado do Povo para as Finanas, que os transferir para os fundos da Comisso Central de Ajuda aos Famintos. As operaes de confisco foram iniciadas nos primeiros dias de maro, sendo acompanhadas por vrios incidentes entre os destacamentos encarregados de tomar os tesouros das igrejas e os fiis. Os mais graves ocorreram em 15 de maro de 1922, em Chuia, uma pequena cidade industrial da provncia de Ivanovo, onde a tropa atirou sobre a multido de fiis, matando uma dezena de pessoas. Lenin usou essa matana como pretexto para reforar a campanha anti-religiosa.
	Em uma carta endereada aos membros do Politburo, em 19 de maro de 1922, ele explicitou, com o cinismo que o caracterizava, como a fome poderia ser utilizada em proveito prprio para dar um golpe mortal na cabea do inimigo:
	A respeito dos eventos de Chuia, que vo ser discutidos no Politburo, penso que uma deciso firme deve ser imediatamente adotada, no contexto do plano geral de luta nesse fronte. [...] Se consideramos o que nos dizem os jornais a respeito da atitude do clero em face da campanha de confisco dos bens da Igreja, somada  tomada de posio subversiva do patriarca Tikhon, parece perfeitamente claro que o clero Cem-Negros est colocando em prtica um plano elaborado que visa a nos infligir agora uma derrota decisiva. [...] Penso que nosso inimigo est cometendo um erro estratgico monumental. Com efeito, o momento atual nos  extremamente favorvel, ao contrrio do que se passa com eles. Temos 99% de chances de dar, com sucesso total, um golpe mortal na cabea do inimigo, garantindo as posies que nos so essenciais para as dcadas futuras. Com todas essas pessoas famintas que se alimentam de carne humana, com todas as estradas cheias de centenas, de milhares de cadveres,  agora e somente agora o momento em que podemos (e, por conseguinte, devemos) confiscar os bens da Igreja, com uma energia feroz, impiedosa.  precisamente agora e somente agora que a imensa maioria das massas camponesas pode nos apoiar ou, mais exatamente, pode no estar  altura de apoiar esse punhado de clrigos Cem-Negros e pequeno-burgueses reacionrios... Assim, podemos obter um tesouro de centenas de milhes de rublos-ouro (imaginem a riqueza de alguns desses monastrios!). Sem esse tesouro, nenhuma atividade estatal em geral, nenhuma edificao econmica em particular, e nenhuma defesa de nossas posies  possvel de ser feita. Devemos, custe o que custar, apropriarmo-nos desse tesouro de centenas de milhes de rublos (e mesmo, quem sabe, de vrios bilhes!). Tudo isso s pode ser feito, com sucesso, neste instante. Tudo indica que no chegaremos a nossos objetivos em outro momento, uma vez que somente o desespero proporcionado pela fome pode acarretar uma atitude benevolente ou, pelo menos, neutra, das massas a nosso respeito... Alm disso, chego  concluso categrica de que  o momento de esmagarmos o clero Cem-Negros da maneira mais decisiva e mais impiedosa, com uma brutalidade tal que seja lembrada por dcadas a fio. Imagino a implementao de nosso plano de batalha do seguinte modo: O camarada Kalinin ser o nico a vir a pblico tomar as medidas. Em nenhuma hiptese, o camarada Trotski dever aparecer para a imprensa ou para o pblico... Ser necessrio enviar um dos membros mais enrgicos e mais inteligentes do Comit Executivo Central...  Chuia, com instrues verbais de um dos membros do Politburo. Essas instrues estipularo quem ter como misso prender o maior nmero possvel de membros do clero, de pequeno-burgueses e burgueses, pelo menos algumas dzias, que sero acusados de participao direta ou indireta na violenta resistncia ao decreto de confisco dos bens da Igreja. De volta da misso, esse responsvel dever relatar suas atividades, seja ao Politburo reunido por completo, seja a dois de seus membros. Com base nesse relatrio, o Politburo dar, verbalmente, diretivas precisas s autoridades judicirias, a saber, que o processo dos rebeldes de Chuia deve ser conduzido o mais rapidamente possvel e que o nico desfecho seja a execuo, por fuzilamento, de um grande nmero de Cem-Negros de Chuia, mas tambm de Moscou e de outros centros clericais. .. Quanto maior for o nmero de representantes do clero reacion-rio e da burguesia reacionria que forem executados, melhor ser para ns. Devemos dar, imediatamente, uma lio a todas essas pessoas, de tal modo que eles nem sequer imaginem qualquer tipo de resistncia durante vrias dcadas.. .
	Como demonstram os relatrios semanais da polcia poltica, a campanha de confisco de bens da Igreja chegou a seu apogeu em maro, abril e maio de 1922, provocando 1.414 incidentes recenseados e a priso de vrios milhares de padres, monges e freiras. Segundo fontes eclesisticas, 2.691 padres, 1.962 monges e 3.447 freiras foram mortos em 1922. O governo organizou vrios grandes processos pblicos de membros do clero, em Moscou, Ivanovo, Chuia, Smolensk e Petrogrado. A partir de 22 de maro, uma semana aps os incidentes de Chuia, o Politburo props, de acordo com as instrues de Lenin, toda uma srie de medidas: Prender o snodo e o patriarca, no imediatamente, mas dentro de 15 ou 25 dias. Tornar pblicas as ocorrncias do caso Chuia. Fazer com que sejam julgados os padres e laicos de Chuia dentro de, no mximo, uma semana. Fuzilar os mentores da rebelio. Em uma nota enviada ao Politburo, Dzerjinski indicou que o patriarca e seu bando [...] se opem abertamente ao confisco dos bens da Igreja. [...] J h, a partir de agora, motivos mais do que suficientes para prender Tikhon e os membros reacionrios do snodo. A GPU estima que: 1) a priso do snodo e do patriarca  oportuna; 2) a nomeao de um novo snodo no deve ser autorizada; 3) todo padre que se opuser ao confisco dos bens da Igreja deve ser deportado, como inimigo do povo, para as regies do Volga mais atingidas pela fome.?
	Em Petrogrado, 76 eclesisticos foram condenados a cumprir pena em campos de concentrao, e quatro foram executados, entre os quais o bispo metropolita de Petrogrado, Benjamim, eleito em 1917, muito prximo do povo e que, entretanto, havia defendido com grande assiduidade a idia de uma a Igreja independente do Estado. Em Moscou, 148 eclesisticos e laicos foram condenados a penas em campos de concentrao, seis  pena de morte, imediatamente aplicada. O patriarca Tikhon foi posto em residncia vigiada, no monastrio Donskoi, em Moscou.
	Algumas semanas aps esses julgamentos fictcios, foi aberto em Moscou, em 6 de junho de 1922, um grande processo pblico, anunciado na imprensa desde o dia 28 de fevereiro: o processo de 34 socialistas-revolucion-rios acusados de terem praticado atividades contra-revolucionrias e terroristas contra o governo sovitico, entre os quais figuravam principalmente o atentado de 31 de agosto de 1918 contra Lenin e a direo poltica da revolta camponesa de Tambov. De acordo com uma prtica que seria frequentemente utilizada nos anos 30, os acusados formavam um grupo heterogneo, composto por autnticos dirigentes polticos - entre os quais estavam doze membros do Comit Central do Partido Socialista Revolucionrio, dirigido por Abraham Gots e Dimitri Donskoi - e por agentes provocadores, encarregados de testemunhar contra os co-acusados e de confessar seus crimes. Esse processo permitiu tambm, como escreveu Hlne Carrre d'Encausse, que fosse testado o mtodo das acusaes 'encaixotadas', assim como as bonecas russas, que, partindo de um fato exato - os socialistas haviam efetivamente feito, desde 1918, oposio ao absolutismo dos dirigentes bolcheviques -, chegue ao princpio... de que toda oposio equivale, em ltima instncia, a cooperar com a burguesia internacional.
	Ao final dessa justia fictcia, durante a qual as autoridades trouxeram  cena manifestaes populares pedindo a pena de morte para os terroristas, 11 dos acusados - os dirigentes do Partido Socialista Revolucionrio - foram condenados, em 7 de agosto de 1922,  pena capital. Diante dos protestos da comunidade internacional, mobilizada pelos socialistas russos exilados, e, principalmente, diante da ameaa real de uma retomada das insurreies no campo, onde o esprito socialista-revolucionrio permanecia ativo, a execuo das sentenas foi suspensa, com a condio de que o Partido Socialista Revolucionrio cessasse todas as suas atividades conspirativas, terroristas e insurrecionais. Em janeiro de 1924, as condenaes  morte foram comutadas em penas de cinco anos em campo de concentrao. Entretanto, os condenados nunca foram libertados, sendo executados nos anos 30, quando nem a opinio internacional nem o perigo das insurreies camponesas contavam mais para a direo bolchevique.
	Na ocasio do processo dos socialistas-revolucionrios, havia sido aplicado o novo Cdigo Penal, que passou a vigorar em 19 de junho de 1922. Lenin seguiu com grande interesse a elaborao desse cdigo que deveria legalizar a violncia exercida contra os inimigos polticos, uma vez que a fase da eliminao expeditiva, justificada pela guerra civil, estava oficialmente encerrada. Os primeiros esboos submetidos a Lenin suscitaram, de sua parte, em 15 de maio de 1922, essas observaes dirigidas a Kurskii, comissrio do povo para a Justia: Em minha opinio,  preciso ampliar o campo de aplicao da pena de morte a todas as formas das atividades dos mencheviques, socialistas-revolucio-nrios, etc. Encontrar uma nova punio, que seria a expulso do pas. E aperfeioar uma frmula que ligue essas atividades  burguesia internacional.  Dois dias mais tarde, Lenin tornava a escrever: Camarada Kurskii, quero acrescentar a nossa entrevista esse esboo de um pargrafo complementar para o Cdigo Penal. [...] Creio que o essencial est bem claro.  preciso colocar abertamente o princpio - justo do ponto de vista poltico, e no somente em termos estreitamente jurdicos - que motiva a essncia e a justificao do terror, sua necessidade e seus limites. O tribunal no deve suprimir o terror - dizer isso seria mentir para si ou para os outros -, mas fundament-lo, legaliz-lo em seus princpios, claramente, sem trair ou dissimular a verdade. A formulao deve ser a mais aberta possvel, pois somente a conscincia legal revolucionria e a conscincia revolucionria criam, nos fatos, suas condies de aplicao.
	De acordo com as instrues de Lenin, o Cdigo Penal define o crime contra-revolucionrio como todo ato que vise abater ou enfraquecer o poder dos sovietes operrios e camponeses estabelecido pela revoluo proletria, mas tambm todo ato que contribua na ajuda  burguesia internacional que no reconhece a igualdade dos direitos do sistema comunista de propriedade como sucessor do sistema capitalista, se esforando para derrub-lo com o uso da fora, da interveno militar, do bloqueio econmico e militar, da espionagem ou do financiamento da imprensa e de outros meios similares.
	Eram passveis de pena de morte no somente todas as atividades (revoltas, perturbaes da ordem, sabotagens, espionagem, etc.) suscetveis de serem qualificadas como atos contra-revolucionrios, mas tambm a participao ou a cooperao cedida a uma organizao no sentido de uma ajuda a uma parte da burguesia internacional. Mesmo a propaganda suscetvel de levar uma ajuda a uma parte da burguesia internacional era considerada como um crime contra-revolucionrio, passvel de uma privao da liberdade que no poderia ser inferior a trs anos ou de banimento perptuo.
	No contexto da legalizao da violncia poltica empreendida no comeo de 1922, convm lembrar a transformao nominal da polcia poltica. Em 6 de fevereiro de 1922, um decreto aboliu a Tcheka, substituindo-a de imediato pela GPU - Direo Poltica de Estado -, subordinada ao comissariado do povo para o interior. Se o nome foi mudado, os responsveis e as estruturas permaneciam idnticas, evidenciando claramente a continuidade da instituio. O que poderia significar, ento, essa mudana de etiqueta? A Tcheka era por definio uma comisso extraordinria, o que sugeria o carter transitrio da sua existncia e do que a justificava. A GPU indicava, ao contrrio, que o Estado devia dispor de instituies normais e permanentes de controle e de represso poltica. Por detrs dessa mudana de denominao, se desenhava a perpetuao e a legalizao do terror como modo de resoluo das relaes conflituosas entre o novo Estado e a sociedade.
	Uma das disposies inditas do novo Cdigo Penal era o banimento perptuo, com a proibio de retorno  URSS sob ameaa de execuo imediata. Ela foi posta em prtica a partir do outono de 1922, como consequncia de uma operao de expulso que atingiu cerca de 200 intelectuais de renome, suspeitos de fazerem oposio ao bolchevismo. Entre estes ltimos destacavam-se todos os que haviam participado do Comit Social de Luta Contra a Fome, dissolvido em 27 de julho de 1921.
	Em 20 de maio de 1922, Lenin exps, numa longa carta a Dzerjinski, um grande plano de expulso do pas dos escritores e dos professores que ajudam a contra-revoluo.  preciso preparar com bastante cuidado essa operao, escrevia Lenin. Reunir uma comisso especial. Obrigar os membros do Politburo a dedicarem de duas a trs horas por semana ao exame de um certo nmero de livros e de revistas. [...] Reunir informaes sistemticas sobre o passado poltico, os trabalhos e a atividade literria dos professores e dos escritores.
	E Lenin mostrava o exemplo: No que diz respeito  revista Ekonomist, por exemplo,  evidente que se trata de um centro de guardas brancos. O nP 3 (apenas seu terceiro nmero! nota bene!) traz na capa a lista de seus colaboradores. Creio que quase todos so fortes candidatos  expulso. So todos contra-revolucionrios reconhecidos, cmplices da Conspirao, que formam uma organizao com seus lacaios, espies e corruptores da juventude estudante.  preciso organizar as coisas para que possamos caar esses espies, capturando-os de maneira permanente, organizada e sistemtica, para expuls-los de nosso pas.
	Em 22 de maio, o Politburo instaurou uma Comisso Especial, que inclua principalmente Kamenev, Kurskii, Unschlicht, Mantsev (dois adjuntos de Dzerjinski), encarregada de catalogar um certo nmero de intelectuais para a priso e posterior expulso. Os primeiros a serem expulsos, em junho de 1922, foram os dois principais dirigentes do ex-Comit Social de Luta Contra a Fome, Serge Prokopovitch e Ekaterina Kuskova. Um primeiro grupo de 160 intelectuais de renome - filsofos, escritores, historiadores e professores universitrios, detidos em 16 e 17 de agosto - foi expulso num navio em setembro. Estavam entre eles, principalmente, alguns nomes que j haviam adquirido ou iriam adquirir renome internacional: Nikolai Berdiaev, Serge Bulgakov, Semion Frank, Nikolai Losski, Lev Karsavin, Fedor Stepun, Serge Trubetskoi, Alexandre Izgoiev, Ivan Lapchin, Mikhail Ossorguin, Alexandre Kiesewetter... Todos tiveram de assinar um documento estipulando que em caso de retorno  URSS eles seriam imediatamente fuzilados. Cada um estava autorizado a levar consigo um casaco de inverno, um casaco de vero, um terno e roupa de baixo de troca, duas camisas para o dia e duas para a noite, duas ceroulas e dois pares de meias! Alm desses objetos de uso pessoal, cada pessoa expulsa tinha o direito de levar 20 dlares em divisas.
	Paralelamente a essas expulses, a polcia poltica continuava a catalogao de todos os intelectuais de segunda grandeza que fossem suspeitos, que seriam destinados  deportao administrativa - legalizada por um decreto de 10 de agosto de 1922 - para as panes mais longnquas do pais ou ento para campos de concentrao. Em 5 de setembro de 1922, Dzerjinski escreveu a seu adjunto Unschlicht:
	Camarada Unschlicht! Quanto  catalogao da intelligentsia, o processo ainda est demasiadamente artesanal! Desde a partida de Agranov, no temos mais um responsvel competente para essa tarefa. Zaraiski  jovem demais. Parece-me que, para progredirmos, seria preciso que o camarada Menjinski ocupe-se do processo. [...]  indispensvel que se faa um bom planejamento do trabalho, que ns corrigiramos e completaramos regularmente.  preciso classificar toda a intelligentsia em grupos e subgrupos: 1) escritores; 2) jornalistas e polticos; 3) economistas (indispensvel que sejam feitos subgrupos: a) financistas; b) especialistas em energia; c) especialistas em transporte; d) comerciantes; e) especialistas em cooperao, etc.); 4) especialidades tcnicas (tambm aqui so necessrios subgrupos: a) engenheiros; b) agrnomos; c) mdicos, etc.); 5) professores universitrios e seus assistentes, etc. etc. As informaes sobre todos esses senhores deve vir de nossos departamentos e devem ser sintetizadas pelo departamento Intelligentsia. Devemos ter um dossi sobre cada intelectual. [...]  preciso ter sempre em mente que o objetivo do nosso departamento no  somente o de expulsar ou o de prender os indivduos, mas de contribuir para a elaborao de uma linha poltica geral com respeito aos especialistas: vigi-los de perto, classific-los, mas tambm promover os que esto prontos - no apenas em palavras, mas em atos - para apoiar o poder sovitico.
	Alguns dias mais tarde, Lenin enviou um longo memorando a Stalin, no qual ele retomava meticulosamente, e com o sentido manaco do detalhe, a limpeza definitiva da Rssia de todos os socialistas, intelectuais, liberais e outros senhores:
	Sobre a questo da expulso dos mencheviques, dos socialistas populares, dos cadetes, etc. Gostaria de colocar algumas questes, pois essa medida, iniciada antes de minha partida, ainda no foi terminada. Foi decidido extirpar todos os socialistas populares? Pechekhonov, Miakotin, Gornfeld? Petrichtchev e os outros? Creio que todos eles deveriam ser expulsos. Eles so mais perigosos do que os SR porque so mais espertos. E tambm Potressov, Izgoiev e todos da revista Economista (Ozerov e muitos outros). Os mencheviques Rozanov (um mdico ardiloso), Vigdortchik (Migulo ou alguma coisa parecida), Liubov Nikolaievna Radtchenko e sua jovem filha (no nosso entendimento, os piores inimigos do bolchevismo); N. A. Rojkov (esse deve ser expulso, ele  incorrigvel). [...] A comisso Mantsev-Messing deveria estabelecer listas, e vrias centenas desses senhores deveriam ser impiedosamente expulsos. Ns limparemos a Rssia de uma vez por todas. [...] Tambm, todos os autores da Casa dos Escritores e os da Casa do Pensamento (Pe-trogrado). Kharkov deve ser revistada dos ps  cabea. No temos a mnima idia do que se passa por l; trata-se, para ns, de um pas estrangeiro. A cidade deve ser limpa radical e rapidamente, no muito mais tarde que o fim do processos dos SR. Ocupe-se dos autores e escritores de Petrogrado (seus endereos constam de O Novo Pensamento Russo, n 4, 1922, p. 37) e tambm da lista de editores privados (p. 29). Isso  superimportante!
	
	6. Da trgua  grande virada
	
	Durante um pouco menos de cinco anos, do incio de 1923 ao final de 1927, houve uma pausa nos confrontos entre o regime e a sociedade. As lutas pela sucesso de Lenin, morto em 24 de janeiro de 1924 - mas completamente afastado da poltica desde maro de 1923, em seguida ao seu terceiro derrame cerebral - monopolizaram uma grande parte da atividade poltica dos dirigentes bolcheviques. Durante esses poucos anos, a sociedade tratou de suas feridas.
	No decorrer dessa trgua, a populao camponesa - que representava mais de 85% de todo o pas - tentou reatar as relaes de comrcio, negociar os frutos de seu trabalho e viver, de acordo com a bela frmula do grande historiador do campesinato russo, Michael Confino, como se a utopia camponesa funcionasse. Essa utopia camponesa, que os bolcheviques facilmente qualificavam de eserovschina - termo cuja traduo mais aproximada seria mentalidade socialista-revolucionria -, repousava em quatro princpios que estiveram por vrias dcadas na raiz de todos os programas camponeses: o fim dos grandes proprietrios rurais e a terra dividida em funo do nmero de bocas a serem alimentadas; a liberdade de dispor livremente dos frutos do seu trabalho e a liberdade de comrcio; um self-government campons representado pela comunidade tradicional das cidades do campo; e a presena exterior do Estado bolchevique reduzida a sua mnima expresso - um soviete rural para um pequeno conjunto de povoados e uma unidade do Partido Bolchevique para um em cada cem povoados!
	Parcialmente reconhecidos pelo poder, tolerados momentaneamente como um smbolo de retardo num pas de maioria camponesa, os mecanismos de mercado, interrompidos de 1914 a 1922, retornaram a funcionar. Cedo, recomearam as migraes sazonais em direo s grandes cidades, to frequentes durante o antigo regime; com a indstria de Estado negligenciando o setor de bens de consumo, o artesanato rural obteve um notvel xito, a misria e a fome tornaram-se cada vez mais raras e os camponeses comearam a saciar suas necessidades alimentares.
	Entretanto, a aparente calma desses poucos anos no poderia mascarar as profundas tenses que subsistiam entre o regime e uma sociedade que no havia esquecido a violncia da qual fora vtima. Para os camponeses, ainda havia vrios motivos de descontentamento. Os preos agrcolas estavam demasiadamente baixos, os produtos manufaturados estavam caros e raros em demasia, e os impostos estavam exageradamente pesados. Comparados aos habitantes das cidades - principalmente os operrios, que eram com freqncia vistos como privilegiados -, os camponeses tinham a sensao de serem cidados de segunda categoria. Eles queixavam-se sobretudo dos inmeros abusos de poder cometidos pelos representantes de base do regime sovitico, formados na escola do comunismo de guerra. Eles continuavam submetidos  absoluta arbitrariedade de um poder local herdeiro tanto de uma certa tradio russa quanto das prticas terroristas dos anos precedentes. Os aparelhos judicirio, administrativo e policial esto totalmente gangrenados pelo alcoolismo generalizado, pela prtica corrente do suborno, [...] pelo burocra-tismo e por uma atitude de extrema grosseria em relao s massas camponesas, reconhecia, no fim de 1925, um longo relatrio da polcia poltica sobre o estado da legalidade socialista no campo.
	Apesar de condenar os abusos mais gritantes dos representantes do poder sovitico, a maioria dos dirigentes bolcheviques no deixava de considerar o campo como uma terra incgnita perigosa, um ambiente fervilhante de elementos kulaks, de socialistas revolucionrios, de popes e de antigos proprietrios rurais que ainda no foram eliminados, segundo a imagem expressa num relatrio do chefe da polcia poltica da provncia de Tula.
	Como demonstram os documentos do departamento de Informao da GPU, o mundo operrio tambm continuava sob estreita vigilncia. Grupo Social em reconstruo nos anos que se seguiram  guerra,  revoluo e  guerra civil, o mundo operrio estava sempre sob a suspeita de conservar ligaes com o mundo hostil do campo. Os agentes infiltrados, presentes em cada empresa, seguiam de perto as conversas e os atos desviantes, humores camponeses que os operrios, recm-chegados de trabalhos no campo, feitos durante as suas frias, supostamente traziam para a cidade. Os relatrios policiais dissecavam o mundo operrio em elementos hostis, influenciados necessariamente por grupelhos contra-revolucionrios, elementos politicamente retardados, geralmente oriundos do campo, e elementos dignos de serem conhecidos como politicamente conscientes. As interrupes de trabalho e as greves, muito pouco frequentes nesses anos de grande desemprego e relativa melhora do nvel de vida para aqueles que estavam empregados, eram cuidadosamente analisadas, e seus mentores eram presos.
	Os documentos internos - hoje parcialmente acessveis - da polcia poltica mostram que, aps alguns anos de formidvel expanso, essa instituio passou por dificuldades, causadas principalmente pela pausa no empreendimento voluntarista bolchevique de transformao da sociedade. Em 1924-1926, Dzerjinski chegou a ter de lutar com bastante firmeza contra alguns dirigentes bolcheviques que consideravam que seria preciso reduzir drasticamente os efetivos de uma polcia poltica cujas atividades estavam em franco declnio! Pela primeira e nica vez at 1953, os efetivos da polcia poltica diminuram expressivamente. Em 1921, a Tcheka empregava cerca de 105.000 civis e 180.000 militares nas diversas tropas especiais, incluindo os agentes de fronteira, as Tchekas atuando na rede ferroviria e os guardas de campos de concentrao. Em 1925, esses efetivos foram reduzidos a apenas 26.000 civis e 63.000 militares. A esses nmeros se juntam cerca de 30.000 agentes infiltrados, cujo nmero, em 1921, permanece desconhecido, em razo do estado atual da documentao. Em dezembro de 1924, Nikolai Bukharin escreveu a Feliks Dzerjinski: Considero que devemos passar mais rapidamente a uma forma mais 'liberal' de poder sovitico: menos represso, mais legalidade, mais discusses, mais poder local (sob a direo do Partido naturaliter), etc.
	Alguns meses mais tarde, em l. de maio de 1925, o presidente do Tribunal Revolucionrio, Nikolai Krylenko, que havia presidido a farsa judiciria do processo dos socialistas-revolucionrios, enviou ao Politburo uma longa nota na qual ele criticava os abusos da GPU que, segundo ele, ultrapassava os direitos que lhe foram concedidos pela lei. Vrios decretos, assinados em 1922-1923, haviam efetivamente limitado a competncia da GPU aos casos de espionagem, banditismo, moeda falsa e contra-revoluo. Para esses crimes, a GPU era o nico juiz, e seu Golegiado Especial podia pronunciar penas de deportao e de priso domiciliar vigiada (at 3 anos), em campos de concentrao, e mesmo a pena de morte. Em 1924, de cada 62.000 dossis abertos pela GPU, um pouco mais de 52.000 foram transmitidos aos tribunais comuns. As jurisdies especiais da GPU haviam guardado mais de 9.000 casos, nmero considervel, haja vista a conjuntura poltica estvel, lembrava Nikolai Krylenko, que conclua:
	As condies de vida das pessoas deportadas e obrigadas a residir em buracos perdidos na Sibria, sem o menor peclio, so pavorosas. Enviamos a esses lugares tanto jovens de 18 anos, vindos dos meios estudantis, quanto idosos de 70 anos, sobretudo os membros do clero e velhas senhoras que 'pertencem a classes perigosas para a sociedade'.
	Krylenko tambm propunha a limitao do qualificativo contra-revo-lucionrio apenas aos membros reconhecidos dos partidos polticos que representem os interesses da burguesia, a fim de evitar uma interpretao abusiva do termo pelos servios da GPU.
	Diante dessas crticas, Dzerjinski e seus adjuntos no deixaram de alimentar os dirigentes mais importantes do pas, principalmente Stalin, com relatrios alarmistas sobre a persistncia de problemas no interior, e sobre ameaas militares orquestradas pela Polnia, pases blticos, Gr-Bretanha, Frana e Japo. Segundo o relatrio de atividades da GPU para o ano de 1924, a polcia poltica teria:
	- prendido 11.453 bandidos, dos quais 1.858 foram imediatamente executados; 
	- detido 926 estrangeiros (dos quais 357 foram expulsos) e 1.542 espies;
	- impedido um levante de guardas brancos na Crimia (132 pessoas executadas nas operaes ligadas a esse caso); 
	- executado 81 operaes contra grupos anarquistas, levando a 266 prises;
	- liquidado 14 organizaes mencheviques (540 prises), 6 organizaes socialistas-revolucionrias de direita (152 prises), 7 organizaes socialistas-revolucionrias de esquerda (52 prises), 117 organizaes diversas de intelectuais (1.360 prises), 24 organizaes monarquistas (1.245 prises), 85 organizaes clericais e sectrias (1.765 prises) e 675 grupos kulaks (1.148 prises);
	- expulsado em duas grandes operaes, em fevereiro e julho de 1924, cerca de 4.500 ladres, recidivistas e nepmen (comerciantes e pequenos empreendedores privados) de Moscou e de Leningrado; 
	- colocado sob vigilncia individual 18.200 pessoas perigosas  sociedade;
	- vigiado 15.501 empresas e administraes diversas; 
	- lido 5.078.174 canas e correspondncias diversas.
	Em que medida esses dados, cuja preciso escrupulosa chega ao ridculo burocrtico, so confiveis? Includos no projeto oramentrio da GPU para 1925, eles tinham funo de demonstrar que a polcia poltica no baixava a guarda diante de todas as ameaas exteriores e que merecia os fundos que lhe foram concedidos. Eles no deixam de ser preciosos para os historiadores, pois, alm dos nmeros, da arbitrariedade das categorias, eles revelam a permanncia dos mtodos, dos inimigos potenciais, de uma organizao menos ativa momentaneamente, mas sempre operacional.
	Apesar dos cortes no oramento e de algumas crticas vindas de dirigentes bolcheviques contraditrios, o ativismo da GPU s poderia ser encorajado pelo recrudescimento da legislao penal. Com efeito, os Princpios Fundamentais da Legislao Penal da URSS, adotados em 31 de outubro de 1924, assim como o novo Cdigo Penal de 1926, ampliam sensivelmente a definio do crime contra-revolucionrio, codificando a noo de pessoa perigosa  sociedade. A lei inclua, entre os crimes contra-revolucionrios, todas as ati-vidades que, sem ter por objetivo direto o enfraquecimento ou a derrubada do poder sovitico, eram por si ss, e notoriamente para o delinquente, um atentado s conquistas polticas ou econmicas da revoluo proletria. Assim, a lei sancionava no somente as intenes diretas, como tambm as intenes eventuais ou indiretas.
	Alis, era reconhecida como perigosa  sociedade [...] toda pessoa que houvesse cometido um ato perigoso para a sociedade, ou cujas relaes com os meios criminosos ou ainda as atividades passadas representem perigo. As pessoas designadas segundo esses critrios bastante extensveis podiam ser condenadas, mesmo em caso de ausncia de toda culpa. Era claramente detalhado que a Corte pode aplicar as medidas de proteo social s pessoas reconhecidas como perigosas  sociedade, seja por haverem cometido um determinado delito, seja no caso em que, indiciadas sob a acusao de terem cometido um determinado delito, elas so inocentadas pela Corte, mas reconhecidas como perigosas  sociedade. Todas essas disposies, codificadas em 1926 - entre as quais figurava o famoso artigo 58 do Cdigo Penal, com suas 14 alneas definindo os crimes contra-revolucionrios - reforavam a fundamentao legal do terror. Em 4 de maio de 1926, Dzerjinski enviou a seu adjunto lagoda uma carta na qual ele expunha um grande programa de luta contra a especulao, bastante revelador dos limites da NPE e da continuidade do esprito de guerra civil entre os mais importantes dirigentes bolcheviques:
	A luta contra a 'especulao' est hoje revestida de uma extrema importncia...  indispensvel limpar Moscou de seus elementos parasitas e especuladores. Pedi a Pauker para que ele reunisse toda a documentao disponvel sobre a catalogao dos habitantes de Moscou em relao a esse problema. At agora, no recebi nada dele. Voc no acha que deveramos criar na GPU um departamento especial de colonizao, que seria financiado por um fundo especial alimentado pelos confiscos...?  preciso povoar as zonas inspitas de nosso pas com esses elementos parasitas (e suas famlias) de nossas cidades, seguindo um plano preestabelecido e aprovado pelo governo. Devemos a todo custo limpar nossas cidades de centenas de milhares de especuladores e de parasitas que nelas prosperam... Esses parasitas nos devoram. Por causa deles, no h mercadorias para os camponeses, por causa deles os preos aumentam e o nosso rublo baixa. A GPU deve empenhar-se inteiramente na resoluo desse problema, usando toda a sua energia.^
	Entre as especificidades do sistema penal sovitico figurava a existncia de dois sistemas distintos de indiciamento em matria criminal, um judicirio e outro administrativo, e dois sistemas de locais de deteno, um administrado pelo Comissariado do Povo para o Interior, outro pela GPU. Alm das prises tradicionais onde estavam encarceradas as pessoas condenadas por um processo judicial comum, existia um conjunto de campos administrados pela GPU, onde estavam presas as pessoas condenadas pelas jurisdies especiais da polcia poltica por terem cometido um dos crimes que diziam respeito a essa instituio: contra-revoluo sob todas as suas formas, grande banditismo, moeda falsa e delitos cometidos pelos membros da polcia poltica.
	Em 1922, o governo props  GPU a instalao de um grande campo no arquiplago de Solovki, cinco ilhas do Mar Branco, na costa de Arkhangelsk, sendo que a principal delas abrigava um dos grandes monastrios da Igreja Ortodoxa russa. Depois de ter expulsado os monges, a GPU organizou no arquiplago um conjunto de campos, reunidos sob a sigla SLON (Campos Especiais de Solovki). Os primeiros efetivos, vindos dos campos de Kholmogory e de Pertaminsk, chegaram a Solovki no incio do ms de julho de 1923. No fim desse ano, j havia 4.000 detentos; em 1927, 15.000 e, no final de 1928, cerca de 38.000.
	Uma das particularidades do conjunto penitencirio de Solovki era a sua autogesto. Alm do diretor e de alguns poucos responsveis, todas as funes do campo eram ocupadas por detentos. Tratava-se de uma esmagadora maioria de antigos colaboradores da polcia poltica, condenados por abusos especialmente graves. Praticada por essa espcie de indivduo, a autogesto era o smbolo da mais completa arbitrariedade que, muito rapidamente, agravou a condio quase privilegiada, herdeira legtima do Antigo Regime, da qual se beneficiavam alguns detentos que haviam obtido o estatuto de prisioneiro poltico. Com efeito, sob a NPE, a administrao da GPU distinguia trs categorias de prisioneiros.
	A primeira reunia os polticos, ou seja, quase que exclusivamente os membros dos antigos Partidos Menchevique, Socialista Revolucionrio e Anarquista; esses detentos tinham, em 1921, conseguido de Dzerjinski - ele prprio havia sido durante muito tempo prisioneiro poltico do regime czaris-ta, tendo passado cerca de dez anos na priso ou no exlio - um regime poltico relativamente clemente: eles recebiam a melhor alimentao, chamada de rao poltica, conservavam alguns objetos pessoais, podiam receber jornais e revistas. Eles viviam em comunidade e, sobretudo, estavam livres do trabalho forcado. Esse estatuto privilegiado foi suprimido no final dos anos 20.
	A segunda categoria, a maior delas, reunia os contra-revolucionrios: membros dos partidos polticos no socialistas ou anarquistas, membros do clero, antigos oficiais do exrcito czarista, antigos funcionrios, cossacos, participantes das revoltas de Kronstadt e de Tambov, e toda outra pessoa condenada pelo artigo 58 do Cdigo Penal.
	A terceira categoria reunia os prisioneiros comuns condenados pela GPU (bandidos, falsados) e antigos tchekistas condenados por diversos crimes e delitos pela sua instituio. Os contra-revolucionrios, obrigados a coabitarem com os prisioneiros comuns, que eram os que ditavam a lei no interior dos campos, estavam submetidos s mais completas arbitrariedades,  fome, ao frio extremo no inverno, aos mosquitos no vero - uma das torturas mais frequentes consistia em amarrar os prisioneiros nus nos bosques, como pasto para os mosquitos, particularmente numerosos e temidos nessas ilhas setentrionais repletas de lagos. Para passar de um setor a outro do campo, lembrava-se um dos mais clebres prisioneiros de Solovki, o escritor Variam Chalamov, os detentos exigiam que as prprias mos fossem atadas nas costas e que isso fosse expressamente mencionado no regulamento: Era a nica maneira de autodefesa dos detentos contra a lacnica frmula 'morto durante uma tentativa de fuga'.
	Foi nos campos de Solovki que houve a verdadeira implantao, aps os anos de improvisao durante a guerra civil, do sistema de trabalho forado que a partir de 1929 teria um desenvolvimento fulgurante. At 1925, os detentos eram ocupados de maneira bem pouco produtiva em diversos trabalhos no prprio interior dos campos. A partir de 1926, a administrao decidiu estabelecer contratos de produo com um certo nmero de organismos de Estado, explorando mais racionalmente o trabalho forado, tonando-o fonte de rendimentos ao invs de ser, de acordo com a ideologia dos primeiros campos de trabalho corretivo dos anos 1919-1920, fonte de reeducao. Reorganizados sob a sigla USLON (Direo dos Campos Especiais do Norte), os campos de Solovki se espalharam pelo continente, a comear pelo litoral do Mar Branco. Em 1926-1927, foram criados novos campos perto da embocadura do Petchora, em Kem e em outras localidades de um litoral inspito, mas que possuam uma regio costeira bastante rica em florestas. Os detentos eram encarregados da execuo de um determinado programa de produo, principalmente a derrubada e o corte da madeira. O crescimento exponencial dos programas de produo rapidamente necessitou de um nmero cada vez maior de detentos. Tal crescimento conduziu a uma reforma essencial no sistema de deteno: a transferncia para os campos de trabalho de todos os detentos condenados a penas superiores a trs anos. Essa medida iria permitir um formidvel desenvolvimento do sistema de campos de trabalho. Laboratrio experimental do trabalho forado, os campos especiais do arquiplago de Solovki eram a verdadeira matriz de outro arquiplago em gestao, um imenso arquiplago de dimenses continentais: o Arquiplago do Gulag.
	As atividades cotidianas da GPU, com seu montante anual de alguns milhares de condenaes a penas em campos de concentrao ou de priso domiciliar, no excluam um certo nmero de operaes repressivas especficas de grande porte. Durante os anos calmos da NPE, de 1923 a 1927, foi de fato nas repblicas perifricas da Rssia, na regio Transcaucasiana e na sia Central, que ocorreram os episdios de represso mais frequentes e sangrentos. Esses pases haviam bravamente resistido  conquista russa no sculo XIX e s tardiamente foram reconquistados pelos bolcheviques: o Azerbaijo em abril de 1920, a Armnia em dezembro de 1920, a Gergia em fevereiro de 1921, o Daguesto em fins de 1921, e o Turcomenisto, com Bukhara, no outono de 1920. Eles continuaram a oferecer uma grande resistncia  sovietizao. Controlamos apenas as principais cidades, ou melhor, o centro das principais cidades, escreveu, em janeiro de 1923, Peters, um plenipotencirio da Tcheka enviado ao Turcomenisto. De 1918 ao final dos anos 20 - e, em algumas regies, estendendo-se at 1935-1936 -, a maior parte da sia Central, com a exceo das cidades, foi controlada por basmatehis. O termo basmatchis (bandoleiros, na lngua usbeque) era atribudo pelos russos aos diversos tipos de guerrilheiros, sedentrios, mas tambm aos nmades, usbecos, quirguizes e tur-comanos, que agiam de modo independente uns dos outros em vrias regies.
	O principal foco de revolta situava-se no vale de Fergana. Em setembro de 1920, aps a conquista de Bukhara pelo Exrcito Vermelho, o levante se estendeu s regies oriental e meridional do antigo Emirado de Bukhara e  regio setentrional das estepes turcomanas. No incio de 1921, o estado-maior do Exrcito Vermelho estimava em 30 mil o nmero de basmatchis armados. A direo do movimento era heterognea, formada por lderes locais - oriundos das altas classes sociais dos povoados ou de um cl -, por lderes religiosos tradicionais, mas tambm por nacionalistas muulmanos estrangeiros  regio, tais como Enver Pacha, antigo ministro da defesa na Turquia, morto em 1922 num confronto com os destacamentos da Tcheka.
	O movimento basmatchi era um levante espontneo, instintivo, contra o infiel, o opressor russo, o antigo inimigo de volta sob uma nova forma, que se propunha no somente a apropriar-se das terras e do gado, mas tambm a profanar o mundo espiritual do muulmano. Guerra de pacificao de carter colonial, a luta contra os basmatchis mobilizou, durante mais de dez anos, uma parte importante das forcas armadas e das tropas especiais da polcia poltica - da qual um dos principais departamentos era precisamente o Departamento Oriental. No presente momento  impossvel avaliar, mesmo de maneira aproximada, o nmero de vtimas dessa guerra.
	O segundo grande setor do Departamento Oriental da GPU era o Transcaucsio. Na primeira metade dos anos 20, o Daguesto, a Gergia e a Chechnia foram particularmente atingidos pela represso. O Daguesto resistiu  penetrao sovitica at fins de 1921. Sob a direo do xeque Uzun Hadji, a confraria muulmana dos Nakchbandis encabeou uma grande revolta de montanheses, e a luta assumiu um aspecto de guerra santa contra o invasor russo. Ela durou pouco mais de um ano, mas algumas regies s foram pacificadas em 1923-1924, atravs de frequentes bombardeios e massacres de civis.
	Aps trs anos de independncia sob um governo menchevique, a Gergia foi ocupada pelo Exrcito Vermelho em fevereiro de 1921, mas permaneceu, como chegou a confessar Alexandre Miasnikov, o secretrio do Comit do Partido Bolchevique do Transcaucsio, um caso bastante rduo. O Partido Bolchevique local, esqueltico, que em trs anos de poder mal conseguiu recrutar dez mil pessoas, confrontava-se com uma camada intelectual e nobiliria de cerca de cem mil pessoas, tremendamente antibolchevique, e com ramificaes mencheviques bastante fortes, uma vez que o Partido Menchevique chegou a possuir, em 1920, mais de 60 mil militantes. Apesar do terror exercido pela todo-poderosa Tcheka da Gergia, muito independente de Moscou e dirigida por Lavrenti Beria - um jovem dirigente policial de 25 anos, votado a um futuro brilhante - os dirigentes mencheviques exilados conseguiram, no fim de 1922, organizar, com a ajuda de outros partidos antibolcheviques, um Comit secreto pela independncia da Gergia, logo preparando um levante. Comeando em 28 de agosto de 1924, na pequena cidade de Tchiatura, esse levante, cujo grosso dos participantes era constitudo por camponeses da regio de Gurie, em poucos dias ganhou cinco dos 25 distritos georgianos. Diante de foras superiores, dotadas de artilharia e de aviao, a insurreio foi esmagada em uma semana. Sergo Ordjonikidze - primeiro secretrio do Comit do Partido Bolchevique do Transcaucsio - e Lavrenti Beria usaram esse levante como pretexto para acabar de uma vez por todas com o menchevismo e com a nobreza georgiana. Segundo dados que s recentemente vieram a pblico, 12.578 pessoas foram fuziladas de 29 de agosto a 5 de setembro de 1924. A dimenso da represso foi tamanha, que mesmo o Politburo comoveu-se. A direo do Partido enviou a Ordjonikidze uma repreenso, pedindo-lhe para que no praticasse execues em massa e desproporcionadas nem execues polticas sem ter sido expressamente autorizado pelo Comit Central. Entretanto, as execues sumrias continuaram durante vrios meses. No Plenrio do Comit Central reunido em outubro de 1924, Sergo Ordjonikidze concedeu: Talvez tenhamos exagerado, mas agora  tarde!
	Um ano aps a represso do levante georgiano de agosto de 1924, o regime lanou uma grande operao de pacificao na Chechnia, onde todos podiam dizer que o poder sovitico no existia. De 27 de agosto a 15 de setembro de 1925, mais de dez mil homens das tropas regulares do Exrcito Vermelho, sob a direo do general Uborevitch, apoiadas pelas unidades especiais da GPU, iniciaram uma tentativa de desarmamento dos guerrilheiros chechenos que dominavam o interior do pas. Dezenas de milhares de armas foram apreendidas, cerca de mil bandidos foram detidos. Diante da resistncia da populao, o dirigente da GPU, Unchlicht, reconheceu que as tropas tiveram de recorrer  artilharia pesada e ao bombardeio dos esconderijos dos bandidos mais obstinados. No final dessa nova operao de pacificao, feita durante o que se convencionou chamar o apogeu da NPE, Unchlicht conclua seu relatrio dessa maneira: Como demonstrou a experincia da luta contra os basmatchis no Turcomenisto, contra o banditismo na Ucrnia, na provncia de Tambov e em outras regies, a represso militar s  eficaz quando ela for seguida de uma sovietizao do interior profundo do pas. 
	A partir do fim de 1926, aps a morte de Dzerjinski, a GPU, dirigida desde ento por Viatcheslav Rudolfovitch Menjinski - brao direito do fundador da Tcheka e de origem polonesa, como Dzerjinski -, parece ter sido novamente solicitada por Stalin, que preparava sua ofensiva poltica contra Trotski e, ao mesmo tempo, contra Bukharin. Em janeiro de 1927, a GPU recebeu a ordem de acelerar a catalogao dos anti-soviticos e elementos perigosos  sociedade no campo. Em um ano, o nmero de pessoas catalogadas passou de 30.000 para cerca de 72.000. Em setembro de 1927, a GPU lanou, em vrias provncias, uma boa quantidade de campanhas para a priso de kulaks e outros elementos perigosos  sociedade. A posteriori, essas operaes aparecem tambm como exerccios preparatrios para as grandes varreduras de kulaks durante as deskulakizaes do inverno de 1929-1930.
	Em 1926-1927, a GPU se mostrou igualmente muito ativa na caa aos opositores do comunismo, etiquetados como zinovievistas ou trotskistas. A prtica de catalogar e perseguir os opositores do comunismo apareceu muito cedo, desde 1921-1922. Em setembro de 1923, Dzerjinski havia proposto, para fortalecer a unidade ideolgica do Partido, que os comunistas se comprometessem em transmitir  polcia poltica toda informao que lhes passasse pelas mos sobre a existncia de faces ou desvios do seio do Partido. Essa proposio havia suscitado violentos protestos da parte de vrios dos responsveis, entre eles Trotski. Apesar disso, o hbito de mandar vigiar os opositores generalizou-se no decorrer dos anos seguintes. O expurgo da organizao comunista de Leningrado, dirigido por Zinoviev, em janeiro-fevereiro de 1926, implicou intensamente os servios da GPU. Os opositores no somente foram excludos do Partido, como vrias centenas deles foram exilados em cidades longnquas do pas, lugares em que seus destinos se tornaram bastante precrios - uma vez que ningum ousava propor-lhes qualquer espcie de trabalho. Em 1927, a caa aos opositores trotskistas - alguns milhares no pas - mobilizou, durante mais de um ms, uma parte dos servios da GPU. Todos foram catalogados; centenas de trotskistas ativos foram detidos, depois exilados atravs de uma simples medida administrativa. Em novembro de 1927, todos os principais dirigentes de oposio, Trotski, Zinoviev, Kamenev, Radek e Rakovski foram excludos do Partido e depois detidos. Todos os que se recusaram a fazer sua autocrtica pblica foram exilados. Em 19 de janeiro de 1928, o Pravda anunciou a partida de Moscou de Trotski e de um grupo de 30 opositores, exilados em Alma-Ata. Um ano mais tarde, Trotski foi banido da URSS. Com a transformao de um dos principais artfices do terror bolchevique em contra-revolucionrio, uma nova etapa fora atingida, agora sob a responsabilidade do novo homem forte do Partido, Stalin.
	No incio de 1928, justo aps ter eliminado a oposio trotskista, a maioria stalinista do Politburo decidiu romper a trgua para com uma sociedade que parecia distanciar-se cada vez mais dos caminhos para os quais os bolcheviques queriam conduzi-la. O inimigo principal continuava a ser, como dez anos antes, a imensa maioria dos camponeses, pressentida como uma massa hostil, incontrolvel e descontrolada. Assim, comeou o segundo ato da guerra contra a populao camponesa, que, como observou o historiador Andrea Graziosi, era, entretanto, bastante diferente da primeira. A iniciativa estava, a partir de ento, inteiramente nas mos do Estado, e o ator social nada podia fazer seno reagir, cada vez com menos fora, aos ataques recebidos. 15
	Mesmo que, globalmente, a agricultura tenha se reerguido desde a catstrofe dos anos 1918-1922, o inimigo campons era mais fraco e o Estado mais forte no fim dos anos 20 do que no incio da dcada. Isso  demonstrado, por exemplo, pela melhor informao da qual dispunham as autoridades sobre o que se passava nos povoados, pela catalogao dos elementos nocivos  sociedade que permitiu  GPU a conduo das primeiras varreduras durante a deskulakizao, pela erradicao progressiva, mas real, do banditismo, pelo desarmamento dos camponeses, pela progresso constante da percentagem de reservistas presentes nos perodos de convocao militar e pelo desenvolvimento de uma rede escolar mais equipada. Como revelam a correspondncia entre os dirigentes bolcheviques e os estenogramas das discusses nos altos escales do Partido, a direo stalinista - assim como, alis, seus opositores, Bukharin, Rykov e Kamenev- media perfeitamente, em 1928, os riscos de um novo ataque contra a populao camponesa. Teremos uma guerra camponesa, tal como em 1918-1919, preveniu Bukharin. Stalin estava pronto para isso, qualquer que fosse o preo a ser pago. Ele sabia que dessa vez o regime sairia vencedor.
	A crise das coletas do fim de 1927 forneceu a Stalin o pretexto procurado. O ms de novembro de 1927 foi marcado por uma espetacular queda nas entregas de produtos agrcolas aos organismos de coleta do Estado, tomando propores catastrficas em dezembro. Em janeiro de 1928, foi preciso render-se  evidncia: apesar da boa colheita, os camponeses haviam entregue somente 4,8 milhes de toneladas, em lugar dos 6,8 milhes do ano precedente. A baixa nos preos oferecidos pelo Estado, o alto custo e a escassez dos produtos manufaturados, a desorganizao das agncias de coleta, assim como os rumores de guerra, isto , o descontentamento geral da populao camponesa para com o regime, explicavam essa crise, que Stalin apressou-se em qualificar de greve dos kulaks.
	O grupo stalinista tomou todos esses fatos como o pretexto para novamente recorrer s requisies e a toda uma srie de medidas repressivas j experimentadas no tempo do comunismo de guerra. Stalin foi pessoalmente  Sibria. Outros dirigentes, tais como Andreiev, Mikoian, Postychev e Kossior, partiram para as grandes regies produtoras de cereais, a regio das terras negras, a Ucrnia e o Cucaso do Norte. Em 14 de janeiro de 1928, o Polit-buro enviou uma circular s autoridades locais instruindo-as a prenderem os especuladores, os kulaks e outros desorganizadores do mercado e da poltica dos preos. Plenipotencirios - o prprio termo j lembrava o tempo das requisies dos anos 1918-1921 - e os destacamentos militares comunistas foram enviados ao campo com os objetivos de afastar as autoridades locais consideradas complacentes com os kulaks e de descobrir o esconderijo dos excedentes, se necessrio com a ajuda dos camponeses pobres, aos quais foi prometido um quarto de todos os cereais encontrados com os ricos.
	Entre o arsenal de medidas destinadas a penalizar os camponeses recalcitrantes a entregar - nos prazos prescritos e por preos derrisrios, de trs a quatro vezes inferiores aos do mercado - seus produtos agrcolas, figurava a multiplicao, por dois, trs ou cinco, das quantidades inicialmente fixadas. O artigo 107 do Cdigo Penal, que previa penas de trs anos de priso para toda ao que contribusse para o aumento dos preos, foi intensamente utilizado. Enfim, os impostos sobre os kulaks foram multiplicados por dez em dois anos. Outra medida foi o fechamento dos mercados, o que evidentemente no atingiu somente os camponeses abastados. Em poucas semanas, todas essas medidas romperam abruptamente a trgua que, desde 1922-1923, fora estabelecida tanto bem quanto mal entre o regime e a populao camponesa. As requisies e as medidas repressivas apenas provocaram o agravamento da crise; de imediato, as autoridades conseguiram, com o uso da fora, uma clera muito pouco inferior quela de 1927; mas, para o ano seguinte, como no tempo do comunismo de guerra, os camponeses reagiram e diminuram a semeadura.
	A crise das coletas do inverno de 1927-1928 teve um papel crucial na guinada dos eventos que se sucederam; com efeito, Stalin tirou vrias concluses sobre a necessidade de criar fortalezas do socialismo no campo - kol-khozes e sovkhozes gigantes -, de coletivizar a agricultura para poder controlar diretamente a produo agrcola e os produtores sem ter de passar pelas leis do mercado, e de se livrar de uma vez por todas dos kulaks, liquidando-os enquanto classe.
	Em 1928, o regime tambm rompeu com a trgua acordada com uma outra categoria social, os spetzy, esses especialistas burgueses oriundos da intelligentsia do Antigo Regime que, no fim dos anos 20, ainda ocupavam a imensa maioria dos cargos executivos tanto nas empresas quanto nas reparties pblicas. Durante o plenrio do Comit Central de abril de 1928, foi anunciada a descoberta de sabotagem industrial na regio de Chakhty, uma bacia carbonfera de Donbass, no seio do truste Donugol, que empregava especialistas burgueses e mantinha relaes com os meios financeiros ocidentais. Algumas semanas mais tarde, 53 acusados, com a maioria de engenheiros e executivos de empresa, compareceram ao primeiro processo poltico pblico desde o processo dos socialistas-revolucionrios de 1922. Onze dos acusados foram condenados  morte, e cinco foram executados. Esse processo exemplar, relatado pela imprensa durante muito tempo, ilustrava um dos principais mitos do regime, o do sabotador-pago-pelos-estrangeiros, que iria servir para mobilizar militantes e denunciadores da GPU, explicando todas as fraquezas da economia, alm de permitir a requisio de executivos para os novos bureaux especiais de construo da GPU, tornados clebres sob o nome charachki. Milhares de engenheiros e de tcnicos condenados por sabotagem pagaram suas penas em canteiros de obras e em empresas de primeiro plano. Nos meses que se seguiram ao processo de Chakhty, o departamento econmico da GPU fabricou vrias dezenas de processos similares, especialmente na Ucrnia. Apenas no complexo metalrgico de lugostal em Dniepropetrovsk, 112 executivos foram presos no decorrer do ms de maio de 1928.
	Os executivos industriais no foram os nicos visados pela grande operao antiespecialistas lanada em 1928. Vrios estudantes e professores de origem nociva  sociedade foram excludos do ensino superior durante uma das numerosas campanhas de expurgo das universidades e de promoo de uma nova intelligentsia vermelha e proletria.
	O recrudescimento da represso e as dificuldades econmicas dos ltimos anos da NPE, marcados por um desemprego crescente e por um aumento da delinquncia, tiveram como resultado um crescimento espetacular do nmero de condenados penais: 578.000 em 1926; 709.000 em 1927; 909.000 em 1928; e 1.178.000 em 1929. Para conter esse fluxo que entupia as prises que contavam com apenas 150 mil lugares em 1928, o governo adotou duas decises importantes. A primeira, atravs do decreto de 26 de maro de 1928, propunha, para os delitos menores, a substituio da recluso de curta durao por trabalhos corretivos efetuados sem remunerao nas empresas, nos canteiros de obras e nas exploraes florestais. A segunda medida, tomada pelo decreto de 27 de junho de 1929, teria enormes consequncias. Com efeito, ela previa a transferncia de todos os detentos condenados a penas maiores a trs anos para os campos de trabalho que tivessem como objetivo a valorizao das riquezas naturais das regies orientais e setentrionais do pas. Essa idia j pairava no ar h vrios anos. A GPU engajou-se num grande programa de produo de madeira para exportao; em vrias oportunidades, ela j havia solicitado mo-de-obra suplementar  direo principal dos locais de deteno do Comissariado do Povo para o Interior, que era quem administrava as prises comuns; com efeito, seus prprios detentos dos campos especiais de Solovki, que chegavam a 38.000 em 1928, no constituam um nmero suficiente para realizar a produo prevista.
	A preparao do primeiro plano quinquenal trouxe  ordem do dia as questes de distribuio da mo-de-obra e do cultivo das regies inspitas, mas ricas em recursos naturais. Desse ponto de vista, a mo-de-obra penal at ento inutilizada podia tornar-se, com a condio de ser bem explorada, uma verdadeira riqueza, cujo controle e gesto seriam fontes de rendimentos, de influncia e de poder. Os dirigentes da GPU, em particular Menjinski e seu adjunto lagoda, apoiados por Stalin, estavam bem conscientes dos riscos. Eles implementaram, a partir do vero de 1929, um plano ambicioso para a colonizao da regio de Narym, que cobria 350 mil quilmetros quadrados de taiga na Sibria Ocidental, e no cessaram de reclamar a aplicao direta do decreto de 27 de junho de 1929. Foi nesse contexto que nasceu a idia da deskulakizao, ou seja, da deportao em massa de todos os pretensos camponeses abastados, os kulaks, que s podiam, segundo se considerava nos meios oficiais, fazer uma violenta oposio  coletivizao.
	Entretanto, foi necessrio um ano inteiro para que Stalin e seus partidrios vencessem todas as resistncias, mesmo as interiores ao Partido,  poltica da coletivizao forada, da deskulakizao e da industrializao acelerada, trs captulos inseparveis de um programa coerente de uma violenta transformao da economia e da sociedade. Esse programa baseava-se ao mesmo tempo na interrupo dos mecanismos de mercado e na valorizao das riquezas naturais das regies inspitas do pas, graas ao trabalho forado de milhares de proscritos, deskulakizados e outras vtimas dessa segunda revoluo.
	A oposio dita de direita, conduzida principalmente por Rykov e por Bukharin, considerava que a coletivizao s poderia desembocar na explorao militar e feudal da populao camponesa, na guerra civil, na irrupo do terror, no caos e na fome; ela foi interrompida em abril de 1929. No decorrer do vero de 1929, os direitistas foram cotidianamente atacados por uma campanha extremamente violenta na imprensa, que os acusava de colaborao com os elementos capitalistas e de conluio com os trotskistas. Totalmente desacreditados, os opositores fizeram publicamente sua autocrtica no plenrio do Comit Central de novembro de 1929.
	Enquanto os diversos episdios da luta entre os partidrios e os opositores do abandono da NPE se desenrolavam nos altos escales do Partido, o pas afundava numa crise econmica cada vez mais profunda. Os resultados agrcolas de 1928-1929 foram catastrficos. A despeito do recurso sistemtico a um grande arsenal de medidas coercitivas que atingiam o conjunto da populao camponesa - pesadas multas, penas de priso para aqueles que se recusavam a vender a sua produo aos organismos do Estado -, a campanha de coleta do inverno de 1928-1929 obteve bem menos cereais do que a campanha precedente, criando um clima de extrema tenso no campo. A GPU recenseou, de janeiro de 1928 a dezembro de 1929, ou seja, antes da coletivizao forada, mais de 1.300 distrbios e manifestaes de massa no campo, durante os quais dezenas de milhares de camponeses foram detidos. Um outro dado d conta do clima que reinava ento no campo: em 1929, mais de 3.200 funcionrios soviticos foram vtimas de atos terroristas. Em fevereiro de 1929, os cartes de racionamento que haviam desaparecido desde o incio da NPE reapareceram nas cidades onde uma penaria generalizada se instalara desde que as autoridades haviam fechado a maior parte dos pequenos comrcios e tendas de artesos, qualificados como empresas capitalistas.
	Para Stalin, a situao crtica da agricultura devia-se  ao dos kulaks e de outras foras hostis que se preparavam para minar o regime sovitico. A aposta era clara: ou os capitalistas rurais ou os kolkhozes! Em junho de 1929, o governo anunciou o incio de uma nova fase, aquela da coletivizao em massa. Os objetivos do primeiro plano quinquenal, ratificados em abril pela XVI Conferncia do Partido, foram ampliados. O plano previa inicialmente a coletivizao de cinco milhes de moradias, ou seja, cerca de 20% das unidades de produo, at o fim do quinqunio. Em junho, anunciou-se um objetivo de oito milhes de moradias somente para o ano de 1930; em setembro, j era de 13 milhes! Durante o vero de 1929, as autoridades mobilizaram dezenas de milhares de comunistas, de sindicatos, de membros das juventudes comunistas (os komsomols), de operrios e de estudantes, enviados aos povoados, apoiados pelos responsveis locais dos partidos e pelos agentes da GPU. As presses sobre os camponeses amplificavam-se gradativamente, enquanto as organizaes locais do Partido rivalizavam em empenho para bater os recordes de coletivizao. Em 31 de outubro de 1929, o Pravdacon-vocou  coletivizao total, sem nenhum limite para o movimento. Uma semana mais tarde, durante o 12? aniversrio da Revoluo, Stalin publicou seu famoso artigo, A Grande Virada, baseado em uma apreciao fundamentalmente enganosa, segundo a qual o campons mdio virou-se para os kolkhozes. A NPE deixava de viver.
	
	7. Coletivizao forada e deskulakizao
	
	Como confirmam os arquivos hoje acessveis, a coletivizao forada do campo foi uma verdadeira guerra declarada pelo Estado sovitico contra toda uma nao de pequenos produtores. Mais de dois milhes de camponeses deportados, dos quais 1.800.000 apenas em 1930-1931, seis milhes mortos de fome, centenas de milhares mortos durante a deportao: esses nmeros do a medida da tragdia humana que foi o grande assalto contra os camponeses. Longe de limitar-se ao inverno de 1929-1930, essa guerra durou pelo menos at meados dos anos 30, culminando nos anos 1932-1933, marcados por uma fome terrvel, deliberadamente provocada pelas autoridades para quebrar a resistncia dos camponeses. A violncia exercida contra os camponeses permitiu experimentar mtodos posteriormente aplicados a outros grupos sociais. Nesse sentido, ela constitui uma etapa decisiva no desenvolvimento do Terror stalinista.
	Em seu relatrio de novembro de 1929 ao Plenrio do Comit Central, Viatcheslav Molotov declarara: A questo do ritmo da coletivizao no se coloca no contexto do plano. [...] Faltam novembro, dezembro, janeiro, fevereiro e maro: quatro meses e meio durante os quais, se os Imperialistas no nos atacarem diretamente, devemos efetuar um avano decisivo no domnio da economia e da coletivizao. As decises do plenrio apoiaram esse passo adiante. Uma comisso elaborou um novo calendrio de coletivizao, que foi promulgado em 5 de janeiro de 1930, aps vrias ampliaes em seus objeti-vos. De acordo com esse calendrio, o Cucaso do Norte, o Baixo e Mdio Volga deveriam ser totalmente coletivizados a partir do outono de 1930; as outras regies produtoras de cereais, um ano mais tarde.
	Em 27 de dezembro de 1929, Stalin j havia anunciado a passagem da limitao das tendncias produtoras dos kulaks  liquidao dos kulaks enquanto classe. Uma comisso do Politburo, presidida por Molotov, foi encarregada de definir as medidas prticas dessa liquidao. Ela definiu trs categorias de kulaks: os primeiros, engajados nas atividades contra-revolucio-nrias, deveriam ser presos e transferidos para os campos de trabalho da GPU ou executados em caso de resistncia, suas famlias deportadas e seus bens confiscados. Os kulaks de segunda categoria, definidos como manifestando uma oposio menos ativa, embora arqui-exploradores e, por causa disso, naturalmente inclinados a ajudar a contra-revoluo, deveriam ser presos e deportados, com suas famlias, para regies retiradas do pas. Enfim, os kulaks de terceira categoria, qualificados de leais ao regime, seriam instalados por decreto nas margens dos distritos em que residiam, fora das zonas coletiviza-das, em terras que necessitem de melhorias. O decreto especificava que a quantidade de unidades produtoras kulaks a serem liquidadas num prazo de quatro meses [...] se situa numa margem de 3% a 5% do nmero total de unidades produtoras, nmero indicativo devendo guiar as operaes de deskulakizao.
	Coordenadas em cada distrito por uma troika - composta pelo primeiro secretrio do Comit do Partido, pelo presidente do Comit Executivo dos Sovietes e pelo responsvel local da GPU -, as operaes foram conduzidas in loco por comisses e brigadas de deskulakizao. A lista dos kulaks de primeira categoria, que compreendia 60 mil chefes de famlia segundo o plano indicativo fixado pelo Politburo, era de responsabilidade exclusiva da polcia poltica. Quanto s listas dos kulaks de outras categorias, elas eram preparadas no local da ao, levando-se em conta as recomendaes dos ativistas do povoado. Quem eram esses ativistas? Um dos mais prximos colaboradores de Stalin, Sergo Ordjonikidze, os descreve assim: Como no h nenhum militante do Partido no povoado, colocou-se geralmente no local um jovem comunista, junto com dois ou trs camponeses pobres, sendo esse activ (grupo de ativistas) encarregado de resolver pessoalmente todos os negcios do povoado: coletivizao, deskulakizao. As instrues eram claras: coletivizar o maior nmero possvel de unidades produtoras e prender os recalcitrantes etiquetados como kulaks.
	Tais prticas naturalmente abriam caminho para todos os abusos e ajustes de contas. Como definir o kulak? O kulak de segunda categoria ou o de terceira categoria? Em janeiro-fevereiro de 1930, no se podiam nem mesmo utilizar os critrios de definio da produo kulak, pacientemente elaborados por vrios idelogos e economistas do Partido, aps inmeras discusses, nos anos precedentes. Com efeito, no decorrer do ltimo ano, os kulaks haviam empobrecido consideravelmente, arcando com os impostos cada vez mais pesados que os atingiam. Na ausncia de sinais exteriores de riqueza, as comisses deviam recorrer s listas fiscais conservadas pelo soviete rural, frequentemente antigas e incompletas, s informaes da GPU e s denncias dos vizinhos, atrados pela possibilidade de pilhar os bens alheios. Com efeito, ao invs de proceder a um inventrio preciso e detalhado dos bens e de transferi-los ao fundo inalienvel do kolkhoz, segundo as instrues oficiais, as brigadas de deskulakizaco agiam segundo a palavra de ordem Comamos e bebamos, tudo  nosso. Como observava um relatrio da GPU, vindo da provncia de Smolensk, os deskulakizadores retiravam as roupas de inverno e as roupas de baixo para frio dos camponeses abastados, apoderando-se em primeiro lugar dos sapatos. Eles deixavam os kulaks de ceroulas e lhes pegavam tudo, incluindo os velhos sapatos de borracha, as roupas de mulheres, o ch de 50 copeques, seus atiadores de fogo, seus cntaros... As brigadas confiscavam at mesmo os pequenos travesseiros que eram colocados sob a cabea das crianas, assim como a kacha que cozinhava no forno e que eles espalhavam sobre as imagens sagradas, aps t-las quebrado. As propriedades dos camponeses deskulakizados foram com freqncia simplesmente saqueadas ou vendidas em leiles por preos derrisrios; as isbas foram compradas por 60 copeques, as vacas por 15 copeques - ou seja, por preos centenas de vezes inferiores ao seu valor real - pelos membros das brigadas de deskulakizaco! Possibilidade ilimitada de pilhagem, a deskulakizaco tambm servia frequentemente como pretexto para ajustes de contas pessoais.
	Nessas condies, no  surpreendente que, em certos distritos, entre 80% e 90% dos camponeses deskulakizados tenham sido seredniaki, camponeses mdios. Tinha-se que atingir, e se possvel ultrapassar, o nmero indicativo de kulaks apresentados pelas autoridades locais! Camponeses eram presos e deportados, alguns por terem vendido gros ao mercado durante o vero, outros por possurem dois samovares, outros ainda por terem matado um porco em setembro de 1929 com o objetivo de consumi-lo e de subtra-lo, desse modo,  apropriao socialista. Enquanto um campons era preso sob pretexto de ter-se entregue ao comrcio, apesar de ele ser apenas um campons pobre vendendo os produtos de sua fabricao, outro era deportado com o pretexto de que seu tio havia sido oficial czarista, e outro ainda era etiquetado como kulak por ser assduo frequentador da igreja. Mas, na maioria das vezes, era-se catalogado como kulak pelo simples fato de ter feito franca oposio  coletivizao. Reinava uma tal confuso nas brigadas de des-kulakizao, que, s vezes, atingia-se o cmulo do absurdo. Assim, num burgo da Ucrnia, para citar apenas um exemplo, um seredniaki, membro de uma brigada de deskulakizao, foi preso como kulakipor representantes de outra brigada de deskulakizao, sediada na outra extremidade do burgo!
	Entretanto, aps uma primeira fase, que serviu a alguns apenas como pretexto para acertar velhas contas, ou simplesmente para entregar-se  pilhagem, a comunidade do povoado no tardou a se reunir contra os deskulaki-zadores e contra os coletivizadores. Em janeiro de 1930, a GPU recenseou 402 revoltas e manifestaes de massa camponesas contra a coletivizao e a deskulakizao, 1.048 em fevereiro e 6.528 em maro.
	Essa resistncia em massa e no esperada dos camponeses obrigou o poder a modificar momentaneamente seus planos. Em 2 de maro de 1930, todos os jornais soviticos publicaram o famoso artigo de Stalin, A vertigem do sucesso, no qual ele condenava as inmeras distores do princpio do voluntariado na adeso dos camponeses aos kolkhozes, imputando os excessos da coletivizao e da deskulakizao aos responsveis locais embriagados de sucesso. O impacto do artigo foi imediato; somente no ms de maro, mais de cinco milhes de camponeses deixaram os kolkhozes. Os tumultos e desordens ligados  reapropriao, frequentemente violenta, das ferramentas e do rebanho por seus proprietrios no cessaram, apesar disso. Durante o ms de maro, as autoridades centrais receberam cotidianamente relatrios da GPU dando conta das sublevaes em massa na Ucrnia Ocidental, na regio central das terras negras, no Cucaso do Norte e no Cazaquisto. No total, a GPU contabilizou, durante esse ms crtico, mais de 6.500 manifestaes de massa, das quais mais de 800 tiveram de ser esmagadas pela fora armada. Durante esses eventos, mais de 1.500 funcionrios pblicos foram mortos, feridos ou espancados. O nmero de vtimas entre os insurgidos no  conhecido, mas deve se contar por milhares.
	No incio do ms de abril, o poder foi obrigado a fazer novas concesses. Ele enviou s autoridades locais diversas circulares pedindo por um ritmo mais lento de coletivizao, reconhecendo que existia um perigo real de uma verdadeira onda de guerras camponesas e de um aniquilamento fsico da metade dos funcionrios locais do poder sovitico. Em abril, o nmero de revoltas e manifestaes camponesas diminuiu, permanecendo ainda imponente, com 1.992 casos registrados pela GPU. A diminuio acelerou-se a partir do vero: 886 revoltas em junho, 618 em julho, 256 em agosto. Ao todo, durante o ano de 1930, cerca de 2,5 milhes de camponeses participaram de cerca de 14.000 revoltas, rebelies e manifestaes de massa contra o regime. As regies mais atingidas foram a Ucrnia - em particular a Ucrnia Ocidental, onde distritos inteiros, principalmente nas fronteiras com a Polnia e com a Romnia, escaparam ao controle do regime -, a regio das terras negras e o Cucaso do Norte.?
	Uma das particularidades desses movimentos era o papel desempenhado pelas mulheres enviadas  linha de frente, na esperana de que elas no fossem submetidas a represses muito severas. Mas, se as manifestaes de camponesas protestando contra o fechamento da igreja ou a coletivizao forada das vacas leiteiras - o que ameaava a sobrevivncia de seus filhos - atingiram particularmente as autoridades, tambm houve enfrentamentos sangrentos entre os destacamentos da GPU e grupos de camponeses armados de forcados e machados. Centenas de sovietes foram saqueados, enquanto os Comits camponeses tomavam a frente dos negcios do povoado por algumas horas ou alguns dias, formulando uma lista de reivindicaes, entre as quais figuravam, sem nenhuma ordem, a restituio das ferramentas e do rebanho confiscados, a dissoluo do kolkhoze, a restaurao da liberdade do comrcio, a reabertura da igreja, a restituio de seus bens aos kulaks, a volta dos camponeses deportados, a abolio do poder bolchevique ou... o restabelecimento da Ucrnia independente.
	Se os camponeses chegaram a perturbar os planos governamentais de coletivizao acelerada, principalmente em maro e em abril, seus sucessos duraram pouco. Diferentemente do que se passara em 1920-1921, eles no conseguiram fazer funcionar uma verdadeira organizao, encontrar lderes e federar-se, ainda que fosse no nvel regional. Na falta de tempo diante de um regime que reage rapidamente, na falta de oficiais, dizimados durante a guerra civil, na falta de armas, progressivamente confinadas no decorrer dos anos 20, as revoltas camponesas falharam em seus objetivos.
	A represso foi terrvel. Apenas nos distritos fronteirios da Ucrnia Ocidental, a limpeza dos elementos contra-revolucionrios levou  priso, no fim de maro de 1930, mais de 15.000 pessoas. A GPU da Ucrnia prendeu ainda, no intervalo de 40 dias, de l de fevereiro a 15 de maro, outras 26.000 pessoas, das quais 650 foram fuziladas. Segundo dados da GPU, 20.200 pessoas foram condenadas  morte em 1930, apenas pelas jurisdies de exceo da polcia poltica.
	Enquanto a represso dos elementos contra-revolucionrios era mantida, a GPU aplicava a diretriz n 44/21 de G. lagoda sobre a priso dos 60 mil kulaks de primeira categoria.  operao foi conduzida com sucesso, a julgar pelos relatrios cotidianos enviados a lagoda: o primeiro deles, datado de 6 de fevereiro, d conta de 15.985 indivduos presos; em 9 de fevereiro, 25.245 pessoas foram, segundo os prprios termos da GPU, retiradas de circulao. O relatrio secreto (spetzsvodka), datado de 15 de fevereiro, especificava: Em execues, em indivduos retirados de circulao e em operaes de massa, atingimos um total de 64.589, dos quais 52.166 retirados durante as operaes preparatrias (primeira categoria); 12.423 retirados durante operaes de massa. Em alguns dias, o plano de 60 mil kulaks de primeira categoria fora ultrapassado.
	Na realidade, os kulaks representavam apenas uma parte das pessoas retiradas de circulao. Os agentes locais da GPU aproveitaram-se da ocasio para limpar seus distritos dos elementos nocivos  sociedade, entre os quais figuravam policiais do Antigo Regime, oficiais brancos, servidores do culto, novias, artesos rurais, antigos comerciantes, membros da intelligentsia rural e outros. Embaixo do relatrio de 15 de fevereiro de 1930, que detalhava as diversas categorias de indivduos presos no contexto da liquidao dos kulaks de primeira classe, lagoda escreveu: As regies Nordeste e Leningrado no cumpriram nossas instrues ou ento no querem compreend-las; devemos obrig-las a compreender. No estamos limpando os territrios dos popes, comerciantes e outros. Se eles dizem 'outros', isso quer dizer que eles no sabem quem eles prendem. Teremos todo o tempo para nos livrarmos dos popes e dos comerciantes, devemos hoje atingir precisamente o alvo: os kulaks e os kulaks contra-revolucionrios. Quantos indivduos presos durante a operao de liquidao dos kulaks de primeira categoria foram executados? At hoje, nenhum dado encontra-se disponvel.
	Os kulaks de primeira categoria constituram, sem dvida, uma parte notvel dos primeiros contingentes de detidos transferidos para os campos de trabalho. No vero de 1930, a GPU j havia implantado uma vasta rede desses campos. O conjunto penitencirio mais antigo, o das ilhas Solovki, continuou sua propagao sobre o litoral do Mar Branco, da Carlia  regio de Arkhangelsk. Mais de 40 mil detidos construam a estrada Kem-Ukhta e asseguravam a maior parte da produo de madeiras exportadas pelo porto de Arkhangelsk. O grupo dos campos do Norte, contando-se em mdia 40 mil detidos, trabalhava na construo de uma via frrea de 300 quilmetros, entre Ust, Sysolsk e Piniug, e de uma estrada de 290 quilmetros, entre Ust, Sysolsk e Ukhta. No grupo dos campos do extremo oriente, os 15 mil detidos constituam a mo-de-obra exclusiva do canteiro de obras da linha ferroviria de Bogutchatchinsk. Um quarto conjunto, chamado conjunto da Vitchera e que contava com 20 mil detidos em mdia, fornecia a mo-de-obra do canteiro do grande complexo qumico de Berezniki, no Ural. Enfim, o grupo dos campos da Sibria, ou seja, cerca de 24 mil detidos, contribua na construo da linha ferroviria Tomsk-Ienisseisk e do complexo metalrgico de Kuznetsk.
	Em um ano e meio, do fim de 1928 ao vero de 1930, a mo-de-obra penal explorada nos campos da GPU fora multiplicada por 3,5, passando de 40 mil a cerca de 140 mil detidos. Os sucessos da explorao dessa fora de trabalho encorajaram o poder a empreender novos grandes projetos. Em junho de 1930, o governo decidiu construir um canal de 240 quilmetros de comprimento, cavado na maior parte numa rocha grantica, que ligaria o Mar Bltico ao Mar Branco. Na falta de meios tcnicos e de mquinas, esse proje-to faranico necessitava de uma mo-de-obra de pelo menos 120 mil detidos, usando como nicos instrumentos de trabalho enxadas, ps e carrinhos de mo. Mas, no vero de 1930, com a deskulakizao atingindo seu auge, a mo-de-obra penal poderia ser tudo, menos um produto deficitrio!
	Na realidade, a massa de deskulakizados era tal - mais de 700.000 pessoas no fim de 1930; mais de 1.800.000 no fim de 1931 - que as estruturas de enquadramento no conseguiam acompanhar. Era de improviso e na mais completa anarquia que se desenvolviam as operaes de deportao da imensa maioria dos kulaks, ditos de segunda ou de terceira categoria. Elas levaram a uma forma sem precedentes de deportao-abandono, a uma rentabilidade econmica nula para as autoridades, ainda que um dos objetivos principais da deskulakizao fosse a valorizao, pelos deportados, das regies inspitas do pas, ricas no entanto em recursos naturais.
	As deportaes dos kulaks de segunda categoria comearam desde a primeira semana de fevereiro de 1930. Segundo o plano aprovado pelo Politburo, 60.000 famlias deveriam ser deportadas durante uma primeira fase que deveria estar terminada no fim de abril. A regio Norte deveria acolher 45.000 famlias; o Ural, 15.000. Entretanto, desde 16 de fevereiro, Stalin telegrafou a Eikhe, primeiro secretrio do Comit Regional do partido da Sibria Ocidental:  inadmissvel que a Sibria e o Cazaquisto pretendam no estar prontos para receber os deportados. A Sibria deve receber imperativamente 15.000 famlias, daqui at o fim de abril. Em resposta, Eikhe enviou a Moscou um oramento estimativo dos custos para a instalao do contingente planificado de deportados, chegando a 40 milhes de rublos, soma que ele no recebeu jamais!16
	As operaes de deportao tambm foram marcadas por uma ausncia completa de coordenao entre os diferentes elos da cadeia. Os camponeses presos foram amainados durante semanas em locais improvisados - casernas, prdios administrativos, estaes - de onde um grande nmero deles conseguiu escapar. A GPU havia previsto, para a primeira fase, 240 comboios de 53 vages. Segundo as normas definidas pela GPU, cada comboio era composto por 40 vages de transporte de animais, cada vago devendo levar 40 deportados, e por oito vages para o transporte de ferramentas, vveres e de alguns bens pertencentes aos deportados, dentro do limite de 480 quilos por famlia, alm de um vago de transportes de guardas. Como testemunha a correspondncia cida entre a GPU e o Comissariado do Povo para os Transportes, os comboios chegavam em conta-gotas. Nos grandes centros de triagem, em Vologda, Kotlas, Rostov, Sverdlovsk e Omsk, eles permaneciam imobilizados durante semanas com seu carregamento humano. O estacionamento prolongado desses comboios de reprovados, onde mulheres, crianas e idosos eram numerosos, geralmente no passava despercebido pela populao local, como o atestam as numerosas cartas coletivas enviadas a Moscou, assinadas pelo conjunto dos trabalhadores e empregados de Vologda ou pelos ferrovirios de Kotlas, denunciando o massacre dos inocentes.
	Nesses comboios imobilizados em pleno inverno em alguma via de garagem,  espera de um lugar de afetao onde os deportados pudessem ser instalados, o frio, a falta de higiene e as epidemias provocavam, de acordo com a particularidade de cada comboio, uma mortalidade sobre a qual dispomos de poucos dados numricos para os anos de 1930-1931.
	Uma vez levados em comboios ferrovirios at uma estaco, os homens em boas condies de sade eram frequentemente separados de suas famlias - instaladas provisoriamente em acampamentos edificados s pressas - e enviados sob escolta para as unidades de colonizao situadas, como previam as instrues oficiais, afastadas das vias de comunicao. Ento, o interminvel priplo continuava ainda por centenas de quilmetros, com ou sem famlia, seja durante o inverno em comboios de trens, ou durante o vero, em carroas ou a p. De um ponto de vista prtico, essa ltima etapa do priplo dos kulaks de segunda categoria se aparentava frequentemente  deportao dos kulaks de terceira categoria deslocados para terras necessitando de uma bonificao no interior de suas regies - regies que cobriam, na Sibria ou no Ural, vrias centenas de milhares de quilmetros quadrados. Como o relatavam, em 7 de maro de 1930, as autoridades do distrito de Tomsk, na Sibria Ocidental, os primeiros comboios de kulaks de terceira categoria chegaram a p, na ausncia de cavalos, de trens, de selas. [...] Em geral, os cavalos destinados aos comboios so absolutamente inaptos para deslocamentos de mais de 300 quilmetros, pois, no momento da formao dos comboios, todos os bons cavalos pertencentes aos deportados foram substitudos por pangars. Tendo em vista a situao, no se considera a possibilidade de transportar os pertences e os vveres para dois meses aos quais os kulaks tm direito. Alm disso, o que fazer das crianas e dos velhos, que representam mais de 50% do contingente? 
	Em um outro relatrio de mesma natureza, o Comit Executivo Central da Sibria Ocidental demonstrava a impossibilidade de executar as instrues da GPU concernentes  deportao de 4.902 kulaks de terceira categoria de dois distritos da provncia de Novossibirsk, por seu carter absurdo. O transporte de 8.560 toneladas de cereais e de feno aos quais os deportados teoricamente tinham direito 'para sua viagem e instalao', atravs de 370 quilmetros de estradas execrveis, acarretavam a mobilizao de 28.909 cavalos e 7.227 supervisores (um supervisor para cada quatro cavalos). O relatrio conclua que a realizao de uma tal operao comprometia a campanha de plantio da primavera, uma vez que os cavalos, exaustos, necessitariam de um longo perodo de repouso. [...] Torna-se assim indispensvel diminuir as provises que os deportados esto autorizados a levar.^
	Era assim sem provises e ferramentas, na maioria das vezes sem abrigo, que os deportados deviam se instalar; um relatrio proveniente da regio de Arkhangelsk reconhecia, em setembro de 1930, que, das 1.641 habitaes programadas para os deportados, apenas sete tinham sido construdas! Os deportados se instalavam em qualquer pedao de terra, no meio da estepe ou da taiga. Os mais sortudos, que tiveram a possibilidade de levar algumas ferramentas, podiam tentar confeccionar para si um abrigo rudimentar, na maioria das vezes a tradicional zemlianka, um simples buraco na terra coberto de galhos. Em certos casos, uma vez que os milhares de deportados eram obrigados a residir perto de um grande canteiro de obras ou de uma unidade industrial em construo, eles eram alojados em acampamentos sumrios, em leitos de trs andares, com centenas por barraca.
	Das 1.803.392 pessoas oficialmente deportadas a ttulo da deskulaki-zao em 1930-1931, quantas pereceram de frio e de fome durante os primeiros meses de sua nova vida? Os arquivos de Novossibirsk conservaram um documento impressionante, o relatrio enviado a Stalin em maio de 1933 por um instrutor do Comit do partido de Narym na Sibria Ocidental, sobre a sorte reservada a dois comboios, compreendendo mais de seis mil pessoas, vindos de Moscou e de So Petersburgo. Embora tardio e dizendo respeito a um outro tipo de deportados - no os camponeses mas elementos desclassificados expulsos da nova cidade socialista, a partir do fim de 1932 -, esse documento ilustra uma situao que, sem dvida, no era excepcional e que se poderia qualificar como deportao-abandono.
	Eis alguns exemplos desse terrvel testemunho:
	Dias 29 e 30 de abril, dois comboios de elementos desclassificados nos foram enviados por trem, de Moscou e de Leningrado. Uma vez em Tomsk, esses elementos foram postos em balsas e desembarcados, nos dias 18 e 26 de maio, na ilha de Nazino, situada na confluncia dos rios Ob e Nazina. O primeiro comboio comportava 5.070 pessoas, o segundo 1.044, ou seja, ao todo 6.114 pessoas. As condies de transporte eram assustadoras: comida insuficiente e execrvel; falta de ar e de espao; vexames sofridos pelos mais fracos. [...] Resultado: uma mortalidade de 35-40 pessoas por dia. Contudo, essas condies de existncia revelaram-se um verdadeiro luxo, comparadas ao que esperava os deportados na ilha de Nazino (de onde eles deveriam ser expedidos, em grupos, at seu destino final, para setores de colonizao situados mais acima do rio Nazina). A ilha de Nazino  um lugar totalmente virgem, sem a mnima habitao [...] Nenhuma ferramenta, semente ou alimento... A nova vida comeou. No dia seguinte  chegada do primeiro comboio, 19 de maio, comeou a nevar, o vento a soprar. Famintos, emagrecidos, sem teto, sem ferramentas [...] os deportados encontraram-se em uma situao sem sada. Eles eram capazes apenas de acender fogos, para tentar escapar do frio. As pessoas comearam a morrer. [...] No primeiro dia, 295 cadveres foram enterrados. [...] Somente no quarto ou quinto dia aps a chegada dos deportados  ilha, as autoridades enviaram, por barco, um pouco de farinha,  razo de algumas poucas centenas de gramas por pessoa. Tendo recebido sua magra rao, as pessoas corriam at a margem e tentavam dissolver um pouco dessa farinha com gua, em seu chapka, em sua cala ou palet. Mas a maior parte dos deportados tentava engolir a farinha tal qual e, com freqncia, morriam sufocados. Durante toda a sua estada na ilha, os deportados receberam no total apenas um pouco de farinha. Os mais habilidosos tentaram cozinh-la, mas no havia sequer um recipiente. [...] Logo apareceram casos de canibalismo. [...]
	No fim do ms de junho, comeou o envio dos deportados para os assim chamados povoados de colonizao. Esses lugares situavam-se em mdia a 200 quilmetros da ilha, subindo o rio Nazina, em plena taiga. Em matria de povoado, era a natureza virgem. Conseguiu-se contudo instalar um forno primitivo, o que permitiu fabricar uma espcie de po. Mas, quanto ao resto, havia pouca mudana em relao  vida na ilha de Nazino: mesma ociosidade, mesmo desnimo, mesmo desfecho. A nica diferena era uma espcie de po, distribudo uma vez a cada tantos dias. A mortalidade continuava. Um nico exemplo. Das 78 pessoas embarcadas para a ilha, em direo ao quinto setor de colonizao, 12 chegaram com vida. Em breve, as autoridades reconheceram que esses locais no eram colonizveis, e todo o contingente sobrevivente foi mandado de volta, de barco, rio abaixo. As evases multiplicaram-se. [...] Nos novos locais de instalao, os deportados sobreviventes, aos quais se haviam dado enfim algumas ferramentas, se puseram a construir, a partir da segunda quinzena de julho, abrigos enterrados pela metade no solo. [...] Houve ainda alguns casos de canibalismo. [...] Mas a vida progressivamente retomava seus rumos: as pessoas recomearam a trabalhar, mas seus organismos estavam to fracos, que, mesmo quando elas recebiam 750-1.000 gramas de po por dia, elas continuavam a cair doentes, a passar fome, a comer grama, pasto, folhas, etc. O resultado de tudo isso: em 20 de agosto, dos 6.100 deportados que partiram de Tomsk (aos quais se devem somar 500-700 pessoas enviadas  regio, vindas de outros lugares), apenas cerca de 2.200 pessoas permaneceram vivas. 
	Quantos Nazinos h, quantos casos similares de deportao-abandono? Alguns nmeros do a medida das perdas. Entre fevereiro de 1930 e dezembro de 1931, um pouco mais de 1.800.000 deskulakizados foram deportados. Ora, em l de janeiro de 1932, quando as autoridades fizeram uma primeira contagem geral, apenas 1.317.022 pessoas foram recenseadas. As perdas atingiram meio milho, ou seja, 30% dos deportados. Certamente, o nmero daqueles que haviam conseguido fugir era, sem dvida, elevado. Em 1932, a evoluo dos contingentes foi pela primeira vez objeto de um estudo sistemtico por parte da GPU; esta ltima era, desde o vero de 1931, a nica responsvel pelos deportados, doravante etiquetados como colonos especiais, em todas as pontas da cadeia, desde a deportao at a gesto dos povoados de colonizao. De acordo com esse estudo, houve mais de 210.000 evadidos e cerca de 90.000 mortos. Em 1933, ano da grande fome, as autoridades recensearam 151.601 mortes sobre 1.142.022 colonos especiais contabilizados em l de janeiro de 1933. A taxa de mortalidade anual era de 6,8% em mdia em 1932, de 13,3% em 1933. Para os anos 1930-1931, dispomos somente de dados parciais, mas eles so eloquentes: em 1931, a mortalidade era de 1,3% entre os deportados do Cazaquisto, de 0,8% por ms entre os da Sibria Ocidental. Quanto  mortalidade infantil, ela oscilava entre 8 e 12%... por ms, com picos de 15% por ms em Magnitogorsk. De l de junho de 1931 a l de junho de 1932, a mortalidade entre os deportados da regio de Narym, na Sibria Ocidental, atingiu 11,7% ao ano. Globalmente,  pouco provvel que em 1930-1931 a taxa de mortalidade tenha sido inferior s taxas de 1932: ela sem dvida chegou prximo ou mesmo ultrapassou os 10% ao ano. Assim, em trs anos, podemos estimar que cerca de 300.000 deportados morreram na deportao.
	Para as autoridades centrais, preocupadas em rentabilizar o trabalho daqueles que elas designavam com o termo de deslocados especiais, ou colonos de trabalho, a partir de 1932, a deportao-abandono era apenas um mal inevitvel imputvel, como escrevia N. Puzitski - um dos dirigentes da GPU encarregado dos colonos de trabalho -,  negligncia criminal e  miopia poltica dos responsveis locais que no assimilaram a idia de colonizao pelos ex-kulaks.
	Em maro de 1931, para pr fim ao insuportvel desperdcio de mo-de-obra deportada, foi instalada uma comisso especial, diretamente ligada ao Politburo, presidida por V. Andreiev, e na qual lagoda desempenhava um papel-chave. O objetivo principal dessa comisso era uma gesto racional e eficaz dos colonos de trabalho. As primeiras pesquisas feitas pela comisso haviam, de fato, revelado a produtividade quase nula da mo-de-obra deportada. Assim, dos 300 mil colonos de trabalho instalados no Ural, apenas 8% eram, em abril de 1931, destinados aos cortes de madeira e outros trabalhos produtivos; o resto dos adultos em boas condies de sade construam alojamentos por si mesmos e se viravam para sobreviver. Um outro documento reconhecia que o conjunto de operaes de deskulakizao havia sido deficitrio para o Estado: o valor mdio dos bens confiscados aos kulaks em 1930 elevava-se a 564 rublos por unidade produtiva, soma derrisria (equivalente a uma quinzena do ms de salrio operrio), que era eloquente sobre a pretensa abastana do kulak. Quanto s despesas engajadas para a deportao dos kulaks, elas elevavam-se a mais de 1.000 rublos por famlia.
	Para a comisso Andreiev, a racionalizao da gesto dos colonos de trabalho passava primeiro por uma reorganizao administrativa das estruturas responsveis pelos deportados. Durante o vero de 1931, a GPU recebeu o monoplio da gesto administrativa dos povoamentos especiais que dependiam at ento das autoridades locais. Toda uma rede de komandatures foi implantada, verdadeira administrao paralela que permitia  GPU beneficiar-se de uma espcie de exterritorialidade e controlar inteiramente imensos territrios, nos quais os colonos constituam, doravante, o essencial da populao local. Estes ltimos estavam submetidos a um regulamento interno muito estrito. Reclusos em suas residncias, eles eram destinados pela administrao, seja a uma empresa do Estado, seja a uma cooperativa agrcola ou arte-sanal com estatuto especial, dirigida pelo comando local da GPU, seja ainda a trabalhos de construo e de manuteno das estradas ou de desmatamento. Obviamente, jornadas e salrios tambm recebiam um tratamento especial: em mdia, as jornadas eram de 30% a 50% superiores s dos trabalhadores livres; quanto aos salrios, quando eles eram pagos, eles sorriam uma reteno de 15% a 25%, diretamente destinada  administrao da GPU.
	Na realidade, como testemunham os documentos da comisso Andreiev, a GPU se felicitava por ter um custo de assentamento dos colonos de trabalho nove vezes inferior quele dos detidos nos campos; assim, em junho de 1933, os 203.000 colonos especiais da Sibria Ocidental, divididos em 83 komandatures, eram supervisionados por apenas 971 pessoas. A GPU tinha por objetivo fornecer, contra o depsito de uma comisso - composta por uma porcentagem sobre os salrios e por uma quantia por contrato de empreitada -, a sua mo-de-obra a um certo nmero de grandes combinados, encarregados da explorao dos recursos naturais das regies setentrionais e orientais do pas, como Urallesprom (explorao de floresta), Uralugol, Vostugol (carvo), Vostokstal (siderrgicas), Tsvetmetzoloto (minerais no ferrosos), Kuznetzstroi (metalurgia), etc. Em princpio, a empresa encarregava-se de garantir a infra-estrutura de hospedagem, de escolarizao e de abastecimento dos deportados. Na realidade, como os prprios funcionrios da GPU reconheciam, as empresas tinham tendncia a considerar essa mo-de-obra de estatuto ambguo, meio-livre, meio-detida, como um recurso grtis. Os colonos de trabalho frequentemente no recebiam nenhum salrio, uma vez que as somas que eles ganhavam eram em geral inferiores s retidas pela administrao, para a construo de acampamentos, ferramentas, as cotiza-es obrigatrias em favor dos sindicatos, do emprstimo do Estado, etc.
	Inscritos na ltima categoria do racionamento, verdadeiros prias, eles eram submetidos permanentemente  escassez e  fome, mas tambm a todos os tipos de vexames e de abusos. Entre os abusos mais escandalosos destacados nos relatrios da administrao: instaurao de normas irrealizveis, salrios no pagos, deportados espancados ou trancados em pleno inverno em crceres improvisados sem a mnima calefao, deportadas trocadas pelos comandantes da GPU contra mercadorias ou enviadas gratuitamente como empregadas para todo servio s casas dos pequenos chefes locais. Essa observao de um diretor de empresa de explorao de florestas do Ural, que empregava colonos de trabalho, citada e criticada num relatrio da GPU de 1933, resumia bem o estado de esprito de inmeros dirigentes em relao a uma mo-de-obra penalizvel: Ns poderamos liquid-los todos, e de todo modo a GPU nos enviar, em seu lugar, uma nova fornada de cem mil como vocs!
	Pouco a pouco, a utilizao dos colonos de trabalho tornou-se, do ponto de vista estrito da produtividade, mais racional. Desde 1932, assistiu-se a um abandono progressivo das zonas de povoamento ou de  colonizao mais inspitas, em favor dos grandes canteiros de obras, dos plos de minerais e industriais. Em certos setores, a parte da mo-de-obra deportada, que trabalhava nas mesmas empresas e nos mesmos canteiros de obra que os trabalhadores livres e vivia nos acampamentos contguos, era mais importante, seno predominante. Nas minas do Kuzbass, no fim de 1933, mais de 41.000 colonos de trabalho representavam 47% do conjunto dos mineiros. Em Magnitogorsk, os 42.462 deportados, recenseados em setembro de 1932, constituam dois teros da populao local. Obrigados a residirem em quatro zonas de povoamento especiais, a uma distncia de dois a seis quilmetros da unidade principal de construo, eles trabalhavam nas mesmas equipes dos trabalhadores livres, situao que tinha tendncia a confundir em parte as fronteiras entre os estatutos diferentes de uns e de outros. Pela fora das coisas, ou, dito de outro modo, pelos imperativos econmicos, os deskulakizados de ontem, tornados colonos de trabalho, reintegravam uma sociedade marcada por uma penalizao geral das relaes sociais e na qual ningum sabia quem seriam os prximos excludos.
	
	8. A grande fome
	
	A grande fome de 1932-1933 - que representou, segundo fontes hoje incontestveis, mais de seis milhes de vtimas! - fez parte, durante muito tempo, das lacunas do regime sovitico. Entretanto, essa catstrofe no foi uma fome como as outras, as que se sucediam, com intervalos regulares, na Rssia czarista. Ela foi uma consequncia direta do novo sistema de explorao feu-dal-militar do campesinato - de acordo com a expresso do dirigente bolchevique antistalinista Nikolai Bukharin -, instaurada durante a coletivizao forcada, e uma ilustrao trgica do impressionante retrocesso social que acompanhou o assalto perpetrado pelo poder sovitico ao campo no fim dos anos 20.
	Ao contrrio da fome de 1921-1922, reconhecida pelas autoridades soviticas que apelaram constantemente  ajuda internacional, a de 1932-1933 sempre foi negada pelo regime que encobriu com sua propaganda as poucas vozes que, do exterior do pas, chamavam a ateno para essa tragdia. Para tanto, ele recebeu a ajuda de testemunhos solicitados, como o do deputado francs e lder do Partido Radical, douard Herriot, que, viajando pela Ucrnia no vero de 1933, alardeava que havia apenas hortas nos kolkhozes admiravelmente irrigados e cultivados e colheitas decididamente admirveis, antes de concluir, peremptrio: Atravessei a Ucrnia. Pois bem!, afirmo-lhes que a vi tal qual um jardim em plena florao. Essa cegueira era, inicialmente, o resultado de uma fantstica farsa montada pela GPU para os hspedes estrangeiros cujo itinerrio era marcado por kolkhozes e jardins de infncia modelo. Essa cegueira era, evidentemente, corroborada por consideraes polticas, especialmente da parte dos dirigentes franceses ento no poder, que tinham o cuidado de no interromper a aproximao esboada com a Unio Sovitica em face de uma Alemanha cada dia mais ameaadora como consequncia da recente chegada ao poder de Adolf Hitler.
	Entretanto, um bom nmero de dirigentes polticos de alto escalo, em particular alemes e italianos, tomaram conhecimento, com notvel preciso, da fome de 1932-1933. Os relatrios dos diplomatas italianos sediados em Kharkov, Odessa ou Novorossisk, recentemente descobertos e publicados pelo historiador italiano Andrea Graziosi,3 mostram que Mussolini, que lia esses textos com cuidado, estava perfeitamente informado da situao, mas no os utilizou na propaganda anticomunista. Ao contrrio, o vero de 1933 foi marcado pela assinatura de um tratado de comrcio talo-sovitico, seguido de um pacto de amizade e de no-agresso. Negada, ou pelo menos sacrificada sobre o altar da razo de Estado, a verdade sobre a grande fome, evocada em publicaes de baixa tiragem das organizaes ucranianas estrangeiras, somente comeou a impor-se a partir da segunda metade dos anos 80, em seguida  publicao de uma srie de trabalhos e de investigaes, tanto por historiadores ocidentais quanto por pesquisadores da ex-Unio Sovitica.
	Evidentemente, no se pode compreender a fome de 1932-1933 sem situ-la no contexto das novas relaes entre o Estado sovitico e a totalidade dos camponeses, oriundas da coletivizao forada do campo. No campo coletivizado, o papel do kolkhoz era estratgico. Ele tinha a funo de assegurar ao Estado o fornecimento fixo de produtos agrcolas, atravs de cotas cada vez mais altas sobre a colheita coletiva. A cada outono, a campanha de cole-ta transformava-se numa verdadeira queda de brao entre o Estado e os camponeses, que tentavam a todo custo guardar para si uma parte da colheita. Algo de crucial estava em jogo: para o Estado, uma antecipao sobre a colheita, para o campons, a sobrevivncia. Quanto mais frtil era a regio, mais elevada era a sua cota. Em 1930, o Estado coletou 30% da produo agrcola na Ucrnia, 38% nas ricas plancies do Kuban, no Cucaso do Norte, e 33% da colheita do Cazaquisto. Em 1931, para uma colheita bem inferior, essas percentagens atingiram, respectivamente, 41,5%, 47% e 39,5%. Uma tal antecipao s poderia desorganizar completamente o circuito produtivo. Basta lembrar que sob a NEP os camponeses comercializavam somente de 15% a 20% de sua colheita, reservando 12% a 15% para o plantio, 20% a 30% para o rebanho e o restante para seu prprio consumo. Entre os camponeses, decididos a usar de todos os estratagemas para conservarem parte de sua colheita, e as autoridades locais, obrigados a cumprir a todo custo um plano cada vez mais irreal - em 1932, o plano de coleta era 32% superior ao de 1931 -, o conflito era inevitvel.
	A campanha de coleta de 1932 comeou muito lentamente. Desde que se comeou a nova ceifa, os kolkhozianos se esforaram para esconder, ou ainda para roubar, durante a noite, uma parte da colheita. Constituiu-se um verdadeiro fronte de resistncia passiva, fortalecido pelo acordo tcito e recproco que ia, com freqncia, do kolkhoziano ao chefe da guarda, do chefe da guarda ao contador, do contador ao diretor do kolkhoz, ele prprio recentemente promovido, do diretor ao secretrio local do Partido. Para tomar os cereais, as autoridades centrais tiveram de enviar novas tropas de choque, recrutadas nas cidades entre komsomols e comunistas.
	Dentro de um verdadeiro clima de guerra que reinava no campo, eis o que um instrutor do Comit Executivo Central, enviado em misso a um distrito cerealista do Baixo Volga, escrevia aos seus superiores:
	As prises e revistas so feitas por qualquer um: pelos membros do soviete rural, emissrios de todo tipo, membros de tropas de choque ou qualquer komsomol que estiver disposto. Este ano, 12% dos cultivadores do distrito passaram pela corte do tribunal, sem contar os kulaks deportados, os camponeses punidos com multas, etc. Segundo clculos do antigo procurador adjunto do distrito, no decorrer do ltimo ano, 15% da populao adulta foram vtimas de algum tipo de represso. Se acrescentarmos que no decorrer do ltimo ms cerca de 800 cultivadores foram expulsos dos kolkhozes, vocs tero uma idia da dimenso da represso no distrito. [...] Se exclumos os casos em que a represso em massa foi realmente justificada,  preciso dizer que a eficcia das medidas repressivas no cessa de diminuir, uma vez que, quando elas ultrapassam um certo limiar, torna-se difcil p-las em prtica. [...] Todas as prises esto abarrotadas. A priso de Balachevo contm cinco vezes mais pessoas do que o previsto, e em Elan h 610 pessoas na pequena priso do distrito. Durante o ms passado, a priso de Balachevo '-devolveu' a Elan 78 condenados, sendo que 48 dos quais tinham menos de dez anos; 21 foram imediatamente soltos. [...] Para terminar com esse clebre mtodo, o nico utilizado at agora - o mtodo da fora -, vejam-se dois exemplos individuais de camponeses para quem tudo o que  feito visa desvi-los da semeadura e da produo.
	O exemplo seguinte mostra a que ponto os indivduos camponeses esto aterrorizados: em Mortsy, um indivduo campons, que havia, entretanto, preenchido 100% de sua cota, veio ver o camarada Formitchev, presidente do Comit executivo do distrito, pedindo-lhe para ser deportado para o Norte, pois, de toda maneira, ele explicou, 'no podemos mais viver nessas condies'. Igualmente exemplar  a petio, assinada por 16 indivduos camponeses do soviete rural de Ale-xandrov, na qual esses camponeses pedem para serem deportados para fora de sua regio! [...] Resumindo, a nica forma de 'trabalho de massa'  'o assalto': 'tomam-se de assalto' as sementes, os crditos, as criaes em rebanhos, Vai-se ao assalto' do trabalho, etc. [...] O 'cerco'  feito durante a noite, de 21-22 horas at a aurora. O 'assalto' se desenrola da seguinte maneira: a 'tropa de choque', sediada em uma isba, 'convoca' uma a uma as pessoas que no cumpriram com esta ou aquela obrigao ou plano e 'convence-as', atravs de diversos meios, a honrarem suas obrigaes. Faz-se, assim, o 'cerco' de cada pessoa da lista, e depois tudo recomea, durante toda a noite.
	No arsenal repressivo, uma lei famosa, promulgada em 7 de agosto de 1932, no momento mais tenso da guerra entre os camponeses e o regime, tinha um papel decisivo. Ela previa a condenao a dez anos em campos de concentrao ou  pena de morte todo roubo ou dilapidao da propriedade socialista. Ela era conhecida pelo povo sob o nome de lei das espigas, pois as pessoas condenadas com mais freqncia haviam roubado algumas espigas de trigo ou de centeio nos campos kolkhozianos. Essa lei perversa permitiu a condenao, entre agosto de 1932 e dezembro de 1933, de mais de 125.000 pessoas, das quais 5.400  pena capital.
	Apesar dessas medidas draconianas, o trigo no aparecia. Em meados de outubro de 1932, o plano de coleta para as principais regies cerealistas do pas s havia sido cumprido em 15%-20%. Assim, em 22 de outubro de 1932, o Politburo decidiu enviar  Ucrnia e ao Cucaso do Norte duas comisses extraordinrias, uma dirigida por Viatcheslav Molotov e outra por Lazar Kaganovitch, com o objetivo de acelerar as coletas. Em 2 de novembro, a comisso de Lazar Kaganovitch, da qual fazia parte Genrikh lagoda, chegou a Rostov-sobre-o-Don. Uma reunio de todos os secretrios de distrito do Partido da regio do Cucaso do Norte foi de imediato convocada, no final da qual foi adotada a seguinte resoluo: Como consequncia do fracasso particularmente vergonhoso do plano de coleta de cereais, obrigar as organizaes locais do Partido a interromper a sabotagem organizada pelos elementos kulaks contra-revolucionrios, aniquilar a resistncia dos comunistas rurais e dos presidentes de kolkhozes que tomaram a frente dessa sabotagem. Para um certo nmero de distritos inscritos no quadro negro (segundo a terminologia oficial) foram tomadas as seguintes medidas: retirada de todos os produtos das lojas, interdio total do comrcio, reembolso de todos os crditos correntes, imposio excepcional, priso de todos os sabotadores, elementos estranhos e contra-revolucionrios, sendo utilizados procedimentos acelerados, sob a gide da GPU. Em caso de prosseguimento da sabotagem, a populao era passvel de deportao em massa.
	Apenas do decorrer do ms de novembro de 1932, primeiro ms de luta contra a sabotagem, 5.000 comunistas rurais foram julgados criminal-mente complacentes em face da sabotagem da campanha de coleta, e 15.000 kolkhozianos foram presos nessa regio de grande importncia estratgica do ponto de vista da produo agrcola que era o Cucaso do Norte. Em dezembro, comearam as deportaes em massa, no mais apenas dos kulaks, mas de povoados inteiros, principalmente de stanitsy cossacos que j haviam sido vtimas de medidas semelhantes em 1920. O nmero de colonos especiais rapidamente recomeou a subir. Se, para 1932, os dados da administrao do Gulag davam conta da chegada de 71.236 deportados, o ano de 1933 registrou um afluxo de 268.091 novos colonos especiais.
	Na Ucrnia, a comisso Molotov tomou medidas anlogas: inscrio no quadro negro dos distritos que no haviam cumprido o plano de coleta, com todas as consequncias previamente descritas: limpeza das organizaes locais do Partido, prises em massa no somente de kolkhozianos, mas tambm de administradores de kolkhozes, suspeitos de minimizarem a produo. Tais medidas foram imediatamente estendidas a outras regies produtoras de cereais.
	Podiam essas medidas repressivas permitir ao Estado ganhar a guerra contra os camponeses? No, destacava o cnsul italiano em Novorossijsk num relatrio particularmente perspicaz:
	O aparelho sovitico, excessivamente armado e potente, se encontra, de fato, na impossibilidade de encontrar a vitria em uma ou vrias batalhas campais; o inimigo no est agrupado, ele est disperso, o que acarreta o desgaste numa srie de minsculas operaes: aqui, um campo que no est mondado, ali, alguns quintais de trigo que esto escondidos; isso sem falar de um trator inoperante, um segundo voluntariamente sucateado, um terceiro vadeando em vez de trabalhar... E constata-se, em seguida, que um depsito foi roubado, que os livros de contas, pequenos ou grandes, so mal conservados ou falsificados, que os diretores de kolkhozes, por medo ou m vontade, no declaram a verdade em seus relatrios... E assim por diante, ao infinito, e sempre e mais uma vez nesse imenso territrio! [...] O inimigo,  preciso procur-lo de casa em casa, povoado por povoado.  como carregar gua num jarro furado!
	Assim, para vencer o inimigo, havia somente uma soluo: esfome-lo.
	Os primeiros relatrios sobre os riscos de uma situao alimentar crtica para o inverno de 1932-1933 chegaram a Moscou a partir do vero de 1932. Em agosto de 1932, Molotov relatou ao Politburo que existia uma real ameaa de fome, mesmo nos distritos em que a colheita havia sido excelente. Entretanto, ele props que o plano de coleta fosse concludo custasse o que custasse. Nesse mesmo ms de agosto, o presidente do Conselho de Comissrios do Povo do Cazaquisto, Issaev, alertou Stalin sobre a gravidade da fome naquela repblica, onde a coletivizao-sedentarizao havia desorganizado completamente a economia nmade tradicional. Mesmo os stalinistas mais duros, tais como Stanislas Kossior, primeiro secretrio do Partido da regio de Dniepropetrovk, pediram a Stalin que fosse diminudo o plano de coleta. Para que, no futuro, a produo possa aumentar de acordo com as necessidades do Estado proletrio, escreveu Khataievitch a Molotov em novembro de 1932, devemos considerar as necessidades mnimas dos kolkho-zianos, na ausncia dos quais, no haver ningum para semear e assegurar a produo.
	A sua posio, respondeu Molotov,  profundamente incorreta, no bolchevique. Ns, bolcheviques, no podemos colocar as necessidades do Estado - necessidades definidas com preciso pelas resolues do Partido -em dcimo e nem mesmo em segundo lugar. 
	Alguns dias mais tarde, o Politburo enviava s autoridades locais uma circular ordenando que os kolkhozes que ainda no houvessem completado seu plano fossem imediatamente despojados de todos os gros que eles detivessem, includas as supostas reservas para o plantio!
	Tendo sido obrigados a entregar sob ameaa, ou mesmo sob tortura, suas magras reservas, no tendo nem os meios nem a possibilidade de comprar o que quer que seja, milhes de camponeses das regies agrcolas mais ricas da Unio Sovitica foram entregues  fome e no tiveram outra sada a no ser partir para as cidades. Ora, o governo acabava de instaurar, em 27 de novembro de 1932, o passaporte interior e o registro obrigatrio para os citadinos, visando impedir o xodo rural, liquidar o parasitismo social e combater a infiltrao dos elementos kulaks nas cidades. Diante dessa fuga de camponeses em direo a sua sobrevivncia, foi editada, em 22 de janeiro de 1933, uma circular que condenava a uma morte programada milhes de famintos. Assinada por Stalin e Molotov, ela ordenava s autoridades locais, e em particular  GPU, que fosse impedida por todos os meios a partida em massa dos camponeses da Ucrnia e do Cucaso do Norte para as cidades. Aps a priso dos elementos contra-revolucionrios, os outros fugitivos devem ser reconduzidos ao local de sua residncia. A circular explicava assim a situao: O Comit Central e o governo tm provas de que esse xodo em massa de camponeses  organizado pelos inimigos do poder sovitico, os contra-revolucionrios e os agentes poloneses, com o objetivo de propaganda contra o sistema kolkhoziano em particular e o poder sovitico em geral. 
	Em todas as regies atingidas pela fome, a venda de passagens de trem foi imediatamente suspensa; barreiras, controladas pelas unidades especiais da GPU, foram instaladas para impedir os camponeses de deixarem seu distrito. No incio do ms de maro de 1933, um relatrio da polcia poltica explicava que, no perodo de um ms, 219.460 pessoas haviam sido interceptadas durante as operaes destinadas a limitar o xodo de camponeses famintos em direo s cidades, que 186.588 haviam sido reconduzidos a sua regio de origem, e que o restante havia sido detido e julgado. Mas o relatrio se calava sobre o estado das pessoas expulsas das cidades.
	Sobre esse ponto, eis o testemunho do cnsul italiano de Kharkov, no corao de uma das regies mais atingidas pela fome:
	H uma semana, foi organizado um servio para recolher as crianas abandonadas. Com efeito, alm dos camponeses que se dirigem para as cidades por no terem mais nenhuma esperana de sobreviverem no campo, h crianas que foram trazidas aqui e depois abandonadas por seus pais, os quais retornam aos povoados para l morrerem. Estes ltimos esperam que na cidade algum tomar conta de sua progenitura. [...] H uma semana, foram mobilizados os dvorniki [zeladores de prdios] que com suas camisas brancas patrulham a cidade e levam as crianas aos postos de polcia mais prximos. [...] Por volta da meia-noite, comea-se a transport-los em caminhes para a estao ferroviria de cargas de Severo Donetz.  onde tambm so reunidas as crianas encontradas nas estaes e nos trens, as famlias de camponeses, as pessoas idosas e sozinhas, recolhidas na cidade durante o dia. H a presena de mdicos [...] que fazem a seleo. Os que ainda no esto inchados e tm alguma chance de sobrevivncia so conduzidos aos acampamentos de Holodnaia Gora, onde, em celeiros e sobre a palha, agoniza uma populao de cerca de 8.000 almas, composta principalmente por crianas. [...] As pessoas inchadas so transportadas em trens de carga ao campo e abandonadas a 50-60 quilmetros da cidade para que elas morram sem que ningum as veja. [...] Na chegada aos locais de descarga, cavam-se grandes fossas e os monos so retirados dos vages.
	No campo, a mortalidade atinge o seu auge na primavera de 1933. O tifo se junta  fome; em burgos de vrios milhares de habitantes, os sobreviventes no so mais do que algumas dezenas. Casos de canibalismo so assinalados tanto nos relatrios da GPU como naqueles dos diplomatas italianos lotados em Kharkov:
	Em Kharkov, so recolhidos a cada noite cerca de 250 cadveres de pessoas mortas de fome ou de tifo. Nota-se que um nmero muito grande dentre eles no possua mais fgado, que parecia ter sido extrado atravs de um grande corte. A polcia acabou encontrando alguns dos misteriosos 'am-putadores', que confessaram que com essa carne eles preparavam o recheio dos pirojki [pequenos pats] que em seguida eram vendidos no mercado.
	Em abril de 1933, o escritor Mikhail Cholokhov, de passagem por um burgo de Kuban, escreveu duas cartas a Stalin explicando detalhadamente a maneira pela qual as autoridades locais haviam extorquido, sob tortura, todas as reservas dos kolkhozianos, abandonando-os  fome. Ele pedia ao primeiro secretrio que enviasse uma ajuda alimentar. Em sua resposta ao escritor, Stalin desvendou sem rodeios sua posio: os camponeses estavam justamente sendo punidos por terem feito greve e sabotagem, por terem praticado uma guerra de trincheiras contra o poder sovitico, uma guerra de morte. Enquanto que nesse ano de 1933 milhes de camponeses morriam de fome, o governo sovitico continuava a exportar 18 milhes de quintais de trigo para atender as necessidades da industrializao.
	Os arquivos demogrficos e os recenseamentos de 1937 e 1939, mantidos em segredo at bem recentemente, permitem avaliar a extenso da fome de 1933. Geograficamente, a zona de fome cobria a totalidade da Ucrnia, urna parte da zona das terras negras, as ricas plancies do Kuban e do Cucaso do Norte, e uma grande parte do Cazaquisto. Cerca de 40 milhes de pessoas foram atingidas pela fome e pela misria. Nas regies mais afetadas, como nas zonas rurais em torno de Kharkov, a mortalidade de janeiro a junho de 1933 foi multiplicada por dez com relao  mdia: 100.000 mortes em junho de 1933 na regio de Kharkov, contra 9.000 em junho de 1932.  preciso levar ainda em considerao que muitos dos decessos no eram nem mesmo registrados. As zonas rurais foram, sem dvida, mais duramente atingidas do que as cidades, mas estas ltimas tambm no foram poupadas. Kharkov perdeu, em um ano, mais de 120.000 habitantes, Krasnodar 40.000 e Stavro-pol 20.000.
	Alm da zona de fome, as perdas demogrficas, devidas em parte  indigncia, no so negligenciveis. Nas zonas rurais da regio de Moscou, a mortalidade aumentou em 50% entre janeiro e junho de 1933; em Ivanovo, teatro dos tumultos provocados pela fome de 1932, a mortalidade aumentou em 35% no decorrer do primeiro semestre de 1933. Para o ano de 1933 e a totalidade do pas, observa-se um aumento de decessos superior a seis milhes. Uma vez que a imensa maioria desse aumento deve-se  fome, pode-se estimar em cerca de seis milhes de vtimas o balano dessa tragdia. Os camponeses da Ucrnia arcaram com o tributo mais elevado, com, pelo menos, quatro milhes de mortos. No Cazaquisto, cerca de um milho de mortos, principalmente entre a populao nmade, privada, depois da coleti-vizao, de todos os rebanhos e coletivizada  fora. No Cucaso do Norte e na regio das terras negras, um milho de mortos...

	Extratos da carta enviada a Stalin por Mikhail Cholokhov, autor de Don paisible [o Don pacfico], em 4 de abril de 1933.

	Camarada Stalin!
	O distrito de Vechenski, como muitos outros distritos do Cucaso do Norte, no conseguiu completar o plano de entrega de cereais. No por causa de alguma 'sabotagem kulak', mas pek m direo local do Partido...
	Em dezembro ltimo, o Comit Regional do Partido enviou, para acelerar a campanha de coleta, um 'plenipotencirio', o camarada Ovtchinnikov. Este ltimo tomou as seguintes medidas: 1) requisitar todos os cereais disponveis, inclusive o 'adiantamento' dado pela direo dos kolkhozes aos kolkhozianos para a semeadura da prxima colheita; 2) dividir entre os habitantes as entregas que deveriam ser feitas ao Estado por cada kolkhoz. Quais foram os resultados dessas medidas? Quando comearam as requisies, os camponeses se puseram a esconder e a enterrar o trigo. Agora, algumas palavras sobre os resultados numricos de todas essas requisies. Cereais 'encontrados': 5.930 quintais... E eis alguns dos mtodos empregados para obter essas 593 toneladas, das quais uma parte estava enterrada... desde 1918!
	O mtodo do frio... Os kolkhozianos so despidos e postos 'ao frio', com-pletamente nus, num celeiro. Muitas vezes, so bandos inteiros de kolkhozianos que so postos 'ao frio'.
	O mtodo do calor. Os ps e as barras das saias das kolkhozianas so regados com gasolina e, em seguida, ateia-se fogo, que depois  apagado para comear de novo...
	No kolkhoz de Napolovski, um tal de Plotkin, 'plenipotencirio' do Comit do Distrito, forava os kolkhozianos interrogados a deitarem-se sobre um forno em brasa, depois ele os 'esfriava' trancando-os nus num celeiro...
	No kolkhoz de Lebiajenski, os kolkhozianos eram alinhados ao longo de um muro, e uma execuo era simulada...
	Eu poderia multiplicar ao infinito esse tipo de exemplos. No so 'abusos', no,  o mtodo usual de coleta do trigo...
	Se lhe parece que minha carta  digna de reter a ateno do Comit Central, envie-nos verdadeiros comunistas que tenham a coragem de desmascarar todos os que deram um golpe mortal na construo kolkhoziana desse distrito... Toda a nossa esperana se deposita em Stalin.
	Seu, Mikhail Cholokhov. 
	   (Arquivos presidenciais, 45/1/827/7-22)
	
	E a resposta de Stalin a M. Cholokhov, 6 de maio de 1933.

	Caro camarada Cholokhov,
	Eu recebi suas duas cartas. A ajuda pedida foi concedida. Enviei o camarada Chkiriatov para resolver os casos mencionados. Peco-lhe que o ajude.  isso. Mas, camarada Cholokhov, no  isto o que eu queria dizer. Com efeito, suas cartas desenham um quadro que eu qualificaria de no objetivo, e, a esse respeito, eu gostaria de escrever-lhe algumas palavras.
	Agradeci-lhe por suas cartas que revelam uma pequena doena de nosso aparelho, que mostram que alguns dos funcionrios do nosso Partido, querendo fazer bem feito, ou seja, desarmar nossos inimigos, atacam nossos amigos, chegando mesmo a tornarem-se francamente sdicos. Mas essas observaes no significam que eu esteja INTEIRAMENTE de acordo com voc. Sua viso limita-se a um aspecto das coisas, e  uma viso muito boa. Mas  SOMENTE UM aspecto das coisas. Para no cometer enganos em poltica - e suas cartas no so literatura, so poltica pura -,  preciso saber ver O OUTRO aspecto da realidade. E o outro aspecto  que os respeitados lavradores do seu distrito - e no somente do seu -faziam greve, faziam sabotagens e estavam prontos a deixar os operrios e o Exrcito Vermelho sem po! O fato de essa sabotagem ser silenciosa e aparentemente pacfica (sem derramamento de sangue) - esse fato em nada muda na essncia do caso, a saber que os respeitados lavradores praticavam uma guerra de trincheiras contra o poder sovitico. Uma guerra de morte, caro camarada Cholokhov!
	Certamente, essas especificidades no podem justificar os abusos que, segundo suas cartas, foram cometidos por nossos funcionrios. E os culpados devero responder por seu comportamento. Mas  claro como o dia que nossos respeitados lavradores no so ovelhinhas inocentes, como se poderia pensar ao ler suas cartas.
	Bom. Fique bem. Um aperto de mo. Seu, J. Stalin.
	(Arquivos presidenciais, 3/61/549/194)

	Cinco anos antes do Grande Terror que atingiu em primeiro lugar a intelligentsia e os executivos da economia do Partido, a grande fome de 1932-1933, apogeu do segundo ato da guerra anticamponesa comeada em 1929 pelo Partido-Estado, aparece como um episdio decisivo na instalao de um sistema repressivo experimentado por etapas, e, de acordo com as oportunidades polticas do momento, contra este ou aquele grupo social. Com seu cortejo de violncias, de torturas, de mortandade de populaes inteiras, a grande fome traduz uma impressionante regresso, ao mesmo tempo poltica e social. Vem-se tiranos e dspotas locais se multiplicarem, prontos a tudo para extorquir dos camponeses suas ltimas provises, e a barbrie se instalar. Os excessos cometidos so erigidos como prticas cotidianas, as crianas so abandonadas, o canibalismo reaparece com as epidemias e a bandidagem; acampamentos de morte so instalados, os camponeses conhecem uma nova forma de servido, sob a autoridade severa do Partido-Estado. Como escreveu com perspiccia Sergo Ordjonikidze a Serguei Kirov, em janeiro de 1934: Os nossos executivos que conheceram a situao de 1932-1933 e que permaneceram inclumes tm verdadeiramente a tmpera de ao. Penso que com eles ns construiremos um Estado que a Histria no viu jamais.
	Ser preciso ver nessa fome, como o fazem atualmente alguns publicitrios e historiadores ucranianos, um genocdio do povo ucraniano?17  inegvel que os camponeses ucranianos foram as principais vtimas da fome de 1932-1933 e que esse assalto foi precedido, desde 1929, por vrias ofensivas contra a intelligentsia ucraniana, acusada inicialmente de desvio nacionalista, e depois, a partir de 1932, contra uma parte dos comunistas ucranianos. Sem contestao, pode-se, retomando a expresso de Andrei Sakharov, falar da ucraniofobia de Stalin. Todavia,  tambm importante notar que, proporcionalmente, a represso atravs da fome atingiu da mesma maneira os cossacos do Kuban e do Don, e o Cazaquisto. Nesta ltima repblica, desde 1930, a coletivizao e a sedentarizao forada dos nmades tiveram consequncias desastrosas; 80% dos rebanhos foram dizimados em dois anos. Privados de seus bens, entregues  fome, dois milhes de cazacos emigraram, cerca de meio milho para a sia Central e um milho e meio para a China.
	De fato, em vrias regies, como a Ucrnia, os pases cossacos, e mesmo alguns distritos da regio das terras negras, a fome aparece como ltimo episdio do confronto, iniciado em 1918-1922, entre o Estado bolchevique e o campesinato. Constatamos, com efeito, uma notvel coincidncia entre as zonas de forte resistncia s requisies de 1918-1921 e  coletivizao de 1929-1930, e as zonas atingidas pela fome. Das 14.000 rebelies e revoltas camponesas recenseadas pela GPU em 1930, mais de 85% ocorreram em regies punidas com a fome em 1932-1933. So as regies agrcolas mais ricas e mais dinmicas - essas que tinham, ao mesmo tempo, mais para dar ao Estado e mais a perder para o sistema de extorso da produo agrcola implantada no final da coletivizao forada - que foram as mais afetadas pela grande fome de 1932-1933.
	
	9. Elementos estranhos  sociedade e ciclos repressivos
	
	Se a totalidade dos camponeses pagou o tributo mais pesado ao proje-to voluntarista stalinista de transformao radical da sociedade, outros grupos sociais, qualificados de estranhos  nova sociedade socialista, foram, a ttulos diversos, exilados da sociedade, privados de seus direitos civis, expulsos de seu trabalho e de sua moradia, retrogradados na escala social, exilados: especialistas burgueses, aristocratas, membros do clero, profissionais liberais, pequenos empresrios privados, comerciantes e artesos foram as principais vtimas da revoluo anticapitalista lanada no incio dos anos 30. Mas a gente comum das cidades, que no entrava na categoria cannica do proletariado-operrio-construtor-do-socialismo, tambm sofreu sua parcela de medidas repressivas, que visavam fazer progredir - e em conformidade com a ideologia - uma sociedade julgada insubmissa  marcha para ao progresso.
	O famoso processo de Chakhty marcara claramente o fim da trgua entre o regime e os especialistas, iniciada em 1921. s vsperas do lanamento do primeiro plano quinquenal, a lio poltica do processo de Chakhty era clara: o ceticismo, a indeciso, a indiferena em relao  obra empreendida pelo Partido s poderiam conduzir  sabotagem. Duvidar j era trair. A spetzeedstvo - literalmente, a perseguio ao especialista - estava profundamente enraizada na mentalidade bolchevista, e o sinal poltico dado pelo processo de Chakhty foi perfeitamente recebido pela base. Os spetzy, especialistas, iriam tornar-se o bode expiatrio para as derrotas econmicas assim como para as frustraes engendradas pela queda brutal do nvel de vida. Desde o fim de 1928, milhares de quadros industriais e de engenheiros burgueses foram despedidos, privados de cartes de racionamento, de acesso aos servios mdicos, s vezes expulsos de sua moradia. Em 1929, milhares de funcionrios do Gosplan, do Conselho Supremo da Economia Nacional, dos Comissariados do Povo para as Finanas, para o Comrcio e para a Agricultura foram expurgados sob pretexto de desvio direitista, de sabotagem ou de pertencerem a uma classe estranha  sociedade.  verdade que 80% dos altos funcionrios das Finanas haviam servido ao Antigo Regime.
	A campanha de expurgo de certas administraes recrudesceu a partir do vero de 1930, quando Stalin, desejoso de acabar definitivamente com os direitistas - principalmente com Rykov, que ainda ocupava o cargo de chefe do governo - decidiu demonstrar as ligaes mantidas por esses com especialistas-sabotadores. Em agosto-setembro de 1930, a GPU multiplicou as prises de especialistas de renome ocupando cargos importantes no Gosplan, no Banco do Estado e nos Comissariados do Povo para as Finanas, para o Comrcio e para a Agricultura. Entre as personalidades presas figuravam principalmente o professor Kondratiev - inventor dos ramosos ciclos Kondratiev, e ministro-adjunto para o Abastecimento no Governo Provisrio de 1917, que dirigia o Instituto de Conjuntura no Comissariado do Povo para as Finanas -, os professores Markarov e Tchaianov, que ocupavam importantes cargos no Comissariado do Povo para a Agricultura, o professor Sadyrine, membro da direo do Banco do Estado da URSS, o professor Ramzine, Groman, um dos economistas-estatsticos mais conhecidos do Gosplan, e outros especialistas eminentes.
	Devidamente instruda por Stalin, que acompanhava particularmente os casos dos especialistas burgueses, a GPU havia preparado dossis destinados a demonstrar a existncia de uma rede de organizaes anti-soviticas, ligadas entre si no interior de um pretenso Partido Campons do Trabalho dirigido por Kondratiev, e de um pretenso Partido Industrial dirigido por Ramzine. Os investigadores conseguiram extorquir confisses de um certo nmero de pessoas presas, tanto sobre seus contatos com os direitistas Rykov, Bukharin e Syrtsov, quanto sobre sua participao em compls imaginrios que visavam eliminar Stalin e derrubar o regime sovitico com a ajuda de organizaes anti-soviticas emigradas e dos servios de informao estrangeiros. Indo ainda mais longe, a GPU arrancou de dois instrutores da Academia Militar confisses sobre a preparao de um compl dirigido pelo Chefe de Estado Maior do Exrcito Vermelho, Mikhail Tukhatchevski. Como prova a carta que ele dirigiu a Sergo Ordjonikidze, Stalin preferiu no correr o risco, nesse momento, de mandar prender Tukhatchevski, limitando-se a outros alvos, os especialistas-sabotadores.
	Esse episdio significativo mostra claramente que as tcnicas e os mecanismos de fabricao de casos sobre pretensos grupos terroristas aos quais estariam ligados os comunistas opostos  linha stalinista estavam perfeitamente afinados desde 1930. Por hora, Stalin no queria e no podia ir mais rpido. No final das contas, todas as provocaes e as manobras desse perodo perseguiam alvos bastante modestos: desencorajar os ltimos opositores  linha stalinista no interior do Partido, amedrontar todos os indecisos e hesitantes.
	Em 22 de setembro de 1930, o Pravda publicou as confisses de 48 funcionrios dos Comissariados do Povo para o Comrcio e para as Finanas, que tinham se reconhecido culpados por dificuldades de fornecimento nos pases e pelo desaparecimento de moedas de prata. Alguns dias antes, em uma carta endereada a Molotov, Stalin havia dado instrues a respeito desse caso: Precisamos: a) expurgar radicalmente o aparelho do Comissariado do Povo para as Finanas e do Banco do Estado, no obstante as gritarias dos comunistas duvidosos do tipo Piatakov-Briukhanov; b) fuzilar necessariamente duas ou trs dezenas de sabotadores infiltrados nesses aparelhos. [...]; c) continuar, em todo o territrio da URSS, as operaes da GPU visando recuperar as moedas de prata em circulao. Em 25 de setembro de 1930, os 48 especialistas foram executados.
	Nos meses que se seguiram, vrios processos idnticos foram inteiramente montados. Alguns deles se desenrolaram a portas fechadas, como os processos dos especialistas do Conselho Supremo da Economia Nacional ou do Partido Industrial, no curso do qual oito dos acusados confessaram ter montado, instigados por embaixadas estrangeiras, uma ampla rede contando com dois mil especialistas e encarregada de organizar a subverso econmica. Esses processos alimentaram o mito da sabotagem que, junto com o do compl, iria estar no centro da montagem ideolgica stalinista.
	Em quatro anos, de 1928 a 1931, 138.000 funcionrios foram excludos da funo pblica, dos quais 23.000, classificados na categoria I (inimigos do povo sovitico), foram privados de seus direitos civis. A caa aos especialistas assumiu uma amplitude ainda maior nas empresas, submetidas a uma presso produtivista que multiplicava os acidentes, a fabricao de refugo, as panes das mquinas. De janeiro de 1930 a junho de 1931, 48% dos engenheiros do Donbass foram destitudos ou presos; apenas no setor de transportes, 4.500 especialistas sabotadores foram desmascarados no curso do primeiro semestre de 1931. Essa caa aos especialistas, junto ao empreendimento descontrolado de construes com objetivos irrealizveis, a uma forte queda da produtividade e da disciplina do trabalho, e ao desprezo pelas exigncias econmicas, terminou por desorganizar permanentemente o andamento das empresas.
	Diante da amplitude da crise, a direo do Partido teve que se resolver a adotar alguns corretivos. Em 10 de julho de 1931, o Politburo tomou uma srie de medidas tendendo a limitar a arbitrariedade de que os spetzy eram vtimas desde 1928: liberao imediata de vrios engenheiros e tcnicos, prioritariamente na metalurgia e nas minas de carvo, supresso de todas as discriminaes que limitavam o acesso ao ensino superior para seus filhos, interdio feita  GPU de prender um especialista sem o acordo prvio do comissariado do povo do qual ele dependia. O simples enunciado dessas medidas testemunhava a amplitude das discriminaes e da represso da qual haviam sido vtimas, desde o processo de Chakhty, dezenas de milhares de engenheiros, agrnomos, tcnicos e administradores de todos os nveis.
	Entre as outras categorias sociais excludas da nova sociedade socialista figuravam principalmente os membros do clero. Os anos 1929-1930 viram se desenvolver, aps a de 1918-1922, a segunda grande ofensiva do Estado Sovitico contra a Igreja. No fim dos anos 20, apesar da contestao, por um certo nmero de prelados, da declarao de fidelidade feita pelo me-tropolita Serge, sucessor do Patriarca Tikhon, ao poder sovitico, a importncia da Igreja Ortodoxa na sociedade permanecia forte. Das 54.692 igrejas ativas em 1914, cerca de 39.000 ainda estavam abertas ao culto no incio de 1929-7 Emelian laroslavski, presidente da Liga dos Sem-Deus fundada em 1925, reconhecia que menos de dez milhes de pessoas, dos 130 milhes com que contava o pas, haviam rompido com a religio.
	A ofensiva anti-religiosa de 1929-1930 desenvolveu-se em duas etapas. A primeira, na primavera e no vero de 1929, foi marcada pelo recrudesci-mento e a reativao da legislao anti-religiosa dos anos 1918-1922. Em 8 de abril de 1929 foi promulgado um importante decreto que acentuava o controle das autoridades locais sobre a vida das parquias e acrescentava novas restries  atividade das organizaes religiosas. A partir de ento, toda atividade que ultrapassasse os limites da prpria satisfao das aspiraes religiosas caa sob o jugo da lei e principalmente sob a alnea 10 do temvel artigo 58 do Cdigo Penal que estipulava que toda utilizao dos preconceitos religiosos das massas [...] que vise enfraquecer o Estado era passvel de uma pena que ia de um mnimo de trs anos de deteno at a pena de morte. Em 26 de agosto de 1929, o Governo instituiu a semana de trabalho contnuo de cinco dias - cinco dias de trabalho, um de repouso - que eliminava o domingo como dia de repouso comum ao conjunto da populao. Essa medida deveria facilitar a luta pela erradicao da religio.
	Esses diversos decretos no eram mais que o preldio de aes mais diretas, segunda etapa da ofensiva anti-religiosa. Em outubro de 1929 foi ordenada a captura dos sinos: O som dos sinos infringe o direito ao repouso das grandes massas atias das cidade e do campo. Os adeptos do culto foram assimilados aos kulaks: sobrecarregados de impostos - a taxao dos popes decuplicou entre 1928 e 1930 -, privados de seus direitos civis, o que significava principalmente que eles estavam desse momento em diante privados de seus cartes de racionamento e toda a assistncia mdica, eles foram frequentemente presos, depois exilados e deportados. Segundo dados incompletos, mais de 13 mil adeptos do culto foram deskulakizados em 1930. Em muitos povoados e burgos, a coletivizao comeou simbolicamente com o fechamento da igreja e a deskulakizao pelo pope. Um fato significativo  que cerca de 14% das rebelies e sublevaes camponesas registradas em 1930 tiveram como causa primeira o fechamento das igrejas e o confisco do sinos. A campanha anti-religiosa atingiu seu apogeu durante o inverno de 1929-1930. Em 19 de maro de 1930, 6.715 igrejas haviam sido fechadas ou destrudas. Ora, aps o famoso artigo de Stalin de 2 de maro de 1930, A vertigem do sucesso, uma resoluo do Comit Central condenou cinicamente os desvios inadmissveis na luta contra os preconceitos religiosos, particularmente o fechamento administrativo das igrejas sem o consentimento dos habitantes. Contudo, essa condenao formal no teve nenhuma incidncia sobre a sorte dos adeptos do culto deportados.
	Ao longo dos anos seguintes, as grandes ofensivas contra a Igreja cederam lugar a uma perseguio administrativa cotidiana dos adeptos do culto e das organizaes religiosas. Interpretando livremente os 65 artigos do decreto de 8 de abril de 1929, ultrapassando suas prerrogativas em matria de fechamento de igreja, as autoridades locais continuaram a guerrilha, pelos mais variados motivos: vetustez ou estado anti-sanitrio dos edifcios, falta de cobertura de seguro, no-pagamento de impostos e de outras inmeras contribuies impostas aos membros das organizaes religiosas. Privados de seus direitos civis, de seu magistrio, da possibilidade de ganhar a vida exercendo um trabalho assalariado, tributados de modo arbitrrio como elementos parasitas vivendo de fontes de renda no assalariadas, um certo nmero de adeptos do culto no tiveram outra soluo a no ser tornarem-se popes errantes, levando uma vida clandestina  margem da sociedade. Desenvolveram-se assim movimentos cismticos, em oposio  poltica de fidelidade ao poder sovitico pregada pelo metropolita Serge, principalmente nas provncias de Voronezh e de Tambov.
	Os fiis de Alexei Bui, bispo de Voronezh preso em 1929 por sua intransigncia diante de qualquer compromisso entre a Igreja e o regime, se organizaram em uma igreja autnoma, a Verdadeira Igreja Ortodoxa, com seu clero prprio, frequentemente errante, ordenado fora da Igreja patriarcal sergueiviana. Os adeptos dessa Igreja do deserto, que no possuam sedes prprias para seu culto, se reuniam para rezar no lugares mais diversos: domiclios privados, eremitrios, grotas. Esses verdadeiros cristos ortodoxos, como eles se chamavam, foram particularmente perseguidos; vrios milhares dentre eles foram presos e deportados como colonos especiais ou enviados aos campos de concentrao. Quanto  Igreja Ortodoxa, o nmero de seus lugares de culto e de seus servidores conheceu, diante da presso constante das autoridades, uma diminuio muito clara, mesmo se, como o recenseamento anulado de 1937 iria demonstr-lo, 70% dos adultos continuavam a dizer-se crentes. Em 1 de abril de 1936, no restavam mais que 15.835 igrejas ortodoxas em atividade (28% do nmero de antes da revoluo), 4.830 mesquitas (32% do nmero de antes da revoluo) e algumas dezenas de igrejas catlicas e protestantes. Quanto ao nmero de adeptos do culto devidamente registrados, ele no era mais que de 17.857, contra 112.629 em 1914 e ainda cerca de 70.000 em 1928. O clero no era nada mais, para retomar uma frmula oficial, do que um resqucio de classes moribundas.
	Os kulaks, os spetzy e os membros do clero no foram as nicas vtimas da revoluo anticapitalista do comeo dos anos 30. Em janeiro de 1930, as autoridades lanaram uma grande campanha de evico dos empresrios privados. Essa operao visava particularmente aos comerciantes, aos artesos e a alguns membros das profisses liberais, no total, cerca de um milho e meio de ativos, que, sob a NEP, haviam atuado no setor privado, mas de um modo muito modesto. Esses empresrios privados, cujo capital mdio no comrcio no ultrapassava 1.000 rublos, e dos quais 98% no empregavam nenhum assalariado, foram rapidamente espoliados, atravs da decuplicao de seus impostos, do confisco de seus bens; depois, enquanto elementos desclassificados, desocupados ou elementos estrangeiros, eles foram privados de seus direitos civis na mesma qualidade de um conjunto disparatado de aristocratas e outros membros das classes abastadas e do aparelho de Estado czarista. Um decreto de 12 de dezembro de 1930 recenseou mais de 30 categorias de lichentsy, cidados privados de seus direitos civis: ex-proprietrios de terra, ex-comerciantes, ex-nobres, ex-poli-ciais, ex-funcionrios czaristas, ex-kulaks, ex-locatrios ou proprietrios de empresas privadas, ex-oficiais brancos, servidores, monges, freiras, ex-membros de partidos polticos, etc. As discriminaes de que eram vtimas os lichentsy - que, em 1932, representavam 4% dos eleitores, ou seja, junto com suas famlias, cerca de sete milhes de pessoas - no se limitavam evidentemente  simples privao do direito de voto. Em 1929-1932, essa privao se acompanhou da perda de todo o direito  moradia, aos servios de assistncia e aos cartes de racionamento. Em 1933-1934, foram tomadas medidas ainda mais severas, chegando at o desterro no contexto das operaes de passaportizao destinadas a expurgar as cidades de seus elementos desclassificados.
	Atingindo as estruturas sociais e os modos de vida rurais na raiz, a coletivizao forcada do campo, substituda pela industrializao acelerada, engendrara uma formidvel migrao camponesa em direo s cidades. A Rssia camponesa se transformou em um pas de vagabundos, Rusbro-djaschaia. Do fim de 1928 ao fim de 1932, as cidades soviticas foram submergidas por um fluxo de camponeses, estimado em 12 milhes de pessoas, fugindo da coletivizao e da deskulakizao. Somente as regies de Moscou e Leningrado acolheram mais de trs milhes e meio de migrantes. Entre estes figuravam um bom nmero de camponeses empresrios que haviam preferido fugir de seu povoado ou, quando necessrio autodeskulakizar-se, de preferncia a entrar no kolkhoz. Em 1930-1931, os incontveis canteiros de obras absorveram essa mo-de-obra pouco exigente. Mas, a partir de 1932, as autoridades comearam a se preocupar com esse afluxo macio e descontrolado de uma populao vagabunda que ruralizava a cidade, lugar de poder e vitrine da nova ordem socialista, colocando em perigo todo o sistema de racionamento arduamente elaborado desde 1929, cujo nmero de beneficirios passou de 26 milhes no incio de 1930 a cerca de 40 milhes no fim de 1932, transformando as fbricas em imensos acampamentos de nmades. No estariam os recm-chegados na origem de toda uma srie de fenmenos negativos que, segundo as autoridades, desorganizavam permanentemente a produo: absentesmo, queda vertiginosa da disciplina do trabalho, vandalismo, fabricao de refugo, desenvolvimento do alcoolismo e da criminalidade?
	Para combater essa stikhia - termo que designa ao mesmo tempo os elementos naturais, a anarquia e a desordem -, as autoridades tomaram, em novembro-dezembro de 1932, uma srie de medidas repressivas que iam de uma penalizao sem precedentes das relaes de trabalho a uma tentativa de expurgar as cidades de seus elementos socialmente estrangeiros. A lei de 15 de novembro de 1932 sancionava severamente o absentesmo no trabalho e previa de forma notvel a dispensa imediata, a retirada dos cartes de racionamento e a expulso dos contraventores de sua moradia. Seu objetivo declarado era permitir desmascarar os pseudo-operrios. O decreto de 4 de dezembro de 1932, que dava s empresas a responsabilidade da entrega dos novos cartes de racionamento, tinha como principal objetivo eliminar todas as almas mortas e os parasitas devidamente inscritos nas listas municipais de racionamento menos bem mantidas.
	Mas a viga mestra do dispositivo foi a introduo, em 27 de dezembro de 1932, do passaporte interior. A passaportizao da populao respondia a vrios objetivos explicitamente definidos no prembulo do decreto: liquidar o parasitismo social, restringir a infiltrao dos kulaks nos centros urbanos e sua atividade nos mercados, limitar o xodo rural, salvaguardar a pureza social das cidades. Todos os cidados adultos, isto , com mais de 16 anos de idade, no privados de seus direitos civis, assim como os ferrovirios, os assalariados permanentes dos canteiros de obras de construes, os trabalhadores agrcolas das fazendas de Estado, recebiam um passaporte emitido pelos servios de polcia. Esse passaporte s era vlido quando continha um carimbo oficial certificando o endereo legal (propisk) do citadino. O pro-piska regia inteiramente o estatuto do citadino com suas vantagens especficas: carto de racionamento, seguros sociais e direito  moradia. As cidades foram divididas em duas categorias: abertas ou fechadas. As cidades fechadas - Moscou, Leningrado, Kiev, Odessa, Minsk, Kharkov, Rostov-sobre-o-Don, Vladivostok num primeiro tempo - eram cidades com estatuto privilegiado, mais bem abastecidas, onde o domiclio definitivo s podia ser obtido por filiao, casamento ou emprego especfico dando direito ao propisk. As cidades abertas estavam submetidas a um propisk de obteno mais fcil.
	As operaes de passaportizao da populao, que se prolongaram durante todo o ano de 1933 - 27 milhes de passaportes foram entregues -, permitiram s autoridades expurgar as cidades dos elementos indesejveis. Iniciada em Moscou, em 5 de janeiro de 1933, a primeira semana de passaportizao de 20 grandes empresas industriais da capital resultou na descoberta de 3.450 ex-guardas brancos, ex-kulaks e outros elementos criminosos. No total, nas cidades fechadas, mais de 385.000 pessoas tiveram o passaporte recusado e foram constrangidas a deixar seu local de residncia num prazo de dez dias, com proibio de se instalarem numa outra cidade, mesmo aberta. Devem-se,  claro, acrescentar a esse nmero, reconhecia o Chefe do Departamento de Passaportes do NKVD em seu relatrio de 13 de agosto de 1934, todos aqueles que, quando foi anunciada a operao de 'passaportizao', preferiram deixar as cidades por sua prpria deciso, sabendo que no lhes seria dado um passaporte. Em Magnitogorsk, por exemplo, cerca de 35.000 pessoas deixaram a cidade. [...] Em Moscou, durante os dois primeiros meses da operao, a populao diminuiu em 60.000 pessoas. Em Leningrado, em um ms, 54.000 pessoas desapareceram do ar. Nas cidades abertas, a operao permitiu expulsar mais de 42.000 pessoas.
	Controle de polcia e detenes de indivduos sem documentos resultaram no exlio de centenas de milhares de pessoas. Em dezembro de 1933, Genrikh lagoda ordenou a seus servios que limpassem a cada semana as estaes de trem e as feiras nas cidades fechadas. No curso dos oito primeiro meses de 1934, apenas nas cidades fechadas, mais de 630.000 pessoas foram interpeladas por infrao ao regime de passaportes. Entre elas, 65.661 foram encarceradas por via administrativa, em seguida geralmente deportadas como elementos desclassificados com o estatuto de colono especial; as outras se livraram com uma simples multa.
	Foi durante o ano de 1933 que tiveram lugar as operaes mais espeta-cidares: de 28 de junho a 3 de julho, priso e deportao de 5.470 ciganos de Moscou para os povoados de trabalho siberianos;16 de 8 a 12 de julho, priso e deportao de 4.750 elementos desclassificados de Kiev; em abril, junho e julho de 1933, deteno-deportao de trs contingentes de elementos desclassificados de Moscou e de Leningrado, isto , mais de 18.000 pessoas no total. O primeiro desses contingentes foi enviado  ilha de Nazino, onde, em um ms, pereceram dois teros dos deportados.
	Sobre a identidade de alguns desses pretensos elementos desclassificados deportados aps um simples controle da polcia, eis o que escrevia, em seu relatrio j citado, o instrutor do partido de Narvm:
	Eu poderia multiplicar os exemplos de deportao totalmente injustificada. Infelizmente, todas essas pessoas, que eram prximos, operrios, membros do Partido, esto mortas, pois eles eram os menos adaptados s condies: Novojilov Vladimir, de Moscou. Motorista da fbrica Compressor de Moscou, trs vezes premiado. Esposa e filho em Moscou. Preparava-se para ir ao cinema com sua esposa. Enquanto ela se arrumava, ele desceu, sem documentos, para buscar cigarros. Foi detido na rua; Vinogradova, kolkhoziana. Ia  casa de seu irmo, chefe de milcia do 8. setor, em Moscou. Foi detida na descida do trem, em uma das estaces ferrovirias da cidade, deportada; Voikine, Nikolai Vassilievitch, membro do komsomol desde 1929, operrio na fabrica O Operrio Txtil Vermelho de Serpukhov. Trs vezes premiado. Ia domingo a um jogo de futebol. Havia esquecido de pegar seus documentos. Detido, deportado. - Matveev, I. M. Operrio da construo, no canteiro de obra de fabricao de po n 9. Possua um passaporte de trabalhador sazonal, vlido at dezembro de 1933. Detido com seu passaporte. Tinha dito que ningum quis sequer dar uma olhada em seus documentos... 
	O expurgo das cidades do ano de 1933 foi acompanhado de inmeras outras operaes pontuais empreendidas com o mesmo esprito, tanto nas administraes quanto nas empresas. Nos transportes ferrovirios, setor estratgico dirigido com mo de ferro por Andreiev, em seguida por Kaganovitch, 8% do conjunto do pessoal, ou seja, cerca de 20.000 pessoas, foram expurgadas na primavera de 1933. Sobre o desenrolar dessas operaes, eis uma passagem extrada do relatrio do Chefe de Departamento de Transporte da GPU sobre a eliminao de elementos contra-revolucionrios e anti-soviticos das ferrovias, datado de 5 de janeiro de 1933:
	As operaes de limpeza efetuadas pelo Departamento de Transportes da GPU da oitava regio deram os resultados seguintes: Penltima operao de expurgo, 700 pessoas presas e deferidas diante dos tribunais, entre as quais: saqueadores de encomendas: 325; vndalos (ladrezinhos) e elementos criminosos: 221; bandidos: 27; elementos contra-revolucionrios: 127; e 73 saqueadores de encomendas fazendo parte de bandos organizados foram fuzilados. Durante a ltima operao de expurgo [...] 200 pessoas em mdia foram presas. So principalmente elementos kulaks. Outrossim, 300 pessoas duvidosas foram despedidas por via administrativa. Assim, no curso dos ltimos quatro meses, so 1.270 pessoas que, de uma maneira ou de outra, foram cassadas da rede. A limpeza continua.
	Na primavera de 1934, o governo tomou uma srie de medidas repressivas em relao aos numerosos jovens vagabundos e pequenos delinquentes que se multiplicaram nas cidades desde a deskulakizao, a fome e a brutali-zao geral das relaes sociais. Em 7 de abril de 1935, o Politburo editou um decreto que previa submeter  justia, para aplicar-lhes todas as sanes penais previstas pela lei, os adolescentes, a contar de 12 anos, autores de furtos, atos de violncia, leses corporais, atos de mutilao e de assassinato. Alguns dias mais tarde, o governo enviou uma instruo secreta ao tribunal, especificando que as sanes penais aos adolescentes tambm comportavam a medida suprema de defesa social, isto , a pena de morte. Em consequncia, as antigas disposies do Cdigo Penal que proibiam aplicar a pena de morte aos menores foram revogadas. Paralelamente, o NKYD foi encarregado de reorganizar as casas de recepo e de destino de menores, dependentes at ento do Comissariado do Povo para a Instruo, e de desenvolver uma rede de colnias de trabalho para menores.
	Contudo, diante da amplitude crescente da delinquncia juvenil e da vagabundagem, essas medidas no tiveram nenhum efeito. Como observava um relatrio sobre a liquidao da vagabundagem de menores durante o perodo de 19 de julho de 1935 a l. de outubro de 1937:
	Apesar da reorganizao dos servios, a situao no melhorou em nada. [...] A partir de fevereiro de 1937, foi notado um forte fluxo de vagabundos das zonas rurais, principalmente das regies atingidas pela m colheita de 1936. [...] As sadas em massa de crianas do campo por causa de dificuldades materiais temporrias que afetam suas famlias se explicam no somente pela m organizao das caixas de auxlio mtuo dos kolkhozes, mas tambm pelas prticas criminosas dos dirigentes dos kolkhozes que, desejosos de se livrarem dos jovens mendicantes e dos vagabundos, do a estes ltimos 'atestados de vagabundagem e mendicncia' e os expedem em direo s estaes ferrovirias e s cidades mais prximas. [...] Outrossim, a administrao ferroviria e a milcia das estradas de ferro, ao invs de prenderem os menores vagabundos e de dirigi-los para os centros de recepo e de repartio do NKVD, se limitavam a coloc-los  fora nos trens de passagem 'para que o seu setor fosse limpo' [...] e os vagabundos se viam mais uma vez nas grandes cidades. 
	Alguns nmeros do uma idia da dimenso do fenmeno. Apenas durante o ano de 1936, mais de 125.000 menores vagabundos passaram pelos centros de recepo do NKVD; de 1935 a 1939, mais de 155.000 menores foram encerrados nas colnias de trabalho do NKVD, e 92.000 crianas de 12 a 16 anos compareceram  Justia apenas nos anos de 1936-1939. Em 1 de abril de 1939, mais de 10.000 menores estavam encarcerados no sistema de campos do Gulag.
	Na primeira metade dos anos 30, a amplitude da represso praticada pelo Partido-Estado contra a sociedade conheceu variaes de intensidade, com os ciclos alternando momentos de violenta confrontao, com seu cortejo de medidas terroristas e de expurgos em massa, e momentos de pausa que permitiam reencontrar um certo equilbrio, ou mesmo suspender o caos que ameaava engendrar um confronto permanente, causador de derrapagens descontroladas.
	A primavera de 1933 marcou sem dvida o apogeu de um primeiro grande ciclo de terror que havia comeado no fim de 1929 com o lanamento da deskulakizao. As autoridades foram ento confrontadas com problemas realmente inditos. E primeiro, como assegurar, nas regies devastadas pela fome, os trabalhos no campo para a colheita futura? Se ns no levamos em considerao as necessidades mnimas dos kolkhozianos, prevenira um importante responsvel do Partido no outono de 1932, no haver mais ningum para semear e assegurar a produo.
	Em seguida, o que fazer com os milhares de acusados que entupiam as prises e que o sistema de campos de concentrao no estava sequer em medida de explorar? Que efeitos podiam ter nossas leis super-repressivas sobre a populao, interrogava-se um outro responsvel local do Partido em maro de 1933, quando se sabe que, sob proposta do tribunal, centenas de kolkhozianos, condenados ms passado a dois anos e mais de priso por sabotagem do plantio, j foram liberados?
	As respostas dadas pelas autoridades a essas duas situaes-limite, durante o vero de 1933, revelavam duas orientaes diferentes cuja mistura alternncia e frgil equilbrio iam caracterizar o perodo do vero de 1933 ao outono de 1936, antes do incio do Grande Terror.
	 primeira questo - como assegurar os trabalhos no campo para a futura colheita, nas regies devastadas pela fome? -, as autoridades responderam do modo mais expeditivo, organizando imensas detenes da populao urbana, enviada aos campos de concentrao manu militari.
	A mobilizao das forcas citadinas, escrevia em 20 de julho de 1933 o cnsul italiano de Kharkov, tomou propores enormes. [...] Esta semana, pelo menos 20.000 pessoas foram enviadas diariamente para o campo. [...] Anteontem, o bazar foi cercado, pegaram todas as pessoas vlidas, homens, mulheres, meninos e meninas adolescentes, levaram-nos  estao ferroviria, enquadrados pela GPU, e os expediram aos campos de concentrao. 
	A chegada em massa ao campo desses citadinos famintos no deixou de criar tenses. Os camponeses incendiavam os acampamentos onde estavam jogados como gado os mobilizados - que haviam sido devidamente prevenidos pelas autoridades para no se aventurarem pelos povoados cheios de canibais. Contudo, graas a condies meteorolgicas excepcionalmente favorveis  mobilizao de toda mo-de-obra citadina disponvel e ao instinto de sobrevivncia dos citadinos poupados - que, consignados em seus povoados, no tinham outra alternativa seno trabalhar essa terra que no lhes pertencia ou morrer -, as regies atingidas pela fome de 1932-1933 deram, no outono de 1933, uma colheita sobretudo honorvel.
	 segunda questo - o que fazer do fluxo de detidos que entupiam as prises? -, as autoridades responderam de maneira pragmtica, liberando vrias centenas de milhares de pessoas. Uma circular confidencial do Comit Central de 8 de maio de 1933 reconheceu a necessidade de regulamentar as prises [...] efetuadas por qualquer um, de desentupir os locais de deteno e de reduzir, num prazo de dois meses, o nmero total de detidos, com exceo dos campos de concentrao, de 800.000 para 400.000. A operao de desentupimento durou cerca de um ano, e aproximadamente 320.000 pessoas detidas foram liberadas.
	O ano de 1934 foi marcado por uma certa calmaria na poltica repressiva. Como prova a grande diminuio do nmero de condenaes referentes a casos seguidos pela GPU, que caram a 79.000, contra 240.000 em 1933. A polcia poltica foi reorganizada. Conforme o decreto de 10 de julho de 1934, a GPU tornava-se um departamento do Novo Comissariado do Povo para o Interior unificado em toda a URSS. Ele parecia assim dissolver-se em outros departamentos menos temveis, como a milcia operria e camponesa, as guardas de fronteira, etc. Portando a partir de ento a mesma sigla que o Comissariado do Povo para o Interior - Narodnyi Komissariat Vnutrennykh Diel, ou NKVD -, a nova polcia poltica perdia uma parte de suas atribuies judicirias; ao fim da instruo, os dossis deveriam ser transmitidos aos rgos jurdicos competentes, e ela no tinha mais a possibilidade de ordenar as execues capitais sem o aval das autoridades polticas centrais. Era igualmente criado um procedimento de apelao: todas as condenaes  morte deveriam ser confirmadas por uma comisso do Politburo.
	Contudo, essas disposies, apresentadas como medidas reforando a legalidade socialista, tiveram apenas efeitos muito limitados. O controle das decises de priso pelo tribunal revelou-se sem alcance, pois o Procurador Geral Vychinski deixou grande margem aos rgos repressores. Outros-sim, desde setembro de 1934, o Politburo desrespeitou os procedimentos que ele prprio estabelecera a propsito das condenaes  pena capital, autorizando os responsveis por um certo nmero de regies a no se referirem a Moscou para as condenaes  morte no nvel local. A calmaria foi de curta durao.
	O assassinato de Serge Kirov, membro do Politburo e Primeiro Secretrio da Organizao do Partido em Leningrado, abatido em l? de dezembro de 1934 por Leonid Nikolaiev, um jovem comunista exaltado que conseguira penetrar armado no Instituto Smolny, sede da direo do Partido de Leningrado, iniciou um novo ciclo repressivo.
	Durante dcadas, a hiptese da participao direta de Stalin no assassinato de seu principal rival poltico prevaleceu, principalmente aps as revelaes feitas por Nikita Kruschev em seu Relatrio secreto apresentado na noite de 24 a 25 de fevereiro de 1956, diante dos delegados soviticos presentes ao XX Congresso do PCUS. Essa hiptese foi recentemente contestada, principalmente na obra de Alia Kirilina, que se baseia em fontes de arquivos inditas. No entanto, o assassinato de Kirov foi amplamente utilizado por Stalin para fins polticos. Ele materializava, com efeito, de modo categrico, a figura do compl, figura central da retrica stalinista. Ele permitia alimentar um clima de crise e de tenso. Ele podia servir, a qualquer momento, como prova tangvel - em realidade, de um nico elemento - da existncia de uma ampla conspirao que ameaava o pas, seus dirigentes e o socialismo. Ele fornecia, durante um bom tempo, uma excelente explicao para as fraquezas do sistema: se as coisas iam mal, se a vida era difcil, enquanto ela devia ser, segundo a famosa declarao de Stalin, alegre e feliz, era culpa dos assassinos de Kirov.
	Algumas horas aps o anncio do assassinato, Stalin redigiu um decreto, conhecido pelo nome de lei de 1 de dezembro. Essa medida extraordinria, posta em funcionamento sob deciso pessoal de Stalin, e que foi legitimada pelo Politburo somente dois dias mais tarde, ordenava a reduo para dez dias do perodo de instruo dos processos nos casos de terrorismo, que os julgamentos fossem feitos na ausncia das partes e que as sentenas de morte fossem aplicadas imediatamente. Essa lei, que marcava uma ruptura radical com os procedimentos estabelecidos alguns meses antes, seria o instrumento ideal para a aplicao do Grande Terror.?
	Nas semanas que se seguiram, um grande numero de antigos opositores de Stalin no interior do Partido foram acusados de atividades terroristas. Em 22 de dezembro de 1934, a imprensa anunciou que o crime odioso era obra de um grupo terrorista clandestino compreendendo, alm de Niko-laiev, 13 antigos zinovievistas arrependidos, e dirigido por um pretenso Centro de Leningrado. Todos os membros desse grupo foram julgados a portas fechadas em 28 e 29 de dezembro, condenados  morte e imediatamente executados. Em 9 de janeiro de 1935, abriu-se o processo do mtico Centro Contra-revolucionrio Zinovievista de Leningrado implicando 77 pessoas, entre as quais numerosos militantes eminentes do Partido que se opuseram no passado  linha stalinista e que foram condenados a pequenas penas de priso. A descoberta do Centro de Leningrado permitiu colocar a mo em um Centro de Moscou incluindo 19 pretensos participantes, entre os quais Zinoviev e Kamenev em pessoa, que foram acusados de cumplicidade ideolgica com os assassinos de Kirov e julgados em 16 de janeiro de 1935- Zinoviev e Kamenev admitiram que a antiga atividade de oposio no podia, por fora das circunstncias objetivas, seno estimular a degenerescncia desses criminosos. O reconhecimento dessa assombrosa cumplicidade ideolgica, que vinha aps tantos arrependimentos e renegaes pblicos, deveria levar os dois antigos dirigentes a figurar como vtimas expiatrias em uma futura pardia de justia. Enquanto isso, ela lhes valeu, respectivamente, cinco e dez anos de recluso criminal. No total, em dois meses, de dezembro de 1934 a fevereiro de 1935, 6.500 pessoas foram condenadas segundo os novos procedimentos previstos pela lei de 19 de dezembro sobre o terrorismo.
	No dia seguinte  condenao de Zinoviev e de Kamenev, o Comit Central endereou a todas as organizaes do Partido uma circular secreta intitulada Lies dos acontecimentos ligados ao assassinato ignbil do camarada Kirov. Esse texto afirmava a existncia de um compl dirigido por dois centros zinovievistas [...] forma encoberta de uma organizao de guardas brancos e lembrava que a histria do partido havia sido e continuava sendo um combate permanente contra os grupos anti-Partido: trotskis-tas, centralistas-democrticos, desviacionistas de direita, direito-esquer-distas, etc. Eram ento suspeitos todos aqueles que um dia ou outro tinham se pronunciado contra a direo stalinista. A caa aos antigos opositores se intensificou. No fim de janeiro de 1935, 988 antigos partidrios de Zinoviev em Leningrado foram exilados em laktia e na Sibria. O Comit Central ordenou a todas as organizaes locais do Partido que estabelecessem listas de comunistas excludos em 1926-1928 por pertencerem ao bloco trotskis-ta e trotskista-zinovievista. Foi com base nessas listas que foram executadas, em seguida, as prises. Em maio de 1935, Stalin enviou s instncias locais do Partido uma nova carta do Comit Central ordenando uma verificao minuciosa da carteira de cada comunista.
	A verso oficial do assassinato de Kirov, perpetrado por um indivduo que havia penetrado no Smolny graas a uma falsa carteira do partido, demonstrava de modo categrico a imensa importncia poltica da campanha de verificao das carteiras. Essa campanha durou mais de seis meses, desenrolou-se com a participao ativa do aparelho da polcia poltica, o NKVD, que forneceu s instncias do partido dossis sobre os comunistas duvidosos, e as organizaes do Partido, que, por sua vez, transmitiram ao NKVD as informaes sobre os partidrios excludos durante a campanha de verificao. Essa campanha resultou na excluso de 9% dos membros do partido, isto , cerca de 250.000 pessoas. De acordo com os dados incompletos citados diante do plenrio do Comit Central reunido no fim de dezembro de 1935 por Nikolai lejov, chefe do Departamento Central de Quadros e responsvel pela operao, 15.218 inimigos excludos do Partido foram presos durante essa campanha. Contudo, segundo lejov, esse expurgo desenrolou-se muito mal. Ele havia durado trs vezes o tempo previsto por causa da m vontade, que chegava s raias da sabotagem, de um grande nmero de elementos burocratizados instalados nos aparelhos. Apesar dos apelos das autoridades centrais ao desmascaramento dos trotskis-tas e zinovievistas, somente 3% dos excludos pertenciam a essa categoria. Os dirigentes locais do Partido foram com freqncia reticentes em fazer contato com os rgos do NKVD e em dar ao Centro uma lista individual de pessoas a serem exiladas sem demora por deciso administrativa. Em resumo, segundo lejov, a campanha de verificao de carteiras revelara a que ponto a cauo solidria dos aparelhos locais do Partido impedia qualquer controle eficaz das autoridades centrais sobre o que se passava realmente no pas. A estava um ensinamento crucial, do qual Stalin ainda se lembraria.
	 onda de terror que se abateu desde o dia seguinte ao assassinato de Kirov no levou apenas os antigos opositores no interior do Partido. Com o pretexto de que elementos terroristas, guardas brancos, haviam atravessado a fronteira ocidental da URSS, o Politburo decretou, em 27 de dezembro de 1934, a deportao de duas mil famlias anti-soviticas dos distritos fronteirios da Ucrnia. Em 15 de maro de 1935, medidas anlogas foram tomadas para a deportao de todos os elementos pouco confiveis dos distritos fronteirios da regio de Leningrado e da repblica autnoma da Carlia [...] para o Cazaquisto e para a Sibria Ocidental. Tratava-se principalmente de finlandeses, primeiras vtimas das deportaes tnicas que iriam atingir seu apogeu durante a guerra. Essa primeira grande deportao de cerca de dez mil pessoas com base em critrios de nacionalidade foi seguida, na primavera de 1936, por uma segunda, que atingiu mais de 15 mil famlias e cerca de 50 mil pessoas, poloneses e alemes da Ucrnia deportados da regio de Karaganda para o Cazaquisto e instalados em kolkhozes.i
	Como prova o nmero de condenaes pronunciadas nos casos referentes ao NKVD - 267.000 em 1935, mais de 274.000 em 193632 -, o ciclo repressivo experimentou uma novo aquecimento ao longo desses dois anos. Algumas raras medidas de apaziguamento foram adotadas durante esse perodo, tais como a supresso da categoria dos lichentsy, a anulao das condenaes levemente inferiores a cinco anos pronunciadas contra os kol-khozianos, a liberao antecipada de 37.000 pessoas condenadas nos termos da lei de 7 de agosto de 1932, o restabelecimento dos direitos dos colonos especiais deportados, a ab-rogao das discriminaes que proibiam o acesso ao ensino superior dos filhos dos deportados. Mas essas medidas eram contraditrias. Assim os kulaks deportados, restabelecidos em princpio em seus direitos civis ao fim de cinco anos de deportao, finalmente no obtiveram o direito de deixar o local de sua residncia forada. Logo que eles foram restabelecidos em seus direitos, os deportados comearam a voltar a seu povoado, o que trouxe uma srie de problemas inextricveis. Poder-se-ia deix-los entrar no kolkhoz? Onde hosped-los, j que seus bens e suas casas haviam sido confiscados? A lgica da represso permitia apenas pausas; ela no permitia que se retrocedesse.
	As tenses entre o regime e a sociedade cresceram mais ainda quando o poder decidiu recuperar o movimento stakhanovista, nascido aps o famoso recorde estabelecido pelo mineiro Andei Stakhanov, que havia multiplicado por 14 as normas de extrao de carvo graas a uma formidvel organizao de equipe, e promover uma vasta campanha produtivista. Em novembro de 1935, apenas dois meses aps o famoso recorde de Stakhanov, teve lugar em Moscou uma conferncia de trabalhadores de vanguarda. Sta-lin sublinhou o carter profundamente revolucionrio de um movimento liberado do conservadorismo dos engenheiros, dos tcnicos e dos dirigentes de empresas. Nas condies de funcionamento da industria sovitica de ento, a organizao de jornadas, de semanas, de dcadas stakhanovistas desorganizaram por muito tempo a produo; o equipamento era deteriorado; os acidentes de trabalho se multiplicavam; e os recordes eram seguidos por um perodo de queda da produo. Reatando com o spetzeedstvo dos anos 1928-1931, as autoridades imputaram naturalmente as dificuldades econmicas a pretensos sabotadores infiltrados entre os quadros, os engenheiros e os especialistas. Uma declarao imprudente que escapasse em relao aos stakhanovistas, rupturas de ritmos de produo ou um incidente tcnico eram considerados como sendo aes contra-revolucionrias. Ao longo do primeiro semestre de 1936, mais de 14 mil quadros da industria foram detidos por sabotagem. Stalin utilizou a campanha stakhanovista para recrudescer ainda mais sua poltica repressiva e uma nova onda de terror sem precedentes, que iria entrar na Histria com o nome de o Grande Terror.

	10. O Grande Terror (1936-1938)

	Muito j foi escrito sobre o Grande Terror, que os soviticos tambm chamam Iejovschina, o tempo de lejov. De fato, durante os dois anos em que o NKVD foi dirigido por Nikolai lejov (de setembro de 1936 a novembro de 1938) a represso ganhou uma amplitude sem precedentes, atingindo todas as camadas da populao sovitica, dos dirigentes do Politburo aos simples cidados que eram detidos nas ruas, simplesmente para que as cotas de elementos contra-revolucionrios fossem preenchidas. Por vrias dcadas, a tragdia do Grande Terror permaneceu sob silncio. No Ocidente, apenas se retiveram desse perodo os trs espetaculares processos pblicos de Moscou: o de agosto de 1936, o de janeiro de 1937 e o de maro de 1938, no decorrer dos quais os mais prestigiados companheiros de Lenin (Zinoviev, Kamenev, Krestinski, Rykov, Piatakov, Radek, Bukharin e outros) confessaram os piores crimes: a organizao de centros terroristas de obedincia trotsko-zinovie-vista ou trotsko-direitista, tendo como objetivo derrubar o poder sovitico, assassinar seus dirigentes, restaurar o capitalismo, executar atos de sabotagem, minar a potncia militar da URSS, desmembrar a Unio Sovitica, separando, em proveito de Estados estrangeiros, a Ucrnia, a Bielo-Rssia, a Gergia, a Armnia, o Extremo Oriente sovitico, etc.
	Excepcional evento-espetculo, os processos de Moscou foram tambm eventos-fachada que desviaram a ateno dos observadores estrangeiros convidados ao espetculo de tudo o que se passava ao lado e atrs: a represso em massa de todas as categorias sociais. Para esses observadores, que j haviam guardado silncio sobre a deskulakizao, a fome e o desenvolvimento do sistema de campos de concentrao, os anos 1936-1938 foram apenas o ltimo ato da luta poltica que opuseram, por mais de seis anos, Stalin a seus principais rivais; ou, ainda, o fim do confronto entre a burocracia termidoriana stalinista e a velha guarda leninista que permanecera fiel aos compromissos revolucionrios.
	Retomando os principais temas da obra de Trotski, publicada em 1936, A revoluo trada, o editorialista do grande jornal francs L Temps escreveu (em 27 de julho de 1936):
	A Revoluo Russa chegou a seu Termidor. Stalin mediu a inanio da pura ideologia marxista e do mito da revoluo universal. Bom socialista, decerto, mas antes de tudo patriota, ele sabe o perigo que essa ideologia e esse mito fazem o seu pas correr. Seu sonho  provavelmente o de um despotismo esclarecido, de um tipo de paternalismo em tudo afastado do capitalismo, mas tambm afastado das quimeras do comunismo.
	E Lcho de Paris exprimiu, em 30 de janeiro de 1937, com termos mais figurados e menos respeitosos, a mesma ideia:
	O georgiano de cabea baixa junta-se sem querer a Ivan, o Terrvel, Pierre, o Grande, e Catarina II. Os outros, os que ele massacrou, so os revolucionrios que permaneceram fiis a sua f diablica, neurticos  beira de um furor permanente de destruio.
	Ser preciso esperar o Relatrio secreto de Kruschev, no XX Congresso do PCUS, em 25 de fevereiro de 1956, para que enfim se levante o vu sobre os numerosos atos de violao da legalidade socialista cometidos, nos anos 1936-1938, contra os dirigentes e executivos do Partido. Nos anos que se seguiram, um certo nmero de responsveis, principalmente militares, foram reabilitados. Porm, o silncio permaneceu total sobre as vtimas comuns.  bem verdade que, durante o XXII Congresso do PCUS, em outubro de 1961, Kruschev reconheceu publicamente que represses em massa [...] haviam sido praticadas contra simples e honestos cidados soviticos, mas ele no disse nada a respeito da dimenso dessas represses, pelas quais ele havia sido diretamente responsvel, como tantos outros dirigentes de sua gerao.
	No fim dos anos 60, a partir de testemunhos dos soviticos exilados no Ocidente e de publicaes tanto de emigrantes quanto de soviticos do perodo do degelo kruscheviano, um historiador como Robert Conquest pde reconstituir, em suas grandes linhas, a trama geral do Grande Terror, porm, com algumas extrapolaes por vezes imprudentes sobre os mecanismos de tomada de deciso e uma superestimao bastante importante do nmero de vtimas.
	A obra de Robert Conquest suscita um grande nmero de discusses, especialmente sobre o grau de centralizao do terror, sobre os papis respectivos de Stalin e de lejov, e sobre o nmero de vtimas. Alguns historiadores da escola revisionista americana, por exemplo, contestaram a idia segundo a qual Stalin havia planejado com preciso o desenrolar dos eventos de 1936 a 1938. Insistindo, ao contrrio, no crescimento da tenso entre as autoridades centrais e os aparelhos locais cada vez mais potentes, assim como nas derrapagens de uma represso amplamente descontrolada, eles explicaram a amplitude excepcional das represses dos anos 1936-1938 pelo fato de que, desejosos de desviar do golpe que lhes estava destinado, os aparelhos locais dirigiram o terror contra inmeros bodes expiatrios, demonstrando ao Centro, assim, sua vigilncia e sua intransigncia na luta contra os inimigos por todos os lados.
	Outro ponto de divergncia: o nmero de vtimas. Para Conquest e seus discpulos, o Grande Terror teria como saldo pelo menos seis milhes de prises, trs milhes de execues e dois milhes de mortes nos campos de concentrao. Para os historiadores revisionistas, esses nmeros so bastante supe-ravaliados.
	A abertura - ainda parcial - dos arquivos soviticos nos permite hoje fazer uma nova avaliao sobre o Grande Terror. No se trata de retraar, nestas poucas pginas, a histria extraordinariamente complexa e trgica dos dois anos mais sangrentos do regime sovitico segundo outros historiadores, mas de tentar esclarecer as questes que suscitaram tanta polmica no decorrer dos ltimos anos - especialmente sobre o grau de centralizao do terror, sobre suas categorias e o nmero de vtimas.
	No que diz respeito ao grau de centralizao do terror, os documentos do Politburo atualmente acessveis4 confirmam que a represso em massa foi de fato o resultado de uma iniciativa decidida pela mais alta instncia do Partido, o Politburo, e pelo prprio Stalin em particular. A organizao e depois o desenrolar da mais sangrenta das grandes operaes de represso, a operao de liquidao de ex-kulaks, criminosos e outros elementos anti-soviticos,5 que teve lugar de agosto de 1937 a maio de 1938, trazem esclarecimentos bastante reveladores sobre o papel respectivo do Centro e do local na represso, mas tambm sobre a lgica dessa operao, que supostamente resolveria de modo definitivo - pelo menos em princpio - um problema que no pudera ser resolvido no decorrer dos anos precedentes.
	Desde 1935-1936, a questo do destino posterior dos ex-kulaks deportados estava na ordem do dia. Apesar da interdio, que lhes era regularmente relembrada, de deixarem os locais de residncia que lhes foram designados, os colonos especiais se misturavam aos trabalhadores livres. Num relatrio de agosto de 1936, Rudolf Berman, o diretor do Gulag, escreveu: Vrios colonos especiais, aproveitando-se de uma vigilncia bastante frouxa, que vm trabalhando h bastante tempo em equipes mistas com operrios livres, deixaram seu lugar de residncia.  cada vez mais difcil recuper-los. Com efeito, eles se especializaram, a administrao das empresas quer mante-los, algumas vezes eles se viraram para arranjar um passaporte, se casaram com colegas livres, muitos tm casa.. .
	Se vrios dos colonos especiais com residncias designadas perto de centros industriais tinham a tendncia a se misturarem  classe operria local, outros fugiam para mais longe. Um grande nmero desses fugitivos, sem documentos e sem teto, juntavam-se a bandos de marginais sociais e de pequenos delinquentes cada vez mais numerosos nas periferias das cidades. As inspees feitas no outono de 1936 em algumas komandatures revelam uma situao intolervel aos olhos das autoridades: assim, na regio de Arkhangelsk, somente 37.000 dos 89.700 colonos especiais permaneciam nos locais de residncia que lhes foram supostamente determinados!
	A obsesso do kulak-sabotador-infiltrado-nas-empresas e do kulak-bandido-rondando-as-cidades explica que essa categoria talvez tenha sido designada prioritariamente como vtima expiatria da grande operao de represso decidida no incio do ms de julho de 1937 por Stalin.
	Em 2 de julho de 1937, o Politburo enviou s autoridades locais um telegrama, ordenando-lhes que fossem presos imediatamente todos os kulaks e criminosos [...], de fuzilar os mais hostis entre eles aps o exame administrativo do seu caso por uma troika [uma comisso de trs membros, composta pelo primeiro secretrio regional do Partido, pelo procurador e pelo diretor regional do NKVD] e de deportar os elementos menos ativos, mas que so, porm, hostis ao regime [...]. O Comit Central prope que seja apresentada num prazo de cinco dias a composio das troiki, assim como o nmero de indivduos a serem flizilados e aqueles a serem deportados.
	Assim, o Centro recebeu, nas semanas que se seguiram, os nmeros indicativos fornecidos pelas autoridades locais, com base nos quais lejov preparou a ordem operacional n 00447, com data de 30 de julho de 1937, que foi submetida, no mesmo dia, ao Politburo para a ratificao. Durante essa operao, 259.450 pessoas foram detidas, das quais 72.950, fuziladas. De fato, esses dados eram incompletos, pois na lista estabelecida faltava toda uma srie de regies, que ainda no tinham, segundo parece, enviado a Moscou suas estimativas. Como j havia acontecido durante a deskulakizao, todas as regies receberam cotas para cada uma das duas categorias (1 categoria: a executar; 2 categoria: a deportar).
	Notemos que os elementos visados pela operao pertenciam a um espectro sociopoltico bem mais amplo que as categorias listadas em princpio: ao lado dos ex-kulaks e dos elementos criminosos havia os elementos perigosos  sociedade e os elementos dos partidos anti-soviticos, os antigos funcionrios czaristas, os guardas brancos, etc. Essas designaes eram, naturalmente, atribudas a um suspeito qualquer, quer ele pertencesse ao Partido,  intelligentsia ou  gente comum. Quanto s listas de suspeitos, os servios competentes da GPU, depois do NKVD, tiveram todo o tempo para prepar-las, mante-las em dia e para atualiz-las h vrios anos.
	A ordem operacional de 30 de julho de 1937 dava aos dirigentes locais o direito de pedir a Moscou listas complementares de indivduos a serem reprimidos. As famlias das pessoas condenadas a penas em campos de concentrao ou executadas podiam ser presas acima das cotas.
	Desde o fim do ms de agosto, o Politburo foi alvo de vrios pedidos de elevao de cotas. De 28 de agosto a 15 de dezembro de 1937, ele ratificou diversas proposies de aumentos de cotas para um total de 22.500 indivduos a serem executados e 16.800 a serem enviados aos campos de concentrao. Em 31 de janeiro de 1938, foi adotado, atendendo a uma demanda do NKVD, um novo acrscimo de 57.200 pessoas, das quais 48.000 deveriam ser executadas. A totalidade das operaes devia ter terminado em 15 de maro de 1938. Mas, ainda uma vez, as autoridades locais, que haviam sido vrias vezes expurgadas e renovadas desde o ano anterior, julgaram oportuno mostrar todo o seu zelo. De l? de fevereiro a 29 de agosto de 1938, o Politburo ratificou contingentes suplementares de 90.000 indivduos a serem reprimidos.
	Assim, a operao, que devia em princpio durar quatro meses, estendia-se por mais de um ano e atingiu pelo menos 200.000 pessoas acima das cotas aprovadas inicialmente. Todo indivduo suspeito de ms origens sociais era uma vtima em potencial. Eram particularmente vulnerveis tambm todas as pessoas que habitassem as zonas fronteirias, ou que houvessem mantido, de uma maneira ou de outra, contatos com o exterior do pas, quer tenham sido prisioneiros de guerra ou que tivessem parentes, mesmo distantes, fora da URSS. Essas pessoas, assim como radioamadores, filatelistas ou esperantistas, tinham grandes chances de serem acusados de praticarem espionagem. De 6 de agosto a 21 de dezembro de 1937, pelo menos dez operaes, do mesmo tipo daquela iniciada em seguida  ordem operacional n 00447, foram lanadas pelo Politburo e pelo NKVD, seu representante nessa matria, visando liquidar, nacionalidade por nacionalidade, pretensos grupos de espies e de diversionistas: alemes, poloneses, japoneses, romenos, finlandeses, lituanos, estonianos, letes, gregos e turcos. Nos 15 meses que duraram essas operaes antiespionagem, de agosto de 1937 a novembro de 1938, vrias centenas de milhares de pessoas foram presas.
	Entre as operaes sobre as quais dispomos atualmente de informaes - ainda bastante lacunares, pois os arquivos da ex-KGB e os arquivos presidenciais em que so conservados os documentos mais confidenciais permanecem inacessveis aos pesquisadores - podemos citar:
	- a operao de liquidao dos contingentes de alemes que trabalha vam nas empresas da Defesa Nacional, de 20 de julho de 1937;
	- a operao de liquidao das atividades terroristas, de diverso e de espionagem da rede japonesa de repatriados de Kharbin, lanada em 19 de setembro de 1937;
	- a operao de liquidao da organizao direitista nipnico-militar dos cossacos, lanada em 4 de agosto de 1937; de setembro a dezembro de 1937, mais de 19.000 pessoas foram reprimidas durante essa operao;
	- a operao de represso das famlias dos inimigos do povo que foram presos, requisitada pela ordem operacional do NKVD de n P 00486, de 15 de agosto de 1937.
	Essa breve enumerao, bastante incompleta, de uma pequena parte das operaes decididas pelo Politburo e postas em prtica pelo NKVD,  suficiente para ressaltar o carter centralizado da represso em massa dos anos 1937-1938.  bem verdade que essas operaes, como todas as grandes aes repressivas executadas sob a ordem do Centro pelos funcionrios locais - quer seja a deskulakizao, o expurgo das cidades ou a caa aos especialistas -, no ocorriam sem derrapagens ou excessos. Aps o Grande Terror, apenas uma comisso foi enviada ao campo, ao Turcomenisto, para investigar os excessos da lejovschina. Nessa pequena repblica de 1.300.000 habitantes (0,7% da populao sovitica), 13.259 pessoas haviam sido condenadas pelas troiki do NKVD, de agosto de 1937 a setembro de 1938, apenas como consequncia da operao de liquidao dos ex-kulaks criminosos e outros elementos anti-soviticos. Desse total de pessoas condenadas, 4.037 haviam sido fuziladas. As cotas fixadas por Moscou eram de 6.277 (nmero total de condenaes) e de 3.225 (nmero total de execues). Podemos supor que tenha havido excessos e semelhantes extrapolaes em outras regies do pas. Elas decorriam do prprio princpio das cotas, das ordens planejadas vindas do Centro e dos reflexos burocrticos, bem assimilados e inculcados havia vrios anos, que consistiam em antecipar os desejos dos superiores hierrquicos e as diretivas de Moscou.
	Uma outra srie de documentos confirma o carter centralizado desses assassinatos em massa ordenados por Stalin e pelo Politburo. Trata-se das listas de personalidades a serem condenadas, estabelecidas pela Comisso de Casos Judicirios do Politburo. As penas de personalidades que deviam comparecer diante do colgio militar da Suprema Corte, dos tribunais militares ou da Conferncia Especial do NKVD eram predeterminadas pela Comisso de Casos Judicirios do Politburo. Essa comisso, da qual lejov fazia parte, submeteu pelo menos 383 listas - que contavam com mais de 44.000 nomes de dirigentes e quadros do Partido, do exrcito e da economia - s assinaturas de Stalin e dos membros do Politburo. Mais de 39.000 dessas pessoas foram condenadas  pena de morte. A assinatura de Stalin aparece em 362 listas, a de Molotov em 373 listas, a de Vorochilov em 195 listas, a de Kaganovitch em 191 listas, a de Jdanov em 177 listas, e a de Mikoian em 62 listas.
	A partir do vero de 1937, todos os dirigentes conduziram pessoalmente os expurgos nas organizaes locais do Partido: assim, Kaganovitch foi enviado para expurgar Donbass e as regies de Tcheliabinsk, de Yaroslav, de Ivanovo e de Smolensk. Jdanov, depois de expurgar sua regio, Leningrado, partiu para Oremburgo, Bachkirie, Tatarstan. Andreiev dirigiu-se ao Cucaso do Norte, ao Uzbequisto e ao Tadjiquisto. Mikoian foi  Armnia, e Kruschev  Ucrnia.
	Ainda que a maioria das instrues sobre a represso em massa tenham sido ratificadas como resolues de todo o Politburo, parece,  luz dos documentos dos arquivos hoje acessveis, que Stalin foi pessoalmente o autor e o iniciador da maior parte das decises repressivas em todos os nveis. Tomando um nico exemplo: quando, em 27 de agosto de 1937, s 17 horas, o secretariado do Comit Central recebeu uma comunicao de Mikhail Korotchenko, secretrio do Comit regional do Partido da Sibria Oriental, sobre os desdobramentos de um processo contra agrnomos culpados de atos de sabotagem, o prprio Stalin telegrafou s 17h10min: Aconselho-os a condenarem os sabotadores do distrito de Andreiev  pena de morte e publicarem a notcia de sua execuo na imprensa.
	Todos os documentos atualmente disponveis (protocolos do Politburo, a agenda de compromissos de Stalin e a lista dos visitantes recebidos por Stalin no Kremlin) demonstram que ele controlava e dirigia minuciosamente as ati-vidades de lejov. Ele corrigia as principais instrues do NKVD, acertava o desenvolvimento dos perodos de instruo de culpa nos grandes processos polticos, chegando a definir o seu enredo. Durante a instruo do caso do compl militar, que questionava o marechal Tukhatchevski e outros grandes altos dirigentes do Exrcito Vermelho, Stalin recebeu lejov todos os dias. Em todas as etapas da lejovschina, Stalin manteve o controle poltico de todos os eventos. Foi ele quem decidiu a nomeao de lejov para o cargo de comissrio do povo para o Interior, enviando a Sotchi o famoso telegrama de 25 de setembro de 1936 ao Politburo:  absolutamente necessrio e urgente que o camarada lejov seja designado para o cargo de comissrio do povo para o Interior, lagoda manifestamente no se mostrou  altura de sua incumbncia de desmascarar o bloco trotskista-zinovievista. A GPU tem quatro anos de atraso nesse caso. Foi tambm Stalin quem decidiu acabar com os excessos do NKVD. Em 17 de novembro de 1938, um decreto do Comit Central ps um fim (provisoriamente)  organizao de operaes em massa de prises e deportaes. Uma semana mais tarde, lejov foi demitido de seu cargo de comissrio do povo para o Interior e substitudo por Beria. O Grande Terror acabou da mesma maneira que havia comeado: atravs de uma ordem de Stalin.
	Pode-se fazer um balano documentado do nmero e das categorias das vtimas da lejovschiru
	Dispomos atualmente de alguns documentos ultraconfidenciais preparados por Nikita Kruschev e os principais dirigentes do Partido durante a desestalinizao, principalmente um longo estudo sobre as represses cometidas durante a poca do culto da personalidade, realizado por uma comisso dirigida por Nikolai Chvernik, criada aps o XXII Congresso do PCUS. Os pesquisadores podem confrontar esses dados a diversas outras fontes estatsticas da administrao do Gulag, as do Comissariado do Povo para a Justia e as do Ministrio Pblico, atualmente acessveis.
	Assim, parece que apenas durante os anos de 1937 e 1938, 1.575.000 pessoas foram presas pelo NKVD; 1.345.000 (ou seja, 85,4%) foram condenadas no decorrer desses anos; 681.692 (ou seja, 51% das pessoas condenadas em 1937-1938) foram executadas.
	As pessoas presas eram condenadas segundo procedimentos diversos. Os casos de pessoas pertencentes aos quadros polticos, econmicos e militares, de membros da intelligentsia - categoria mais facilmente identificvel e mais bem conhecida - eram julgados pelos tribunais militares e as Conferncias Especiais do NKVD. Diante da dimenso das operaes, o governo instaurou, em fins de julho de 1937, algumas troiki regionais, compostas pelo procurador e por chefes do NKVD e da direo da polcia. Essas troiki funcionavam segundo procedimentos extremamente expeditivos, j que elas respondiam a cotas antecipadamente fixadas pelo Centro. Bastava reativar as listas dos indivduos j fichados pelos servios. O perodo de instruo de culpa era reduzido a sua mais simples expresso; as troiki faziam com que vrias centenas de dossis fossem vistos por dia - como confirma, por exemplo, a recente publicao do anurio Martirolgio de Leningrado, que registrava ms a ms, a partir de agosto de 1937, os leningradenses presos e condenados  morte com base no artigo 58 do Cdigo Penal. O tempo habitualmente decorrido entre a priso e a condenao  morte ia de alguns dias a algumas semanas. A sentena, sem apelao, era aplicada num prazo de poucos dias. Durante essas operaes especficas de liquidao de espies e diversionistas, tanto quanto nas grandes operaes de represso - tais como a operao de liquidao de kulaks..., lanada em 30 de julho de 1937, a operao de liquidao de elementos criminosos, lanada em 12 de setembro de 1937, a operao de represso s famlias dos inimigos do povo, etc. -, as chances de ser preso, mesmo que simplesmente para completar uma cota, deviam-se a toda uma srie de acasos. Acasos geogrficos (as pessoas que habitavam as zonas fronteirias eram bem mais expostas), itinerrio individual ligado, de uma maneira ou de outra, a um pas estrangeiro, origens estrangeiras, problemas de homonmia, etc. Para completar as normas, se a lista de pessoas fichadas fosse insuficiente, as autoridades locais se arranjavam. Assim, para dar um exemplo, para completar a categoria de sabotadores, o NKVD da Turcomnia arrumou o pretexto de um incndio em uma empresa para prender todas as pessoas que se encontravam no local e os forou a nomear seus cmplices.^ Programada por instncias superiores, designando arbitrariamente categorias de inimigos polticos, o Terror gerava, por sua prpria natureza, derrapagens que diziam muito a respeito da cultura da violncia dos aparelhos repressivos de base.
	Todos esses nmeros - que nos lembram, entre outras coisas, que os quadros do Partido eram somente uma pequena proporo das 681.692 pessoas executadas - no pretendem ser exaustivos. Eles no incluem as deportaes efetuadas no decorrer desses anos (como, por exemplo, a operao de deportao para o Extremo-Oriente sovitico de 172.000 coreanos, transferidos, entre maio e outubro de 1937, para o Cazaquisto e o Uzbequisto). Eles no levam em conta nem as pessoas presas e mortas sob tortura durante sua estada na priso ou sua transferncia para os campos de concentrao (dados desconhecidos), nem os detentos mortos nos campos durante esses anos (cerca de 25.000 em 1937 e mais de 90.000 em 1938). Mesmo corrigidos por baixo em relao s extrapolaes retiradas dos testemunhos dos sobreviventes, esses dados mostram a terrvel dimenso desses assassinatos em massa, s centenas de milhares, dirigidos contra toda a sociedade.
	Atualmente, seria possvel ir mais longe na anlise das categorias das vtimas desses assassinatos em massa? Dispomos de alguns dados estatsticos, que apresentaremos mais adiante, sob os detentos do Gulag no fim dos anos 30. Essas informaes, que dizem respeito  totalidade dos detentos (e no somente aos presos durante o Grande Terror), trazem somente elementos e respostas parciais sobre as vtimas condenadas a penas em campos de concentrao durante a lejovschina. Assim, nota-se um grande aumento proporcional de detentos com formao superior (+ 70% entre 1936 e 1939), o que confirma que o Terror do fim dos anos 30 era exercido particularmente contra as elites cultas, quer elas pertencessem ou no ao Partido.
	A represso aos quadros do Partido, por ter sido a primeira a ser denunciada (desde o XX Congresso),  um dos aspectos mais bem conhecidos do Grande Terror. Em seu Relatrio Secreto, Kruschev estendeu-se longamente sobre esse aspecto da represso, que atingiu cinco membros do Politburo, todos stalinistas fiis (Postychev, Rudzutak, Eikhe, Kossior e Tchubar), 98 dos 139 membros do Comit Central e 1.108 dos 1.996 delegados do XVII Congresso do Partido (1934). Os quadros dirigentes do Komsomol foram igualmente atingidos: 72 dos 93 membros do Comit Central foram presos, assim como 319 dos 385 secretrios regionais e 2.210 dos 2.270 secretrios de distrito. De uma maneira geral, os aparelhos regionais e locais do Partido e do Komsomol, suspeitos pelo Centro de sabotarem as decises necessariamente corretas de Moscou, de impedirem todo controle eficaz das autoridades centrais sobre o que se passava no pas, foram totalmente renovados. Em Leningrado, cidade suspeita por excelncia - onde o Partido havia sido dirigido por Zinoviev e Kirov havia sido assassinado -, Jdanov e Zakovski, o chefe regional do NKVD, prenderam mais de 90% dos quadros do Partido. Porm, estes ltimos no eram seno uma pequena parte dos leningradenses reprimidos em 1936-1939. Para estimular os expurgos, os emissrios do Centro, acompanhados por tropas do NKVD, foram enviados s provncias com a misso de, segundo a expresso do Pravda, atear fogo e destruir os ninhos pestilentos dos trotsko-fascistas.
	Algumas regies, das quais dispomos somente de estatsticas parciais, foram mais especialmente expurgadas: em primeiro lugar est, mais uma vez, a Ucrnia. Apenas durante o ano de 1938, aps a nomeao de Kruschev para a liderana do Partido Comunista ucraniano, mais de 106.000 pessoas foram presas na Ucrnia (tendo sido, em sua maioria, executadas). Dos 200 membros do Comit Central do Partido Comunista ucraniano, trs sobreviveram. O mesmo panorama repetiu-se em todas as instncias regionais e locais do Partido, onde foram organizadas dezenas de processos pblicos contra dirigentes comunistas.
	Diferentemente dos processos a portas fechadas ou das sees secretas das troiki, nos quais o destino de um acusado era resolvido em poucos minutos, os processos pblicos tinham uma forte colorao populista e cumpriam uma funo importante de propaganda. Supostamente, eles deveriam fortalecer a aliana entre a gente comum, o simples militante, os que tinham a soluo mais justa e o Guia, denunciando os dirigentes locais, esses novos senhores, sempre satisfeitos consigo prprios [...] e que, por sua atitude desumana, produzem artificialmente uma grande quantidade de descontentes e raivosos, criando, assim, um exrcito de reserva para os trotskistas (Stalin, discurso de 3 de maro de 1937). Como os grandes processos de Moscou, mas dessa vez em escala distrital, esses processos pblicos, cujas audincias eram amplamente reproduzidas na imprensa local, davam lugar a uma excepcional mobilizao ideolgica, popular e populista. Por desmascararem um compl, figura essencial da ideologia, por assumirem uma funo carnavalesca (os poderosos tornavam-se viles, e as pessoas simples eram reconhecidas como portadores da soluo mais justa), esses processos pblicos constituam, retomando a expresso de Annie Kriegel, um formidvel mecanismo de profilaxia social.
	Naturalmente, as represses aos responsveis locais do Partido representavam apenas a ponta do iceberg. Tomemos o exemplo de Oremburgo, provncia sobre a qual dispomos de um relatrio detalhado do departamento regional do NKVD sobre as medidas operacionais de grupos clandestinos trotskistas e bukharinianos, assim como outras formaes contra-revolucion-rias, praticadas de l de abril a 18 de setembro de 1937, ou seja, antes da misso de Jdanov, destinada a acelerar os expurgos.
	No espao de cinco meses, foram detidos nessa provncia:
	- 420 trotskistas, todos dos quadros polticos e econmicos de primeiro plano;
	- 120 direitistas, todos dirigentes locais importantes.
	Esses 540 dirigentes do Partido representavam cerca de 45% da nomenklatura local. Em seguida  misso de Jdanov em Oremburgo, 598 outros dirigentes foram presos e executados. Nessa provncia, como em todas as outras, desde o outono de 1937, a quase-totalidade dos dirigentes polticos e econmicos foi eliminada e substituda por uma nova gerao, a dos promovidos ao primeiro plano, pessoas como Brejnev, Kossyguine, Ustinov, Gromyko, aqueles que formariam o Politburo dos anos 70.
	Entretanto, ao lado desse milhar de quadros presos, havia uma massa de sem-patente, demais membros do Partido, ex-comunistas - particularmente vulnerveis, portanto - ou simples cidados fichados havia muitos anos e que constituram o principal grupo de vtimas do Grande Terror.
	Retomemos o relatrio do NKVD de Oremburgo:
	- um pouco mais de 2.000 membros da organizao direitista nipnico-militar dos cossacos (dos quais 1.500 foram executados);
	- mais de 1.500 oficiais e funcionrios czaristas exilados em 1935 de Leningrado para Oremburgo (tratava-se dos elementos estranhos  socieda de exilados em diversas regies do pas aps o assassinato de Kirov);
	- cerca de 250 pessoas presas durante o caso dos poloneses;
	- cerca de 95 pessoas presas [...] durante o caso dos elementos originrios de Kharbin;
	- 3.290 pessoas durante a operao de liquidao dos ex-kulaks;
	- 1.399 pessoas [...] durante a operao de liquidao dos elementos criminosos....
	Assim, contando ainda com os cerca de 30 komsomols e 50 cadetes da escola de instruo militar local, em cinco meses, mais de 7.500 pessoas haviam sido presas pelo NKVD nessa provncia, antes mesmo da intensificao da represso consecutiva  misso de Andrei Jdanov. Por mais espetacular que ela tenha sido, a priso de 90% dos membros da nomenklaturulocal representou somente uma percentagem negligencivel do nmero total de pessoas reprimidas, quase todas classificadas em uma das categorias visadas no decorrer das operaes especficas definidas e aprovadas pelo Politburo, e por Stalin em particular.
	Algumas categorias de quadros e dirigentes foram especialmente dizimadas: os diplomatas e os funcionrios do Comissariado do Povo para as Relaes Exteriores, que caram, naturalmente, sob a acusao de espionagem, ou ainda os funcionrios dos ministrios econmicos e diretores de fbrica, suspeitos de sabotagem. Entre os diplomatas de alto escalo presos - e, em sua maioria, executados - figuravam Krestinski, Sokolnikov, Bogomolov, lureniev, Ostrovski, Antonov-Ovseenko, lotados, respectivamente, em Berlim, Londres, Pequim, Tquio, Bucareste e Madri.
	Em alguns ministrios, todos os funcionrios, quase sem exceo, foram vtimas da represso. Assim, no obscuro Comissariado do Povo para Mquinas e Ferramentas, toda a administrao foi renovada; foram tambm presos todos os diretores de fbrica (exceto dois) que dependiam desse setor, alm da quase-totalidade dos engenheiros e tcnicos. O mesmo ocorreu nos outros setores industriais, principalmente na construo aeronutica, na construo naval, na metalurgia, assim como nos transportes, setores sobre os quais dispomos de estudos fragmentrios. Aps o fim do Grande Terror, Kaganovitch reconheceu, no XVIII Congresso, em maro de 1939, que em 1937 e 1938 a direo da indstria pesada fora inteiramente renovada, milhares de novos homens foram nomeados para cargos de dirigentes no lugar dos sabotadores desmascarados. Em alguns setores, foi necessrio demitir vrias camadas de sabotadores e de espies [...]. Agora temos quadros que aceitaro todo tipo de tarefa que lhes for designada pelo camarada Stalin.
	Entre os quadros do Partido mais duramente atingidos durante a lejovschina figuravam os dirigentes dos partidos comunistas estrangeiros e os quadros da Internacional Comunista, instalados no Hotel Lux, em Moscou. Assim, entre as personalidades do Partido Comunista alemo presos, figuravam: Heinz Neumann, Hermann Remmele, Fritz Schulte, Hermann Schubert, todos antigos membros do Politburo; Leo Flieg, secretrio do Comit Central, Heinrich Susskind e Werner Hirsch, redatores-chefes do jornal Rote Fahne, Hugo Eberlein, delegado do Partido alemo na conferncia fundadora da Internacional Comunista. Em setembro de 1939, aps a concluso do Pacto Germano-sovitico, 570 comunistas alemes encarcerados nas prises de Moscou foram entregues  Gestapo, sobre a ponte na fronteira de Brest-Litovsk.
	Entre as vtimas do Grande Terror, uma maioria esmagadora de annimos. Extraio de um simples dossi do ano de 1938
	Dossi n 24.0
	1. Nome: Sidorov.
	2. Prenome: Vassili Klementovitch.
	3. Local e data de nascimento: Setchevo, regio de Moscou, 1893.
	4. Endereo: Setchevo, distrito Kolomenskii, regio de Moscou.
	5. Profisso: empregado de cooperativa.
	6. Filiao sindical: sindicato dos empregados de cooperativa.
	7. Patrimnio no momento da priso (descrio detalhada): 1 casa de madeira, de 8 metros por 8, telhado de zinco, um ptio parcialmente coberto, de 20 metros por 7, 1 vaca, 4 ovelhas, 2 porcos, aves.
	8. Patrimnio em 1929: o mesmo, mais um cavalo.
	9. Patrimnio em 1917: 1 casa de madeira, 8 metros por 8; 1 ptio parcialmente coberto, de 30 metros por 20; 2 granjas, 2 celeiros, 2 cavalos, 2 vacas, 7 ovelhas.
	10. Situao social no momento da priso: empregado.
	11. Servio no exrcito czarista: em 1915-1916, soldado de infantaria de segunda classe no 6 RI do Turquesto.
	12. Servio no Exrcito Branco: nenhum.
	13. Servio no Exrcito Vermelho: nenhum.
	14. Origem: considero-me como um filho de campons mdio.
	15. Passado poltico: sem partido.
	16. Nacionalidade, cidadania: russo, cidado de Moscou.
	17. Filiao ao PC(b)R: no.
	18. Nvel escolar: primrio.
	19. Situao militar atual: reservista.
	20. Condenaes passadas: nenhuma.
	21. Estado de sade: hrnia.
	22. Situao familiar: casado. Esposa: Anastasia Fedorovna, 43 anos, kol- khoziana; filha: Nina, 24 anos.
	Preso em 13 de fevereiro de 1938 pela direo de distrito do NKVD.
	2. Extratos do protocolo de interrogatrio.
	Questo: D-nos explicaes concernentes a sua origem social e seu patrimnio antes e aps 1917.
	Resposta: Sou originrio de uma famlia de comerciantes. At mais ou menos 1904, meu pai possua uma pequena loja em Moscou, na rua Zolo-torojskaia, onde, segundo me disse meu pai, ele fazia comrcio sem ter um empregado sequer. Aps 1904, meu pai teve de fechar a loja, pois ele no podia concorrer com os grandes comerciantes. Ele retornou ao campo, a Sytchevo, onde arrendou seis hectares de terras prontas para a lavoura e dois hectares de pasto. Havia um empregado, um certo Goriatchev, que trabalhou com meu pai durante longos anos, at 1916. Aps 1917, mantivemos nossa terra, mas perdemos nossos cavalos. Trabalhei com meu pai at 1925, e depois de sua morte eu e meu irmo dividimos aterra.
	No me reconheo como culpado de nada.
	3. Extratos do ato de acusao.
	[...] Sidorov, mal-intencionado em relao ao poder sovitico em geral e o Parado em particular, praticava sistematicamente uma propaganda anti-sovitica, dizendo: Stalin e seu bando no querem deixar o poder, Stalin matou um monte de gente, mas ele no quer ir-se embora. Os bolcheviques mantm o poder, prendem as pessoas honestas, e mesmo disso no podemos falar, seno somos jogados num campo de concentrao por 25 anos.
	O acusado Sidorov declarou-se no culpado, mas foi desmascarado por vrias testemunhas. O caso foi levado a julgamento por uma troika.
	Assinado: Salakhaiev, subtenente de milcia do distrito de Kolomenskoie.
	Acordado por: Galkine, tenente da Segurana de Estado, chefe do destacamento da Segurana de Estado do distrito de Kolomenskoie.
	4. Extratos do protocolo da deciso da troika, 16 de julho de 1938.
	[...] Caso Sidorov, V. K. Antigo comerciante, possua com seu pai uma loja. Acusado de ter praticado, entre os kolkhozianos, uma propaganda contra-revolucionria, caracterizada por expresses derrotistas, acompanhada de ameaas aos comunistas e de crticas  poltica do Partido e do governo.
	Veredicto: fuzilar Sidorov Vassili Klementovitch e confiscar todos os seus bens.
	A sentena foi executada em 3 de agosto de 1938.
	Reabilitado a ttulo pstumo em 24 de janeiro de 1989.
	(Fonte: Volia, 1994, ns. 2-3, pp. 45-6.)
	A purificao tambm causou seus estragos entre os comunistas hngaros. Bela Kun, o instigador da Revoluo Hngara de 1919, foi preso e executado, assim como 12 outros comissrios do povo do efmero governo comunista de Budapeste, todos refugiados em Moscou. Cerca de 200 comunistas italianos foram presos (entre os quais Paolo Robotti, o cunhado de Togliatti), ao mesmo tempo que uma centena de comunistas iugoslavos (entre eles Gorkic, o secretrio-geral do Partido, Vlada Copie, secretrio na organizao	e dirigente das brigadas internacionais, assim como trs quartos dos membros do Comit Central).
	Mas foram os poloneses os que pagaram o tributo mais pesado.  situao dos comunistas poloneses era especial: o Partido Comunista polons -que havia sido admitido em 1906, sob uma base de autonomia, no seio do Partido Operrio Social Democrata da Rssia - derivava do Partido Social Democrata dos reinos da Polnia e da Litunia. As ligaes entre o Partido russo e o Partido polons, do qual um dos dirigentes de antes de 1917 era o prprio Feliks Dzerjinski, eram bastante estreitas. Vrios dos social-democra-tas poloneses haviam feito carreira no Partido Bolchevique: Dzerjinski, Menjinski, Unschlikht (todos dirigentes da GPU), Radek... para citar apenas os nomes mais conhecidos.
	Em 1937-1938, o Partido Comunista polons foi totalmente liquidado. Os 12 membros poloneses do Comit Central presentes na URSS foram executados, assim como todos os representantes poloneses das instncias da Internacional Comunista. Em 28 de novembro de 1937, Stalin assinou um documento propondo a limpeza do Partido Comunista polons. Em geral, aps ter feito expurgar um partido, Stalin escolhia um novo grupo dirigente pertencente a uma das faces rivais surgidas durante o expurgo. No caso do Partido Comunista polons, todas as faces foram acusadas de seguirem as instrues dos servios secretos contra-revolucionrios poloneses. Em 16 de agosto de 1938, o Comit Executivo da Internacional votou a dissoluo do Partido Comunista polons. Como explicou Manuilski, os agentes do fascismo polons se arranjaram para ocupar todos os postos-chave do Partido Comunista polons.
	Tendo sido enganados, tendo falhado na vigilncia, os responsveis soviticos pela Internacional Comunista foram, naturalmente, as prximas vtimas do expurgo: quase todos os quadros soviticos da Internacional (entre os quais Knorin, membro do Comit Executivo, Mirov-Abramov, chefe do departamento de comunicaes com o estrangeiro, Alikhanov, chefe do departamento de quadros), ou seja, vrias centenas de pessoas, foram liquidadas. Somente alguns raros dirigentes, totalmente leais a Stalin, como Manuilski ou Kuusinen, sobreviveram ao expurgo da Internacional.
	Entre as outras categorias duramente afetadas durante os anos 1937-1938, e sobre as quais dispomos de dados precisos, figuram os militares. Em 11 de junho de 1937, a imprensa anunciou que um tribunal militar, reunido a portas fechadas, condenara  morte, por traio e espionagem, o Marechal Tukhatchevski, vice-comissrio para a Defesa e principal artfice da modernizao do Exrcito Vermelho, que repetidos diferendos haviam oposto a Stalin e a Vorochilov desde a campanha da Polnia de 1920, assim como sete generais de exrcito, lakir (Comandante da Regio Militar de Kiev), Uborevitch (Comandante da Regio Militar da Bielo-Rssia), Eideman, Kork, Putna, Feldman e Prmakov. Nos dez dias seguintes, 980 oficiais superiores foram presos, entre os quais 21 generais de quatro estrelas e 37 generais de diviso. O caso do compl militar, imputado a Tukhatchevski e a seus cmplices, havia sido preparado h vrios meses. Os principais inculpados foram presos durante o ms de maio de 1937. Submetidos a interrogatrios forados (examinados 20 anos mais tarde,  poca da reabilitao de Tukhatchevski, vrias pginas do depoimento do marechal continham traos de sangue), conduzidos por lejov em pessoa, os acusados passaram s confisses pouco tempo antes de seu julgamento. Stalin supervisionou pessoalmente toda a instruo dos processos. Ele recebera, por volta de 15 de maro, atravs do embaixador sovitico em Praga, um dossi falsificado, estabelecido pelos servios secretos nazistas, contendo cartas falsificadas, supostamente trocadas por Tukhatchevski e pelos membros do alto comando alemo. Os servios alemes haviam sido, por sua vez, manipulados pelo NKVD.
	Em dois anos, o expurgo do Exrcito Vermelho eliminou:
	- 3 dos 5 marechais (Tukhatchevski, legorov e Blcher, estes dois ltimos tendo sido eliminados, respectivamente, em fevereiro e outubro de 1938);
	- 13 dos 15 generais de cinco estrelas;
	- 8 dos 9 almirantes;
	- 50 dos 57 generais de quatro estrelas;
	- 154 dos 186 generais de diviso;
	- 16 dos 16 comissrios de exrcito;
	- 25 dos 28 comissrios de diviso de exrcito.
	De maio de 1937 a setembro de 1938, 35.020 oficiais foram presos ou expulsos do exrcito. Ainda no sabemos quantos foram executados. Cerca de 11.000 (entre os quais os generais Rokossovski e Gorbatov) foram chamados de volta entre 1939 e 1941. Mas, aps setembro de 1938, ocorreram novos expurgos, de forma que o nmero total de prises do Grande Terror no exrcito atingiu, segundo as estimativas mais srias, cerca de 30.000 quadros, sobre um total de 178.000. Proporcionalmente menos importante do que se pensava, o expurgo do Exrcito Vermelho, principalmente em seus escales mais elevados, se fez sentir durante a guerra russo-finlandesa de 1940 e o incio da guerra germano-sovitica, e constituiu uma das mais pesadas desvantagens para o Exrcito Vermelho.
	Apesar da ameaa hitlerista - que ele levava muito menos a srio do que outros dirigentes bolchevistas, como Bukharin ou Litvinov, comissrio do povo para os negcios estrangeiros at abril de 1939 - Stalin no hesitou em sacrificar a maior parte dos melhores oficiais do Exrcito Vermelho em benefcio de um escalonamento totalmente novo, que no guardasse nenhuma memria dos episdios controvertidos que implicavam Stalin como chefe militar durante a guerra civil, e que no seria tentado a contestar, como poderiam ter feito homens como o marechal Tukhatchevski, um certo nmero de decises militares e polticas tomadas por Stalin no fim dos anos 30, principalmente a aproximao com a Alemanha nazista.
	A intelligentsia representa um outro grupo social vtima do Grande Terror sobre o qual dispomos de informaes relativamente abundantes. Desde sua constituio como grupo social reconhecido, a intelligentsia russa estivera, a partir da metade do sculo XIX, no centro da resistncia ao despotismo e ao assujeitamento do pensamento. Era natural que o expurgo lhe atingisse particularmente, na continuidade das primeiras ondas de represso - em comparao, muito moderadas - de 1922 e de 1928-1931. Em maro-abril de 1937, uma campanha de imprensa condenou o desviacionismo nos campos da economia, da histria e da literatura. Na realidade, todos os ramos do saber e da criao foram visados, com os pretextos doutrinrios e polticos servindo sobretudo para cobrir rivalidades e ambies. Assim, em histria, foram presos todos os discpulos de Pokrovski, morto em 1932. Os professores, que deviam continuar a fazer conferncias pblicas e que eram assim suscetveis de influenciar um amplo auditrio de estudantes, eram particularmente vulnerveis; o menor de seus propsitos podia ser relevado por delatores zelosos. Universidades, institutos e academias foram dizimados, principalmente na Bielo-Rssia (onde 87 dos 105 acadmicos foram presos como espies poloneses) e na Ucrnia. Nesta repblica, um primeiro expurgo de nacionalistas burgueses acontecera em 1933: vrios milhares de intelectuais ucranianos foram presos por terem transformado em antros nacionalistas burgueses e contra-revolucionrios a Academia Ucraniana de Cincias, o Instituto Chevtchenko, a Academia Agrcola, o Instituto Ucraniano do Marxismo-Leninismo, assim como os Comissariados do Povo para a Educao, para a Agricultura e para a Justia (discurso de Postychev, 22 de junho de 1933). O grande expurgo de 1937-1938 terminou nesse ponto uma operao iniciada quatro anos antes.
	Os meios cientficos que tinham relao, mesmo distante, com a poltica, a ideologia, a economia ou a defesa tambm foram atingidos. As maiores sumidades da indstria aeronutica, como Tupolev (o construtor do famoso avio) ou Korolev (que estivera na origem do primeiro programa espacial sovitico), foram presas e enviadas para uma das unidades de pesquisa do NKVD descritas por Soljenitsyne em O Primeiro Circulo. Tambm foram presos quase todos (27 dos 29) os astrnomos do grande Observatrio de Pulkovo; quase todos os estatsticos da Direo Central da Economia Nacional, que acabavam de realizar o recenseamento de janeiro de 1937, anulado por violao profunda dos fundamentos elementares da cincia estatstica e das instrues do governo; inmeros linguistas, que se opunham  teoria do linguista marxista Marr, aprovada oficialmente por Stalin; e vrias centenas de bilogos, que rejeitavam o charlatanismo do bilogo oficial Lyssenko. Entre as vtimas mais conhecidas figuravam o professor Levit, dire-tor do Instituto de Medicina Geral, Tulaikov, diretor do Instituto dos Cereais, o botnico lanata e o acadmico Vavilov, presidente da Academia Lenin das Cincias Agrcolas, preso em 6 de agosto de 1940 e morto na priso em 26 de janeiro de 1943.
	Acusados de defenderem pontos de vista estranhos ou hostis, de se desviarem das normas do realismo socialista, escritores, publicitrios, gente de teatro e jornalistas pagaram um pesado tributo  lejovschina. Cerca de dois mil membros da Unio dos Escritores foram presos, deportados para o campo ou executados. Entre as vtimas mais famosas constavam o autor dos Contos de Odessa e de Cavalaria Vermelha, Isaac Babel (fuzilado em 27 de janeiro de 1940), os escritores Boris Pilniak, luri Olecha, Panteleimon Romanov, os poetas Nikolai Kliuev, Nikolai Zabolotski, Ossip Mandelstam (morto em um campo de transferncia siberiano, em 26 de dezembro de 1938), Gurgen Maari, Titsian Tabidze. Tambm foram presos msicos (o compositor Jeliaiev, o maestro Mikoladze) e gente de teatro, entre os quais membros do primeiro escalo, como o grande diretor Vsevolod Meyerhold. No incio de 1938, o Teatro Meyerhold foi fechado como estranho  arte sovitica. Tendo se recusado a fazer publicamente sua autocrtica, Meyerhold foi preso em junho de 1939, torturado e executado em 2 de fevereiro de 1940.
	Durante esses anos, as autoridades tentaram liquidar definitivamente - para retomar uma expresso em voga  poca - os ltimos resqucios clericais. Como o recenseamento anulado de janeiro de 1937 revelara que a grande maioria da populao - cerca de 70% - respondera positivamente  questo Voc  crente?, apesar das presses de natureza diversa exercidas sobre ela, os dirigentes soviticos decidiram lanar um terceiro e ltimo assalto contra a Igreja. Em abril de 1937, Malenkov enviou uma nota a Stalin, na qual ele julgava ultrapassada a legislao sobre os cultos e propunha a anulao do decreto de 8 de abril de 1929. Este ltimo, explicava ele, criara uma base legal para a implantao de uma organizao ramificada de 600 indivduos hostis ao poder sovitico, pela parte mais ativa do clero e dos membros das seitas. J  tempo, conclua ele, de acabar com as organizaes clericais e com a hierarquia eclesistica. Milhares de sacerdotes e quase todos os bispos retomaram o caminho do campo, mas, dessa vez, um grande nmero deles foi executado. Das 20 mil igrejas e mesquitas ainda em atividade em 1936, menos de mil ainda estavam abertas ao culto no incio de 1941. Quanto ao nmero de adeptos do culto oficialmente registrados, ele teria se elevado, no incio de 1941, a 5.665 (dos quais a metade oriunda dos territrios blticos, poloneses, ucranianos e moldvios incorporados em 1939-1941), enquanto que ele ainda era superior a 24.000 em 1936.
	O Grande Terror, operao poltica iniciada e conduzida do incio ao fim pelas mais altas instncias do Partido, ou seja, por Stalin, que ento dominava totalmente seus colegas do Politburo, atingiu seus dois maiores objetivos.
	O primeiro era implantar uma burocracia civil e militar s ordens de Stalin, constituda por jovens quadros formados no esprito stalinista dos anos 30, que aceitaro qualquer tarefa que lhes for designada pelo Camarada Stalin, segundo as palavras de Kaganovitch no XVIII Congresso. At esse momento, as diversas administraes - mistura heterognea de especialistas burgueses formados sob o Antigo Regime e de quadros bolcheviques, em geral pouco competentes, formados na militncia durante a guerra civil - tentaram preservar seu profissionalismo, suas lgicas administrativas ou, simplesmente, sua autonomia e suas redes clientelistas, sem se dobrarem cegamente ao voluntarismo ideolgico e s ordens do Centro. As dificuldades da campanha de  verificao das carteiras do Partido de 1935, que se confrontara com a resistncia passiva dos dirigentes comunistas locais, assim como com a recusa, expressa pela maioria dos estatsticos, de embelezar os resultados do recenseamento de janeiro de 1937, colocando-os em conformidade com os desejos de Stalin, representavam dois exemplos significativos que interpelavam os dirigentes stalinistas sobre a natureza da administrao de que dispunham para governar o pas. Era evidente que uma parte importante dos quadros, fossem eles comunistas ou no, no estava disposta a seguir qualquer ordem que emanasse do Centro. Assim, para Stalin, era urgente substitu-los por pessoas mais eficazes, ou seja, mais obedientes.
	O segundo objetivo do Grande Terror era concluir, radicalmente, a eliminao de todos os elementos perigosos  sociedade, uma noo com contornos muito amplos. Como indicava o Cdigo Penal, era reconhecido corno socialmente perigoso todo indivduo tendo cometido um ato perigoso para a sociedade, ou cujas relaes com um meio criminal, ou a atividade pregressa apresentavam um perigo. Todo o vasto bando dos ex foi definido como perigosos  sociedade segundo esses princpios; na maioria das vezes, eles haviam sido objeto de medidas repressivas no passado: ex-kulaks, ex-crimino-sos, ex-funcionrios czaristas, ex-membros dos Partidos Menchevique, Socialista-Revolucionrio, etc. Todos esses ex foram eliminados durante o Grande Terror conforme a teoria stalinista, expressa principalmente durante o plenrio do Comit Central de fevereiro-maro de 1937, segundo a qual quanto mais se avana em direo ao socialismo, mais ferrenha  a luta dos resqucios das classes moribundas.
	Durante seu discurso ao plenrio do Comit Central de fevereiro-maro de 1937, Stalin insistiu particularmente na idia do cercamento da URSS, nico pas que construiu o socialismo, por potncias inimigas. Essas potncias limtrofes - a Finlndia, os Pases Blticos, a Polnia, a Romnia, a Turquia, o Japo -, ajudadas pela Frana e pela Gr-Bretanha, enviaram  URSS exrcitos de diversionistas e de espies, encarregados de sabotar a construo do socialismo. Estado nico, sacralizado, a URSS possua fronteiras sagradas, que eram tambm linhas de frente contra um inimigo exterior onipresente. No  surpreendente que, nesse contexto, a caa aos espies -todos aqueles que tiveram o mais leve contato com o outro mundo- e a eliminao de uma potencial e mtica quinta coluna tenham estado no centro do Grande Terror.
	Atravs das grandes categorias de vtimas - quadros e especialistas, elementos estranhos  sociedade (os ex), espies - compreendemos as principais funes do paroxismo da condenao  morte de 700 mil pessoas em dois anos.

	11. O imprio dos campos de concentrao

	Os anos 30, marcados por uma represso sem precedentes  sociedade, viram um crescimento espetacular do sistema concentracionrio. Os arquivos do Gulag, atualmente acessveis, permitem delimitar com preciso sua evoluo ao longo desses anos, suas diferentes reorganizaes, o fluxo e o nmero de detentos, sua importncia econmica, a repartio por tipo de condenaes, sexo, idade, nacionalidade e nvel de instruo. Decerto, as zonas de sombra subsistem; a burocracia do Gulag funcionava muito bem na contabilizao dos prisioneiros que chegavam a seu destino. Mas, em termos estatsticos, no sabemos quase nada sobre os que nunca chegaram ao seu destino, quer eles tenham morrido na priso ou durante as interminveis transferncias, apesar de no faltarem descries do calvrio entre o momento da priso e a condenao.
	Em meados de 1930, cerca de 140.000 detentos j trabalhavam nos campos geridos pela GPU. O imenso canteiro de obras do canal Bltico-Mar Branco, que necessitava de uma mo-de-obra servil de 120.000 indivduos apenas para seu prprio desenvolvimento, acelerou a transferncia das prises para os campos de dezenas de milhares de presos, enquanto o fluxo de condenaes no cessava de aumentar: 56.000 condenados, em 1929, nos casos conduzidos pela GPU e mais de 208.000 em 1930 (contra 1.178.000 condenados por casos que no diziam respeito  GPU e 1.238.000 em 1931). No incio de 1932, mais de 300.000 detentos cumpriam pena nos grandes canteiros de obras da GPU, onde a taxa de mortalidade anual chegava a 10%, como foi o caso do canal Bltico-Mar Branco.
	Em julho de 1934, durante a reorganizao da GPU em NKVD, o Gulag - principal unidade administrativa dos campos de concentrao - absorveu 780 pequenas colnias penitencirias que reuniam cerca de 212.000 detentos, julgados pouco produtivos e mal geridos e que dependiam at ento do Comissariado do Povo para a Justia. Para ser produtivo, e  imagem do pas, o campo deveria ser grande e especializado. Imensos complexos penitencirios, reunindo dezenas de milhares de presos cada um, iriam ocupar um lugar primordial na economia da URSS stalinista. Em l de janeiro de 1935, o sistema a partir de ento unificado do Gulag reunia mais de 965.000 presos, dos quais 725.000 nos campos de trabalho e 240.000 nas colnias de trabalho, unidades menores onde eram colocados os indivduos menos perigosos para a sociedade, em geral condenados a penas inferiores a trs anos.
	Nessa data, o mapa do Gulag j estava, em suas grandes linhas, traado pelas duas prximas dcadas. O conjunto penitencirio das ilhas Solovki, que contava com cerca de 45.000 presos havia alastrado seus campos mveis que se deslocavam em funo dos canteiros de corte de madeira ao mesmo tempo na Carlia, no litoral do Mar Branco e na regio de Vologda. O grande conjunto do Svirlag, reunindo cerca de 43.000 presos, tinha como tarefa abastecer de lenha toda a aglomerao de Leningrado, enquanto que o de Temnikovo, com 35.000 presos, estava encarregado de funes idnticas para a aglomerao de Moscou.
	A partir da encruzilhada estratgica de Kotlas, uma via Norte-Leste expandia seus trilhos, seu corte de madeira e suas minas em direo a Oeste-Vym, Ukhta, Petchora e Vorkuta. O Ukhtpetchlag empregava 51.000 presos na construo de estradas, nas minas de carvo e nos campos petrolferos dessa regio do extremo norte. Uma outra ramificao partia em direo ao norte do Ural e aos complexos qumicos de Solikamsk e Berezniki, enquanto que rumava para o sudoeste o conjunto de campos da Sibria Ocidental, com seus 63.000 presos, fornecendo mo-de-obra gratuita para o complexo carbonfero de Kuzbassugol.
	Mais ao sul, na regio de Karaganda, no Cazaquisto, os campos agrcolas do Steplag, que contavam com 30.000 presos, experimentavam uma nova frmula para a valorizao das estepes. Segundo parece, o regime nesse campo era menos rigoroso do que o do maior canteiro de obras de meados dos anos 30, o Dmitlag (196.000 presos), encarregado, aps o trmino do canal Bltico-Mar Branco em 1933, da construo do segundo grande canal stalinista, o canal Moscou-Volga.
	Um outro grande e faranico canteiro de obras era o BAM (Baikalo-Amurskaia Magistral), a estrada de ferro que deveria duplicar o Transiberiano do lago Baikal at o Amur. No incio de 1935, cerca de 150.000 presos do conjunto concentracionrio do Bamlag, divididos em cerca de 30 divises, trabalhavam sobre um primeiro tronco da via frrea. Em 1939, o Bamlag era, com 260.000 presos, o mais vasto conjunto concentracionrio sovitico.
	Enfim, desde 1932, um conjunto de campos de concentrao (o Sewostlag, os campos do Noroeste) trabalhava para um complexo de grande importncia estratgica, o Dalstroi, encarregado da produo do ouro exportado para comprar o equipamento necessrio  industrializao. As jazidas de ouro estavam situadas numa regio particularmente inspita, a Kolyma. Completamente isolada, uma vez que o acesso a ela s era possvel atravs do mar, a Kolyma se tornaria a regio smbolo do Gulag. Sua capital Magadan, porto de entrada para os proscritos, foi edificada pelos prprios presos. Sua rua calcada, artria vital, tambm ela construda pelos prprios presos, servia apenas como ligao entre os campos, cujas condies de vida particularmente desumanas foram magistralmente descritas nos romances de Variam Chalamov. De 1932 a 1939, a produo do ouro extrado pelos presos de Kolyma - eles eram 138.000 em 1939 - passou de 276 quilos para 48 toneladas, ou seja, 35% da produo sovitica deste ltimo ano.
	Em junho de 1935, o governo lanou um novo grande projeto, que no podia ser concretizado sem o uso de uma mo-de-obra penal, a construo de um grande complexo de produo de nquel em Norilsk, para alm do crculo polar. O conjunto concentracionrio de Norilsk contaria, no apogeu do Gulag, no incio dos anos 50, com at 70.000 presos. A funo produtiva do campo de concentrao dito de trabalho corretivo estava claramente refleti-da nas estruturas internas do Gulag. As direes centrais no obedeciam a princpios geogrficos nem funcionais, mas econmicos: direo das construes hidroeltricas, direo de construes ferrovirias, direo de pontes e estradas, etc. Entre essas direes penitencirias e as direes dos ministrios industriais, o preso ou o colono especial era uma mercadoria que funcionava como moeda de troca.
	Na segunda metade dos anos 30, a populao do Gulag dobrou, passando de 965.000 presos no incio de 1935 para 1.930.000 no incio de 1941. Apenas no decorrer do ano de 1937, houve um crescimento de 700.000 pessoas. O afluxo em massa de novos presos desorganizou a tal ponto a produo daquele ano, que seu valor diminuiu 13% em relao a 1936! Ela continuou estagnada em 1938 at que o novo comissrio do povo para o Interior, Lavrenti Beria, tomou medidas enrgicas para racionalizar o trabalho dos presos. Em uma nota de 10 de abril de 1939 dirigida ao Politburo, Beria exps seu programa de reorganizao do Gulag. Segundo ele, seu predecessor, Nikolai lejov, havia privilegiado a caa aos inimigos em detrimento de uma gesto economicamente s. A norma de alimentao dos presos, que era de 1.400 calorias por dia, havia sido calculada para pessoas sentadas na priso. Assim, o nmero de indivduos aptos para o trabalho havia desmoronado no decorrer dos anos precedentes; em l? de maro de 1939, 250.000 presos estavam inaptos para o trabalho e 8% da totalidade dos presos morreram apenas no decorrer do ano de 1938. Para poder realizar o plano de produo reservado ao NKVD, Beria propunha o aumento das raes alimentares, a supresso de todas as libertaes antecipadas, a punio exemplar de todos os mandries e outros desorganizadores da produo e, enfim, o prolongamento do tempo de trabalho, que seria aumentado para 11 horas por dia, com trs dias de repouso por ms, a fim de explorar ao mximo todas as capacidades fsicas dos presos.
	Contrariamente a uma idia amplamente aceita, os arquivos do Gulag revelam que a rotao dos presos era bastante grande, pois de 20% a 35% dentre eles eram soltos a cada ano. Essa rotao se explica pelo nmero relativamente elevado de penas inferiores a cinco anos, representando cerca de 57% dos presos em campos de concentrao no incio de 1940. A total arbitrariedade de uma administrao e de uma jurisdio de exceo, principalmente para os polticos encarcerados em 1937-1938, chegou a ponto de, dez anos mais tarde, prorrogar as penas que chegavam a seu fim. Entretanto, a entrada em um campo de concentrao no significava, em regra geral, uma passagem sem volta. Alis, toda uma srie de penas anexas, tais como a fixao de residncia ou o exlio, estavam previstas para o ps-campo!
	Contrariamente tambm a uma outra opinio corrente, os campos de concentrao do Gulag estavam longe de acolher uma maioria de polticos, condenados por atividades contra-revolucionrias referidas em uma das 14 alneas do tristemente clebre artigo 58 do Cdigo Penal. O contingente de polticos oscilava, de acordo com o ano em questo, entre um quarto e um tero dos efetivos do Gulag. O que no significa que todos os outros detentos fossem prisioneiros comuns, no sentido habitual desse termo. Eles foram parar no campo de concentrao por terem infringido uma das vrias leis repressivas que cada centro de atividades sancionava, indo desde a dilapidao da propriedade socialista, a infrao  lei dos passaportes, o vandalismo, a especulao, at o abandono do posto de trabalho, a sabotagem ou ainda o no-cumprimento de um nmero mnimo de jornadas de trabalho nos kolkhozes. Nem polticos, nem prisioneiros comuns no sentido habitual do termo, a grande maioria dos presos do Gulag era formada simplesmente por simples cidados vtimas da penalizao geral das relaes de trabalho e de um nmero crescente de comportamentos sociais. Tal era o resultado de uma dcada de represso praticada pelo Partido-Estado contra os mais amplos setores da sociedade.
	Tentemos esboar um balano provisrio dos diversos aspectos dessa represso que, naturalmente, no se situam no mesmo plano.
	- 6 milhes de mortos como consequncia da fome de 1932-1933, uma catstrofe amplamente imputada  poltica de coletivizao forcada e de antecipao predatria feita pelo Estado sobre as colheitas dos kolkhozes;
	- 720.000 execues, das quais mais de 680.000 apenas nos anos de 1937-1938, subsequentes a uma pardia de julgamento feita por umajurisdio especial da GPU-NKVD;
	- 300.000 bitos atestados nos campos de concentrao entre 1934 e 1940; cerca de 400.000 para toda a dcada, nmeros que, sem dvida, podemos generalizar para os anos de 1930-1933, anos sobre os quais no dispomos de dados precisos, sem contar o nmero inverifi- cvel de pessoas mortas entre o momento de sua priso e seu registro como os que entram pela burocracia penitenciria;
	- cerca de 600.000 bitos atestados entre os deportados, deslocados e colonos especiais;
	- cerca de 2.200.000 deportados, deslocados ou colonos especiais;
	- um nmero acumulado de 7 milhes de pessoas que deram entrada nos campos de concentrao e colnias do Gulag entre 1934 e 1941, com dados insuficientes para os anos 1930-1933.
	Em l de janeiro de 1940, 53 conjuntos de campos de trabalho corre-tivo e as 425 colnias de trabalho corretivo reuniam 1.670.000 presos; eles chegaram a ser 1.930.000 no ano seguinte. As prises encarceravam cerca de 200.000 pessoas que esperavam seu julgamento ou sua transferncia para um campo de concentrao. Enfim, 1.800 komandatures do NKVD geravam mais de 1.200.000 colonos especiais. Esses poucos nmeros, mesmo fortemente revisados por baixo em relao a algumas estimativas recentemente apresentadas por historiadores e testemunhas, que com freqncia confundiam o fluxo da entrada no Gulag e o nmero de presos presentes em tal ou tal data, mostram a dimenso da represso da qual foram vtimas as mais variadas camadas da sociedade sovitica no decorrer dos anos 30.
	Do fim de 1939 ao vero de 1941, os campos de concentrao, as colnias e os povoamentos especiais do Gulag sofreram um novo afluxo de proscritos. Esse movimento estava ligado  sovietizao de novos territrios e a uma criminalizao sem precedentes dos comportamentos sociais, especialmente no mundo do trabalho.
	Em 24 de agosto de 1939, o mundo estupefato soube da notcia da assinatura, na vspera, de um tratado de no-agresso entre a URSS stalinista e a Alemanha hiderista. O anncio do pacto produziu um verdadeiro choque nos pases europeus diretamente implicados pela crise, cuja opinio pblica no havia sido preparada para o que parecia uma reverso total das alianas, poucas mentes tendo ento compreendido o que podia unir dois regimes de ideologias to opostas.
	Em 21 de agosto de 1939, o governo sovitico havia adiado as negociaes conduzidas com a misso franco-inglesa, que viera a Moscou, em 11 de agosto, com o objetivo de concluir um acordo de engajamento recproco das trs partes no caso de uma agresso alem a uma delas. Desde o incio do ano de 1939, a diplomacia sovitica, dirigida por Viatcheslav Molotov, esquivava-se gradativamente da idia de um acordo com a Frana e com a Gr-Bretanha, suspeitas de estarem prontas a conclurem novos Munique  custa dos poloneses, o que deixaria o leste livre para os alemes. Enquanto as negociaes entre soviticos, de uma parte, e britnicos e franceses, de outra parte, patinavam em problemas insolveis - por exemplo, como, em caso de agresso alem contra a Frana, o Exrcito Vermelho poderia atravessar a Polnia para atacar a Alemanha? - os contatos entre representantes soviticos e alemes em diversos nveis tomavam um novo contorno. Em 14 de agosto, o ministro alemo de relaes exteriores, Ribbentrop, props uma visita a Moscou para concluir um amplo acordo poltico com os dirigentes soviticos. Stalin aceitou prontamente.
	No dia 19, alemes e soviticos assinaram um acordo comercial que estava sendo negociado desde o fim de 1938 e que se mostrava bastante vantajoso para a URSS. Na mesma noite, os soviticos aceitaram que Ribbentrop viesse a Moscou para assinar um pacto de no-agresso j elaborado pelo lado sovitico e transmitido imediatamente a Berlim. O ministro alemo, dotado de plenos poderes extraordinrios, chegou em Moscou na tarde do dia 23, e o tratado de no-agresso assinado durante a noite foi tornado pblico no dia 24. Vlido por dez anos, ele entrava imediatamente em vigor. A parte mais importante do acordo, que delimitava as esferas de influncia e as anexaes de dois pases do Leste Europeu, permaneceu, evidentemente, secreta. At 1989, os dirigentes soviticos negavam, contra a evidncia, a existncia desse protocolo secreto, verdadeiro crime contra a paz cometido pelas duas potncias signatrias. Nos termos desse texto, a Litunia entrava na esfera de interesse da Alemanha; a Estnia, a Letnia, a Finlndia e a Bessarbia, na esfera sovitica. Quanto  Polnia, se a questo da manuteno de um resto de Estado polons permanecia em suspenso, a URSS devia, o que quer que acontecesse, recuperar, aps a interveno militar dos alemes e dos soviticos contra a Polnia, os territrios bielo-russos e ucranianos cedidos em seguida ao tratado de Riga, em 1920, assim como uma parte dos territrios histrica e etnicamente poloneses nas provncias de Lublin e de Varsvia.
	Oito dias aps a assinatura do pacto, as tropas nazistas atacaram a Polnia. Uma semana mais tarde, em 9 de setembro, diante do desmoronamento da resistncia polonesa e com a insistncia dos alemes, o governo sovitico fez saber a Berlim sua inteno de ocupar rapidamente os territrios que lhe cabiam segundo os termos do acordo secreto de 23 de agosto. Em 17 de setembro o exrcito russo penetrou na Polnia sob o pretexto de ajudar os irmos de sangue ucranianos e bielo-russos ameaados pela desagregao do Estado polons. A interveno sovitica num momento em que o exrcito polons estava praticamente aniquilado encontrou pouca resistncia. Os soviticos fizeram 230.000 prisioneiros de guerra, dos quais 15.000 eram oficiais.
	A idia de deixar um Estado-tampo polons, esboada durante algum tempo por alemes e soviticos, foi rapidamente abandonada, o que tornou ainda mais delicada a fixao da fronteira entre a Alemanha e a URSS. Prevista em 22 de setembro, sobre o traado do rio Vstula, em Varsvia, ela foi prorrogada em direo a leste at o rio Bug, durante a vinda de Ribbentrop a Moscou em 28 de setembro. Em troca dessa concesso sovitica em relao aos termos do protocolo secreto de 23 de agosto, a Alemanha inclua a Litunia na esfera dos interesses soviticos. A partilha da Polnia permitiu  URSS anexar amplos territrios de 124 mil quilmetros quadrados, povoados por 12 milhes de habitantes, bielo-russos, ucranianos e poloneses. Em l? e 2 de novembro, aps o simulacro de uma consulta ao povo, esses territrios foram anexados s repblicas soviticas da Ucrnia e da Bielo-Rssia.
	Nessa data, a limpeza dessas regies pelo NKVD j estava em estgio bem adiantado. Os primeiros visados foram os poloneses, detidos e deportados em massa como elementos hostis. Entre os mais expostos figuravam os proprietrios rurais, industriais, comerciantes, funcionrios, policiais e colonos especiais (osadnicy wojskowi) que haviam recebido do governo polons um quinho de terra nas regies fronteirias como recompensa por servios prestados durante a guerra sovitico-polonesa de 1920. De acordo com estatsticas do departamento de colonos especiais do Gulag, em fevereiro de 1940 e junho de 1941, 381.000 civis poloneses, somente nos territrios anexados pela URSS em setembro de 1939, foram deportados como colonos especiais para a Sibria, a regio de Arkhangelsk, o Cazaquisto e outras regies afastadas da URSS. Os nmeros considerados pelos historiadores poloneses so bem mais altos, elevando-se  ordem de um milho de pessoas deportadas. Infelizmente, no dispomos de nenhum dado preciso sobre as prises e as deportaes de civis praticadas entre setembro de 1939 e janeiro de 1940.
	Para o perodo posterior, os documentos de arquivo atualmente acessveis do conta de trs grandes ondas de deportaes, em 9 e 10 de fevereiro, em 12 e 13 de abril e em 28 e 29 de junho de 1940. Eram necessrios dois meses para que os comboios realizassem uma viagem de ida e volta entre a fronteira polonesa e a Sibria, o Cazaquisto ou o extremo Norte. No que concerne aos prisioneiros de guerra poloneses, apenas 82.000 dos 230.000 sobreviveram at o vero de 1941. As perdas entre os colonos especiais poloneses tambm foram bastante elevadas. Com efeito, em agosto de 1941, aps o acordo com o governo polons no exlio, o governo sovitico concedeu uma anistia aos poloneses deportados a partir de novembro de 1939, mas s eram encontrveis 243.100 colonos especiais, enquanto que pelo menos 381.000 haviam sido deportados entre fevereiro de 1940 e junho de 1941. No total, 388.000 poloneses prisioneiros de guerra, refugiados internos e deportados civis foram beneficiados por essa anistia. Vrias centenas de milhares haviam desaparecido no decorrer dos dois anos precedentes. Um grande nmero dentre eles foi executado sob o pretexto de serem inimigos ferozes e determinados do poder sovitico.

	Carta de L. Beria, comissrio do povo para negcios interiores, a Stalin, em 5 de maro de 1940, ultra-secreta.
	Ao camarada Stalin.
	Um grande nmero de antigos oficiais do exrcito polons, antigos funcionrios da polcia e dos servios de informao poloneses, membros de partidos nacionalistas contra-revolucionrios, membros de organizaes de oposio con-tra-revolucionrias devidamente desmascaradas, desertores e outros, todos inimigos jurados do poder sovitico, plenos de dio contra o sistema sovitico, esto atualmente presos nos campos de prisioneiros de guerra do NKVD da URSS e nas prises situadas nas regies ocidentais da Ucrnia e da Bielo-Rssia.
	Os oficiais do exrcito e da polcia prisioneiros nos campos de concentrao tentam prosseguir com suas atividades contra-revolucionrias e mantm uma agitao anti-sovitica. Cada um deles espera somente pela libertao para entrar ati-vamente na luta contra o poder sovitico.
	Os rgos do NKVD das regies ocidentais da Ucrnia e da Bielo-Rssia descobriram um grande nmero de organizaes rebeldes contra-revolucionrias. Os antigos oficiais do exrcito e da polcia poloneses, assim como os policiais militares, tm um papel ativo na liderana de todas essas organizaes.
	Entre os antigos desertores e os que violaram as fronteiras do Estado est um bom nmero de pessoas que foram identificadas como pertencentes a organizaes contra-revolucionrias de espionagem e de resistncia.
	14.736 antigos oficiais, funcionrios, proprietrios de terras, policiais, policiais militares, carcereiros, colonos instalados nas regies fronteirias (psadnik) e agentes de informao (dos quais mais de 97% so poloneses) encontram-se presos nos campos de prisioneiros de guerra. Esse nmero no compreende nem os simples soldados, nem os suboficiais.
	Podem-se contar entre eles:
	- Generais, coronis e tenentes-coronis = 295
	- Comandantes e capites = 2.080
	- Tenentes, subtenentes e aspirantes = 6.049
	- Oficiais e suboficiais da polcia, das guardas de fronteira e da polcia militar = 1.030
	- Agentes de polcia, policiais militares, carcereiros e agentes de informao = 5.138
	- Funcionrios, proprietrios de terra, padres e colonos instalados nas regies fronteirias = 144
	Outrossim, 18.632 homens esto presos nas prises das regies ocidentais da Ucrnia e da Bielo-Rssia (dos quais 10.685 poloneses).
	Podem-se contar entre eles:
	- Antigos oficiais = 1.207
	- Antigos agentes de informao, da polcia e da polcia militar = 5.141
	- Espies e sabotadores	 = 347
	-Antigos proprietrios de terras, proprietrios de fbricas e funcionrios = 465
	- Membros de diversas organizaes contra-revolucionrias de resistncia e elementos diversos = 5.345
	-Desertores = 6.127
	Uma vez que todos esses indivduos so ferozes e irredutveis inimigos do poder sovitico, o NKVD da URSS considera que  necessrio:
	1. Ordenar ao NKVD da URSS julgar perante tribunais especiais:
	a) 14.700 oficiais, funcionrios, proprietrios de terra, agentes de polcia, agentes de informao, policiais militares, colonos de regies fronteirias e carce reiros presos nos campos de prisioneiros de guerra;
	b) assim como 11.000 membros de diversas organizaes contra-revolucio nrias de espies e sabotadores, antigos proprietrios de terra, proprietrios de fabricas, antigos oficiais do exrcito polons, funcionrios e desertores que foram detidos e esto presos nas regies ocidentais da Ucrnia e da Bielo-Rssia, para APLICAR-LHES O CASTIGO SUPREMO: A PENA DE MORTE POR FUZILAMENTO.
	2. O estudo dos dossis individuais ser feito sem o comparecimento dos presos e sem ata de acusao. As concluses da investigao e da sentena final sero apresentadas como se segue:
	a) sob a fornia de certificados produzidos pela administrao dos casos dos prisioneiros de guerra do NKVD da URSS para os indivduos presos nos campos de prisioneiros de guerra;
	b) sob a forma de certificados produzidos pelo NKVD da RSS da Ucrnia e pelo NKVD da RSS da Bielo-Rssia para as outras pessoas presas.
	3. Os dossis sero examinados, e as sentenas pronunciadas pelo tribunal composto por trs pessoas, os camaradas Merkulov, Kobulov e Bachtalov.
	O comissrio do povo para o interior da URSS, L. Beria.

	Entre estes ltimos, figuravam principalmente os 25.700 oficiais e civis poloneses para os quais Beria havia, numa carta endereada a Stalin em 5 de maro de 1940, proposto o fuzilamento. Uma parte dos ossurios contendo os corpos dos supliciados foi descoberta, em abril de 1943, pelos alemes, na floresta de Katyn. Vrias fossas comuns continham os restos de 4.000 oficiais poloneses. As autoridades soviticas tentaram imputar o massacre aos alemes, e foi somente em 1992, durante uma visita de Boris Yeltsin a Varsvia, que as autoridades russas reconheceram a responsabilidade direta de Stalin e dos demais membros do Politburo na eliminao da elite polonesa em 1940.
	Imediatamente aps a anexao das regies pertencentes  Polnia, e conforme os acordos feitos com a Alemanha nazista, o governo sovitico convocou os chefes dos governos estoniano, leto e lituano a Moscou, e imps-lhes tratados de assistncia mtua em virtude dos quais esses pases concediam'' bases militares  URSS. Logo em seguida, 25.000 soldados soviticos se instalaram na Estnia, 30.000 na Letnia e 20.000 na Litunia. Esses efetivos j ultrapassavam, em larga medida, os dos exrcitos desses pases oficialmente ainda independentes. A instalao de tropas soviticas em outubro de 1939 marcou verdadeiramente o fim da independncia dos pases blticos. A partir de 11 de outubro, Beria deu a ordem para extirpar todos os elementos anti-soviticos e anti-sociais desses pases. Desde ento, a polcia militar sovitica multiplicou as prises de oficiais e de funcionrios, de intelectuais considerados como pouco seguros em relao aos objetivos posteriores da URSS.
	Em junho de 1940, no dia seguinte ao vitorioso ataque-relmpago das tropas alems  Frana, o governo sovitico decidiu concretizar todas as clusulas do protocolo secreto de 23 de agosto de 1939. Em 14 de junho, pretextando atos de provocao contra as guarnies soviticas, um ultimato foi dirigido aos dirigentes blticos, intimando-os  formao de um governo disposto a garantir uma aplicao honesta do tratado de assistncia e uma represso enrgica aos adversrios do dito tratado. Nos dias que se seguiram, vrias centenas de milhares de soldados soviticos ocuparam os pases blticos. Stalin enviou s capitais blticas seus representantes encarregados de empreender a sovietizao das trs repblicas, o procurador Vychinski a Riga, Jdanov a Tallinn e o dirigente da polcia poltica Dekanozov, vice-ministro das relaes exteriores da URSS, a Kaunas. Os parlamentos e as instituies locais foram dissolvidos, e a maioria de seus membros foi detida. O Partido Comunista foi o nico partido autorizado a apresentar candidatos s eleies que tiveram lugar em 14 e 15 de julho de 1940.
	Nas semanas precedentes a esse simulacro, o NKVD, sob a direo do general Serov, prendeu entre 15.000 e 20.000 elementos hostis. Somente na Letnia, l.480 opositores foram executados sumariamente no comeo do ms de julho. Os parlamentos eleitos solicitaram a admisso de seus pases no seio da URSS, pedido que foi naturalmente concedido no comeo de agosto pelo Soviete Supremo, que proclamou o nascimento de trs novas repblicas socialistas soviticas. Enquanto que, em 8 de agosto, o Pravda escrevia: A partir de hoje, o sol da grande Constituio stalinista derrama seus raios benficos sobre novos territrios e novos povos. Comeava para os blticos um perodo de prises, deportaes e execues.
	Os arquivos conservaram detalhes do desenrolar de uma grande operao de deportao de elementos hostis  sociedade dos pases blticos, da Moldvia, da Bielo-Rssia e da Ucrnia Ocidental, realizada na noite de 13 a 14 de junho de 1941, sob as ordens do general Serov. Essa operao havia sido planejada algumas semanas mais cedo, em 16 de maio de 1941, com Beria enviando a Stalin seu ltimo projeto de operao de limpeza dos elementos anti-soviticos, criminosos e estranhos  sociedade das regies recentemente integradas  URSS. No total, 85-716 pessoas foram deportadas em junho de 1941, entre os quais 25.711 blticos. Em seu relatrio de 17 de julho de 1941, Merkulov, o nmero dois do NKVD, fez o balano da parte bltica da operao. Durante a noite de 13 e 14 de junho de 1941, 11.038 membros das famlias de nacionalistas burgueses, 3.240 membros de famlias de ex-policiais e policiais militares, 7.124 membros de famlias de ex-proprietrios rurais, industriais e funcionrios, 1.649 membros de famlias de ex-oficiais e, enfim, 2.907 diversos foram deportados. Fica claro atravs desse documento que os chefes de famlia haviam sido previamente detidos e, provavelmente, executados. A operao de 13 de junho no visava, com efeito, seno os membros das famlias julgadas estranhas  sociedade.
	Cada famlia teve direito a cem quilos de bagagens, incluindo a comida para a viagem, pois o NKVD no se responsabilizava pela alimentao durante a transferncia! Os comboios s chegaram a seu destino - que era, para a maioria, a provncia de Novossibirsk ou o Cazaquisto - no final do ms de julho de 1941. Alguns s chegaram a seu lugar de deportao, a regio de Altai, em meados de setembro! Quantos deportados morreram no decorrer de seis a 12 semanas de viagem, lotados em nmero de 50 pessoas por cada vago de transporte de animais, com o que eles puderam levar como roupas e alimentos durante a noite de sua deteno? Uma outra operao de grande envergadura estava planejada por Beria para a noite de 27 para 28 de julho de 1941. A escolha desta data confirma que os mais altos dirigentes do Estado sovitico no desconfiavam do ataque alemo de 22 de junho. A operao Barba-roxa adiou por alguns anos o prosseguimento da limpeza pelo NKVD dos pases blticos.
	Alguns dias aps a ocupao dos pases blticos, o governo sovitico enviou  Romnia um ultimato exigindo o retorno imediato  URSS da Bessarbia, que havia feito parte do Imprio czarista e havia sido mencionada no protocolo secreto sovitico-alemo de 23 de agosto de 1939. Eles exigiam, entre outras coisas, a transferncia para a URSS da Bukovina do None, que nunca havia feito parte do Imprio czarista. Abandonados pelos alemes, os romenos se submeteram. A Bukovina e uma parte da Bessarbia foram incorporadas pela Ucrnia; o resto da Bessarbia tornou-se a Repblica Socialista Sovitica da Moldvia, proclamada no dia 2 de agosto de 1940. Nesse mesmo dia, Kobulov, adjunto de Beria, assinava uma ordem de deportao de 31.699 elementos anti-soviticos que viviam no territrio da RSS da Moldvia, e de 12.191 outros elementos anti-soviticos das regies romenas incorporadas  RSS da Ucrnia. Todos esses elementos haviam sido, em poucos meses, devidamente fichados segundo uma tcnica j bem utilizada. Na vspera, 19 de agosto de 1940, Molotov havia esboado diante do Soviete Supremo um quadro triunfante das aquisies do acordo germano-sovitico: em um ano, 23 milhes de habitantes haviam sido incorporados  Unio Sovitica.
	Mas o ano de 1940 tambm foi notvel por outra razo: o nmero de presos do Gulag, de deportados, de pessoas encarceradas nas prises soviticas e de condenaes penais atingiu seu apogeu. Em l de janeiro de 1941, os campos do Gulag contavam com 1.930.000 presos, ou seja, um aumento de 270.000 presos em um ano; mais de 500.000 pessoas dos territrios soviticos haviam sido deportadas, juntando-se aos 1.200.000 colonos especiais contabilizados no fim de 1939; as prises soviticas, com uma capacidade terica de 234.000 lugares, encarceravam mais de 462.000 indivduos; enfim, o nmero total de condenaes penais sofreu nesse ano um crescimento excepcional, passando, em um ano, de cerca de 700.000 para quase 2,3 milhes.
	Esse aumento espetacular tambm era resultado de uma penalizao sem precedentes das relaes sociais. Para o mundo do trabalho, o ano de 1940 ficou na memria coletiva como aquele do decreto de 26 de junho sobre a adoo da jornada de oito horas, da semana de sete dias e da proibio ao operrio de deixar a empresa por sua prpria iniciativa. A partir de ento, toda ausncia injustificada, comeando por um atraso superior a 20 minutos, era sancionada penalmente. O contraventor era passvel de trabalhos corretivos sem a privao da liberdade e de reteno de 25% de seu salrio, pena que poderia ser agravada com um aprisionamento de dois a quatro anos.
	Em 10 de agosto de 1940, um outro decreto trouxe sanes de um a trs anos em campo de concentrao para punir atos de vandalismo, a produo de refugos e os pequenos roubos no local de trabalho. Nas condies de funcionamento da indstria sovitica, todo operrio poderia ser penalizado por essa nova lei celerada.
	Esses decretos, que permaneceriam em vigor at 1956, marcavam uma nova etapa da penalizao do direito do trabalho. No decorrer dos seis primeiros meses de sua aplicao, mais de um milho e meio de pessoas foram condenadas, das quais mais de 400.000 a penas de priso; o que explica o importante crescimento do nmero de detentos nas prises a partir do vero de 1940. O nmero de vndalos condenados a penas em campos de concentrao passou de 108.000 em 1939 a 200.000 em 1940.
	Portanto, o fim do Grande Terror foi marcado por uma nova ofensiva, sem precedentes desde 1932, contra a gente comum que se recusava a curvar-se  disciplina da fbrica e do kolkhoz. Como respostas s leis celeradas do vero de 1940, um bom nmero de operrios, a julgar pelos relatrios dos informantes do NKVD, deram provas de estado de esprito malso, principalmente durante as primeiras semanas de invaso nazista. Eles desejavam claramente a eliminao dos judeus e dos comunistas e difundiam, de acordo com esse operrio moscovita cujas afirmaes foram transmitidas ao NKVD, rumores provocadores: Quando Hitler toma nossas cidades, ele distribui cartazes dizendo: 'Eu no farei com que os operrios passem diante de um tribunal, como faz o seu governo, quando eles chegam com um atraso de vinte minutos ao trabalho.' Tais afirmaes eram punidas com a mais extrema severidade, como indica um relatrio do procurador geral militar sobre os crimes e delitos cometidos nas estradas de ferro entre 22 de junho e 1 de setembro de 1941, causando 2.524 condenaes, das quais 204  pena capital. Entre essas condenaes, no se contavam menos de 412 por difuso de rumores contra-revolucionrios. Por esse crime, 110 trabalhadores em estradas de ferro foram condenados  morte. 
	Uma coletnea de documentos recentemente publicada sobre o esprito pblico em Moscou durante os primeiros meses da guerra20 destaca a desordem da gente comum diante do avano alemo do vero de 1941. Os moscovitas pareciam dividir-se em trs grupos - um de patriotas, um movedio onde nasciam e se difundiam os rumores, e um de derrotistas que desejava a vitria dos alemes sobre os judeus e bolcheviques, assemelhados e detestados. Em outubro de 1941, durante o desmonte das fbricas visando  evacuao em direo ao leste do pas, ocorreram desordens anti-soviticas nas empresas txteis da regio de Ivanovo. As afirmaes derrotistas mantidas por alguns operrios eram reveladoras do estado de desespero no qual se encontrava uma parte do mundo operrio, submetido desde 1940 a uma legislao cada vez mais dura.
	Entretanto, j que a barbrie nazista no acenava com nenhum futuro promissor aos sub-homens soviticos, votados ao extermnio, ou melhor,  escravido, ela acabou por reconciliar, num grande sobressalto patritico, a gente comum com o regime. Com bastante habilidade, Stalin soube reafirmar com fora os valores russos, nacionais e patriticos. Em seu clebre discurso radiodifundido em 3 de julho de 1941, ele retomou, para dirigir-se  Nao, o velho apelo que havia consolidado a comunidade internacional atravs dos sculos: Irmos e irms, um grave perigo ameaa a nossa ptria. As referncias  grande Nao russa de Plekhanov, de Lenin, de Puchkin, de Tolstoi, de Tchaikovski, de Tchekhov, de Lermontov, de Suvorov e de Kutuzov deviam servir como suporte para a guerra sagrada, a Grande Guerra Patritica. Em 7 de novembro de 1941, passando em revista os batalhes de voluntrios que partiam para o fronte, Stalin conjurou-os a lutarem sob a inspirao do glorioso exemplo dos ancestrais Alexandre Nevski e Dimitri Donskoi; o primeiro havia salvo a Rssia dos cavaleiros teutnicos no sculo XIII, e o segundo, um sculo mais tarde, pusera fim ao jugo trtaro.

	12. O avesso de uma vitria

	Entre as inmeras lacunas da histria sovitica figurou durante muito tempo, como um segredo particularmente bem-guardado, o episdio da deportao de povos inteiros durante a Grande Guerra Patritica, coletiva-mente suspeitos de diversionismo, espionagem e colaborao com o ocu-pante nazista. Foi somente a partir do fim dos anos 50 que as autoridades reconheceram que houve excessos e generalizaes na acusao de colaborao coletiva. Nos anos 60, foi restabelecida a existncia jurdica de um certo nmero de repblicas autnomas riscadas do mapa por colaborao com o ocupante. Contudo, foi somente em 1972 que os membros dos povos deportados receberam enfim a autorizao terica de escolherem livremente seu local de domiclio. E foi somente em 1989 que os trtaros da Crimia foram plenamente reabilitados. At meados dos anos 60, a eliminao progressiva das sanes infligidas aos povos punidos foi cercada do maior segredo, e os decretos anteriores a 1964 jamais foram publicados. Foi necessrio esperar pela declarao do Soviete Supremo, de 14 de novembro de 1989, para que o Estado sovitico reconhecesse enfim a ilegalidade criminosa de atos brbaros cometidos pelo regime stalinista em relao aos povos deportados em massa.
	Os alemes foram o primeiro grupo tnico deportado coletivamente, algumas semanas aps a invaso da URSS pela Alemanha nazista. De acordo com o recenseamento de 1939, 1.427.000 alemes viviam na URSS; em sua maioria, eles descendiam dos colonos alemes chamados por Catarina II, ela mesma originria de Hesse, para povoar os vastos espaos vazios do sul da Rssia. Em 1924, o governo sovitico criara uma Repblica autnoma dos alemes do Volga. Esses alemes do Volga, que contavam em mdia 370.000 pessoas, representavam apenas cerca de um quarto da populao de origem alem, repartida tanto na Rssia (nas regies de Saratov, de Stalingrado, de Voronezh, Moscou, Leningrado, etc.) e na Ucrnia (390.000 pessoas) quanto no Cucaso do Norte (nas regies de Krasnodar, de Ordjonikidze, de Stavropol), na Crimia ou na Gergia. Em 28 de agosto de 1941, o Presidium do Soviete Supremo expediu um decreto, segundo o qual toda a populao alem da Repblica autnoma do Volga, das regies de Saratov e de Stalingrado devia ser deportada para o Cazaquisto e para a Sibria. De acordo com esse texto, essa deciso era somente uma medida humanitria preventiva!

	Extratos do decreto do Presidium do Soviete Supremo de 28 de agosto de 1941 sobre a deportao coletiva dos alemes.

	De acordo com informaes dignas de f recebidas pelas autoridades militares, a populao alem instalada na regio do Volga abriga milhares e dezenas de milhares de sabotadores e espies que devem, ao primeiro sinal recebido da Alemanha, organizar atentados nas regies onde vivem os alemes do Volga. Ningum advertiu as autoridades soviticas da presena de uma tal quantidade de sabotadores e de espies entre o alemes do Volga; consequentemente, a populao alem do Volga esconde em seu seio inimigos do povo e do poder sovitico...
	Se ocorrerem atos de sabotagem na Repblica dos alemes do Volga ou nos distritos vizinhos, cometidos pelos sabotadores e pelos espies alemes por ordem da Alemanha, o sangue correr, e o Governo sovitico, conforme as leis dos tempos de guerra, ser obrigado a tomar medidas punitivas contra toda a populao alem do Volga. Para evitar uma situao to lamentvel e graves derramamentos de sangue, o Presidium do Soviete Supremo da URSS julgou necessrio transferir toda a populao alem que vive na regio do Volga para outros distritos, fornecendo-lhe terras e uma ajuda do Estado para se instalar nesses novos condados.
	Os distritos abundantes em terras das regies de Novossibirsk e de Omsk, do territrio do Altai, do Cazaquisto e de outras regies limtrofes so afetados por essa transferncia.

	Enquanto o Exrcito Vermelho recuava em todas as frentes de batalha, perdendo a cada dia dezenas de milhares de mortos e prisioneiros, Beria destacou cerca de 14.000 homens das tropas do NKVD para essa operao, dirigida pelo vice-comissrio do povo para o Interior, general Ivan Serov, que j se destacara ilustre por ocasio da limpeza dos pases blticos. As operaes foram conduzidas com sucesso, levando-se em conta as circunstncias e a derrota sem precedentes do Exrcito Vermelho. De 3 a 20 de setembro de 1941, 446.480 alemes foram deportados em 230 comboios de 50 vages em mdia, isto , cerca de 2.000 pessoas por comboio! A uma velocidade mdia de alguns quilmetros por hora, esses comboios levaram entre quatro e cinco semanas para chegar a seu lugar de destino, as regies de Omsk e de Novossibirsk, a regio de Barnaul, no sul da Sibria, e o territrio de Krasnoiarsk na Sibria Oriental. Como na poca das deportaes precedentes do Bltico, as pessoas transferidas tiveram, segundo as instrues oficiais, um prazo determinado [sic] para levar com elas vveres por um perodo de no mnimo um ms!
	Enquanto essa operao principal de deportao se desenrolava, outras operaes secundrias se multiplicavam, ao sabor das vicissitudes militares. Desde 29 de agosto de 1941, Molotov, Malenkov e Jdanov propuseram a Stalin limpar a regio e a cidade de Leningrado de 96.000 indivduos de origem alem e finesa. Em 30 de agosto, as tropas alems atingiram o rio Neva, cortando as ligaes ferrovirias entre Leningrado e o resto do pas. A ameaa de um cerco  cidade se tornava mais evidente a cada dia, e as autoridades competentes no haviam tomado nenhuma medida para evacuar a populao civil de Leningrado nem a mnima medida para constituir estoques de alimentos. Contudo, no mesmo dia 30 de agosto, Beria redigiu uma circular ordenando a deportao de 132.000 pessoas da regio de Leningrado, 96.000 por trem e 36.000 por via fluvial. O NKVD teve apenas o tempo necessrio para prender e deportar 11.000 cidados soviticos de nacionalidade alem.
	Durante as semanas seguintes, foram empreendidas operaes similares nas regies de Moscou (9.640 alemes deportados em 15 de setembro), de Tuia (2.700 deportados em 21 de setembro), de Gorki (3.162 deportados em 14 de setembro), de Rostov (38.288, de 10 a 20 de setembro), de Zaporojie (31.320 deportados, de 25 de setembro a 10 de outubro), de Krasnodar (38.136 deportados em 15 de setembro), de Ordjonikidze (77.570 deportados em 20 de setembro). Durante o ms de outubro de 1941, a deportao atingiu mais de 100.000 alemes residentes na Gergia, na Armnia, no Azerbaidjo, no Cucaso do Norte e na Crimia. Um balano contbil da transferncia dos alemes mostra que, em 25 de dezembro de 1941, 894.600 pessoas haviam sido deportadas, a maior parte para o Cazaquisto e a Sibria. Levando-se em conta os alemes deportados em 1942, chega-se a um total de 1.209.430 deportados em menos de um ano, de agosto de 1941 a junho de 1942. Lembremos que, de acordo com o recenseamento de 1939, a populao alem na URSS era de l.427.000 pessoas.
	Assim, mais de 82% dos alemes dispersos pelo territrio sovitico foram deportados, embora a situao catastrfica de um pas  beira do aniquilamento exigisse que todo o esforo militar e policial se dirigisse para a luta armada contra o inimigo e no para a deportao de centenas de milhares de cidados soviticos inocentes. A proporo dos cidados soviticos de origem alem deportados era, em realidade, ainda mais significativa, levando-se em conta as dezenas de milhares de soldados e oficiais de origem alem retirados das unidades do Exrcito Vermelho e enviados aos batalhes disciplinares do Exrcito do Trabalho, para Vorkuta, Kotlas, Kemerovo, Tcheliabinsk; apenas nesta cidade, mais de 25.000 alemes trabalhavam na construo do complexo metalrgico. Quanto s condies de trabalho e de sobrevivncia nos batalhes disciplinares do Exrcito do Trabalho, elas no eram sob nenhum aspecto melhores que no Gulag.
	Quantos deportados desapareceram durante sua transferncia? No dispomos hoje de nenhum balano total e, no contexto da guerra e das violncias do apocalipse desse perodo,  impossvel acompanhar os dados esparsos sobre este ou aquele comboio. Mas quantos comboios nunca chegaram a seu destino, no caos do outono de 1941? No fim de novembro, 29.600 deportados alemes deveriam, de acordo com o plano, ganhar a regio de Karaganda. Ora, em l de janeiro de 1942, a contagem atestava que apenas 8.304 haviam chegado. O plano para a regio de Novossibirsk era de 130.998 indivduos, mas foram contados apenas 116.612. Onde foram parar os outros? Morreram a caminho? Foram expedidos para outros lugares? A regio do Alai, planejada para 11.000 deportados, viu aflurem 94.799! Ainda mais veementes que essa aritmtica sinistra, todos os relatrios do NKVD sobre a instalao dos deportados enfatizavam, unanimemente, que as regies de recepo estavam despreparadas.
	Por causa do segredo, as autoridades locais s foram prevenidas da chegada de dezenas de milhares de deportados na ltima hora. Como nenhum alojamento havia sido previsto, eles foram encaixados em qualquer lugar, em acampamentos, estbulos, ou ao ar livre, embora o inverno chegasse. Como a mobilizao enviara ao fronte uma grande parte da mo-de-obra masculina, e as autoridades, em dez anos, haviam adquirido uma certa experincia no assunto, a destinao econmica dos novos deportados se fez todavia mais rapidamente que a dos kulaks deportados em 1930 e abandonados em plena taiga. No fim de alguns meses, a maioria dos deportados foi destinada a viver como os outros colonos especiais, isto , em condies de alojamento, de trabalho e de abastecimento particularmente duras e precrias, para um kolkhoz, um sovkhoz ou para um empreendimento industrial, no interior de uma komandatura do NKVD.
	A deportao dos alemes foi seguida por uma segunda onda de deportao, de novembro de 1943 a junho de 1944, durante a qual seis povos - chechenos, inguches, trtaros da Crimia, karachais, balkars e kalmuks - foram deportados para a Sibria, o Cazaquisto, o Uzbequisto e o Quirguizisto, sob pretexto de colaborao em peso com o ocupante nazista. Essa principal onda de deportao, que atingiu cerca de 900.000 pessoas, foi seguida, de julho a dezembro de 1944, por outras operaes destinadas a limpar a Crimia e o Cucaso de vrias outras nacionalidades julgadas duvidosas: gregos, blgaros, armnios da Crimia, turcos meskhetianos, curdos e khem-chines do Cucaso.
	Arquivos e documentos recentemente acessveis no trazem nenhum dado novo e preciso sobre a pretensa colaborao com os nazistas dos povos montanheses do Cucaso, dos kalmuks e dos trtaros da Crimia. Assim, nessa questo, estamos limitados a considerar somente um certo nmero de fatos que apenas induzem a existncia - na Crimia, na regio kalmk, na regio karachai e na Repblica autnoma kabardino-balkar - de ncleos restritos de colaboradores, mas no de uma colaborao geral erigida como uma verdadeira poltica. Os episdios colaboracionistas mais controversos situam-se aps a perda de Rostov-sobre-o-Don pelo Exrcito Vermelho, em julho de 1942, e a ocupao alem do Cucaso, do vero de 1942  primavera de 1943- Na ausncia de poder entre a partida dos soviticos e a chegada dos nazistas, um certo nmero de personalidades locais levantaram Comits nacionais em Mikoian-Chakhar, na regio autnoma dos karachais-cherkesses, em Naltchik, na Repblica autnoma kabardino-balkar, e em Elista, na Repblica autnoma dos kalmuks. O exrcito alemo reconheceu a autoridade desses Comits locais que durante alguns meses dispuseram de autonomia religiosa, poltica e econmica. Como a experincia caucasiana havia reforado o mito muulmano em Berlim, os trtaros da Crimia foram autorizados a criar seu Comit central muulmano instalado em Simferopol.
	Entretanto, por temor de ver renascer o movimento pan-uraniano, destrudo pelo poder sovitico no incio dos anos 20, as autoridades nazistas jamais concederam aos trtaros da Crimia a autonomia da qual se beneficiaram kalmuks, karachais e balkars durante alguns meses. Em contrapartida da autonomia, que lhes fora concedida, avaliada mediocremente, as autoridades locais destacaram algumas tropas para combater os maquis de partidrios locais que permaneceram fiis ao regime sovitico. Ao todo, alguns milhares de homens que compunham unidades com efetivos reduzidos: seis batalhes trtaros na Crimia e um corpo de cavalaria kalmuk.
	Quanto  Repblica autnoma da Chechnia-Inguche, ela foi apenas parcialmente ocupada pelos destacamentos nazistas, durante somente uma dezena de semanas, entre o incio de setembro e meados de novembro de 1942. No houve a mnima promessa de colaborao. Mas  verdade que os chechenos, que resistiram vrias dcadas durante a colonizao russa antes de capitular em 1859, permaneceram um povo insubmisso. O poder sovitico j havia lanado vrias expedies punitivas: em 1925, para confiscar uma parte das armas detidas pela populao; depois, em 1930-1932, para tentar quebrar a resistncia dos chechenos e dos inguches  coletivizao. Em sua luta contra os bandidos, as tropas especiais do NKVD apelaram  artilharia e  aviao, em maro-abril de 1930 e, em seguida, em abril-maio de 1932. Uma forte resistncia opunha ento o poder central a esse povo independente que sempre recusara a tutela de Moscou.
	As cinco grandes operaes de priso em massa e deportao, que ocorreram durante o perodo compreendido entre novembro de 1943 e maio de 1944, se desenrolaram de forma bem-articulada e, diferentemente das primeiras deportaes dos kulaks, com uma notvel eficcia operacional, segundo os prprios termos de Beria. A fase de preparao logstica foi cuidadosamente organizada durante vrias semanas, sob a superviso pessoal de Beria e de seus auxiliares Ivan Serov e Bogdan Kobulov, presentes nos locais de deportao, em seu trem especial blindado. Tratava-se de montar um nmero impressionante de comboios: 46 comboios de 60 vages para a deportao de 93.139 kalmuks em quatro dias, de 27 a 30 de dezembro de 1943, e 194 comboios de 65 vages para a deportao, em seis dias, de 23 a 28 de fevereiro de 1944, de 521.247 chechenos e inguches. Para essas operaes excepcionais, o NKVD no economizava meios; para a priso em massa dos chechenos e dos inguches, no menos que 119.000 homens das tropas especiais do NKVD foram mobilizados, em um momento em que a guerra atingia seu auge!
	As operaes, programadas hora a hora, comeavam pela priso dos elementos potencialmente perigosos, entre 1% e 2% de uma populao composta majoritariamente de mulheres, crianas e idosos, j que uma grande parte dos homens em plena maturidade havia sido convocada para a guerra. A crer nos relatrios operacionais enviados a Moscou, as operaes se desenvolviam muito rapidamente. Assim, na tarde do primeiro dia da operao de limpeza dos trtaros da Crimia, de 18 a 20 de maio de 1944, Kobulov e Serov, responsveis pela operao, telegrafaram a Beria: Hoje, s 20 horas, efe-tuamos a transferncia de 90.000 indivduos em direo s estaces ferrovirias. Dezessete comboios j levaram 48.400 indivduos para os lugares de destino. Vinte e cinco comboios esto sendo carregados. O desenrolar da operao no deu lugar a nenhum acidente. A operao continua. No dia seguinte, 19 de maio, Beria informou a Stalin que, no fim desse segundo dia, 165.515 indivduos haviam sido reunidos nas estaes ferrovirias, dos quais 136.412 carregados em comboios que partiram em direo ao destino fixado nas instrues. No terceiro dia, 20 de maio, Serov e Kobulov telegrafaram a Beria para lhe anunciar que a operao tivera fim s 16h30min. Ao todo, 63 comboios levando 173.287 pessoas j estavam em movimento. Os quatro ltimos comboios transportando os 6.727 restantes deveriam partir na mesma tarde.
	Ao ler os relatrios da burocracia do NKVD, todas essas operaes de deportao de centenas de milhares de pessoas parecem ter sido apenas uma mera formalidade; cada operao tendo obtido mais sucesso e tendo sido mais eficaz e econmica que a precedente. Aps a deportao dos chechenos, dos inguches e dos balkars, um certo Milstein, funcionrio do NKVD, redigiu um longo relatrio sobre... as economias de vages, de tbuas, de baldes e de ps [...] realizadas na poca das ltimas deportaes em relao s operaes precedentes.
	A experincia do transporte dos karachais e dos kalmuks, escrevia ele, nos deu a possibilidade de tomar certas disposies que permitiram reduzir as exigncias de comboios e diminuir o nmero de trajetos a serem efetuados. Instalamos em cada vago para transporte de animais 45 pessoas ao invs de 40, como fazamos anteriormente, e como ns os instalamos com suas bagagens pessoais, economizamos um nmero importante de vages, ao todo, 37.548 metros corridos de tbuas, 11.834 baldes e 3.400 fogareiros.
	Qual era a pavorosa realidade da viagem por trs da viso burocrtica de uma operao de perfeito sucesso, do ponto de vista do NKVD? Eis alguns testemunhos de trtaros sobreviventes, recolhidos no fim dos anos 70: A viagem at a estao ferroviria de Zerabulak, na regio de Samarkand, durou 24 dias. De l, nos levaram para o kolkhoz Pravda. Foraram-nos a consertar as caleas. [...] Ns trabalhvamos e tnhamos fome. Muitos entre ns vacilvamos sobre as pernas. Do nosso povoado haviam sido deportadas trinta famlias. Restaram um ou dois sobreviventes em cinco famlias. Todos os outros morreram de fome ou de doena. Um outro sobrevivente contou: Nos vages hermeticamente fechados, as pessoas morriam como moscas, por causa da fome e da falta de ar: no nos davam nem de comer nem de beber. Nas cidadezinhas que ns atravessvamos, a populao havia sido insuflada contra ns; haviam lhes dito que transportavam traidores da ptria, e choviam pedras com um barulho retumbante contra as portas dos vages. Quando ns abrimos as portas dos vages no meio das estepes do Cazaquisto, nos deram de comer raes militares sem nos dar de beber, nos ordenaram que jogssemos os mortos na beira da via frrea, sem enterr-los, e depois repartimos.
	Assim que chegavam ao destino, no Cazaquisto, no Quirguizisto, no Uzbequisto ou na Sibria, os deportados eram destinados para kolkhozes ou para empresas. Problemas de alojamento, de trabalho, de sobrevivncia eram seu quinho quotidiano, como testemunham todos os relatrios enviados ao Centro pelas autoridades locais do NKVD e conservados no rico fundo dos povoamentos especiais do Gulag. Assim, em setembro de 1944, um relatrio proveniente do Quirguizisto menciona que somente 5.000 famlias, das 31.000 deportadas havia pouco tempo, tinham recebido uma moradia. Sem mencionar o fato de que a noo de moradia era muito relativa! Com efeito, ao ler com ateno o texto, sabemos que no distrito de Kameninski, as autoridades locais instalaram 900 famlias em... 18 apartamentos de um sov-khoz, isto , 50 famlias por apartamento! Esse nmero inimaginvel significa que as famlias deportadas do Cucaso, que contavam frequentemente um grande nmero de crianas, dormiam uma de cada vez tanto nesses apartamentos quanto ao ar livre, s vsperas do inverno.
	Em novembro de 1944, isto , cerca de um ano aps a deportao dos kalmuks, o prprio Beria reconhecia, em uma carta a Mikoian, que eles encontravam-se em condies de existncia e em uma situao sanitria excepcionalmente difceis; a maioria deles no possua nem lenis, nem roupas, nem sapatos. Dois anos mais tarde, dois responsveis pelo NKVD relatavam que  % dos kalmuks aptos para o trabalho no trabalhavam, por falta de sapatos. A ausncia total de adaptao ao clima severo e s condies estranhas, assim como o desconhecimento da lngua se fazem sentir e trazem dificuldades suplementares. Desenraizados, famintos, distribudos em kolkhozes que no conseguiam sequer garantir a sobrevivncia de seu pessoal habitual, ou designados para postos de trabalhos em empresas para os quais no estavam formados, os deportados eram, em geral, trabalhadores medocres. A situao dos kalmuks deportados para a Sibria  trgica, escrevia a Stalin D. P. Piurveiev, antigo presidente da Repblica autnoma kalmuk. Eles perderam seu gado. Eles chegaram  Sibria desprovidos de tudo. [...] Eles esto pouco adaptados s novas condies de sua existncia de produtores. [...] Os kalmuks repartidos nos kolkhozes no recebem nenhum abastecimento, pois os prprios habitantes dos kolkhozes no tm nada. Quanto aos que foram designados para empresas, eles no conseguiram assimilar sua nova existncia de trabalhadores, da sua insolvncia que no lhes permite obter um abastecimento normal. Dizendo claramente, os kalmuks, criadores nmades, desorientados diante das mquinas, viam a totalidade de seus salrios partir em multas!
	Alguns nmeros do uma idia da hecatombe entre os deportados. Em janeiro de 1946, a administrao dos povoamentos especiais recenseou 70.360 kalmuks sobre os 92.000 deportados dois anos antes. Em l de julho de 1944, 35.750 famlias trtaras, representando 151.424 pessoas, haviam chegado ao Uzbequisto; seis meses antes, havia 818 famlias a mais e 16.000 pessoas a menos! Das 608.749 pessoas deportadas do Cucaso, 146.892 estavam mortas em 1 de outubro de 1948, isto , cerca de uma pessoa em cada quatro, e somente 28.120 haviam nascido nesse perodo. Das 228.392 pessoas deportadas da Crimia, 44.887 estavam mortas ao fim de quatro anos, e apenas 6.564 nascimentos foram recenseados. A mortalidade excessiva aparece com mais evidncia quando se sabe que as crianas de menos de 16 anos representavam entre 40% e 50% dos deportados. A morte natural representava apenas uma parte nfima dos bitos. Quanto aos jovens que sobreviviam, que futuro eles podiam esperar? Das 89.000 crianas em idade escolar deportadas para o Cazaquisto, menos de 12.000 estavam escolarizadas em 1948, isto , quatro anos aps sua deportao. Alis, as instrues oficiais estipulavam que o ensino dos filhos de transferidos oficiais deveria ser feito somente em russo.
	Durante a guerra, as deportaes coletivas atingiram ainda outros povos. Alguns dias aps o fim da operao de deportao dos trtaros da Crimia, Beria escreveu a Stalin, em 29 de maio de 1944: O NKVD julga razovel [sic] expulsar da Crimia todos os blgaros, os gregos e os armnios. Os primeiros eram recriminados por terem ajudado ativamente na fabricao de po e de produtos alimentcios destinados ao exrcito alemo durante a ocupao e por terem colaborado com as autoridades alems na busca de soldados do Exrcito Vermelho e de partidrios. Os segundos haviam criado pequenas empresas industriais, aps a chegada dos ocupantes; as autoridades alems ajudaram os gregos a fazer comrcio, transportar mercadorias, etc.. Quanto aos armnios, eles eram acusados de criarem uma organizao de colaboradores em Simferopol, chamada Dromedar, presidida pelo general armnio Dro, que se ocupava, alm das questes religiosas e polticas, de desenvolver o pequeno comrcio e a indstria. Essa organizao, segundo Beria, havia coletado fundos para as necessidades militares dos alemes e para ajudar na constituio de uma legio armnia.
	Quatro dias mais tarde, em 2 de junho de 1944, Stalin assinou um decreto do Comit de Estado para a Defesa, que ordenava completar a expulso dos trtaros da Crimia com a expulso de 37.000 blgaros, gregos e armnios, cmplices dos alemes. Como para os outros contingentes de deportados, o decreto fixava arbitrariamente cotas para cada regio de recepo: 7.000 para a provncia de Guriev no Cazaquisto, 10.000 para a provncia de Sverdlov, 10.000 para a provncia de Molotov no Ural, 6.000 para a provncia de Kemerovo, 4.000 para o pas balkar. Segundo os termos consagrados, a operao foi conduzida com sucesso, dias 27 e 28 de junho de 1944. Durante esses dois dias, 41.844 pessoas foram deportadas, isto , 111% do plano, destacava o relatrio.
	Aps ter expurgado a Crimia de seus alemes, de seus trtaros, de seus blgaros, de seus gregos e de seus armnios, o NKVD decidiu limpar as fronteiras do Cucaso. Remetendo  mesma sacralizao obsessiva das fronteiras, essas operaes em grande escala eram apenas o prolongamento natural, sob uma forma mais sistemtica, das operaes antiespies dos anos 1937-1938. Em 21 de julho de 1944, um novo decreto do Comit de Estado para a Defesa, assinado por Stalin, ordenou a deportao de 86.000 turcos meskhetianos, curdos e khemchines das regies fronteirias da Gergia. Dada a configurao montanhosa dos territrios onde esses povos do imprio otomano estavam instalados h sculos e tendo em conta o modo de vida nmade de uma parte dessas populaes - que tinham o hbito de passar livremente de um lado a outro da fronteira turco-sovitica -, os preparativos para essa operao de priso em massa e deportao foram particularmente longos. A operao durou cerca de dez dias, de 15 a 25 de novembro de 1944, e foi conduzida por 14.000 homens das tropas especiais do NKVD. Ela mobilizou 900 caminhes Studebaker, fornecidos pelos americanos em regime pr-contra-tual, ao fim do qual os Estados Unidos forneciam material de guerra  maioria dos Aliados! 
	Em 28 de novembro, em um relatrio enviado a Stalin, Beria se orgulhava de ter transferido 91.095 pessoas em dez dias, em condies particularmente difceis. Todos esses indivduos, entre os quais as crianas de menos de 16 anos, representavam 49% dos deportados, eram espies turcos em potencial, explicou Beria: Uma parte importante da populao dessa regio est ligada por laos familiares aos habitantes dos distritos fronteirios da Turquia. Essa gente fazia contrabando, manifestava uma tendncia para querer imigrar e fornecia recrutas aos servios de informao turcos, assim como aos grupos de bandidos que operam ao longo da fronteira. No perodo dessa operao, o numero total de pessoas deportadas para o Cazaquisto e o Quirguizisto teria sido elevado a 94.955, segundo as estatsticas do Departamento dos Povoamentos Especiais do Gulag. Entre novembro de 1944 e julho de 1948, 19.540 meskhetianos, curdos e khemchines, isto , cerca de 21% dos deportados, morreram na deportao. Essa taxa de mortalidade de 20% a 25% dos contingentes em quatro anos era mais ou menos a mesma entre todas as nacionalidades punidas pelo regime.
	Com a chegada em massa de centenas de milhares de pessoas deportadas com base em um critrio tnico, o contingente de colonos especiais experimentou, durante a guerra, uma renovao e um crescimento considerveis, passando de aproximadamente 1.200.000 a mais de 2.500.000. Quanto aos deskulakizados que, antes da guerra, constituam a maior parte dos colonos especiais, seu nmero caiu de aproximadamente 936.000 no incio da guerra a 622.000 em maio de 1945. Com efeito, dezenas de milhares de deskulakizados adultos do sexo masculino, com exceo dos chefes de famlia deportados, foram convocados para a guerra. As esposas e os filhos dos convocados recuperavam seu status de cidados livres e eram riscados das listas de colonos especiais. Mas, nas condies da guerra, eles no podiam em nenhuma hiptese deixar seu lugar de residncia designado, uma vez que todos os seus bens, incluindo suas casas, haviam sido confiscados.
	Indubitavelmente, as condies de sobrevivncia dos prisioneiros do Gulag nunca foram to terrveis quanto nos anos 1941-1944. Fome, epidemias, amontoamento, explorao inumana foram o quinho de cada zek (detido) que sobreviveu  fome,  doena, s normas de trabalho cada vez mais elevadas, s denncias do exrcito de informadores encarregados de desmascarar as organizaes contra-revolucionrias de prisioneiros, aos julgamentos e s execues sumrias.
	O avano alemo dos primeiros meses da guerra obrigou o NKVD a evacuar uma grande parte de suas prises, de suas colnias de trabalho e de seus campos de concentrao que corriam o risco de cair nas mos do inimigo. De julho a dezembro de 1941, 210 colnias, 135 prises e 27 campos, isto , ao todo, 750.000 prisioneiros, foram transferidos para o leste. Fazendo um balano da atividade do Gulag durante a Grande Guerra Patritica, o chefe do Gulag, Nassedkine, afirmava que a evacuao dos campos de concentrao se fez globalmente de maneira organizada. Contudo, ele acrescentava: Por causa da falta de meios de transporte, a maioria dos prisioneiros foram evacuados a p, ao longo de distncias que frequentemente ultrapassavam mil quilmetros. Pode-se imaginar em que estados os prisioneiros chegavam a seu destino! Quando faltava tempo para evacuar o campo, como ocorreu com freqncia nas primeiras semanas da guerra, os prisioneiros eram fuzilados sumariamente. Esse foi o caso principalmente na Ucrnia Ocidental, onde, no fim do ms de junho de 1941, o NKVD massacrou 10.000 prisioneiros em Lviv, 1.200 na priso de Lutsk, 1.500 em Stanyslaviv, 500 em Dubno, etc. Em sua chegada, os alemes descobriram dezenas de ossrios nas regies de Lviv, de Jitomir e de Vinnitsa. Usando como pretexto as atrocidades judaico-bolchevistas, os Sonderkommandos nazistas apressaram-se em massacrar imediatamente dezenas de milhares de judeus.
	Todos os relatrios da administrao do Gulag para os anos de 1941-1944 reconheciam a espantosa degradao das condies de existncia nos campos durante a guerra. Nos campos superpovoados, a superfcie habitvel alceada para cada detento caiu de l,5 para 0,7m2 por pessoa, o que significava, claramente, que os prisioneiros revezavam-se para dormir sobre tbuas e que os estrados eram da em diante um luxo reservado aos trabalhadores braais. A norma calrica de alimentao caiu em 65% em 1942 em relao  de antes da guerra. Os prisioneiros foram levados  fome, e, em 1942, o tifo e a clera fizeram sua reapario nos campos; de acordo com os nmeros oficiais, cerca de 19.000 prisioneiros morreram em consequncia dessas doenas nesse ano. Em 1941, com mais de 101.000 bitos registrados apenas nos campos de trabalho, sem contar as colnias, a taxa de mortalidade anual aproximava-se de 8%. Em 1942, a administrao dos campos do Gulag registrou 249.000 bitos, isto , uma taxa de mortalidade de 18%; em 1943, 167.000 bitos, ou seja, 17%. Levando em conta as execues de prisioneiros, os bitos nas prises e nas colnias de trabalho, podemos estimar em aproximadamente 600.000 o nmero de mortos do Gulag apenas durante os anos 1941-1943. Quanto aos sobreviventes, eles estavam em estado lastimvel. De acordo com os dados da administrao, no fim de 1942, apenas 19% dos prisio neiros estavam aptos para um trabalho fsico pesado, 17% para um trabalho fsico mdio, e 64% estavam ou aptos para um trabalho fsico leve, ou invlidos.

	Relatrio do chefe-adjunto do Departamento Operacional do Gulag sobre o estado do campo do Siblag, 2 de novembro de 1941.
	De acordo com informaes recebidas pelo Departamento Operacional do NKVD da regio de Novossibirsk, um forte aumento da mortalidade dos prisioneiros foi percebido nos departamentos de Akhlursk, de Kuznetsk e de Novossibirsk do Siblag...
	A causa dessa alta mortalidade, acompanhada de um aumento significativo de doenas entre os prisioneiros,  incontestavelmente um emagrecimento generalizado devido a uma carncia alimentar sistemtica nas condies de trabalhos fsicos lamentveis, acompanhado de pelagra e de um enfraquecimento da atividade cardaca.
	O atraso nos cuidados mdicos dispensados aos doentes e a dificuldade das tarefas executadas pelos prisioneiros, com jornada de trabalho prolongada e ausncia de alimentao complementar, constituem um outro conjunto de causas que explicam as enormes taxas de morbidez e mortalidade...
	Constatamos numerosos casos de mortalidade, de magreza pronunciada e de epidemias entre os prisioneiros escoltados dos diferentes centros de triagem para os campos. Assim, entre os prisioneiros transportados do centro de triagem de Novossibirsk para o departamento Marinskoie, em 8 de outubro de 1941, mais de 30% de 539 pessoas apresentavam uma extrema magreza de origem avitamnica e estavam cobertas de pulgas. Alm dos deportados, seis cadveres foram conduzidos ao destino. Na noite de 8 a 9 de outubro, outras cinco pessoas desse comboio morreram. Dia 20 de setembro, no comboio vindo do mesmo centro de triagem, no departamento de Marinskoie, 100% dos prisioneiros estavam cobertos de pulgas, e um grande nmero deles no usava roupa de baixo-Nos ltimos tempos, descobrimos, nos campos do Siblag, inmeras sabotagens da parte do corpo mdico composto por prisioneiros. Assim, o auxiliar de enfermagem do campo Ahjer (departamento de Taiginsk), condenado com base no artigo 58-10, organizou um grupo de quatro prisioneiros encarregado de sabotar a produo. Os membros desse grupo enviaram prisioneiros doentes para as tarefas mais rduas, no lhes medicando a tempo, esperando assim impedir o campo de cumprir as normas de produo.
	Chefe-adjunto do Departamento Operacional do Gulag, 
	capito das foras de segurana, Kogenman.

	Essa situao sanitria fortemente degradada do contingente, para retomar um eufemismo da administrao do Gulag, parece no ter impedido as autoridades de espremer, at o esgotamento total, os prisioneiros. De 1941 a 1944, o chefe do Gulag escrevia em seu relatrio, o valor mdio de um dia de trabalho aumentou de 9,5 para 21 rublos. Vrias centenas de milhares de prisioneiros foram destinados s fbricas de armamentos, em substituio  mo-de-obra mobilizada pelo exrcito. O papel do Gulag na economia de guerra revelou-se muito importante. Segundo as estimativas da administrao penitenciria, a mo-de-obra detida garantiu cerca de um quarto da produo em um certo nmero de setores-chave das indstrias de armamento, metalrgica e de extrao mineral. ^
	Apesar do bom comportamento patritico (sic) dos prisioneiros, dos quais  estavam engajados na competio socialista, a represso, principalmente em relao aos polticos, no foi relaxada. Em virtude de um decreto estabelecido pelo Comit Central em 22 de junho de 1941, nenhum  - condenado segundo o artigo 58 do Cdigo Penal, que sancionava os crimes contra-revolucionrios -, mesmo tendo chegado ao fim de sua pena, podia ser liberado at o fim da guerra. A administrao do Gulag isolou em campos especiais de regime forado, situados nas regies mais duras (a Kolima e o rtico), uma parte dos polticos condenados por pertencerem a uma organizao trotskista ou de direita, a um partido contra-revolucion-rio, por espionagem, terrorismo ou traio. Nesses campos, a taxa de mortalidade anual atingia 30%. Um decreto de 22 de abril de 1943 instaurou prises de regime forcado, verdadeiros campos de morte, onde os prisioneiros eram explorados em condies que no lhes deixavam nenhuma chance de sobreviver: um trabalho estafante, de 12 horas por dia, em minas de ouro, de carvo, de chumbo e de rdio, principalmente nas regies de Kolyma e de Vorkuta.
	Em trs anos, de julho de 1941 a julho de 1944, os tribunais especiais dos campos condenaram a novas penas mais de 148.000 prisioneiros, dos quais 10.858 foram executados. Entre estes ltimos, 208 por espionagem, 4.307 por atos de diversionismo terrorista, 6.016 por organizarem uma sublevao ou motim no campo de concentrao. Segundo o NKVD, 603 organizaes de prisioneiros foram desmanteladas durante a guerra nos campos do Gulag. Se esse nmero deveria confirmar em primeira instncia a vigilncia de um enquadramento que era amplamente renovado - com a destinao de uma boa parte das tropas especiais que guardavam os campos para outras tarefas, principalmente para as deportaes -, tambm  um fato que foi durante os anos de guerra que ocorreram as primeiras invases coleti-vas e as primeiras revoltas importantes nos campos.
	Em realidade, a populao do Gulag mudou consideravelmente durante guerra. Aps o decreto de 12 de julho de 1941, segundo confessaram as prprias autoridades, mais de 557.000 prisioneiros condenados por delitos insignificantes, como ausncias injustificadas ao trabalho ou pequenos furtos, foram liberados e imediatamente despejados nas fileiras do Exrcito Vermelho. Durante a guerra, contando os prisioneiros cuja pena chegava a seu fim, 1.068.800 passaram diretamente do Gulag para o fronte. Os prisioneiros mais fracos e menos adaptados s condies implacveis dos campos de concentrao fizeram parte das quase 600.000 pessoas que morreram no Gulag somente durante os anos de 1941-1943. Enquanto que os campos e as colnias se esvaziavam de uma multido de condenados a penas leves, permaneceram e sobreviveram os indivduos mais slidos, assim como os mais duros, entre os prisioneiros polticos e os de direito comum. A proporo de condenados a penas longas (mais de oito anos), com base no artigo 58 do Cdigo Penal, teve um forte crescimento, passando de 27% a 43% do total de prisioneiros. Nascida no incio da guerra, essa evoluo da populao penal iria se acentuar ainda mais a partir de 1944-1945, dois anos durante os quais, aps um curto perodo de diminuio, o Gulag experimentaria um formidvel aumento de seus efetivos: um salto de mais de 45% entre janeiro de 1944 e janeiro de 1946. 
	Do ano de 1945 na Unio Sovitica, o mundo guardou geralmente o lado dourado da moeda, todo em glria de um pas certamente devastado, mas triunfante. Em 1945, grande Estado vitorioso, escrevia Franois Furet, a URSS soma a fora material ao messianismo do homem novo. No se via - no se queria ver - o outro lado do cenrio, decerto cuidadosamente escondido. Ora, como mostram os arquivos do Gulag, o ano da vitria tambm foi o ano de um novo apogeu do sistema concentracionrio sovitico. A paz recuperada no fronte exterior no trouxe, no interior, um relaxamento, uma pausa no controle do Estado sobre uma sociedade martirizada por quatro anos de guerra. Ao contrrio, 1945 j foi um ano de retomada tanto das regies reincorporadas  Unio Sovitica,  medida que o Exrcito Vermelho avanava em direo ao oeste, quanto de milhes de soviticos que estiveram por um tempo fora do sistema.
	Os territrios anexados em 1939-1940 - pases blticos, Bielo-Rssia ocidental, Moldvia, Ucrnia Ocidental -, que durante a maior parte do tempo da guerra ficaram fora do sistema sovitico, foram submetidos a uma segunda sovietizao, aps a de 1939-1941. Neles se desenvolveram movimentos nacionais de oposio  sovietizao, o que suscitou um encadeamento de resistncia armada, de perseguio e de represso. A resistncia  anexao foi particularmente forte na Ucrnia Ocidental e nos pases blticos.
	A primeira ocupao da Ucrnia Ocidental, de setembro de 1939 a junho de 1941, suscitara a formao de uma organizao armada clandestina bastante poderosa, a OUN - Organizao dos Nacionalistas Ucranianos. Alguns dos membros da OUN se engajaram como suplentes nas unidades SS para combater os judeus e os comunistas. Em julho de 1944, com a chegada do Exrcito Vermelho, a OUN constituiu um Conselho Supremo de Libertao da Ucrnia. Roman Chukhovitch, chefe da OUN, tornou-se comandante do Exrcito Ucraniano Insurgente (UPA), que, segundo fontes ucrania-nas, contaria com mais de 20.000 combatentes no outono de 1944. Em 31 de maro de 1944, Beria assinou um decreto ordenando a priso e a deportao para a regio de Krasnoiarsk de todos os membros das famlias dos resistentes da OUN e do UPA. De fevereiro a outubro de 1944, 100.300 civis - mulheres, crianas e idosos - foram deportados por essa razo. Quanto aos 37.000 combatentes feitos prisioneiros durante esse perodo, eles foram enviados ao Gulag. Aps a morte, em novembro de 1944, de Monsenhor Chtcheptitski, metropolita da Igreja Uniata da Ucrnia, as autoridades soviticas obrigaram essa Igreja a fundir-se com a Igreja Ortodoxa.
	Para cortar pela raiz toda resistncia  sovietizao, os agentes do NKVD iam s escolas, onde, aps consultar as listas e as notas dos alunos escolarizados durante os anos anteriores  guerra, quando a Ucrnia Ocidental fazia parte da Polnia burguesa, organizavam listas de indivduos a serem presos preventivamente, comeando pelos alunos mais talentosos que eles julgavam potencialmente hostis ao poder sovitico. Segundo um relatrio de Kobulov, um dos adjuntos de Beria, mais de 100.000 desertores e colaboradores foram presos, entre setembro de 1944 e maro de 1945, na Bielo-Rssia Ocidental, outra regio considerada, a exemplo da Ucrnia Ocidental, como recheada de elementos hostis ao regime sovitico. Estatsticas muito parciais atestam, para o perodo de 1 de janeiro a 15 de maro de 1945, 2.257 operaes de limpeza, apenas na Litunia.
	Essas operaes resultaram na morte de mais de 6.000 bandidos, e na priso de mais de 75.000 bandidos, membros de grupos nacionalistas e desertores. Em 1945, mais de 38.000 membros das famlias de elementos estranhos  sociedade, de bandidos e de nacionalistas foram deportados da Litunia. De maneira significativa, durante os anos 1944-1946, a proporo de ucranianos e de blticos entre os prisioneiros do Gulag experimentou um crescimento espetacular: respectivamente, + 140% e + 420%. No fim de 1946, os ucranianos representavam 23% dos prisioneiros dos campos, e os blticos cerca de 6%, uma porcentagem muito superior  participao respectiva dessas nacionalidades na populao sovitica.
	O crescimento do Gulag em 1945 se fez igualmente por conta de centenas de milhares de indivduos que foram para ali transferidos, oriundos dos campos de controle e de filtragem. Esses campos foram institudos desde o fim de 1941, paralelamente aos campos de trabalho do Gulag. Eles estavam destinados a acolher os prisioneiros de guerra soviticos liberados ou fugitivos das mos do inimigo e imediatamente suspeitos de serem espies ou, pelo menos, indivduos contaminados por sua estada fora do sistema. Esses campos recebiam igualmente os homens em idade de serem mobilizados, oriundos dos territrios que haviam sido ocupados pelo inimigo, tambm eles contaminados, e os starostes e outras pessoas que haviam desempenhado uma funo de autoridade durante a ocupao, por menor que ela tivesse sido. Segundo dados oficiais, de janeiro de 1942 a outubro de 1944, mais de 421.000 pessoas passaram pelos campos de controle e de filtragem.
	Com o avano do Exrcito Vermelho em direo ao oeste, a retomada dos territrios ocupados h dois ou trs anos pelos alemes e a liberao de milhes de prisioneiros de guerra soviticos e de deportados do trabalho, a questo das modalidades de repatriamento dos militares e civis soviticos assumiu uma amplitude sem precedentes. Em outubro de 1944, o governo sovitico criou uma Direo de Repatriamento, sob a responsabilidade do general Golikov. Em uma entrevista publicada pela imprensa em 11 de novembro de 1944, esse general afirmava principalmente: O poder sovitico est preocupado com a sorte de seus filhos, cados sob a escravido nazista. Eles sero dignamente recebidos em casa como filhos da ptria. O governo sovitico considera que mesmo os cidados soviticos, que, sob a ameaa do terror nazista, cometeram crimes contrrios aos interesses da URSS no tero que responder por seus atos se eles esto prontos a cumprir honestamente seu dever de cidado, em sua volta  ptria. Esse gnero de declarao, amplamente difundido, no deixou de enganar os aliados. Como explicar de outro modo o zelo com o qual estes ltimos aplicaram uma das clusulas dos acordos de Yalta sobre o repatriamento de todos os cidados soviticos presentes fora das fronteiras de sua ptria? Enquanto os acordos previam que s seriam enviados de volta  fora aqueles que haviam usado o uniforme alemo ou colaborado com o inimigo, todos os cidados soviticos fora das fronteiras foram entregues aos agentes do NKVD encarregados de enquadrar seu retorno.
	Trs dias aps a cessao das hostilidades, em 11 de maio de 1945, o governo sovitico ordenou a criao de 100 novos campos de controle e de filtragem, cada um com capacidade para 10.000 lugares. Os prisioneiros de guerra soviticos repatriados deviam ser todos controlados pela organizao de contra-espionagem, a SMERCH, enquanto que os civis eram filtrados pelos servios adhoco NKVD Em nove meses, de maio de 1945 a fevereiro de 1946, mais de 4.200.000 soviticos foram repatriados: 1.545.000 prisioneiros de guerra sobreviventes dos cinco milhes capturados pelos nazistas e 2.655.000 civis deportados do trabalho ou pessoas que haviam fugido para o oeste no momento dos combates. Aps uma passagem obrigatria por um campo de filtragem e controle, 57,8% dos repatriados, em sua maioria mulheres e crianas, foram autorizados a voltar para casa: 19,1% foram enviados ao exrcito, com freqncia para batalhes disciplinares; 14,5% foram destinados, em geral por um perodo de dois anos, aos batalhes de reconstruo; 8,6%, isto , cerca de 360.000 pessoas, foram enviadas ao Gulag, a maioria por traio  ptria, o que valia de dez a 20 anos de campo, ou para uma komandatura do NKVD com o estatuto de colono especial.
	Destino particular foi reservado aos vlassovtsy, soldados soviticos que haviam se juntado ao general sovitico Andrei Vlassov, comandante do II Exrcito, feito prisioneiro pelos alemes em julho de 1942. Por convices anti-stalinistas, o general Vlassov aceitara colaborar com os nazistas para liberar seu pas da tirania bolchevique. Com a aprovao das autoridades alems, Vlassov formara um Comit Nacional Russo e levantara duas divises de um Exrcito de Libertao Russo. Aps a derrota da Alemanha nazista, o general Vlassov e seus oficiais foram entregues aos soviticos pelos aliados e executados. Quanto aos soldados do exrcito de Vlassov, eles foram, aps o decreto de anistia de novembro de 1945, enviados em deportao por seis anos para a Sibria, o Cazaquisto e o extremo Norte. No incio de 1946, 148.079 vlassovtsy figuravam nas listas do Departamento de Transferidos e Colonos especiais do Ministrio do Interior. Vrios milhares de vlassovtsy, essencialmente suboficiais, foram enviados, sob a acusao de traio, para os campos de trabalho do Gulag.
	No total, jamais os povoamentos especiais, os campos de concentrao e colnias do Gulag, os campos de controle e de filtragem e as prises soviticas haviam contado tantos pensionistas quanto nesse ano da vitria: cerca de 5,5 milhes de pessoas, incluindo todas as categorias. Um recorde longamente eclipsado pelas festividades da vitria e pelo efeito Stalingrado. Com efeito, o fim da Segunda Guerra Mundial havia aberto um perodo que iria durar aproximadamente uma dcada, durante o qual o modelo sovitico iria exercer, mais do que em qualquer outro momento, uma fascinao partilhada por dezenas de milhes de cidados de um grande nmero de pases. O feto de a URSS ter pago o mais pesado tributo humano  vitria sobre o nazismo mascarava o carter prprio da ditadura stalinista e exonerava o regime da suspeita que pairara sobre ele no tempo - tempo que ento parecia to distante - dos processos de Moscou ou do pacto germano-sovitico.

	13. Apogeu e crise do Gulag

	Nenhum grande processo pblico, nenhum Grande Terror marcou os ltimos anos do stalinismo. Mas, sob o clima conservador e pesado do ps-guerra, a criminalizao dos comportamentos sociais atingiu seu auge. Castigada pela guerra, as esperanas da sociedade de ver o regime se liberalizar duraram muito tempo. O povo havia sofrido muito, e o passado no podia se repetir, escrevera em suas memrias Ily Ehrenburg, em 9 de maio de 1945; conhecendo bem e por dentro as engrenagens e a natureza do regime, ele logo acrescentou: Contudo, a perplexidade e a angstia me invadem. Esse pressentimento iria se revelar exato.
	A populao est dividida entre o desespero diante de uma situao material difcil e a esperana de que 'alguma coisa vai mudar', podemos ler em vrios relatrios enviados a Moscou pelos instrutores do Comit Central em visita de inspeo pelas provncias, em setembro-outubro de 1945-Segundo os relatrios, a situao no pas continuava catica. Um imenso movimento espontneo de imigrao de milhes de trabalhadores transferidos para o Leste, durante a evacuao de 1941-1942, perturbava a retomada da produo. Uma onda de greves, de amplitude nunca antes experimentada pelo regime, sacudia a indstria metalrgica do Ural. Em toda a URSS, a misria era indescritvel. O pas contava com 25 milhes de desabrigados, e a rao de po dos trabalhadores pesados no ultrapassava uma libra por dia. No fim do ms de outubro de 1945, os responsveis pelo Comit Regional do partido de Novossibirsk chegaram a propor que os trabalhadores da cidade no desfilassem por ocasio do aniversrio da Revoluo de Outubro, pois a populao carece de roupas e sapatos. Em meio a essa misria e essa carncia absolutas, os rumores corriam soltos, sobretudo aqueles que se relacionavam  liquidao iminente dos kolkhozes, que vinham mais uma vez demonstrar sua incapacidade de remunerar os camponeses, ainda que fosse com alguns puds de trigo por uma estaco de trabalho.
	Era no fronte agrcola que a situao permanecia sendo a mais dramtica. Nos campos devastados pela guerra, atingidos por uma grave seca, carentes de mquinas e de mo-de-obra, a colheita do outono de 1946 foi catastrfica. Mais uma vez o governo teve de adiar para mais tarde o fim do racionamento proposto por Stalin em seu discurso de 9 de fevereiro de 1946. Recusando-se a ver as razes do fiasco agrcola, imputando os problemas a um incentivo de ganho sobre os quinhes individuais, o governo decidiu liquidar as violaes do estatuto dos kolkhozes e expulsar os elementos hostis e estrangeiros que sabotam a colheita, os ladres e os dilapidadores das colheitas. Em 19 de setembro de 1946, ele criou uma Comisso de Negcios dos Kolkhozes, presidida por Andreiev, encarregada de recuperar as terras ilegalmente apropriadas pelos kolkhozianos durante a guerra. Em dois anos, a administrao recuperou cerca de dez milhes de hectares mordidos pelos camponeses que, para sobreviver, haviam tentado arredondar seu magro quinho individual.
	Em 25 de outubro de 1946, um decreto do governo de ttulo explcito - Sobre a defesa dos cereais do Estado- ordenou ao Ministrio da Justia que ele instrusse todos os casos de furto em um prazo de dez dias e que aplicasse severamente a lei de 7 de agosto de 1932, ento fora de uso. Em novembro-dezembro de 1946, mais de 53.300 pessoas, em sua maioria kolkhozianos, foram julgados e, na maior pane dos casos, condenados a pesadas penas de campo de concentrao por roubo de espiga ou de po. Milhares de presidentes de kolkhozes foram presos por sabotagem da campanha de coleta. Durante esses dois meses, a realizao do plano de colheita passou de 36% a 77%. Mas a que preo! O eufemismo atraso na campanha de colheita escondia com freqncia uma realidade dramtica: a fome.
	A fome do outono-inverno de 1946-1947 atingiu particularmente as regies mais castigadas pela seca do vero de 1946: as provncias de Kursk, de Tambov, de Voronezh, de Orei e a regio de Rostov. Ela fez pelo menos 500.000 vtimas. Como a fome de 1932, a de 1946-1947 foi silenciada. A recusa em diminuir as contribuies obrigatrias sobre uma colheita que atingia apenas dois quintais e meio por hectare nas regies dominadas pela seca contribuiu de modo decisivo para transformar uma situao de escassez em verdadeira fome. Os kolkhozianos famintos s tiveram uma soluo para sobreviver: roubar as magras reservas estocadas aqui e acol. Em um ano, o nmero de furtos aumentou 44%.
	Em 5 de junho de 1947, a imprensa publicou o texto de dois decretos editados pelo governo na vspera, e que, muito prximos  famosa lei de 7 de agosto de 1932 no esprito e na letra, estipulavam que todo atentado contra a propriedade do Estado ou de um kolkhoz era passvel de penas de cinco a 25 anos de campo, caso o roubo fosse cometido individualmente, coletiva-mente, pela primeira vez ou fosse recidivo. Toda pessoa que estivesse informada sobre a preparao de um roubo ou que soubesse do roubo, mas no o denunciasse  polcia, era passvel de pena de dois a trs anos de campo. Uma circular confidencial lembrava ainda aos tribunais que os pequenos furtos nos locais de trabalho, at ento passveis de uma pena mxima de um ano de privao de liberdade, caam deste dia em diante sob o jugo dos decretos de 4 de junho de 1947.
	Durante o segundo semestre de 1947, mais de 380.000 pessoas foram condenadas, das quais 21.000 adolescentes de menos de 16 anos, em virtude dessa nova lei celerada. Por ter roubado alguns quilos de centeio, recebia-se frequentemente de oito a dez anos de campo. Eis um extraio do veredicto do tribunal popular do distrito de Suzdal, na provncia de Vladimir, datado de 10 de outubro de 1947: Encarregados da guarda noturna dos cavalos do kolkhoz, N. A. e B. S., menores de 15 e 16 anos, foram surpreendidos em flagrante delito de furto de trs pepinos na horta do kolkhoz. [...] Condenar N. A. e B. S. a oito anos de privao de liberdade numa colnia de trabalho de regime comum. Em seis anos, 1.300.000 pessoas foram condenadas, das quais 75% a mais de cinco anos, por causa dos decretos de 4 de junho de 1947; em 1951, elas representavam 53% dos prisioneiros de direito comum do Gulag e cerca de 40% do nmero total de prisioneiros. No fim dos anos 40, a estrita aplicao dos decretos de 4 de junho de 1947 aumentou conside-ravelmente a durao das condenaes infligidas pelos tribunais ordinrios; a proporo de penas de mais de cinco anos passou de 2% em 1940 a 29% em 1949! Nesse apogeu do stalinismo, a represso comum, dos tribunais populares, substituiu a represso extrajudicial, do NKVD, que floresceu nos anos 30.
	Entre as pessoas condenadas por furtos encontravam-se inmeras mulheres, vivas de guerra, mes de famlia com crianas recm-nascidas, submetidas  mendicncia e ao roubo. No fim de 1948, o Gulag contava com mais de 500.000 prisioneiros, isto , duas vezes mais do que em 1945, e 22.815 crianas de menos de 4 anos, mantidas em casas para recm-nascidos ligadas aos campos de concentrao para mulheres. Esse numero iria ultrapassar os 35.000 no incio de 1953. Para evitar que o Gulag se transformasse em uma grande casa de bonecas - resultado da legislao ultra-repressiva implantada em 1947 -, o governo foi obrigado a decretar uma anistia parcial em abril de 1949, que possibilitou a liberao de cerca de 84.200 mulheres e crianas recm-nascidas. Contudo, o afluxo permanente de centenas de milhares de pessoas condenadas por pequenos furtos manteve um forte percentual de mulheres no Gulag at 1953, entre 25% e 30% dos prisioneiros.
	Em 1947-1948, o arsenal repressivo foi completado por vrios outros textos reveladores do clima da poca: um decreto sobre a proibio do casamento entre soviticos e estrangeiros, em 15 fevereiro de 1947, e um decreto sobre a responsabilidade pela divulgao dos segredos de Estado ou pela perda de documentos contendo segredos de Estado, em 9 de junho de 1947. O mais conhecido  o decreto de 21 de fevereiro de 1948, segundo o qual todos os espies trotskistas, diversionistas, direitistas, mencheviques, socialistas-revo-lucionrios, anarquistas, nacionalistas, russos brancos e outros elementos anti-soviticos deviam ser, independentemente de suas penas de campo, exilados nas regies da Kolyma, da provncia de Novossibirsk e de Krasnoiarsk [...] e em certas regies distantes do Cazaquisto. Preferindo colocar sob boa guarda esses elementos anti-soviticos, a administrao penitenciria decidiu, na maioria das vezes, revalidar por mais dez anos, sob outra forma de processo, a pena infligida a centenas de milhares de 58 condenados em 1937-1938.
	Ainda em 21 de fevereiro de 1948, o Presidium do Soviete Supremo adotou um outro decreto ordenando a deportao de todos os indivduos que se recusavam a cumprir o nmero mnimo de 'jornadas de trabalho' nos kolkhozes e levavam uma vida de parasita para fora da RSS da Ucrnia. Em 2 de junho de 1948, essa medida foi estendida a todo o pas. Considerando o estado de abandono dos kolkhozes, em sua maioria incapazes de garantir a mnima remunerao a seus trabalhadores em troca das jornadas de trabalho, inmeros kolkhozianos no cumpriam o nmero mnimo de jornadas de trabalho imposto pela administrao. Milhes deles podiam ento cair no jugo dessa nova lei. Compreendendo que uma estrita aplicao do decreto sobre o parasitismo desorganizaria ainda mais a produo, as autoridades locais aplicaram a lei com laxismo. Contudo, apenas no ano de 1948, mais de 38.000 parasitas foram deportados e destinados  residncia nas komandaturas do NKVD. Todas as medidas repressivas eclipsaram a abolio simblica e efmera da pena de morte, decidida pelo decreto de 26 de maio de 1947. Em 12 de janeiro de 1950, a pena capital foi restabelecida para possibilitar, principalmente, a execuo dos acusados do caso de Leningrado.
	Nos anos 30, a questo do direito de volta dos transferidos e colonos especiais dera lugar a polticas frequentemente incoerentes e contraditrias. No fim dos anos 40, essa questo foi resolvida de maneira radical. Foi decidido que todos os povos deportados em 1941-1945, o haviam sido em regime perptuo. O problema do destino dos filhos de deportados que atingiam a maioridade no se colocava mais; eles e seus descendentes seriam colonos especiais para sempre!
	Durante os anos de 1948-1953, o nmero desses colonos especiais no parou de aumentar, passando de 2.342.000 no incio de 1946 a 2.753.000 em janeiro de 1953. Esse crescimento era o resultado de vrias novas ondas de deportao. Em 22 e 23 de maio de 1948, em uma Litunia que ainda resistia  coletivizao forcada de terras, o NKVD lanou uma imensa operao de priso em massa batizada de Operao Primavera. Em 48 horas, 36.932 homens, mulheres e crianas foram presos e deportados em 32 comboios. Todos estavam catalogados como bandidos, nacionalistas e membros da famlia dessas duas categorias. Aps uma viagem de quatro a cinco semanas, eles foram repartidos por diversas komandaturas do NKVD na Sibria Oriental e designados para complexos florestais onde o trabalho era particularmente duro. As famlias lituanas enviadas como fora de trabalho para o complexo florestal de Igara (territrio de Krasnoiarsk), podemos ler em uma nota do NKVD, so repartidas por locais no adaptados para habitao: tetos que deixam entrar gua, janelas sem vidros, nenhum mvel, nenhuma cama. Os deportados dormem no cho estendendo grama e feno sobre ele. Esse amontoamento e a no-observncia de regras sanitrias fizeram aparecer casos de tifo e de disenteria entre os colonos especiais, algumas vezes mortais. Somente durante o ano de 1948, aproximadamente 50.000 lituanos foram deportados como colonos especiais e 30.000 enviados para campos do Gulag. Contudo, segundo dados do ministrio do Interior, 21.259 lituanos foram mortos durante operaes de pacificao nessa repblica, que recusava com obstinao a sovietizao e a coletivizao. No final de 1948, apesar das presses cada vez mais fortes das autoridades, menos de 4% das terras haviam sido coletivizadas nos pases blticos.
	No incio de 1949, o governo sovitico decidiu acelerar o processo de sovietizao dos pases blticos e erradicar definitivamente o banditismo e o nacionalismo nas repblicas recentemente anexadas. Em 12 de janeiro, o Conselho de Ministros editou um decreto Sobre a expulso e a deportao dos kulaks e de suas famlias, das famlias dos bandidos e dos nacionalistas que se encontram em situao ilegal, das famlias de bandidos abatidos durante enfren-tamentos armados, condenados ou anistiados e que continuavam a desenvolver uma atividade hostil, assim como das famlias de cmplices de bandidos, para fora das RSS da Litunia, da Letnia e da Estnia. As operaes de deportao desenrolaram-se de maro a maio de 1949 e atingiram cerca de 95.000 pessoas, deportadas dos pases blticos para a Sibria. Entre esses elementos hostis e perigosos para a ordem sovitica, contavam-se, segundo o relatrio endereado por Kruglov a Stalin em 18 de maio de 1949, 27.084 crianas de menos de 16 anos, l.785 crianas recm-nascidas sem famlia, 146 invlidos e 2.850 velhos decrpitos! Em setembro de 1951, novas operaes de priso em massa enviaram cerca de 17.000 pretensos kulaks blticos para a deportao. Para os anos de 1940-1953, o nmero de blticos deportados  estimado em mais de 200.000, dos quais 120.000 lituanos, 50.000 letnios e um pouco mais de 30.000 estnios. A esses nmeros devemos acrescentar o total de blticos nos campos do Gulag: mais de 75.000 em 1953, dos quais 44.000 em campos especiais reservados aos presos polticos mais duros; os blticos representavam assim um quinto do contingente desses campos. Ao todo, 10% da populao adulta dos pases blticos foram deportados ou estavam em campos de concentrao.
	Entre as outras nacionalidades recentemente incorporadas  fora  URSS estavam os moldvios, que tambm resistiam  sovietizao e  coletivizao. No fim de 1949, as autoridades decidiram proceder a uma vasta operao de priso em massa e deportao dos elementos hostis e estranhos  sociedade. A operao foi supervisionada pelo primeiro secretrio do Partido Comunista da Moldvia, Leonid Ilitch Brejnev, futuro secretrio-geral do Partido Comunista da URSS. Um relatrio de Kruglov a Stalin, datado de 17 de fevereiro de 1950, estabelecia em 94.792 o nmero de moldvios deportados para a eternidade como colonos especiais. Admitindo-se uma taxa de mortalidade durante a transferncia deles idntica  dos outros deportados, seria possvel chegar a um cifra na ordem de 120.000 moldveis deportados, isto , cerca de 7% da populao moldvia. Entre outras operaes do mesmo tipo, citamos, ainda no ano de 1949, a deportao para o Cazaquisto e o Altai de 57.680 gregos, armnios e turcos do litoral do Mar Negro.
	Durante a segunda metade dos anos 40, os partidrios da OUN e da UPA capturados na Ucrnia continuaram a fornecer importantes contingentes de colonos especiais. De julho de 1944 a dezembro de 1949, as autoridades soviticas apelaram sete vezes aos insurgentes para que depusessem as armas, prometendo-lhes uma anistia, mas sem resultados tangveis. Em 1945-1947, os campos da Ucrnia Ocidental - a verdadeira Ucrnia - eram amplamente controlados pelos insurgentes, apoiados por camponeses que recusavam toda idia de coletivizao. As foras insurgentes operavam nos confins da Polnia e da Checoslovquia, passando de um pas a outro para escapar s perseguies. Podemos julgar a importncia desse movimento, com base no acordo que o governo sovitico teve que assinar com a Polnia e a Checoslovquia para coordenar as lutas contra os bandos ucranianos. Aps esse acordo e para privar a rebelio de suas bases naturais, o governo polons deslocou a populao ucraniana em direo ao noroeste da Polnia.
	A fome de 1946-1947, que obrigou dezenas de milhares de camponeses da Ucrnia Oriental a fugir para a Ucrnia Ocidental, menos atingida, forneceu novos recrutas para a rebelio ainda por algum tempo. A julgar pela ltima proposta de anistia assinada pelo ministro ucraniano do Interior, em 30 de dezembro de 1949, os bandos de insurgentes no recrutavam seus membros unicamente entre os camponeses. Com efeito, o texto mencionava, entre as categorias de bandidos, os jovens que haviam fugido das fbricas, das minas do Donetz e das escolas industriais. A Ucrnia ocidental s foi definitivamente pacificada no fim de 1950, aps a coletivizao forada de terras, o deslocamento de povoados inteiros e a deportao ou a priso de cerca de 300.000 pessoas. Segundo as estatsticas do Ministrio do Interior, entre 1944 e 1952, cerca de 172.000 membros do OUN e da UPA foram deportados para o Cazaquisto e a Sibria como colonos especiais, frequentemente com suas famlias.
	As operaes de deportao de contingentes diversos, segundo a classificao do Ministrio do Interior, continuaram at a morte de Stalin. Assim, durante os anos de 1951-1952, foram deportados, a ttulo de operaes especficas de pequeno porte, 11.685 mingrlios e 4.707 iranianos da Gergia, 4.365 testemunhas de Jeov, 4.431 kulaks da Bielo-Rssia Ocidental, 1.445 kulaks da Ucrnia Ocidental, 1.415 kulaks da regio de Pskov, 995 pessoas da seita dos verdadeiros cristos ortodoxos, 2.795 basmatchis do Tadjiquisto e 591 vagabundos. A nica diferena em relao aos deportados pertencentes aos diversos povos punidos era que esses contingentes no eram deportados em regime perptuo, mas por um perodo de 10 a 20 anos.
	Como provam os arquivos do Gulag recentemente exumados, o incio dos anos 50 foi marcado ao mesmo tempo pelo apogeu do sistema concentracionrio - jamais houve tantos prisioneiros nos campos de trabalho e tantos colonos especiais nos povoados de colonizao- e por uma crise sem precedentes desse sistema.
	No incio de 1953, o Gulag contava aproximadamente com 2.750.000 prisioneiros, repartidos por trs tipos de estabelecimento:
	- cerca de 500 colnias de trabalho, presentes em cada regio, com portando cada uma de mil a trs mil prisioneiros em mdia, majoritariamente presos de direito comum, a metade condenada a penas inferio res a cinco anos;
	- cerca de 60 grandes complexos penitencirios, os campos de traba lho, situados principalmente nas regies setentrionais e orientais do pas, cada um reunindo vrias dezenas de milhares de prisioneiros, de direito comum e polticos, em sua maioria condenados a penas superio res a dez anos;
	- 15 campos de regime especial criados aps uma instruo secreta do Ministrio do Interior de 7 de fevereiro de 1948, nos quais eram detidos exclusivamente presos polticos considerados particularmente perigosos, isto , cerca de 200.000 pessoas.
	Esse imenso universo concentracionrio inclua 2.750.000 prisioneiros aos quais se somavam os 2.750.000 colonos especiais que dependiam de uma outra direo do Gulag. Esse conjunto no apresentava apenas srios problemas de enquadramento e vigilncia, mas tambm de rentabilidade econmica. Em 1951, o general Kruglov, ministro do Interior, preocupado com a diminuio constante da produtividade da mo-de-obra penal, lanou uma grande campanha de inspeo do estado do Gulag. As comisses enviadas aos locais revelaram uma situao muito tensa.
	Em primeiro lugar,  certo que nos campos de regime especial, onde os polticos que chegaram aps 1945 - nacionalistas ucranianos e blticos habituados  guerrilha, elementos estranhos das regies recentemente incorporadas, colaboradores reais ou supostos e outros traidores da ptria - eram prisioneiros incontestavelmente mais determinados que os inimigos do povo dos anos 30, uma vez que esses antigos quadros do Partido estavam convencidos de que seu internamento era fruto de algum terrvel mal-entendido. Condenados a penas de 20 a 25 anos, sem esperana de libertao antecipada, esses prisioneiros no tinham nada mais a perder. Alm do mais, seu isolamento em campos especiais os havia livrado da presena cotidiana dos prisioneiros de direito comum. Ora, como destacou Alexandre Soljenitsyne, era precisamente a promiscuidade dos prisioneiros polticos e de direito comum que constitua o principal obstculo  ecloso de um clima de solidariedade entre os detentos. Afastado esse obstculo, os campos especiais se tornaram rapidamente focos de resistncia e de revolta contra o regime. As redes ucranianas e blticas, montadas na clandestinidade dos maquis, foram particularmente ativas nesses campos. Recusas ao trabalho, greves de fome, evases em grupo e motins se multiplicaram. Somente para o perodo compreendido entre os anos 1950-1952, as pesquisas ainda incompletas recensearam 16 rebelies e revoltas importantes, cada uma delas envolvendo centenas de prisioneiros.
	As inspees Kruglov de 1951 revelaram igualmente a degradao da situao nos campos comuns, que se traduzia por um relaxamento generalizado da disciplina. Em 1951, um milho de jornadas de trabalho foram perdidas pela recusa a trabalhar dos prisioneiros. E assistiu-se ao crescimento da criminalidade no interior dos campos,  multiplicao dos incidentes entre os prisioneiros e os vigilantes e  queda da produtividade do trabalho penal. Segundo a administrao, esta situao era devida, em grande parte, ao enfrentamento entre bandos rivais de prisioneiros, que opunham os ladres legais - que se recusavam a trabalhar para respeitar a regra do ambiente- aos cadelas - que se submetiam ao regulamento dos campos. A multiplicao das faces e das rixas acabava com a disciplina e gerava desordem. A partir de ento, era muito mais fcil morrer com uma facada do que de fome ou de doena. A conferncia dos responsveis pelo Gulag realizada em Moscou em janeiro de 1952 reconheceu que a administrao, que at o momento soubera habilmente tirar vantagem das contradies entre os vrios grupos de prisioneiros, est perdendo o controle dos processos internos. [...] Em alguns campos, as faces esto quase tomando em mos os negcios interiores. Para destruir grupos e faces, a administrao era obrigada a recorrer a incessantes transferncias de prisioneiros, a reorganizaes permanentes no interior das diversas sees dos imensos complexos penitencirios, que reuniam com freqncia de 40.000 a 60.000 prisioneiros.
	Contudo, alm dos problemas das faces, cuja amplitude chama a ateno, os relatrios de inspeo estabelecidos em 1951-1952 concluem pela necessidade de uma reorganizao completa das estruturas penitencirias e produtivas, assim como por importantes redues de efetivos.
	Assim, em seu relatrio de janeiro de 1952, endereado ao general Dol-guikh, o chefe do Gulag, coronel Zverev, responsvel pelo grande complexo concentracionrio de Norilsk - que inclua 69.000 detidos -, preconizava as seguintes medidas:
	1. isolar os membros das faces. Mas, explicava Zverev, por cau sa do grande nmero de prisioneiros que participam ativamente de uma ou outra das duas faces [...] s conseguimos isolar os chefes, o que j foi muito difcil;
	2. liquidar as imensas zonas de produo nas quais milhares de prisioneiros pertencentes a faces rivais trabalham atualmente sem a menor escolta;
	3. criar unidades de produo menores para assegurar uma melhor vigilncia dos prisioneiros;
	4. aumentar o pessoal de segurana. Mas, acrescentava Zverev,  impossvel organizar essa vigilncia como seria preciso, uma vez que a penria de pessoal atinge 50%;
	5. separar os prisioneiros dos trabalhadores livres nas unidades de produo. Mas as ligaes tecnolgicas entre as diferentes empresas do complexo de Norilsk, a necessidade de uma produo continuada e os problemas agudos de alojamento no permitem isolar os prisioneiros dos trabalhadores livres de modo satisfatrio. [...] De modo geral, o problema da produtividade e da coerncia do processo produtivo no podia ser resolvido, a no ser atravs da liberao antecipada de 15.000 prisioneiros, que seriam, no entanto, obrigados a permanecer no Iocal.
	Esta ltima proposio de Zverev estava longe de ser incongruente no contexto da poca. Em janeiro de 1951, o ministro do interior Kruglov pedira a Beria a liberao antecipada de 6.000 prisioneiros que deviam ser enviados como trabalhadores livres para o imenso canteiro de obras da central hidreltrica de Stalingrado, onde mais de 25.000 prisioneiros cumpriam pena, aparentemente de maneira muito ineficaz. A prtica de uma liberao antecipada, principalmente entre trabalhadores qualificados, era muito frequente no incio dos anos 50. Ela colocava a questo principal da rentabilidade econmica de um sistema concentracionrio hipertrofiado.
	Confrontada a uma exploso dos efetivos menos facilmente maleveis que no passado e a problemas de enquadramento e de vigilncia - o Gulag empregava um pessoal de cerca de 208.000 pessoas -, a enorme mquina administrativa tinha cada vez mais dificuldades em desmascarar a tufta -balanos falsos - e em garantir uma rentabilidade sempre problemtica. Para resolver esse problema permanente, a administrao tinha de escolher entre duas solues: explorar a mo-de-obra penal ao mximo, sem considerar as perdas humanas, ou empreg-la de modo mais racional, prolongando sua sobrevivncia. De modo geral, at 1948, predominou a primeira soluo. No fim dos anos 40, a tomada de conscincia pelo regime da amplitude da penria de mo-de-obra em um pas sangrado pela guerra levou as autoridades penitencirias a explorar os prisioneiros de maneira mais econmica. Para tentar estimular a produtividade, foram introduzidos prmios e salrios, as raes alimentares daqueles que conseguiam cumprir as normas aumentaram, e a taxa anual de mortalidade caiu para 2%-3%. Essa reforma chocou-se rapidamente com a realidade do mundo concentracionrio.
	No incio dos anos 50, as infra-estruturas de produo j tinham mais de 20 anos e no haviam se beneficiado de nenhum investimento recente. As imensas unidades penitencirias reunindo dezenas de milhares de prisioneiros, implantadas nos anos precedentes com a perspectiva de uma utilizao extensiva da mo-de-obra, eram estruturas pesadas e dificilmente reformveis, apesar das inmeras tentativas feitas de 1949 a 1952 para fragment-las em unidades de produo menores. Os salrios mdicos distribudos aos prisioneiros, que chegavam a algumas centenas de rublos por ano, isto , de 15 a 20 vezes menos que o salrio mdio de um trabalhador livre, no serviam de modo algum como um estimulante que garantisse uma produtividade de trabalho mais elevada, tudo isso em um momento em que um nmero cada vez maior de prisioneiros se recusava a trabalhar e se organizava em bandos, exigindo, consequentemente, uma vigilncia aumentada. No fim das contas, mais bem pago ou mais bem vigiado, o prisioneiro, tanto aquele que se submetia s regras administrativas quanto o refratrio que preferia obedecer  lei do meio, custava cada vez mais caro.
	Os dados parciais dos relatrios de inspeo dos anos 1951-1952 vo todos na mesma direo: o Gulag havia se tornado uma mquina cada vez mais difcil de ser gerida. Alis, havia atrasos considerveis nos ltimos grandes canteiros de obras stalinistas que se tinham utilizado da mo-de-obra penal em larga escala: as centrais hidreltricas de Kuibychev e de Stalingrado, o canal do Turcomenisto e o canal do Volga-Don. Para acelerar as obras, as autoridades foram obrigadas a transferir para o local inmeros trabalhadores livres ou liberar antes do prazo os prisioneiros mais motivados.^
	A crise do Gulag lana uma nova luz sobre a anistia decretada por Beria em 27 de maro de 1953, apenas trs semanas aps a morte de Stalin, e que atingiu l.200.000 prisioneiros. No se poderiam abstrair as razes econmicas, e no apenas polticas, que levaram os candidatos  sucesso de Stalin a proclamar essa anistia parcial; eles estavam informados sobre as imensas dificuldades de gesto de um Gulag superpovoado e cada vez menos rentvel. Contudo, no mesmo momento em que a administrao penitenciria pedia uma diminuio dos contingentes de prisioneiros, Stalin, que envelhecia, vtima de uma parania cada vez mais pronunciada, preparava um novo grande expurgo, um segundo Grande Terror. No clima pesado e perturbado do fim do stalinismo, as contradies se multiplicavam...

	14. O ltimo compl

	Em 13 de janeiro de 1953, o Pravda anunciou a descoberta do grupo dos mdicos terroristas, composto por nove e depois por 15 mdicos reno-mados, dos quais mais da metade eram judeus. Eles eram acusados de se aproveitarem de suas importantes funes junto ao Kremlin para abreviar a vida de Andrei Jdanov, membro do Politburo morto em agosto de 1948, e de Alexandre Chtcherbakov, morto em 1950, e de terem tentado o assassinato de grandes chefes militares soviticos, sob a ordem da Intelligence Service e de uma organizao de assistncia judia, a American Joint Distribution Committee. Enquanto que sua denunciadora, a doutora Timachuk, recebia solenemente a Ordem de Lenin, os acusados, devidamente interrogados, acumulavam confisses. Como em 1936-1938, ocorreram vrios manifestos para exigir o castigo dos culpados, a multiplicao das investigaes e o retorno a uma verdadeira vigilncia bolchevique. Nas semanas que se seguiram  descoberta do compl dos jalecos brancos, uma enorme campanha na imprensa reatualizou os temas dos anos do Grande Terror, exigindo que se terminasse de uma vez por todas com o descuido criminoso nas fileiras do Partido e que a sabotagem fosse definitivamente liquidada. Encaminhava-se a idia de uma vasta conspirao que reunia intelectuais, judeus, militares, quadros superiores do Partido e da economia e funcionrios das repblicas no russas, relembrando os piores momentos da lejovschina.
	Como confirmam os documentos hoje acessveis sobre esse caso, o compl dos jalecos brancos foi um dos momentos decisivos do stalinismo ps-guerra. Esse compl marcava tanto o coroamento da campanha anticosmopolita - ou seja, anti-semita - iniciada no comeo de 1949, mas cujas primeiras aparies remontam a 1946-1947, quanto o provvel esboo de um novo expurgo geral, de um novo Grande Terror que apenas a morte de Stalin, algumas semanas aps o anncio pblico do compl, iria impedir. A essas duas dimenses acrescia-se uma terceira: a luta entre as diferentes faces dos ministrios do Interior e da Segurana de Estado, separados aps 1946 e submetidos a remanejamentos constantes. Esses confrontos dentro da polcia poltica eram em realidade reflexos da luta nos altos escales dos aparelhos polticos, com cada um dos potenciais herdeiros de Stalin j se situando na perspectiva da sucesso. H ainda uma ltima e perturbadora dimenso desse Caso: ao se exumar o velho fundo anti-semita do czarismo combatido pelos bolcheviques, oito anos depois da revelao pblica dos campos de extermnio nazistas, o caso dos jalecos brancos punha em evidncia uma deriva da ltima fase do stalinismo.
	No se pretende aqui recuperar o fio da meada desse caso, ou melhor, dos casos que convergiram para esse momento final do stalinismo. Assim, nos contentaremos em relembrar rapidamente as principais etapas que conduziram a esse ltimo compl. Em 1942, o governo sovitico, desejoso de exercer alguma presso sobre os judeus americanos, a fim de que eles forassem o governo americano a abrir mais rapidamente um segundo fronte na Europa contra a Alemanha nazista, criou um Comit Antifascista Judeu-Sovitico, presidido por Salomon Mikhoels, o diretor do famoso teatro idiche de Moscou. Centenas de intelectuais judeus desenvolveram vrias atividades nesse Comit: o romancista Ily Ehremburg, os poetas Samuel Marchak e Peretz Markish, o pianista Emil Guilels, o escritor Vassili Grossman, o grande fsico Piotr Kapitza, pai da bomba atmica sovitica, entre outros. Rapidamente, o Comit ultrapassou seu papel de organismo de propaganda oficiosa sovitica para ocupar o lugar de congregador da comunidade judia, um organismo representativo do judasmo sovitico. Em fevereiro de 1944, os dirigentes do Comit, Mikhoels, Fefer e Epstein, chegaram a enviar uma carta a Stalin, na qual propunham a instaurao de uma repblica judia autnoma na Crimia, suscetvel de apagar a lembrana da experincia do Estado nacional judeu do Birobidjan, tentada nos anos 30, e que aparecia como um fracasso patente - em dez anos, menos de 40.000 judeus haviam se instalado nessa regio perdida, pantanosa e desrtica do extremo oriente siberiano, nos confins da China!
	Do mesmo modo, o Comit se dedicou  coleta de testemunhos sobre os massacres dos judeus pelos nazistas e sobre os fenmenos anormais concernindo os judeus, eufemismo que designava as manifestaes de anti-semitis-mo da populao. Ora, estas ltimas eram em grande nmero. As tradies anti-semitas permaneciam fortes na Ucrnia e em algumas regies ocidentais da Rssia, principalmente na antiga zona de residncia do Imprio Russo, onde os judeus haviam sido autorizados a residir pelas autoridades czaristas. As primeiras derrotas do Exrcito Vermelho revelaram a amplitude do anti-semitismo popular. Como reconheciam alguns relatrios do NKVD sobre o estado de esprito da retaguarda, amplas camadas da populao eram sensveis  propaganda nazista segundo a qual os alemes s estavam em guerra contra os judeus e os comunistas. Nas regies ocupadas pelos alemes, especialmente na Ucrnia, os massacres dos judeus, todos j vistos e conhecidos pela populao, parecem ter suscitado muito pouca indignao. Os alemes recrutaram cerca de 80.000 soldados suplementares entre os ucranianos, dos quais alguns participaram do massacre dos judeus. Para fazer frente a essa propaganda nazista e mobilizar o fronte e a retaguarda em torno do tema da luta de todo povo sovitico por sua sobrevivncia, os idelogos bolcheviques se recusaram, num primeiro momento, a reconhecer a especificidade do holocausto. Foi sobre esse terreno que se desenvolveu o anti-sionismo, e depois o anti-semitismo oficial, particularmente virulento, segundo parece, nos meios do Agit-prop (Agitao-propaganda) do Comit Central. J em 1942, esse departamento havia redigido uma nota interna sobre o lugar dominante dos judeus nos meios artsticos, literrios e jornalsticos.
	O ativismo do Comit no tardou a indispor as autoridades. A partir do incio de 1945, o poeta judeu Peretz Markish foi proibido de publicar; o lanamento do Livro Negro sobre as atrocidades nazistas contra os judeus foi anulado, sob o pretexto de que o fio condutor de todo o livro  a idia de que os alemes s entraram em guerra com a URSS com o nico objetivo de aniquilar os judeus. Em 12 de outubro de 1946, o ministro da Segurana de Estado, Abakumov, enviou ao Comit Central uma nota Sobre as tendncias nacionalistas do Comit Antifascista Judeu. Stalin, que por razes de estratgia internacional desejava prosseguir com uma poltica exterior favorvel  criao do Estado de Israel, no reagiu imediatamente. Foi somente aps a URSS ter votado na ONU o plano de partilha da Palestina, em 29 de novembro de 1947, que Abakumov recebeu carta branca para empreender a liquidao do Comit.
	Em 19 de dezembro de 1947, vrios de seus membros foram detidos. Algumas semanas mais tarde, em 13 de janeiro de 1948, Salomon Mikhoels foi encontrado assassinado em Minsk. Segundo a verso oficial, ele teria sido vtima de um acidente de automvel. Alguns meses mais tarde, em 21 de novembro de 1948, o Comit Antifascista Judeu foi dissolvido, sob o pretexto de ter se tornado um centro de propaganda anti-sovitica. Suas diversas publicaes, especialmente o jornal idiche Einikait, com o qual5 colaborava a elite dos intelectuais judeus soviticos, foram proibidas. Nas semanas que se seguiram, todos os membros do Comit foram detidos. Em fevereiro de 1949, a imprensa iniciou uma ampla campanha anticosmopolita. Os crticos de teatro judeus foram denunciados por sua incapacidade de compreender o carter nacional russo: Que viso um Gurvitch ou um luzovski podem ter do carter nacional do homem russo?, escrevia o Pravda em 2 de fevereiro de 1949. No decorrer dos primeiros meses de 1949, centenas de intelectuais judeus foram detidos, especialmente em Leningrado e Moscou.
	A revista Neva publicou recentemente um documento exemplar desse perodo: a sentena do Colgio Judicirio do Tribunal de Leningrado, promulgada em 7 de julho de 1949, condenando Aquilles Grigorievitch Leniton, Hy Zeikovitch Serman e Rulf Alexandrovna Zevina a penas de dez anos em campos de concentrao. Os acusados foram reconhecidos como culpados de terem criticado a resoluo do Comit Central sobre as revistas Zvezda e Leningrada. partir de posies anti-soviticas [...]; interpretado as idias internacionais de Marx sob um prisma contra-revolucionrio; elogiado os escritores cosmopolitas [...]; e caluniado a poltica sovitica sobre a questo das nacionalidades. Aps terem recorrido contra a sentena, os acusados foram condenados a 25 anos pelo Colgio Judicial da Suprema Corte, que assim justificou seu veredicto: A pena infligida pelo Tribunal de Leningrado no levou em considerao a gravidade do crime ocorrido. [...] Com efeito, os acusados praticaram uma agitao contra-revolucionria ao se utilizarem de preconceitos nacionais e ao afirmarem a superioridade de uma nao sobre as outras naes da Unio Sovitica!
	Os judeus foram sistematicamente afastados de seus trabalhos, especialmente nos meios ligados  cultura,  informao,  imprensa,  edio,  medicina, ou seja, nas profisses em que eles ocupavam cargos de responsabilidade. As detenes se multiplicaram, atingindo os mais diversos meios, tanto um certo grupo de engenheiros-sabotadores - judeus em sua maioria, presos no complexo metalrgico de Stalino, condenados  morte e executados em 12 de abril de 1952 - quanto a esposa judia de Molotov, Paulina Jemtchujina - importante responsvel pela indstria txtil, detida em 21 de janeiro de 1949 por perda de documentos que continham segredos de Estado, julgada e enviada a um campo de concentrao por cinco anos -, ou ainda a esposa do secretrio pessoal de Stalin, Alexandre Poskrebychev, ela tambm judia, acusada de espionagem e fuzilada em julho de 19527 Molotov e Poskrebychev continuaram a servir a Stalin como se nada tivesse acontecido. Entretanto, o perodo de instruo do processo contra os acusados do Comit Antifascista Judeu se arrastava. O processo, a portas fechadas, s foi iniciado em maio de 1952, ou seja, dois anos e meio aps a priso dos acusados. De acordo com a documentao ainda lacunar hoje disponvel, dois elementos podem explicar com segurana a excepcional durao desse perodo de instruo. Nesse momento, e sempre no maior segredo, Stalin orquestrava um outro caso, dito de Leningrado, etapa importante que deveria preparar, junto com o dossi do Comit Antifascista Judeu, o grande expurgo final. Paralelamente, ele procedia a uma profunda reorganizao dos servios de Segurana - cujo episdio central foi a priso de Abakumov em julho de 1951 -, ento dirigidos pelo todo-poderoso Beria, vice-presidente do Conselho de Ministros e membro do Politburo. O caso do Comit Antifascista Judeu estava no centro das lutas de influncia e de sucesso, no corao do dispositivo que deveria desembocar no caso dos jalecos brancos e em um segundo Grande Terror.
	De todos os casos, aquele dito de Leningrado, que foi finalizado pela execuo, mantida em segredo, dos principais dirigentes da segunda mais importante organizao do Partido Comunista da Unio Sovitica, permanece sendo o mais misterioso. Em 15 de fevereiro de 1949, o Politburo adotou uma resoluo Sobre as aes antipartido de Kuznetsov, Rodionov e Popkov, trs importantes dirigentes do Partido. Eles foram demitidos de suas funes, assim como Voznessenski, presidente do Gosplan, o rgo de planejamento do Estado, e a maior parte dos membros do aparelho do Partido de Leningrado, cidade sempre suspeita aos olhos de Stalin. Em agosto-setembro de 1949, todos esses dirigentes foram presos, sob a acusao de terem organizado um grupo antipartido, ligado ... Intelligence Service. Abakumov lanou ento uma verdadeira caa aos veteranos do Partido de Leningrado instalados em cargos de responsabilidade em outras cidades ou outras repblicas. Centenas de comunistas de Leningrado foram presos, e cerca de 2.000 excludos do Partido e expulsos de seus trabalhos. A represso ganhou formas surpreendentes, atingindo a cidade considerada como entidade histrica. Assim, em agosto de 1949, as autoridades formaram o Museu da Defesa de Leningrado, consagrado  gesta herica do bloqueio da cidade durante a Grande Guerra Patritica. Alguns meses mais tarde, Mikhail Suslov, responsvel pela ideologia, foi encarregado pelo Comit Central de instalar uma comisso de liquidao do museu, que funcionou at o fim de fevereiro de 1953.
	Os principais acusados do caso de Leningrado - Kuznetsov, Rodionov, Popkov, Voznessenski, Kapustin e Lazutin - foram julgados a portas fechadas em 30 de setembro de 1950 e executados no dia seguinte, uma hora aps o pronunciamento do veredicto. Todo o caso ocorreu no mais absoluto segredo. Ningum fora informado, nem mesmo a filha de um dos principais acusados, que era, porm, a nora de Anastase Mikoian, ministro e membro do Politburo! No decorrer do ms de outubro de 1950, outras pardias de julgamento condenaram  morte dezenas de quadros dirigentes do Partido, todos tendo pertencido  organizao de Leningrado: Soloviev, primeiro secretrio do Comit Regional da Crimia; Badaiev, segundo secretrio do Comit Regional de Leningrado; Verbitski, segundo secretrio do Comit Regional de Murmansk; Bassov, primeiro vice-presidente do Conselho de Ministros da Rssia, etc.
	Teria sido a depurao dos leningradenses simplesmente o acerto de contas entre as diferentes fraes do aparelho ou apenas um elo numa corrente de casos, que iam da liquidao do Comit Antifascista Judeu ao compl dos jalecos brancos, passando pela priso de Abakumov e o compl nacionalista mingrlio? A segunda hiptese parece ser a mais provvel. Sem dvida, o caso de Leningrado foi uma etapa decisiva na preparao de um grande expurgo, do qual o sinal pblico foi dado em 13 de janeiro de 1953. De maneira significativa, os crimes imputados aos dirigentes leningradenses que caram em desgraa ligavam todo o caso aos sinistros anos 1936-1938. Durante a reunio do plenrio dos quadros do Partido de Leningrado em outubro de 1949, o novo primeiro secretrio, Andrianov, anunciou ao auditrio embasbacado que os antigos dirigentes haviam publicado a literatura trotskista e zinovievista: Nos documentos que aquelas pessoas levaram para a publicao, eles faziam passar de modo sub-reptcio e mascarado artigos dos piores inimigos do povo: Zinoviev, Trotski e outros. Alm da acusao grotesca, a mensagem aos quadros do aparelho era bastante clara. Era precisamente para um novo 1937 que cada um deveria se preparar.
	Aps a execuo dos principais acusados do caso de Leningrado, em outubro de 1950, manobras e contramanobras se multiplicaram no interior dos servios de Segurana e do Interior. Passando a desconfiar de Beria, Stalin inventou um fantasmtico compl nacionalista mingrlio, cujo objetivo era o de anexar a Mingrlia, justamente a regio da Gergia da qual Beria era originrio,  Turquia. Beria foi obrigado a ele prprio dizimar seus compatriotas e a executar o expurgo do Partido Comunista georgiano. Em outubro de 1951, Stalin deu ainda um outro golpe em Beria, ordenando a priso de um grupo de velhos quadros judeus da Segurana e do Ministrio Pblico, entre os quais o tenente-coronel Eitingon, que havia organizado o assassinato de Trotski em 1940, sob as ordens de Beria; o general Leonid Raikhman, que havia participado da montagem do processo de Moscou; o coronel Lev Schwarzmann, carrasco de Babel e de Meyerhold; o juiz de instruo Lev Cheinin, brao direito do procurador dos grandes processos de Moscou de 1936-1938; Vychinski e outros. Todos foram acusados de serem os organizadores de um enorme compl nacionalista judeu dirigido por ... Abakumov, o ministro da Segurana de Estado e colaborador prximo de Beria.
	Havia alguns meses que Abakumov fora preso e vinha sendo mantido escondido. Inicialmente, ele foi acusado de ter provocado deliberadamente o desaparecimento de Jacob Etinguer, mdico judeu de renome, preso em 1950 e morto na priso pouco tempo depois. Ao eliminar Etinguer - que no decorrer de sua longa carreira havia cuidado de pessoas como Serge Kirov, Sergo Ordjonikidze, o marechal Tukhatchevski, Palmiro Togliatti, Tito e Georges Dimitrov -, Abakumov teria tentado impedir que um grupo de criminosos formado por nacionalistas judeus infiltrados nos mais altos escales do Ministrio da Segurana de Estado fosse desmascarado. Alguns meses mais tarde, o prprio Abakumov seria apresentado como o crebro do compl nacionalista judeu! Assim, a priso de Abakumov, em julho de 1951, constituiu uma etapa decisiva na longa montagem de um vasto compl judeu-sionista; ela assegurava a transio entre a liquidao do Comit Antifascista Judeu, ainda secreta, e o compl dos jalecos brancos, arranjado para tornar-se o smbolo pblico do expurgo. Assim, foi durante o vero de 1951, e no no fim de 1952, que a histria ganhou corpo.
	De 11 a 18 de julho de 1952, desenvolveu-se, a portas fechadas e no maior dos segredos, o processo dos membros do Comit Antifascista Judeu. Em 12 de agosto de 1952, 13 acusados foram condenados  morte e executados, ao mesmo tempo em que dez outros engenheiros-sabotadores da fbrica de automveis Stalin, todos judeus. No total, o dossi do Comit Antifascista Judeu deu lugar a 125 condenaes, das quais 25 condenaes  morte, todas executadas, e a cem condenaes a penas de dez a 25 anos em campos de concentrao.^
	No ms de setembro de 1952, o roteiro do compl judeu-sionista j estava pronto. Sua realizao foi retardada por algumas semanas, perodo no qual ocorreu o XIX Congresso do PCUS, reunido enfim em outubro de 1952, treze anos e meio aps o XVHI Congresso. Desde o fim do congresso, a maioria dos mdicos judeus acusados nesse evento - que se tornaria publicamente conhecido como o caso dos jalecos brancos - foram detidos, presos e torturados. Paralelamente a essas prises, naquele momento ainda secretas, iniciava-se em Praga, em 22 de novembro de 1952, o processo de Rudolf Slansky, antigo secretrio-geral do Partido Comunista da Checoslovquia, e de 13 outros dirigentes comunistas. Onze deles foram condenados  morte e enforcados. Uma das particularidades dessa pardia judiciria, inteiramente montada pelos conselheiros soviticos da polcia poltica, era seu carter francamente anti-semita. Onze dos 14 acusados eram judeus, e os fatos que lhes eram imputados eram relacionados  constituio de um grupo terrorista trotskista-tito-sionista. Uma verdadeira caa aos judeus foi empreendida nos aparelhos dos partidos comunistas do Leste Europeu durante a preparao do processo.
	Em 4 de dezembro de 1952, um dia aps a execuo dos 11 condenados  morte do processo Slansky, Stalin levou para votao no Presidium do Comit Central uma resoluo intitulada Sobre a situao no Ministrio da Segurana de Estado e que ordenava s instncias do Partido pr fim ao carter descontrolado dos organismos da Segurana de Estado. A Segurana estava sendo posta na berlinda; ela dera mostras de laxismo, falhara na vigilncia e permitira aos mdicos sabotadores exercer sua atividade funesta. Um passo suplementar fora dado. A verdadeira inteno de Stalin era utilizar o caso dos jalecos brancos contra a Segurana e contra Beria. Grande especialista nas intrigas do aparelho, este ltimo no podia ignorar o sentido do que estava sendo preparado.
	O que se passou nas semanas que precederam  morte de Stalin permanece ainda em grande parte desconhecido. Por trs da campanha oficial que convocava ao reforo da vigilncia bolchevique e  luta contra toda forma de descuido, ou ainda das assemblias e reunies que pediam um castigo exemplar para os assassinos cosmopolitas, a instruo e os interrogatrios dos mdicos presos prosseguiam. A cada dia, novas prises ampliavam mais ainda o compl.
	Em 19 de fevereiro de 1953, o vice-ministro das relaes exteriores, Ivan Maiski, brao direito de Molotov e antigo embaixador da URSS em Londres, foi preso. Interrogado ininterruptamente, ele confessou ter sido recrutado por Winston Churchill como espio britnico, assim como a embaixadora da URSS em Estocolmo at o fim da Segunda Guerra Mundial, Alexandra Kollontai, grande figura do bolchevismo, promotora em 1921 da Oposio Operria junto com Chliapnikov, executado em 1937.
	Entretanto, apesar desses avanos espetaculares na instruo do compl, no podemos deixar de perceber que, diferentemente do que se passara em 1936-1938, nenhum dos dignitrios do regime se engajou publicamente na campanha de denncia do caso, de 13 de janeiro at a morte de Stalin, em 5 de maro. Segundo testemunhos de Bulganin tomados em 1970, alm de Stalin, principal inspirador e organizador, somente quatro dirigentes armavam o golpe: Malenkov, Suslov, Riumin e Ignatiev. Conseqientemente, todos os outros podiam se sentir ameaados. Ainda segundo Bulganin, o processo dos mdicos judeus deveria ser iniciado em meados de maro e continuar com a deportao em massa dos judeus soviticos para o Birobidjan. No estado atual do conhecimento e da acesso ainda bastante limitado aos Arquivos Presidenciais, onde so conservados os dossis mais secretos e mais sensveis,  impossvel saber se um tal plano de deportao em massa dos judeus estava em estudo no incio de 1953. Apenas uma coisa  certa: a morte de Stalin sobreveio para interromper, enfim, a lista de milhes de vtimas de sua ditadura.
		
	15. A sada do Stalinismo

	O desaparecimento de Stalin marcou uma etapa decisiva na metade das sete dcadas de existncia da Unio Sovitica: o fim de uma poca, ou, pelo menos, o fim de um sistema. Como escreveu Franois Furet, a morte do Guia Supremo revelou o paradoxo de um sistema que se pretendia inscrito nas leis do desenvolvimento social mas no qual tudo depende de tal modo de um s homem, que, com o seu desaparecimento, o sistema veio a perder algo que lhe era essencial. Um dos componentes mais importantes desse algo de essencial era o alto nvel de represso exercida pelo Estado contra a sociedade, sob as mais diversas formas.
	Para os principais colaboradores de Stalin - Malenkov, Molotov, Vorochilov, Mikoian, Kaganovitch, Kruschev, Bulganin e Beria-, o problema poltico posto pela sucesso de Stalin era particularmente complexo. Eles deviam, ao mesmo tempo, assegurar a continuidade do sistema, repartir entre si as responsabilidades, encontrar um equilbrio entre a preeminncia de apenas um, mesmo que de fornia atenuada, e o exerccio do colegiado, administrando as ambies individuais e as relaes de forcas, e, finalmente, introduzir rapidamente um certo nmero de mudanas, sobre as quais j havia um amplo consenso a respeito de sua necessidade.
	A difcil conciliao entre esses objetivos explica o encaminhamento extremamente complexo e tortuoso do curso poltico entre a morte de Stalin e a eliminao de Beria (preso em 26 de junho de 1953).
	Os resumos estenogrficos, hoje acessveis, das sesses plenrias do Comit Central, ocorridas em 5 de maro de 1953 (dia da morte de Stalin) e de 2 a 7 de julho de 19531 (aps a eliminao de Beria), tornam claras as razes que levaram os dirigentes soviticos a se engajar nessa sada do stalinis-mo, que Nikita Kruschev transformaria em desestalinizao, com seus pontos culminantes - primeiro o XX Congresso do PCUS, em fevereiro de 1956, depois o XXII Congresso, em outubro de 1962.
	A primeira dessas razes foi o instinto de sobrevivncia, a autodefesa. No curso dos ltimos meses da vida de Stalin, quase todos os dirigentes haviam sentido a que ponto eles prprios tinham se tornado vulnerveis. Ningum estava a salvo, nem Vorochilov, tratado como agente da Intelli-gence Service, nem Molotov, nem Mikoian, ambos cassados pelo ditador de seus cargos no Presidium do Comit Central, nem Beria, ameaado por intrigas obscuras no interior dos servios de Segurana, manipulados por Stalin. Do mesmo modo, nos escales intermedirios, as elites burocrticas que se haviam reconstitudo depois da guerra temiam e rejeitavam os aspectos terroristas do regime. A onipotncia da polcia poltica constitua um ltimo obstculo que os impedia de se aproveitarem de uma carreira estvel. Foi preciso comear pelo desmantelamento do que Martin Malia chamou justamente de a maquinaria posta em prtica pelo ditador defunto para o seu prprio uso, a fim de se assegurar de que ningum pudesse se servir dela para afirmar sua preeminncia, em prejuzo de seus colegas - e rivais - polticos. Bem mais do que divergncias de fundo sobre as reformas a serem empreendidas, havia o medo do retorno ao poder de um novo ditador capaz de reunir numa nova coalizo os herdeiros de Stalin contra Beria. Este ltimo aparecia, ento, como o dirigente mais poderoso, pois dispunha dos enormes aparelhos da Segurana e do Interior. Uma lio se impunha a todos: era necessrio que os aparelhos repressivos no escapassem mais ao controle do Partido - mais claramente, tornando-se a arma de uma nica pessoa - e ameaassem a oligarquia poltica.
	A segunda razo da mudana, mais fundamental, se atinha  percepo da necessidade de reformas econmicas e sociais, compartilhada pelos principais dirigentes, tanto Kruschev quanto Malenkov. A gesto exclusivamente repressiva da economia, baseada no controle quase total da produo agrcola, na criminalizao das relaes sociais e na hipertrofia do Gulag, levara o pas a uma grave crise econmica e a bloqueios sociais que excluam todo progresso da produtividade do trabalho. O modelo econmico posto em prtica nos anos 30, contra a vontade da imensa maioria da sociedade e que desembocara nos ciclos repressivos descritos anteriormente, estava ultrapassado.
	Enfim, a terceira razo da mudana devia-se  prpria dinmica das lutas pela sucesso, que alimentavam uma espiral de apostas polticas: foi Nikita Kruschev quem, por um certo nmero de razes que no analisaremos aqui -aceitao pessoal em afrontar-se com seu passado stalinista, remorso autntico, habilidade poltica, populismo especfico, ligao a uma certa forma de f socialista em um futuro radioso, vontade de retorno ao que ele considerava como uma legalidade socialista, etc. -, acabou por ir mais longe que todos os seus colegas na via de uma desestalinizao comedida e parcial sobre o plano poltico, embora radical sobre o plano da vida cotidiana da populao.
	Quais foram, ento, as principais etapas do desmantelamento da maquinaria repressiva, desse movimento que, em poucos anos, contribuiu para fazer a Unio Sovitica passar de um sistema marcado por um forte nvel de represso judicirio e extrajudicirio a um regime autoritrio e policial, no qual a memria do Terror se tornaria, durante toda uma gerao, um dos esteios da ordem ps-stalinista?
	Menos de duas semanas aps a morte de Stalin, o Gulag foi profundamente reorganizado. Ele passou para a jurisdio do Ministrio da Justia. Quanto  infra-estrutura econmica, ela foi transferida para os ministrios competentes. Porm, mais espetacular do que essas mudanas administrativas, que traduzem claramente um grande enfraquecimento da onipotncia do Ministrio do Interior, foi o anncio, no Pravda de 28 de maro de 1953, de uma ampla anistia. Em virtude de um decreto promulgado na vspera pelo Presidium do Soviete Supremo da URSS e assinado pelo seu presidente, o marechal Vorochilov, estavam anistiados:
	1. Todos os condenados a penas inferiores a cinco anos;
	2. Todas as pessoas condenadas por prevaricao, crimes econmicos e abusos de poder.
	3. As mulheres grvidas e as mes de crianas menores de dez anos, os menores, os homens de mais de 55 anos e as mulheres de mais de 50 anos.
	Alm disso, o decreto de anistia previa a diminuio da metade das penas ainda por cumprir dos demais prisioneiros, exceto os condenados por crimes contra-revolucionrios, roubo de grandes quantias, banditismo e morte com premeditao.
	Em poucas semanas, cerca de 1.200.000 prisioneiros deixaram o Gulag, ou seja, algo em torno da metade de toda a populao dos campos e colnias penitencirias. A maior parte deles era composta por pequenos delinquentes, condenados por furtos menores, ou mais frequentemente por simples cidados que sofreram as consequncias de uma das inmeras leis repressivas. Essas leis atingiam quase todas as esferas de trabalho, do abandono do posto de trabalho  infrao  lei de passaportes interiores. Essa anistia parcial, que exclua principalmente os prisioneiros polticos e os deslocados especiais, refletia, por sua prpria ambiguidade, as evolues ainda maldeflnidas e os encaminhamentos ainda tortuosos em curso durante a primavera de 1953, perodo de intensas lutas pelo poder, durante o qual Lavrenti Beria, primeiro vice-presidente do Conselho de Ministros e ministro do Interior, pareceu vestir a pele do grande reformador.
	Por quais consideraes era ditada essa ampla anistia? De acordo com Amy Knight,2 bigrafa de Lavrenti Beria, a anistia de 27 de maro de 1953, decidida por iniciativa do prprio ministro do Interior, inscrevia-se em uma srie de medidas polticas que testemunhavam a virada liberal de Beria, engajado nas lutas pela sucesso do poder aps a morte de Stalin, e preso em uma espiral de apostas polticas. Para justificar essa anistia, Beria enviara ao Presidium do Comit Central, em 24 de maro, uma longa nota na qual ele explicava que somente 221.435 dos 2.526.402 prisioneiros que compunham o Gulag eram criminosos particularmente perigosos ao Estado, em sua maior parte prisioneiros dos campos especiais. Em sua imensa maioria, reconhecia Beria (notvel e surpreendente confisso!), os prisioneiros no constituam nenhuma sria ameaa ao Estado. Uma ampla anistia era desejvel para descongestionar rapidamente um sistema penitencirio excessivamente pesado e pouco rentvel.
	A questo da gesto cada vez mais difcil do imenso Gulag era regularmente evocada desde o incio dos anos 50. A crise do Gulag, reconhecida pela maioria dos dirigentes bem antes da morte de Stalin, traz novos esclarecimentos sobre a anistia de 27 de maro de 1953. Por conseguinte, razes econmicas - e no somente polticas - conduziam os candidatos  sucesso de Stalin, a par das imensas dificuldades de gesto de um Gulag superpovoado e cada vez menos rentvel, a proclamar uma ampla, apesar de parcial, anistia.
	Nesse domnio como em tantos outros, nenhuma medida radical podia ser tomada enquanto Stalin estivesse vivo. Segundo a correia frmula do historiador Moshe Lewin, nos ltimos anos do ditador, tudo estava mumificado.
	Todavia, com Stalin j morto, nem tudo ainda era possvel: estava excluda a anistia de todos aqueles que haviam sido as principais vtimas da arbitrariedade do sistema: os polticos, condenados por atividades contra-revolucionrias.
	A excluso dos polticos da anistia de 27 de maro de 1953 esteve na origem de um certo nmero de tumultos e revoltas de prisioneiros nos campos de regime especial do Gulag, do Retchlag e do Steplag.
	Em 4 de abril, o Pravda anunciou que os assassinos de jaleco branco haviam sido vtimas de uma cilada e que suas confisses tinham sido arrancadas com o uso de mtodos ilegais de interrogatrio (subentendido: sob tortura). O evento foi ainda amplificado pela resoluo adotada pelo Comit Central, poucos dias mais tarde, Sobre a violao da legalidade pelos rgos de Segurana de Estado. Ficava claro que o caso dos mdicos assassinos no fora um acidente isolado, que a Segurana de Estado se havia arrogado poderes exorbitantes e que ela havia multiplicado os atos ilegais. O Partido rejeitava esses mtodos e condenava o poder excessivo da polcia poltica. A esperana engendrada por esses textos provocou imediatamente vrias reaes: os tribunais foram submergidos por centenas de milhares de pedidos de reabilitao. Quanto aos prisioneiros, principalmente aqueles dos campos especiais, exasperados pelo carter limitado e seletivo da anistia de 27 de maro e conscientes da confuso dos carcereiros e da crise que o sistema repressivo atravessava, eles se recusaram em peso a trabalhar e a obedecer s ordens dos comandantes dos campos. Em 14 de maio de 1953, mais de 14 prisioneiros de diferentes sees do complexo penitencirio de Norilsk fizeram uma greve e organizaram Comits compostos por membros eleitos pelos diferentes grupos nacionais, nos quais os ucranianos e os blticos possuam um papel-chave. As principais reivindicaes dos prisioneiros eram: a diminuio da jornada de trabalho para nove horas; a supresso do nmero de matrcula sobre as roupas; a ab-rogao das limitaes concernentes  correspondncia com a famlia; a expulso de todos os delatores; e a extenso do benefcio de anistia aos polticos.
	O anncio oficial, em 10 de julho de 1953, da priso de Beria, acusado de ter sido espio ingls e inimigo feroz do povo, confortou os prisioneiros com a idia de que alguma mudana importante estava acontecendo em Moscou e os tornou intransigentes em suas reivindicaes. O movimento de recusa ao trabalho amplificou-se. Em 14 de julho, foi a vez de mais de 12 mil prisioneiros do complexo penitencirio de Vorkuta iniciarem uma greve. Smbolo da mudana dos tempos, tanto em Norilsk quanto em Vorkuta, negociaes foram engajadas, e o assalto contra os prisioneiros foi adiado por vrias vezes.
	Do vero de 1953 at o XX Congresso, em fevereiro de 1956, a agitao permaneceu endmica nos campos de regime especial. A revolta mais importante e mais longa estourou em maio de 1954, na terceira seo do complexo penitencirio do Steplag, em Kenguir, prximo a Karaganda (Cazaquisto). Ela durou 40 dias e s foi reduzida quando as tropas especiais do Ministrio do Interior invadiram o campo com tanques. Cerca de 400 prisioneiros foram julgados e de novo condenados, enquanto que os seis membros sobreviventes da comisso que havia dirigido a resistncia foram executados.
	Como sinal da mudana poltica ocorrida aps a morte de Stalin, algumas das reivindicaes expressas pelos prisioneiros em 1953-1954 foram ento satisfeitas: a durao do trabalho dirio foi reduzida para nove horas, e melhoras significativas foram introduzidas em sua vida cotidiana.
	Em 1954-1955, o governo tomou uma srie de medidas que limitavam a onipotncia da Segurana de Estado, profundamente remanejada aps a eliminao de Bera. As troiki - tribunais especiais para o julgamento de casos levantados pela polcia poltica - foram suprimidas. A polcia poltica foi reorganizada como um organismo que tomou o nome de Komitet Gosudarstvennoi Bezopasnosti (KGB, Comit da Segurana de Estado), expurgada de cerca de 20% de seus efetivos anteriores a maro de 1953 e posta sob a autoridade do general Serov, que havia, sobretudo, supervisionado as deportaes dos povos durante a guerra. Considerado como prximo a Nikita Kruschev, o general Serov encarnava todas as ambiguidades de um perodo de transio no qual muitos dos responsveis de ontem permaneciam em cargos estratgicos. O governo decretou novas anistias parciais, sendo que a mais importante, em setembro de 1955, permitiu a libertao das pessoas que foram condenadas em 1945 pela colaborao com o invasor e dos prisioneiros de guerra alemes ainda detidos na URSS. Enfim, um certo nmero de medidas foram tomadas em favor dos colonos especiais. Principalmente, eles receberam a autorizao para se deslocarem por um permetro mais amplo e para comparecerem menos frequentemente  komandatura da qual dependiam. Aps as negociaes ger-mano-soviticas de mais alto nvel, os alemes deportados, que representavam mais de 40% do nmero total de colonos especiais (um pouco mais de um milho para cerca de 2.750.000), foram os primeiros a se beneficiarem, a partir de setembro de 1955, da abolio das restries que pesavam sobre essa categoria de proscritos. Entretanto, os textos da lei detalhavam que a ab-rogao das restries jurdicas, profissionais, de estatuto e de residncia no poderia acarretar nem a restituio dos bens confiscados nem o direito de retorno aos locais de onde os colonos especiais haviam sido retirados.
	Essas restries eram bastante significativas dentro do desenrolar do processo, parcial e gradual, do que se chamou a desestalinizao. Conduzida por Nikita Kruschev, um stalinista que havia participado diretamente da represso, como todos os dirigentes de sua gerao - deskulakizao, expurgos, deportaes, execues -, a desestalinizao podia somente se limitar  denncia de alguns excessos do perodo de culto da personalidade. O Relatrio Secreto, lido na noite de 24 de fevereiro de 1956 por Kruschev, diante dos delegados soviticos no XX Congresso, ainda era bastante seletivo na condenao ao sta-linismo, no recolocando em questo nenhuma das grandes escolhas do Partido desde 1917. Esse carter seletivo tambm aparece tanto na cronologia do desvio stalinista - datado de 1934, eram excludas do captulo de crimes a coletivizao e a fome de 1932-1933 - quanto nas escolhas das vtimas mencionadas, todas elas comunistas, geralmente de estrita obedincia stalinista,
	5 V. N. Zemskov, Massovoie osvobozdenie spetzposelentsev i ssylnyx (A libertao em massa dos deslocados especiais e dos exilados), embora nunca tenham sido citados os simples cidados. Circunscrevendo o campo da represso apenas aos comunistas, vtimas da ditadura pessoal de Stalin, e limitando-o a episdios precisos de uma histria que s comeava aps o assassinato de Serge Kirov, o Relatrio Secreto elidia a questo central: a da responsabilidade total do Partido perante a sociedade, desde 1917.
	O Relatrio Secreto foi seguido por um certo nmero de medidas concretas que completavam a limitao das disposies tomadas at esse momento. Em maro-abril de 1956, todos os colonos especiais pertencentes a algum dos povos punidos por uma pretensa colaborao com a Alemanha nazista e deportados em 1943-1945 foram retirados da vigilncia administrativa dos rgos do Ministrio do Interior, sem poder, no entanto, pretender  restituio de seus bens confiscados, nem retornar a sua regio. Essas semimedidas causaram muita ira entre os deportados; vrios dentre eles se recusaram a assinar o engajamento por escrito com a administrao, que exigia deles no reclamar a restituio de seus bens e no retornar s suas regies de origem. Diante de uma atitude que denotava uma mudana notvel do clima poltico e das mentalidades, o governo sovitico fez novas concesses, restabelecendo, em janeiro de 1957, as antigas repblicas e regies autnomas dos povos deportados, que haviam sido dissolvidas to logo comeara a guerra. Apenas a repblica autnoma dos trtaros da Crimia no foi restaurada.
	Durante trs dcadas, os trtaros da Crimia lutariam para que lhes fosse reconhecido o direito de retorno. A partir de 1957, os karachais, os kal-muks, os balkars, os chechenos e os inguches tomaram, s dezenas de milhares, o caminho de volta. Mas nada lhes foi facilitado pelas autoridades. Ocorreram vrios incidentes entre os deportados que desejavam reintegrar suas antigas moradias e os colonos russos que haviam sido trazidos das regies vizinhas em 1945, e que ocupavam esses endereos a partir de ento. No tendo propiska - um registro junto  polcia local que dava o direito jurdico de habitar apenas em uma dada localidade - os antigos deportados, de volta a sua terra, foram obrigados, mais uma vez, a se instalar em barraces improvisados, em favelas, em barracas de lona, sob a ameaa permanente de serem presos, a qualquer momento, por infrao ao regime de passaportes (o que era passvel de dois anos de cadeia). Em julho de 1958, a capital chechena, Grozny, foi palco de confrontos sangrentos entre russos e chechenos. Uma calma precria s foi estabelecida aps a liberao de fundos para a construo de habitaes para os ex-deportados pelas autoridades russas.
	Oficialmente, a categoria dos colonos especiais s deixou de existir em janeiro de 1960. Os ltimos deportados libertados de seu estatuto de pria foram os nacionalistas ucranianos e blticos. Cansados de se defrontarem mais uma vez com os obstculos administrativos ao seu retorno feitos pelas autoridades, menos da metade dos deportados blticos e ucranianos retornou s suas regies. Os outros sobreviventes criaram razes em seus locais de deportao.
	Foi somente aps o XX Congresso que a maioria dos contra-revolucio-nrios foi libertada. Em 1954-1955, menos de 90.000 entre eles foram soltos. Em 1956-1957, cerca de 310.000 contra-revolucionrios deixaram o Gulag. Em 1 de janeiro de 1959, ainda havia 11.000 polticos nos campos de concentrao.? Para acelerar os procedimentos, mais de duzentas comisses especiais de reviso foram enviadas aos campos, e vrias anistias foram decretadas. Entretanto, a libertao ainda no significava a reabilitao. Em dois anos (1956-1957), menos de 60 mil pessoas foram devidamente reabilitadas. A imensa maioria teve de esperar vrios anos, e por vezes dcadas, antes de obter o precioso certificado. Entretanto, o ano de 1956 permanece na memria coletiva como sendo o ano do retorno, admiravelmente descrito por Vassili Grossman em seu relato, Toutpasse. Esse grande retorno, que ocorria no mais absoluto silncio oficial e que lembrava tambm que milhes de pessoas no retornariam jamais, s poderia ter provocado uma profunda confuso nos espritos, um amplo traumatismo social e moral e um face a face trgico em uma sociedade na qual, como escrevia Lydia Tchukovskaia, a partir de ento, duas Rssias se olhavam nos olhos. A que aprisionou e a que foi aprisionada. Diante dessa situao, a primeira preocupao das autoridades foi a de no atender aos pedidos individuais e coletivos concernentes s perseguies a serem feitas aos funcionrios autores de violaes  legalidade socialista ou de mtodos ilegais de interrogatrio durante o perodo de culto da personalidade. A nica via de recurso eram as comisses de controle do Partido. Sobre o captulo das reabilitaes, as autoridades polticas enviaram aos tribunais um certo nmero de circulares fixando as prioridades: membros do Partido e militares. No houve nenhuma depurao.
	Com a libertao dos polticos, o Gulag ps-stalinista viu seus efetivos se dissolverem, antes de se estabilizarem, no fim dos anos 50 e incio dos anos 60, em torno de 900.000 prisioneiros, ou seja, um ncleo de 300.000 prisioneiros comuns e recidivistas pagando longas penas, e 600.000 pequenos delinquentes condenados a penas frequentemente desproporcionais em relao aos delitos cometidos, com base nas leis repressivas ainda em vigor. Desapareceu pouco a pouco o papel pioneiro do Gulag na colonizao e na explorao das riquezas naturais do Grande Norte e do Extremo Oriente sovitico. Os imensos complexos penitencirios do perodo stalinista se fragmentaram em unidades menores. A geografia do Gulag modificou-se deste modo: a maior parte dos campos de concentrao foi reinstalada na regio europeia da URSS. O aprisionamento retomou aos poucos a funo reguladora que ele possui normalmente em cada sociedade, mantendo na Unio Sovitica ps-stalinista, todavia, algumas especificidades prprias a um sistema que no era o de um Estado de direito. Com efeito, aos criminosos juntaram-se, ao sabor das campanhas que reprimiam esporadicamente este ou aquele comportamento que de uma hora para outra passara a ser considerado intolervel - alcoolismo, vandalismo, parasitismo -, cidados comuns, assim como uma minoria de pessoas (algumas centenas por ano) condenadas principalmente por infrao aos artigos 70 e 190 do novo Cdigo Penal, promulgado em 1960.
	As diferentes medidas de libertao e as anistias foram complementadas por modificaes capitais na legislao penal. Entre as primeiras medidas que reformavam a legislao stalinista figurava o decreto de 25 de abril de 1956, que abolia a lei antioperria de 1940, relativa  proibio aos operrios de deixarem sua empresa. Esse primeiro passo em direo  descriminao das relaes de trabalho foi seguido por vrios outros dispositivos. Todas as medidas parciais foram sistematizadas com a adoo dos novos Fundamentos do Direito Penal, em 25 de dezembro de 1958. Esses textos invalidaram os dispositivos centrais da legislao penal dos cdigos precedentes, principalmente as noes de inimigo do povo e de crime contra-revolucionrio. Alis, a idade de responsabilidade penal foi elevada de 14 para 16 anos; a violncia e as torturas no podiam mais ser empregadas para arrancar confisses; o acusado devia estar obrigatoriamente presente  audincia, defendido por um advogado informado sobre o seu dossi; salvo exceo, os debates deviam ser pblicos. Porm, o Cdigo Penal de 1960 mantinha um certo nmero de artigos que permitiam a punio de toda forma de desvio poltico ou ideolgico. Nos termos do artigo 70, todo indivduo que promova uma propaganda que vise enfraquecer o poder sovitico... por meio de asseres caluniosas denegrindo o Estado e a sociedade  passvel de uma pena de seis meses a sete anos em campos de concentrao, seguido de um exlio interior com durao de dois a cinco anos. O artigo 190 condenava toda no-denncia de delito anti-sovi-tico a uma pena de um a trs anos em campo de concentrao ou a uma pena equivalente de trabalhos de interesse coletivo. Nos anos 60 e 70, esses dois artigos foram amplamente utilizados contra as formas de desvio poltico ou ideolgico: 90% das poucas centenas de pessoas condenadas a cada ano por anti-sovietismo o foram em decorrncia desses dois artigos.
	No decorrer desses anos de degelo poltico e de melhora global do nvel de vida, mas nos quais a memria da represso ainda permanecia viva, as formas ativas de desacordo ou de contestao permaneceram bastante minoritrias: para a primeira metade dos anos 60, os relatrios da KGB reconheciam 1.300 opositores em 1961, 2.500 em 1962, 4.500 em 1964 e 1.300 em 1965. Nos anos 60 e 70, trs categorias de cidados foram objeto de uma estreita vigilncia pelos servios da KGB: as minorias religiosas (catlicas, batistas, pentecostais, adventistas), as minorias nacionais mais atingidas pela represso durante o perodo stalinista (blticos, trtaros da Crimia, alemes, ucranianos das regies ocidentais onde a resistncia  sovietizao havia sido particularmente forte) e a intelligentsia criadora participante do movimento dissidente surgido no incio dos anos 60.
	Aps uma ltima campanha anticlerical, lanada em 1957, que se limitava na maior parte das vezes ao fechamento de um certo nmero de igrejas reabertas aps a guerra, o confronto entre o Estado e a Igreja Ortodoxa deu lugar a uma coabitao. A partir desse momento, a ateno dos servios especializados da KGB estava mais particularmente voltada para as minorias religiosas, mais suspeitas por um suposto apoio recebido do exterior do que propriamente por suas convices religiosas. Alguns dados esparsos demonstram o aspecto marginal desse fenmeno: em 1973-1975, 116 batistas foram presos; em 1984, 200 batistas pagavam penas em prises ou em campos de concentrao, sendo que a durao mdia das condenaes era de um ano.
	Na Ucrnia Ocidental, que fora durante muito tempo uma das regies mais resistentes  sovietizao, uma dezena de grupelhos nacionalistas, herdeiros da OUN, foram desmantelados em Ternopol, Zaporojie, Ivano-Frankovsk e Lviv, nos anos 1961-1973. As penas impostas aos membros desses grupelhos eram geralmente escalonadas de cinco a dez anos em campo de concentrao. Na Litunia, outra regio brutalmente submetida nos anos 40, as fontes locais do conta de um nmero bastante limitado de prises nos anos 60 e 70. O assassinato de trs padres catlicos em 1981, em circunstncias suspeitas que provavelmente implicavam os servios da KGB, foi ressentido como uma provocao intolervel.
	At o desaparecimento da URSS, o problema dos trtaros da Crimia, deportados em 1944 e cuja repblica autnoma no fora restabelecida, permaneceu como uma pesada herana do perodo stalinista. Desde o fim dos anos 50, os trtaros da Crmia, instalados em sua maior parte na sia Central, iniciaram - smbolo de que os tempos estavam bastante mudados - uma campanha de peties para a sua reabilitao coletiva e para serem autorizados a voltar para a sua regio. Em 1966, uma petio com 130.000 assinaturas foi depositada por uma delegao trtara no XXIII Congresso do Partido. Em setembro de 1967, um decreto do Presidium do Soviete Supremo anulou a acusao de traio coletiva. Trs meses mais tarde, um novo decreto autorizou os trtaros a se instalarem em uma localidade que eles escolhessem, com a condio de respeitarem a legislao sobre os passaportes, o que implicava um contrato de trabalho em boa e devida forma. De 1967 a 1978, menos de 15.000 pessoas - ou seja, 2% da populao trtara - conseguiram regularizar sua situao em relao  lei dos passaportes. O movimento dos trtaros da Crmia foi ajudado pelo engajamento do general Grigorenko em favor da causa trtara. Ele foi preso em maio de 1969 em Tachkent e transferido para um hospital psiquitrico, uma forma de aprisionamento que atingiu algumas dezenas de pessoas por ano, nos anos 70.
	Os historiadores geralmente datam o incio da dissidncia pelo primeiro processo pblico da poca ps-stalinista: o processo contra os escritores Andrei Siniavski e luri Daniel, em fevereiro de 1966, condenados respectivamente a sete e cinco anos em campo de concentrao. Em 5 de dezembro de 1965, pouco tempo aps a priso dos escritores, uma manifestao de apoio reunindo cerca de 50 pessoas ocorreu na praa Puchkin, em Moscou. Os dissidentes - algumas centenas de intelectuais em meados dos anos 60 e entre mil e dois mil uma dcada mais tarde - inauguravam um mtodo radicalmente diferente de contestao. Em lugar de negar a legitimidade do regime, eles exigiam o estrito respeito s leis soviticas,  Constituio e aos acordos internacionais assinados pela URSS. As modalidades da ao dissidente estavam em conformidade com este novo princpio: recusa da clandestinidade, transparncia do movimento, ampla publicidade das aes empreendidas graas  realizao, to frequente quanto possvel, de entrevistas coletivas com a presena de correspondentes estrangeiros.
	Na relao desproporcional de foras entre algumas centenas de dissidentes e o Estado sovitico, o peso da opinio internacional tornou-se determinante, principalmente aps a apario, no fim de 1973 no Ocidente, do livro de Alexandre Soljenitsyne, O Arquiplago do Gulag, seguida pela expulso do escritor da URSS. Em alguns anos, graas  ao de uma nfima minoria, a questo dos direitos do homem na URSS tornou-se um tema internacional importante e o assunto central da Conferncia sobre a Segurana e a Cooperao na Europa, iniciada em 1973, em Helsinque. A ata final da Conferncia, assinada pela URSS, reforou a posio dos dissidentes, que organizaram, nas poucas cidades em que estavam implantados (Moscou, Leningrado, Kiev, Vilnius, etc.), Comits de vigilncia dos acordos de Helsinque, encarregados de transmitir toda informao sobre a violao dos direitos do homem. Esse trabalho de informao vinha sendo empreendido desde 1968 nas condies as mais difceis, com a publicao bimestral ou trimestral de um boletim clandestino, a Crnica dos Eventos Correntes, que assinalava as mais diversas formas de ataque  liberdade. Nesse novo contexto de internacionalizao da questo dos direitos do homem na URSS, a maquinaria policial foi um pouco refreada. Desde que o opositor era conhecido, sua priso no passava mais despercebida e as informaes sobre o que estava acontecendo com ele circulavam rapidamente no exterior. De modo significativo, o ciclo policial evolua, a partir de ento, em funo direta da eventual diminuio das tenses internacionais: as prises foram mais numerosas em 1968-1972 e 1979-1982 do que nos anos 1973-1976.  impossvel, dado o Estado da documentao atual, esboar um balano preciso do nmero de pessoas presas por motivos polticos nos anos 1960-1985. As fontes dissidentes do conta de algumas centenas de prises nos anos mais tensos. Em 1970, a Crnica dos Eventos Correntes anuncia 106 condenaes, 20 das quais a um encarceramento profiltico em hospital psiquitrico. Para 1971, os nmeros citados pela Crnica etam respectivamente de 85 e 24. Durante os anos 1979-1981, anos de confronto internacional, cerca de 500 pessoas foram presas.
	Em um pas onde o poder permanecia sempre alheio  expresso livre de opinies discordantes, opinies que exprimiriam inclusive seu desacordo sobre a prpria natureza desse poder, o fenmeno da dissidncia - embora ele fosse a expresso de uma oposio radical de uma concepo poltica diversa, que defendia os direitos do indivduo em face dos direitos da coletividade -no poderia de modo algum levar a uma ao direta sobre o corpus social. A verdadeira mudana estava em outro lugar: nas mltiplas esferas de autonomia social e cultural desenvolvidas a partir dos anos 60 e 70, e ainda mais em meados dos anos 80, com a tomada de conscincia, por uma parte das elites polticas, da necessidade de uma mudana to radical quanto aquela ocorrida em 1953.
	
	 guisa de concluso
	
	Esta sntese no tem a pretenso de apresentar revelaes sobre o exerccio da violncia de Estado na URSS e sobre as formas de represso postas em prtica durante a primeira metade da existncia do regime sovitico. Essa especificidade j foi, h bastante tempo, explorada pelos historiadores, que no esperaram a abertura dos arquivos para retraar as principais sequncias e a dimenso do terror. Em contrapartida, o acesso s fontes permite o estabelecimento de um primeiro balano nos seus desdobramentos cronolgicos, em seu aspecto quantitativo e em suas formas. Esse esboo constitui uma primeira etapa no estabelecimento de um inventrio das questes sobre as prticas de violncia, sua recorrncia e seu significado em diferentes contextos.
	Tal mtodo insere-se em um enorme campo de trabalho aberto, j h algumas dcadas, tanto no Ocidente quanto na Rssia. Desde a abertura -embora parcial - dos arquivos, os historiadores procuraram confrontar, antes de mais nada, a historiografia constituda na anormalidade s fontes ento disponveis.  assim que, j h alguns anos, um certo nmero de historiadores, sobretudo russos, trouxeram ao conhecimento pblico materiais hoje fundamentais, que serviram de base a todos os estudos recentes e em curso. Vrios aspectos foram privilegiados, em particular o universo concentra-cional, a confrontao entre o poder e os camponeses e os mecanismos de tomada de deciso nos altos escales. Historiadores como V. N. Zemskov ou N. Bugai, por exemplo, efetuaram um primeiro balano quantitativo das deportaes em todo o perodo stalinista. V. P. Danilov, na Rssia, e A. Graziosi, na Itlia, puseram em evidncia a continuidade e ao mesmo tempo o centralismo dos confrontos entre o novo regime e o campesinato. Atravs dos arquivos do Comit Central, O. Khlevniuk trouxe um certo nmero de esclarecimentos sobre o funcionamento do primeiro crculo do Kremlin.
	Apoiando-me nessas pesquisas, tentei reconstituir, a partir de 1917, o desdobramento desses ciclos de violncia que esto no corao da histria social, ainda com muito a ser escrito, da URSS. Retomando uma trama j bastante explorada pelos pioneiros, que reconstituram ex nihilo os muros trgicos dessa histria, selecionei as fontes que me pareceram as mais exemplares da diversidade das formas de violncia e de represso, das prticas e dos grupos de vtimas, mas tambm das lacunas e das contradies: violncia extrema do discurso leninista contra os oponentes mencheviques que deveriam ser todos fuzilados, mas que, de acordo com os fatos, foram com mais freqncia aprisionados. Violncia extrema dos destacamentos de requisio que, no fim de 1922, continuam a aterrorizar o campo, apesar de a NEP j ter sido decretada pelo Centro h mais de um ano. Alternncia contraditria, nos anos 30, entre as fases espetaculares de prises em massa e de reposio em liberdade, dentro do contexto de uma campanha de desentupimento das prises. Por detrs da multiplicidade de casos apresentados, a inteno foi a de produzir um inventrio das formas de violncia e de represso que amplie o campo de questionamentos sobre os mecanismos, a dimenso e o significado do terror de massa.
	A permanncia dessas prticas at a morte de Stalin e sua incidncia determinante na histria social da URSS justificam, segundo me parece, a colocao da histria poltica em segundo plano, pelo menos em uma primeira etapa. A esse esforo de reconstituio se junta uma tentativa de sntese que d conta dos conhecimentos mais antigos ou recentemente adquiridos e dos documentos que interpelam e suscitam novas questes. Esses documentos so, na maior parte das vezes, relatrios de campo - correspondncias de funcionrios locais sobre a fome, relatrios da Tcheka local sobre as greves de operrios em Tuia, prestao de contas da administrao dos campos de concentrao sobre o estado dos prisioneiros - que trazem  cena realidades concretas e situaes-limite nesse universo de extrema violncia.
	Para poder destacar os diversos questionamentos no corao deste estudo,  preciso, antes de mais nada, relembrar os diferentes ciclos de violncia e de represso.
	O primeiro ciclo, do fim de 1917 ao fim de 1922, abre-se com a tomada do poder que, para Lenin, passa necessariamente por uma guerra civil. Aps uma fase bastante breve de instrumentao das violncias espontneas que emanam da sociedade, que agiram tambm como foras corrosivas da antiga ordem, assistimos, a partir da primavera de 1918, a uma ofensiva deliberada contra os camponeses que, alm de confrontos militares entre Vermelhos e Brancos, servir de modelo, durante vrias dcadas, s prticas de terror e condicionar a impopularidade assumida pelo poder poltico. O impressionante, apesar dos riscos ligados  precariedade do poder,  a recusa de toda negociao, a aposta na remoo de todo obstculo, o que particularmente explica as represses aplicadas aos aliados naturais dos bolcheviques - os operrios; sob esse ponto de vista, a revolta de Kronstadt  apenas
	
uma decorrncia. Esse primeiro ciclo no se encerra nem com a derrota dos Brancos, nem com a NEP: ele se prolonga em uma dinmica mantida pela base formada por uma violncia e s vai se fechar com a fome de 1922, que aniquila as ltimas resistncias dos camponeses.
	Que significado dar a essa curta pausa que, de 1923 a 1927, se interpe entre dois ciclos de violncias? Vrios elementos falam em favor de uma sada progressiva da cultura da guerra civil: os efetivos da polcia poltica diminuem intensamente, constata-se uma trgua com os camponeses e o incio de uma regulamentao jurdica. Porm, a polcia poltica no somente no desaparece como conserva suas funes de controle, de vigilncia e de fichamento. A prpria brevidade dessa pausa relativiza o seu sentido.
	Se o primeiro ciclo de represso no se inscreve num contexto de confrontos diretos e generalizados, o segundo inicia-se com uma ofensiva assumida do grupo stalinista contra a coletividade camponesa, no contexto de lutas polticas nas instncias superiores do Partido. Por um lado, esse ressurgimento de uma violncia extrema  percebido como um recomeo. O poder poltico reata suas ligaes com as prticas experimentadas alguns anos antes. Os mecanismos ligados  brutalizao das relaes sociais no decorrer do primeiro ciclo acarretam uma nova dinmica de terror, mas tambm de regresso, para o prximo quarto de sculo. Essa segunda guerra declarada aos camponeses  decisiva no processo de institucionalizao do terror como modo de governo. E por vrias razes: ele se estabelece em parte sobre uma instrumentalizao das tenses sociais, acordando o velho fundo de violncia arcaica presente no mundo rural; ele inaugura sistemas de deportao em massa; ele  o lugar em que se formam os quadros polticos do regime. Enfim, ao institucionalizar uma requisio predadora que desorganiza todo o ciclo produtivo, o sistema de explorao feudal-militar do campo, segundo a frmula de Bukharin, desemboca em uma nova forma de servido e abre o caminho para a experincia extrema do stalinismo: a fome de 1933, que ocupa sozinha o lugar mais terrvel no balano das vtimas do perodo stalinista. Aps essa situao-limite - no havia mais ningum para semear nem havia mais lugares nas prises -, um tempo de trgua se esboa brevemente, durante dois anos: pela primeira vez, prisioneiros so soltos em massa. Mas as raras medidas de apaziguamento so geradoras de novas tenses: os filhos dos kulaks deportados reencontram seus direitos cvicos, mas no so autorizados a retornarem a sua regio.
	A partir da guerra camponesa, como se seguem e se articulam as diferentes sequncias de terror dos anos 30 e da dcada subsequente? Para distingui-los, podemos apoiar-nos em vrios pontos, entre os quais a radicalidade e a intensidade das represses. O tempo do Grande Terror concentra, em menos de dois anos (fim de 1936-fim de 1938), mais de 85% das condenaes  morte pronunciadas por cortes de exceo para todo o perodo stalinis-ta. Durante esses anos, a sociologia das vtimas  um pouco confusa: o grande nmero de quadros do Partido executados ou presos no pode mascarar a grande diversidade sociolgica das vtimas, escolhidas ao acaso das cotas a serem cumpridas. Essa represso a todos os azimutes, cega e brbara, no significa, nesse apogeu paroxstico do Terror, uma incapacidade de contornar um certo nmero de obstculos e de resolver os conflitos de outro modo que no fosse atravs da liquidao?
	Uma outra marca das sequncias de represso nos  fornecida pela tipo-logia dos grupos de vtimas. A partir de 1938, sobre um fundo de penalizao crescente das relaes sociais, constatam-se vrias ofensivas caractersticas no decorrer dessa dcada, sendo que a primeira das quais afeta a gente comum das cidades, atravs de um reforo da legislao antioperria.
	A partir de 1940, no contexto da sovietizao dos novos territrios anexados, e depois da Grande Guerra Patritica, instala-se uma nova sequncia de represso marcada ao mesmo tempo pela designao de novos grupos de vtimas, nacionalistas e povos inimigos e pela sistematizao das deportaes em massa. As premissas desse novo movimento so observveis desde 1936-1937, principalmente com a deportao dos coreanos num quadro de recrudescimento da poltica de fronteiras.
	A anexao, a partir de 1939, das regies orientais da Polnia e depois dos pases blticos d lugar tanto  eliminao dos representantes ditos da burguesia nacionalista quanto  deportao de grupos minoritrios especficos - os poloneses da Galcia Oriental, por exemplo. Esta ltima prtica multiplica-se mesmo durante a guerra, desafiando as urgncias vitais de defesa de um pas ameaado pelo aniquilamento. Deportaes em massa de grupos inteiros - alemes, chechenos, trtaros, kalmuks, etc. - revelam, entre outras coisas, o domnio adquirido nesse tipo de operaes desde o incio dos anos 30. Essas prticas no esto circunscritas aos perodos de guerra. Elas prosseguem, sob uma forma seletiva, durante todo o decorrer dos anos 40, no contexto de um longo processo de pacifcao-sovietizao das novas regies incorporadas ao Imprio. Alis, durante esse perodo, o afluxo de grandes contingentes nacionais ao Gulag modifica profundamente a configurao do universo dos campos de concentrao, onde os representantes dos povos punidos e os resistentes nacionais ocupam, a partir de ento, um lugar de destaque.
	Paralelamente, ao sair da guerra, assiste-se a um novo recrudescimento da penalizao dos comportamentos sociais, o que tem como consequncia o crescimento ininterrupto dos efetivos do Gulag. Assim, esse perodo de ps-guerra marca o apogeu numrico do Gulag, alm de marcar o incio da crise do universo dos campos de concentrao, hipertrofiado, atravessado por mltiplas tenses e com uma rentabilidade econmica cada vez mais problemtica.
	Alis, os ltimos anos desse grande ciclo stalinista, ainda bastante obscuros, testemunham as derivas especficas desse perodo: sobre o fundo de rea-tivao de um anti-semitismo latente, o retorno  figura do compl pe em cena a rivalidade de foras mal-identificadas - cls no interior da polcia poltica ou das organizaes regionais do Partido. Portanto, os historiadores so levados a se interrogar sobre a eventualidade de uma ltima campanha, um novo Grande Terror, da qual a populao judia sovitica teria sido a vtima potencial.
	Essa breve rememorao dos primeiros 35 anos da histria da URSS destaca a permanncia das prticas de violncia extrema como forma de gesto poltica da sociedade.
	No seria agora o momento de retomar a questo clssica da continuidade entre o primeiro ciclo leninista e o segundo ciclo stalinista, um prefigurando o outro?
	A configurao histrica , nos dois casos, evidentemente, incomparvel. O terror vermelho se enraza, no outono de 1918, num contexto de confrontos generalizados, e o carter extremo das represses engajadas encontra, em parte, seu sentido. Em contrapartida, a retomada da guerra camponesa, que est na base do segundo ciclo de violncias, acontece num pas pacificado, e pe em questo a ofensiva durvel engajada contra a imensa maioria da sociedade. Alm da dimenso irredutvel dessa diferena contextuai, o exerccio do terror como instrumento central a servio do projeto poltico leninista j est anunciado antes mesmo do incio da guerra civil e  assumido como um programa de ao que, de fato, pretende ser transitrio. Desse ponto de vista, a curta trgua da NEP e os complexos debates entre os dirigentes bolcheviques sobre as vias de desenvolvimento continuam sempre a repor a questo de uma possvel normalizao e do abandono das formas de represso como nica forma de resoluo das tenses sociais e econmicas. Na verdade, durante esses poucos anos, o mundo rural viveu afastado, e a relao entre o poder e a sociedade se caracterizou, em grande parte, por uma ignorncia recproca.
	A guerra camponesa que rene esses dois ciclos de violncia se revela aqui corno matricial, no sentido de que ela parece despertar as prticas experimentadas e desenvolvidas durante os anos 1918-1922: campanhas de requisies foradas, sobre o fundo da instrumentalizao das tenses sociais no interior da comunidade camponesa, confrontos diretos e o aumento, encorajado, das formas de brutalidade arcaica. Em ambas as partes, executores e vtimas tm a sensao de reviver uma histria j conhecida.
	Mesmo que o perodo stalinista nos mergulhe - por razes evidentes, que se devem  pregnncia do terror como elemento constitutivo de um modo de governo e de gesto da sociedade - no corao de um universo especfico, devemos nos perguntar sobre as filiaes sugeridas atravs dos diferentes aspectos da represso. A esse respeito, podemos considerar a questo da deportao atravs de um primeiro caso de figura: a descossaquizao de 1919-1920. No contexto da retomada dos territrios cossacos, o governo engaja uma operao de deportao que atinge a totalidade da populao autctone. Essa operao se d como seguinte a uma primeira ofensiva que visara os cossacos abastados, mas que havia causado um extermnio fsico em massa, em razo do zelo demonstrado pelos agentes locais no cumprimento de sua tarefa. Por vrias razes, esse evento prefigura toda uma srie de prticas e encadeamentos que se realizaro, numa escala e num contexto bastante diferentes, dez anos mais tarde: aviltamento de um grupo social, extrapolao das diretivas num contexto local e, depois, incio da erradicao atravs da deportao. H, em todos esses elementos, semelhanas perturbadoras com as prticas da deskulakizao.
	Por outro lado, se ampliamos a reflexo para o fenmeno mais geral da excluso coletiva, e depois do isolamento dos grupos inimigos, tendo como corolrio a criao, durante a guerra civil, de todo um sistema de campos de concentrao, somos levados a destacar, contrariamente, as fortes rupturas entre os dois ciclos de represso. O desenvolvimento dos campos de concentrao durante a guerra civil e, nos anos 20, a prtica da relegao no podem ser comparados, em seus objetivos e em sua realidade, com o universo dos campos de concentrao tal como se desenvolveu nos anos 30. Com efeito, a grande reforma de 1929 no conduziu somente ao abandono das formas da simples deteno; ela pe os fundamentos de um novo sistema, caracterizado, entre outras coisas, pelo trabalho forado. O aparecimento e o desenvolvimento do fenmeno do Gulag nos remetem  questo central da existncia ou no de um desejo obstinado em excluir e instrumentalizar perenemente a excluso como um verdadeiro projeto de transformao econmica e social. Vrios elementos falam em favor dessa tese e foram objeto de importantes desenvolvimentos. Em primeiro lugar, o planejamento do terror, tal como ele se manifesta na poltica de cotas existente a partir da deskulakizao at o Grande Terror, pode ser interpretado como uma das expresses desse desejo. A consulta dos arquivos confirma essa obsesso no cuidado com a contabilidade que anima os vrios escales da administrao, do mais alto ao mais baixo posto. Balanos numricos e regulares demonstram, aparentemente, o perfeito domnio dos processos de represso por parte dos dirigentes. Eles tambm permitem ao historiador a reconstituio, em sua complexidade, das escalas de intensidade, sem correr o perigo de cometer excessos quantitativos. Em certa medida, a cronologia dos diversos movimentos repressivos, hoje mais bem conhecidos, corrobora com a percepo de uma sequncia ordenada de operaes.
	Entretanto, a reconstituio do conjunto de processos de represso, da cadeia de transmisso das ordens e da maneira pelas quais elas so aplicadas e, finalmente, do desenvolvimento das operaes invalida, sob certos aspectos, a percepo de um desejo concebido, dominado e inscrito a longo termo. Se abordamos com destaque a questo do planejamento repressivo, constatamos vrios acontecimentos casuais, falhas recorrentes em diferentes fases das operaes. Desse ponto de vista, um dos exemplos mais marcantes  o da deportao sem destino dos kulaks, ou seja, essa deportao-abandono que d a medida da improvisao e do caos ambiente. Do mesmo modo, as campanhas de desentupimento das cadeias destacam a clara ausncia de direo. Se abordamos ento o processo de transmisso e de execuo de ordens, s podemos constatar a importncia dos fenmenos da antecipao, do excesso de zelo ou da deformao da linha que se manifestam na prtica.
	Se retomamos a questo do Gulag, o interesse e os objetivos do que se tornou sistema so muito mais difceis de discernir  medida que a investigao avana. Diante da viso de uma ordem stalinista, da qual o Gulag seria a face negra, mais acabada, os documentos atualmente disponveis sugerem ainda mais contradies que atravessam o universo dos campos de concentrao: a chegada sucessiva de grupos reprimidos parece contribuir com mais freqncia para a desorganizao do sistema de produo do que para a melhora de sua eficcia; apesar de uma categorizao bastante elaborada das condies dos reprimidos, as fronteiras entre os vrios universos parecem tnues, e mesmo inexistentes. Enfim, a questo da rentabilidade econmica desse sistema de administrao carcerria permanece posta.
	Diante dessas diferentes constataes quanto s contradies, ao improviso e aos efeitos em cadeia, vrias hipteses foram formuladas concernentes s razes que, na cpula, conduziram  reativao peridica de dinmicas de represso de massa e de lgicas induzidas pelos prprios movimentos da violncia e da instituio do terror.
	Para tentar identificar os motivos que estiveram na origem do grande ciclo stalinista de represso, os historiadores puseram em evidncia a parte de improvisao e de enfrentamento de todos os obstculos na conduo da Grande Virada de modernizao. Essa dinmica de ruptura tem,  primeira vista, o andamento de uma ofensiva de tal amplitude, que no h maneira de o poder se dar a iluso de conseguir controlar, a no ser atravs de uma radicalizao crescente das prticas de terror. Encontramo-nos, ento, no interior de um movimento de extrema violncia, cujos mecanismos, efeitos em cadeia e o carter desmedido continuam a escapar  compreenso dos contemporneos e, tambm, dos historiadores. O prprio processo de represso, nica resposta aos conflitos e aos obstculos encontrados, gera, por sua vez, movimentos descontrolados que alimentam a espiral de violncia.
	Esse fenmeno central do terror na histria poltica e social da URSS pe hoje questes cada vez mais complexas. As pesquisas atuais desconstroem, pelo menos em parte, as teses que durante muito tempo dominaram o campo da sovietologia. Preservando a ambio de querer trazer uma explicao global e definitiva para um fenmeno que, por sua amplitude, resiste  compreenso, essas pesquisas se orientam preferencialmente para a anlise dos mecanismos e das dinmicas da violncia.
	Nessa perspectiva, as zonas obscuras permanecem numerosas, sendo a mais importante a do papel dos comportamentos sociais em jogo no exerccio da violncia. Se  preciso destacar a parte ausente nesse trabalho de reconstruo - quem eram os executores? -, devemos interrogar continuamente a sociedade como um todo, vtima, mas tambm responsvel por tudo o que se passou.
	
	SEGUNDA PARTE
	
	REVOLUO MUNDIAL, GUERRA CIVIL E TERROR
	
	por Stphane Courtois e Jean-Louis Pann
	
	l. O Komintern em ao
	
	Assim que subiu ao poder, Lenin sonhou propagar o incndio revolucionrio pela Europa e depois por todo o mundo. Inicialmente, esse sonho respondia ao famoso slogan do Manifesto do Partido Comunista, de Marx, em 1848: Proletrios de todos pases, uni-vos!  primeira vista, correspondia tambm a uma necessidade imperiosa: a revoluo bolchevique no poderia se manter no poder nem se desenvolver, se no estivesse protegida, apoiada e seguida por outras revolues em pases mais desenvolvidos - Lenin pensava sobretudo na Alemanha com o seu proletariado bastante organizado e suas enormes capacidades industriais. Essa necessidade conjuntural transformou-se rapidamente em um verdadeiro projeto poltico: a revoluo mundial.
	Na poca, os eventos pareceram dar razo ao lder bolchevique. A desagregao dos imprios alemo e austro-hngaro, consequncia da derrota militar de 1918, provocou na Europa uma convulso poltica, acompanhada por um enorme turbilho revolucionrio. Antes mesmo que os bolcheviques pudessem tomar qualquer iniciativa que no fosse verbal e propagandista, a revoluo pareceu surgir espontaneamente no rastro da derrota alem e austro-hngara.

	A revoluo na Europa

	A Alemanha foi a primeira a ser afetada, antes mesmo da capitulao, por um motim geral de sua esquadra de guerra. A derrota do Reich e a implantao de uma repblica dirigida pelos social-democratas no conseguiram evitar violentos sobressaltos, tanto da parte do exrcito, da polcia e de diversos grupos ultranacionalistas, quanto dos revolucionrios que apoiavam a ditadura dos bolcheviques.
	Em dezembro de 1918, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht publicavam em Berlim o programa do grupo Spartakus, deixando o Partido Social Democrata Independente para fundar o Partido Comunista Alemo (KPD) alguns dias mais tarde, fundindo-se com outras organizaes. No incio de janeiro de 1919, os spartakistas, chefiados por Karl Liebknecht - que, muito mais extremista do que Rosa Luxemburgo,1 e, de acordo com o modelo leni-nista, recusava a idia da eleio de uma Assembleia Constituinte -, tentaram uma insurreio em Berlim, sendo esmagados pelos militares sob as ordens do governo social-democrata. Presos, os dois lderes foram assassinados em 15 de janeiro. O mesmo aconteceu na Baviera, onde, em 13 de abril de 1919, um responsvel do KPD, Eugen Levine, tomou a frente de uma Repblica de Conselhos, nacionalizou os bancos e comeou a formar um exrcito vermelho. Essa Comuna de Munique foi esmagada militarmente em 30 de abril, e Levine, preso em 13 de maio, foi julgado por um tribunal militar, condenado  morte e fuzilado em 5 de junho.
	O exemplo mais clebre desse impulso revolucionrio foi o da Hungria. Uma Hungria vencida, que aceitou mal a amputao da Transilvnia imposta pelos aliados vencedores. Tratou-se do primeiro caso em que os bolcheviques puderam exportar sua revoluo. No incio de 1918, o Partido Bolchevique reuniu em seu interior todos os seus simpatizantes no russos, formando uma Federao de Grupos Comunistas Estrangeiros. Assim, havia em Moscou um Grupo Hngaro, constitudo principalmente por antigos prisioneiros de guerra, que, em outubro de 1918, enviou cerca de 20 de seus membros'a Hungria. Em 4 de novembro, foi fundado em Budapeste o Partido Comunista da Hungria (PCH), do qual Bela Kun logo tomou a direo. Prisioneiro de guerra, Kun aderira com entusiasmo  Revoluo Bolchevique, a ponto de tornar-se, em abril de 1918, presidente da Federao de Grupos Estrangeiros. De volta  Hungria em novembro, na companhia de 80 militantes, ele foi eleito para a liderana do Partido. Calcula-se que, entre o fim de 1918	e o comeo de 1919, de 250 a 300 agitadores e emissrios tenham che gado  Hungria. Graas  ajuda financeira dada pelos bolcheviques, os comu nistas hngaros foram sucessivamente capazes de desenvolver a sua propagan da e aumentar a sua influncia.
	O jornal oficial dos social-democratas, o Nepszava (A Voz do Povo), fazendo forte oposio aos bolcheviques, foi atacado em 18 de fevereiro de
	1919	por uma multido de desempregados e soldados, mobilizados pelos co munistas com a inteno de ocupar ou destruir a tipografia. A polcia inter veio; houve oito mortos e uma centena de feridos. Nessa mesma noite, Bela Kun e seu estado-maor foram presos. Levados para uma priso provisria, eles foram espancados pelos agentes da polcia, que queriam assim vingar os colegas mortos durante o assalto ao Nepszava. O presidente hngaro, Michel Karolyi, mandou seu secretrio informar-se a respeito da sade do lder comunista, que passou a gozar, a partir de ento, de um regime bastante liberal, permitindo-lhe que continuasse com sua ao, to logo a situao se revertesse. Em 21 de maro, ainda na priso, Bela Kun obteve um sucesso considervel: a fuso do PCH e do Partido Social Democrata. Simultaneamente, a demisso do presidente Karolyi abria o caminho para a proclamao da Repblica dos Conselhos, para a libertao dos comunistas aprisionados e para a organizao, de acordo com o modelo bolchevique, de um Conselho de Estado Revolucionrio constitudo por comissrios do povo. Essa Repblica durou 133 dias, de 21 de maro a l? de agosto de 1919.
	Logo na primeira reunio, os comissrios decidiram criar tribunais revolucionrios, presididos por juizes escolhidos entre o povo. Atravs de uma ligao telegrfica regular com Budapeste, estabelecida em 22 de maro (com 218 mensagens trocadas), Lenin, a quem Bela Kun havia saudado como o chefe do proletariado mundial, aconselhava o fuzilamento dos social-de-mocratas e dos pequeno-burgueses; em sua mensagem aos operrios hngaros, em 27 de maio de 1919, ele assim justificava o recurso ao terror: Essa ditadura (do proletariado) implica o exerccio de uma violncia implacvel, rpida e determinada, destinada a esmagar a resistncia dos exploradores, dos capitalistas, dos grandes proprietrios rurais e seus partidrios. Aquele que no compreendeu isto no  um revolucionrio. Imediatamente, os comissrios para o comrcio, Mtys Rkosi e, para a economia, Eugen Varga, assim como os responsveis pelos tribunais populares, conquistaram a simpatia dos comerciantes, dos empregados e dos advogados. Uma proclamao afixada em todas as paredes resumia o estado de esprito do momento: Em um Estado proletrio, s os que trabalham tm o direito a viver! Trabalhar tornou-se obrigatrio, as empresas com mais de 20 operrios foram expropriadas, seguindo-se as de dez e at mesmo aquelas com menos de dez empregados.
	O exrcito e a polcia foram desmantelados, constituindo-se um novo exrcito formado por voluntrios seguros do ponto de vista revolucionrio. Pouco depois, seguiu-se a criao de uma Tropa do Terror do Conselho Revolucionrio do Governo, tambm conhecida como os Rapazes de Lenin. Eles foram responsveis pela morte de cerca de dez pessoas, entre as quais um jovem oficial da marinha, Ladislas Dobsa, um antigo subsecretrio de Estado e seu filho, diretor das Estradas de Ferro, alm de trs oficiais da polcia. Os Rapazes de Lenin obedeciam s ordens de um antigo marinheiro, Jozsef Czerny, que recrutava seus servidores entre os comunistas mais radicais, sobretudo prisioneiros de guerra que haviam participado da Revoluo Russa. Opondo-se a Bela Kun, que props a dissoluo dos Rapazes de Lenin, Czerny aproximou-se de Szamuely, o lder comunista mais radical, e, num gesto de retaliao, reuniu seus homens e marchou para a casa dos sovietes, onde Bela Kun recebeu o apoio do social-democrata Jzsef Haubrich, comissrio do povo para a guerra. Finalmente, aps uma negociao, os homens de Czerny aceitaram integrar o Comissariado do Povo para o Interior ou alistarem-se no exrcito, o que foi o caso da maioria.
	Chefiando cerca de 20 Rapazes de Lenin, Tibor Szamuely rumou para Szolnok, primeira cidade ocupada pelo Exrcito Vermelho Hngaro, onde mandou executar vrios notveis acusados de colaborao com os romenos, considerados como inimigos tanto numa perspectiva nacional (a questo da Transilvnia) quanto poltica (o regime romeno havia feito oposio ao bol-chevismo). Um jovem estudante judeu que viera pedir misericrdia para o pai foi executado por ter chamado Szamuely de besta selvagem. O comandante do Exrcito Vermelho tentou em vo refrear o ardor terrorista de Szamuely, que circulava pela Hungria com um trem requisitado, enforcando todos os camponeses que resistissem s medidas de coletivizao. Acusado de ter cometido 150 assassinatos, seu adjunto Jzsef Kerekes viria a confessar ter fuzilado cinco pessoas e enforcado mais 13 com suas prprias mos. No foi possvel determinar o nmero exato de execues. Arthur Koesder afirma que foram menos de 500. No entanto, ele acrescenta: No duvido de que o comunismo hngaro tenha se degenerado, com o passar do tempo, tornando-se um Estado totalitrio e policial, seguindo obrigatoriamente o exemplo de seu modelo russo. Porm, essa certeza, adquirida recentemente, no diminui em nada o ardor cheio de esperana dos primeiros dias da revoluo... Os historiadores atribuem aos Rapazes de Lenin 80 das 129 execues recenseadas, mas h ainda vrias centenas de casos a serem levantados.
	Com o crescimento das oposies e a degradao da situao familiar diante das tropas romenas, o governo revolucionrio recorreu ao anti-semi-tismo. Cartazes denunciavam os judeus, acusando-os de se recusarem a ir para o fronte: Extermine-os se eles no quiserem dar a vida pela causa sagrada da ditadura do proletariado! Bela Kun mandou prender cinco mil judeus poloneses recm-chegados em busca de alimentos. Espoliados de todos os seus bens, eles acabaram sendo expulsos. Os radicais do PCH pediram que Szamuely tomasse o poder em mos; reclamavam tambm um So Bartolomeu vermelho, como se essa fosse a nica maneira de deter a degradao da Repblica dos Conselhos. Czerny tentou reorganizar os seus Rapazes de Lenin. Em meados de julho, apareceu no Nepszava o seguinte apelo: Pedimos a todos os antigos membros da tropa terrorista, e a todos que foram desmobi-lizados aps a sua dissoluo, que se apresentem na casa de Jzsef Czerny, a fim de serem novamente recrutados... No dia seguinte, foi publicado um desmentido oficial: Avisamos que toda tentativa de reativao dos antigos 'Rapazes de Lenin' no pode de modo algum ser permitida: eles cometeram crimes to graves e lesivos  honra do proletariado, que seu novo recrutamento ao servio da Repblica dos Conselho est excludo.
	As ltimas semanas da Comuna de Budapeste foram caticas. Bela Kun teve de enfrentar uma tentativa de golpe dirigida contra a sua vida, muito provavelmente inspirada por Szamuely. No dia l? de agosto de 1919, ele deixou Budapeste sob a proteo de uma misso militar italiana; no vero de 1920 ele refugiou-se na URSS, onde, recm-chegado, foi nomeado comissrio poltico do Exrcito Vermelho, no fronte sul, notabilizando-se ento por ter ordenado a execuo dos oficiais de Wrangel, que se renderam ante a promessa de serem poupados. Szamuely tentou fugir para a ustria, mas, preso em 2 de agosto, suicidou-se.

	Komintern e guerra civil

	No exato momento em que Bela Kun e seus camaradas tentavam fundar uma segunda Repblica dos sovietes, Lenin tomou a iniciativa de criar uma organizao internacional suscetvel de levar a revoluo ao mundo inteiro. A Internacional Comunista - tambm denominada Komintern, ou ainda Terceira Internacional - foi fundada em Moscou, em maro de 1919, e logo surgiu como a rival da Internacional Operria Socialista (a Segunda Internacional, criada em 1889). No entanto, o Congresso fundador do Komintern atendia mais  satisfao de necessidades propagandistas urgentes e  tentativa de captar movimentos espontneos que abalavam a Europa do que a uma real capacidade de organizao. A verdadeira fundao do Komintern deve ser considerada como ocorrida durante a realizao de seu II Congresso, no vero de 1920, com a adoo de 21 condies de admisso, s quais os socialistas que desejassem aderir deveriam submeter-se, integrando assim uma organizao extremamente centralizada - o estado-maior da revoluo mundial -onde o Partido Bolchevique j possua o peso determinante relativo ao seu prestgio,  sua experincia e ao seu poder de Estado (principalmente nos domnios financeiro, militar e diplomtico).
	Logo de incio, o Komintern foi concebido por Lenin como um instrumento de subverso internacional entre outros - o Exrcito Vermelho, a diplomacia, a espionagem, etc. -, e a sua doutrina poltica era estreitamente decalcada da dos bolcheviques: era chegado o tempo de substituir a arma da crtica pela crtica das armas. O manifesto adorado no II Congresso anunciava orgulhosamente: A Internacional Comunista  o partido internacional da insurreio e da ditadura do proletariado. Como consequncia, a terceira das 21 condies decretava: Em quase todos os pases da Europa e da Amrica, a luta armada entra num perodo de guerra civil. Nessas condies, os comunistas no podem confiar na legalidade burguesa.  seu dever criar em todos os lugares, paralelamente  organizao legal, um organismo clandestino capaz de, nos momentos decisivos, cumprir com o seu dever para com a revoluo. Frmulas eufemsticas: o momento decisivo era a insurreio revolucionria, e o dever para com a revoluo era a obrigao de se engajar na guerra civil. Uma poltica que no se destinava apenas aos pases submetidos a ditaduras, mas que se aplicava tambm aos pases democrticos, monarquias constitucionais e repblicas.
	A 12 condio especificava as necessidades organizacionais ligadas  preparao dessa guerra civil: Nesses tempos de guerra civil obstinada, o Partido Comunista s poder desempenhar o seu papel se ele for organizado da maneira mais centralizada, se houver uma disciplina de ferro prxima da militar, e se seu organismo central estiver dotado de plenos poderes, exercendo uma autoridade incontestada e beneficiando-se da confiana unnime dos seus militantes. A 13? condio considerava o caso dos militantes que no fossem unnimes: o Partido Comunista [...] deve proceder  depurao peridica das suas organizaes, a fim de afastar os elementos interesseiros e pequeno-burgueses.
	Durante o III Congresso, reunido em Moscou em junho de 1921, com a participao de vrios partidos comunistas j constitudos, as orientaes foram ainda mais precisas. A Tese sobre a ttica indicava: O Partido Comunista deve inculcar nas mais vastas camadas do proletariado, atravs da ao e da palavra, a idia de que todo conflito econmico ou poltico pode, em uma conjuntura favorvel, transformar-se em guerra civil, durante a qual a tarefa do proletariado ser a de tomar o poder poltico. E as Teses sobre a Estrutura, os Mtodos, e a Ao dos Partidos Comunistas discorriam longamente sobre as questes da sublevao revolucionria aberta e da organizao de combate que cada partido comunista deveria criar secretamente no interior de sua organizao; as teses especificavam que esse trabalho preparatrio era indispensvel, uma vez que no seria esse o momento adequado para a formao de um Exrcito Vermelho regular.
	Havia apenas um passo a ser dado para se passar da teoria  prtica, o que foi feito pela Alemanha em maro de 1921, quando o Komintern proje-tou uma ao revolucionria de grande envergadura sob a direo de... Bela Kun, eleito, nesse meio tempo, membro do Presidium do Komintern. Lanada enquanto os bolcheviques reprimiam a Comuna de Kronstadt, a ao de maro, verdadeira tentativa insurrecional iniciada na Saxnia, fracassou apesar da violncia dos meios utilizados, como, por exemplo, o ataque com dinamite contra o trem expresso Halle-Leipzig. Esse contratempo teve por consequncia uma primeira depurao nas fileiras do Komintern. Paul Levi, um dos fundadores e presidente do KPD, foi afastado devido s crticas que fazia a esse tipo de aventureirismo. J sob a influncia do modelo bolchevique, os partidos comunistas - que do ponto de vista institucional eram apenas setores nacionais da Internacional - afundavam-se cada vez mais na subordinao (que precedia a submisso) poltica e organizacional ao Komintern: era este quem resolvia os conflitos e decidia, em ltima instncia, a linha poltica de cada um deles. Uma tal tendncia insurrecionalista, que devia muito a Gri-gori Zinoviev, foi criticada pelo prprio Lenin. Mas este ltimo, muito embora desse razo a Paul Levi, entregou a direo do KPD aos seus adversrios, numa atitude que acabou reforando o peso do aparelho do Komintern.
	Em janeiro de 1923, tropas francesas e belgas ocuparam o Ruhr para exigir da Alemanha o pagamento das indenizaes previstas no Tratado de Versalhes. Um dos efeitos concretos dessa ocupao foi provocar uma aproximao entre nacionalistas e comunistas contra o imperialismo francs; outro efeito foi desencadear a resistncia passiva da regio com o apoio do governo. A situao econmica, que j estava instvel, degradou-se radicalmente; a moeda sofria fortes desvalorizaes, e, em agosto, um dlar valia 13 milhes de marcos! Ento vieram as greves, as manifestaes e os motins. Em 13 de agosto, numa atmosfera revolucionria, o governo de Wilhelm Cuno caiu.
	Em Moscou, os dirigentes do Komintern perceberam que havia a possibilidade de um novo Outubro. Uma vez ultrapassadas as querelas entre os dirigentes - quem encabearia essa segunda revoluo, Trotski, Zinoviev ou Stalin -, o Komintern passou a organizar com seriedade uma insurreio armada. Foram enviados comissrios  Alemanha (August Guralski, Mtys Rkosi), acompanhados por especialistas em guerra civil (entre os quais o general Alexandre Sko-blewski, alis, Gorev). Para reunirem uma grande quanddade de armas, estava previsto o apoio de governos operrios em vias de formao, constitudos por social-democratas de esquerda e comunistas. Enviado  Saxnia, Rkosi pretendia explodir a ponte ferroviria que ligava essa provncia  Tchecoslovquia, a fim de provocar sua interdio e aumentar ainda mais a confuso.
	A ao deveria ter incio durante o aniversrio do putsch bolchevique. A excitao tomou conta de Moscou, que, acreditando piamente na vitria, posicionou o Exrcito Vermelho na fronteira ocidental, j preparado para auxiliar na revolta. Em meados de outubro, os dirigentes comunistas entraram para os governos da Saxnia e da Turngia, com instrues para reforar as milcias proletrias (vrias centenas), formadas por 25% de operrios social-democratas e 50% de comunistas. Mas, em 13 de outubro, o governo de Gustav Stresemann decretou estado de exceo na Saxnia, a partir de ento colocada sob o seu controle direto, contando com o apoio e a interveno da Reichswehr. Apesar disso, Moscou incitou os operrios a se armarem e, de volta  URSS, Heinrich Brandler decidiu convocar uma greve geral para a ocasio de uma conferncia das organizaes operrias em Chemnitz, no dia 21 de outubro.  manobra fracassou quando os social-democratas de esquerda se recusaram a seguir os comunistas. Estes ltimos decidiram ento retroceder, mas, por razes de comunicao, a informao no chegou aos comunistas de Hamburgo, onde, na manh do dia 23, estourou a revolta: os grupos comunistas de combate (de 200 a 300 homens) atacaram os postos de polcia. Passado o efeito-surpresa, os revoltosos no conseguiram atingir seus objeti-vos. A polcia, junto com a Reichswehr, contra-atacou e, ao cabo de 31 horas de combates, a sublevao dos comunistas de Hamburgo, totalmente isolada, foi estrangulada. O segundo Outubro, to desejado por Moscou, no chegou a acontecer. Nem por isso o M-Apparat deixou de ser, at os anos 30, uma estrutura importante do KPD, descrita em detalhes por um de seus chefes, Jan Valtin (cujo verdadeiro nome era Richard Krebs).
	Depois da Alemanha, foi a vez de a Repblica da Estnia servir de palco a uma tentativa insurrecional. Tratava-se da segunda agresso sofrida por esse pequeno pas. Com efeito, dia 27 de outubro de 1917, um Conselho de Sovietes havia tomado o poder em Tallinn (Reval), dissolvendo a Assembleia e anulando as eleies desfavorveis aos comunistas. Diante da ameaa do corpo expedicionrio alemo, os comunistas bateram em retirada. Em 24 de fevereiro de 1918, pouco antes da chegada dos alemes, os estonianos proclamaram sua independncia. A ocupao alem durou at novembro de 1918. Como consequncia da derrota do Kaiser, as tropas alems foram, por sua vez, obrigadas a se retirarem; os comunistas retomaram bem depressa a iniciativa: em 18 de novembro, foi constitudo um governo em Petrogrado, e duas divises do Exrcito Vermelho invadiram a Estnia. O objetivo dessa invaso foi claramente explicado no jornal Sevemaia Kommuna (A Comuna do Norte):  nosso dever construir uma ponte que ligue a Rssia dos sovietes  Alemanha e  ustria proletrias. [...] A nossa vitria unir as foras revolucionrias da Europa Ocidental s da Rssia, dando uma fora irresistvel  revoluo social universal. Em janeiro de 1919, o avano das tropas soviticas, que j se encontravam a apenas 30 quilmetros da capital, foi detido por um contra-ataque estoniano. A segunda ofensiva redundou igualmente em fracasso. Em 2 de fevereiro de 1920, os comunistas russos reconheceram a independncia da Estnia pelo tratado de Tartu. Nas localidades j ocupadas, os bolcheviques passaram  pratica de chacinas: em 14 de janeiro de 1920, em Tartu, na vspera de sua retirada, eles assassinaram 250 pessoas, e mais de mil no distrito de Rakvere. Logo aps a libertao de Wesenberg, em 17 de janeiro, foram abertas trs valas comuns (86 cadveres). Em Dorpad, os refns fuzilados em 26 de dezembro de 1919 haviam sido torturados: braos e pernas extirpados, e, s vezes, olhos perfurados. Em 14 de janeiro, antes da fuga, os bolcheviques s tiveram tempo de executar 20 pessoas, entre as quais o arcebispo Platon, das 200 que estavam sendo mantidas como prisioneiras. Mortas com golpes de machado e coronhadas - um oficial foi encontrado com as dragonas do uniforme cravadas em seu corpo com pregos! -, as vtimas eram dificilmente identificveis.
	Derrotados, os soviticos nem por isso renunciaram a incorporar esse pequeno Estado a sua rbita. Em abril de 1924, no decorrer dos encontros secretos mantidos em Moscou por Zinoviev, o Partido Comunista estoniano decidiu a preparao de uma revolta armada. Os comunistas organizaram meticulosamente grupos de combate estruturados em companhias (cerca de mil homens j prontos no outono) e iniciaram um trabalho de desmoralizao do exrcito. Estava previsto o desencadear da revolta e depois apoi-la com uma greve. O Partido Comunista da Estnia, que contava cerca de trs mil membros e sofria uma represso severa, tentou, em 19 de dezembro de 1924, tomar o poder em Tallinn e proclamar uma Repblica sovitica, cujo papel essencial seria o de pedir, to rpido quanto possvel, sua adeso  Rssia Sovitica, justificando assim o envio do Exrcito Vermelho. Nesse mesmo dia, o golpe fracassou. Os oficiais que se haviam rendido aos revoltosos e se declararam como neutros foram fuzilados, precisamente por terem adotado uma atitude de neutralidade: para os golpistas, s a adeso era concebvel. Jan Anvelt, o dirigente da operao, conseguiu fugir para a URSS. Funcionrio do Komintern por muitos anos, ele desapareceu durante os expurgos.
	Aps a Estnia, a ao transferiu-se para a Bulgria. Em 1923, esse pas havia passado por graves problemas. Alexandre Stamboliski, dirigente da coligao formada pelos comunistas e por seu prprio partido, o Partido Agrrio, fora assassinado em junho de 1923 e substitudo no comando por Alexandre Tsankov, que tinha o apoio do exrcito e da polcia. Em setembro, os comunistas iniciaram uma revolta que durou uma semana antes de ser severamente reprimida. A partir de abril de 1924, eles mudaram de ttica, recorrendo ento s aes diretas e aos assassinatos. Em 8 de fevereiro de 1925, um ataque  subprefeitura de Godetch provocou quatro mortes. Em 11 de fevereiro, em Sofia, o deputado Nicolas Mileff, diretor do jornal Slovete presidente do Sindicato dos Jornalistas Blgaros, foi assassinado. Em 24 de maro, um manifesto do Partido Comunista Blgaro (BKP) anunciou prematuramente a inevitvel queda de Tsankov, revelando assim a ligao entre a ao terrorista e os objetivos polticos dos comunistas. No comeo de abril, um atentado contra o rei Alexandre I fracassou por muito pouco; no dia 15, o general Kosta Georghieff, um de seus colaboradores mais prximos, foi morto.
	Seguiu-se o mais impressionante dos episdios ocorridos durante esses anos de poltica violenta na Bulgria. No dia 17 de abril, durante as cerimnias fnebres do general Georghieff na catedral de Santa Sofia, uma terrvel exploso provocou o desabamento da cpula: contaram-se 140 mortos, entre os quais 14 generais, 16 oficiais superiores e trs deputados. Na opinio de Victor Serge, o atentado teria sido organizado pela ala militar do Partido Comunista. Os presumveis autores do atentado, Kosta lankov e Ivan Minkov, dois dos dirigentes dessa organizao, foram mortos com as armas na mo, por ocasio de sua captura.
	O atentado serviu como justificativa para uma represso feroz: trs mil comunistas foram presos e trs deles enforcados em praa pblica. Alguns membros do aparelho do Komintern responsabilizaram o lder dos comunistas blgaros - Georgi Dimitrov, que dirigia clandestinamente o Partido a partir de Viena - por esse atentado. Em dezembro de 1948, diante dos delegados do V Congresso do Partido blgaro, Dimitrov assumiu a responsabilidade pelo atentado em seu nome e no da organizao militar. Segundo outras fontes, o responsvel pela destruio da catedral teria sido Meir Trilisser, chefe da seo estrangeira da Tcheka e vice-presidente da GPU, condecorado em 1927 com a Ordem da Bandeira Vermelha por servios prestados. Nos anos 30, Trilisser foi um dos secretrios do Komintern, assegurando o seu controle permanente por parte do NKVD.
	Depois de ter experimentado severos fracassos na Europa, o Komintern, impulsionado por Stalin, descobriu um novo campo de batalha: a China, para a qual voltou todas as suas atenes. Em plena anarquia, dilacerado por guerras internas e conflitos sociais, mas arrebatado por um formidvel sentimento nacionalista, esse imenso pas parecia maduro para a revoluo antiimperia-lista. Sinal dos tempos: no outono de 1925, os alunos chineses da Universidade Comunista dos Trabalhadores do Oriente (KUTV), fundada em abril de 1921, foram transferidos para uma universidade Sun-Yat-Sen.
	Devidamente enquadrado por responsveis do Komintern e dos servios soviticos, o Partido Comunista Chins, ainda sem a liderana de Mo Ts-tung, foi constrangido, em 1925-1926, a fazer uma estreita aliana com o Partido Nacionalista, o Kuomintang, e seu lder, o jovem general Chiang Kai-shek. A ttica escolhida pelos comunistas consistia em se apoderar do Kuomintang para fazer dele uma espcie de cavalo de Tria da revoluo. O emissrio do Komintern, Mikhail Borodin, chegou ao posto de conselheiro do Kuomintang. Em 1925, a ala esquerda do Partido Nacionalista, que apoiava incondicionalmente a poltica de colaborao com a Unio Sovitica, conseguiu apoderar-se de sua direo. Os comunistas tornaram a sua propaganda mais agressiva, encorajando a agitao social e reforando a sua influncia at dominarem o II Congresso do Kuomintang. Mas no tardou para que um obstculo surgisse em seu caminho: Chiang Kai-shek, preocupado com a expanso contnua da influncia do comunismo, comeou, e com razo, a desconfiar de que os comunistas pretendiam afast-lo. Tomando a iniciativa, Chiang proclamou a lei marcial em 12 de maro de 1926, mandou prender os elementos comunistas do Kuomintang, incluindo os conselheiros militares soviticos - seriam todos libertados alguns dias mais tarde -, afastou o lder da ala esquerda de seu partido e imps um pacto com oito pontos, destinado a limitar as prerrogativas e a ao dos comunistas no seu interior. A partir de ento, Chiang passou a ser o lder incontestado do Exrcito Nacionalista. Atento  nova relao de foras, Borodin a ratificou.
	Em 7 de julho de 1926, Chiang Kai-shek, que se beneficiava de uma importante ajuda material da parte dos soviticos, lanou o Exrcito Nacionalista  conquista do norte da China, ainda em poder dos senhores da guerra. No dia 29, ele proclamou mais uma vez a lei marcial no Canto. Os campos chineses de Hunan e Hubei estavam  beira de um tipo de revoluo agrria que, pela sua prpria dinmica, punha em causa a aliana dos comunistas e nacionalistas. Na grande metrpole industrial que Xangai j era naquele tempo, os sindicatos, diante da aproximao do Exrcito, iniciaram uma greve geral. Os comunistas, entre os quais Zhou Enlai, convocaram uma revolta, contando com a entrada iminente do Exrcito Nacionalista na cidade. Nada aconteceu. A sublevao de 22-24 de fevereiro de 1927 fracassou, e os grevistas foram ferozmente reprimidos pelo general Li Baozhang.
	Em 21 de maro, uma nova greve geral, ainda mais macia, e uma nova insurreio varreram os poderes constitudos. Uma diviso do Exrcito Nacionalista, cujo general havia sido persuadido a intervir, entrou em Xangai, logo seguido por Chiang, decidido a recuperar o controle da situao. Ele realizou to bem o seu objetivo, que Stalin, obnubilado pela poltica antiimpe-rialista de Chiang e de seu exrcito, ordenou aos comunistas que guardassem as armas e se juntassem  frente comum com o Kuomintang. Em 12 de abril de 1927, Chiang reproduziu em Canto a operao de Xangai: os comunistas foram perseguidos e abatidos.
	No entanto, Stalin mudou sua poltica no pior momento possvel: em agosto, para no perder prestgio diante dos crticos da oposio,10 enviou dois emissrios pessoais, Vissarion Lominadze e Heinz Neumann, com a misso de reiniciarem um movimento insurrecional, depois de ter rompido a aliana com o Kuomintang. Apesar do fracasso de uma revolta das colheitas de outono, orquestrada pelos dois enviados, eles se obstinaram em desencadear uma revolta em Canto, para oferecer um relatrio vitorioso a seu chefe (Boris Suvarin), no momento exato em que se reunia o XV Congresso do Partido Bolchevique que iria excluir os membros da oposio. A manobra era bastante reveladora do grau de desprezo pela vida humana a que tinham chegado os bolcheviques, incluindo a vida dos seus prprios partidrios, o que era uma novidade. A insensata Comuna do Canto nos oferece um claro testemunho desse fato, mas, em sua essncia, no era muito diferente das aes terroristas que haviam sido perpetradas na Bulgria alguns anos antes.
	Vrios milhares de rebeldes enfrentaram, ento, durante 48 horas, tropas de cinco a seis vezes mais numerosas. Essa Comuna chinesa havia sido mal preparada: ao nmero insuficiente de armas juntava-se uma conjuntura poltica desfavorvel, com os operrios cantoneses mantendo-se em uma prudente expectativa. Na noite de 10 de dezembro de 1927, as tropas leais ao governo se reuniram nos locais previstos pelos Guardas Vermelhos. Tal como acontecera em Hamburgo, os revoltosos foram beneficiados por terem tomado a iniciativa, mas essa breve vantagem deixou de existir. Na manh de 12 de dezembro, a proclamao de uma repblica sovitica no encontrou nenhum eco na populao. Nessa tarde, as foras nacionalistas contra-atacaram. Na manh seguinte, a bandeira vermelha hasteada no mastro da chefatura de polcia foi retirada pelas tropas vitoriosas. A represso foi selvagem. Milhes de pessoas foram mortas.
	O Komintern deveria ter tirado algum tipo de lio de uma tal experincia, mas era impossvel abordar questes de poltica de fundo. Mais uma vez, o uso da violncia foi justificado, contra tudo e todos, de tal modo que mostrava a impregnao da cultura da guerra civil entre os quadros comunistas. Na obra A Insurreio Armada, pode-se ler esta citao de surpreendente autocrtica e de concluses transparentes: Nunca nos demos o trabalho de neutralizar e eliminar os contra-revolucionrios. Durante todo o tempo em que Canto esteve nas mos dos rebeldes, matamos apenas cem indivduos. Os prisioneiros s puderam ser executados depois de um julgamento em regra pela comisso de luta contra os reacionrios. Durante o combate, em plena insurreio,  um procedimento demasiado lento. Lio que foi aprendida.
	Aps esse desastre, os comunistas se retiraram das cidades e se reorganizaram nas longnquas zonas camponesas at a criao, a partir de 1931, no Hunan e no Kiang-si, de uma zona livre, protegida por um Exrcito Vermelho. Para os comunistas chineses, passou a prevalecer, de uma forma muito precoce, a idia de que a revoluo  antes de tudo uma questo militar, institucionalizando a funo poltica do aparelho militar, at que Mo resumiu a sua concepo nesta famosa frmula: O poder est na ponta do fuzil. A sequncia de fatos demonstrou que essa era a quinta-essncia da viso comunista da tomada do poder e de sua manuteno.
	No entanto, os fracassos europeus no princpio dos anos 20 e o desastre chins no desencorajaram em nada o Komintern de prosseguir nesse caminho. Todos os partidos comunistas, incluindo os legais e os pertencentes a repblicas democrticas, mantiveram em seu interior a existncia de um aparelho militar secreto, capaz de vir a pblico quando fosse a ocasio. O modelo copiado foi o do KPD, que, na Alemanha, e sob o controle estreito do quadro de militares soviticos, criou um importante M (militar) Apparat, encarregado da eliminao dos militantes contrrios (principalmente aqueles de extrema direita) e de espies infiltrados no Partido, bem como do enquadramento de grupos paramilitares, o famoso Rote Front (Fronte Vermelho), com milhares de membros.  verdade que, na Repblica de Weimar, a violncia poltica era generalizada; e, se os comunistas combatiam a extrema direita e o nazismo nascente, tambm no hesitavam em atacar os comcios dos socialistas12 - qualificados como social-traidores e social-fascistas - e as polcias de uma repblica tida como reacionria, e talvez at fascista. A sequncia dos fatos mostrou, em 1933, qual era o verdadeiro fascismo, isto , o nacional-socialismo, e que seria mais sensato ter feito uma aliana com os socialistas para defender a democracia burguesa. Mas os comunistas recusavam radicalmente essa democracia.
	Na Frana, onde o clima poltico era mais calmo, o Partido Comunista Francs (PCF) tambm criou seus quadros armados, organizados por Albert Treint, um dos secretrios do Partido, cuja patente de capito, obtida durante a guerra, lhe conferia alguma competncia nessa situao. A primeira apario desses grupos ocorreu em 11 de janeiro de 1924, durante um comcio comunista, quando, ao ser contestado por um grupo de anarquistas, Treint chamou o servio de segurana. Cerca de dez homens armados com revlveres surgiram na tribuna disparando  queima-roupa sobre os manifestantes, fazendo dois mortos e dezenas de feridos. Por falta de provas, nenhum dos assassinos foi condenado. Pouco mais de um ano mais tarde ocorreu um caso semelhante. Na quinta-feira, 23 de abril de 1925, algumas semanas antes das eleies municipais, o servio de segurana do PCF apareceu para tumultuar a sada de uma reunio eleitoral dos Jovens Patriotas, organizao de extrema direita, no XVIII bairro de Paris, Rua Damrmont. Alguns militantes estavam armados e no hesitaram em fazer uso de seus revlveres. Trs militantes do JP foram mortos, e um ferido faleceu dois dias depois. Jean Taittinger, dirigente dos Jovens Patriotas, foi interrogado, e a polcia fez vrias buscas em casas de militantes comunistas.
	A despeito dessas dificuldades, o Partido prosseguiu na mesma via. Em 1926, Jacques Duelos, um dos deputados recm-eleitos - e portanto com direito  imunidade parlamentar -, foi encarregado de organizar Grupos de Defesa Antifascistas (formados por antigos combatentes da guerra de 1914-1918), e de Jovens Guardas Antifascistas (recrutados entre a Juventude Comunista); esses grupos paramilitares, constitudos segundo o modelo do Rote Front alemo, desfilaram uniformizados em 11 de novembro de 1926. Paralelamente, Duelos ocupava-se da propaganda antimilitarista e publicava artigos numa revista, L Combattant Rougf, ensinando a arte da guerra civil, descrevendo e analisando os combates de rua, etc.
	Em 1931, o Komintern publica, em vrias lnguas, um livro intitulado UInsurrection Armf, assinando com o pseudnimo Neuberg - tratava-se, na realidade, de responsveis soviticos'3 -, que abordava as diferentes experincias insurrecionais a partir de 1920. Esse livro foi novamente publicado na Frana no incio de 1934. Foi somente com a virada poltica da Frente Popular, entre o vero e o outono de 1934, que essa linha insurrecional foi relegada ao segundo plano, o que, no fundo, em nada atenuou o papel da violncia na prtica comunista. Toda essa justificao para a violncia, essa prtica cotidiana de dio de classe, essa teorizao da guerra civil e do terror encontraram a sua aplicao a partir de 1936, na Espanha, para onde o Komintern enviou muitos de seus quadros, que se distinguiram nos servios de represso comunistas.
	Todo esse trabalho de seleo, formao e preparao de quadros autctones da futura insurreio militar era feito em estreita colaborao com os servios secretos soviticos ou, mais precisamente, com um dos seus servios secretos, o GRU (Glavsnoe Razvedatelnoe Upravlenie, ou seja, Direo Principal de Informao). Fundado sob a gide de Trotski, como IV Bureau do Exrcito Vermelho, o GRU nunca abandonou essa tarefa educativa, mesmo quando as circunstncias o forcaram, pouco a pouco, a reduzi-la drasticamente. Por mais surpreendente que possa parecer, alguns jovens quadros de confiana do Partido Comunista Francs ainda continuavam, no comeo dos anos 70, um treinamento na URSS (tiro, montagem e desmontagem de armas, fabricao de armas artesanais, transmisses, tcnicas de sabotagem) com as Spetsnaz, as tropas soviticas especiais postas  disposio dos servios secretos. Inversamente, o GRU dispunha de especialistas militares que poderiam ser emprestados aos partidos-irmos em caso de necessidade. Manfred Stern, por exemplo, o austro-hngaro que, colocado no M-Apparat do KPD para a insurreio de Hamburgo de 1923, operou posteriormente na China e na Mancharia, antes de tornar-se o general Kleber da Brigadas Internacionais na Espanha.
	Esses aparelhos militares clandestinos no eram propriamente formados por meninos de coro. Os seus membros estavam por vezes no limite do banditismo, e alguns desses grupos transformaram-se em verdadeiros bandos. Um dos exemplos mais impressionantes ocorreu durante a segunda metade dos anos 20, com a Guarda Vermelha ou os Esquadres Vermelhos do Partido Comunista Chins. Eles entraram em ao em Xangai, cidade ento considerada oficialmente como o epicentro das aes do Partido. Liderados por Gu Shunzhang, um antigo gangster filiado  sociedade secreta da Faixa Verde, a mais poderosa das duas organizaes mafiosas existentes em Xangai, esses combatentes fanticos se confrontaram com os seus equivalentes nacionalistas, nomeadamente os Camisas Azuis, decalcados do modelo fascista, em combates srdidos, terror contra terror, emboscada contra emboscada, assassinato individual contra assassinato individual. Tudo isso com o apoio particularmente ativo do Consulado da URSS em Xangai, que dispunha de especialistas em questes militares, tais como Gorbatiuk, alm de alguns executores de tarefas infames.
	Em 1928, os homens de Gu Shunzhang eliminaram um casal de militantes aliciados pela polcia: durante o sono, He Jiaxing e He Jihua foram crivados de balas em sua prpria cama. Para encobrir o barulho dos disparos, outros membros do grupo soltaram fogos de artifcio no exterior da casa. Esses mtodos expeditivos foram pouco depois aplicados no interior do prprio Partido, como forma de punio aos opositores. Por vezes, bastava uma simples denncia. Em 17 de janeiro, furiosos por se sentirem manipulados pelo delegado do Komintern, Pavel Mif, e pelos dirigentes submissos a Moscou, He Mengxiong e cerca de 20 de seus camaradas da frao operria reuniram-se no Hotel Oriental de Xangai. Mal haviam comeado os debates, policiais e agentes do Diaocha Tongzhi, o Bureau Central de Investigaes do Kuomintang, irromperam na sala, de armas em punho, e os prenderam. Os nacionalistas haviam sido informados anonimamente da reunio.
	Aps a desero de Gu Shunzhang, em abril de 1931, seu imediato regresso  Faixa Verde e sua submisso ao Kuomintang (ele se juntara aos Camisas Azuis), uma comisso especial de cinco quadros comunistas o substituiu em Xangai. Essa comisso era composta por Kang Sheng, Guang Huian, Pan Hannian, Chen Yun e Ke Qingshi. Em 1934, data do colapso quase definitivo do aparelho urbano do PCC, os dois ltimos chefes dos grupos armados comunistas da cidade, Ding Mocun e Li Shiqun, caram, por sua vez, nas mos do Kuomintang. Eles tambm fizeram um pacto de submisso, passaram, em seguida, para o servio dos japoneses e conheceram um destino trgico: o primeiro foi fuzilado pelos nacionalistas em 1947, acusado de traio, e o segundo foi envenenado pelos japoneses. Quanto a Kang Sheng, ele se tornou, a partir de 1949 e at a sua morte, em 1975, o chefe da polcia secreta maosta e um dos principais algozes do povo chins sob o poder comunista.
	Por vezes tambm, membros dos aparelhos de outros partidos comunistas eram utilizados em operaes dos servios especiais soviticos. Parece ter sido o que aconteceu no caso Kutiepov. Em 1924, o general Alexandre Ku-tiepov fora chamado a Paris pelo gro-duque Nicolas para dirigir a Unio Militar Geral (ROVS). Em 1928, a GPU decidiu provocar a sua desagregao. Em 26 de janeiro, o general desapareceu. Circularam vrios boatos, alguns previamente lanados para atenderem aos interesses dos soviticos. Dois inquritos independentes permitiram concluir quem foram os instigadores desse desaparecimento: um conduzido pelo velho socialista russo Vladimir Burt-zev, clebre por ter desmascarado Evno Azev, o agente da Okhrana infiltrado na cpula da Organizao de Combate dos Socialistas Revolucionrios; e outro por Jean Delage, jornalista de L'cho de Paris. Delage estabeleceu que o general Kutiepov havia sido conduzido a Houlgate e levado a bordo do navio sovitico Spartak, que partira do Havre em 19 de fevereiro. Ningum voltou a v-lo vivo. Em 22 de setembro de 1965, o general sovitico Chimanov reivindicou a operao no jornal do Exrcito Vermelho, A Estrela Vermelha, e revelou o nome do responsvel: Serguei Puzitski [...], que no s participara da captura do bandido Savinkov [...], como tambm conduzira magistralmente a operao de captura de Kutiepov e de tantos outros chefes dos Guardas Brancos.? Atualmente, conhecemos melhor as circunstncias exa-tas do desaparecimento do infeliz Kutiepov. Sua organizao de emigrantes estava infiltrada pela GPU: em 1929, o antigo ministro do governo branco do almirante Koltchak, Serguei Nikolaievitch Tretiakov, havia passado secretamente para o lado sovitico, fornecendo informaes sob o nmero UJ/1 e com o nome-cdigo de Ivanov. Graas s informaes detalhadas transmitidas ao seu contrato, Vetchinkin, Moscou sabia de tudo ou quase tudo sobre os deslocamentos do general czarista. Um comando vistoriou seu carro em plena rua, fazendo-se passar por uma barreira policial. Disfarado de policial de trnsito, um francs chamado Honel, garagista em Levallois-Perret, pediu a Kutiepov que o seguisse. Havia um outro francs implicado na operao, Maurice Honel, irmo do primeiro, que estava em contato com os servios soviticos e que viria a ser eleito deputado comunista em 1936. Ao recusar-se a obedecer, Kutiepov foi morto, segundo parece, com uma punhalada. Seu cadver teria sido sepultado no subsolo da garagem de Honel. 16
	O sucessor de Kutiepov, o general Miller, tinha como adjunto o general Nikolai Skoblin, este ltimo, de fato, um agente sovitico. Ajudado pela mulher, a cantora Nadejda Plevitskaia, Skoblin preparou em Paris o rapto do general Miller. Ele foi visto pela ltima vez em 22 de setembro de 1937, e no dia seguinte o navio sovitico Maria Ulianovna deixava o Havre. O general Skoblin tambm desapareceu, e as suspeitas a seu respeito tornaram-se cada vez mais concretas. O general Miller estava realmente a bordo do Maria Ulianovna, que o governo francs no quis interceptar. Chegando a Moscou, clc foi interrogado e depois abatido. 

	Ditadura, incriminao dos opositores e represso no interior do Komintern

	Se o Komintern, instigado por Moscou, mantinha em cada partido comunista grupos armados e preparava a insurreio e a guerra civil contra os poderes institudos, nem por isso deixou de introduzir em seu interior os mtodos policiais e de terror postos em prtica na prpria URSS. Foi durante o X Congresso do Partido Bolchevique, realizado de 8 a 16 de maro de 1921, quando o poder se viu confrontado pela rebelio de Kronstadt, que foram lanadas as bases do regime ditatorial no interior do Partido. No decorrer da preparao do Congresso, foram propostas e discutidas nada menos do que oito moes diferentes. Esses debates eram os ltimos vestgios de uma democracia que no conseguira se impor na Rssia. S no interior do Partido restava ainda um simulacro de liberdade de discusso, embora no por muito tempo. No segundo dia de trabalhos, Lenin deu o tom: Camaradas, no temos aqui a necessidade de uma oposio: no  o momento. Estejam aqui ou l (em Kronstadt), de fuzis na mo, mas sem oposio. De nada serve me censurarem:  o resultado do estado atual da situao. De hoje em diante, nada de oposio. Em minha opinio  preciso que o Congresso chegue  concluso de que  tempo de pr um fim  oposio, de correr uma cortina sobre ela; j estamos fartos da oposio. Lenin visava principalmente aqueles que, sem constiturem um grupo propriamente dito nem possurem rgos de comunicao, se agrupavam na plataforma dita Oposio Operria (Alexandre Chliapnikov, Alexandra Kollontai, e Lutovinov) e na do chamado Centralismo Democrtico (Timothe Sapronov, Gabriel Miasnikov).
	Quando o Congresso estava prestes a encerrar seus trabalhos, em 16 de maro, Lenin apresentou in extremis duas resolues: a primeira era relativa  unidade do Partido, e a segunda a propsito dos desvios sindicalistas e anarquistas em nosso Partido, na qual ele atacava a Oposio Operria. O primeiro texto exigia a dissoluo imediata de todos os grupos constitudos em conformidade com plataformas especficas, sob pena de expulso imediata do Partido. Um artigo no publicado dessa resoluo, que permaneceu secreto at outubro de 1923, dava ao Comit Central o poder de aplicar essa sano. A polcia de Feliks Dzerjinski via abrir-se a sua frente um novo campo de investigao: todos os grupos de oposio no interior do Partido Comunista seriam, da em diante, objetos de vigilncia e, se necessrio, de sano: a excluso - o que, para os verdadeiros militantes, quase equivalia  morte poltica.
	Consagrando a proibio da livre discusso - em contradio com os estatutos do Partido -, as duas resolues foram, apesar de tudo, aprovadas. No que se refere  primeira, Radek avanou uma justificativa quase premonitria: Penso que ela poder virar-se contra ns, mas, mesmo assim, darei minha aprovao. [...] Que em momentos de perigo o Comit Central tome as medidas mais severas contra os seus melhores camaradas, se achar necessrio. [...] Que at o Comit Central cometa erros!  menos perigoso do que a flutuao que se verifica neste momento. Essa escolha, feita por fora das circunstncias, mas que correspondia s tendncias mais profundas dos bolcheviques, pesou de maneira significativa no futuro do Partido Sovitico e, con-seqiientemente, sobre as sees do Komintern.
	O X Congresso dedicou-se igualmente  reorganizao da Comisso de Controle, cujo papel estava assim definido: velar pela consolidao da unidade e da autoridade no Partido. A partir de ento, ela passaria a elaborar e a organizar os dossis pessoais dos militantes, que serviriam, caso necessrio, de material de base para os futuros processos de acusao: a atitude tomada em relao  polcia poltica, a participao em grupos de oposio, etc. Depois do Congresso, os participantes da Oposio Operria foram submetidos a vexames e perseguies. Mais tarde, Alexandre Chliapnikov explicou que a luta no prosseguia no terreno ideolgico, mas atravs... do afastamento (dos interessados) de seus cargos, de transferncias sistemticas de um distrito para o outro e ainda de expulses do Partido.
	Em agosto seguinte, iniciou-se um controle que durou vrios meses. Quase um quarto dos militantes foram excludos. O recurso  tchistka (depurao) tornou-se parte integrante da vida do Partido. Aino Kuusinen testemunhou sobre esse procedimento cclico: A reunio da tchistka se desenrolava do seguinte modo: o acusado era chamado pelo nome e convidado a subir  tribuna; os membros da comisso de depurao e outras pessoas presentes faziam-lhe perguntas. Alguns conseguiam livrar-se facilmente, outros tinham de suportar por mais um tempo essa dura prova. Se algum tivesse inimigos pessoais, esses podiam dar um rumo definitivo ao desenrolar do caso. Contudo, apenas a Comisso de Controle podia se pronunciar pela excluso do Partido. Se o interrogado no era considerado culpado de qualquer ato que o levasse a ser expulso do Partido, o processo era suspenso sem votao. Caso contrrio, ningum intervinha em favor do 'acusado'. O presidente perguntava simplesmente: 'Kto protiv'; ningum ousava opor-se, e o caso era julgado 'por unanimidade'.'
	Rapidamente foram sentidas as decises do X Congresso: em fevereiro de 1922, Gabriel Miasnikov foi expulso, pelo perodo de um ano, por ter defendido, contra a opinio de Lenin, a necessidade da liberdade de imprensa. Na impossibilidade de se fazer ouvir, a Oposio Operria apelou naturalmente ao Komintern (Declarao dos 22). Stalin, Dzerjinski e Zinoviev exigiram ento a expulso de Chliapnikov, Kollontai e Medvediev, que o XI Congresso recusou. Cada vez mais submetido  atrao do poder sovitico, o Komintern se viu logo obrigado a adotar o mesmo regime interior do Partido Bolchevique. Uma consequncia lgica e, sobretudo, nada surpreendente.
	Em 1923, Dzerjinski exigiu do Politburo uma deciso oficial para obrigar os membros do Partido a denunciarem  GPU toda atividade de oposio. Essa proposta deu origem a uma nova crise no interior do Partido Bolchevique: em 8 de outubro, Trotski enviou uma carta ao Comit Central, imediatamente seguida, em 15 de outubro, da Declarao dos 46. O debate que se iniciou cristalizou-se em volta do novo rumo do Partido russo e teve consequncias em todas as sees do Komintern.
	Simultaneamente, em fins de 1923, a vida dessas sees foi posta sob a palavra de ordem da bolchevizao; todas tiveram de reorganizar as suas estruturas, baseando-as em clulas de empreendimento, e, ao mesmo tempo, houve um reforo da sua obedincia ao centro moscovita. As resistncias que essas transformaes viriam a encontrar tiveram como consequncia o aumento considervel do papel e do poder das missi dominici da Internacional, cujos temas principais de debate diziam respeito  evoluo do poder da Rssia Sovitica.
	Na Franca, um dos lderes do PCF, Boris Suvarin, ops-se s novas normas e denunciou os procedimentos sujos utilizados pela Troika (Kamenev-Zinoviev-Stalin) contra seu adversrio, Leon Trotski. Boris Suvarin foi convocado a dar explicaes durante o XIII Congresso do PCUS, em 12 de junho de 1924. A sesso tornou-se um procedimento de acusao, na linha das sesses de autocrticas obrigatrias. Uma comisso especialmente reunida para tratar do caso Suvarin pronunciou-se pela sua excluso temporria. As rea-es da direo do PCF mostram claramente qual era o estado de esprito exigido a partir de ento nas fileiras do Partido Mundial: No nosso Partido [o PCF], que a luta revolucionria no expurgou totalmente do velho fundo social-democrata, a influncia das personalidades desempenha ainda um papel demasiado importante. [...] Ser somente a partir da destruio de todas as sobrevivncias pequeno-burguesas do 'Eu' individualista que se formar a annima falange de ferro dos bolcheviques franceses. [...] Se ele quer ser digno da Internacional Comunista  qual ele pertence, se ele quer seguir os passos gloriosos do Partido russo, o Partido Comunista Francs deve romper, sem hesitao, com todos aqueles que, em seu interior, se recusarem a submeter-se a sua lei! (LHumanit, 19 de julho de 1924.) O redator annimo ignorava que ele acabara de enunciar a lei que regeria a vida do PCF durante dcadas. O sindicalista Pierre Monatte resumiu essa evoluo em uma palavra: a militarizao do PC.
	Foi no vero de 1924, durante a realizao do V Congresso do Komintern, que Zinoviev ameaou quebrar os ossos dos opositores, ilustrando assim os costumes polticos que invadiam o movimento comunista. O que ele mal sabia era que os ossos quebrados seriam os seus, quando Stalin o demitiu de suas funes de presidente do Komintern, em 1925. Zinoviev foi substitudo por Bukharin, que bem depressa conheceu os mesmos dissabores. Em 11 de julho de 1928, s vsperas do VI Congresso do Komintern (de 17 de julho a l de setembro), Kamenev encontrou-se secretamente com Bukharin e redigiu um processo verbal da entrevista. Vtima do regime policial, Bukharin explicou-lhe que seu telefone estava sob escuta e que ele estava sendo seguido pela GPU; por duas vezes, deixou transparecer um terror bem real: Ele vai nos estrangular... No queremos intervir como dissidentes, pois ele nos estrangularia. Ele,  claro, era Stalin.
	O primeiro que Stalin tentou estrangular foi Leon Trotski. A sua luta contra o trotskismo tem de especial o fato de ter sido particularmente longa. Tudo comeou em 1927. Mas, j anteriormente, avisos sinistros haviam sido proferidos durante uma conferncia do Partido Bolchevique, em outubro de 1926: Ou a excluso e o esmagamento legal da Oposio, ou a soluo desse caso com tiros de canho nas ruas, como aconteceu com os socialistas-revolucionrios de esquerda, em julho de 1918, em Moscou, eis o que ento preconizava Larin no Pravda. A Oposio de Esquerda (era essa a sua denominao oficial), isolada e cada vez mais fraca, estava exposta s provocaes da GPU, que inventou do comeo ao fim a existncia de uma grfica clandestina, dirigida por um antigo oficial de Wrangel (na verdade, tratava-se de um de seus agentes), onde teriam sido impressos os documentos da Oposio. Durante a comemorao do X aniversrio de Outubro de 1917, a Oposio decidiu manifestar-se publicamente com suas prprias palavras de ordem. Foi impedida de faz-lo por uma interveno brutal da polcia, e, em 14 de novembro, Trotski e Zinoviev foram expulsos do Partido Bolchevique. A etapa seguinte comeou em janeiro de 1928, com o degredo de seus militantes mais conhecidos para regies afastadas - Christian Rakovski, ex-embaixador sovitico na Frana, exilado em Astrakhan, no Volga, e depois em Barnaul, na Sibria; Victor Serge foi enviado, em 1933, para Oremburgo, nos Urais - ou para o exterior do pas. Quanto a Trotski, ele foi enviado  fora para Alma-Ata, no Turquesto, a quatro mil quilmetros de Moscou. Um ano depois, em janeiro de 1929, ele foi expulso para a Turquia, escapando da priso que se fechava sobre seus partidrios. Com efeito, era cada vez maior o nmero de partidrios presos e enviados para as prises especiais, os polit-isolators, o que tambm acontecia com os militantes da antiga Oposio Operria e do grupo do Centralismo Democrtico.
	Nessa poca, os comunistas estrangeiros, membros do aparelho do Komintern ou vivendo na Rssia, eram presos e internados da mesma forma que os militantes do Partido russo; a sua situao era idntica  dos russos, uma vez que todo comunista estrangeiro que permanecesse por muito tempo na URSS era obrigado a aderir ao Partido Bolchevique e submeter-se a sua disciplina. Foi o caso, bem-conhecido, do comunista iugoslavo Ante Ciliga, membro do Politburo do Partido Comunista Iugoslavo (PCI), enviado a Moscou em 1926 como representante do PCI junto ao Komintern. Ciliga mantinha alguns contatos com a oposio, reunida por Trotski, afastando-se cada vez mais do Komintern de onde tinham sido banidos os verdadeiros debates de idias e onde os dirigentes no hesitavam em utilizar mtodos de intimidao contra seus contraditores, o que Ciliga chamava de sistema de servilismo do movimento comunista internacional. Em fevereiro de 1929, no decorrer da assemblia-geral dos iugoslavos de Moscou, foi adotada uma resoluo que condenava a poltica seguida pela direo do PCI, o que equivalia a uma condenao indireta da direo do Komintern. Um grupo ilegal -segundo os cnones da disciplina -, que mantinha relaes com alguns soviticos, foi ento organizado pelos opositores  linha oficial. Nomeou-se uma comisso para investigar Ciliga, que foi excludo por um ano. Porm, ele no cessou suas atividades ilegais quando se instalou em Leningrado. Em l? de maio de 1930, ele foi a Moscou para se encontrar com os outros membros de seu grupo russo-iugoslavo que, j bastante crtico da maneira pela qual estava sendo conduzida a industrializao, preconizava a criao de um novo partido. Ciliga foi preso, juntamente com seus camaradas, em 21 de maio, e enviado ao polit-isolator de Verkhne-Uralsk, de acordo com o artigo 59. Durante trs anos, preso no isolator, recorrendo a greves de fome, Ciliga no parou de reivindicar o direito de deixar a Rssia. Momentaneamente liberado, ele tentou o suicdio. A GPU tentou obrig-lo a renunciar  nacionalidade italiana. Exilado na Sibria, ele foi finalmente expulso em 3 de dezembro de 1935, o que era uma exceo  regra.
	Graas a Ciliga, possumos hoje um testemunho sobre os isoladores polticos. Os camaradas nos enviavam os jornais que eram publicados na priso. Quanta diversidade de opinio, quanta liberdade revelada em cada artigo! Quanta paixo e franqueza na apresentao dos assuntos, no apenas dos tericos e abstratos, mas tambm nos que enfocavam os temas mais quentes da atualidade! [...] Mas nossa liberdade no se limitava a isso. Durante o passeio, que reunia os detentos de diversas salas, os prisioneiros tinham o hbito de realizar reunies num canto do ptio, com presidente, secretrio e oradores que tomavam a palavra cada um por sua vez. 
	As condies materiais eram as seguintes: A alimentao era constituda pelo menu tradicional do mujique' pobre: po e papa de farinha, de manh e  noite, durante todo o ano. [...] Alm disso, davam-nos para o almoo uma sopa de peixe estragado, de conservas e carne meio apodrecida. A mesma sopa, - sem carne nem peixe - era servida  hora do jantar. [...] A rao diria de po era de 700 gramas, a rao mensal de acar era de um quilo, e alm disso havia uma rao de tabaco, de ch e de sabo. Essa alimentao montona era tambm insuficiente em quantidade. E mesmo assim tivemos de lutar com firmeza para que nada fosse reduzido em nossa magra refeio; e que dizer das lutas para conseguirmos alguma pequena melhora! Entretanto, se compararmos esse regime com os das prises de direito comum, onde apodreciam centenas de milhares de prisioneiros, e sobretudo com os milhes amontoados nos campos de concentrao do Norte, ramos, de certo modo, privilegiados. 
	Em todo caso, esses privilgios eram muito relativos. Em Verkhne-Uralsk, os prisioneiros fizeram trs greves de fome, em abril e no vero de 1931 e, finalmente, em dezembro de 1933, em defesa de seus direitos, particularmente para conseguirem a supresso da renovao de penas. A partir de 1934, e durante a maior parte do tempo, o regime poltico foi suprimido (Verkhne-Uralsk o conservou at 1937), e as condies de deteno se agravaram; alguns prisioneiros morreram durante sesses de espancamento, outros foram fuzilados, e outros ainda foram trancafiados na solitria, como aconteceu, por exemplo, com Vladimir Smirnov, em 1933.
	Essa incriminao dos opositores, reais ou imaginrios, no interior dos partidos comunistas logo estendeu-se aos responsveis dos altos escales. Jos Bullejos, dirigente do Partido Comunista Espanhol, e alguns de seus camaradas, que tinham sido chamados a Moscou no outono de 1932, tiveram sua poltica asperamente criticada. Por se recusarem a se submeter s regras do Ko-mintern, foram excludos em bloco no dia l? de novembro e ficaram em regime de residncia vigiada no Hotel Lux, que hospedava os membros do Ko-mintern. O francs Jacques Duelos, ex-delegado do Komintern na Espanha, veio relatar-lhes a sua excluso e preveni-los de que toda tentativa de rebelio seria reprimida e punida com todo o rigor do sistema penal sovitico.? Bullejos e seus camaradas tiveram as maiores dificuldades para deixar a Rssia, aps dois meses de duras negociaes para recuperarem os seus passaportes.
	Esse mesmo ano conhecera o eplogo de um incrvel caso passado com o Partido Comunista Francs. No comeo de 1931, o Komintern enviou ao PCF um representante e instrutores encarregados de assumir o controle do Partido. Em julho, o verdadeiro chefe do Komintern, Dimitri Manuilski, desembarcou clandestinamente em Paris e revelou diante de um Bureau Poltico siderado que havia no seu interior um grupo que se dedicava ao trabalho de fracion-lo. Tratava-se, na realidade, de uma encenao destinada a provocar uma crise que causaria o enfraquecimento da direo do PCF, tornando-o dependente de Moscou e de seus homens. Entre os chefes do famoso grupo foi apontado Pierre Celor, um dos principais dirigentes do Partido desde 1928, que foi chamado a Moscou sob o pretexto de lhe ser confiado o cargo de representante do Partido junto ao Komintern. No entanto, logo ao chegar, Celor foi tratado como provocador. Totalmente relegado ao ostracismo, sem receber qualquer salrio, s conseguiu sobreviver ao rude inverno russo graas s cartas de alimentao de sua mulher, que o acompanhara e trabalhava no Komintern. Em 8 de maro de 1932, foi convocado para assistir a uma reunio da qual participavam membros do NKVD que, durante um interrogatrio de 12 horas, tentaram fazer com que ele confessasse ser um agente de polcia infiltrado no Partido. Celor no confessou nada e, aps inmeros vexames e presses, conseguiu voltar  Franca em 8 de outubro de 1932, para se ver imediatamente denunciado como pelego.
	Foi nesse mesmo ano de 1932 que foram criadas em muitos partidos comunistas, segundo o modelo bolchevique, sees de quadros, dependentes da seo central de quadros do Komintern; essas sees estavam encarregadas de organizar dossis completos dos militantes e de reunir questionrios biogrficos e autobiogrficos detalhados de todos os dirigentes. S no que diz respeito ao Partido francs, mais de cinco mil desses dossis biogrficos foram enviados a Moscou antes da guerra. O questionrio biogrfico, com mais de 70 perguntas, inclua cinco grandes rubricas: 1) Origens e situao social; 2) Funo dentro do Partido; 3) Educao e nvel intelectual; 4) Participao na vida social; e 5) Registro criminal e represso. Todos esses elementos, destinados a efetuar uma triagem dos militantes, estavam centralizados em Moscou, onde eles eram conservados por Anton Krajevski, Tchernomordik ou Gevork Alikhanov, os patres sucessivos do departamento de quadros do Komintern que, por sua vez, estava ligado  seo de estrangeiros do NKVD. Em 1935, Meir Trilisser, um dos mais importantes responsveis do NKVD, foi nomeado secretrio do Comit Executivo do Komintern, encarregado do controle dos quadros. Sob o pseudnimo de Mikhail Moskvine, ele recolhia as informaes e denncias e decidia sobre a queda em desgraa, primeira etapa no caminho de uma prxima liquidao. Esses servios de quadros foram paralelamente encarregados de elaborar listas negras de inimigos do comunismo e da URSS.
	Desde muito cedo, se no foi desde a origem, as sees do Komintern serviram como celeiros para o recrutamento de agentes de informao a servio da URSS. Em alguns casos, os militantes que aceitavam esse trabalho ilegal, e conseqientemente clandestino, ignoravam que na realidade eles trabalhavam para um dos servios soviticos: o Servio de Informaes do Exrcito Vermelho (GRU ou IV Repartio), o departamento de estrangeiros da Tcheka-GPU (Inostranny Otdel, INO), o NKVD, etc. Esses diferentes aparelhos constituam uma trama inextricvel e nutriam uma rivalidade feroz que os levava a corromper os agentes dos servios vizinhos. Em suas memrias, Elsa Poretski d inmeros exemplos desta concorrncia.

	As listas negras do PCF

	A partir de 1932, o PCF comeou a reunir informaes sobre pessoas que, de acordo com seu ponto de vista, seriam suspeitas ou perigosas para suas ativida-des. Essas listas nasceram, ento, paralelamente  tomada de controle do aparelho dos quadros pelos emissrios do Komintern. Com a criao da seo de quadros, destinada a selecionar os melhores militantes, aconteceu precisamente o inverso: as listas denunciavam aqueles que falharam de uma maneira ou de outra. De 1932 a junho de 1939, o PCF publicou 12 listas negras sob ttulos ao mesmo tempo diferentes e similares: Lista negra dos provocadores, traidores, espies cassados das organizaes revolucionrias francesas ou Lista negra dos provocadores, ladres, escroques, trotskistas, traidores cassados das organizaes operrias francesas, etc. Para justificar essas listas, que at o incio da guerra recensearam mais de mil nomes, o PCF utilizou um argumento poltico simples: A luta da burguesia contra a classe operria e as organizaes revolucionrias em nosso pas se tornam cada vez mais acesas.
	Os militantes deviam fornecer detalhes fsicos (altura e peso, cabelos e sobrancelhas, testa, olhos, nariz, boca, queixo, forma do rosto, cor da pele, sinais particulares - Lista n 10, de agosto de 1938), todas as informaes teis que facilitem [a] procura dos indivduos denunciados, assim como seus locais de residncia. Cada militante era, em maior ou menor grau, obrigado a entrar na pele de agente auxiliar de uma polcia privada e se fazer passar por um tchekista.
	Alguns desses suspeitos eram verdadeiramente autnticos bandidos, ao passo que outros eram opositores  linha do Partido, quer fossem seus membros ou no. Nos anos 30, os primeiros a serem visados foram os militantes comunistas seguidores de Jacques Doriot e do seu grupo de Saint-Denis, e depois deles os trotskistas. No que lhes dizia respeito, os comunistas franceses aceitaram sem discutir os argumentos dos grandes irmos soviticos: os trotskistas passaram a ser um bando selvagem e sem princpios de sabotadores, de agentes diversionistas e assassinos sob as ordens de servios de espionagem estrangeiros (Relatrio n l das Listas Negras l a 8, s.d.).
	A guerra, a interdio do PCF, que defendia a aproximao germano-sovi-tica, e a ocupao alem levaram o Partido a reforar as suas tendncias policiais. Foram denunciados os militantes que haviam se recusado a apoiar a aliana Hitler-Stalin, incluindo os que se juntaram  resistncia, como Adrien Langumier, que tinha como cobertura um trabalho de redator no TempsNouveauxt Luchaire (ao contrrio, o PCF nunca denunciou Frdric Joliot-Curie pelo artigo bastante comprometedor que ele escreveu em 15 de fevereiro de 1941 no mesmo jornal), ou corno Ren Nicod, antigo deputado comunista d'Oyonnax, cuja atitude para com seus antigos camaradas foi irrepreensvel. Sem mencionar Jules Fourrier, que a polcia do Partido tentou, sem sucesso, liquidar; Fourrier votara a favor da concesso de plenos poderes a Ptain e, a partir do fim de 1940, participou da criao de uma rede de resistncia; foi deportado para Buchenwald e mais tarde para Mauthausen.
	Ao lado desses, houve os que participaram, em 1941, da fundao do Partido Operrio e Campons Francs em torno do antigo secretrio do PCF, Mareei Gitton, morto nesse mesmo ano por militantes comunistas. O PCF arrogou-se o direito de declar-los traidores do Partido e da Franca. Por vezes, algumas das notcias de acusao eram seguidas desta meno: Recebeu o castigo que merecia. Inclusive, houve casos de militantes suspeitos de traio que foram assassinados e reabilitados depois da guerra, tal como Georges Dzir.
	Em plena caa aos judeus, o PC usava de estranhos mtodos para denunciar os seus inimigos: C... Rene, dita Tnia, ou dita Thrse, do XIV bairro de Paris. Judia da Bessarbia, De B..., Judeu estrangeiro. Renegado, difama o PC e a URSS. A mo-de-obra de imigrantes (MI), organizao que reunia os militantes comunistas estrangeiros, recorreu a uma linguagem no menos caracterstica: R. Judeu (no  o seu verdadeiro nome). Trabalha com um grupo judeu inimigo. Porm, o PC nunca se esquecia de seu dio para com os militantes trotskis-tas: D... Ivone. Praa do Gal.-Beuret, Paris VII. [...] Trotskista, esteve em conta-to com o POUM. Difama a URSS.  bastante provvel que, durante as prises, a polcia de Vichy ou a Gestapo conseguiu pr as mos nessas listas. O que aconteceu s pessoas ento denunciadas?
	Em 1945, o PC publicou uma nova srie de listas negras para mettre au banelanation, segundo a expresso utilizada na poca, os adversrios polticos, alguns dos quais haviam escapado por muito pouco de tentativas de assassinato. Evidentemente, a institucionalizao da lista negra remete  redao de listas de potenciais acusados, elaboradas pelos rgos de segurana soviticos (Tcheka, GPU, NKVD).  uma prtica universal dos comunistas, inaugurada no comeo da guerra civil na Rssia. Na Polnia, no final da guerra, essas listas compreendiam 48 categorias de indivduos a serem vigiados.
	No tardou que o imbrglio dos servios fosse suplantado por um fator decisivo: tanto o Komintern quanto os servios especiais responderam ao poder supremo da direo dos PCUS, chegando a prestar contas de suas aes a Stalin. Em 1932, Martemiam Riutine, que conduzira cuidadosamente e sem remorsos a represso aos opositores, entrava por sua vez em rota de coliso com Stalin. Ele redigiu uma moo na qual declarava: Stalin tem hoje, dentro do Komintern, o estatuto de um papa infalvel. [...] Stalin tem na mo, graas a uma dependncia material direta e indireta, todos os quadros dirigen tes do Komintern, no apenas em Moscou, mas em toda parte, e  esse o argumento decisivo que confirma a sua invencibilidade no domnio terico. A partir do final dos anos 20, o Komintern, que dependia financeiramente do Estado sovitico, perdeu a maior parte de sua autonomia. A essa dependncia material, que ampliava a dependncia poltica, veio ainda juntar-se a dependncia policial.
	A presso cada vez mais forte dos servios policiais sobre os militantes do Komintern teve como resultado a instaurao do medo e da desconfiana entre eles. Ao mesmo tempo que a delao gangrenava as relaes, a suspeita invadia os crebros. Delao que era de duas ordens: as denuncias voluntrias e as arrancadas atravs de torturas fsicas e mentais. Por vezes, era simplesmente o medo que as desencadeava. Alguns militantes sentiam-se honrados por denunciarem os seus camaradas. O caso do comunista francs Andr Marty  caracterstico dessa raiva paranica, desse zelo frentico de mostrar-se como o mais vigilante dos comunistas; em uma carta estritamente confidencial, datada de 23 de junho de 1937, dirigida ao primeiro-secretrio do Komintern, Georgi Dimitrov, Marty formulava uma longa denncia contra o representante da Internacional na Frana, Eugen Fried, dizendo-se admirado por ele ainda no ter sido preso pela polcia francesa... o que, no mnimo, lhe parecia suspeito! 

	Sobre os processos de Moscou

	Os fenmenos do terror e dos processos suscitaram inevitavelmente interpretaes divergentes.
	Eis o que Bors Suvarin escreveu a esse respeito:
	Com efeito,  demasiado exagerado pretender que os processos de Moscou sejam fenmenos exclusivos e especficos dos russos. Sob um cunho nacional inegvel podemos, examinando bem a situao, discernir um outro aspecto, bastante generalizado.
	Para comear,  necessrio renunciar ao preconceito segundo o qual o que  possvel na Rssia no o seria na Frana. Na realidade, as confisses extorquidas dos acusados no deixam os franceses mais perplexos do que os russos. E aqueles que, por solidariedade fantica para com o bolchevismo, as acham naturais so seguramente muito mais numerosos fora da URSS do que no seu interior. [...]
	Durante os primeiros anos da Revoluo Russa, era costume resolver todas as dificuldades de interpretao colocando a responsabilidade na 'alma eslava'. No entanto, somos forados a verificar na Itlia, e depois na Alemanha, a ocorrncia de fatos at ento reputados como especificamente russos. Solte-se a besta humana, e as mesmas causas produzem os mesmos efeitos, nos latinos, nos alemes ou nos eslavos, a despeito da diferena de formas e de aparncias.
	   Por outro lado, ser que no existem na Frana e em outros lugares pessoas de todas as espcies que enchem de contentamento as maquinaes atrozes de Stalin A redao do L 'Humanit, por exemplo, nada fica a dever  do Pravda em matria de servilismo e baixeza, sem ter, no entanto, a desculpa de estar presa pelas tenazes de uma ditadura totalitria. O acadmico Komarov continua a se desonrar, pedindo por mais cabeas na Praa Vermelha de Moscou, mas no poderia se recusar a faz-lo sem cometer um ato consciente de suicdio. O que dizer ento de um Romain Rolland, de um Langevin, de um Malraux, que admiram e aprovam o regime dito sovitico, a sua 'cultura' e a sua 'justia', sem ser obrigado a isso pela fome ou pela tortura?
	(L Figuro Littraire, 1. de julho de 1937.)

	Nesse mesmo gnero, eis um extrato de uma dessas cartas enviadas ao camarada L. P. Beria (o comissrio interior da URSS) pela blgara Stella Blagoieva, obscura funcionria da seo de quadros do Comit executivo do Komintern: O Comit Executivo da Internacional Comunista dispe de informaes redigidas por toda uma srie de camaradas, militantes de parti-dos-irmos, que julgamos necessrio enviar-lhes para que se possa confirmar e tomar as medidas que forem necessrias. [...] Um dos secretrios do Comit Central do Partido Comunista da Hungria, Karakach, tem mantido conversas que testemunham a sua insuficiente devoo ao Partido de Lenin e de Stalin. [...] Os camaradas colocam tambm uma questo muito sria: por que, em 1932, o tribunal hngaro no lhe aplicou uma pena superior a trs anos de priso, quando em plena ditadura do proletariado, na Hungria, Karakach executou penas de morte decididas pelo Tribunal Revolucionrio? [...] As mltiplas alocues dos camaradas alemes, austracos, letes, polacos e outros demonstram que a emigrao poltica est particularmente suja.  preciso extirpar essa erva daninha com toda a determinao.
	Arkadi Vaksberg afirma que os arquivos do Komintern contm dezenas (e mesmo centenas) de denncias, fenmeno que testemunha a decadncia moral a que chegaram os membros do Komintern ou os funcionrios do Partido Comunista da Unio Sovitica. Essa decadncia tornou-se gritante durante os grandes processos da velha guarda bolchevique, que havia cooperado na edificao de um poder apoiado na mentira absoluta.

	   O grande terror atinge o Komintern

	O assassinato de Kirov, em 19 de dezembro de 1934, deu a Stalin um excelente pretexto para passar de uma represso severa para a instaurao de um verdadeiro terror, tanto no Komintern quanto no Partido russo. A histria dos PCUS e a do Komintern entraram numa nova fase. O terror at ento exercido contra a sociedade voltava-se contra os atores do poder sem partilha que o PCUS e seu onipotente primeiro-secretrio exerciam.
	As primeiras vtimas foram os membros da oposio russa j aprisionados. Em fins de 1935, os detidos, libertados no final das respectivas penas, foram novamente encarcerados. Vrios milhares de militantes trotskistas foram reunidos na regio de Vorkuta. Eram cerca de 500 nas minas, mil no campo de Ukhto-Pechora e, ao todo, vrios milhares na rea de Pechora. Em 27 de outubro de 1936, mil desses prisioneiros^2 iniciaram uma greve de fome de 132 dias. Reivindicavam a sua separao dos presos de direito comum e de viverem com a famlia. Ao fim de quatro semanas, um dos prisioneiros faleceu. Muitos outros sofreram a mesma sorte at que a administrao anunciou que seriam atendidas as reivindicaes. No outono seguinte, 1.200 prisioneiros (metade dos quais trotskistas) foram reunidos nas proximidades de uma antiga fbrica de tijolos. No fim de maro, a administrao elaborou uma lista de 25 prisioneiros, que receberam um quilo de po e ordens para se prepararem para partir. Momentos depois, escutava-se o estrondo de um fuzilamento. Admitiu-se o pior quando, pouco tempo depois, os prisioneiros viram regressar a escolta do grupo. Dias depois, nova chamada e novo estrondo de fuzilamento. E assim continuou at o fim de maio. Os guardas regavam os cadveres com gasolina, a fim de queim-los e fazer com que desaparecessem. O NKVD difundia, via rdio, o nome dos fuzilados por agitao contra-revolucionria, sabotagem, banditismo, recusa ao trabalho, tentativa de fuga, etc.. As mulheres no foram poupadas. A mulher de um militante executado era automaticamente passvel da pena capital, e os filhos de um oposicionista, desde que tivessem mais de 12 anos, estavam sujeitos ao mesmo procedimento.
	Cerca de 200 trotskistas de Magadan, capital de Kolyma, recorreram tambm  greve de fome para obter o estatuto de preso poltico. Em sua proclamao, denunciavam os carrascos-^awgr/m e afirmavam que o fascismo de Stalin era bem pior que o de Hitler. Em 11 de outubro de 1937, eles foram condenados  morte, sendo que 74 deles foram fuzilados em 26 e 27 de outubro e 4 de novembro. Essas execues continuaram entre 1937 e 1938.
	Em todos os pases onde os comunistas estavam presentes, foram-lhes dadas ordens para combaterem a influncia de uma minoria de militantes que se juntava a Len Trotski. A partir da guerra espanhola, a operao tomou um novo rumo, que consistia em associar, da maneira mais mentirosa, trotskismo e nazismo, no mesmo momento em que Stalin preparava sua aproximao de Hitler.
	O Grande Terror desencadeado por Stalin logo atingiu o aparelho central do Komintern. Em 1965, Branko Lazitch tentou uma primeira abordagem da liquidao dos membros do Komintern sob o ttulo evocador de Martirolgio do Komintern. Boris Suvarin conclua seus Comentrios sobre o 'Martirolgio', que se seguiam ao artigo de B. Lazitch, com uma observao a respeito dos modestos colaboradores do Komintern, vtimas annimas do Grande Expurgo. Guard-lo na memria no  intil quando se aborda esse captulo especial da histria do comunismo sovitico: A maior parte desapareceu nessa chacina do Komintern, que foi apenas uma nfima parte de um massacre incomensurvel, o de milhes de operrios e camponeses lavradores, imolados sem causa nem razo por uma monstruosa tirania que se rotulava como proletria.
	Os funcionrios do aparelho central assim como os das sees nacionais foram ceifados pela mquina repressiva do mesmo modo que o mais humilde dos cidados. Com o Grande Expurgo (1937-1938), no foram apenas os opositores que caram vtimas dos rgos de represso, mas tambm os funcionrios do Komintern e dos aparelhos anexos: a Internacional Comunista da Juventude (KIM), a Internacional Sindical Vermelha (Profintern), o Socorro Vermelho (MOPR), a Escola Leninista Internacional, a Universidade Comunista das Minorias Nacionais do Ocidente (KUMNZ), etc. Wanda Pampuch-Bronska, filha do velho companheiro de Lenin, relatou, sob pseudnimo, que, em 1936, a KUMNZ foi dissolvida, e todo o seu pessoal foi preso, assim como a maioria de seus alunos.
	Ao examinar os documentos dos diversos servios e sees do Komintern, o historiador Mikhail Panteleiev recenseou 133 vtimas em um efetivo total de 492 pessoas (ou seja, 27%). Entre 1 de janeiro e 17 de setembro de 1937, foram decididas 256 demisses pela Comisso do Secretariado do Comit Executivo, composta por Mikhail Moskvin (Meir Trilisser), Wilhelm Florin e Jan Anvelt e em seguida pela Comisso Especial de Controle, criada em maio de 1937 e formada por Georgi Dimitrov, M. Moskvin e Dimitri Manuilski. Em geral, a demisso precedia  priso, com uma demora varivel: Elena Walter, demitida do secretariado de Dimitrov em 16 de outubro de 1938, foi presa dois dias mais tarde, ao passo que Jan Borowski (Ludwik Ko-morowski), despedido em 17 de julho do Comit Executivo do Komintern, foi preso no dia 7 de outubro seguinte. Em 1937 foram presos 88 empregados do Komintern, e 19 em 1938. Outros tantos eram presos na prpria mesa de trabalho, como foi o caso de Anton Krajewski (Wladyslaw Stein), ento responsvel pelos servios de imprensa e propaganda, que foi preso em 26 de maio de 1937. Muitos foram presos logo aps o seu regresso de misses no exterior do pas.
	Todos os servios foram atingidos, do secretariado aos representantes dos partidos comunistas. De 1937 a 1938, foram presas 41 pessoas do secretariado do Comit Executivo. No interior do seu Servio de Ligao (OMS at 1936), foram presas 34 pessoas. O prprio Moskvin foi apanhado pela mquina repressiva em 23 de novembro de 1938 e condenado  morte por fuzilamento no dia 19 de fevereiro de 1940. Jan Anvelt morreu sob tortura, e o dinamarqus A. Munch-Petersen morreu no hospital da priso em consequncia de uma tuberculose crnica. Cinquenta funcionrios, nove dos quais mulheres, foram fuzilados. A sua Lydia Dibi, responsvel por uma rede clandestina do Komintern em Paris, foi chamada a Moscou no comeo do ms de agosto de 1937. Mal chegou, foi presa juntamente com seus colaboradores, Brichman e Wolf. Acusada de participar da organizao trotskista anti-sovitica e de espionagem em favor da Alemanha, da Franca, do Japo e da... Sua, ela foi condenada  morte pelo Colgio Militar do Tribunal Supremo da URSS, em 3 de novembro, e fuzilada alguns dias depois; a sua cidadania sua no lhe deu qualquer proteo, e sua famlia foi brutalmente alertada sobre o veredicto, sem nenhuma explicao complementar. A polonesa L. Jankovskaia foi condenada a oito anos de recluso na qualidade de membro da famlia de um traidor da ptria: seu marido, Stanislaw Skulski (Mertens), que havia sido preso em agosto de 1937 e fuzilado em 21 de setembro. O princpio da responsabilidade familiar, j aplicado contra o simples cidado, foi assim estendido aos membros do aparelho.
	Ossip Piatnitski (Tarchis) havia sido, at 1934, o nmero dois do Komintern, logo aps Manuilski, encarregado de toda a organizao (especialmente do funcionamento dos partidos comunistas estrangeiros e das ligaes clandestinas do Komintern no mundo inteiro) e tambm do setor poltico e administrativo do Comit Central dos PCUS. Em 24 de junho de 1937,
	
ele interveio no Plenrio do Comit Central para criticar o reforo da represso e a atribuio de poderes extraordinrios ao chefe do NKVD, lejov. Furioso, Stalin foi obrigado a interromper a sesso e exerceu as maiores presses para que Piatnitski se confessasse arrependido. Em vo. No dia seguinte, no recomeo da sesso, lejov acusou Piatnitski de ser um antigo agente da polcia czarista e, em 7 de julho, ordenou a sua priso. Em seguida, forou Boris Miiller (Melnikov) a testemunhar contra Piatnitski e, no dia seguinte  execuo de Miiller, em 29 de julho de 1938, o Colgio Militar da Corte Suprema julgou Piatnitski, que se recusou a reconhecer-se como culpado de espionagem em favor do Japo. Condenado  morte, foi fuzilado na noite de 29 para 30 de julho.
	Muitos membros do Komintern foram acusados de pertencer  Organizao anti-Komintern liderada por Piatnitski, Knorin (Wilhelm Hugo) e Bela Kun. Outros foram apenas considerados trotskistas e contra-revolu-cionrios. Bela Kun, antigo chefe da Comuna hngara, que no comeo de 1937 havia feito oposio a Manuilski, foi acusado por este ltimo (provavelmente cumprindo ordens de Stalin), que afirmou que as crticas de Kun eram feitas diretamente a Stalin. Kun alegou inocncia e novamente apontou Manuilski e Moskvin como responsveis pela m representao do PCUS, que, segundo ele, estava na origem da ineficcia do Komintern. Entre os presentes - Palmiro Togliatti, Otto Kuusinen, Wilhelm Pieck, Klement Gottwald e Arvo Tuominen - ningum saiu em sua defesa. No final da reunio, Georgi Dimitrov fez com que fosse adotada uma resoluo na qual se estipulava que o caso Kun fosse examinado por uma comisso especial. Em matria de comisso especial, tudo a que Kun teve direito foi ser preso  sada da sala de reunies. Ele foi executado nos pores de Lubianka em data desconhecida.
	Segundo Panteleiev, o objetivo final desse expurgo era a erradicao total da oposio  ditadura stalinista. Aqueles que no passado haviam sido simpatizantes da Oposio ou que haviam mantido relaes com militantes outrora prximos a Trotski foram o alvo principal das represses. O mesmo aconteceu com os militantes alemes que pertenceram  frao dirigida por Heinz Neumann (ele prprio liquidado em 1937) e com os antigos militantes do Grupo do Centralismo Democrtico. Na poca, segundo o testemunho de Jakov Matusov, chefe-adjunto do primeiro departamento da Seo Poltica Secreta do GUGB-NKVD, cada dirigente de alto escalo no aparelho de Estado era objeto, sem o saber, de um dossi que reunia o material suscetvel de ser utilizado contra ele no momento oportuno. Kliment Vorochilov, Andrei Vychinski, Mikhail Kalinin, Lazar Kaganovitch e Nikita Kruschev tambm tinham os seus.  mais do que provvel que os dirigentes do Komintern estivessem sujeitos s mesmas suspeitas.
	Acrescentemos que os mais altos responsveis russos do Komintern participavam ativamente da represso. Um dos casos mais sintomticos foi o do italiano Palmiro Togliatti, um dos secretrios do Komintern, apresentado aps a morte de Stalin como um homem aberto, contrrio aos mtodos terroristas. Ora, Togliatti acusou Hermann Schubert, um funcionrio do Socorro Vermelho Internacional, impedindo-o de se explicar no decorrer da reunio; preso logo aps a sada, Schubert foi fuzilado. Um casal de comunistas alemes, os Petermanns, que vieram para a Rssia depois de 1933, foram acusados por Togliatti, durante uma reunio, de serem agentes de Hitler, pelo fato de manterem correspondncia com a famlia que vivia na Alemanha; eles foram presos algumas semanas mais tarde. Togliatti participou da perseguio a Bela Kun e assinou a resoluo que o enviaria  morte. Ele tambm esteve ativamente envolvido na liquidao do Partido Comunista Polons, em 1938. Nessa ocasio, aprovou o terceiro dos processos de Moscou, e concluiu: Morte aos promotores da guerra, aos espies e aos agentes do fascismo! Viva o Partido de Lenin e de Stalin, guardio vigilante das conquistas da Revoluo de Outubro, garantia segura do triunfo da revoluo mundial! Viva aquele que continua a obra de Dzerjinski, Nikolai Iejov! 
	
	   Terror no interior dos partidos comunistas
	
	   Aps ter feito a limpeza do aparelho central do Komintern, Stalin voltou-se para as diferentes sees da Internacional Comunista. A primeira a sentir os efeitos foi a seo alem. A comunidade alem na Rssia Sovitica era composta, sem contar os descendentes dos colonos do Volga, por militantes do Partido Comunista Alemo (KPD), por antifascistas refugiados e por operrios que haviam deixado a Repblica de Weimar para participarem da construo do socialismo. Nenhuma dessas qualidades lhes proporcionou qualquer ajuda quando, em 1933, comearam as detenes. No total, dois teros dos antifascistas alemes exilados na URSS foram atingidos pela represso.
	   No que concerne  sorte dos militantes comunistas, ela  hoje conhecida graas  existncia de listas, as kaderlistens, elaboradas sob a responsabilidade dos dirigentes do KPD, Wilhelm Pieck, Wilhelm Florin e Herbert Wehner, que se serviram delas para excluir os comunistas sancionados e/ou vtimas da represso. A primeira lista data de 3 de setembro de 1936, e a ltima de 21 de junho de 1938. Um outro documento, datado do final dos anos 50 e elaborado pela Comisso de Controle do SED (foi com o nome do Partido Socialista Unificado que, depois da guerra, se reconstituiu o Partido Comunista da antiga RDA), registra 1.136 pessoas. As detenes atingem o seu pice em 1937 (619) e prosseguem at 1941 (21). O destino de metade dessas pessoas (666)  desconhecido: supe-se que tenham morrido na priso. Em contrapartida, sabe-se de fonte segura que 82 pessoas foram executadas, 197 morreram na priso ou em campos de concentrao e 132 foram entregues aos nazistas. Os cerca de 150 indivduos gravemente condenados e que sobreviveram conseguiram sair da URSS, depois de cumpridas as suas penas. Um dos motivos ideolgicos invocados para justificar a deteno desses militantes foi que eles no haviam sido capazes de derrubar Hitler, como se Moscou no tivesse grande responsabilidade na subida dos nazistas ao poder.
	Mas o episdio mais trgico, no qual Stalin demonstrou a medida exa-ta do seu cinismo, foi a entrega dos antifascistas alemes a Hitler. Foi em 1937 que as autoridades soviticas decidiram expulsar os refugiados alemes. Em 16 de fevereiro, dez deles foram condenados a expulso pelo OSO. Alguns so conhecidos: Emil Larisch, tcnico, que vivia na Rssia desde 1921; Arthur Thilo, engenheiro, vindo em 1931; Wilhelm Pfeiffer, comunista de Hamburgo; Kurt Nixdorf, universitrio, empregado do Instituto Marx-Engels. Todos eles foram presos no decorrer de 1936, sob a acusao de espionagem ou de atividades fascistas, e o embaixador alemo von Schulenburg interviera junto a Maxim Litvinov, ministro sovitico das relaes exteriores, a respeito deles. Pfeiffer tentou fazer com que ele prprio fosse expulso para a Inglaterra, sabendo que, por ser comunista, seria preso to logo regressasse  Alemanha. Ao cabo de 18 meses, em 18 de agosto de 1938, ele foi levado  fronteira da Polnia; a partir da, perdeu-se o seu rastro. Arthur Thilo conseguiu chegar  embaixada britnica em Varsvia. Muitos no tiveram essa sorte. Otto Walther, litografo em Leningrado e que vivia na Rssia desde 1908, chegou a Berlim em 4 de maro de 1937; cometeu o suicdio atirando-se da janela da penso onde estava hospedado.
	No final de maio de 1937, von Schulenburg entregou duas listas de alemes presos cuja expulso era desejada. Entre os 67 nomes, encontram-se os de vrios antifascistas, como, por exemplo, o de Kurt Nixdorf. No outono de 1937, as negociaes tomaram um novo rumo: os soviticos aceitaram acelerar as expulses, como lhes fora solicitado pelos nazistas (cerca de 30 j tinham sido efetuadas). De novembro a dezembro de 1937,148 alemes foram expulsos; ao longo de 1938, mais 445. Conduzidos at as fronteiras da Polnia e da Letnia, s vezes da Finlndia, os expulsos - entre eles os Schutzbundler austracos - passavam de imediato para o controle dos representantes das autoridades alems. Em alguns casos, como o do comunista austraco Paul Meisel, o deportado foi conduzido em maio de 1938 at a fronteira austraca, via Polnia, para ser entregue  Gestapo. Paul Meisel, que era judeu, desapareceu em Auschwitz.
	O excelente entendimento entre a Alemanha nazista e a Rssia Sovitica prefigurava os pactos sovieto-nazistas de 1939, onde se exprime a verdadeira natureza convergente dos regimes totalitrios (Jorge Semprun). Aps a assinatura desses pactos, as expulses continuaram em condies cada vez mais dramticas. Depois de a Polnia ser esmagada por Hitler e Stalin, as duas potncias ficaram com uma fronteira comum, o que lhes permitia transferir diretamente os expulsos das prises soviticas para as alems. De 1939 a 1941, de 200 a 300 comunistas alemes foram entregues  Gestapo, como prova da boa vontade sovitica em relao a seu novo aliado. Em 27 de novembro de 1939, foi assinado um acordo entre as duas partes. Como consequncia, foram expulsas 350 pessoas, de novembro de 1939 a maio de 1941, 85 das quais eram austracas. Entre os deportados, aparecia Franz Koritschoner, um dos fundadores do Partido Comunista Austraco, que se tornou funcionrio da Internacional Sindical Vermelha; depois de ter sido exilado para o Grande Norte, ele foi entregue  Gestapo de Lublin, transferido para Viena, torturado e executado no dia 7 de junho de 1941, em Auschwitz.
	As autoridades soviticas no levavam em conta a origem judaica de muitos desses deportados: maestro e compositor, Hans Walter David, judeu e membro do KPD, ele foi entregue  Gestapo e executado em cmara de gs em 1942, no campo de Majdanek. H muitos outros casos: o fsico Alexandre Weissberg, que sobreviveu e escreveu suas memrias. Margarete Buber-Neumann, a companheira de Heinz Neumann - que, afastado da direo do KPD, havia emigrado para a URSS -, foi tambm testemunha do incrvel entendimento entre os nazistas e os soviticos. Deportada para Karaganda, na Sibria, ela foi entregue  Gestapo, junto a muitas companheiras de infortnio em fevereiro de 1940. Essa troca lhe custou ser internada em Ravensbrick.
	
	   Na ponte de Brest-Litovsk
	
	   No dia 31 de dezembro de 1939, fomos acordados s seis da manh [...]. Vestidos e devidamente barbeados, tivemos de aguardar algumas horas na sala de espera. Um judeu comunista hngaro, chamado Bloch, que havia fugido para a Alemanha aps o insucesso da Comuna de 1919, vivia ali com documentos falsos, continuando a sua militncia em favor do Partido. Mais tarde, utilizando-se dos mesmos documentos falsos, ele havia emigrado. Igualmente preso, a despeito dos protestos, ele tambm foi entregue  Gestapo alem. [...] Perto da meia-noite, chegaram os nibus que nos transportaram  estao. [...] Durante a noite de 31 de dezembro de 1939 para l. de janeiro de 1940, o trem ps-se em marcha. Levava para casa 70 seres humanos vencidos. [...] Atravs de uma Polnia devastada, continuvamos a nossa viagem at Brest-Litovsk. Na ponte do rio Bug, estvamos sendo esperados pelo aparelho do outro regime totalitrio da Europa, a Gestapo alem.
	Alexandre Weissberg, L'Accus, Fasquelle, 1953. A. Weissberg conseguiu fugir da priso nazista; juntou-se aos rebeldes poloneses e combateu a seu lado. No fim da guerra, foi para a Sucia e depois para a Inglaterra.
	Trs pessoas se recusaram a atravessar essa ponte, a saber: um judeu hngaro chamado Bloch, um operrio comunista condenado pelos nazistas e um professor alemo de cujo nome no consigo me lembrar. Eles foram levados  fora para a ponte. A raiva dos nazistas, dos SS, abateu-se imediatamente sobre o judeu. Eles nos puseram num trem e nos levaram para Lublin [...]. Em Lublin, fomos entregues  Gestapo. Verificamos ento que no somente o NKVD nos entregara  Gestapo, como haviam sido entregues os documentos que nos diziam respeito. Foi assim que eles souberam, entre outras coisas, atravs do meu dossi, que eu era a mulher de Neumann e que ele era um dos alemes mais odiados pelos nazistas...
	Margarete Buber-Neumann, Deposio no Processo Kravchenko contra Ls Lettres Franaises, l4 audincia, 23 de fevereiro de 1949. Resumo estenogra-fado, La Jeune Parque, 1949. Presa em 1937, deportada para a Sibria e entregue aos nazistas, Margarete Buber-Neumann foi internada no campo de concentrao de Ravensbriick at a sua libertao, em abril de 1945.

	Ao mesmo tempo que os comunistas alemes, os quadros do Partido Comunista da Palestina, muitos dos quais haviam emigrado da Polnia, foram apanhados pela mquina do terror. Joseph Berger (1904-1978), antigo secretrio do PCP, de 1929 a 1931, preso em 27 de fevereiro de 1935, s veio a ser libertado depois da realizao do XX Congresso, em 1956. A sua sobrevivncia representa uma exceo. Muitos outros militantes foram executados em diversos momentos e outros desapareceram em campos de concentrao. Wolf Averbuch, que fora diretor de uma fbrica de tratores em Rostov-sobre-o-Don, foi preso em 1936 e executado em 1941. A poltica sistemtica de destruio dos membros do PCP ou de grupos sionistas-socialistas vindos para a Rssia deve ser diretamente ligada  poltica sovitica relativa  minoria judaica e  constituio do Birobidjan, cujos responsveis foram perseguidos. O professor Josif Liberberg, presidente do Comit Executivo do Birobidjan, foi denunciado como inimigo do povo. Depois dele, os outros quadros da regio autnoma que chefiavam instituies foram sujeitos a perseguies. Samuel Augurskij (1884-1947) foi acusado de pertencer a um pretenso Centro Judaico-Fascista. Toda a seo judaica do Partido russo (a Jewsekija) foi desmantelada. O objetivo era a destruio das instituies judaicas, ao mesmo tempo em que o Estado sovitico procurava obter o apoio de personalidades judaicas fora da URSS.
	Um dos grupos mais atingidos pelo terror foi o dos comunistas poloneses. Nas estatsticas existentes sobre a represso, eles vm em segundo lugar, logo depois dos russos.  verdade que, muito excepcionalmente, o Partido Comunista Polons (KPP) havia sido oficialmente dissolvido, atravs do voto expresso do Comit Executivo do Komintern, em 16 de agosto de 1938. Stalin sempre suspeitara de que o KPP estava infestado por muitos e diferentes desvios. Muitos dirigentes comunistas poloneses haviam pertencido aos crculos prximos de Lenin antes de 1917 e viviam na URSS sem qualquer proteo jurdica. Em 1923, o KPP tomou posio ao lado de Trotski. s vsperas da morte de Lenin, a sua direo havia adotado uma resoluo em favor da Oposio. Em seguida, o seu luxemburguismo foi criticado. Por ocasio do V Congresso do Komintern, em junho-julho de 1924, Stalin afastou a direo histrica do KPP - Adolf Warski, Maximilian Walecki e Wera Kostrewa-Kochtchva -, primeiro passo para a tomada do controle por parte do Komintern. Depois, o KPP foi denunciado como um foco de trotskismo. O que no explica, por si s, o expurgo radical que atingiu o partido, cujos dirigentes eram, em grande parte, de origem judaica. Houve ainda o caso da Organizao Militar Polonesa (POW), ocorrido em 1933 (ver a contribuio de Andrzej Paczkowski).  preciso igualmente ter em mente o seguinte fator: a poltica do Komintern tendia a impor a sua seo polonesa uma ao inteiramente voltada para o enfraquecimento do Estado polons em benefcio da URSS e da Alemanha. A hiptese segundo a qual a liquidao do KPP foi sobretudo motivada pela necessidade de preparar a assinatura dos acordos germano-soviticos merece ser considerada seriamente. A forma como Stalin empenhou-se  do mesmo modo reveladora: ele exerceu uma presso de modo que - com a ajuda dos aparelhos do Komintern - todas as suas futuras vtimas fossem obrigadas a retornar a Moscou e cuidou para que nenhuma pudesse escapar. Sobreviveram somente os que estavam presos na Polnia, como foi o caso de Wladyslaw Gomulka.
	Em fevereiro de 1938, A Correspondncia Internacional, publicao bis-semanal oficial do Komintern, num artigo assinado por J. Swiecicki, acusou todo o conjunto do KPP. No decurso do expurgo iniciado em junho de 1937 - convocado a Moscou, o primeiro-secretrio Julian Lenski desapareceu poucos dias depois -,12 membros do Comit Central, numerosos dirigentes de segundo escalo e vrias centenas de militantes foram liquidados. O expurgo estendeu-se aos poloneses alistados nas Brigadas Internacionais: os responsveis polticos da Brigada Dombrowski, Kazimerz Cichowski e Gustav Reicher, foram presos quando regressavam a Moscou. Foi somente em 1942 que Stalin se deu conta da necessidade de reerguer um partido comunista polons, sob o nome de Partido Operrio Polons (PRP), a fim de fazer dele o ncleo de um futuro governo a seu servio, opositor do governo legal refugiado em Londres.
	Os comunistas iugoslavos sofreram muito com o terror stalinista. Proibido em 1921, o Partido Comunista lugoslavo foi obrigado a refugiar-se no exterior, primeiro em Viena, de 1921 a 1936, e depois em Paris, de 1936 a 1939; mas foi sobretudo em Moscou, a partir de 1925, que se constituiu seu principal centro. Um primeiro ncleo de emigrantes iugoslavos - rapidamente reforados por uma nova onda de emigrao resultante da instaurao da ditadura do rei Alexandre, em 1929 - formou-se em torno dos alunos da Universidade Comunista das Minorias Nacionais (KUNMZ), da Universidade Comunista de Serdlov e da Escola Leninista Internacional. Nos anos 30, viviam na URSS43 entre 200 e 300 comunistas iugoslavos, todos bem integrados, principalmente nas administraes internacionais do Komintern e da Internacional Comunista da Juventude. Por essa razo, eles estavam evidentemente ligados ao PCUS.
	   As lutas constantes que opunham as diversas faces que disputavam a liderana do PCI deram-lhes uma m reputao. Nessas circunstncias, a interveno da direo do Komintern tornou-se cada vez mais frequente e intensa. Em meados de 1925, foi feita uma tchistka, uma averiguao-depurao, na KUNMZ; os estudantes iugoslavos, favorveis  Oposio, resistiram  reitora, Maria J. Frukina. Alguns foram expulsos e censurados, e quatro deles (Ante Ciliga, Dedic, Dragic e Eberling) foram presos e enviados  Sibria. Em 1932, houve uma nova depurao no PCI, promovendo a excluso de 16 militantes.
	Depois do assassinato de Kirov, o controle sobre os emigrantes polticos foi reforado e, no outono de 1936, todos os militantes do PCI foram sujeitos a averiguaes, antes que o terror os atingisse. Mais bem conhecido do que a sorte dos trabalhadores annimos, o destino dos emigrantes polticos revela que oito secretrios e 15 outros membros do Comit Central do PCI, alm de 21 secretrios de direes regionais ou locais foram presos e desapareceram. Um dos secretrios do PCI, Sima Markovitch, forcado a refugiar-se na URSS, trabalhou na Academia de Cincias antes de ser preso, em julho de 1939; condenado a dez anos de trabalhos forados, sem direito a manter correspondncia com a famlia, morreu na priso. Outros foram imediatamente executados, tais como os irmos Vujovic, Radomir (membro do Comit Central do PCI) e Gregor (membro do Comit Central da Juventude); um terceiro irmo, Voja, antigo responsvel da Internacional Comunista da Juventude, que permanecera solidrio a Trotski em 1927, desapareceu, e, de fato, a sua priso acarretou a dos outros irmos. Secretrio do Comit Central do Partido Comunista lugoslavo de 1932 a 1937, Milan Gorkic foi acusado de ter criado uma organizao anti-sovitica dentro da Internacional e de ter comandado um grupo terrorista infiltrado no Komintern, organizao liderada por Knorin e Piatnitski.
	Em meados dos anos 60, o PCI reabilitou uma centena de vtimas da represso, mas nunca foi feita uma investigao sistemtica sobre o assunto.  verdade que a abertura de um inqurito desse tipo colocaria indiretamente a questo das vtimas da represso exercida contra os partidrios da URSS na Jugoslvia, aps a ciso de 1948. Ela teria, sobretudo, destacado que a ascenso de Tito (Josip Broz)  liderana do Partido, em 1938, havia sido consecutiva a uma depurao particularmente sangrenta. O fato de Tito, em 1948, ter se revoltado contra Stalin em nada diminuiu as suas responsabilidades na depurao dos anos 30.
	
	   A caa aos trotskistas

	Depois de ter dizimado as fileiras dos comunistas estrangeiros que viviam na URSS, Stalin voltou-se para os dissidentes que viviam no exterior. Foi assim que o NKVD teve a oportunidade de demonstrar o seu poderio mundial.
	Um dos casos mais espetaculares foi o de Ignaz Reiss, cujo verdadeiro nome era Nathan Poretski. Reiss era um dos jovens judeus revolucionrios oriundos da guerra de 1914/1918, como tantos outros que a Europa Central conheceu e que o Komintern recrutou. Agitador profissional, ele trabalhava numa rede clandestina internacional, chegando a ser condecorado com a Ordem da Bandeira Vermelha, por excelente desempenho em suas funes. Em 1935 ele foi recuperado pelo NKVD, que passava a assumir o controle de todas as redes que funcionavam no exterior, tendo sido encarregado de espionagem na Alemanha. O primeiro grande processo de Moscou perturbou profundamente Reiss, que decidiu romper com Stalin. Conhecendo os costumes da casa, preparou cuidadosamente a sua desero e, no dia 17 de julho de 1937, tornou pblica uma carta dirigida ao Comit Central do PCUS, na qual ele se explicava e atacava abertamente Stalin e o stalinismo, essa mistura do pior oportunismo - um oportunismo sem moral -, de sangue e de mentiras, que ameaava envenenar o mundo inteiro e aniquilar o que restava do movimento operrio. Ao mesmo tempo, Reiss anunciava a sua aliana com Len Trotski. Ele acabava, assim, de assinar a sua sentena de morte. O NKVD acionou imediatamente a sua rede na Franca, que conseguiu localiz-lo na Sua e preparou-lhe uma armadilha. Na noite de 4 de setembro, em Lausanne, Reiss foi crivado de balas por dois comunistas franceses, enquanto uma agente feminina do NKVD tentava assassinar a mulher e o filho do traidor com uma caixa de chocolates envenenados. A despeito das investigaes conduzidas na Sua e na Franca, os assassinos e seus cmplices nunca foram encontrados e condenados. Trotski imediatamente levantou suspeitas sobre Jacques Duelos, um dos secretrios do PCF, e encarregou o seu secretrio, Jan Van Heijenoort, de enviar o seguinte telegrama ao chefe de governo francs: Chautemps Presidente do Conselho Paris / Sobre caso assassinato Ignaz Reiss / Roubo de meus arquivos e crimes anlogos / Permita-me insistir necessidade submeter interrogatrio pelo menos como testemunha, Jacques Duelos vice-presidente Cmara Deputados, velho agente GPU. 
	   Duelos era vice-presidente da Cmara dos Deputados desde junho de 1936 e no foi dado qualquer seguimento ao telegrama.
	O assassinato de Reiss foi, sem dvida, espetacular, mas integrava-se num grande plano de liquidao dos seguidores de Trotski. Ningum pode se espantar com o fato de, na URSS, os trotskistas terem sido chacinados como tantos outros. Em contrapartida, o que pode nos surpreender  a clera com que os servios especiais liquidavam fisicamente os opositores em todo o mundo, ou ainda os grupos trotskistas organizados em diferentes pases. Na base desse empreendimento havia um paciente trabalho de infiltrao.
	Em julho de 1937, o responsvel do Secretariado Internacional da Oposio Trotskista, Rudolf Klement, desapareceu. Em 26 de agosto, um corpo decapitado e sem pernas foi pescado no rio Sena e pouco depois identificado como sendo o de Klement. O prprio filho de Trotski, Len Sedov, morreu em Paris no dia 16 de fevereiro de 1938, como resultado de uma operao; as condies altamente suspeitas que rodearam a sua morte levaram seus parentes a suspeitarem de um assassinato organizado pelos servios soviticos. Ao contrrio, em suas memrias,47 Pavel Sudoplatov assegurava que nada disso realmente aconteceu. Em todo caso, no restam dvidas de que Len Sedov encontrava-se em estreita vigilncia do NKVD. Um de seus amigos, Mark Zborowski, era um agente infiltrado no movimento trotskista.

	Louis Aragon, Preldio ao Tempo das Cerejas

	Eu canto a GPU que se forma
	na Frana agora mesmo
	Eu canto a GPU necessria da Frana
	Eu canto as GPUs de todos os lugares e de lugar nenhum
	Eu exijo uma GPU para preparar o fim de um mundo
	Exijam uma GPU para preparar o fim de um mundo
	para defender os que so trados
	para defender os que so sempre trados
	Exija a GPU vocs que so dobrados e vocs que so monos
	Exijam uma GPU
	Precisamos de uma GPU
	Viva a GPU figura dialtica do herosmo
	para opor essa imagem imbecil dos aviadores
	   que os imbecis consideram heris quando eles arrebentam
	a cara no cho
	Viva a GPU verdadeira imagem da grandeza materialista
	Viva a GPU contra o deus Chiappe e a Marselhesa
	Viva a GPU contra o papa e os piolhos
	Viva a GPU contra a resignao dos bancos
	Viva a GPU contra as manobras do Leste
	Viva a GPU contra a famlia
	Viva a GPU contra as leis infames
	Viva a GPU contra o socialismo dos assassinos do tipo
	Caballero Boncour MacDonald Zoergibel
	Viva a GPU contra todos os inimigos do Proletariado
	VIVA A GPU.
	(1931)
	(Citado por Jean Malaquais, L nomm Louis Aragon ou l patriote profes-sionnel, suplemento a Masses, fevereiro de 1947.)

	Em contrapartida, Sudoplatov reconhece ter sido encarregado por Beria e por Stalin, em maro de 1939, de assassinar Trotski. Stalin lhe disse:  preciso acabar com Trotski no prazo de um ano, antes do comeo da guerra, que  inevitvel [...], acrescentando: Voc far seus relatrios diretamente ao camarada Beria e a mais ningum, mas  voc quem tem plena responsabilidade pela misso. Iniciou-se, ento, uma perseguio implacvel, que se estendeu ao Mxico, onde residia o chefe da IV Internacional, passando por Paris, Bruxelas e pelos Estados Unidos. Com a cumplicidade do Partido Comunista Mexicano, os agentes de Sudoplatov prepararam um primeiro atentado, em 24 de maio, ao qual Trotski escapou por milagre. Foi graas  infiltrao de Ramn Mercader, sob um falso nome, que Sudoplatov encontrou um meio de livrar-se de Trotski. Mercader, que conquistara a confiana de um militante trotskista, conseguiu entrar em contato com o Velho. Um pouco desconfiado, Trotski aceitou receb-lo para dar-lhe a sua opinio sobre um artigo escrito em sua defesa, o revolucionrio. Mercader ento desferiu-lhe um golpe de picareta na cabea. Gravemente ferido, Trotski deu um grito dilacerante. Sua mulher e seus guarda-costas se precipitaram sobre Mercader, que permaneceu petrificado aps ter cometido o crime. Trotski morreu no dia seguinte.
	A interpenetrao entre os partidos comunistas, as sees do Komintern e os servios do NKVD havia sido denunciada por Len Trotski, que estava plenamente consciente de que o Komintern era dominado pela GPU e, depois, pelo NKVD Numa carta de 27 de maio de 1940, dirigida ao procurador geral do Mxico, trs dias depois da primeira tentativa de assassinato de que fora vtima, Trotski escrevia: A organizao da GPU tem tradies e mtodos bem estabelecidos fora da Unio Sovitica. A GPU necessita de uma cobertura legal ou semilegal para o desenvolvimento de suas atividades, assim como de um ambiente favorvel para o recrutamento dos seus agentes; ela encontra esse ambiente e essa proteo nos pretensos 'partidos comunistas'.' No seu ltimo texto, ainda sobre o atentado sofrido em 24 de maio, ele voltou aos pormenores da operao que quase o vitimara. Para ele, a GPU (Trotski continuava a utilizar o nome adotado em 1922, enquanto ainda estava no poder) era o rgo principal do poder de Stalin, era o instrumento da dominao totalitria na URSS, sendo essa a razo do esprito de servilismo e de cinismo [que] se espalhou por todo o Komintern e que envenenou o movimento operrio at a medula. Ele insiste longamente sobre essa dimenso particular que determina bem as coisas que dizem respeito aos partidos comunistas: Enquanto organizaes, a GPU e o Komintern no so semelhantes, mas esto indissoluvelmente ligados. Esto subordinados um ao outro, e no  o Komintern que dar ordens  GPU; muito pelo contrrio,  a GPU que domina completamente o Komintern. 
	Essa anlise, apoiada por inmeros elementos, era fruto da dupla experincia de Trotski: a adquirida na ocasio em que ele fora um dos dirigentes do ento nascente Estado Sovitico, e a do proscrito, perseguido em todo o mundo pelos agentes do NKVD, cujos nomes so hoje conhecidos com relativa certeza. Trata-se de dirigentes do departamento das Misses Especiais, criado em dezembro de 1936 por Nikolai lejov: Serguei Spiegelglass, que fracassou, Pavel Sudoplatov (falecido em 1996) e Naum Eitingon (falecido em 1981), que foram bem-sucedidos graas a seus numerosos cmplices.i
	Sabemos o essencial sobre o assassinato de Trotski, no Mxico, em 20 de agosto de 1940, graas s investigaes conduzidas imediatamente no prprio local, e em vrias ocasies posteriores, por Julian Gorkin. Quanto ao mandante do homicdio, nunca houve a menor dvida: os responsveis diretos eram conhecidos, informaes recentemente confirmadas pelo prprio Sudoplatov. Jaime Ramn Mercader dei Rio era filho de Caridad Mercader, uma comunista que h muito tempo trabalhava para os Servios e que se tornara amante de N. Eitingon. Mercader aproximou-se de Trotski usando o nome de Jacques Mornard, que no era uma personagem fictcia, pois existia realmente; faleceu na Blgica em 1967. Mornard havia lutado na Espanha, onde  provvel que seu passaporte tenha sido tomado emprestado pelos servios soviticos. Mercader tambm usou o nome de Jacson, utilizando um outro passaporte, pertencente a um canadense alistado nas Brigadas Internacionais e morto em combate. Ramn Mercader, convidado por Fidel Castro para trabalhar como conselheiro do Ministrio da Administrao Interna, morreu em Havana, em 1978. O homem que havia sido condecorado com a ordem de Lenin foi discretamente enterrado em Moscou.

	Stalin, livre de seu ltimo adversrio poltico, nem por isso desistiu da caa aos trotskistas. O exemplo francs  muito revelador do reflexo mental adquirido pelos militantes comunistas relativamente aos militantes das pequenas organizaes trotskistas. Durante a ocupao, na Frana, no est excluda a possibilidade de alguns trotskistas terem sido denunciados por comunistas s polcias francesa e alem.
	Nas prises e nos campos franceses de Vichy, os trotskistas foram sistematicamente postos em quarentena. Em Nontron (na regio francesa de Dor-dogne), Grard Bloch foi relegado ao ostracismo pelo grupo comunista liderado por Michel Bloch, filho do escritor Jean-Richard Bloch. Encarcerado em Eysses, Grard Bloch foi avisado por um professor catlico de que o grupo comunista da priso decidira execut-lo, estrangulando-o durante a noite.
	Nesse clima de raiva cega, o caso do desaparecimento de quatro trotskistas, entre os quais Pierre Tresso, fundador do Partido Comunista Italiano, em poder do maquis FTP Wodli, instalado na regio francesa do Alto Loire, adquire todo o seu significado. Evadidos da priso de Puy-en-Velay, em l? de outubro de 1943, ao mesmo tempo que seus camaradas comunistas, cinco militantes trotskistas foram protegidos por esse grupo de resistentes comunistas. Um deles, Albert Demazire, separou-se acidentalmente de seus camaradas. Foi o nico sobrevivente dos cinco:54 Tresso, Pierre Salini, Jean Reboul e Abraham Sadek foram executados no final de outubro, aps um julgamento simulado e muito significativo. As testemunhas e protagonistas ainda vivos relatam que esses militantes haviam, com efeito, planejado o envenenamento da gua do campo, acusao medieval que nos remete s origens judaicas de Trotski (cujo filho, Serguei, tambm foi acusado na URSS de ter as mesmas intenes) e de pelo menos um dos membros do grupo (Abraham Sadek). Dessa forma, o movimento comunista demonstrava que no estava isento da mais grosseira regresso anti-semita. Antes de serem mortos, os quatro trotskistas foram fotografados, provavelmente para serem identificados pelas instncias superiores do PCF, e obrigados a escrever as suas biografias.
	At mesmo dentro dos prprios campos de concentrao os comunistas procuravam eliminar fisicamente os seus adversrios mais prximos, aproveitando-se das posies conseguidas na hierarquia da priso. Mareei Beaufrre, responsvel pela regio bret do Partido Operrio Internacional, que fora preso em outubro de 1943 e deportado para Buchenwald em janeiro de 1944, tornou-se suspeito de ser trotskista aos olhos do chefe interblocos (um comunista). Dez dias mais tarde, algum avisou-lhe de que a clula comunista do bloco 39 - o dele - o condenara  morte e queria envi-lo para o bloco das cobaias, onde as vtimas eram inoculadas com o vrus do tifo. Beaufrre foi salvo in extremis graas  interveno dos militantes alemes. Bastava utilizar o sistema concentracionrio nazista para se livrar dos adversrios polticos - vtimas, porm, dos mesmos carrascos da Gestapo ou da SS -, enviando-os para as misses mais perigosas. Mareei Hic e Roland Filitre, ambos deportados para Buchenwald, foram enviados ao terrvel campo de Dora, com a concordncia dos quadros do KPD, que se ocupavam das funes administrativas do campo, escreveu Rodolphe Prager. Mareei Hic morreu ali mesmo. Em 1948, Roland Filitre escapou de uma tentativa de assassinato em seu local de trabalho.
	Outras liquidaes de militantes trotskistas ocorreram com o auxlio da chegada Libertao. Um jovem operrio parisiense pertencente ao grupo A Luta de Classes, Mathieu Buchholz, desapareceu no dia 11 de setembro de 1944. Em maio de 1947, o jornal publicado pelo seu grupo levantou suspeitas sobre os stalinistas.
	Na Grcia, o movimento trotskista era considervel. Um secretrio do Partido Comunista Grego (KKE), Pandelis Pouliopoulos - que foi mais tarde fuzilado pelos italianos - manteve relao com o movimento antes da guerra. Durante o conflito, os trotskistas aderiram individualmente s fileiras da Frente de Libertao Nacional (EAM), fundada em junho de 1941 pelos comunistas. Aris Velouchiotis, general do Exrcito Popular de Libertao Nacional (ELAS), mandou executar cerca de 20 dirigentes trotskistas. Depois da libertao, multiplicou-se o nmero de sequestros de militantes trotskistas. Muitos foram torturados, para que revelassem o endereo de camaradas. Em seu relatrio ao Comit Central do PC, datado de 1946, Vassilis Bartziotas menciona um total de 600 trotskistas executados pela OPLA (Organizao de Proteo das Lutas Populares), nmero que deve incluir, provavelmente, os anarquistas e socialistas dissidentes. Os arqueo-marxistas, militantes organizados fora do Partido Comunista Grego em 1924, tambm foram perseguidos e assassinados. 
	Os comunistas albaneses no ficaram para trs. Aps a unificao, em novembro de 1941, dos grupos de esquerda, entre os quais os trotskistas reunidos em torno de Anastaste Loula, ressurgiram as divergncias entre trotskistas e ortodoxos (Enver Hoxha, Memet Chehu), aconselhados pelos iugosla-vos. Loula foi sumariamente executado. Aps vrias tentativas de morte, Sadik Premtaj, outro lder trotskista extremamente popular, conseguiu chegar  Frana; em maio de 1951, ele foi vtima de uma nova tentativa de assassinato, perpetrado por Djemal Chami, antigo membro das Brigadas Internacionais, homem de ao da legao albanesa em Paris.
	Em 1928, na China, havia sido formado um embrio de movimento, sob a autoridade de Chen Duxiu, fundador e antigo secretrio do PCC. Em 1935, contava-se apenas uma centena de membros. Durante a guerra contra o Japo, uma parte deles conseguiu integrar-se ao oitavo exrcito da APL. Eles foram executados por Mo Ts-tung, que tambm mandou liquidar os batalhes que eles comandavam. No final da guerra civil, muitos dos primeiros foram sistematicamente perseguidos e executados. O destino de muitos deles permanece desconhecido.
	A situao da Indochina foi diferente, pelo menos nos primeiros tempos. Os trotskistas do grupo Tranh Dau (A Luta) e os comunistas juntaram-se em causa comum a partir de 1933. A influncia dos trotskistas era particularmente forte no sul da pennsula. Em 1937, uma diretiva de Jacques Duelos proibiu o Partido Comunista Indochins de continuar a colaborar com os militantes de A Luta. Nos meses que se seguiram  derrota japonesa, um outro ramo trotskista - a Liga Comunista Internacional - adquiriu influncia suficiente para inquietar os dirigentes comunistas. Em setembro de 1945, por ocasio da chegada das tropas inglesas, a LCI repreendeu severamente o acolhimento pacfico que o Vietminh (ou Frente Democrtica pela Independncia), criado em maio de 1941 por Ho Chi Minh, lhes proporcionou. Em 14 de setembro, o Vietminh lanou uma vasta operao contra os quadros trots-kistas, que no ofereceram resistncia. Capturados, a maioria foi executada de imediato. Em seguida, depois de terem combatido as tropas anglo-francesas entrincheiradas na Plancie dos Juncos, foram esmagados pela tropas do Vietminh. Segunda etapa da operao: o Vietminh voltou-se a seguir contra os militantes de A Luta. Aprisionados em Ben Sue, foram executados com a aproximao das tropas francesas. Ta Tu Thau, lder histrico do movimento, preso mais tarde, foi executado em fevereiro de 1946. Afinal de contas, no foi o prprio Ho Chi Minh quem afirmou que os trotskistas so mais infames do que os traidores e os espies? 
	Na Tchecoslovquia, o destino de Zavis Kalandra simboliza por si s o de todos os seus companheiros. Em 1936, Kalandra fora expulso do PCC por ter escrito um livro no qual ele denunciava os processos de Moscou. Resistente, ele foi deportado pelos alemes para Oraniemburg. Preso em novembro de 1949 e acusado de ter liderado uma conspirao contra a Repblica, ele foi torturado. O julgamento teve incio em junho de 1950. Kalandra se retratou. No dia 8 de junho, ele foi condenado  morte. Em Combat (14 de junho de 1950), Andr Breton pediu a Paul luard que intercedesse em favor de um homem que ambos conheciam desde antes da guerra. luard respondeu-lhe: Estou por demasiado ocupado com os inocentes que proclamam a sua inocncia para perder tempo com culpados que proclamam a sua culpa. Zavis Kalandra foi executado em 27 de junho, juntamente com trs outros companheiros.
	Antifascistas e revolucionrios estrangeiros vtimas do terror na URSS
	O fato de ter dizimado membros do Komintern, trotskistas e outros dissidentes constituiu um importante episdio do terror comunista; ele no foi, porm, o nico desses episdios. Com efeito, em meados dos anos 30, vivia na Rssia um grande nmero de estrangeiros que, mesmo sem ser comunistas, haviam sido atrados pela miragem sovitica. Muitos deles pagaram com a liberdade, e por vezes com a vida, o preo dessa paixo pelo pas dos sovietes.
	   No incio dos anos 30, os soviticos conduziram uma campanha de propaganda sobre a Carlia, jogando simultaneamente com as possibilidades oferecidas por essa regio fronteiria entre a URSS e a Finlndia e a atrao que a construo do socialismo exercia. Quase 12 mil pessoas deixaram a Finlndia, acrescidos de cerca de cinco mil finlandeses vindos dos Estados Unidos, principalmente os membros da Associao (norte-americana) dos Trabalhadores Finlandeses, que naquele momento enfrentavam grandes dificuldades devido ao desemprego que se seguiu  crise de 1929. A febre da Carlia foi to forte, que os agentes da Amtorg (agncia comercial sovitica) lhes prometiam trabalho, bons salrios, alojamento e viagem gratuita de Nova York a Leningrado. Recomendava-se aos interessados que levassem tudo o que possussem.
	A corrida para a utopia, segundo a expresso de Aino Kuusinen, transformou-se em pesadelo. Desde a sua chegada, as mquinas, as ferramentas e as economias desses imigrantes foram confiscadas. Obrigados a entregar os passaportes, eles se viram como prisioneiros em uma regio subdesenvolvida, onde predominava a floresta, em condies de subsistncia particularmente duras. Segundo Arvo Tuominen, que liderava o Partido Comunista Finlands e ocupava a funo de membro suplente do Presidium do Comit do Komintern at o fim de 1939, condenado  morte para depois ver a sua pena comutada em dez anos de priso, pelo menos 20 mil finlandeses foram encarcerados em campos de concentrao.
	Forado a se instalar em Kirovakan, Aino Kuusinen presenciou a chegada, depois da Segunda Guerra Mundial, dos armnios que, tambm vtimas de uma hbil propaganda, haviam decidido se estabelecer na Repblica Sovitica da Armnia. Respondendo  convocao de Stalin, para que as pessoas de origem russa que viviam no estrangeiro retornassem  URSS, esses armnios, apesar de serem na realidade muito mais turcos exilados do que russos propriamente ditos, se mobilizaram para se instalarem na Repblica da Armnia, que, em sua imaginao, substitua a terra de seus antepassados. Em setembro de 1947, vrios milhares deles se reuniram no porto de Marselha. Trs mil e quinhentos embarcaram no Rossio, que os transportou para a URSS. Assim que o navio transps a linha imaginria que demarcava as guas territoriais soviticas no Mar Negro, a atitude das autoridades soviticas mudou repentinamente. Muitos ento compreenderam a armadilha odiosa em que tinham cado. Em 1948, duas centenas de armnios chegaram dos Estados Unidos. Acolhidos em clima de festa, eles tiveram a mesma sorte: os seus passaportes foram confiscados logo na chegada. Em maio de 1956, vrias centenas de armnios oriundos da Franca fizeram uma manifestao por ocasio da visita a Erevan do ministro das Relaes Exteriores, Christian Pineau. Apenas 60 famlias foram autorizadas a deixar a URSS, enquanto a represso se abatia sobre os outros.
	O terror no atingia unicamente os que tinham chegado  URSS de sua livre vontade, mas tambm os que foram obrigados a faz-lo pela represso de regimes ditatoriais. De acordo com o artigo 129 da Constituio Sovitica de 1936, a URSS concede o direito de asilo aos cidados estrangeiros perseguidos por defenderem os direitos dos trabalhadores ou em razo de sua ativida-de cientfica ou por sua luta pela liberdade nacional. Em seu romance Ve et Destin, Vassili Grossman descreve a confrontao entre um SS e um velho militante bolchevique, seu prisioneiro. No decorrer de um longo monlogo, o SS diz uma frase que ilustra perfeitamente o destino de milhares de homens, mulheres e crianas que procuraram refugio na URSS.  a seguinte: Quem encontramos em nossos campos de concentrao em tempos de paz, quando no h prisioneiros de guerra? Encontram-se os inimigos do Partido, os inimigos do povo. So uma espcie que vocs conhecem, so os que tambm se encontram em seus campos. E se, em tempo de paz, os seus campos entrassem para o sistema da SS, ns no deixaramos sair os prisioneiros que l se encontrassem. Seus prisioneiros so os nossos prisioneiros.^
	Quer tenham vindo do estrangeiro em resposta  convocao dos soviticos ou em busca de uma segurana que no tinham nos pases de origem, devido s suas posies polticas, todos esses emigrantes foram considerados potenciais espies. Era, pelo menos, o motivo que figurava com mais freqncia em sua notificao de condenao.
	Uma das emigraes mais precoces foi a dos antifascistas italianos, a partir de meados dos anos 20. Muitos deles, que acreditavam encontrar no pas do socialismo o refugio de seus sonhos, ficaram cruelmente decepcionados e foram vtimas do terror. Na URSS, em meados dos anos 30, viviam cerca de 600 comunistas e simpatizantes italianos: perto de 250 quadros polticos emigrantes e 350 alunos que frequentavam cursos nas trs escolas de formao poltica. Como muitos desses alunos deixaram a URSS aps o trmino de seus estudos e uma centena de militantes partiram para lutar na Espanha, em 1936 e 1937, o Grande Terror abateu-se sobre os que ficaram. Cerca de 200 italianos foram presos, geralmente por espionagem; 40 foram fuzilados - dos quais 25 foram identificados; os restantes foram enviados ao Gulag, tanto para as minas de ouro de Kolyma quanto para o Cazaquisto. Romolo Caccavale publicou um comovente livro no qual ele retraa o itinerrio e o destino trgico de vrias dezenas desses militantes. 
	Um exemplo entre outros: Nazareno Scarioli, um antifascista que fugiu da Itlia em 1925, chegando a Berlim e depois a Moscou. Acolhido pela seo italiana do Socorro Vermelho, ele trabalhou numa colnia agrcola dos arredores de Moscou durante um ano e depois foi transferido para Yalta, para uma colnia onde trabalhavam duas dezenas de anarquistas italianos sob a direo de Tito Scarselli. A colnia foi dissolvida em 1933, e Scarioli voltou a Moscou e foi contratado por uma fabrica de biscoitos. Ele participava regularmente das atividades da comunidade italiana.
	Vieram os anos do Grande Expurgo. O medo e o terror desagregaram a comunidade italiana; todos poderiam ser vtimas da suspeita de um de seus compatriotas. O responsvel comunista Paolo Robotti anunciou ao Clube Italiano a deteno de 36 emigrantes como inimigos do povo, todos trabalhadores em uma fabrica de rolamentos de esferas. Robotti obrigou a assistncia a apoiar a deteno desses operrios que ele conhecia muito bem. Durante a votao por braos erguidos, Scarioli votou contra, tendo sido preso na manh seguinte. Torturado em Lubianka, assinou uma confisso. Deportado para Kolyma, trabalhou numa mina de ouro. Vrios foram os italianos que tiveram a mesma sorte, e muitos deles morreram: o escultor Arnaldo Silva, o engenheiro Cerquetti, o dirigente comunista Aldo Gorelli, cuja irm se casara com o futuro deputado comunista Siloto, o antigo secretrio da seo romana do PCI, Vincenzo Baccala, o toscano Otello Gaggi, que trabalhava como porteiro em Moscou, Luigi Calligaris, operrio em Moscou, o sindicalista veneziano Cario Costa, operrio em Odessa, Edmundo Peluso, que convivera com Lenin em Zurique. Em 1950, Scarioli, que pesava apenas 36 quilos, deixou Kolyma, mas permaneceu na Sibria, obrigado a trabalhar como um escravo sovitico. Ele s foi anistiado e reabilitado em 1954. Aps seis anos de espera, ele obteve um visto que lhe permitiu retornar  Itlia, com uma magra penso.
	Esses refugiados no foram somente comunistas, membros do PCI ou simpatizantes. Havia tambm os anarquistas que, perseguidos, escolheram ir para a URSS. O caso mais conhecido  o de Francesco Ghezzi, militante sindical e libertrio, que chegou  Rssia em junho de 1921 para representar a Unio Sindical Italiana junto  Internacional Sindical Vermelha. Em 1922, ele dirigiu-se para a Alemanha, onde foi preso. O governo italiano, que o acusava de terrorismo, decidira pedir sua extradio. Uma campanha ativa evitou que ele fosse enviado para as prises italianas, mas ele teve de regressar  URSS. No outono de 1924, Ghezzi, que se ligara principalmente a Pierre Pascal e Nikolai Lazarevitch, teve os seus primeiros atritos com a GPU. Ele foi detido em 1929, condenado a trs anos de priso e internado em Souzdal, em condies criminosas para um tuberculoso. Seus amigos e correspondentes organizaram, na Franca e na Sua, uma campanha a seu favor. Romain Rolland (num primeiro momento) e depois outros assinaram a petio. As autoridades soviticas responderam fazendo correr o boato de que Ghezzi era um agente da embaixada fascista. Libertado em 1931, Ghezzi retomou o seu trabalho na fbrica. No fim de 1937, ele foi novamente preso. Mas, dessa vez, foi impossvel para seus amigos no exterior obter qualquer tipo de informao sobre seu destino. Ele foi dado como morto em Vorkuta, no fim de agosto de 1941.
	Quando, em 11 de fevereiro de 1934, em Linz, os responsveis do Schutzbun, a Liga de Proteo Republicana do Partido Socialista Austraco, decidiram resistir a todos os ataques vindos dos Heimwehren (a Guarda Patritica) que visavam  interdio do Partido Socialista, poderiam eles imaginar o destino de seus camaradas?
	O ataque dos Heimwehren em Linz obrigou os social-democratas a desencadearem uma greve geral em Viena e, depois, uma insurreio. Aps quatro dias de violentos combates, com Dollfuss vitorioso, os militantes socialistas que escaparam da priso ou do campo de concentrao preferiram cair na clandestinidade ou fugir para a Tchecoslovquia a continuarem a lutar na Espanha. Muitos deles decidiram procurar refgio na Unio Sovitica, convidados a fazer essa escolha pela intensa propaganda que j conseguira insufl-los contra a direo social-democrata. Em 23 de abril de 1934, 300 homens chegaram a Moscou, seguidos at o ms de dezembro por outros grupos menos importantes. A embaixada alem recenseou 807 Schutzbiindler emigrados para a URSS.? Contando as famlias, cerca de 1.400 pessoas encontraram refugio na Unio Sovitica.
	   O primeiro grupo que chegou a Moscou foi acolhido pelos responsveis do Partido Comunista Austraco (KPO), e esses combatentes desfilaram pelas ruas da capital. Eles ficaram a cargo do Conselho dos Sindicatos. Cento e vinte crianas, cujos pais haviam cado nas barricadas ou sido condenados  morte, foram recolhidas e enviadas por algum tempo para a Crimia e, mais tarde, instaladas em Moscou, 68 no lar das crianas n 6, especialmente aberto com essa inteno.
	Aps algumas semanas de repouso, os operrios austracos foram distribudos pelas fbricas de Moscou, Kharkov, Leningrado, Gorki e Rostov. Eles logo se decepcionaram com as condies de vida que lhes eram impostas, obrigando os dirigentes comunistas austracos a intervir. As autoridades exerciam presso para que adotassem a nacionalidade sovitica; em 1938, cerca de 300 o fizeram. Em contrapartida, grupos inteiros de Schutzbiindlererai-ram em contato com a embaixada austraca, pedindo a sua repatriao. Em 1936, 77 conseguiram regressar  ustria. Segundo a embaixada alem, um total de 400 teria feito a viagem de retorno at a primavera de 1938 (depois do Anschluss, em maro de 1938, os austracos tornaram-se sditos do Reich alemo). Cento e sessenta haviam ido  Espanha combater ao lado dos republicanos.
	Muitos nunca conseguiram sair da URSS. Contam-se hoje 278 austracos presos desde o fim de 1934 at 1938. Em 1939, Karlo Stajner encontrou em Norilsk um vienense, Fritz Koppensteiner, mas ignora o que lhe aconteceu. Alguns foram executados, como Gustl Deutch, antigo responsvel do bairro de Floridsdorf e ex-combatente do regimento Karl Marx, sobre o qual os soviticos publicaram um livro intitulado Os Combates de Fevereiro em Floridsdorf (Moscou, Prometheus-Verlag, 1934).
	Quanto ao lar para crianas n 6, ele tambm no foi poupado. No outono de 1936, comearam as prises entre os pais que haviam sobrevivido; os filhos ficaram sob a autoridade do NKVD, que os internou em seus orfanatos. A me do escritor Wolfgang Leonhard foi presa e desapareceu em outubro de 1936; somente no vero de 1937 foi que o filho recebeu um postal dela, proveniente da Repblica dos Komis. Ela havia sido condenada a cinco anos em campo de concentrao por atividades contra-revolucionrias trotskistas.
	
	   A trgica odisseia da famlia Skdek

	Em 10 de fevereiro de 1963, o jornal socialista Arbeiter Zeitung relatou a histria da famlia Sladek. Em meados de setembro de 1934, a Senhora Sladek e seus dois filhos juntaram-se, em Kharkov, a Josef Sladek, marido e pai, antigo Schutzbundlere antigo funcionrio de Semmering refugiado na URSS. Em 1937, o NKVD iniciou as prises na comunidade austraca de Kharkov, bem mais tarde do que em Moscou e em Leningrado. A vez de Josef Sladek chegou em 15 de fevereiro de 1938. Em 1941, antes do ataque alemo, a Senhora Sladek pediu para deixar a Rssia e dirigiu-se  embaixada alem. No dia 26 de julho, o NKVD prendeu-a, assim como a seu filho Alfred, de 16 anos, enquanto Victor, de 8 anos, foi enviado a um orfanato do NKVD. Os funcionrios do NKVD quiseram a todo custo arrancar uma confisso de Alfred: bateram-lhe, dizendo que a me havia sido fuzilada. Devido ao avano das tropas alems, me e filho foram evacuados e se reencontraram por acaso no campo de Ivdel, nos Urais. A Senhora Sladek havia sido condenada a cinco anos num campo de concentrao por espionagem, e Alfred Sladek a dez anos por espionagem e agitao anti-sovitica. Transferidos para o campo de Sarma, l encontraram Josef Sladek, que havia sido condenado, em Kharkov, a cinco anos de priso. Mas foram novamente separados. Libertada em outubro de 1946, a Senhora Sladek teve designada como sua residncia a cidade de Solikansk, nos Urais, local onde o marido veio se juntar a ela um ano mais tarde. Tuberculoso e com problemas cardacos, Josef Sladek estava incapacitado para o trabalho. Foi mendigando que o antigo ferrovirio de Semmering desapareceu, no dia 31 de maio de 1948. Em 1951, Alfred foi por sua vez libertado e pde reunir-se  me. Em 1954, depois de rduas negociaes, puderam voltar  ustria e a Semmering. Eles haviam visto Victor pela ltima vez sete anos antes. As ltimas notcias dele datavam de 1946.

	Os iugoslavos presentes na Rssia em 1917 e que l ficaram por livre vontade somavam, em 1924, de 2.600 a 3.750 pessoas. A esses juntavam-se os operrios das indstrias e especialistas vindos da Amrica e do Canad, com o respectivo material, para participar da edificao do socialismo. Suas colnias encontravam-se espalhadas por todo o territrio, de Leninsk a Mag-nitogorsk, passando por Saratov. Entre 50 e cem deles participaram da construo do metro de Moscou. Tal como as outras, a emigrao iugoslava foi reprimida. Bozidar Maslartch afirmou que eles sofreram o destino mais cruel, acrescentando: Na sua grande maioria, foram presos em 1937-1938, e o seu destino  totalmente desconhecido.... Apreciao subjetiva, alimentada pelo fato de vrias centenas de emigrantes terem desaparecido. Atualmente, continua a no haver dados definitivos sobre os iugoslavos que trabalharam na URSS, especialmente sobre os que participaram da construo do metro de Moscou e que foram duramente reprimidos por terem protestado contra suas condies de trabalho.
	No fim de setembro de 1939, a partilha da Polnia entre a Alemanha nazista e a Rssia Sovitica, decidida secretamente em 23 de agosto de 1939, tornou-se efetiva. Os dois invasores coordenaram as suas aes de modo a assegurarem o controle da situao e da populao: a Gestapo e o NKVD colaboraram. As comunidades judaicas estavam separadas: de um total de 3,3 milhes de pessoas, cerca de dois milhes viviam sob domnio alemo; depois das perseguies (sinagogas incendiadas) e das matanas, veio o confinamen-to nos guetos: o de Lodz foi criado em 30 de abril de 1940; o de Varsvia, organizado em outubro, foi fechado em 15 de novembro.
	Diante do avano do exrcito alemo, vrios judeus poloneses haviam rugido para o leste. Durante o inverno de 1939-1940, os alemes no tentaram interditar a passagem pela nova fronteira. Mas os que tentavam a sua sorte tinham de enfrentar um obstculo inesperado: Os guardies soviticos do 'mito de classe', envergando longos sobretudos e barretes de peles, de baioneta erguida, recebiam os nmades que procuravam a Terra Prometida com ces policiais e rajadas de metralhadora.  De dezembro de 1939 a maro de 1940, os judeus permaneceram encurralados numa terra de ningum, de um quilmetro e meio de largura, na margem oriental do rio Bug, obrigados a acampar a cu aberto. A maioria regressou  zona alem.
	L. C. (matrcula 15.5), soldado do exrcito polons do general Anders, testemunhou essa incrvel situao: O territrio era um setor com 600-700 metros, onde estavam amontoadas cerca de 700-800 pessoas, havia j algumas semanas; 90% eram judeus que tinham escapado  vigilncia alem. [...] Estvamos doentes, completamente ensopados, naquele terreno encharcado pelas chuvas do outono, apertando-nos uns contra os outros sem que os 'humanitrios' soviticos se dignassem a nos dar um pouco de po ou de gua quente. Eles nem sequer deixavam passar os camponeses das redondezas, que queriam fazer alguma coisa para que permanecssemos vivos. Como resultado, deixamos muitas sepulturas naquele pedao de terra. [] Posso afirmar que as pessoas que regressavam a suas casas no lado alemo tinham razo para o fazer, pois o NKVD no era, de nenhum ponto de vista, melhor do que
	73 Gustaw Herling, Un monde fart, Denoel, 1985.
	
a Gestapo alem, com a diferena de que a Gestapo matava as pessoas mais depressa, enquanto o NKVD matava e torturava de uma forma mais terrvel do que a prpria morte, de maneira que aqueles que conseguiam, por milagre, fugir s suas garras ficavam invlidos at ao fim de suas vidas... Simbolicamente, o escritor Israel Joshua Singer fez com que seu heri - que, por ter se tornado um inimigo do povo, havia fugido da URSS - morresse nessa terra de ningum.
	Em maro de 1940, vrias centenas de milhares de refugiados - h quem avance o nmero de 600 mil - viram lhes ser imposto um passaporte sovitico. Os acordos sovieto-nazistas previam uma troca de refugiados. Com as famlias separadas, a penria e o terror policial exercido pelo NKVD se agravando a cada dia, alguns decidiram regressar ao lado alemo da antiga Polnia. Jules Margoline, que se encontrava em Lvov, na Ucrnia Ocidental, relata que na primavera de 1940 os judeus preferiam o gueto alemo  igualdade sovitica. Naquele momento, parecia-lhes mais fcil deixar o Governo Geral para atingir um pas neutro do que tentar a fuga via Unio Sovitica.
	No comeo de 1940, as deportaes comearam a atingir os cidados poloneses (ver a contribuio de Andrzej Paczkowski) e prosseguiram at junho. Poloneses de todas as religies foram deportados, em trens, para o Grande Norte ou para o Cazaquisto. O trem em que viajava Jules Margoline levou dez dias para chegar a Murmansk. Excelente observador da sociedade dos campos de concentrao, Margoline escreveu: O que distingue os campos soviticos de todos os outros locais de deteno existentes no mundo no so apenas as suas extenses imensas, inimaginveis, nem as suas mortferas condies de vida.  a necessidade de mentir incessantemente para salvar a vida, mentir sempre, usar uma mscara durante anos e nunca poder dizer o que se pensa. Na Rssia sovitica, os cidados 'livres' so igualmente obrigados a mentir. [...] Assim, os nicos meios de autodefesa so a dissimulao e a mentira. Os comcios, as reunies, os encontros, as conversas, os jornais em murais so envolvidos por uma fraseologia oficial que no contm uma s palavra verdadeira. O homem do Ocidente muito dificilmente compreender o que significa a privao do direito e a impossibilidade, durante cinco ou dez anos, de se exprimir livremente, a obrigao de reprimir o menor pensamento 'ilegal' e de ficar mudo como um tmulo. Sob essa incrvel presso, toda a substncia interior de um indivduo se deforma e desagrega. 
	
	   A morte dos prisioneiros 41 e 42
	
	   Membro do Bureau da Internacional Operria Socialista, Victor Alter (nascido em 1890) era funcionrio municipal em Varsvia; ocupava a presidncia da Federao dos Sindicatos Judaicos. Henryk Erlich foi membro de Conselho Comunal de Varsvia e redator do jornal dirio idiche Folkstaytung. Ambos pertenciam ao Bund, o Partido Socialista Judeu da Polnia. Em 1939, eles se refugiaram na zona sovitica. Alter foi preso em 20 de setembro, em Kowel, e Erlich em 4 de outubro, em Brest-Litovsk. Transferido para a Lubianka, Alter foi condenado  morte em 20 de julho de 1941, por atividades anti-soviticas (ele era acusado de ter liderado uma ao ilegal do Bund na URSS, em ligao com a polcia polonesa). Essa condenao, pronunciada pelo Colgio Militar do Supremo Tribunal da URSS, foi comutada em dez anos de internamento num campo de concentrao. No dia 2 de agosto, Erlich foi tambm condenado  morte pelo Tribunal Militar das Forcas Armadas do NKVD de Saratov; no dia 27, a sua pena foi igualmente comutada em dez anos de priso num campo. Libertados em setembro de 1941, na sequncia dos acordos Sikorski-Maiski, Alter e Erlich foram convocados por Beria, que lhes props a organizao de um Comit Judeu contra os nazistas, o que eles aceitaram. Retirados em Kuibychev, eles foram mais uma vez presos, em 4 de dezembro, e acusados de terem mantido relaes com os nazistas! Beria ordenou que fossem postos em total segredo: a partir desse momento, eles passaram a ser os prisioneiros n 41 (Alter) e n 42 (Erlich), dos quais ningum devia conhecer os verdadeiros nomes. Em 23 de dezembro de 1941, considerados cidados soviticos, foram novamente condenados  morte (artigo 58, pargrafo l?), por traio. Nas semanas que se seguiram, eles enviaram, em vo, diversas peties s autoridades; provavelmente ignorando a condenao que lhes fora aplicada. Em 15 de maio de 1942, Henryk Erlich enforcou-se na sua cela. At a abertura dos arquivos, acreditou-se que tinha sido executado.
	Victor Alter ameaou suicidar-se. Beria ordenou ento que a vigilncia fosse redobrada. Victor Alter foi executado no dia 17 de fevereiro de 1943. A sentena de 23 de dezembro de 1941 foi pessoalmente aprovada por Stalin. Muito significativamente, a sua execuo aconteceu pouco depois da vitria de Stalingrado. A esse assassinato, as autoridades soviticas ainda acrescentaram a calnia: Alter e Erlich teriam feito propaganda a favor da assinatura de um tratado de paz com a Alemanha nazista.
	Lukasz Hirszowicz, NKVD Documents shed new light on fate of Erlich and Alter, EastEuropeanJewishAffairs, n 2, inverno de 1992.
	No inverno de 1945-1946, o Dr. Jacques Pat, secretrio do Comit Operrio Judeu dos Estados Unidos, foi  Polnia com a misso de concluir um inqurito sobre os crimes nazistas. Aps o seu regresso, publicou oojewish Daily Forwanuma srie de artigos acerca dos judeus refugiados na URSS. Segundo ele, 400.000 judeus poloneses teriam morrido deportados, nos campos ou em 	colnias de trabalhos forcados. No fim da guerra, 150.000 escolheram reaver a nacionalidade polonesa, para fugirem da URSS. Os 150 mil judeus que atravessaram hoje a fronteira sovieto-polonesa j no discutem sobre a Unio Sovitica, sobre a ptria socialista, nem sobre a ditadura e a democracia. Para eles, essas discusses terminaram, e a sua ltima palavra foi a fuga da Unio Sovitica, escreveu Jacques Pat, aps ter interrogado centenas deles.

	O regresso forado  URSS dos prisioneiros soviticos

	Se manter relaes com estrangeiros, ou ter chegado  URSS vindo do exterior, tornava qualquer pessoa suspeita aos olhos do regime, ser prisioneiro durante quatro anos fora do territrio nacional fazia de um militar russo detido pelos alemes um traidor merecedor de castigo; o Decreto n. 270, de 1942, que alterava o Cdigo Penal, pargrafo 193, declarava que um prisioneiro capturado pelo inimigo era ipso facto um traidor. Pouco importavam as condies em que a captura se dera e o modo como o cativeiro havia decorrido: no caso dos russos, eles foram certamente terrveis - os eslavos, tambm considerados como subumanos, estavam destinados a desaparecer, segundo a Wekanschaungnazista -, uma vez que, de 5,7 milhes de prisioneiros de guerra, 3,3 milhes morreram vtimas da fome e dos maus-tratos.
	Foi por isso que Stalin, respondendo com muita rapidez s solicitaes dos Aliados, constrangidos pela presena de soldados russos no corpo da Wehrmacht, decidiu pedir o repatriamento de todos os russos que se encontrassem na zona ocidental. No houve qualquer problema na satisfao desse pedido. Desde o fim de outubro de 1944 at janeiro de 1945, mais de 332.000 prisioneiros (dos quais 1.179 de So Francisco) foram repatriados, contra a sua vontade, para a Unio Sovitica. Os diplomatas britnicos e americanos no s no tinham quaisquer problemas de conscincia relativamente a essa atitude, como falavam a respeito dela com uma certa dose de cinismo, pois no ignoravam, como Mr. Antony den, que seria preciso o uso da fora para resolver a questo.
	Por ocasio das negociaes de Yalta (5 a 12 de fevereiro de 1945), os trs protagonistas (soviticos, ingleses e americanos) concluram acordos secretos que incluam tanto os soldados como os civis deslocados. Churchill e den aceitaram que Stalin decidisse a sorte dos prisioneiros que haviam combatido nas fileiras do Exrcito Russo de Libertao (ROA), comandados pelo general Vlassov, como se esses homens pudessem se beneficiar de um julgamento minimamente justo.
	Stalin sabia perfeitamente que muitos desses soldados soviticos haviam sido aprisionados em virtude, antes de mais nada, da desorganizao do Exrcito Vermelho, pela qual ele era o principal responsvel, alm da incapacidade dos seus generais e dele prprio. Ele tambm estava certo de que muitos desses soldados no tinham o mnimo desejo de lutar por um regime odiado e que, para usar uma expresso de Lenin, eles haviam votado com os ps. 
	   Assinados os acordos de Yalta, no foi preciso uma semana para que vrios comboios partissem em direo  URSS. Em dois meses, de maio a julho de 1945, foram repatriados mais de 1.300.000 indivduos que se encontravam nas zonas ocidentais de ocupao e que Moscou considerava soviticos (estavam includos os blticos, anexados em 1940, e os ucranianos). No final de agosto, mais de dois milhes desses russos haviam sido devolvidos. Por vezes em condies atrozes: os suicdios individuais ou coletivos (famlias inteiras) e as mutilaes tornaram-se frequentes; no momento de serem entregues s autoridades soviticas, os prisioneiros tentaram inutilmente opor uma resistncia passiva, e os anglo-americanos no hesitaram em recorrer  fora para satisfazer as exigncias soviticas. Logo durante a chegada, os repatriados ficavam sob o controle da polcia poltica. No prprio dia em que o Almanzara chegou a Odessa, em 18 de abril, houve vrias execues sumrias. O mesmo aconteceu quando o EmpirePrite apottou no Mar Negro.
	Os ocidentais tinham receio de que a Unio Sovitica retivesse os prisioneiros ingleses, americanos ou franceses como refns e que fizesse chantagem atravs dessa moeda de troca - atitude que demonstrava muito bem o seu estado de esprito relativamente s exigncias dos soviticos, que desse modo impuseram o repatriamento de todos os indivduos de origem russa, incluindo os que tinham emigrado depois da revoluo de 1917. Essa poltica perfeitamente consciente dos ocidentais no teve sequer como consequncia a facilitao do regresso dos seus prprios cidados. Pelo contrrio, permitiu  URSS enviar um sem-nmero de funcionrios em busca de recalcitrantes e agir  margem das leis das naes aliadas.
	Quanto aos franceses, o Bulletin do governo militar da Alemanha afirmava que, no dia l? de outubro de 1945, 101.000 pessoas deslocadas haviam sido reenviadas para o setor sovitico. Na prpria Frana, as autoridades aceitaram a criao de 70 campos de reunio que muitas vezes se beneficiavam de uma estranha extraterritorialidade, como o de Beauregard, um subrbio parisiense, sobre o qual renunciaram a exercer qualquer tipo de controle, deixando que os agentes soviticos do NKVD operassem na Frana com uma impunidade lesiva  soberania nacional. O planejamento dessas operaes fora cuidadosamente amadurecido pelos soviticos, uma vez que elas foram iniciadas a partir de setembro de 1944, com a ajuda da propaganda comunista. O campo de Beauregard s viria a ser fechado em novembro de 1947 pela Direo de Segurana do Territrio, como consequncia do rapto de crianas disputadas entre pais divorciados. Roger Wybot, que dirigiu a operao, observou: Na realidade, com os elementos que pude obter, esse campo de trnsito mais parecia um campo de sequestro. Os protestos contra essa poltica foram tardios e suficientemente raros para que tivesse algum destaque o que apareceu publicado, no vero de 1947, na revista socialista mossk. Que o Gengis Khan no poder feche hermeticamente as fronteiras para reter os seus escravos, podemos perceber sem dificuldade. Mas que tenha o direito de extradit-los de territrios estrangeiros, isso ultrapassa at a nossa moral depravada do ps-guerra. [...] Em nome de que direito moral ou poltico se pode obrigar algum a viver num pas onde lhe ser imposta a escravido corporal e moral? Que retribuio o mundo espera de Stalin para ficar mudo diante dos gritos dos cidados russos que preferem matar-se a regressar ao seu pas?
	Os redatores dessa revista denunciavam expulses recentes: Encorajados pela indiferena criminosa das massas em face da violao do direito mnimo de asilo, as autoridades militares inglesas na Itlia acabam de cometer um ato inqualificvel: em 8 de maio, retiraram 175 russos do campo n 7 de Ruccione, para que fossem supostamente enviados para a Esccia, alm de dez pessoas no campo n. 6 (esse campo continha famlias inteiras). Quando essas 185 pessoas j estavam longe dos campos, retiraram-lhes todos os objetos que pudessem ajud-los a cometer suicdio e foi-lhes dito que, na realidade, no iriam para a Esccia, mas para a Rssia. Mesmo assim, alguns conseguiram suicidar-se. No mesmo dia, retiraram 80 pessoas (todas caucasianas) do campo de Pisa. Todos esses infelizes foram enviados para a zona russa, na ustria, em vages guardados por tropas inglesas. Alguns tentaram a fuga e foram abatidos pelos guardas... 
	Os prisioneiros repatriados foram internados em campos especiais, chamados de filtragem e controle (criados em finais de 1941), que em nada se distinguiam dos campos de trabalho, tendo sido mesmo integrados ao Gulag em janeiro de 1946. Em 1945, 214.000 prisioneiros j haviam passado por esses campos. Tais prisioneiros entravam para um Gulag em pleno apogeu: geralmente, eram condenados a seis anos de campo, nos termos do artigo 58-1-b. Entre eles, contavam-se antigos membros do ROA (Exrcito Russo de Libertao), que tinham participado na libertao de Praga combatendo os SS.

	Os inimigos prisioneiros

	A URSS no ratificara as Convenes Internacionais sobre os prisioneiros de guerra (Genebra, 1929). Em teoria, os prisioneiros estavam protegidos pela conveno, mesmo no caso de o seu pas no a ter assinado. Na URSS, essa disposio no tinha qualquer valor. Vitoriosa, ela conservava de trs a quatro milhes de prisioneiros alemes. Entre eles, contavam-se soldados libertados pelas potncias ocidentais que, uma vez regressados  zona sovitica, haviam sido deportados para a URSS.
	   Em maro de 1947, Viatcheslav Molotov declarou que um milho de alemes (exatamente 1.003.974) haviam sido repatriados, restando ainda 890.532 nos campos do seu pas. Esses nmeros foram contestados. Em maro de 1950, a URSS declarou que o repatriamento dos prisioneiros estava concludo. No entanto, as organizaes humanitrias advertiram que pelo menos 300.000 prisioneiros tinham ficado retidos na URSS, bem como 100.000 civis. Em 8 de maio de 1950, o governo de Luxemburgo protestou contra o encerramento das operaes de repatriamento, uma vez que 2.000 cidados seus continuavam retidos na Rssia. A reteno de informaes sobre essa questo estaria destinada a esconder a triste verdade sobre a sorte desses prisioneiros? Podemos admiti-lo, considerando a mortalidade existente nos campos.
	Uma estimativa feita por uma comisso especial (a Comisso Maschke) revelou que um milho de soldados alemes presos na URSS morreram nos campos. Assim, dos 100.000 prisioneiros feitos pelo Exrcito Vermelho em Stalin-grado, s sobreviveram cerca de 6.000.
	Do lado alemo, em fevereiro de 1947 estavam vivos cerca de 60.000 soldados italianos (o nmero de 80.000 prisioneiros  frequentemente referido). O governo italiano informou que apenas 12.513 desses prisioneiros haviam regressado  Itlia at aquela data.  preciso igualmente assinalar que os prisioneiros romenos e hngaros que tinham combatido na frente russa conheceram situaes anlogas. Em maro de 1954, foram libertados cem voluntrios da diviso espanhola Azul. Essa viso geral no ficaria completa se no citssemos os 900.000 soldados japoneses aprisionados na Manchria, em 1945.

	Os Malgr-Nous

	Um ditado que circulava nos campos  bastante demonstrativo da diversidade de origens da populao dos campos de concentrao: Se um pas no est representado no Gulag,  porque ele no existe. A Frana tambm teve os seus prisioneiros no Gulag, prisioneiros que a diplomacia no fez grandes esforos para proteger e recuperar.
	Os trs departamentos de Mosela, Baixo e Alto Reno foram tratados de uma maneira especial pelos nazistas triunfantes: a Alscia-Lorena foi anexada, ger-manizada e, inclusive, nazificada. Em 1942, os nazistas decidiram incorporar ao exrcito alemo, contra a sua vontade, as classes militares de 1920 a 1924. Muitos dos jovens moselenses e alsacianos, que no tinham o menor desejo de servir sob o uniforme alemo, tentaram escapar desse privilgio. At o final da guerra, foram feitas 21 mobilizaes na Alscia e 14 em Mosela, num total de 130.000 jovens.
	   Enviados, em sua grande maioria, para o fronte russo, 22.000 Malgr-Nous pereceram em combate. Os soviticos, informados pela Frana Livre dessa situao peculiar, lanaram convocaes  desero, prometendo-lhes que regressariam ao lado da Frana combatente. Na realidade, e quaisquer que tenham sido as circunstncias, 23.000 alsacianos-lorenos foram feitos prisioneiros; foi esse o numero de dossis que as autoridades russas entregaram s autoridades francesas em 1995. Grande parte deles foi reunida no campo 188 de Tambov, sob a guarda do MVD (ex-NKVD), em condies terrveis de sobrevivncia: subalimentaco (600 gramas de po escuro por dia), trabalho forado nas florestas, alojamentos primitivos (cabanas de madeira meio enterradas), ausncia total de cuidados mdicos. Os que escaparam desses campos da morte lenta calculam que 14.000 dos seus companheiros de cativeiro morreram por l entre 1944 e 1945. Pierre Rigoulot (La Tragdie ds Malgr-Nous. Tambov: le Camp ds Franais, Denol, 1990) avana o nmero de 10.000 desaparecidos como numero base. No fim de longas negociaes, l.500 prisioneiros foram libertados e repatriados para Argel, no vero de 1944. Se Tambov foi o campo onde esteve internado um maior nmero de jovens da Alscia-Lorena, existiam ainda outros campos onde estes ltimos estiveram retidos em cativeiro, desenhando assim uma espcie de subarquiplago especial para esses franceses que no puderam combater pela libertao do seu pas.

	Guerra civil e guerra de libertao nacional

	Enquanto a assinatura dos pactos germano-soviticos, datada de setembro de 1939, provocara o desabamento da maioria dos partidos comunistas - cujos simpatizantes no aceitavam, da parte de Stalin, o abandono da poltica antifascista -, o ataque alemo contra a URSS, em 22 de junho de 1941, rea-tivou imediatamente o reflexo antifascista. A partir de 23 de junho, o Komintern informou a todas as suas sees, por rdio e telegrama, que j no era a hora de revoluo socialista, mas a da luta contra o fascismo e da guerra de libertao nacional. Ao mesmo tempo, ele pedia a todos os partidos comunistas dos pases ocupados uma interveno armada imediata. A guerra deu ocasio a que os comunistas experimentassem uma nova forma de ao: a luta armada e a sabotagem da mquina de guerra hitleriana, susceptveis de se transformarem em guerrilha. Foram reforados os aparelhos paramilitares, com o objetivo de formarem o embrio de grupos armados comunistas que, em cada pas e em funo da geografia e da conjuntura, rapidamente se transformassem em significativas foras de guerrilha, em especial na Grcia e na Jugoslvia em 1942, na Albnia e no norte da Itlia a partir do final de 1943. Nos casos mais favorveis, essa ao de guerrilha proporcionou aos comunistas a oportunidade de tomarem o poder, sem recuarem, caso fosse necessrio o recurso da guerra civil.
	O exemplo mais sintomtico dessa nova orientao foi a Jugoslvia. Na primavera de 1941, Hitler foi obrigado a socorrer o seu aliado italiano, derrotado na Grcia por um pequeno mas determinado exrcito. Em abril, ele foi de novo obrigado a intervir na Jugoslvia, onde o governo germanfilo fora derrubado por um golpe de Estado pr-britnico. Nesses dois pases, os partidos comunistas existentes, apesar de fracos, eram bastante experimentados: eles haviam conhecido a clandestinidade durante os vrios anos que se seguiram a sua interdio pelos regimes ditatoriais de Stojadinovic e de Metaxs.
	Depois do armistcio, a Jugoslvia foi partilhada entre italianos, blgaros e alemes. Ao quais se juntaram o pretenso Estado independente da Crocia, em poder de extremistas de direita, os ustachis, liderados por Ante Pavelic, que instauraram um verdadeiro regime de apartheid contra os srvios - chegando a cometer massacres que atingiam tambm judeus e ciganos - e que estavam absolutamente decididos a eliminar toda a oposio, o que teve como efeito levar muitos croatas a se juntarem  Resistncia.
	Aps a capitulao do exrcito iugoslavo, em 18 de abril, os primeiros a passar  clandestinidade foram os oficiais monrquicos reunidos em torno do coronel Draza Mihailovic, pouco depois nomeado comandante-em-chefe da Resistncia iugoslava, e mais tarde ministro da Guerra, pelo governo real exilado em Londres. Mihailovic criou na Srvia um exrcito composto principalmente por srvios, os tchetniks. Foi somente depois da invaso da URSS, em 22 de junho de 1941, que os comunistas iugoslavos deram importncia  idia de que era necessrio empreender a luta de libertao nacional, libertar o pas do jugo fascista, ainda antes de iniciar a revoluo socialista. Mas, enquanto Moscou pretendia ligar-se ao governo real por tanto tempo quanto fosse possvel, para no assustar os seus aliados ingleses, Tito sentia-se suficientemente forte para fazer o seu prprio jogo, recusando sujeitar-se ao governo legal no exlio. No opondo qualquer espcie de barreira tnica ao recrutamento - ele prprio era croata -, instalou, a partir de 1942, as suas bases de guerrilha na Bsnia. Tornados rivais, esses dois movimentos, que perseguiam objetivos antagnicos, passaram ao confronto. Diante das pretenses comunistas, Mihailovic escolheu no hostilizar os alemes, chegando a aliar-se aos italianos. A situao tornou-se um verdadeiro imbrglio, misturando guerra de libertao e guerra civil, oposies polticas e dios tnicos, exacerbados pela ocupao. Massacres foram cometidos por ambas as partes envolvidas, procurando cada uma exterminar o seu adversrio direto e impor o seu domnio s respectivas populaes.
	Os historiadores avanam um nmero total de mais de um milho de mortos - para uma populao de mais de 16 milhes de habitantes. Execues, fuzilamento de prisioneiros, extermnio de feridos e todo tipo de represlias se encadearam sem trgua, cometidas ainda mais facilmente quando nos lembramos de que a cultura balcnica sempre se alimentou das rivalidades entre cls. Existe, no entanto, uma diferena entre as matanas perpetradas pelo lado tchetnik e as infringidas pelos comunistas: os tchetniks, que aceitavam muito mal a autoridade de uma organizao centralizada - muitos grupos escapavam ao controle de Mihailovic -, massacravam as populaes muito mais com base em critrios tnicos do que polticos. J os comunistas, por sua vez, obedeciam a motivos claramente militares e polticos; Milovan Djilas, um dos adjuntos de Tito, testemunhou mais tarde: Estvamos furiosos com os pretextos alegados pelos camponeses para se aliarem aos tchetniks: eles diziam que tinham medo de que as suas casas fossem incendiadas e de sofrer outras represlias. Essa questo foi levantada numa reunio com Tito, e foi ponderado o seguinte argumento: se ns fizermos com que os camponeses percebam que, ao se aliarem ao invasor [note-se a insidiosa assimilao entre 'tchetniks' - resistentes iugoslavos monrquicos - e 'o invasor'], ns  que queimaremos as suas casas, eles logo mudaro de ideia. [...] Finalmente, Tito tomou uma deciso, apesar da sua hesitao: 'Bom, tudo bem, podemos incendiar uma casa ou um povoado de tempos em tempos'. Mais tarde, Tito promulgou algumas ordens nesse sentido - ordens bem menos indecisas, apenas pelo fato de serem explcitas. 
	Com a capitulao italiana, em setembro de 1943, e a deciso de Chur-chill de oferecer a ajuda dos aliados a Tito, preterindo Mihailovic, e depois com a fundao, por Tito, do Conselho Antifascista de Libertao Nacional da Jugoslvia (AVNOJ), em dezembro de 1943, os comunistas adquiriram uma evidente vantagem poltica sobre os seus adversrios. Entre o final de 1944 e o incio de 1945, os guerrilheiros comunistas preparavam-se para dominar toda a Jugoslvia. Com a aproximao da capitulao alem, Pavelic e seu exrcito, os seus funcionrios e as respectivas famlias - num total de vrias dezenas de milhares de pessoas - partiram em direo  fronteira austraca. Os guardas brancos eslovenos e os tchetniks montenegrinos se juntaram a eles em Bleiburg, onde todos se renderam s tropas inglesas, que os entregaram a Tito.
	Soldados e todo o tipo de policiais se viram obrigados a fazer autnticas marchas da morte, percorrendo centenas de quilmetros atravs da Jugoslvia. Os prisioneiros eslovenos foram levados para a Eslovnia, nos arredores de Kocevje, onde foram abatidas entre 20 e 30 mil pessoas. Vencidos, os tchet-niks no escaparam  vingana dos guerrilheiros comunistas, que no fizeram prisioneiros. Milovan Djilas evoca o fim dos combatentes srvios, sem no entanto ousar revelar os detalhes verdadeiramente macabros dessa ltima campanha: As tropas de Draza [Mihailovic] foram aniquiladas quase que simultaneamente s da Eslovnia. Os pequenos grupos de tchetniks que rugiram para Montenegro aps o seu esmagamento relataram a ocorrncia de novos horrores. Ningum jamais gostou de falar dessas coisas - nem sequer aqueles que bradavam bem alto o seu esprito revolucionrio -, como se fosse um terrvel pesadelo.  Capturado, Draza Mihailovic foi julgado, condenado  morte e fuzilado no dia 17 de julho de 1946. Durante o seu processo, os testemunhos oferecidos em seu favor por parte dos oficiais das misses aliadas que tinham sido colocados junto do seu estado-maior e combatido os alemes a seu lado foram, evidentemente, recusados. Logo aps o final da guerra, Stalin confiara a Milovan Djilas a essncia da sua filosofia: Todo aquele que ocupe um territrio deve impor o seu prprio sistema social.
	Com a guerra, os comunistas gregos encontraram-se numa situao muito semelhante  dos seus camaradas iugoslavos. Em 2 de novembro de 1940, alguns dias depois da invaso da Grcia pela Itlia, Nikos Zachariadis, secretrio do Partido Comunista Grego (KKE), aprisionado desde setembro de 1936, lanou um apelo  resistncia: A nao grega est hoje empenhada numa guerra de libertao nacional contra o fascismo de Mussolini. [... ] Todos ao combate, todos aos seus postos!? No entanto, em 7 de dezembro, um manifesto do Comit Central, clandestino, punha em causa essa orientao, e o KKE regressava  linha oficial do Komintern, a do derrotismo revolucionrio. Em 22 de junho de 1941, acontece uma espetacular reviravolta: o KKE ordena a todos os seus militantes que organizem a luta em defesa da Unio Sovitica e a livre em do jugo fascista estrangeiro.
	A experincia da clandestinidade era para os comunistas um trunfo importante. Em 16 de julho de 1941, do mesmo modo que todos os outros partidos comunistas, foi criada a Frente Nacional Operria de Libertao (Ergatiko Ethniko Aplevthriko Mtopo, EEAM), que reunia trs organizaes sindicais. Em 27 de setembro, foi a vez de aparecer a EAM (Ethniko Aplevthrko Mtopo). Essa Frente de Libertao Nacional foi o brao poltico dos comunistas. Em 10 de fevereiro de 1942, nascia o ELAS (Ellinikos Lakos Aplevthrotikos Stratos), o Exrcito Popular de Libertao Nacional, cujos primeiros grupos de guerrilha foram organizados em maio, por iniciativa de Aris Velouchiotis (Thanassis Klaras), um experiente militante que havia assinado uma declarao de arrependimento para obter a sua libertao.  partir da, os efetivos do ELAS no cessaram de crescer.
	O ELAS no era a nica organizao militar de resistncia. A EDES (Ethnikos Dmokratikos Ellinikos Syndesmos), Unio Nacional Grega Democrtica, fora fundada em setembro de 1941 por militares e civis republicanos; um coronel na reserva, Napoleon Zervas, comandava um outro grupo de guerrilheiros. A terceira organizao era a do coronel Psarros, nascida em outubro de 1942, denominada EKKA (Ethniki Kai Koiniki Aplevthrosis), Movimento de Libertao Nacional e Social. Cada uma das organizaes tentava aliciar os militantes e os combatentes das outras.
	No entanto, os xitos e a fora do ELAS levaram os comunistas a considerarem friamente a possibilidade de imporem a sua hegemonia ao conjunto da resistncia armada. Os grupos da EDES foram vrias vezes atacados, assim como os do EKKA, obrigados a dispersarem as suas foras antes de se reorganizarem. No fim de 1942, na Tesslia Ocidental, junto aos montes do Pindo, o major Kostopoulos (desertor da EAM) e o coronel Safaris organizaram uma unidade resistente, no corao de uma zona pertencente  EAM; o ELAS cercou-a e massacrou todos os combatentes que no conseguiram escapar ou que recusaram integrar-se nas suas fileiras. Capturado, Safaris acabou aceitando tornar-se chefe do estado-maior do ELAS.
	A presena de oficiais britnicos, com ordens para auxiliar a Resistncia grega, inquietava os chefes do ELAS; os comunistas receavam que os ingleses tentassem impor a restaurao da monarquia. Mas havia uma diferena de atitude entre o ramo militar, dirigido por Velouchiotis, e o prprio KKE, liderado por Giorgos Siantos, que pretendia seguir a linha escolhida por Moscou - uma poltica de coalizo antifascista. A ao dos ingleses teve um efeito momentaneamente positivo, uma vez que a sua misso militar conseguiu, em julho de 1943, a assinatura de uma espcie de pacto entre as trs principais formaes: o ELAS, nesse momento j bem-estruturado e forte, com cerca de 18 mil homens, a EDES, com cinco mil, e o EKKA, com cerca de mil homens.
	A capitulao italiana, em 8 de setembro, modificou imediatamente a situao. Foi o incio de uma guerra fratricida, ao mesmo tempo em que a Alemanha lanava uma violenta ofensiva contra a EDES, obrigando-a a recuar e a encontrar-se frente a frente com importantes batalhes do ELAS, que manobraram para aniquil-la. A deciso de se verem livres da EDES foi tomada pela direo do KKE, que pretendia assim explorar a nova configurao em jogo, reforando o colapso da poltica inglesa. Ao fim de quatro dias de combates, os guerrilheiros comandados por Zervas conseguiram escapar ao cerco.
	Esta guerra civil dentro de uma guerra de libertao nacional dava aos alemes grandes possibilidades de manobra, e as suas tropas atacavam alterna-damente ambas as organizaes de resistncia. Os aliados tomaram ento a iniciativa de pr um fim na guerra civil: os combates entre o ELAS e a EDES cessaram em fevereiro de 1944, tendo sido assinado um acordo, em Plaka. Mas foi efmero: algumas semanas mais tarde, o ELAS atacou a EKKA do coronel Psarros, que foi vencido e aprisionado ao final de cinco dias de combates. Psarros e os seus oficiais foram chacinados; ele prprio foi decapitado.
	A ao dos comunistas resultou na desmoralizao da resistncia e no descrdito da EAM; em certas regies, o dio contra ela era to profundo que alguns guerrilheiros alistaram-se nos Batalhes de Segurana organizados pelos alemes. Essa guerra civil s terminou quando o ELAS aceitou colaborar com o governo grego exilado no Cairo. Em setembro de 1944, seis representantes do EAM-ELAS tornaram-se membros do governo de unidade nacional presidido por Georges Papandreou. Em 2 de setembro, quando os alemes comeavam a sair da Grcia, o ELAS enviou as suas tropas para a conquista do Peloponeso, que escapava ao seu controle devido  presena dos Batalhes de Segurana. As cidades e os povoados conquistados foram punidos. Em Meligala, 1.400 homens, mulheres e crianas, assim como 50 oficiais e sargentos dos Batalhes de Segurana, foram massacrados.
	Parecia agora no haver obstculos  hegemonia do EAM-ELAS. No entanto, libertada em 12 de outubro, Atenas conseguiu escapar graas ao desembarque das tropas britnicas no Pireu. Foi ento que a direo do KKE hesitou em lanar-se numa prova de fora. Seria sua inteno entrar no jogo de foras do governo de coalizo? Nada era menos certo. Ao mesmo tempo em que a direo comunista se recusava a desmobilizar o ELAS, conforme lhe fora pedido pelo governo, lannis Zegvos, ministro comunista da Agricultura, exigia a dissoluo das unidades sob controle governamental. No dia 4 de dezembro, patrulhas do ELAS entraram em Atenas, enfrentando as forcas do governo. No dia seguinte, quase toda a capital j havia cado nas mos do ELAS, que nela concentrara 20 mil homens; mas os britnicos resistiram, contando com a chegada de reforos. Em 18 de dezembro, o ELAS atacou tambm a EDES no Epiro. Paralelamente aos combates, os comunistas desencadearam uma sangrenta depurao antimonrquica.
	Contudo, a sua ofensiva foi um fracasso; durante uma conferncia realizada em Varkiza, resignaram-se a assinar um acordo sobre o desarmamento do ELAS. Na verdade, muitas armas e munies foram cuidadosamente escondidas. Aris Velouchiotis, um dos principais chefes, recusou os acordos de Varkiza e, com uma centena de homens, passou  clandestinidade e entrou na Albnia, na esperana de poder retornar  luta armada. Interrogado sobre as razes da derrota do EAM-ELAS, Velouchiotis respondeu francamente: Foi porque no matamos o bastante. Os ingleses estavam interessados naquela encruzilhada a que chamam Grcia; se no tivssemos deixado vivos nenhum dos seus amigos, eles no teriam conseguido desembarcar em parte alguma. Mas eu era chamado de assassino: vejam ao que isso nos levou. E acrescentou: As revolues triunfam quando os rios ficam vermelhos de sangue, e vale a pena verter esse sangue se a recompensa for o aperfeioamento da sociedade humana. O fundador do ELAS, Aris Velouchiotis, encontrou a morte em junho de 1945, combatendo na Tesslia, alguns dias aps a sua expulso do KKE. A derrota do EAM-ELAS libertou, por reao, todo o dio acumulado contra os comunistas e os seus aliados. Grupos paramilitares assassinaram um grande nmero de militantes; muitos outros foram detidos; em geral, os dirigentes eram deportados para as ilhas.
	Nikos Zachariadis, primeiro-secretrio do KKE, regressara em maio de Dachau, na Alemanha, para onde fora deportado. Suas primeiras declaraes anunciavam claramente a poltica do KKE: Ou regressamos a um regime semelhante, porm mais severo do que o da ditadura monarco-fascista, ou a luta da EAM pela libertao nacional ter o seu coroamento com o estabelecimento de uma democracia popular na Grcia. No havia para a exangue Grcia a menor hiptese de conhecer a paz civil. Em outubro, o VII Congresso do Partido ratificava o objetivo definido por Zachariadis. O primeiro passo seria conseguir a partida das tropas britnicas. Em janeiro de 1946, a URSS mostrou o seu interesse pela Grcia interpelando o Conselho de Segurana da ONU sobre o perigo que constitua a presena inglesa nesse pas. Em 12 de fevereiro, quando as prximas eleies j no deixavam dvidas sobre a sua derrota - ele preconizava, alis, a absteno -, o KKE decidiu organizar uma insurreio, com a ajuda dos comunistas iugoslavos.
	Em dezembro, ocorrera um encontro entre membros do Comit Central do KKE e oficiais iugoslavos e blgaros. Os comunistas gregos receberam a garantia de que poderiam utilizar a Albnia, a Jugoslvia e a Bulgria como bases de retaguarda. Durante trs anos, os seus combatentes puderam refugiar-se l, os seus feridos foram l tratados e o equipamento militar armazenado. Todos esses preparativos se fizeram, alguns meses aps a criao do Kominform, e parecia que a rebelio dos comunistas gregos se inscrevia perfeitamente na nova poltica do Kremlin. Em 30 de maro de 1946, o KKE assumiu a responsabilidade de desencadear uma terceira guerra civil. Os primeiros ataques do Exrcito Democrtico (AD), criado no dia 28 de outubro de 1946 e comandado pelo general Markos Vafadis, foram conduzidos segundo o mesmo modelo; em geral eles atacavam os postos da polcia, exterminavam os seus ocupantes e executavam os notveis. Durante todo o ano de 1946,	o KKE continuou simultaneamente a agir s claras.
	Nos primeiros meses de 1947, o general Markos intensificou a sua ao: dezenas de povoados foram atacados e centenas de camponeses executados. O recrutamento forcado engrossava os efetivos do AD. Quando um povoado no oferecia resistncia, ele se livrava das represlias. Um povoado da Macednia pagou caro pela resistncia: 48 casas foram incendiadas e 12 homens, seis mulheres e dois bebs foram executados. A partir de maro de 1947, foram sistematicamente assassinados todos os presidentes de cmara e tambm todos os padres. Em maro, j existiam 400 mil refugiados. A poltica de terror provocou uma de contraterror: militantes comunistas ou de esquerda foram mortos por grupos de extrema direita.
	Em junho de 1947, depois de uma passagem por Belgrado, Praga e Moscou, Zachariadis anunciou como prxima a constituio de um governo livre. Os comunistas gregos pareciam acreditar que poderiam seguir o mesmo caminho que Tito trilhara quatro anos antes. Esse governo foi oficialmente constitudo em dezembro. Os iugoslavos chegaram ao ponto de oferecer voluntrios - cerca de dez mil! - sados do seu exrcito. Qs numerosos relatrios do inqurito da Comisso Especial das Naes Unidas para os Blcs sublinharam a importncia dessa ajuda ao Exrcito Democrtico. A ruptura entre Tito e Stalin, ocorrida na primavera de 1948, teve consequncias diretas para os comunistas gregos. Embora a ajuda tenha continuado a chegar at o outono, Tito iniciou uma retirada que culminaria no fechamento da fronteira. No vero, enquanto as foras governamentais conduziam uma grande ofensiva, o chefe dos comunistas albaneses, Enver Hoxha, foi obrigado a fechar a sua. Os comunistas gregos estavam cada vez mais isolados, e as divergncias internas se agravaram. Mesmo assim, os combates prosseguiram at agosto de 1949. Muitos combatentes retrocederam para a Bulgria antes de se refugiarem em toda a Europa Oriental, particularmente na Romnia e na URSS. Tachkent, a capital do Uzbequisto, viu chegar milhares de refugiados, entre os quais 7.500 comunistas. Depois da sua derrota, o KKE, no exlio, sofreu uma srie de depuraes, a tal ponto que, em setembro de 1955, o conflito entre os partidrios e os adversrios de Zachariadis degenerou em confronto violento; foi necessria a interveno do Exrcito Sovitico para restabelecer a ordem; centenas de pessoas ficaram feridas. 

	As crianas gregas e o Minotauro sovitico

	Durante a guerra civil de 1946-1948, os comunistas gregos efetuaram, nas zonas que controlavam, um recenseamento de todas as crianas, de ambos os sexos, dos trs aos 14 anos. Em maro de 1948, essas crianas foram reunidas nas regies fronteirias e levadas aos milhares para a Albnia, para a Jugoslvia e para a Bulgria. Os camponeses tentaram salvar os filhos, escondendo-os nas florestas. Com muita dificuldade, a Cruz Vermelha arrolou 28.296 crianas sequestradas. No vero de 1948, consumada a ruptura entre Tito e o Komintern, uma parte das crianas (11.600) retidas na Jugoslvia foi, apesar dos protestos do governo grego, transferidas para a Tchecoslovquia, para a Hungria, para a Romnia e para a Polnia. No dia 17 de novembro de 1948, a Terceira Assembleia da ONU tomou a resoluo de condenar o rapto das crianas gregas. Em novembro de 1949, a Assemblia-Geral da ONU reclamou o regresso dessas crianas. Todas as decises seguintes tomadas pela ONU ficaram, como as anteriores, sem resposta: os regimes comunistas vizinhos se obstinavam em fazer crer que essas crianas tinham melhores condies de vida entre eles do que na prpria Grcia; chegaram mesmo a querer dar a entender que a deportao tinha sido um gesto humanitrio.
	Entretanto, o exlio forado dessas crianas continuou, em tais condies de misria, de subalimentao e de epidemias, que muitas morreram. Reunidas em povoados para crianas, elas eram obrigadas a participar de cursos de politizao, alm da escolaridade normal. A partir dos 13 anos, tinham de executar trabalhos pesados, como, por exemplo, o desbravamento das regies pantanosas de Hartchag, na Hungria. O que estava por trs dessa jogada comunista era a formao de uma nova gerao de militantes totalmente devotados. O fracasso foi patente: em 1956, um grego chamado Constanrinides iria morrer ao lado dos hngaros, combatendo os russos. Outros conseguiram fugir para a Alemanha Oriental.
	Entre 1950 e 1952, apenas 684 crianas regressaram  Grcia. Em 1963, cerca de quatro mil crianas (algumas nascidas em pases comunistas) tinham sido repatriadas. Na Polnia, no comeo dos anos 80, a comunidade grega era composta por milhares de pessoas. Algumas aderiram ao Sindicato Solidarnosc e foram detidas aps o golpe de Estado do general Jaruzelski. Posteriormente a 1989, com a democratizao em curso, vrios milhares desses gregos da Polnia regressaram  Grcia. (A Questo Grega perante as Naes Unidas, relatrio da Comisso Especial para os Blcs, 1950.)

	A acolhida dos vencidos da guerra civil grega pela URSS foi bastante paradoxal, pois, nesse momento, StaJin j havia destrudo quase totalmente a velha comunidade grega que vivia na Rssia havia sculos e que, em 1917, se estimava entre 500.000 e 700.000 pessoas, essencialmente no Cucaso e nas costas do Mar Negro. Em 1939, eles no ultrapassavam as 410.000 pessoas, e eram apenas 177.000 em 1960. A partir de dezembro de 1937, 285.000 gregos residentes nas grandes cidades foram deportados para as regies de Arkhangelsk, na Repblica dos Komis, e para o Nordeste da Sibria. Outros conseguiram regressar  Grcia. A. Haitas, antigo secretrio do Partido Comunista Grego (KKE), e o pedagogo J. Jordinis foram liquidados na URSS, na mesma poca. Em 1944, dez mil gregos da Crimia - remanescentes da florescente comunidade de outros tempos - foram acusados de adota-rem uma atitude pr-germnica durante a guerra e foram deportados para a Quirguzia e para o Uzbequisto. Em 30 de junho de 1949, numa nica noite, 30 mil gregos da Gergia foram deportados para o Gazaquisto. Em abril de 1950, todos os gregos de Batum tiveram o mesmo destino.
	Nos outros pases da Europa Ocidental, a tentao dos comunistas de tomarem sozinhos o poder, aproveitando a resistncia e a libertao, foi rapidamente abafada pela presena dos exrcitos anglo-americanos e, a partir do final de 1944, pelas diretivas de Stalin, que ordenou aos comunistas que escondessem as suas armas e esperassem uma melhor ocasio para tomar o poder.  o que ressalta com toda a clareza da reunio mantida no Kremlin, em 19 de novembro de 1944, entre Stalin e Maurice Thorez, o primeiro-secretrio do Partido Comunista Francs, que, depois de ter passado a guerra na URSS, iria voltar  Frana.
	Depois da guerra e pelo menos at a morte de Stalin, em 1953, a violncia e o terror instaurados no interior do Komintern antes da guerra persistiram no movimento comunista internacional. Na Europa Oriental, a represso dos dissidentes, reais ou imaginrios, foi intensa, especialmente no decurso dos impressionantes julgamentos fabricados (ver o captulo de Karel Bartosek). O auge desse terror ocorreu durante a crise entre Ti to e Stalin, em 1948. Recusando-se a se submeter e pondo em xeque o poder absoluto de Stalin, Tito foi apontado como o novo Trotski. Stalin tentou mandar assassin-lo, mas Tito desconfiava e se beneficiava da proteo do seu prprio aparelho de Estado. Sem ter como liquidar Tito, os partidos comunistas do mundo inteiro entregaram-se a uma orgia de assassinatos polticos simblicos, excluindo das suas fileiras os  15135, que serviram de bode expiatrio. Uma das primeiras vtimas foi o primeiro-secretrio do Partido Comunista Noruegus, Peder Furubotn, um velho membro do Komintern que, depois de ter permanecido durante muito tempo em Moscou, conseguira salvar sua pele regressando  Noruega em 1938. Durante uma reunio do Partido, realizada em 20 de outubro de 1949, um partidrio sovitico, chamado Strand Johansen, acusou Furubotn de titismo. Com a certeza de se fazer ouvir pelo Partido, Furubotn reuniu o Comit Central no dia 25 de outubro e anunciou  direo a sua demisso e a de sua equipe, com a condio de ser feita, sem demora, uma nova eleio dos membros do Comit Central e de que as acusaes contra ele fossem examinadas por uma Comisso Internacional. Os adversrios de Furubotn foram apanhados de surpresa. No dia seguinte, para espanto geral, Johansen e alguns dos seus homens entraram na sede do Comit Central, de onde expulsaram, de armas em punho, os partidrios do primeiro-secretrio. Em seguida, realizaram uma reunio onde foi votada a expulso do Partido de Furubotn, que, conhecedor dos mtodos soviticos, se trancara em casa com um grupo de amigos armados. Na sequncia desse verdadeiro rodeio, digno de um filme policial, o PCN perdeu o essencial das suas foras vivas militantes. Quanto a Johansen, manipulado do princpio ao fim pelos agentes soviticos, enlouqueceu.
	O ltimo ato desse perodo de terror no movimento comunista internacional ocorreu em 1957. Imre Nagy, o comunista hngaro que encabeara a revolta de 1956 em Budapeste (ver o captulo de Karel Bartosek), refugiara-se na embaixada da Jugoslvia, de onde no queria sair, receando por sua vida. Utilizando processos tortuosos, os soviticos conseguiram apanh-lo e decidiram julg-lo na Hungria. Mas o Partido Comunista Hngaro, no querendo assumir sozinho a responsabilidade por esse assassinato legal, aproveitou a realizao da Primeira Conferncia Mundial dos Partidos Comunistas, em novembro de 1957, em Moscou, para fazer aprovar a morte de Nagy por todos os lderes comunistas presentes, entre os quais o francs Maurice Thorez e o italiano Palmiro Togliatti - com a notvel exceo do polons Gomulka. Nagy foi condenado  morte e enforcado em 16 de junho de 1958.
	
	   2. A sombra do NKVD sobre a Espanha
	por Stphane Courtois e Jean-Louis Pann

	Em 17 julho de 1936, os militares espanhis de Marrocos, comandados pelo general Franco, revoltaram-se contra o governo republicano. No dia seguinte, a insurreio estendia-se ao continente. No dia 19, ela foi obstruda em vrias cidades (Madri, Barcelona, Valncia e Bilbao) pela greve geral e pela mobilizao das classes populares. Essa guerra civil j estava em gestao havia alguns meses. A vitria eleitoral da Frente Popular, em 16 de fevereiro de 1936, fora conseguida por uma margem bastante estreita; a direita com 3.997.000 votos (132 deputados), os centristas 449.000 e a Frente Popular 4.700.000 (267 deputados). Os socialistas elegeram 89 deputados, a Esquerda Republicana 84, a Unio Republicana 37, o Partido Comunista Espanhol (PCE) 16, e o POUM (Partido Operrio de Unificao Marxista, resultante da fuso, em 1935, do Bloco Operrio e Campons de Joaquin Maurin e da Esquerda Comunista de Andreu Nin) apenas um. No estava representada uma das foras capitais existentes na Espanha: os anarquistas da Confederao Nacional do Trabalho (CNT) e da Federao Anarquista Ibrica (1.577.547 militantes contra 1.444.474 do Partido Socialista e da Unio Geral do Trabalho),i coerentes com a sua doutrina, no haviam apresentado qualquer candidato; mas a Frente Popular no teria triunfado sem o apoio dos seus votos e dos votos dos seus simpatizantes. Os 16 deputados eleitos do PCE constituam uma representao consideravelmente superior  fora real do partido: 40.000 membros reivindicados; mas na verdade no eram mais de uma dezena de milhares que sustentavam as diversas organizaes satlites reforadas com mais uma centena de milhares de filiados.
	Uma esquerda dividida e mesclada, uma direita poderosa e uma extrema direita determinada (a Falange), uma efervescncia urbana (greves) e rural (ocupao de terras), um exrcito cioso das suas prerrogativas, um governo fraco, muitas intrigas, violncia poltica num crescendo incessante: tudo isso concorreu para desencadear a guerra civil que muitos desejavam. O conflito se revestia de imediato de uma dimenso particular: dentro do panorama europeu, ele simbolizava o confronto entre os Estados fascistas e os Estados democrticos. Com a entrada da Unio Sovitica em campo, reforou-se o efeito de polarizao entre a direita e a esquerda.

	A linha geral dos comunistas

	O Komintern pouco ou nada se preocupara com a situao espanhola at a sua ateno ter sido despertada pela queda da monarquia e, sobretudo, pela insurreio dos operrios das Astrias, em 1934. O Estado sovitico tambm no mostrou grande interesse, uma vez que o reconhecimento mtuo dos dois pases s viria a ocorrer em agosto de 1936, depois de ter sido deflagrada a guerra civil, num momento em que a URSS acabava de assinar o pacto de no-interveno, j adotado em julho pela Inglaterra e pela Frana, na esperana de impedir a internacionalizao do conflito. Em 27 de agosto, o embaixador sovitico, Mareei Israelevitch Rosenberg, assumia suas funes.
	Para obter um aumento de sua influncia, os comunistas propuseram a fuso do seu partido com o Partido Socialista. Foi s ao nvel das organizaes juvenis que essa ttica teve um primeiro xito, com a formao, em l abril de 1936, da Juventude Socialista Unificada, e depois um segundo, em 26 de junho seguinte, com a criao do Partido Socialista Unificado da Catalunha.
	No governo de Largo Caballero, instalado em setembro de 1936, o PCE dispunha apenas de dois ministros: Jesus Hernndez, na Educao, e Vincente Uribe, na Agricultura. No entanto, os soviticos rapidamente conquistaram uma grande influncia no governo. Graas s simpatias de que gozava junto de certos membros do governo (Alvarez dei Vayo e Juan Negrin), Rosenberg imps-se como uma espcie de vice-primeiro-ministro, com participao ativa no Conselho de Ministros; ele era detentor de um trunfo considervel, uma vez que a URSS estava disposta a fornecer armas aos republicanos.
	Essa interveno do Partido-Estado sovitico fora da sua esfera de ao habitual tem um relevo particular; pois ocorre-se num momento crucial, quase 20 anos aps a tomada do poder pelos bolcheviques, num contexto internacional que em breve lhe permitiria estender, em duas etapas sucessivas (1939-1941 e 1944-1945), o seu poder  Europa Central e ao Leste Europeu. Na Espanha, a combinao de um movimento social profundo - que lembra os oriundos do primeiro conflito mundial - e da guerra civil russa abre um inesperado campo de interveno. A Espanha dos anos 1936-1939  uma espcie de laboratrio para os soviticos que, fortalecidos por uma grande experincia acumulada, puderam desenvolver todo o aparato poltico ao seu dispor, experimentando as tcnicas que viriam a ser retomadas no incio da Segunda Guerra Mundial e que depois foram generalizadas com o fim dos conflitos. Com mltiplos objetivos, o mais urgente era conseguir que o Partido Comunista Espanhol (inteiramente dirigido pelos servios do Komintern e do NKVD) obtivesse o controle do poder do Estado, para que a Repblica pudesse ser conduzida com a maior proximidade possvel dos desgnios de Moscou. Um tal objetivo implicava instaurar os mtodos soviticos, entre os quais apareciam em lugar de destaque a onipresena do sistema policial e a liquidao de todas as foras no comunistas.
	Em 1936, Ercoli - o comunista italiano Palmiro Togliatti -, um dos membros da direo do Komintern, define as caractersticas originais da guerra civil, que qualificou como guerra nacional revolucionria. Em sua opinio, a revoluo espanhola - popular, nacional e antifascista - impunha aos comunistas novas tarefas: O povo espanhol resolveu as tarefas da revoluo burguesa democrtica de uma maneira nova. Muito rapidamente, ele designa os inimigos dessa concepo da revoluo espanhola: os dirigentes republicanos e at mesmo os do Partido Socialista, os elementos que, escondidos sob os princpios do anarquismo, enfraquecem a coeso e a unidade da Frente Popular com projetos prematuros de 'coletivizao' forada... Ele tambm fixa um objetivo: a hegemonia comunista realizvel graas a uma frente nica entre os partidos socialista e comunista, a criao de uma organizao nica da juventude trabalhadora, a criao de um partido nico do proletariado na Catalunha (o PSUC) e a transformao do prprio Partido Comunista em grande partido de massas. Em junho de 1937, Dolores Ibarruri - comunista espanhola mais conhecida pelo nome de La Pasionaria e celebrizada pelos seus apelos  resistncia - props um novo objetivo: uma repblica democrtica e parlamentar de um novo tipo.
	Imediatamente aps o pronunciamiento franquista, Stalin deu provas de uma relativa indiferena em relao  situao espanhola, como foi recordado por Jef Last, que estava com Andr Gide em Moscou no vero de 1936:
	Ficamos muito indignados ao verificarmos uma ausncia total de interesse em relao aos acontecimentos. O assunto nunca era abordado nas reunies realizadas, e, quando o mencionvamos em conversas privadas, todos pareciam evitar cuidadosamente emitir qualquer opinio pessoal.' No entanto, ao fim de dois meses e devido ao rumo que os acontecimentos tomavam, Stalin compreendeu que poderia tirar proveito da situao nos campos da diplomacia e da propaganda. Associando-se  poltica de no-interveno, a URSS integrava-se ainda mais no concerto das naes e tinha a possibilidade de tentar favorecer uma maior autonomia da Frana relativamente  Gr-Bretanha. Ao mesmo tempo, a URSS estava secretamente empenhada em fornecer armas  Repblica espanhola e em ajud-la militarmente, contando poder explorar as possibilidades oferecidas pelo governo da Frente Popular na Frana, disposto a colaborar com os servios soviticos para organizar a ajuda material aos republicanos espanhis. Seguindo instrues de Lon Blum, Gaston Cusin, subchefe do gabinete do ministro das Finanas, encontrou-se com os oficiais e os emissrios soviticos instalados em Paris, onde organizavam o transporte de armas e recrutavam voluntrios para a Espanha. Se o Estado sovitico pretendia ficar fora do jogo, o Komintern, por sua vez, mobilizou todas as suas sees a favor de uma Espanha republicana, cujo combate transformou-se num formidvel vetor de propaganda antifascista, particularmente lucrativo para o movimento comunista.
	Na prpria Espanha, a ttica comunista consistiu em ocupar cada vez mais posies para orientar a poltica do governo republicano no mesmo sentido daquela tomada pelo Partido-Estado sovitico, que tinha interesse em explorar ao mximo a situao de guerra. Julian Gorkin, um dos dirigentes do POUM, foi sem dvida o primeiro a estabelecer a ligao entre a poltica sovitica na Espanha republicana e a instaurao das democracias populares, num ensaio intitulado Espana, primer ensayo de democracia popular (Buenos Aires, 1961); onde Gorkin v a aplicao de uma poltica predeterminada, o historiador espanhol Antnio Elorza considera sobretudo que a poltica comunista na Espanha decorre de uma concepo monoltica e no pluralista das relaes polticas existentes na Frente Popular e do papel do Partido [que] se traduz numa transformao natural da aliana em plataforma, para conquistar a hegemonia. Porm, Antnio Elorza insiste naquilo que se tornar uma invarivel da poltica comunista: impor a hegemonia do PGE a todos os antifascistas, no apenas contra o inimigo fascista no exterior, mas tambm contra qualquer oposio interna. E acrescenta: Nesse aspecto, o projeto  um precedente direto da estratgia para alcanar o poder nas chamadas democracias populares.
	O projeto estava em fase de concluso quando, em setembro de 1937, Moscou considerou a realizao de eleies: as listas nicas deveriam permitir ao PCE tirar proveito desse plebiscito nacional. Esse projeto, inspirado e atentamente seguido por Stalin, visava ao nascimento de uma repblica democrtica de um novo modelo, prevendo a eliminao de todos os ministros hostis  poltica comunista. Mas a tentativa fracassou diante da oposio encontrada entre os aliados do PCE e a inquietante evoluo da situao dos republicanos aps o fracasso da sua ofensiva contra Teruel, em 15 de dezembro de 1937.

	Conselheiros e agentes

	Uma vez decidido por Stalin que a Espanha poderia ser uma terra de oportunidades para a URSS e que seria til intervir, Moscou enviou  Pennsula Ibrica um forte contingente de quadros, subordinados s mais variadas instncias. Chegaram, em primeiro lugar, os conselheiros militares, que deveriam sempre somar de 700 a 800 homens, mas que chegaram a 2.044 (de acordo com uma fonte sovitica), entre os quais os futuros marechais Koniev e Jukov, e ainda o general V. E. Goriev, adido militar em Madri. Moscou mobilizou tambm os membros do Komintern, emissrios, oficiais ou oficiosos, de um outro gnero. Alguns iam para ficar, como o argentino Vittorio Codovilla, que desempenhou um papel considervel no interior do PCE, a partir dos anos 30, exercendo uma liderana efetiva e real; o hngaro Ern Gero (apelidado Pedro), que se tornaria um dos donos da Hungria comunista do ps-guerra; o italiano Vittorio Vidali (suspeito de ter participado no assassinato do lder comunista e estudante cubano Jlio Antnio Mella, em 1929), que se tornou, em janeiro de 1937, o primeiro comissrio poltico do 5 Regimento organizado pelos comunistas; o blgaro Minev-Stepanov, que trabalhara no secretariado de Stalin de 1927 a 1929; o italiano Palmiro Togliatti, que chegou em julho de 1937 na qualidade de representante do Komintern. Outros ainda fizeram viagens de inspeo, como foi o caso do comunista francs Jacques Duelos.
	   Paralelamente, Moscou enviou para Espanha um forte contingente de homens pertencentes aos seus servios: V. A. Antonov-Ovseenko7 - que havia conduzido o assalto ao Palcio de Inverno, em Petrogrado, em outubro de 1917 - desembarcou em Barcelona em 1 de outubro de 1936; Alexandre Orlov (cujo verdadeiro nome era L. Feldbine), responsvel pelo NKVD na Espanha; o polons Arthur Stachevsky, antigo oficial do Exrcito Vermelho, agora como adido comercial; o general lan Berzine, patro dos Servios de Informao do Exrcito Vermelho; Mikhail Koltsov, redator do Pravda. e por-ta-voz oculto de Stalin, que se instalou no Ministrio da Guerra. Leonid Eitingon, comandante das forcas da Segurana de Estado (NKVD), e Pavel Sudoplatov, seu subordinado, tambm chegaram a Barcelona; foi nesse momento, a partir de 1936, que Eitingon ficou encarregado das operaes terroristas; Sudoplatov s veio  Espanha em 1938. Em resumo, quando Stalin decidiu intervir na Espanha, instalou nesse pas todo um estado-maior capaz de agir, em mltiplos domnios, de uma forma concertada. Parece ter sido na noite de 14 de setembro de 1936 que lagoda, chefe do NKVD, organizou em Lubianka, Moscou, uma reunio de coordenao do conjunto de aes destinadas  interveno comunista na Espanha. Os objetivos eram tanto combater os franquistas e os agentes alemes ou italianos quanto vigiar, controlar e neutralizar os adversrios dos comunistas e da URSS no prprio interior do campo republicano. Essa interveno deveria ser a mais secreta e camuflada possvel, a fim de no comprometer o governo sovitico. Acreditando-se no general Krivitsky, que era o chefe dos Servios Exteriores do NKVD na Europa Ocidental, apenas 40 dos cerca de 3.000 mil soviticos presentes na Espanha combateram de fato, sendo os restantes conselheiros militares, polticos ou agentes dos servios de informao.
	Os soviticos iniciaram a sua ao pela Catalunha. Em setembro de 1936, o Comissariado Geral da Ordem Pblica da Generalitat da Catalunha, j infiltrado pelos comunistas, criou por decreto, dentro dos servios secretos catales (o SSI), um GRUPO DE INFORMACIN chefiado por um tal Mariano Gomez Emperador; esse servio oficial, que rapidamente empregou cerca de 50 pessoas, era na realidade uma antena camuflada do NKVD. Paralelamente, o Partido Socialista Unificado da Catalunha - nome escolhido pelos comunistas - criou um Servido Extranjero, com sede no quarto n 340 do hotel Clon, na Plaza de Catalunya, encarregado de controlar todos os comunistas estrangeiros desejosos de combater na Espanha e que transitavam por Barcelona; esse servio tambm era estreitamente controlado pelo NKVD e servia para camuflar as suas atividades.
	Alfredo Hertz, um homem que pertencia a essas duas instncias, revelou-se como responsvel local do NKVD, sob a autoridade direta de Orlov e de Gero. Comunista alemo, cuja verdadeira identidade ainda est para ser estabelecida, Hertz introduziu-se no Cuerpo de Investigacin y Vigilncia ao Governo da Generalitat, controlando o servio de passaportes e, portanto, as sadas e entradas na Espanha; ele estava habilitado a utilizar os Guardas de Assalto, as tropas de elite da polcia. Com a sua rede instalada no Comissariado da Ordem Pblica da Generalitat, Hertz recebia informaes provenientes de outros partidos comunistas - listas negras de outros antifascistas, denncia de comunistas que criticavam o sistema, ciados biogrficos fornecidos pelas sees de quadros de cada PC - e os transmitia ao Departamento de Estado dirigido pelo comunista Victorio Sala. Hertz criou o seu prprio servio, o Servicio Alfredo Hertz, que, sob uma cobertura legal, era uma polcia poltica paralela composta por comunistas estrangeiros e espanhis. Sob a sua direo, foram criados arquivos de todos os estrangeiros residentes na Catalunha, e mais tarde em toda a Espanha, e listas negras de pessoas incmodas a serem eliminadas. Num primeiro momento, de setembro a dezembro de 1936, as perseguies aos opositores no foram sistemticas. S pouco a pouco o NKVD conseguiu estabelecer verdadeiros planos de represso s outras forcas polticas da Repblica. Os alvos prioritrios eram os social-democratas, os anarco-sindicalistas, os trotskis-tas, os comunistas heterodoxos ou que manifestassem divergncias polticas.  verdade que muitos desses inimigos tinham posies crticas em relao aos comunistas, contestando o seu desejo de hegemonia e a sua posio relativamente  URSS. Como  sabido, e como acontece sempre nesse tipo de situao, as vinganas pessoais no estiveram alheias a essa represso.
	Tanto os mtodos policiais mais banais como os mais sofisticados foram utilizados pelos agentes duplos, ou mesmo triplos. A primeira tarefa desses policiais bastante politizados foi a colonizao das engrenagens da administrao republicana, do exrcito e da polcia. Essa conquista progressiva  dos postos-chave apoiava-se no fato de a URSS fornecer armas aos republicanos desarmados, exigindo contrapartidas polticas em troca. Contrariamente ao que Hitler e Mussolini fizeram em relao aos nacionalistas, a URSS no concedia crdito aos republicanos, sendo que as armas tinham de ser pagas antecipadamente  custa das reservas de ouro do Banco da Espanha, que os seus agentes conseguiam transferir clandestinamente para a URSS; cada entrega de armas era uma oportunidade de chantagem explorada pelos comunistas.
	Julian Gorkin d um exemplo flagrante dessa interligao da guerra e da poltica: no comeo de 1937, Largo Caballero, chefe do governo espanhol, apoiado por Manuel Azaria (presidente da Repblica) autorizou Lus Araquis-tain (embaixador em Paris) a iniciar negociaes secretas com o embaixador italiano em Londres, Dino Grandi, e com Hjalmar Schacht, o financeiro de Hitler, sob a gide de Lon Blum e de Anthony den, no sentido de pr um fim  guerra. Alertados por Alvarez dei Vayo, ministro dos Negcios Estrangeiros e filocomunista, os comunistas espanhis decidiram, de acordo com os principais responsveis dos servios soviticos, livrarem-se de Caballero, interrompendo dessa forma toda soluo negociada - com base na retirada dos soldados italianos e alemes - para o conflito.

	Depois das calnias... as balas na nuca, 
	   Victor Serge

	Foi o que Victor Serge, o escritor russo-belga libertado pela URSS em abril de 1936, declarou a Julian Gorkin quando ambos se encontraram em 1937, advertindo assim o militante do POUM do encadeamento fatal da poltica comunista. Uma poltica que, no entanto, encontrava srios obstculos: a massa anarco-sindicalista da CNT escapava  influncia dos comunistas, e o POUM se opunha a sua poltica. O POUM era uma vtima fcil, pela sua fraqueza e posicionamento marginal no tabuleiro poltico. Para os comunistas, revelou-se oportuno explorar essa configurao poltica. Alm disso, o POUM era conhecido como estando ligado a Trotski: no decorrer de 1935, os seus lderes, Andreu Nin e Julian Gorkin, haviam iniciado contatos junto s autoridades catals para que Trotski, banido da Frana, pudesse se instalar em Barcelona. No contexto da caa aos trotskistas, que se desenvolvia ento na URSS, no surpreende que o secretariado do Komintern, reunido em 21 de fevereiro de 1936, ou seja, cinco dias aps a vitria eleitoral da Frente Popular Espanhola, tenha dado ao PCE instrues para iniciar uma luta enrgica contra a seita trotskista contra-revolucionria. Para piorar a situao, durante o vero de 1936, o POUM teve a audcia de defender as vtimas do primeiro dos processos de Moscou.
	Em 13 de dezembro de 1936, os comunistas conseguiram expulsar Andreu Nin do Conselho da Generalitat catal. Exigiram o seu afastamento, com o pretexto de ter caluniado a URSS, recorrendo  chantagem sobre a entrega das armas para atingirem os seus objetivos. Em 16 de dezembro, o Pravda lanou uma campanha internacional contra os opositores da poltica sovitica: Comeou na Catalunha a eliminao dos trotskistas e dos anarco-sindicalistas; esse combate ser levado at o fim com a mesma energia com que foi feito na URSS.
	Todo tipo de divergncia poltica equivalia, na mentalidade comunista, a uma traio, que em todo lugar sempre merecia o mesmo tratamento, imediato ou diferido. Calnias e mentiras foram atiradas sobre o POUM, cujas unidades no fronte foram acusadas de abandonarem as suas posies, ao passo que as unidades comunistas lhes recusavam qualquer apoio. O jornal do Partido Comunista Francs, LHumanit, distinguiu-se especialmente nessa tarefa, reproduzindo os artigos de Mikhail Koltsov, grande amigo do casal Aragon e Triolet. O tema central dessa campanha resumia-se a uma afirmao incansavelmente repetida: o POUM  cmplice de Franco, ele cometeu traio a favor do fascismo. Os comunistas tomaram a precauo de infiltrar nas suas fileiras agentes encarregados de recolher informaes e de preparar listas negras, a fim de identificar, no momento adequado, os militantes detidos. Um caso  bem conhecido: o de Leon Narvich, que, tendo entrado em contato com Nin, foi desmascarado e executado por um grupo de autodefesa do POUM, aps o desaparecimento de Nin e a priso de seus dirigentes.

	Maio de 1937 e a liquidao do POUM

	Em 3 de maio, as unidades dos Guardas de Assalto, comandadas pelos comunistas, atacaram a central telefnica de Barcelona, controlada pelos operrios da CNT e da UGT. Essa operao, conduzida por Rodriguez Salas, chefe da polcia e membro do PSUC, tinha sido precedida por uma ampla campanha de propaganda e de perseguies (fechamento da rdio do POUM e suspenso do seu jornal, La Batalla). No dia 6 de maio, chegaram a Barcelona cinco mil agentes da polcia respaldados por dirigentes comunistas. Os confrontos entre as foras comunistas e no-comunistas foram violentos, contando-se cerca de 500 mortos e mil feridos.
	Aproveitando-se da confuso, os executores do Partido Comunista aproveitaram todas as oportunidades para liquidar os opositores  poltica comunista. O filsofo anarquista italiano Camillo Berneri e o seu camarada Barbieri foram raptados e executados por um grupo de 12 homens; os seus cadveres, crivados de balas, foram encontrados no dia seguinte. Camillo Berneri pagou com a vida a sua coragem poltica, ele que escrevera no seu jornal Guerra di Classe. Hoje, lutamos contra Burgos, amanh teremos de lutar contra Moscou para defender a nossa liberdade. Alfredo Martinez, secretrio das Juventudes Libertrias da Catalunha, o militante trotskista Hans Freund e o antigo secretrio de Trotski, Erwin Wolf, tiveram a mesma sorte.
	Austraco e comunista na oposio, Kurt Landau havia participado da militncia na Alemanha, na ustria e depois na Frana, antes de chegar a Barcelona e aderir ao POUM. Foi preso em 23 de setembro e desapareceu em circunstncias anlogas. A sua mulher, Katia, tambm prisioneira, testemunhou sobre essas depuraes: As casas do Partido, como, por exemplo, a Pedrera, Paseo de Gracia, e as suas casernas 'Carlos-Marx' e 'Vorochilov', eram verdadeiras ratoeiras e matadouros. Foi em Pedrera que testemunhas viram pela ltima vez os dois camaradas 'desaparecidos' da Rdio POUM. Os jovens anarquistas foram levados para essas casernas comunistas, torturados das formas mais alucinantes, mutilados e, por fim, assassinados. Os cadveres foram encontrados por acaso. Katia cita um artigo do rgo anarco-sindicalista Solidaredad Obrera\ Verificou-se que, antes de morrerem, eles haviam sido barbaramente torturados, como prova o fato de os corpos apresentarem graves contuses e hematomas no ventre, que se encontrava inchado e deformado. [...] Um dos cadveres mostra claramente que esteve pendurado pelos ps; a cabea e o pescoo esto bastante violceos. A cabea de um outro jovem e infeliz camarada revela sinais evidentes de coronhadas.
	Houve militantes que desapareceram para sempre - ignora-se comple-tamente o seu paradeiro -, como foi o caso de Guido Picelli. George Orwell, voluntrio integrado numa das colunas do POUM, tendo sobrevivido a esses dias dignos de um So Bartolomeu e obrigado a esconder-se e a fugir, descreveu a atmosfera de caa s bruxas que reinava em Barcelona em um apndice - O que foram as perturbaes de maio em Barcelona - na sua Homenagem  Catalunha.
	No foi s em Barcelona que as polcias polticas planejaram e cometeram assassinatos. Em Tortosa, no dia 6 de maio, 20 militantes da CNT, detidos pelas foras governamentais de Valncia, foram arrancados das masmorras da Cmara Municipal e abatidos por um bando de assassinos. No dia seguinte, em Tarragona, 15 militantes anarquistas foram friamente executados.
	Aquilo que em campo os comunistas no haviam conseguido realizar inteiramente, eles obtiveram no plano poltico. Largo Caballero, o chefe do governo, recusou a submeter-se s presses dos comunistas que reclamavam a dissoluo do POUM. Jos Diaz, secretrio-geral do PCE, declarara, em maio: O POUM deve ser eliminado da vida poltica do pas. Aps os confrontos em Barcelona, Caballero foi forcado a demitir-se, em 15 de maio. Sucedeu-lhe o governo de Juan Negrin, um socialista moderado, servil aos comunistas, que viram assim desaparecerem todos os obstculos levantados  realizao dos seus objetivos. Negrin no s se aliou aos comunistas - ele escreveria ao jornalista do Times Herbert L. Matthews, afirmando que o POUM era controlado por elementos muito alrgicos [...] a tudo o que significasse uma liderana nica e suprema da luta, sob uma disciplina comum -, como aprovou o terror exercido contra o POUM.  Julian Gorkin observou a mudana radical que se registara: Alguns dias aps a formao do governo presidido por Juan Negrin, Orlov j agia como se considerasse a Espanha um pas satlite. Ele se apresentou  Direo Geral de Segurana e exigiu ao coronel Ortega, a quem ele considerava como um subordinado, a emisso de mandados de captura contra membros do Comit Executivo do POUM. 
	Em 16 de junho de 1937, Negrin interditou o POUM, cujo Comit Executivo estava preso. Essa atitude oficial permitiu que os agentes comunistas atuassem protegidos por uma legalidade inteiramente parcial. Nesse mesmo dia, durante a tarde, Andreu Nin foi interpelado pela polcia. Nenhum dos seus camaradas tornou a v-lo, vivo ou morto.
	Os policiais vindos de Madr, mais seguros devido ao fato de a instituio policial de l estar inteiramente nas mos dos comunistas, tomaram de assalto a redao do La Batalla e diversas sedes do POUM. Duas centenas de militantes, entre os quais Julian Gorkin, Jordi Arquer, Juan Andrade, Pedro Bonet, etc., foram encarcerados. Para justificar a posteriori a liquidao do POUM, os comunistas inventaram do comeo ao fim os detalhes de uma pretensa traio, acusando-o de espionagem a favor dos franquistas. Em 22 de junho, foi criado um tribunal especial e iniciou-se uma intensa campanha de propaganda: no decurso das suas pesquisas, a polcia descobriu, muito oportunamente, documentos que confirmavam a tese fabricada de espionagem. Max Rieger - jornalista sob as ordens de Moscou ou talvez um pseudnimo coletivo - coligiu todos esses documentos falsos no livro Espionagem na Espanha, que foi difundido em todas as lnguas.
	Chefiados por Orlov e protegidos por Vidali, Ricardo Burillo e Gero, os agentes que detinham Andreu Nin o torturaram, mas no conseguiram arrancar dele confisses destinadas a validar as acusaes contra o seu partido, nem fazer com que ele assinasse qualquer declarao. Desse modo, s lhes restava mat-lo e utilizar o seu desaparecimento para desacredit-lo, afirmando que ele havia passado para o lado franquista. Assassinato e propaganda andam sempre juntos. A abertura dos arquivos em Moscou permitiu corroborar o que os amigos de Nin j suspeitavam desde 1937.
	Foi somente aps a ao contra o POUM, em 16 e 17 de junho, que comeou a caa sistemtica aos homens, a todos os traidores trotskistas e outros mais. Para conduzirem essas operaes, os tchekistas dispunham de informaes fornecidas pela polcia. Eles prepararam prises ilegais e paralelas, chamadas cekas, significativa transposio do primeiro nome da polcia poltica sovitica: a Tcheka. Os nomes desses lugares so conhecidos: a ceka central de Barcelona estava situada na Avenida Puerta dei Angel, n 24, com a sua sucursal no hotel Clon, na Plaza de Catalunya; no antigo convento de Atocha, em Madri; Santa rsula, em Valncia; e Alcal de Henares. Numerosas casas particulares, requisitadas, serviam igualmente de lugares de deteno, de interrogatrio e de execuo.
	No incio de 1938,200 antifascistas e anti-stalinistas estavam detidos na ceka de Santa rsula, ento chamada de o Dachau da Espanha republicana, numa referncia ao primeiro campo de concentrao aberto pelos nazistas para perseguir os seus opositores. Quando os stalinistas decidiram construir ali uma 'ceka', o pequeno cemitrio estava sendo limpo, conta uma das vtimas. Os 'tchekistas' tveram ento uma idia diablica: deixaram o cemitrio tal qual estava, com os seus tmulos abertos, os seus esqueletos e os seus mortos mais recentes em estado de decomposio. E era l que, por muitas e muitas noites, ficavam trancados os presos mais recalcitrantes. Eles aplicavam outros suplcios particularmente brutais: muitos prisioneiros eram pendurados pelos ps, de cabea para baixo, durante dias inteiros. Outros eram trancafiados em pequenos armrios, com minsculos orifcios na altura do rosto, para que pudessem respirar minimamente... Havia tambm um suplcio ainda mais cruel: o da gaveta. Eles obrigavam os prisioneiros a se agacharem dentro de umas caixas quadradas e a permanecerem naquela posio durante vrios dias; alguns ficavam assim oito ou dez dias sem poderem se mexer... Para essa tarefa, os agentes soviticos recorriam a indivduos depravados, que sentiam que os seus atos mereciam a aprovao da Pasionara, alis, foi justamente ela quem declarou num comcio comunista realizado em Valncia: Mais vale condenar cem inocentes do que absolver um s culpado. 
	O recurso  tortura era sistemtico: suplcio da banheira cheia de gua com sabo, um potente vomitivo. Algumas das tcnicas eram tipicamente soviticas, como a privao do sono e, sobretudo, o trancamento do prisioneiro num armrio extremamente estreito, chamado celda armrio (armrio-cela), onde a vtima no podia ficar de p nem sentada, e muito menos mover os membros; sem quase poder respirar, ela era permanentemente ofuscada por uma lmpada eltrica. Alexandre Soljenitsyne descreveu longamente esse tipo de cela na cena de O Arquiplago do Gulag, em que relata a sua chegada  Lubianka.
	As execues sumrias eram igualmente moeda corrente: O tenente Astorga Vayo, que pertencia ao Servicio de Investigacin Militar e tambm ao NKVD, encontrou um meio de evitar as fugas: como os prisioneiros eram reunidos em filas de cinco, por cada um que faltasse ele mandava fuzilar os outros quatro, ameaando mesmo a fila da frente e a de trs. Esse comportamento indignava at alguns dos seus companheiros, mas Vayo, apesar de ter sido destitudo das suas funes, foi promovido e tornou-se comandante de um dos principais campos de concentrao da Catalunha, o de Onells de Nagaya, na provncia de Lrida. 
	Surpreendentemente, o nmero de detenes foi avaliado da mesma maneira por diferentes pessoas. Katia Landau fala de 15.000 prisioneiros, dos quais l.000 eram membros do POUM, detidos nas prises oficiais e clandestinas. Yves Lvy, que conduziu um inqurito em campo, fala de uma dezena de milhares de revolucionrios, civis ou soldados, aprisionados, pertencentes ao POUM,  CNT e  FAI. Alguns morreram em consequncia dos maus tratos, como foi o caso de Bob Smilie, correspondente do Independent Labour Party junto ao POUM, e tambm o de Manuel Maurin - irmo de Joaquin Maurin, capturado pelos franquistas, que lhe pouparam a vida - no crcel modelo (priso-modelo!) de Barcelona. No fim de 1937, havia, segundo Julian Gorkin, 62 condenados  morte na priso de Santa Clara.
	   Com o POUM aniquilado, os socialistas afastados ou neutralizados, restavam os anarquistas. Durante os primeiros meses da resposta republicana ao pronunciamiento dos militares, as comunidades agrrias se multiplicaram, sobretudo em Arago, sob forte influncia dos anarquistas. Algumas semanas aps maio de 1937, vrias cidades e povoados aragoneses foram atacados pelos Guardas de Assalto. O Congresso das Coletividades foi transferido e, em 11 de agosto, foi publicado o decreto que dissolvia o Conselho de Arago, que as dirigia. O seu presidente, Joaquin Ascaso, acusado de roubo de jias, foi preso e substitudo por um governador-geral chamado Jos Ignacio Mantecon, simpatizante da Esquerda Republicana, na realidade um submarino comunista. Tratava-se de um ataque direto contra a CNT, destinado a minar a sua influncia.
	A 11 Diviso, comandada pelo comunista Enrique Lister, que j havia cometido um grande nmero de exaes em Castela (execues de libertrios, violncia contra os camponeses coletivistas), a 27 (dita Karl Marx, do PSUC) e a 30 dispersaram essas coletividades com o uso da fora. Centenas de libertrios foram presos e eliminados dos conselhos municipais para serem substitudos por comunistas, enquanto as terras por eles exploradas coletiva-mente eram devolvidas e distribudas entre os antigos proprietrios. Essa operao foi realizada simultaneamente ao anncio de uma ofensiva de grande envergadura contra Saragoa, para justificar uma limpeza na retaguarda das linhas destinada a preparar a ofensiva. Apesar de centenas de homens terem sido chacinados, os camponeses conseguiram reconstituir as suas coletividades. Foi o clebre general comunista El Campesino (Valentin Gonzlez) quem chefiou as operaes contra os camponeses de Castela. Segundo Csar M. Lorenzo, ele ultrapassava Lister em crueldade. Mais uma vez, centenas de camponeses foram chacinados e muitos povoados incendiados, mas a CNT reagiu militarmente a essa agresso e ps fim  expedio de El Campesino.

	O NKVD em ao

	Na Espanha de 1937, o NKVD tornara-se uma espcie de escritrio anexo ao Ministrio do Interior, com o nome de Grupo de Informacin. Os agentes comunistas controlavam tambm a Direo da Segurana. Foi durante a primavera e o vero de 1937 que o Servido Alfredo Hertz atingiu o auge da sua atividade. O prprio Hertz foi classificado por Julian Gorkin como um dos grandes mestres dos interrogatrios e das execues. Com ele, trabalhava Hubert von Ranke, admitido por Ern Gero em 1930 e que teria sido durante algum tempo comissrio poltico do batalho Thaelmann das Brigadas Internacionais, antes de ser encarregado de exercer vigilncia sobre os estrangeiros de lngua alem. Foi muito provavelmente no exerccio desse cargo que ele ordenou a priso de Erwin Wolf, o qual desapareceu pouco tempo depois de ter sido libertado.
	Presa em 11 de setembro de 1937 por dois elementos do oficialssimo Grupo de Informacin, Katia Landau foi testemunha dos mtodos de von Ranke: Um dos mais ignbeis agentes do GPU, Moritz Bressler, alias von Ranke, reduziu o processo de acusao ao mnimo. Ele e a mulher, Seppl Kapalanz, mandaram prender um camarada, acusando-o de saber do paradeiro de Kurt Landau. 'Se no nos disser onde ele est', ameaaram, 'nunca mais sair da priso.  um inimigo da Frente Popular e de Stalin. Logo que soubermos onde se encontra, iremos mat-lo.' 
	Na noite de 9 para 10 de abril de 1937, um jovem desconhecido, Marc Rein, envolvido nos movimentos de extrema esquerda noruegueses e alemes, desapareceu do seu quarto de hotel, em Barcelona. Alguns dias mais tarde, os amigos, percebendo o seu desaparecimento, alertaram a opinio pblica. Marc Rein era filho de Rafael Abramovitch, exilado russo e dirigente da II Internacional. A identidade da vtima e o empenho dos seus amigos e familiares em descobrir a verdade sobre o que acontecera provocaram uma onda de comoo no exterior e muito embarao na Espanha republicana. O governo espanhol foi obrigado a encarregar um de seus agentes dos Servios de Informao de abrir um inqurito, que acabou muito naturalmente concluindo ter sido o Servicio Alfredo Hertz o responsvel pelo desaparecimento. O brao de ferro entre a polcia do NKVD e o governo foi tal que, em 9 de julho de 1937, o secretrio de Estado adjunto do ministro do Interior provocou, em frente de testemunhas, uma confrontao entre o seu agente de informaes (SSI 29) e os dois comparsas, Hertz e Gomez Emperador. O agente SSI 29 foi preso no dia seguinte pelo servio de Hertz. Porm, o Servio Secreto ao qual pertencia tinha ainda poder suficiente para libert-lo. O agente SSI 29, cujo verdadeiro nome era Laurencic, foi identificado e preso em 1938 pelos franquistas, apresentado perante um Tribunal Militar e executado como agente do NKVD!
	O caso Rein, embora nunca tenha tido um verdadeiro desfecho - ainda hoje no se sabe o que lhe aconteceu -, teve no entanto o mrito de pr fim, a partir de julho 1937, s atividades demasiado evidentes de Alfredo Hertz e de Gomez Emperador: os servios que chefiavam foram dissolvidos e mais tarde recriados sob a orientao de Victorio Sala. Em 15 de agosto, o socialista Indalecio Prieto, ministro da Defesa, criou o Servicio de Investigacin Militar (SIM), encarregado de agrupar todos os servios de vigilncia poltica e de contra-espionagem. Em muito pouco tempo, o SIM tinha no seu ativo 6.000 agentes. Vrios tcnicos do Servicio Hertz foram transferidos para o SIM. De acordo com o testemunho de Prieto, em 1939, o SIM, que em princpio se destinava  contra-espionagem, tinha na realidade sido criado por iniciativa dos soviticos e muito rapidamente, apesar das precaues tomadas24 (originariamente, o servio era dirigido por um amigo do ministro), os comunistas se apropriaram dele, utilizando-o para os seus prprios fins. Por presso dos soviticos e dos comunistas, Prieto foi afastado do governo em abril de 1938.
	Julian Gorkin descreveu assim as atividades do SIM: Prendiam a torto e a direito, segundo os seus caprichos, obedecendo aos planos de represlias polticas do NKVD. O 'suspeito' era atirado na priso e procedia-se  instruo do seu processo [...]. O SIM retinha os dossis durante meses e meses, com o pretexto de completar as informaes. E o SIM, terror dos magistrados e advogados, se interpunha quando o juiz se mostrava convencido da inocncia do prisioneiro.  
	O comunista suo Rudolf Frei, antigo mecnico que frequentara a Escola Leninista Internacional de Moscou entre 1931 e 1932, fora encarregado de organizar, a partir de Basileia, a transferncia dos voluntrios para a Espanha. A seu pedido, partiu para Espanha em 1937, tornando-se responsvel pelo servio de controle do SIM, com a misso especial de seguir os suos. A partir da primavera de 1938, muitos dos antifascistas encarcerados nas prises controladas pelos comunistas foram levados para a frente e obrigados a realizar, juntamente com os prisioneiros franquistas, trabalhos forados de terraplenagem e outros, em condies muito duras, sem alimentao, sem cuidados, sob a ameaa constante de serem fuzilados pelos comunistas.
	Karl Bruning, membro de um grupo comunista alemo dissidente, um dos sobreviventes que conseguiram fugir, relatou a alguns amigos pessoais, em dezembro de 1939, seis meses aps o fim do seu calvrio: O que ns vivemos, a partir de julho, foi ao mesmo tempo espantoso e cruel. As imagens da Casa dos Mortos, de Dostoievski, no passam de plidas imitaes. [...] A tudo isso juntava-se a fome constante, que levava ao delrio. No sou hoje metade do homem que era. Pele e osso. Ainda por cima, doente e sem forcas. Quando se chega a esse estado, apaga-se a fronteira entre o homem e o animal. Atinge-se o primeiro grau da barbrie. Oh! O fascismo tem ainda muito que aprender com esses bandidos e pode at se dar ao luxo de apresentar-se como detentor da cultura. Estava sem dvida anotado nos nossos dossis: 'Aniquilar fisicamente por meios legais'. Foi o que tentaram fazer at o fim. 

	Um julgamento de Moscou em Barcelona

	Apesar dessas reestruturaes e operaes de infiltrao e camuflagem, o NKVD encontrou alguns obstculos: depois da represso selvagem de que fora vtima, o POUM recebeu ajuda de diversos grupos revolucionrios que formaram, na Frana, um Cartel de defesa dos revolucionrios presos na Espanha republicana. A ao pblica aberta opunha-se assim s tenebrosas e criminosas manobras dos soviticos. No total, trs delegaes foram a campo para investigar. Em novembro de 1937, a terceira dessas delegaes, encabeada por John MacGovern, do Independem Labour Party, e pelo professor Flicien Challaye, pde visitar as prises de Barcelona, especialmente o crcel modelo, onde estavam aprisionados 500 antifascistas, e recolher testemunhos sobre as sevcias a que eram submetidos. MacGovern e Challaye conseguiram a libertao de uma dezena de prisioneiros. Tentaram ainda, mas em vo, entrar na priso secreta do NKVD, situada na Praa Junta. Apesar do apoio do ministro da Justia, Manuel de Irujo, eles no foram autorizados. MacGovern concluiu: A mscara caiu. Levantamos o vu e mostramos onde residia o verdadeiro poder. Os ministros queriam, mas no podiam. 
	De 11 a 22 de outubro de 1938, os membros do Comit Executivo do POUM - Gorkin, Andrade, Gironella, Rovira, Arquer, Rebull, Bonet, Escuder - foram levados perante um tribunal especial para um julgamento que se inspirava nos processos montados em Moscou. Na realidade, esse julgamento visava reforar a credibilidade das acusaes feitas na URSS contra os opositores, agrupados sob a designao geral de trotskistas. Mas esses militantes rejeitaram todos os pontos de acusao. Andr Gide, Georges Duhamel, Roger Martin du Gard, Franois Mauriac e Paul Rivet enviaram um telegrama a Juan Negrin, exigindo que os acusados se beneficiassem de todas as garantias jurdicas. Uma vez que a acusao se baseava sobretudo em confisses extorquidas, o julgamento terminou em confuso para os acusadores. Embora nenhuma das penas de morte pedidas pela imprensa comunista29 tenha sido pronunciada, os militantes do POUM foram condenados, em 2 de novembro, a 15 anos de priso (exceto Jordi Arquer, que foi condenado ali anos, e David Rey, que foi absolvido), por terem falsamente afirmado no jornal La Batalla que o governo da Repblica estava sob as ordens de Moscou e perseguia todos aqueles que no obedecessem s ordens dos soviticos!
	Quando, em maro de 1939, se consumou a derrota dos republicanos, o ltimo responsvel do SIM tentou entregar os condenados a Franco, para que fossem fuzilados, contando assim com os inimigos da Repblica para concretizar a sinistra tarefa que os agentes do NKVD no tinham conseguido terminar. Por sorte, os sobreviventes do Comit Executivo do POUM conseguiram escapar.

	Dentro das Brigadas Internacionais

	O eco que a luta dos republicanos teve no mundo inteiro foi tal que muitos voluntrios decidiram espontaneamente dirigir-se  Espanha para combater os nacionalistas, alistando-se nas milcias ou nas colunas das organizaes que recolhiam as suas simpatias. Mas as Brigadas Internacionais enquanto tais foram criadas por iniciativa de Moscou e constituram um verdadeiro exrcito comunista,30 ainda que no fossem compostas exclusivamente por comunistas. Da a necessidade de distinguir os verdadeiros combatentes, que se bateram na frente, dos homens do aparelho, que, embora pertencendo formalmente s Brigadas, nunca pisaram o campo de batalha. Pois a histria das Brigadas no se resume apenas aos combates hericos dos interbrigadistas.
	As Brigadas conheceram uma formidvel expanso durante o outono e o inverno de 1936. Dezenas de milhares de voluntrios afluam do mundo inteiro. Para os comunistas, no se punha a questo de aceit-los sem qualquer medida de controle. Queriam sobretudo, de incio, impedir a infiltrao de agentes duplos, franquistas, nazistas ou outros. No entanto, logo que o Grande Terror se instalou na URSS, passaram a verificar a ortodoxia de todos esses voluntrios. Os servios de quadros dos diferentes partidos comunistas foram encarregados de iniciar a luta contra a provocao, ou seja, detectar todos os elementos dissidentes, crticos e indisciplinados. Esforaram-se inclusive por controlar o recrutamento feito anteriormente, fora da Espanha: a polcia de Zurique apreendeu em casa do comunista alemo Alfred Adolph uma lista que denunciava, aos agentes soviticos na Espanha, os voluntrios indesejveis. Num documento do Comit Executivo do Komintern, datado do outono de 1937, dizia-se que era necessrio desembaraar as Brigadas de todos os elementos politicamente duvidosos e vigiar a seleo dos voluntrios, para evitar que se infiltrem nas Brigadas dos agentes dos servios de informaes e espies fascistas e trotskistas.  sintomtico o fato de os dossis pessoais de todos os brigadistas, incluindo anotaes polticas, se encontrarem nos arquivos do Komintern, em Moscou. Havia dezenas de milhares de dossis...
	Foi o francs Andr Marty, membro do Bureau Poltico do PCF e secretrio do Komintern, que chegou  Espanha em agosto de 1936, na qualidade de delegado do Komintern junto do governo republicano, que desempenhou o papel de patro oficial da base de Albacete, onde eram organizadas as Brigadas Internacionais. Paralelamente s Brigadas, os comunistas ergueram o 5 Regimento, comandado por Enrique Lister, que estivera na URSS em 1932 e se formara na Academia Militar Frunze. Como  evidente, o SIM encontrava-se tambm presente em Albacete.
	A amplitude das liquidaes no interior das Brigadas  ainda hoje objeto de controvrsia. Apesar dos testemunhos esmagadores, uns limitam-se a negar a responsabilidade de Marty; outros justificam as execues. El Campesino explicaria: No h dvida de que ele [Marty] recebeu ordens para se livrar dos elementos perigosos. Que mandou executar alguns,  incontestvel, mas tratava-se de indivduos que eram desertores, assassinos ou traidores! O testemunho de Gustav Regler, que foi comissrio adjunto da 12 Brigada, confirma esses mtodos: durante uma batalha junto ao Escurial, dois voluntrios anarquistas haviam fraquejado; Regler mandou prend-los e props o seu internamento num sanatrio. Ele informou Marty, que decidiu envi-los para Alcal de Henares. S muito mais tarde Regler soube que na realidade no se tratava de um sanatrio, mas de uma residncia que abrigava um destacamento russo encarregado das execues. Numa nota assinada pelo seu punho, encontrada nos arquivos de Moscou, Marty explica ao Comit Central do PCF: Lamento tambm que me enviem para Albacete os espies e os fascistas que j haviam sido mandados para Valncia, a fim de serem liquidados. Vocs sabem muito bem que as Brigadas Internacionais no o podem fazer aqui, em Albacete. Pode-se perfeitamente imaginar que no seria nada fcil executar espies ou fascistas no meio de uma base militar, e no se sabe a quem Marty se referia; de qualquer maneira, ele preferia que todo o trabalho sujo fosse feito longe dali e por outras pessoas, o que em nada diminui a sua responsabilidade moral.
	Um filme recente narra a execuo, em novembro de 1937, de Erich Frommelt, membro do batalho Thaelmann, da 12 Brigada, condenado  morte por desero s 23h15min, e executado no dia seguinte s 16h45min. Oficialmente, Frommelt tinha sido dado como morto durante a batalha de Teruel. Uma tal dissimulao incita a interrogarmo-nos sobre essa categoria de desertores. O interbrigadista francs Roger Codou, que teve ocasio de consultar os dossis da priso das Brigadas, encontrou um nmero muito elevado de mortos por hidrocuo, que escondem, em sua opinio, execues sumrias. Aos interbrigadistas estavam reservadas duas prises: uma no quartel de Horta, em Barcelona (265 aprisionados em 1937), e a outra em Castelln de La Plana.  difcil avaliar o nmero de brigadistas eliminados. Julian Gorkin acusa Andr Marty de ser pessoalmente responsvel por cerca de 500 execues de membros indisciplinados ou simplesmente suspeitos de 'oposicionismo'. 
	Oriundo de Glasgow, Robert Martin testemunha a freqncia das prises registradas em Albacete. Tendo ele prprio sido preso, encontrou na priso mais outros 60 interbrigadistas que haviam combatido, entre os quais alguns feridos. As condies de deteno particularmente duras levaram os prisioneiros a iniciar uma greve de fome. Apesar de a sua libertao ter sido anunciada, foram todos transferidos para Barcelona, em pequenos grupos. Robert Martin e os camaradas foram levados para o Hotel Falcon, antiga sede do POUM, transformado em priso, e depois para a Calle Corsiga, onde eles foram fotografados e tiradas as suas impresses digitais. Evadido por milagre, Martin foi para a Frana, ignorando tudo sobre a sorte dos seus companheiros.
	O social-democrata Max Reventlow conta que, durante a retirada dos republicanos consecutiva ao avano dos nacionalistas em direo ao Mediterrneo, as Brigadas levaram consigo pelo menos 650 prisioneiros. Chegando  Catalunha, foram encarcerados em Horta e Castelln, duas prises comandadas pelo croata Copie, que, durante a chegada dos prisioneiros, mandou fuzilar 16. Nessas prises existia uma comisso que pronunciava sentenas de morte sem a menor interveno da justia: aps a fuga de 50 detidos, outros 50 foram fuzilados. O uso da tortura era prtica corrente; o tenente alemo Hans Rudolph foi torturado durante seis dias: com os braos e as pernas quebrados e as unhas arrancadas, foi executado em 14 de junho de 1938, com uma bala na nuca, juntamente com outros seis detidos. Levado mais tarde a tribunal e acusado de espionagem, Copie salvou a pele graas  interveno conjunta do irmo, o coronel Vladimir Copie, de Luigi Longo e de Andr Marty.
	O deputado comunista alemo Hans Beimler conseguira fugir de Dachau matando um guarda SS e, ao chegar  Espanha, participou na organizao do batalho Thaelmann. Ele foi morto no dia 19 de dezembro de 1936, em Palacete. Gustav Regler afirmou que Beimler tombara vtima de uma bala franquista. Essa verso  contrariada por uma amiga de Beimler, Antonia Stern, que foi despojada de todos os seus documentos e expulsa de Espanha: Stern afirmava que Beimler teria criticado o primeiro julgamento de Moscou e que ainda por cima mantinha contatos com os antigos dirigentes do KPD, Arkadi Maslow e Ruth Fischer, que, em Paris, mantinham um grupo de opositores. Baseando-se no relatrio do Servido Secreto Inteligente, um departamento especial da polcia catal que dispunha de informantes infiltrados nos meios comunistas, Pierre Brou inclina-se para a hiptese de assassinato.
	As Brigadas Internacionais atraam para as suas fileiras vrios homens e mulheres portadores de um ideal, um impulso de solidariedade, de generosidade, pelo qual estavam dispostos a sacrificar a prpria vida. Uma vez mais, Stalin e os seus servios exploraram cinicamente essa nobre disposio, antes de deixarem a Espanha (e as Brigadas), entregues a seu triste destino: Stalin preparava j a sua aliana com Hitler.

	Exlio e morte na ptria dos proletrios

	Aps a derrota dos republicanos, foi criado em Paris, em maro de 1939, um Comit presidido por Togliatti, destinado a selecionar os espanhis autorizados a entrar na ptria dos proletrios. El Campesino testemunhou sobre as condies em que se processou a sua partida para a URSS. Tendo embarcado no Havre, em 14 de maio de 1939, no navio Sibria, juntamente com 350 pessoas - entre as quais havia membros do Bureau Poltico e do Comit Central do PCE, deputados comunistas, comandantes do 5. Regimento e trs dezenas de chefes das Brigadas -, El Campesino assistiu  reorganizao do Comit, sob a gide do NKVD. Esse novo Comit tinha por misso controlar os 3.961 refugiados espanhis, imediatamente divididos em 18 grupos e enviados para diferentes cidades. A maior parte dos responsveis no exlio denunciava e espionava os seus compatriotas, como o ex-secretrio do PCE de Jan, que mandou prender metade do grupo espanhol de Kharkov; ou ainda Cortina, que fez com que vrios invlidos fossem deportados para a Sibria. Expulso da Academia Militar Frunze por trotskismo, El Campesino comeou a trabalhar no metro de Moscou em maro de 1941. Mais tarde, foi deportado para o Uzbequisto, e depois para a Sibria, tendo conseguido escapar para o Ir em 1948.
	Foi em Tiflis, em 19 de maro de 1942, que Jos Diaz, secretrio-geral do PCE, encontrou a morte ao cair do quarto andar do prdio onde residia, precisamente no momento em que a mulher e a filha se encontravam ausentes. Como muitos dos seus compatriotas, El Campesino est convencido de que se tratou de um assassinato. Na vspera de sua morte, Diaz trabalhava num livro sobre a sua prpria experincia; ele parecia desiludido, tendo inclusive, alguns dias antes, enviado s autoridades cartas de protesto contra o tratamento infligido s crianas da colnia de Tiflis.
	Durante a guerra civil, foram enviadas para a URSS milhares de crianas espanholas com idades compreendidas entre os 5 e os 12 anos. As condies em que viviam alteraram-se depois da derrota sofrida pelos republicanos. Em 1939, os professores espanhis foram acusados de trotskismo e, segundo El Campesino, 60% deles foram detidos e aprisionados na Lubianka, sendo os restantes enviados para uma fbrica. Uma jovem professora foi torturada durante 20 meses antes de ser fuzilada. As crianas conheceram ento uma sorte pouco invejvel, uma vez que daquele momento em diante as colnias foram dirigidas pelos soviticos. As de Kaluga, particularmente indisciplinadas, ficaram submetidas  onipotente autoridade de Juan Modesto - um general que fizera sua instruo no 5 Regimento - e de Lister. Em 1941, segundo Jesus Hernndez, 50% haviam contrado tuberculose, e 750 (ou seja, 15%) morreram antes do xodo verificado nesse mesmo ano. Nos Urais e na Sibria Central, especialmente em Kokand, os adolescentes descontrolaram-se. Formaram bandos que se dedicavam ao roubo, e as moas se prostituam. Alguns cometeram suicdio. Ainda segundo Jesus Hernndez, morreram 2.000 crianas, dum total de 5.000. Em 1947, por ocasio do dcimo aniversrio da sua chegada  URSS, uma cerimnia reuniu no Teatro Stanislavski, em Moscou, 2.000 jovens espanhis; desses, 534 regressaram  Espanha em setembro de 1956. Feitas as contas, apenas 1.500 voltaram a casa.
	Outros espanhis conheceram a vida e a morte na URSS. Foram os marinheiros e aviadores no comunistas vindos voluntariamente para frequentar cursos de formao. El Campesino teve conhecimento do destino de 218 jovens aviadores que chegaram em 1938 para um estgio de formao de seis a sete meses em Kirovabad. No fim de 1939, o coronel Martinez Carton, membro do Bureau Poltico do PCE e agente do NKVD, imps-lhes uma escolha: ficar na URSS ou partir para o estrangeiro. Os que preferiram deixar a URSS foram de imediato enviados para fbricas. Em 19 de setembro de 1939, foram todos presos e foi instaurado um processo contra eles. Alguns foram torturados, outros executados na Lubianka, e a maior parte condenada a dez ou 15 anos de campo. Do grupo enviado para Petchoraliev, no restou um nico sobrevivente. Em resumo, dos 218 aviadores, s uma meia dzia sobreviveu.
	Em 1947, alguns refugiados conseguiram sair da URSS. Os que ficaram foram convidados a assinar o compromisso de fixarem residncia. Em abril de 1948, Jos Ester (deportado poltico em Mauthausen com o n 64.3) e Jos Domenech (deportado poltico em Neuengamme com o n 40.2) deram uma entrevista coletiva em Paris, em nome da Federacin Espanola de Deportados e Internados Polticos, a fim de tornar pblicas as informaes recolhidas sobre os detidos do campo n 99, de Karaganda, no Cazaquisto, situado a noroeste do lago Balkhach. Eles forneceram os nomes de 59 deportados, 24 dos quais eram pilotos-aviadores, e 33 marinheiros. Num manifesto datado de 19 de maro de 1948, os dois antigos deportados justificaram assim a sua atitude:  para ns um dever imperioso, imperativo para todos os que conheceram a fome, o frio e a desolao sob o domnio inquisitorial da Gestapo e das SS, e  uma obrigao de todo cidado, para quem as palavras Liberdade e Direito tenham um sentido bem definido pelos cdigos, reclamar e exigir, por solidariedade, a libertao desses homens, sobre os quais pesa a ameaa de uma morte certa.
	Depois da Segunda Guerra Mundial, os comunistas e os seus servios especiais continuaram a liquidar os opositores: Joan Farr Gasso, antigo dirigente do POUM de Lrida, participou na Resistncia na Franca. Detido e encarcerado em Moissac pelo regime de Vichy, quis, aps a sua libertao, juntar-se  mulher numa pequena aldeia da Catalunha Francesa. Na estrada de Montauban, foi interceptado por resistentes comunistas - os guerrilleros espanoles - que o executaram sumariamente. Esse assassinato prolongava a Guerra Civil Espanhola no que ela teve de mais sinistro: o recurso ao assassinato ou s liquidaes de que foram vtimas milhares de antifascistas entre os mais determinados e mais corajosos. O caso espanhol mostra a impossibilidade de dissociar as organizaes policiais e criminosas dos comunistas da prossecuo dos seus objetivos polticos. Se  verdade que a violncia poltica e social foi uma constante na Espanha de entre as duas guerras, e que a guerra civil permitiu dar livre curso a essa violncia, no h dvida de que os soviticos lhe acrescentaram o poder supremo do Partido-Estado, ele prprio nascido da guerra e da violncia, para atingir os objetivos determinados pelos interesses da URSS, camuflados em combate ao antifascismo.
	Fica claro que, para Stalin e para os seus sequazes, o objetivo essencial era o controle do destino da Repblica. Para consegui-lo, a liquidao das oposies de esquerda - socialistas, anarco-sindicalistas, poumistas e trots-kistas - no era menos importante do que a derrota militar de Franco.
	
	   3. Comunismo e terrorismo
	por Remi Kauffer

	Nos anos 20 e 30, o movimento comunista internacional concentrou-se na organizao de insurreies armadas, todas elas malsucedidas. Essa forma de ao foi ento abandonada e passou-se a aproveitar, durante os anos 40, as guerras de libertao nacional contra o nazismo ou o militarismo japons e, nos anos 50 e 60, as guerras de descolonizao, para criar verdadeiras formaes militares - os guerrilheiros -, grupos que se transformaram pouco a pouco em tropas regulares, em verdadeiros exrcitos vermelhos. Na Jugoslvia, na China, na Coreia do Norte e, mais tarde, no Vietn e no Camboja, essa ao permitiu aos partidos comunistas a subida ao poder. Entretanto, o fracasso das guerrilhas na Amrica Latina - duramente combatidas por tropas especiais formadas pelos americanos - incitou os comunistas a voltarem s aes ditas terroristas, at ento pouco praticadas, j que o atentado contra a catedral de Sofia, em 1924, era de fato uma exceo.  verdade que a distino entre terrorismo puro e simples e a preparao de uma eventual insurreio armada  relativa - so muitas vezes os mesmos homens que operam no terreno, tratando-se embora de tarefas diferentes. Essas formas de ao no so, alis, mutuamente exclusivas. Numerosos movimentos de libertao nacional, de acordo com a terminologia em vigor, combinavam terrorismo e guerrilha na sua ao armada, como, por exemplo, a Frente de Libertao Nacional e o Exrcito de Libertao Nacional na Arglia.
	O caso argelino 'interessante na medida em que os partidrios da Arglia Francesa vem na insurreio nacionalista o resultado direto das manobras preparadas em Moscou, encontrando uma confirmao adicional dessa tese no fato - devidamente comprovado - de, durante a batalha de Argel (1956-1957), o Partido Comunista Argelino ter cedido ao chefe FLN da capital, Yacef Saadi, os seus melhores especialistas em explosivos.
	Assim, o movimento nacionalista estaria submisso ao comunismo? Na prtica, passava-se exatamente o contrrio, pois o PCA era obrigado a submeter-se  liderana da FLN. Esta ltima beneficiava-se, no exterior, de um apoio poltico muito claro por parte da URSS. No entanto, com exceo de algumas operaes muito limitadas dos servios especiais, Moscou teve sempre o cuidado de no se envolver diretamente no conflito com a Franca. O fornecimento de armas  FLN estava a cargo do Egito de Nasser, da Jugoslvia de Tito e, no que respeita ao bloco de Leste, da Tchecoslovquia, agindo por procurao (alguns quadros da FLN foram formados em Praga nas tcnicas avanadas da clandestinidade). Os soviticos optaram por manterem-se  margem. Teriam tido o pressentimento de que a futura Arglia seria politicamente muito prxima deles, mas tambm muito ciosa da sua independncia? A realidade  que os servios especiais de Moscou nunca tiveram autorizao para observar de perto o santo dos santos do novo regime, a Segurana Militar, ao contrrio do que aconteceu com a DGI cubana.
	Outro exemplo da prudncia sovitica em face dos movimentos nacionalistas mais complexos: o caso irlands. Apangio do IRA (Irish Republican Army, fundado em Dublin quando da insurreio fracassada da Pscoa de 1916), o republicanismo continuava a ser uma forma de pensar muito especfica da Irlanda. Sem negligenciar a questo social, ele colocava o problema nacional (a partir de 1921, a reunificao da ilha, tomando os seis condados do Norte da Coroa Britnica) no centro de toda a atividade. No entanto, os pr-soviticos oficiais, que iriam fundar, em 1933, o Communist Party of Ireland, afastavam-se cada vez mais das preocupaes puramente nacionalistas, dando primazia  luta de classes.
	O IRA queria armas para combater os ingleses. No perodo entre as duas guerras, tentaram obt-las na URSS. Por vrias vezes, Moscou iludiu delicadamente esses pedidos reiterados: no parecia sensato armar aquela gente demasiado independente e correr o risco de um conflito aberto com a Gr-Bretanha. O fato de vrias centenas de membros da organizao clandestina terem ingressado nas Brigadas Internacionais na Espanha em nada alterava os dados da questo. Em 1939-1940, quando o IRA empreendeu uma nova onda de atentados  bomba na prpria Inglaterra, a sua unidade mais secreta, composta por um pequeno grupo de militantes nacionalistas protestantes - e por isso mesmo menos suspeitos -, foi infiltrada pelo aparelho comunista, tendo Betty Sinclair como principal articulador. Em toda a Europa, grupos de sabotadores, como os da rede de Ernst Wollweber, estavam preparados para atacar navios alemes, mas tambm britnicos e franceses. Na ocasio, Moscou encarou a hiptese de utilizar o IRA. Sabotando certos navios de guerra de Sua Majestade, a organizao clandestina camuflaria simultaneamente as operaes soviticas contra os ingleses. O projeto acabou, porm, por fracassar. De tudo isso, Moscou reteve uma certa desconfiana relativamente a esses irlandeses dispostos a todas as alianas para conseguirem o equipamento de que necessitavam, mas que se recusavam categoricamente a pagar por ele o justo preo poltico, submetendo a sua estratgia  de outros. No comeo dos anos 70, o IRA voltou a utilizar armas (e muitas vezes explosivos, que eram a sua especialidade) contra os britnicos, na sequncia da revolta dos guetos catlicos da Irlanda do Norte. Ao contrrio do que afirma uma lenda que persiste, as armas e os explosivos utilizados no provinham, direta ou indiretamente, da URSS. Na realidade, o verdadeiro apoio situava-se e continua a situar-se do outro lado do Atlntico, na comunidade irlan-do-americana.
	A mo de Moscou no , pois, onipresente. Mas nem por isso deixou de desempenhar um papel ativo no apoio a certas formas de terrorismo no Oriente Mdio. Partindo da premissa de que as organizaes palestinas representavam um movimento de libertao nacional comparvel  FLN argelina, logo os soviticos reconheceram publicamente a OLP de Yasser Arafat e o seu principal componente, o El Fatah. Mas a KGB mantinha simultaneamente um olhar atento voltado para uma outra tendncia do nacionalismo palestino, a FPLP (Frente Popular para a Libertao da Palestina) do Dr. Georges Ha-bache. Declarando-se como detentor de um marxismo radical, esse movimento, muito bem estruturado, organizava e reivindicava, sem o menor complexo, atentados terroristas e espetaculares desvios de avies comerciais. Inaugurada em julho de 1968 com o desvio de um Boeing da El Al, e em dezembro com o atentado contra o aeroporto de Atenas, essa estratgia culminou em 1970, pouco antes do esmagamento dos palestinos pelas tropas do rei Hussein da Jordnia. No aeroporto improvisado de Zarka, para onde tinham sido desviados, ficando os seus passageiros retidos como refns, a FPLP fez explodir um Boeing da TWA, um DC-8 da Swissair e um Viscount VC-10 da BOAC.
	Preocupado com essa viragem terrorista demasiado acentuada, um dos quadros da organizao, Nayef Hawatmeh, decidiu-se pela ciso, em 1970-1971, fundando a FDPLP (Frente Democrtica e Popular para a Libertao da Palestina). Em nome do necessrio trabalho de massas e do internacionalismo proletrio, essa organizao, cada vez mais alinhada com posies comunistas ortodoxas, repudiou publicamente o terrorismo que ela prpria havia praticado durante um certo tempo. Assim, a FDPLP parecia, em princpio, o melhor aliado palestino dos comunistas. Mas, paradoxo apenas aparente, a KGB reforou, nessa mesma ocasio, o seu apoio  FPLP. E, como pode-se sempre encontrar algum ainda mais extremista, o Dr. Habache depressa se viu ultrapassado pelo seu brao direito e diretor de operaes, Waddi Haddad, um antigo cirurgio-dentista diplomado pela Universidade Americana de Beirute.
	Um homem de experincia, esse Dr. Haddad. Para Pierre Marion, ex-chefe da DGSE, os servios especiais franceses, Haddad  o verdadeiro inventor do terrorismo moderno: Foi ele que imaginou as estruturas; foi ele quem formou os principais responsveis; foi ele que aperfeioou os mtodos de recrutamento e de formao e foi ele que afinou as tticas e as tcnicas. No final de 1973, incio de 1974, ele separou-se da FPLP para criar a sua prpria estrutura, a FPLP-Cose (FPLP-Comando de Operaes Exteriores), inteiramente dedicado ao terrorismo internacional, enquanto a organizao de Habache se esforava por levar adiante outras atividades, tentativas de operaes de guerrilha contra o exrcito israelita e trabalho de massas nos campos de refugiados palestinos.
	A KGB tomou, no entanto, a deciso de apoi-lo, como se pode comprovar por essa clarssima mensagem datada de 23 de abril de 1974, com a referncia 1071-1/05. Emitida pela KGB, destinava-se a Leonid Brejnev em pessoa:
	O Comit para a Segurana do Estado mantm, desde 1968, contatos efetivos e clandestinos com Waddi Haddad, membro do Bureau Poltico da FPLP, chefe das Operaes Exteriores da FPLP.
	Por ocasio do seu encontro com o chefe da rede da KGB no Lbano, em abril ltimo, Waddi Haddad exps confidencialmente o programa dos projetos de atividades de subverso e de terrorismo da FPLP, cujos pontos essenciais so indicados abaixo.
	Segue-se uma lista dos objetivos visados, atos terroristas e subversivos no territrio de Israel, ataques contra os monoplios de diamantes, atentados contra diplomatas israelitas, sabotagem de instalaes petrolferas e de petroleiros na Arbia Saudita, no Golfo e mesmo em Hong Kong.
	E a KGB precisava:
	W. Haddad pede-nos que ajudemos a sua organizao a obter certos tipos de material especial indispensveis para aes subversivas. Ao colaborar conosco e ao pedir a nossa ajuda, W. Haddad sabe pertinentemente que, em princpio, reprovamos o terror e por isso no nos coloca questes relacionadas com esse aspecto das atividades da FPLP, O carter dos nossos contatos com W. Haddad permite-nos, de certa maneira, controlar as atividades do Servio de Operaes Exteriores, exercer sobre ele uma influncia vantajosa para a Unio Sovitica e realizar, para nosso interesse, atravs das foras dessa organizao, operaes ativas, sempre respeitando o necessrio sigilo.
	Um belo exemplo de linguagem dupla. A concluso era evidente: ao diabo os princpios desde que se possa atingir o adversrio sem se deixar apanhar. Transmitido a Suslov, Podgorny, Kossyguine e Gromyko, o documento foi aprovado a 26 de abril.
	O melhor aluno de Waddi Haddad foi um jovem venezuelano chamado Ilitch Ramirez-Sanchez, mais conhecido sob o pseudnimo de Carlos. Os dois homens foram levados para trabalhar com os remanescentes de um grupo terrorista asitico, o Exrcito Vermelho Japons, cujo itinerrio  muito instrutivo. Criado no final dos anos 60, durante o perodo de radicalizao do movimento estudantil nipnico e no auge da vaga maosta, o EVJ entrou rapidamente em contato com agentes norte-coreanos (existe uma importante comunidade coreana no arquiplago japons). Estes ltimos formaram os seus quadros e forneceram-lhes material, mas no conseguiram impedir o desencadear de uma sangrenta vingana entre dissidentes e ortodoxos, no incio dos anos 70. Uma parte dos quadros do EVJ passou, de armas e bagagens, para o servio dos norte-coreanos; presentemente refugiados em Pyongyang, eles se fazem passar por homens de negcios e de intermedirios com o Ocidente. A outra parte decidiu internacionalizar ainda mais as suas ativida-des, alinhando-se com Waddi Haddad. So, assim, trs membros do EVJ que, sob as ordens da FPLP, executaram a matana do aeroporto de Lod-Tel-Aviv, em maio de 1972, cujo saldo foi de 28 mortos.
	O fato de a FPLP-Cose ter trabalhado intimamente com o banqueiro nazista suo Franois Genoud, o que foi revelado por Pierre Pan em O Extremista, com base nas confisses do prprio Genoud, no incomodava em nada a KGB. Que tambm no via qualquer problema no espetacular desenvolvimento das atividades de Carlos s ordens da FPLP-Cose, primeiro, e, depois, por conta da sua prpria organizao.

	Carlos: relaes com cerca de 15 servios secretos dos pases rabes e pases do Leste

	Conforme ele prprio confessou ao juiz Bruguire, foi em 1969 que Ilitch Ramirez-Sanchez, filho de um advogado venezuelano grande admirador de Lenin (os seus trs filhos chamaram-se sucessivamente Vladimir, Ilitch e Ulianov), encontrou pela primeira vez um membro da FPLP, Rifaat Aboul Aoun. Foi em Moscou, onde o futuro Carlos se aborrecia tremendamente na universidade, estudando Marxismo-Leninismo, Fsica e Qumica. Desiludido com a fraca atividade desenvolvida pelos partidos comunistas latino-americanos, Carlos sentia-se disponvel para uma aventura violenta e radical. Foi o que encontrou no interior da-FPLP-Cose, logo que chegou  Jordnia. Aps um perodo de formao, tornou-se operacional no incio de 1971, navegando facilmente pelos pases da Europa Ocidental graas ao seu aspecto de filho de famlia abastada e cometendo mortferos e espetaculares atentados.
	Em Paris, no dia 27 de junho de 1975, Carlos mata dois policiais da Direo de Vigilncia do Territrio e fere gravemente um terceiro. Em dezembro, lidera um comando de assalto s instalaes vienenses da OPEP, a Organizao dos Pases Exportadores de Petrleo. Balano: trs mortos e uma passagem de avio para a Arglia. Acompanhado pelos membros da sua equipe, alemes oriundos de um movimento esquerdista radical, as Clulas Revolucionrias, dirigidas por Johannes Weinrich, ele vai  Lbia, ao lmen, ao Iraque e  Jugoslvia. E sobretudo  RDA, onde os servios do MfS (Ministerium fur Staatssicherheit, ou seja, Ministrio da Segurana do Estado, ou ainda, mais familiarmente, Stasi) dedicam uma ateno muito especial s atividades desse extremista capaz de executar os golpes mais audaciosos.
	O nome de cdigo da sua organizao para a Stasi era Separai. Em 1980,  enviado ao general Erich Mielke, chefe da Stasi, um dossi ultra-secreto, com um ttulo muito claro: Projeto sobre a atitude a tomar por parte do MfS no tratamento e controle do grupo Carlos. Na opinio de Bernard Violet, autor de urna biografia muito bem documentada/ Weinrich e Kopp (respectivamente o adjunto e a companheira de Carlos) no so, no verdadeiro sentido da palavra, agentes da Stasi. No efetuam misses por conta dessa organizao e no so remunerados para recolherem informaes a favor da RDA. Em compensao, so a passagem obrigatria entre os servios especiais dos alemes orientais e os outros membros do grupo. Violet ainda acrescenta, depois de nomear os seus sucessivos contatos na Alemanha Oriental, os coronis Harry Dahl, Hrst Franz, Gunter Jckel e Helmut Voigt, que Carlos sabia de tudo sobre as relaes que esses seus dois amigos mantinham com aqueles servios.
	Nada disso o impedia de interessar-se por manter contatos bastante estreitos com os romenos, ou de importunar a Segurana de Estado hngara com a sua propenso para fazer de Budapeste a sua base de retaguarda. O seu grupo, rebatizado com o nome de Organizao da Luta Armada para a Libertao rabe (ou brao armado), continuava a multiplicar os mais mortferos atentados. Assim, o coronel Voigt, da Stasi, atribuiu  Separat uma grande parte da responsabilidade no atentado de 25 de agosto de 1983 contra a Casa de Frana de Berlim Ocidental (com dois mortos), cometido, segundo ele, por um outro grupo terrorista ligado ao bloco de Leste e com sede em Beirute, o ESALA (Exrcito Secreto para a Libertao da Armnia).
	Pode parecer surpreendente que o MfS tenha mostrado tanta indulgncia em relao s operaes do seu protegido se ele, o prprio MfS, estivesse envolvido. A deciso foi tomada pela alta cpula da Stasi. Diz-se, mas essa interpretao de carter psicolgico no foi de modo algum provada, que Erich Mielke - o prprio chefe dos grupos de combate do KPO antes da guerra e culpado da morte de dois policiais em Berlim - se reconheceu na personalidade do terrorista venezuelano, bem como na dos membros do Grupo Baader.  sem dvida necessrio ir mais longe, procurando uma convergncia mais objetiva entre os grupos ligados ao terrorismo internacional e o MfS. Nem Mielke nem os dirigentes da Alemanha Oriental nos habituaram a nenhum tipo de sensibilidade romnti-co-revolucionria. Se o grupo Carlos manteve um relacionamento contnuo com cerca de 15 servios secretos de pases socialistas e do mundo rabe, no foi certamente por acaso.

	A indulgncia dos partidos comunistas relativamente aos extremistas do Oriente Mdio no foi exclusivamente reservada a Carlos. Violentamente hostis a Yasser Arafat e  OLP, Abu Nidal e o seu Fatah-Conselho Revolucionrio, ao servio dos iraquianos num primeiro momento e depois aos srios -todos esses tambm foram beneficiados, embora em menor grau, pois eram considerados menos controlveis. O seu chefe, doente, conseguiu mesmo assim ser operado em segredo, protegido pela Cortina de Ferro.
	Uma outra implicao direta dos pases de Leste no terrorismo internacional moderno foi a manipulao da Rote Armee Frakton (RAF - Frao do Exrcito Vermelho -, chamada pela imprensa Grupo Baader) na Alemanha. Nascida da contestao estudantil, essa pequena organizao, formada por cerca de 50 membros diretamente ativos e movimentando cerca de mil pessoas, lanou-se, nos anos 70, num terrorismo demonstrativo, visando especialmente aos interesses americanos. Depois de 1977, quando do assassinato do patro dos patres da Alemanha Ocidental, Hans Martin Schleyer, seguido da morte na priso dos seus chefes, Ulrike Meinhof e Andreas Baader, o grupo encontrou refugio do outro lado do Muro de Berlim, a troco de uma subordinao cada vez mais acentuada  Stasi, da qual passou a ser, de certa forma, o brao armado oculto. Aps a queda do Muro e da reunificao das Alemanhas, os ltimos sobreviventes foram presos no Leste, onde residiam.
	A manipulao de guerrilhas e de grupos terroristas nem sempre  fcil. Exige tato e um sentido poltico muito apurado. Talvez tenha sido por essa razo que, em 1969-1970, a KGB, na pessoa de um dos seus mais brilhantes elementos, Oleg Maximovitch Netchiporenko, e com a ajuda dos nor-te-coreanos, decidiu criar, quase que por inteiro, um movimento sob as suas ordens, o Movimiento de Accin Revolucionaria (MAR), que viria a ser desmantelado pela polcia mexicana em 1971. Certamente, o objetivo de uma manobra to arrojada era pr-se ao abrigo dos exageros, indisciplinas e outras iniciativas infelizes dos grupos castristas e paramaostas. Alguns escaparam ao controle dos seus supostos mentores. A FRAP (Frente Revolucionria Antifascista e Patritica) espanhola flertou durante algum tempo com os chineses, e mais tarde, no incio dos anos 70, com os albaneses, na esperana (que mais tarde se revelaria v) de conseguir armas, tendo-se dissolvido para dar lugar aos GRAPO (Grupos de Resistncia Antifascista de 19 de outubro). Quanto ao Sendero Luminoso peruano, de Abimael Guzman, que originariamente se pretendia como detentor do mais puro maosmo, e especialmente da guerra popular prolongada, ele dedicava, em contrapartida, uma profunda execrao a Deng Xiaoping e aos novos dirigentes de Pequim. Em dezembro de 1983, inclusive, ele tentou atacar a embaixada chinesa de Lima!
	Em casos bastante raros - porque o risco passou a ser demasiado grande na atualidade -, os pases comunistas praticaram, diretamente, atentados terroristas por intermdio dos seus servios especiais. Foi o que aconteceu em 1987, quando uma equipe de dois agentes nortc-coreanos, um velho quadro experimentado, Kim Seung-il, e uma jovem, Kim Hyuon-hee, com trs anos de formao na Academia Militar de Keumsung, abandonaram na escala de Abu Dhabi uma bomba armada dentro de um transistor a bordo de um avio da Korean Air (linha area sul-coreana), de partida para Bangkok. A exploso provocou a morte de 115 pessoas. Desmascarado, Kim Seung-il suicidou-se, enquanto Kim Hyuon-hee, presa, confessou tudo, tendo mesmo escrito um livro, no qual  ainda muito cedo para distinguir a parte da verdade da parte da sombra. Em todo caso, a realidade se impe: a Coreia do Norte  sem dvida, at 1997, o nico pas comunista a praticar de forma sistemtica o terrorismo de Estado.
	
	   TERCEIRA PARTE
	
	   A OUTRA EUROPA VTIMA DO COMUNISMO
	por Andrzej Paczkowski e Karel Bartosek
	
	   1. Polnia, a nao inimiga

	AS REPRESSES SOVITICAS CONTRA OS POLONESES

	Muito provavelmente, os poloneses figuram entre os povos que mais sofreram com as represses das autoridades soviticas, mesmo se consideramos que o aparelho sovitico de terror tenha sido organizado por um polons, Feliks Dzerjinski, e que houve a participao de numerosos de seus concidados no enquadramento dos vrios rgos, como a Vetcheka, o OGPOU e o NKVD. As razes desse privilgio - desse estatuto de nao inimiga - so mltiplas. Decorrem, evidentemente, dos mecanismos especficos de funcionamento do aparelho de represso sovitico, mas a tradicional hostilidade existente entre as duas naes tambm  muito significativa. Tal hostilidade se assenta tanto no passado distante quanto tambm na desconfiana que a Polnia e os poloneses provocavam nos dirigentes soviticos - particularmente em Stalin. Entre 1772 e 1795, a Polnia sofrera trs partilhas territoriais nas quais a parte do leo coube sempre ao imprio czarista. Cansados da opresso russa, os poloneses revoltaram-se por duas vezes, em 1830 e 1863, mas foram severamente reprimidos em ambas as vezes. A partir desse momento, a nobreza e o clero catlico aparecem como os ncleos do patriotismo e da resistncia contra a ocupao estrangeira, tanto russa como prussiana. A guerra de 1914 e a derrocada quase simultnea dos trs imprios - alemo, russo e aus-tro-hngaro - que a oprimiam havia mais de um sculo constituram para a Polnia a ocasio histrica de renascer como nao independente. Um exrcito de voluntrios, comandado por Jozef Pilsudski, aparece ento como motor e a garantia dessa nova independncia, imediatamente se confrontando com a vontade revolucionria de Moscou, a quem Varsvia aparecia como porta a ser imperativamente aberta para que a revoluo se alastrasse at a Alemanha.
	No vero de 1920, Lenin lanou o Exrcito Vermelho sobre Varsvia. A manobra, audaciosa, quase que atinge os seus objetivos, mas a reao nacional polonesa a leva ao fracasso, e os soviticos se vem obrigados a assinar, em 1921, a Paz de Riga, favorvel  Polnia. Stalin, que com a sua indisciplina tinha contribudo fortemente para o insucesso do Exrcito Vermelho, no esqueceria jamais essa afronta, nem os que o criticaram nessa ocasio: Trotski, chefe do Exrcito Vermelho, e o marechal Tukhatchevski, que comandava a fora de combate. Compreende-se assim melhor a desconfiana dos dirigentes soviticos - e sobretudo de Stalin - relativamente  Polnia, aos poloneses e a todos os que tinham contribudo para a sua independncia: a nobreza, o exrcito e a Igreja.
	Os poloneses - fossem cidados soviticos ou no - sofreram integralmente todas as fases do terror stalinista: a caa aos espies, a deskulakiza-o, a luta anti-religiosa e contra as minorias nacionais, o Grande Expurgo, a limpeza das regies fronteirias e das retaguardas do Exrcito Vermelho, as pacificaes destinadas a facilitar a tomada do poder pelos comunistas poloneses, sob todas as formas assumidas pelo terror: trabalho forado nos campos de concentrao, execuo de prisioneiros de guerra e deportao macia dos elementos classificados como socialmente perigosos...

	O caso do POW (Organizao Militar Polonesa) e a operao polonesa do NKVD (1933-1938)

	Em 1924, data em que terminava o repatriamento decorrente da aplicao do Tratado de Riga (1921), cerca de 1.100.000 a 1.200.000 poloneses permaneciam na URSS. A esmagadora maioria (entre 900.000 e 950.000) habitavam na Ucrnia e na Bielo-Rssia. Desse total, 80% descendiam de camponeses deslocados pela colonizao polonesa nos sculos XVII e XVIII. Outras comunidades existiam tambm nas grandes cidades, caso de Kiev ou Minsk. Na Rssia propriamente dita, sobretudo em Moscou e Leningrado, na Transcaucsia e na Sibria viviam 200.000 poloneses. Entre esses contavam-se alguns milhares de comunistas poloneses exilados e outros tantos que haviam participado na revoluo e na guerra civil ao lado dos Vermelhos e que no haviam regressado  Polnia. Os restantes eram sobretudo pessoas provenientes da emigrao econmica, instalados a partir da virada do sculo.
	Apesar da assinatura do tratado de paz em Riga e do reatamento de relaes diplomticas, a tenso entre os dois pases se manteve alta. Se levarmos em conta tanto as memrias suscitadas pela guerra de 1920 entre Polnia e Unio Sovitica assim como o peso terico da fortaleza do proletariado sitiada pelos imperialistas, no  surpreendente a constatao de que inmeros poloneses estiveram entre as vtimas da caa aos espies. Nos anos 1924-1929, muitas centenas foram fuzilados embora apenas alguns tivessem participado de atividades de espionagem. Na ocasio do combate do regime sovitico contra a religio, muitas centenas de religiosos catlicos sofreram perseguies e muitas dezenas foram fuzilados ou desapareceram. Comparada  hecatombe sofrida pela Igreja Ortodoxa russa, essa represso parece pouca coisa, mas significa no entanto o desaparecimento de uma Igreja que era a base da vida espiritual e cultural de centenas de milhares de camponeses poloneses.
	Esses camponeses tambm se contam entre as vtimas da coletivizao. Segundo a classificao oficial em vigor na poca, 20% foram designados como kulaks e um pouco mais como subkulaks. Na Ucrnia, a resistncia dos poloneses foi muito forte e teve de ser vencida pela fora. Segundo dados ainda aproximativos, a populao das regies habitadas pelos poloneses diminuiu em cerca de 25% no ano de 1933. Na Bielo-Rssia, a coletivizao das exploraes agrcolas polonesas foi menos brutal.
	Se no consideramos a represso aos espies poloneses, a lgica das ondas repressivas  evidente, j que decorre da luta de classes (luta contra a religio, coletivizao) tal como ento era concebida. Mas, paralelamente  coletivizao, um outro critrio de represso foi posto em prtica: entre 15 de agosto e 15 de setembro de 1933, as autoridades procederam  priso de cerca de 20 comunistas poloneses, na sua maioria emigrantes, um deles membro do Bureau Poltico do Partido Comunista Polons (KPP). Essas prises acarretaram outras. O seu encadeamento fundamentava-se numa hipottica filiao  organizao de espionagem e sabotagem POW.
	A Organizao Militar Polonesa (POW), fundada em 1915 por Jozef Pilsudski como uma organizao secreta com atividades dirigidas contra a Austria-Hungria e a Alemanha, havia sido encarregada, entre 1918 e 1920, de misses de reconhecimento em territrios que se encontravam em guerra civil, sobretudo na Ucrnia. Em 1921, a sua ao cessou definitivamente. Os seus membros eram majoritariamente pessoas de esquerda, muitos deles filiados ao Partido Socialista Polons (PPS). Alguns tinham rompido com o PPS para se juntarem ao Partido Comunista. Em 1933, a POW deixava de existir. Apesar disso, muitos poloneses foram presos sob a falsa acusao de pertencerem  organizao, condenados  morte e fuzilados (um dos quais foi o conhecido poeta de vanguarda Witold Wandurski), outros morreriam na priso. Os que foram poupados ficaram presos e foram fuzilados mais tarde durante o Grande Expurgo.
	O caso POW alimentou durante anos as lutas internas do KPP: a acusao de agente provocador do POW era to grave como a de trotskis-ta. Mais importante ainda: o OGPU (e depois o GUGB NKVD) organizou durante esse perodo a listagem dos poloneses que trabalhavam na administrao sovitica, no Komintern e no aparelho de Segurana. Fato ainda mais significativo, essas listagens foram completadas por outras com a relao dos poloneses residentes na Ucrnia e na Bielo-Rssia, onde existiam duas regies autnomas polonesas: a primeira, na Ucrnia - batizada Julian-Marchlewski (um dos fundadores do KPP, morto em 1925) -, fora criada em 1925; a segunda, na Bielo-Rssia, organizada em 1932, tinha o nome de Feliks Dzerjinski. Ambas possuam poderes locais prprios, imprensa, teatros, escolas e editoras em polons, constituindo portanto uma Polnia sovitica encravada na URSS.
	Em setembro de 1935, iniciava-se em Kiev, Minsk e Moscou uma nova onda de prises, oficialmente destinada a eliminar a pretensa rede do POW. Simultaneamente, comeava a liquidao das regies autnomas polonesas. Seria no entanto apenas em 1936-1937, com o Grande Expurgo, que se assistiria s prises dos funcionrios do NKVD de origem polonesa. As averiguaes iniciaram-se na cpula da hierarquia da Segurana, alastrando-se depois para as bases. Durante o Plenrio do Comit Central do PCR em junho de 1937, N. lejov afirmou que o POW tinha infiltrado os rgos dos servios de informao e de contra-espionagem soviticos, anunciando que o NKVD descobrira e liquidara a mais importante das redes de espionagem polonesa. Centenas de poloneses encontravam-se j presos, entre eles grande parte dos dirigentes do KPP, e as acusaes que se seguiram baseavam-se em confisses extorquidas pela violncia durante os interrogatrios.
	No vero de 1937, o NKVD lanou uma represso generalizada sobre as minorias nacionais, primeiro contra os alemes, e em seguida contra os poloneses. Em 11 de agosto, lejov assinava a ordem operacional n 00485, que previa a liquidao total [...] das reservas humanas na rede de espionagem polonesa na URSS.
	Uma deciso do NKVD e do Conselho de Comissrios do Povo, de 15 de novembro de 1938, encerrou a operao polonesa que, no entanto, se prolongaria atravs de um expurgo entre os agentes do NKVD que haviam participado na operao. A represso atingiu no apenas os dirigentes do Partido (46 membros e 24 suplentes do Comit Central foram fuzilados) como simples cidados, operrios e sobretudo camponeses. Segundo um relatrio do NKVD, de 10 de julho de 1938, o nmero de detidos de origem polonesa era de 134.519 pessoas, 53% dos quais da Ucrnia e da Bielo-Rssia. Calcula-se que de 40% a 50% tenham sido fuzilados (portanto, entre 50.000 e 67.000 vtimas). Os sobreviventes foram enviados para campos de trabalho ou deportados para o Cazaquisto.
	   Os poloneses representam mais de 10% do cmputo geral das vtimas do Grande Expurgo e cerca de 40% do contingente total das vtimas da operao desencadeada contra as minorias nacionais. Esses so nmeros mnimos, j que milhares de poloneses da Ucrnia e da Bielo-Rssia foram deportados fora do contexto da operao polonesa. No foram apenas os quartos do Hotel Lux onde residiam os comunistas poloneses e os escritrios onde trabalhavam a serem esvaziados, mas sobretudo as aldeias (ou kolkhozes) poloneses.

	Ordem Operacional n 00485, do NKVD da URSS

	Ordeno:
	1. o incio, a partir de 20 de agosto de 1937, de uma ampla operao desti nada  liquidao completa das organizaes locais do PO W, sobretudo dos qua dros de diversionismo e de espionagem, de insurreio na indstria, das comuni caes, nos sovkhozes e nos kolkhozes. A operao deve estar terminada dentro de trs meses, isto , em 20 de novembro de 1937;
	2. a priso: a) dos membros mais ativos do POW (de acordo com a lista anexa), descobertos durante as investigaes e at agora no identificados; b) de todos os prisioneiros de guerra do exrcito polons que permaneceram na URSS; c) dos refugiados poloneses, independentemente do momento da sua chegada  URSS; d) dos imigrantes polticos e dos prisioneiros polticos trocados com a Polnia; e) dos ex-membros do PPS e de outros partidos polticos anti-soviticos; f) dos elementos locais anti-soviticos e dos nacionalistas mais ativos nas regies polonesas;
	3. a organizao da operao de priso em duas fases: a) primeiro,  necess rio proceder  priso dos grupos de indivduos que trabalham no NKVD, no Exrcito Vermelho, nas empresas de armamento, nos departamentos de armamen to das outras empresas nas comunicaes ferrovirias, terrestres, martimas e areas; nos setores energticos de todas as empresas industriais, refinarias e nas empresas de gs; b) segundo,  preciso prender rodos os que trabalham em empresas industriais sem importncia para a segurana do pas, nos sovkhozes, nos kol khozes e nas administraes.
	4. a abertura simultnea dos inquritos. Durante as averiguaes deve ser exercida a presso necessria para desmascarar totalmente os organizadores e diri gentes dos grupos diversionistas, a fim de descobrir a sua rede; a priso imediata de todos os espies, elementos perigosos e grupos diversionistas descobertos atravs das declaraes das pessoas j presas. As averiguaes sero levadas a cabo por um grupo especial de agentes operacionais;
	5. a classificao de todos os presos, ao longo das averiguaes, em duas cate gorias: a)  primeira pertencero todos os membros da rede de espionagem, de diversionismo, de sabotagem e de insurreio, que devem ser fuzilados; b) os da segunda categoria - menos ativa que a primeira - sero passveis de pena de priso ou de encarceramento em campos por prazo de cinco a dez anos. [...]

	O Comissrio do Povo para os Assuntos Internos da URSS,
	O Comissrio-geral da Segurana de Estado.
	N. lejov, Moscou, 11 de agosto de 1937.

	Katyn, prises e deportaes (1939-1941)

	O pacto de no-agresso assinado em 23 de agosto de 1939 entre a URSS e a Alemanha previa, num protocolo secreto, a partilha do territrio polons em esferas de interesse. A ordem de passar  ofensiva contra a Polnia foi dada em 14 de setembro, e trs dias depois o Exrcito Vermelho invadia a Polnia com a ordem de libertar da ocupao fascista polonesa os territrios chamados Bielo-Rssia do Oeste e Ucrnia do Oeste, incorporando-os  URSS. O processo de anexao desenrolou-se rapidamente, acompanhado por medidas de intimidao e de represso. Em 29 de novembro de 1939, o Presidium do Soviete Supremo da URSS atribuiu a cidadania sovitica a todos os residentes nos territrios incorporados. Vilnius e os seus arredores foram cedidos  Repblica da Litunia, que vivia os seus ltimos meses de independncia. Era evidente que o sistema repressivo sovitico ia ser ampliado at as zonas anexadas, j que o receio do aparecimento de organizaes de resistncia se justificava: alguns destacamentos do Exrcito Polons que evitaram a captura j estavam empenhados, desde o outono, na organizao da resistncia. O NKVD enviou tropas numerosas para essas regies e organizou-se para implantar as suas estruturas. Vrias unidades das forcas do Ministrio do Interior e unidades da guarda das fronteiras foram a concentradas. Cabia s novas autoridades resolver o problema colocado pelos prisioneiros de guerra e avaliar a reao da sociedade civil.
	Os militares poloneses constituram a primeira preocupao dos soviticos. Encontravam-se detidos entre 240.000 a 250.000 prisioneiros, entre os quais cerca de 10.000 oficiais. Logo aps a invaso, a URSS adotou as primeiras decises: em 19 de setembro, Lavrenti Beria criou no NKVD (Ordem n. 0308) a Direo dos Prisioneiros de Guerra (Glawnoje Upravlienije po dielam Wojenno-Plennych, GUWP), bem como uma rede de campos especiais de encarceramento. No princpio de outubro, a libertao de simples soldados iniciou-se pouco a pouco, mas 25.000 foram enviados para a construo de estradas, e 12.000 colocados  disposio, como trabalhadores forados, do Comissariado para a Indstria Pesada. Um nmero ainda desconhecido foi disperso em pequenos grupos, nos campos do imenso Gulag. Simultaneamente, foi decidida a criao de dois campos de encarceramento para oficiais em Starobielsk e Kozielsk, assim como um campo especial para policiais, carcereiros e guardas de fronteira em Ostaszkow. Pouco depois, Beria organizava um grupo de operaes especiais encarregado de abrir processos judiciais no interior dos campos. No final de fevereiro de 1940, encontravam-se encarcerados 6.192 policiais (e semelhantes) e 8.376 oficiais do exrcito.
	Moscou hesitou durante vrios meses sobre a sorte que lhes era reservada. Preparou-se a condenao de uma parte dos detidos, a comear pelos do campo de Ostaszkow, que deveriam todos ser acusados de acordo com o artigo 58-13 do Cdigo Penal, artigo que dizia respeito s pessoas que tinham combatido o movimento operrio internacional. Um pequeno esforo de interpretao era suficiente para condenar a esse ttulo cada policial e cada carcereiro polons. As penas previstas iam de cinco a oito anos de campo. Foram igualmente consideradas deportaes para a Sibria, especialmente para Kamtchatka.
	A deciso final foi adotada na segunda metade de fevereiro de 1940, talvez motivada pela evoluo da guerra com a Finlndia. Como se pode avaliar com base em documentos agora tornados pblicos, essa deciso foi antes de tudo inesperada. Em 5 de maro, sob proposta de Beria, o Bureau Poltico decidiu aplicar a pena suprema a todos os prisioneiros de Kozielsk, Starobielsk e Ostaszkow, bem assim como aos cerca de 11.000 poloneses encarcerados nas prises da parte ocidental da Ucrnia e da Bielo-Rssia. (Ver o quadro n 4 no texto de N. Werth, l parte.)
	A sentena foi dada por um tribunal especial, a troika constituda por Ivan L. Basztakov, Bachczo Z. Kobulov e Vsievolod N. Merkulov. A proposta de Beria foi ratificada pelas assinaturas pessoais de Stalin, Vorochilov, Molotov e Mikoian. O oficial de diligncias anotou que Kalinin e Kaganovitch, ausentes, eram favorveis  deciso.

	Testemunho de Stanislaw Swianiewicz, sobrevivente do massacre de Katyn

	Atravs de uma abertura no teto, eu conseguia ver o que se passava l fora [...].  nossa frente, via-se um terreno coberto de erva [...]. O local estava rodeado por um denso cordo de elementos do NKVD, de baioneta em punho.
	Era uma experincia nova. Mesmo na frente de batalha, logo depois de termos sido feitos prisioneiros, as foras que nos escoltavam no colocavam as baio-
	
netas nos fuzis [...]. Um nibus simples chegou ao local. Era pequeno, sobretudo se comparado com os nibus que se vem habitualmente nas cidades ocidentais. As janelas estavam tapadas com cal. Ele devia ter capacidade para cerca de 30 passageiros e a entrada fazia-se pela parte de trs do veculo.
	Perguntamo-nos por que  que as janelas tinham sido tapadas. Ao recuar, o nibus aproximou-se o suficiente do vago vizinho de modo que os prisioneiros pudessem entrar diretamente nele, sem descerem do vago. Os soldados do NKVD, de baioneta em punho, montavam guarda na entrada dos prisioneiros pelos dois lados do veculo [...]. De meia em meia hora o nibus regressava, para carregar um novo grupo. Conseqiientemente, o local para onde os prisioneiros eram transportados no ficava longe [...].
	O coronel do NKVD, um homem muito alto, que me tinha tirado do vago, estava de p no centro do local, com as mos nos bolsos do sobretudo [...]. Era evidente que era ele quem controlava a operao. Mas, em que consistia ela? Devo confessar que nesse momento, iluminado por um belo dia de primavera, a idia de execues no me passou sequer pela cabea [...].
	( l'ombre de Katyn, Institut littraire, 1976.)

	Os preparativos tcnicos demoraram um ms. Durante as seis semanas seguintes, de 3 de abril e 13 de maio, os prisioneiros foram transferidos dos campos em pequenos grupos. De Kozielsk, 4.404 foram transportados para Katyn, onde foram abatidos com uma bala na nuca e sepultados em valas comuns.
	Os prisioneiros de Starobielsk (3.896) foram assassinados nas instalaes do NKVD em Kharkov e sepultados nos subrbios da cidade de Piatichatki. Os do campo de Ostaszkow (6.287) foram executados nas instalaes do UNKVD em Kalinin (hoje Tver) e enterrados na localidade de Miednoje. No total foram liquidadas 14.587 pessoas. Em 9 de junho de 1940, o comandante-adjunto do chefe do NKVD, Vassili V. Czernyszev, escrevia em seu relatrio que os campos se encontravam livres para o acolhimento de novos prisioneiros.
	Os 11.000 prisioneiros referidos por Beria constituam uma pequena parcela da totalidade dos prisioneiros poloneses. Existiam outras categorias. A mais numerosa, a dos biezency, era constituda por pessoas que tinham fugido dos territrios poloneses sob ocupao alem. Dos 145.000 biezency que transitaram pelas prises e instituies de deteno, uma parte foi condenada e deportada para campos de trabalho, outra parte foi libertada. Uma segunda categoria, os pierebiezczyki, incorporava os poloneses detidos quando tentavam fugir para a Litunia, a Hungria ou a Romnia. Alguns foram libertados depois de algumas semanas de deteno, mas cerca de 10.000 pierebiezczyki foram condenados pelos OSO (Osoboi Sovetctchani, Conselho Especial da Polcia) a sentenas de trs a oito anos; eles foram parar no Gulag, sobretudo em Dallag, mas tambm em Kolyma. Enfim, uma parte foi fuzilada, por uma deciso tomada em 5 de maro de 1940. Uma terceira categoria era composta por militantes das redes de resistncia, por oficiais que no tinham sido mobilizados em 1939, por funcionrios da administrao do Estado e das autoridades locais, diversas variedades de pomieszcziki, em suma, por elementos perigosos  sociedade (socjalnoopasnyi). Foi dessa ltima categoria que proveio a maior parte dos 7.305 indivduos que, alm dos 11.000 j mencionados, foram fuzilados com base na deciso de 5 de maro de 1940. O local onde foram enterrados continua desconhecido, sabendo-se apenas que 3.405 foram fuzilados na Ucrnia, e 3.880 na Bielo-Rssia.
	O nmero total da populao carcerria nos territrios incorporados  URSS (incluindo a Litunia, anexada no vero de 1940) no est ainda definitivamente estabelecido, mas em 10 de junho de 1941 encontravam-se nas prises do oeste da Ucrnia e da Bielo-Rssia 39.600 prisioneiros (destes, 12.000 j julgados). O nmero havia duplicado relativamente a maro de 1940. A proporo criminosos/polticos permanece ainda desconhecida.
	Depois do ataque alemo  URSS, todos eles conheceram um destino muitas vezes cruel. Apenas nas prises da Ucrnia Ocidental, cerca de 6.000 pessoas foram executadas, sendo pouco provvel que elas tenham sido previamente julgadas e condenadas  morte. Os relatrios do NKVD se referem a essas operaes de liquidao como diminuio do nmero de pessoas classificadas na primeira categoria. Algumas centenas de pessoas foram monas por terem tentado fugir de um comboio. Em um desses casos, o comandante de um dos comboios assumiu a responsabilidade pessoal pela ordem de execuo de 714 presos (500 dos quais ainda no haviam sido apresentados a nenhum tribunal). Muitos foram pessoalmente executados por ele.
	Os territrios anexados  URSS sofreram uma poltica de deportaes macias. O termo deportao engloba quatro grandes operaes, mas  necessrio lembrar que as deportaes de famlias ou de pequenos grupos tiveram incio logo em novembro de 1939 e que o nmero dos atingidos permanece desconhecido. O mesmo acontece com os expulsos da Bessarbia e das regies orientais da Bielo-Rssia e da Ucrnia durante a segunda metade de 1940. Os historiadores no conseguiram ainda definir os nmeros exatos. At h pouco tempo, os nmeros de base provinham de estimativas calculadas pela resistncia polonesa ou pela embaixada da Polnia em 1941. Depois da abertura dos arquivos do NKVD, a maior parte dos investigadores considera que esses ltimos dados so fiveis, mas que devem ser vistos como nmeros mnimos a serem reavaliados.
	A primeira onda de deportaes foi desencadeada em 10 de fevereiro de 1940, na sequncia da deciso tomada pelo Conselho dos Comissrios do Povo, em 5 de dezembro de 1939. Os preparativos, principalmente o reconhecimento do terreno e a elaborao das listas, demoraram dois meses. Os organizadores da deportao confrontaram-se com inmeros obstculos tcnicos, entre os quais o nmero muito limitado de vias frreas adaptadas  largura dos trens soviticos. O conjunto da operao foi colocado sob o comando de um adjunto de Beria, Merkulov, que se deslocou para o local, o que indica a importncia que a operao apresentava para os soviticos. A deportao de fevereiro de 1940 incidiu especialmente sobre os camponeses, os habitantes das aldeias, os colonos poloneses instalados nestas regies decorrentes de uma poltica de polonizao e sobre os guardas florestais. Segundo dados provenientes do NKVD, cerca de 140.000 pessoas foram deportadas, 82% das quais eram poloneses. A operao incluiu tambm guardas florestais ucranianos e bielo-russos. Os comboios de deportados tinham como destino o norte da Rssia, a Repblica dos Komis e a Sibria Ocidental.
	No mesmo momento em que o Kremlin decidiu a execuo de prisioneiros, o Conselho dos Comissrios do Povo (SNK) decretou, em 2 de maro de 1940, novas deportaes. Dessa vez dirigidas contra as famlias dos prisioneiros que a sofreram - ao mesmo tempo em que os seus maridos e pais eram executados - na companhia de elementos perigosos  sociedade. De acordo com documentao do NKVD, cerca de 60.000 pessoas foram deportadas, na sua grande maioria para o Cazaquisto, numa situao dramtica de fome e de frio hoje bem conhecida graas aos testemunhos presentemente disponveis.

	Extraio de Trptico Kazaque: Memrias de Deportao (Varsvia, 1992)

	Lucyna Dziurzynska-Suchon: Lembro-me de um dos momentos mais dramticos da nossa vida. Durante vrios dias no tnhamos comido nada, literalmente nada. Era inverno. A cabana estava toda coberta de neve. Apenas podamos sair graas a um tnel escavado por algum do exterior [...]. Mame pde ir trabalhar. Tinha tanta fome quanto ns. Ficvamos deitados numa cama miservel, encostados uns aos outros para termos um pouco de calor. Pequenas luzes cintilavam em nossos olhos. J no tnhamos foras para nos levantarmos. O frio era intenso,
	
mesmo l dentro [...]. Passvamos o tempo adormecidos. O meu irmo acordava de tempos a tempos e gritava: 'Tenho fome' e 'Mame, estou morrendo'. Ele no conseguia dizer mais nada. A nossa me chorava. Foi pedir ajuda nas cabanas vizinhas, aos nossos amigos. Sem resultado. Comeamos a rezar... 'Pai Nosso... E talvez tenha acontecido um milagre. Uma amiga, vizinha, apareceu com uma mo cheia de farinha de trigo [...].

	A terceira operao, decorrente tambm da mesma deciso do SNK, desenrolou-se durante a noite de 28 para 29 de junho de 1940, incidindo sobre todos os que no residiam nos territrios anexados antes de setembro de 1939 e que no tinham cruzado a fronteira sovieto-alem estabelecida pelas duas potncias ocupantes. Os que eram apanhados fugindo numa das duas zonas ocupadas deviam regressar  sua zona; foi assim que 60.000 indivduos, entre eles 1.500 judeus, regressaram a zona do Governo Geral Alemo. Dos 80.000 deportados durante essa terceira operao, 84% eram judeus que, ao escaparem ao massacre perpetrado pelos Einsatzgruppen durante o vero de 1941, eram depois enviados para o Gulag.
	A quarta e ltima operao de deportao comeou em 22 de maio de 1941, por deciso do Comit Central do Partido Comunista da URSS e do Conselho dos Comissrios do Povo de 14 de maio. O seu objetivo era o de limpar de elementos indesejveis a regio fronteiria e as repblicas blti-cas. Os deportados pertenciam  categoria zsylposielency, isto , dos condenados a 20 anos de residncia forada em regies especiais, sobretudo no Cazaquisto. Essa ltima operao atingiu - excetuando a Letnia, a Estnia e a Litunia - 86.000 pessoas.
	De acordo com os dados do NKVD, o nmero de deportados soma assim entre 330.000 e 340.000 indivduos. Tendo-se em conta todos os dados, o nmero de vtimas da represso eleva-se a 400.000 ou 500.000 pessoas. Houve alguns grupos que foram enviados aos confins da URSS, como aconteceu aos 100.000 jovens obrigados a trabalhar para a indstria sovitica (sobretudo nas minas de carvo de Donetsk, dos Urais e da Sibria Ocidental) ou aos 150.000 jovens mobilizados nos batalhes de trabalho (strojbata-liony) do Exrcito Vermelho.
	Durante os dois anos de poder sovitico na Polnia anexada, um milho de pessoas, isto , um em cada dez cidados, foram vtimas da represso sob as suas variadas formas: execues, prises, campos de encarceramento, deportaes, trabalhos semiforados. No menos de 30.000 pessoas foram fuziladas, s quais se devem acrescentar entre 90.000 e 100.000 mortos nos campos de encarceramento ou no decorrer de transporte de comboio, estimados entre 8% e 10% dos deportados.

	   O NKVD contra a Armia Krajowa (Exrcito Nacional)
	
	   Na noite de 4 para 5 de janeiro de 1944, os primeiros tanques do Exrcito Vermelho cruzaram a fronteira entre a Polnia e a URSS, estabelecida em 1921. Na realidade, essa fronteira j no era reconhecida nem por Moscou nem pelas potncias ocidentais e, desde a descoberta do crime de Katyn, a URSS havia cessado todas as relaes diplomticas com o Governo legal polons exilado em Londres, sob pretexto de que este ltimo havia solicitado um inqurito internacional sob a alada da Cruz Vermelha, pedido que coincidiu por mero acaso com um procedimento similar apresentado pelas autoridades alems. A resistncia polonesa previa que,  medida que o AK (Exrcito Nacional) se aproximasse da frente, mobilizaria a populao, desencadearia o combate contra os alemes e, aps a chegada do Exrcito Vermelho, viria ao seu encontro como autoridade legtima. A operao recebeu o nome de cdigo Burza (Tempestade). Os primeiros combates foram travados no fim de maro de 1944, em Volhynie, onde o comandante da diviso do AK lutou lado a lado com as unidades soviticas. Porm, em 27 de maio, algumas das unidades do AK foram foradas pelo Exrcito Vermelho a depor suas armas, o que obrigou o grosso dos efetivos da diviso a recuar em direo  Polnia, ao mesmo tempo que combatia os alemes.
	Esta atuao dos soviticos - primeiro cooperao a nvel local, seguida de desarmamento forado dos poloneses - est confirmada tambm em outros casos. Os acontecimentos mais espetaculares ocorreram na regio de Vilnius. Alguns dias depois do fim dos combates, chegaram contingentes das Unidades Internas do NKVD e (conforme a Ordem n. 220-145 emitida pelo Comando-Geral) conduziram uma operao de desarmamento dos soldados do AK. Segundo relatrio recebido por Stalin, em 20 de julho, mais de 6.000 resistentes foram presos, enquanto cerca de l.000 conseguiram fugir. O esta-do-maior dessas unidades de resistncia polonesas foi preso. Os oficiais foram encarcerados em campos do NKVD, que ofereceu aos soldados a escolha entre o aprisionamento ou a integrao ao exrcito polons constitudo sob a gide dos soviticos e comandado pelo general Zygmunt Berling. As unidades do AK que participaram na libertao de Lvov tiveram o mesmo destino. Esses acontecimentos desenrolaram-se em territrio que Moscou considerava parte integrante da URSS.
	Em 1. de agosto de 1944 os comandantes do AK desencadearam a insurreio em Varsvia, cuja tomada fora planejada pelo Exrcito Vermelho (frente da Bielo-Rssia) para 8 de agosto. Stalin deu ordem para que a ofensiva fosse suspensa, j com o Vstula transposto ao sul de Varsvia, e deixou os alemes aniquilarem os revoltosos, que resistiram at 2 de outubro.
	A oeste da linha de Curzon, onde o AK mobilizara entre 30.000 e 40.000 soldados e libertara numerosas pequenas localidades, as unidades do NKVD e do SMERSCH (a contra-espionagem militar) e unidades de filtragem procederam de forma idntica, obedecendo  Ordem n 220169, de 1 de agosto de 1944, oriunda do comando supremo das operaes militares. Segundo relatrio datado de outubro e que resume a execuo da diretiva, cerca de 25.000 militares do AK, entre eles 300 oficiais, foram desarmados, presos e depois encarcerados.
	As unidades do NKVD e os grupos operacionais do SMERSCH dispunham de prises e campos de encarceramento prprios, onde foram detidos no somente os resistentes poloneses como os Volkdeutsches^ e os prisioneiros alemes. Os oficiais e soldados que se recusaram a combater no exrcito de Berling foram enviados, como os seus camaradas de Vilnius e Lvov, para os confins do Gulag. O nmero exato dos participantes na operao Burza, que foram aprisionados pelos soviticos, continua at hoje desconhecido. As estimativas variam entre 25.000 e 30.000 soldados. Os territrios novamente anexados pela URSS no outono de 1944 sofreram tambm prises em massa, em particular condenaes e deportaes para o Gulag, ou ento transferncias para trabalhos forados, geralmente para a zona do Donetsk. Na verdade, a maior parte dos deportados eram ucranianos, mas calcula-se que a represso atingiu no mnimo algumas dezenas de milhares de poloneses.
	As atividades do NKVD e do SMERSCH no cessaram com a disperso da maior parte das unidades mobilizadas pelo AK. Em 15 de outubro de 1944, Beria assinava a Ordem n. 0012266/44, que decidia a formao de uma diviso especial destinada a estacionar na Polnia (a Diviso 64, conhecida como a dos franco-atiradores). Nas regies fronteirias, as unidades do NKVD da Bielo-Rssia e da Ucrnia ajudaram as aes executadas do outro lado da fronteira. A partir da formao dessa diviso no final de 1944, 17.000 pessoas foram presas e 4.000 dentre elas foram deportadas para longnquos campos soviticos. As unidades soviticas - subordinadas a partir de 1 de maro de 1945 ao conselheiro-geral do NKVD. junto do Ministrio Polons da Segurana Pblica, general Ivan Serov - permaneceram na Polnia at a primavera de 1947. Elas representaram, at agosto-setembro de 1945, o principal agente de limpeza nas zonas de interveno dos resistentes indepen-dentistas. Entre janeiro de 1945 e agosto de 1946, foram presos 3.400 combatentes de diversos grupos da resistncia - a maior parte foi deportada, outros foram entregues s autoridades polonesas - e 47.000 investigados.
	   Posteriormente  entrada do Exrcito Vermelho nas regies polonesas anexadas em 1939 pela Alemanha, verificou-se no apenas a priso dos Volkdeutsch, como tambm a dos poloneses que sob presso alem haviam assinado a pretensa III lista nacional (os Eingdeutsche). Pelo menos entre 25.000 e 30.000 civis residentes na Pomernia e na Alta-Silsia foram deportados para a URSS, entre eles 15.000 mineiros enviados para os campos do Donbass e para a Sibria Ocidental.
	No entanto, o NKVD no se limitou  represso em massa,  caa aos homens e s pacificaes. No final do vero de 1944, o SMERSCH tinha j instalado na Polnia grupos de operaes locais funcionando regularmente, sobretudo no recrutamento de informantes. A operao mais conhecida comandada diretamente pelo general do NKVD, Ivan Serov, foi a priso de 16 dirigentes clandestinos do Estado polons: o comandante do AK, o vice-pri-meiro-ministro do governo clandestino, trs dos seus adjuntos e vrios membros do Conselho de Unidade Nacional (quase que um parlamento clandestino) organizado durante a ocupao alem. Em 22 de fevereiro de 1945, esse Conselho tinha protestado contra os acordos de Yalta, afirmando ao mesmo tempo a sua disponibilidade para negociar diretamente com os soviticos. O general Ivan Serov respondeu  proposta convidando os dirigentes na clandestinidade para um encontro. Foram presos no preciso momento em que se apresentavam no local combinado (em Pruszkow, nos arredores de Varsvia) e transportados diretamente, em 28 de maro de 1945, para a priso de Lubianka, em Moscou. Em 19 de junho, depois de instruo que durou algumas semanas, o processo pblico teve incio na Sala das Colunas do Palcio dos Sindicatos, onde foram realizados os grandes processos anteriores  guerra. Simultaneamente, tambm em Moscou, aconteciam conversaes entre as autoridades polonesas pr-soviticas e representantes das forcas democrticas polonesas (que na ocasio tambm se declararam dispostos a negociar diretamente com a URSS) sobre as clusulas dos acordos de Yalta relativas  Polnia. A sentena do processo foi pronunciada no mesmo dia em que as trs superpotncias (EUA, URSS e Gr-Bretanha) ratificaram o acordo conseguido entre os diferentes partidos poloneses para a formao de um governo de coalizo, no qual os comunistas e as suas organizaes satlites dispunham de uma esmagadora maioria. As penas pronunciadas - de at dez anos de cadeia - pareciam moderadas, mas trs dos condenados nunca mais regressaram  Polnia. O general-comandante do AK, Leopold Okulicki, morreu na priso em dezembro de 1946.
	
	   BIBLIOGRAFIA

	Apenas so referidos os trabalhos gerais mais recentes e mais completos, assim como as publicaes de documentos escolhidos, baseados nos arquivos soviticos recentemente abertos. As Memrias, muito abundantes, no so pois citadas.
	- Exrcito Nacional O Eplogo Dramtico, red. K. Komorowski, Varsvia, 1994.
	- S. Ciesielski, G. Hryciuk, A. Srebakowski, As Deportaes em Massa Soviticas durante a Segunda Guerra Mundial, Wroclaw, 1994 (em particular o captulo Deportaes da Populao Polonesa, pp. 26-82).
	- Jan T. Gross. Revolution from Abroad. The Soviet Conquest of Poland's Western Ukraineand Western Bielorussia, Princeton, 1988.
	- Mikolaj Iwanow, A Primeira Nao Punida. Os Poloneses da URSS, 1921-1939, Varsvia, 1991.
	- A Mo de lejov, Karta, revista histrica independente, n<? 11 (especial), 1993.
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	- NKWD i polskoje podpolje 1944-1945 (Po osobym papkam J. W. Stalina), red. A. F. Noskowa, Moscou, 1994.
	- O NKVD, a Polnia e os Poloneses. Reconhecimento nos Arquivos, red. W. Materski, A. Paczkowski, Varsvia, 1996.
	- Kopinski, A. Kokurin, A. Gurjanow. Rotas da Morte. A Evacuao das Prises Soviticas dos Confins do Leste da II Repblica em Junho e Julho de 1941, Varsvia, 1995.
	- O Processo dos Dezesseis. Documentos do NKVD, red. A. Chmielarz, A. K. Kunert, Varsvia, 1995.
	- Izabela Sariusz-Skapska, As Testemunhas Polonesas do Gulag. Literatura dos Campos 	Soviticos 1939-1989, Cracvia, 1995--J. Siedlecki, O Destino dos Poloneses na URSS durante os Anos 1939-1986, Londres, 1987. 
	   - A Tragdia do Partido Comunista Polons, red. Jarema Maciszewski, Varsvia, 1989.
	- P. Zaron, Os Campos de Prisioneiros Poloneses na URSS nos Anos 1939-1941, Varsvia, 1994.
	
	   POLNIA 1944-1989: O SISTEMA DE REPRESSO

	A intensidade da represso sovitica e as formas de que se revestiu seguiram a evoluo do sistema poltico. Dize-me qual o tipo de represso, e te direi a que fase do comunismo ela corresponde, poderamos afirmar, parafraseando um conhecido provrbio popular.
	A descrio e a anlise do sistema repressivo confrontam-se com dois grandes problemas: 1) trata-se de um domnio muito secreto, e em consequncia muitos dos dossis continuam ainda inacessveis; e 2) analisar o passado apenas do ponto de vista da represso pode resultar no perigo de se olhar o sistema comunista sob uma perspectiva deformada, j que o sistema dispunha de outros recursos, mesmo nos perodos mais repressivos. Um fato reveste, no entanto, importncia capital em qualquer tentativa de avaliao do regime e das suas razes ideolgicas: a centralizao do aparelho de represso no sistema. Durante os 45 anos de monoplio de poder do Partido Comunista distinguem-se cinco fases de represso. Todas apresentam uma caracterstica comum: baseiam-se na existncia de uma polcia poltica  disposio do centro de deciso do Partido ou de alguns dos seus responsveis.

	 conquista do Estado ou o terror de massa (1944-1947)

	No plano interno, os alicerces do Estado comunista foram construdos graas  presena do Exrcito Vermelho. No plano das relaes internacionais, o protetorado de Stalin revestiu uma importncia decisiva. O papel desempenhado pelo aparelho de segurana sovitico no se limitou ao combate aos adversrios do novo poder, e a organizao do NKVD/KGB serviu, com algumas poucas mas importantes modificaes, de modelo aos comunistas poloneses formados pela escola de oficiais do NKVD de Kuibychev. Alm disso, deve-se acrescentar a organizao de um corpo de algumas centenas de conselheiros (ou sovietniks, chefiados pelo conselheiro-geral, o general Serov), verdadeira duplicao dos servios poloneses. Atravs da rede de peritos soviticos, os chefes da Lubianka tinham acesso a todos os dados que lhes podiam ser teis, o que dispensava Moscou de ter na Polnia o seu prprio sistema de informao. Para alm de interesses polticos e ideolgicos comuns ao aparelho sovitico, o aparelho polons de segurana fazia, desse ponto de vista, parte integrante do aparelho sovitico. O fato torna-se ainda mais evidente no que se refere ao sistema polons de contra-espionagem militar.
	Os comunistas constituam na Polnia um grupo marginal sem qualquer possibilidade de ascender ao poder pela via democrtica. Eram to malvistos que a maioria dos poloneses, tradicionalmente desconfiada ou mesmo hostil  URSS - sobretudo  Rssia -, conhecia j a amarga experincia de uma libertao pelo Exrcito Vermelho. Durante os anos iniciais do ps-guerra, os sustentculos dessa resistncia eram a guerrilha, a clandestinidade poltica e os partidos legais (entre os quais apenas o Partido Campons Polons, PSL, era verdadeiramente relevante). A prioridade definida pelo novo poder foi a de esmagar a resistncia polonesa e conquistar o Estado. Fato muito significativo, o primeiro representante do Comit de Libertao Nacional (fundado em Moscou em 21 de julho de 1944) a aparecer em pblico na Polnia foi o ministro da Segurana Pblica: Stanislaw Radkiewicz. O aparelho da Segurana (designado a partir de 1945 por Ministrio da Segurana Pblica, MBP) demorou um ano a se organizar para que pudesse assumir o essencial do trabalho de consolidao de um poder que fora conquistado pelo Exrcito Vermelho e pelo NKVD. No decorrer do segundo trimestre de 1945, o MBP desenvolvera j uma estrutura operacional que empregava mais de 20.000 funcionrios (excluindo a milcia), e o ministrio dispunha ainda de uma formao militar: o Grupo de Segurana Interna (KBW), com cerca de 30.000 soldados. A guerra contra a resistncia clandestina armada (intensa at 1947 e extinta apenas no incio dos anos 50) foi sangrenta e brutal. A expresso guerra civil no merece no entanto a concordncia do conjunto de historiadores poloneses, dada a presena, em solo polons, de foras soviticas (militares e NKVD).
	O aparelho da Segurana utilizou um extenso leque de mtodos que iam da infiltrao e provocao at a pacificao de territrios inteiros. Dispunha tambm de vantagem material absoluta - sistema de comunicaes, armamento, possibilidade de mobilizao do KBW - que utilizou de forma impiedosa. Um exemplo: segundo o Departamento III, encarregado da luta contra a resistncia anticomunista, 1.486 pessoas morreram em 1947 nos confrontos, enquanto as perdas das foras comunistas atingiram apenas 136 pessoas'. As grandes operaes de pacificao eram executadas no apenas pelas unidades do KBW, como tambm pelas do exrcito, destacadas exclusivamente para esse objetivo. O nmero de adversrios do poder mortos durante combates de 1945 a 1948 elevou-se a cerca de 8.700 indivduos. O conjunto das operaes era dirigido pela Comisso do Estado para a Segurana, presidida pelos ministros da Segurana e da Defesa. Se necessrio, eram organizadas deportaes em massa. Assim, foi resolvido o problema colocado pela resistncia ucraniana no Sudeste polons: entre abril e julho de 1947, os ucranianos da Polnia (cerca de 140.000 pessoas) foram deportados durante a operao Wisla (Vstula) e dispersos nos antigos territrios alemes situados a norte e a oeste do pas.
	Os arquivos da Segurana so frteis em aes cuidadosamente preparadas: a fraude em massa na ocasio do referendo de junho de 1946, a preparao das eleies de janeiro de 1947 (isto , a intensa campanha de propaganda que as precedeu), as milhares de prises (efetuadas sobretudo nas zonas rurais), o recurso  fraude sistemtica e o desenvolvimento de uma rede de colaboradores (em 1 de janeiro 1946 eram cerca de 17.500). A atuao da estrutura de segurana caracterizou-se sobretudo pela brutalidade, apesar de faltarem ainda dados precisos sobre o nmero de detidos. Em 1947, cerca de 32.800 pessoas (grande parte eram criminosos de direito comum) foram presas pelo Departamento III; o Departamento IV, que vigiava a segurana das indstrias, foi responsvel pela priso de cerca de 4.500 pessoas, e, durante as semanas que precederam as eleies, entre 50.000 e 60.000 militantes do Partido Campons (PSL) foram presos pelos diversos departamentos do MBP, da milcia, do KBW e do exrcito. Numerosos casos de assassinatos so conhecidos, alguns diretamente encomendados pelos Comits locais do Partido Comunista.
	Os interrogatrios eram conduzidos com grande brutalidade: espancamento e tortura eram moeda corrente, e as condies de priso, inumanas.

	Kazimierz Moczarski
	Prisioneiro condenado  priso perptua
	(Art. 2. do decreto de 31 de agosto de 1944)
	Sztum, priso central 
	   23 de fevereiro de 1955 
	   
	   Supremo Tribunal Cmara Penal 
	   Ref.: III K 161/52

	Na sequncia do pedido excepcional de reabertura e reviso do meu processo, apresentado j pelos meus advogados [...], declaro:
	Durante a investigao conduzida pelo oficial do ex-Ministrio da Segurana Pblica, fui sujeito, de 9 de janeiro de 1949 a 6 de junho de 1951, a 49 tipos de agresses e de tortura, entre os quais posso revelar os seguintes:
	1 - Golpes com cassetete de borracha em partes particularmente sensveis do corpo (base do nariz, queixo, glndulas salivares e partes salientes, como as omoplatas).
	2 - Chicotadas, administradas com chicote coberto por um tipo de borracha colante, nas solas dos ps nus, e sobretudo nos artelhos - mtodo bastante doloroso.
	3 - Pancadas com cassetete de borracha nos calcanhares (srie de 10 em cada calcanhar, vrias vezes ao dia).
	4 - Cabelos arrancados nas tmporas e na nuca (depenar o ganso), da barba, do peito, do perneo e dos rgos sexuais.
	5 - Queimadura com cigarros nos lbios e nos olhos.
	6 - Queimadura dos dedos das duas mos.
	7 - Privao de sono: durante sete a nove dias o preso era obrigado a permanecer de p na cela escurecida, sendo acordado com murros na cara [...]. Essemtodo, denominado praia ou Zakopane pelos oficiais instrutores do processo, provocava um estado prximo da demncia; o preso sofria de alucinaes:vises com cores e som, prximas das provocadas pela mescalina e pelo peiote.
	Alm disso, devo destacar que durante seis anos e trs meses fui privado do direito ao passeio dirio. Durante cerca de dois anos e dez meses no tomei banho; permaneci em isolamento durante cerca de quatro anos e meio, sem qualquer possibilidade de contato com o mundo exterior (sem notcias da minha famlia, sem correio, sem livros, sem jornais, etc.).
	As torturas e tormentos a que me referi foram infligidos, entre outros, pelo tenente-coronel Dusza Jozef, pelo comandante Kaskiewicz Jerzy e pelo capito Chimczak Eugeniusz no intuito de me aterrorizarem e de me extorquirem confisses falsas mas necessrias para confirmar a linha das investigaes e das acusaes anteriormente feitas.
	Eles agiam sob as ordens do coronel Rozanski e do coronel Fejgin, e o vice-ministro, general Romkowski, me disse, em 30 de novembro de 1948, e na presena do coronel Rozanski, que eu iria ser alvo de uma investigao infernal, o que efetivamente se veio a verificar [...].
	(Cahiers historiques, n 53, Paris, 1980)

	Resistente antinazista detido em 1945, Kazimierz Moczarski ficou preso durante cerca de 225 dias na mesma cela que o general das SS Jrgen Stroop, que comandou a liquidao do Gueto de Varsvia em 1943. Libertado, ele pde relatar esse confronto. (Ver Entretiens avec l bourreau, Gallimard, 1979.)

	Em muitos casos, as autoridades no se contentavam com uma condenao sumria, mas encenavam processos abertos durante os quais um pblico escolhido a dedo humilhava os condenados e mostrava o pretendido dio do povo para com eles. A data de certos processos era fixada em funo das necessidades do poder, a fim de reforar o efeito da propaganda. Foi o caso, entre outros, do processo do mais importante dos grupos clandestinos (WiN, Liberdade e Independncia). Os acusados aguardaram julgamento entre novembro de 1945 e janeiro de 1947, ou seja, at uma semana antes das eleies. Outro procedimento: os combatentes da resistncia eram condenados como colaboracionistas. A lgica comunista baseava-se no princpio de que os que no so por mim so contra mim. Assim, a principal forca de resistncia organizada contra os alemes, o Exrcito Nacional (AK), que no tinha lutado ao lado dos soviticos contra os alemes, era considerado um aliado de Hitler. Para dar peso a essa afirmao inqua, os funcionrios da Gestapo detidos produziam confisses falsas, que serviam de base a condenaes de poloneses. Um dos mais escandalosos crimes judiciais desse tipo verificou-se em 1948, com o processo de Witold Pilecki (ver caixa). A principal acusao referia espionagem por conta de uma potncia estrangeira, nesse caso o exrcito polons no estrangeiro.

	Witold Pilecki

	Nascido em 1901, Witold Pilecki participou em 1920 da defesa de Wilno contra os bolcheviques. Proprietrio rural e oficial da reserva, organizou os pelotes de cavalaria que integraram o exrcito em 1939. Desde a derrota da Polnia, fundou uma das primeiras organizaes clandestinas de resistncia: o Exrcito Polons Secreto (juramento de 10 de novembro de 1939). Em 1940, por iniciativa pessoal, mas com o acordo dos seus superiores no AK, provocou a sua prpria priso com o intuito de ser enviado para o campo de concentrao de Auschwitz (matrcula n 4859), onde criou uma rede de resistncia. Conseguiu fugir em abril de 1943, prosseguindo as suas atividades clandestinas, principalmente na organizao Niepodlegosc (Independncia) e participou da insurreio de Varsvia. Depois da capitulao da cidade, foi aprisionado no oflag de Murnau. Libertado, foi incorporado ao 29 corpo do exrcito do general Anders. Durante o outono de 1945, regressou  Polnia para se juntar ao movimento clandestino. Organizou ento uma rede restrita e eficaz que recolhia informaes sobre a bolchevizao do pas e transmitia-as ao general Anders. Preso em 5 de maio de 1947, foi torturado e condenado por trs vezes  morte em 15 de maro de 1948. Witold Pilecki foi executado em 25 de maio com uma bala na nuca. Foi reabilitado em 1990.

	A direo do Partido decidia ela prpria as sentenas pronunciadas nos principais processos. Detinha tambm o poder de nomeao para os postos-chave do aparelho de segurana.
	Toda a resistncia organizada e coordenada foi quebrada no outono de 1947. Depois da fuga de vrios dirigentes do PSL e da priso do quarto comandante do WiN, as estruturas de resistncia desapareceram em escala nacional. A situao poltica comeava a estabilizar-se: exangue e extenuada pelos anos consecutivos de guerra, a sociedade civil perdera toda e qualquer esperana nos governos ocidentais. A necessidade de adaptao  realidade, mesmo que imposta e odiada, fazia-se cada vez mais presente. O golpe de Estado comunista na Tchecoslovquia, em fevereiro de 1948, reforou o domnio de Moscou sobre a Europa Central e o Leste Europeu. O Partido Comunista preparava a fuso com o seu principal aliado, o Partido Socialista.  melhoria da situao econmica e aos progressos na reconstruo do pas juntava-se a colonizao dos antigos territrios alemes, que absorvia a ateno da opinio pblica. Todos esses fatores permitiram ao Partido Comunista passar  fase seguinte: a sovietzao da Polnia e a submisso da sociedade civil. Logicamente, o MBP pensou ento na reduo do seu pessoal, e o nmero dos seus agentes e colaboradores secretos (45.000 naquela poca) comeou a diminuir.

	A sociedade como objetivo de conquista ou o terror generalizado (1948-1956)

	Depois do golpe de Praga e da marginalizao de Tito pelo movimento comunista internacional, os pases do Bloco do Leste conheceram transformaes anlogas, como a absoro dos partidos socialistas pelos partidos comunistas, a constituio (de jure ou de facto) de um sistema de partido nico, uma centralizao total da gesto econmica, uma industrializao acelerada segundo o modelo dos planos quinquenais stalinistas, o comeo da coletivizao da agricultura, uma intensificao da luta contra a Igreja, etc. O terror de massa banalizou-se e generalizou-se.
	Nos anos de 1945-1947, milhares de pessoas sem qualquer atividade de oposio, legal ou clandestina, foram vtimas de pacificaes ou de operaes preventivas, mas a principal mquina repressiva estava voltada para os adversrios concretos e realmente ativos do PPR (Partido Operrio Polons). A partir de 1948, o objetivo prioritrio do aparelho da Segurana foi o de aterrorizar e de subjugar a sociedade no seu conjunto, inclusive os grupos ou meios que apoiavam o regime com maior ou menor grau de entusiasmo. Passou-se para a prtica do terror global, na qual qualquer um se podia transformar em objeto do interesse ativo da Segurana, ou seja, em sua vtima.  caracterstica fundamental dessa nova fase foi que a represso podia atingir igualmente um dirigente do Partido Comunista ou do Estado. Mesmo se alguns altos funcionrios do MBP apelavam j em 1947 para a intensificao da vigilncia revolucionria, foi apenas durante o vero de 1948 que essa palavra de ordem se torna a pedra de toque das atividades da Segurana, de acordo com a tese stalinista da intensificao da luta de classes.
	O ponto de partida foi o conflito com Tito, que na Europa Central e no Leste Europeu teve um papel idntico ao que tinha sido desempenhado pela luta contra o trotskismo na URSS. Na Polnia, essa questo apareceu em agosto-setembro de 1948, com a crtica do desvio nacionalista de direita personificado pelo secretrio-geral do PPR, Wladyslaw Gomulka. As primeiras prises, em meados de outubro, no atingiram ainda os seus colaboradores diretos, mas todos os que conheciam os processos de Moscou nos anos 30 estavam conscientes de que as prises em cadeia iriam chegar  cpula do aparelho.
	Neste sistema repressivo generalizado, as aes visando os prprios comunistas constituram uma proporo insignificante do conjunto da poltica repressiva, o que no as tornam menos significativas. No caso polons, as vtimas foram em nmero reduzido. Em busca de uma rede de espionagem e de diversionismo, a Segurana dirigiu a sua ateno para os quadros do exrcito, especialmente oficiais de carreira j na ativa antes da guerra. Neste caso, o efeito da ao conjunta do MBP e dos servios de informao militares (Direo Geral de Informao, GZI) conduziu  priso de centenas de oficiais, seguida de numerosos processos, da condenao e execuo de 20 pessoas. O desaparecimento da cena pblica de Gomulka, preso com algumas centenas de quadros do Partido Comunista de diferentes nveis, constituiu um sinal claro: havia chegado o tempo da submisso total e completa de todo o aparelho do partido, incluindo o da Segurana, que tinha alguns altos funcionrios na priso. Como o processo Gomulka (assim como outros) no aconteceu,6 a sovietizao da Polnia no foi marcada por um processo espe-tacular, como o de Rajk, em Budapeste, ou o de Slansky, em Praga.
	Apenas uma nfima parte do aparelho da Segurana, em expanso rpida a partir de 1949 e com 34.000 funcionrios em 1952, foi comprometida no mbito do caso provocao no seio do movimento operrio. Tratava-se, nesse caso, do Departamento X, que contava com cerca de 100 elementos. Uma Comisso para a Segurana, anexa ao Bureau Poltico e chefiada por Boleslaw Bierut (1892-1956), foi constituda. Ela se ocupou tanto das investigaes mais importantes quanto dos problemas de organizao do MBP e do GZI, alm de formular as suas principais diretivas.
	A onipresena da Bezpieka (como vulgarmente era conhecida a Segurana) em todos os domnios da vida cotidiana transformou-se numa das caractersticas da poca. A rede de informantes (74.000 elementos) deixara de se mostrar adequada s necessidades e, em 1949, foi decidida a criao, nas fbricas, de clulas da Segurana, chamadas de Servios de Proteo (Referat Ochrony, RO). Anos depois, os RO estavam organizados em 600 empresas. No interior do MBP foi dada uma ateno especial ao servio de proteo da economia, com a criao de vrios departamentos. Entre 1951 e 1953, a maior parte das prises (de cinco a seis mil por ano) foram feitas por esse servio, que dispunha da mais desenvolvida rede especfica de informantes (26.000 elementos). Qualquer avaria, qualquer incndio numa empresa eram imediatamente considerados como resultado de sabotagem ou manobra diversionista e acarretavam a priso, em certos casos, de vrias dezenas de operrios de uma s empresa. O servio tinha tambm direito de deciso, no mbito da proteo das instituies do Estado, sobre os estudantes candidatos ao ensino politcnico. Em 1952, os pareceres emitidos impediram 1.000 jovens de prosseguir os estudos.
	A proteo da organizao das cooperativas agrcolas (ou seja, a coletivizao de terras) e o controle da aplicao dos decretos sobre as quantidades de trigo ou de carne a serem disponibilizadas constituem nesse contexto um captulo  parte. No ltimo caso, as instituies operacionais foram a Milcia e a Comisso Extraordinria para a Luta contra os Abusos e a Sabotagem, formada em 1945. Apenas esse nome, como o da Tcheka, j provocava terror milhares de camponeses das 15 regies polonesas foram presos apenas por no terem produzido as quantidades exigidas. Segurana e Milcia procediam s prises de acordo com um plano poltico bem objetivo: os camponeses abastados (kulaks) foram os primeiros a serem presos, mesmo quando produziram as quotas estipuladas. Detidos durante semanas sem culpa formada, eram depois condenados, e o trigo, o gado e as propriedades eram-hes confiscados. A Comisso Extraordinria ocupava-se tambm da populao urbana. A maior parte das condenaes referiram-se a casos de especulao, de mercado negro e, entre 1952 e 1954, de banditismo urbano (hooliganismo). As decises da comisso foram-se tornando cada vez mais repressivas com o correr do tempo: entre 1945 e 1948, 10.900 pessoas foram condenadas a campos de trabalho; entre 1949 e 1952, o nmero de condenaes foi de 46.700. At 1954 o nmero de pessoas enviadas para os campos de trabalho foi de cerca de 84.200. As condenaes que atingiram a populao rural e os especuladores no se referiam a crimes polticos, no sentido estrito da expresso, j que o crime poltico, na Polnia, relevava dos tribunais; elas decorriam antes da natureza do sistema de represso, que privilegiava a fora.
	Quanto ao aparelho de Segurana, a sua tarefa principal foi a de perseguir os clandestinos (tanto no perodo de ocupao como no ps-guerra), os ex-militantes do PSL, os soldados que regressaram do Ocidente, os funcionrios, e os quadros polticos e oficiais do perodo anterior  guerra. No incio de 1949, o registro de elementos suspeitos compreendia vrias categorias, normalizadas. Em 19 de janeiro de 1953, os arquivos do servio de segurana recenseavam 5.200.000 indivduos, um tero da populao adulta polonesa. Os processos polticos continuavam, apesar da eliminao das organizaes ilegais. O nmero de presos polticos aumentou ao longo de diversas operaes de preveno. Foi assim que em outubro 1950, no decorrer da ao K, ocorreram 5.000 prises durante uma s noite. Depois de um abrandamento posterior  vaga de prises de 1948-1949, as prises recomearam a encher: 21.000 pessoas foram presas em 1952. Segundo dados oficiais, no segundo semestre de 1952, o nmero de presos polticos era de 49.500. Uma priso especial chegou a ser criada, destinada aos delinquentes polticos de menor importncia (2.500 em 1953).

	Extrato de A Grande Educao. Memrias dos Prisioneiros Polticos na Repblica Popular da Polnia, 1945-1956, Varsvia, 1990

	Staszek: A tuberculose era sem dvida a mais grave doena na Polnia do ps-guerra [...]. Esse caso se deu antes de 1950, em [a priso de] Wronki. ramos sete na cela. Pequena, com uma rea de menos de oito metros quadrados, muito pouco espao para cada um [...]. Um dia, chegou mais um infeliz, o oitavo. Vimos logo que alguma coisa no estava bem. Ele no tinha nem panela nem cobertor e parecia gravemente doente. Depressa, ficou evidente que ele estava num estado avanado de tuberculose, o corpo encontrava-se coberto de abscessos. Vi a expresso de terror dos meus camaradas, eu prprio me sentia muito pouco  vontade [...]. Ns nos afastamos dele. A situao era absurda, sete homens evitando um oitavo num espao de menos de oito metros quadrados e tornou-se ainda mais penosa quando nos trouxeram a comida: o homem no possua prato ou marmita e pelo visto ningum lhe ia dar nenhum! Olhei para os outros, que tambm se entreolhavam, evitando os olhares tanto uns dos outros como do oitavo detido.
	No suportei a situao e passei-lhe o meu prato. Disse-lhe que comesse, eu o faria em seguida. Ento, ele me fitou com um rosto aptico e sem vida (tudo lhe parecia indiferente) e me confessou: - Camarada, estou morrendo...  uma que to de poucos dias. - Coma  minha sade, respondi-lhe, sob os olhares horrorizados dos outros. Comearam ento a evitar tanto o doente quanto a mim. Quando ele acabou, lavei o prato com a pouca gua de que dispnhamos e comi por minha vez.
	Liquidada a oposio, a Igreja Catlica transformou-se na nica organizao independente que restava. A partir de 1948, cada vez mais vigiada, era objeto de ataques incessantes. A priso de bispos comeou em 1950. O processo do bispo Kacmarek (condenado a 12 anos de priso) realizou-se em 1953, ano em que o primaz da Polnia, cardeal Wyszynski, foi aprisionado. No total, mais de cem padres foram detidos ou presos. Os Testemunhas de Jeov (considerados espies da Amrica) constituram o alvo mais visado: em 1951, os presos eram mais de 2.000.
	Era a poca em que todos passavam pela priso: membros do Bureau Poltico, altos funcionrios do perodo anterior  guerra (entre eles um ex-pri-meiro-ministro), generais, comandantes do AK, bispos, guerrilheiros que, depois de terem lutado contra os alemes, voltaram suas armas contra os comunistas, camponeses que recusavam a integrao nos kolkhozes, mineiros de uma mina onde se dera um incndio, jovens presos por terem quebrado a vitrine de um armrio para afixao de propaganda ou escrito slogans nas paredes. Tratava-se de afastar da vida pblica todo e qualquer potencial opositor, tornando impossvel a menor liberdade de ao. Uma das principais finalidades do sistema de terror generalizado era a atomizao da sociedade atravs de um sentimento de medo permanente e do encorajamento  delao.
	O sistema comeou a sofrer modificaes a partir do final de 1953: o desenvolvimento da rede de informantes estancou, as condies de priso melhoraram, uma parte dos presos foi libertada por razes de sade, o nmero de processos diminuiu e as penas passaram a ser mais clementes. Na prtica, deixou-se de espancar e maltratar os presos. Os oficiais com m reputao foram afastados, o Departamento X foi desmantelado e o pessoal da Segurana, reduzido. Em 28 de setembro de 1954, uma bomba explodiu quando a Rdio Europa Livre comeou a difundir uma srie de entrevistas com Jozef Swiatlo, vice-diretor do Departamento X, que escolhera a liberdade em dezembro de 1953. O MBP foi reestruturado e em poucas semanas substitudo pelo Ministrio dos Assuntos Internos (MSW) e por um Comit de Segurana Pblica (KBP). O ministro e trs dos cinco vice-ministros do MBP foram obrigados a apresentar a demisso. Em dezembro, Gomulka foi libertado, e o chefe do Departamento de Averiguaes, Jozef Rozanski, preso. A Comisso Especial de Luta contra os Abusos foi suprimida. Em janeiro de 1955, o Comit Central denunciou faltas e erros cuja responsabilidade lanou sobre o aparelho da Segurana, que, de acordo com a declarao, se colocara acima do Partido. Quanto aos carrascos do MBP, alguns foram presos. Os efetivos da Segurana continuaram a diminuir.
	As mudanas, no entanto, eram puramente formais. Em 1955, continuavam detidos cerca de 30.000 presos polticos, e na segunda metade do ano assistiu-se ao processo poltico do ex-ministro Wlodimierz Lechowicz, o prprio que havia sido preso em 1948 pelo Grupo Especial de Swiatlo. Marian Spychalski, membro do Bureau Poltico at 1949, fora preso em 1950 e permaneceu sem julgamento at abril de 1956. Relativamente  represso generalizada, o degelo, iniciou-se realmente apenas depois do XX Congresso do PCUS, em fevereiro de 1956, aps a morte de Bierut. Foi ento decretada uma anistia geral, mas 1.500 presos polticos continuaram na priso. O representante do Ministrio Pblico e o ministro da Justia foram substitudos, e alguns condenados foram reabilitados. O antigo vice-ministro da Segurana e o diretor do Departamento X foram presos, e as prises, que at ento estavam sob a alada do Ministrio do Interior, foram confiadas ao Ministrio da Justia. As lutas entre as faces dentro do poder fizeram com que a Segurana perdesse o rumo: alguns colaboradores secretos comearam a recusar colaborao. No entanto, as linhas de estratgia permaneciam idnticas: o aparelho repressivo continuava interessado nas mesmas categorias de indivduos; as prises esvaziaram-se apenas parcialmente; alguns milhares de investigaes continuavam em curso; apesar da reduo, a rede de informantes mantinha 34.000 colaboradores... O sistema de terror generalizado continuava a funcionar, se bem que com menos intensidade. Ele havia atingido os seus objetivos: os mais ativos adversrios do regime tinham sido mortos aos milhares, e a sociedade, que aprendera bem a lio, sabia agora o que esperar dos defensores da democracia popular.

	O socialismo real ou o sistema de represso seletiva (1956-1981)

	O desmoronamento do socialismo de ferro foi, na Polnia, relativamente rpido; as estratgias dos servios de Segurana evoluram, acompanhando o degelo. Eles se dedicavam a um controle mais discreto, mas ainda bastante ativo, da populao. A Igreja Catlica, a oposio legal ou clandestina e os meios intelectuais passaram a ser alvo de redobrada vigilncia.
	Esperava-se do aparelho a capacidade de dispersar imediatamente as manifestaes de rua, nova tarefa decorrente da segunda grande revolta operria verificada no bloco do Leste, a de Poznan, em junho de 1956. Segurana, milcia e mesmo o KBW haviam sido apanhados de surpresa - tanto do ponto de vista ideolgico como tcnico - pela greve, seguida por uma manifestao que reuniu dezenas de milhares de pessoas e com aes dirigidas contra edifcios pblicos.  legtimo afirmar que a revolta de Poznan constituiu, de certo modo, o ltimo captulo da guerra civil de 1945-1947; chegou-se a ver alguns dos manifestantes utilizarem armas de fogo, o que no voltaria a se repetir. O Partido reagiu com brutalidade: o primeiro-ministro declarou que a mo que se erguera contra o poder popular seria decepada; o exrcito entrou em cena com tanques. Os mortos foram cerca de 70, com centenas de presos, e dezenas de manifestantes conduzidos ao tribunal. Entretanto, como as sentenas foram decretadas j no perodo de degelo, iniciado depois de outubro de 1956, elas foram moderadas.
	Pouco tempo depois do VIII Plenrio do Comit Central (19-21 de outubro de 1956), o KBP foi dissolvido, e o servio de Segurana integrado no MSW. O nmero de funcionrios diminuiu de 40% - passando para 9.000 -, e 60% dos informantes viram-se dispensados. Os servios de prote-o existentes nas fbricas foram suprimidos, e metade das averiguaes em curso abandonadas. Os ltimos conselheiros soviticos deixaram a Polnia e regressaram a Moscou, substitudos por uma misso local da KGB. A direo do servio de Segurana foi remodelada atravs da substituio progressiva da maioria dos seus quadros, a maior parte de origem judaica, abrindo-se assim caminho aos mais jovens. Os efetivos do aparelho de represso tinham sido radicalmente reduzidos. Mas a direo do Partido e, sobretudo, Gomulka - de volta ao poder - se opuseram a que os funcionrios prestassem contas. Ocorreram apenas alguns processos, bastante discretos. A preocupao geral era a de no traumatizar um aparelho do qual ainda se esperavam servios.
	J em fevereiro de 1957, quando da primeira reunio geral do MSW, o ministro Wicha, apesar de declarar que a intensificao da luta de classes constitua uma tese enganosa, afirmou, contradizendo-se, que essa mesma luta de classes se encontrava num processo de radicalizao!8 Segurana, Partido, propaganda e foras armadas atuaram, a partir dessa data e at o fim do regime, na base dessa contradio.
	Vinte anos de trabalho silencioso, tranquilo e sistemtico, por vezes interrompido por greves e revoltas, esperavam o sistema de represso. A sua tarefa principal seria o aperfeioamento do sistema de controle atravs do elemento humano - com a rede de informantes - e da tcnica - escutas e censura de correspondncia -, que sofreu melhorias sistemticas. Durante os anos 70, o Servio de Segurana (SB) prestou ateno particular  economia.
	   O seu interesse, ao contrrio do verificado com os antigos Servios de Proteo, dirigia-se para as tecnologias, a rentabilidade, etc. Os acidentes ou avarias deixaram de acarretar prises, verificando-se uma presso discreta e eficaz do Partido para a substituio dos maus gestores. O MSW dispunha tambm de um outro instrumento de presso que, intil durante a era stali-nista, se tornara agora precioso: a autorizao do pedido de passaporte (sempre para uma nica utilizao). Por essa via, podia-se controlar a informao sobre o que se passava nas empresas, universidades e em todas as outras instituies, j que, para se obter um passaporte, muitos se mostravam dispostos a colaborar. Lenta mas sistematicamente, o SB recomeou a expanso de efeti-vos, sobretudo nas reas consideradas nevrlgicas pelo Partido Comunista. A luta contra a Igreja obrigou o MSW a criar (junho 1962) um novo departamento especializado, engrossando os seus efetivos at chegar a algumas centenas de funcionrios.
	Em 1967, com a Guerra dos Seis Dias entre Israel e os pases rabes como pano de fundo, a luta contra o sionismo passou para o primeiro plano. A palavra de ordem possua uma tripla funo, poltica, social e internacional: o poder procurava uma nova legitimidade para a reativao do nacionalismo. Uma faco dos quadros do PZPR (Partido Comunista Polons) instrumentalizou o anti-semitismo para o afastamento da velha guarda, abrindo perspectivas de carreira mais interessantes. A campanha anti-semita foi tambm utilizada para desacreditar o movimento estudantil de maro de 1968. Um servio especial, dispondo de algumas dezenas de funcionrios, foi constitudo. Do MSW eram enviadas informaes, destinadas s instncias locais do Partido, para atuao contra as pessoas que lhes eram indicadas. O Servio de Segurana, tanto na Polnia quanto na URSS, foi o grande inspi-rador do anti-semitismo sem judeus do Partido e do Estado.
	A infiltrao da sociedade civil, sistematicamente levada a cabo pelo SB, teve como resultado que as tentativas, alis bastante raras, de formao de organizaes ilegais se frustrassem ou fossem efmeras. Os seus membros, frequentemente muito novos, constituam a maior parte dos presos polticos, que nunca ultrapassavam as vrias dezenas por cada ao. Os intelectuais eram alvo de vigilncia bastante intensa. A Segurana dispunha tambm dos meios necessrios para, por ordem do poder, saber o paradeiro dos colaboradores da Rdio Europa Livre ou da imprensa polonesa no estrangeiro. No incio dos anos 60 verificaram-se prises isoladas. O caso de maior repercusso foi o de Melchior Wankowicz, um escritor j de uma certa idade e muito popular. O SB dedicava uma ateno muito especial a todos os herticos do campo comunista. Assistiu-se  priso de maostas ou trotskistas, acolhida com indiferena pela opinio pblica, com exceo das de Jacek Kuron e de Karol Modzelewski. Em 1970, 48 elementos do grupo ilegal Ruch foram presos. Os seus dirigentes foram condenados a penas de sete a oito anos de priso, penas elevadas se consideramos esse perodo de relativa clemncia.
	A Segurana reativou a sua atuao um ano depois do regresso de Gomulka ao poder, durante as manifestaes de jovens contra o fecho do semanrio Po Prostu, publicao que, em 1956, desempenhara um papel importante em prol da mudana do sistema. Dezenas de manifestantes foram espancados e uma dezena condenados. As greves e manifestaes de maro de 1968 tiveram uma amplitude considervel. As manifestaes foram brutalmente dispersadas, 2.700 pessoas foram detidas e 1.000 conduzidas a vrios tipos de tribunais. Dezenas foram condenadas a penas de priso de vrios anos. Centenas foram requisitadas pelo exrcito durante meses, para seguirem uma formao. Na primeira metade dos anos 60, ocorreram aes da milcia contra assemblias de fiis, reunidas para defender capelas e cruzes erigidas ilegalmente. Mesmo se as condenaes eram relativamente benignas, houve centenas de casos de espancamento e condenaes ao pagamento de multas.
	As manifestaes operrias obtiveram outro alcance. As realizadas em dezembro 1970 apresentaram aspectos dramticos em todas as cidades do litoral bltico. Apesar da existncia de unidades especiais da milcia, as autoridades fizeram apelo ao exrcito, que abriu fogo sobre a multido, como j havia acontecido em Poznan, 14 anos antes: segundo dados oficiais, houve cerca de 40 mortos. Milhares de pessoas foram espancadas pela milcia, muitas vezes no interior dos comissariados. Os operrios eram obrigados a percorrer corredores de sade, ou seja, passar por entre duas filas de policiais que lhes aplicavam golpes de cassetete. No entanto, e isso  caracterstico, o poder no ativou qualquer tipo de processo no que se refere aos acontecimentos posteriores a dezembro. Os detidos foram libertados aps o afastamento de Gomulka, mas, nas empresas, os dirigentes grevistas continuaram a ser submetidos a intimidaes.
	Durante as greves curtas que explodiram em algumas cidades em junho de 1976, as autoridades locais utilizaram a milcia, que no fez uso de armas de fogo - o que no impediu a ocorrncia de algumas mortes. Cerca de mil pessoas foram presas, das quais algumas centenas condenadas ao pagamento de multas e algumas dezenas  priso.
	O ponto de partida da luta da intelligentsia pelos direitos humanos e do surgimento, pela primeira vez depois da proibio do PSL em 1947, de grupos organizados de oposio (KOR, ROPCIO) foram os processos no decorrer dos quais se estabeleceram relaes entre as famlias dos operrios acusados, os jovens e os intelectuais da oposio. Diante da evoluo da situao, as autoridades foram obrigadas a uma escolha ttica. Por vrias razes - sendo a mais importante o medo da reao internacional, dada a crescente dependncia financeira do regime em relao aos pases do Ocidente -, o poder adotou uma ttica de provocao: priso para averiguao por perodos de 48 horas renovveis (autorizadas pelo Cdigo Penal), licenciamentos, presso psicolgica, recusa de passaporte, confisco de material de reproduo, etc. O SB organizou uma extensa rede de agentes. O departamento especial para a defesa da economia foi reativado em 1979, temendo-se que a influncia da oposio se alastrasse pelas empresas e fbricas.
	As medidas no se mostraram eficazes durante a onda de greves de 1980. Apesar de a direo do partido estar dominada pelos defensores de uma linha dura de ao, ningum tomou a deciso de acabar com as greves com o uso da fora. Alis, como se verificou numa das reunies do Bureau Poltico, as forcas disponveis no eram nem suficientemente numerosas nem estavam preparadas para fazer face s centenas de milhares de operrios que ocupavam centenas de fbricas. Dessa vez os grevistas - contrariamente ao que se verificara em 1956, 1970 e 1976 - agiram segundo a palavra de ordem de Jacek Kuron: No vamos atear fogo nos Comits [do Partido] organizemos os nossos.
	O poder adotou contra o sindicato Solidarnosc, dirigido por Lech Walesa, as mesmas tticas utilizadas anteriormente: enfraquecimento da organizao e fomento da divergncia interna de modo a viabilizar sua absoro por estruturas controladas pelo Partido Comunista (PZPR), principalmente pela Frente de Unidade Nacional. Em outubro de 1980, o MSW e o Estado-Maior general iniciaram a preparao do estado de guerra. O MSW comeou a infiltrao sistemtica do Solidarnosc (no vero, apenas em Varsvia, j havia um total de 2.400 informantes), utilizando tambm aes polticas destinadas a avaliar a reao do sindicato s prises para averiguao de militantes por 48 horas e utilizao da milcia na evacuao de edifcios pblicos ocupados. As listas dos militantes a serem presos j se encontravam prontas em fevereiro 1981 - bem como as das prises destinadas a receb-los -, mas a direo do Partido preferiu continuar as aes de provocao e de intimidao, como em maro de 1981 em Bydgoszcz, onde a milcia agrediu brutalmente os sindicalistas. O aparelho polons da Segurana, at ento relativamente inativo, recebeu reforos. Depois das greves de 1981, a Stasi, polcia poltica da RDA, destacou para Varsvia um dos seus grupos operacionais. Acontecimento importante, se bem que j existisse h alguns anos uma colaborao, coordenada pela KGB, entre os vrios servios de segurana contra as oposies democrticas.
	Esta situao se manteve at o comeo de dezembro de 1981, data em que a unidade antiterrorista da milcia ps fim  greve dos alunos da Escola de Bombeiros de Varsvia, no intuito de testar a capacidade de mobilizao do Solidarnosc. Dez dias mais tarde, na noite de 12 para 13 de dezembro, a lei marcial foi instalada em toda a Polnia.

	O estado de guerra, uma tentativa de represso generalizada

	Foi uma operao policial e militar preparada com extraordinria preciso. Envolveu 70.000 soldados, 30.000 funcionrios da milcia, 1.750 tanques, 1.900 veculos blindados, 9.000 caminhes e viaturas, alguns esquadres de helicpteros e de avies de transporte. As forcas se concentraram nas principais cidades e centros industriais. As ordens eram as de acabar com o movimento grevista, paralisar a vida cotidiana para intimidao da populao e impedir toda a ao de resposta por parte do Solidarnosc. A rede telefnica foi desativada (causando a morte de vrias pessoas, que no puderam entrar em contato com os servios de emergncia), os postos de gasolina e fronteiras foram fechados. Foi decretado o recolher obrigatrio e a censura da correspondncia; eram necessrios salvo-condutos para se transitar de uma localidade para a outra. Dez dias depois as greves terminaram; as manifestaes foram dispersadas, o que provou a eficcia do plano. O balano foi de 14 mortos, algumas centenas de feridos e a priso de cerca de 4.000 grevistas. Os primeiros processos, que aconteceram durante o Natal, resultaram em penas que iam dos trs aos cinco anos de priso (a mais longa foi de dez anos). Todos os acusados foram julgados por tribunais militares, sob cuja alada estavam todos os crimes contra a lei marcial. Os exrcitos sovitico, alemo de leste e tcheco, em estado de alerta, no foram obrigados a intervir, como estava previsto no caso de as greves e manifestaes evolurem para um movimento insurrecional e as foras armadas polonesas se revelarem incapazes de o dominar.
	O aprisionamento dos militantes do Solidarnosc, iniciado em 12 de dezembro, antes da meia-noite, constituiu uma segunda fase repressiva. Em poucos dias, em virtude de um dispositivo administrativo, 5.000 pessoas foram presas em centros de isolamento, situados fora das grandes cidades. O intuito era paralisar o Solidarnosc e substituir os seus dirigentes por colaboradores do SB. Esse sistema de aprisionamento, que se prolongou por 12 meses, representava uma forma aparentemente menos rigorosa de priso, de fcil aplicao, j que dispensava a interveno de um procurador e um processo. Em princpio, o SB no recorreu a mtodos ilegais contra os aprisionados, utilizando preferencialmente tcnicas de persuaso garantidas pela sua fora. Ao mesmo tempo, o SB intensificou o recrutamento de colaboradores e incitou os militantes a sarem do pas atravs de presses sobre os seus familiares.
	O general Jaruzelski, no poder desde 18 de outubro, viu-se obrigado a enfrentar os radicais do Partido - numerosos sobretudo entre os quadros do Partido nas empresas -, os funcionrios reformados do MSW, o aparelho do Partido e do exrcito. Eles criaram grupos de autodefesa (apesar de ningum t-los atacado) que portavam armas de fogo. Alm disso, eles reclamavam processos contra os presos, sentenas mais severas e penas de morte: resumindo, que o terror fosse introduzido em lugar da represso generalizada, que eles julgavam demasiado clemente. O Partido, apesar de uma agressiva campanha de propaganda contra o Solidarnosc, recusou a aplicao dos mtodos reclamados pelos radicais. Em vez de quebrar a resistncia social com o uso de mtodos stalinistas, foi decidido que se deveria reduzir a tenso. Porm, as manifestaes do Solidarnosc em cada 19 e 3 de maio - aniversrio da Constituio de 1791 e antigo dia da nao - e em 31 de agosto - data dos acordos de Gdansk de 1980 - continuavam a ser dispersadas com violncia. Milhares de pessoas foram interpeladas e centenas enviadas a tribunal. Houve tambm alguns mortos (seis no total). De vez em quando, como resultado dos processos pblicos, dirigentes do clandestino Solidarnosc eram condenados a penas de at 5 anos de priso. Depois do fechamento dos centros de aprisionamento, em dezembro de 1982, e da revogao formal do estado de stio em 22 de julho de 1983, permaneciam detidos cerca de mil presos polticos, encarcerados por atividade sindical clandestina, impresso clandestina, difuso de jornais e livros, s vezes mesmo por uma coleta de fundos a favor dos presos. As autoridades recorreram tambm aos licenciamentos. Milhares de grevistas de dezembro de 1981 foram despedidos; os jornalistas foram submetidos a processos de averiguao, sendo que cerca de mil foram licenciados.
	Com exceo das primeiras semanas que se seguiram ao 13 de dezembro, a Polnia no tornou a conhecer um terror comparvel ao de 1949-1956. A Segurana passou a dedicar-se  prtica de um conjunto de tcnicas designadas globalmente, na linguagem dos servios secretos, como desinformao e desintegrao, j utilizadas durante os anos 60, quando o Ministrio do Interior criara o grupo autnomo D com efetivos locais. A Igreja (e grupos prximos) constituram, at 1981, o seu alvo prioritrio. Com a instaurao da lei marcial, o raio de ao do grupo D estendeu-se ao Solidarnosc: atentados repetidos contra bens (incndio de apartamentos, destruio de veculos), agresso de militantes por desconhecidos, ameaas de morte e distribuio de panfletos e jornais clandestinos falsos. Houve tambm alguns raptos, sendo as vtimas abandonadas depois de obrigadas a ingerir barbitricos ou drogas alucingenas. Os espancamentos fizeram vrias vtimas, entre outros o do estudante de segundo grau Grzegorz Przemyk.
	A mais conhecida das aes desse tipo, executadas pelos funcionrios da seo D do IV Departamento do MS W, foi o assassinato, em 19 de outubro de 1984, do padre Jerzy Popieluszko. Segundo a verso oficial, os assassinos teriam agido por iniciativa prpria e com o desconhecimento dos seus superiores, o que suscita muitas dvidas, j que as atividades do aparelho da Segurana eram fortemente controladas e todas as aes importantes exigiam luz verde ministerial. Se, neste caso, o MSW entregou os responsveis do crime, que foram julgados e condenados, nos outros casos de assassinatos de padres ou de pessoas ligadas ao Solidarnosc, os assassinos continuaram desconhecidos. A julgar pela reao da populao, as aes do grupo D no atingiram os seus objetivos, a intimidao. O efeito parece ter sido o inverso, reforando a determinao dos opositores.
	Depois dos confrontos violentos dos primeiros dias da lei marcial e da represso sofrida pelos manifestantes de 1982-1983, o perodo seguinte foi marcado por represso limitada. Os militantes clandestinos sabiam que arriscavam apenas alguns anos em prises regularmente esvaziadas por anistias. Nesse momento de sua evoluo, o sistema j se afastara e muito das suas razes stalinistas.

	Do cessar-fogo  capitulao, ou a confuso do poder (1986-1989)

	Tal era a situao no final do vero 1986, quando, sob a influncia da perestroika, da glasnost e da estagnao econmica, a equipe do general Jaruzelski tentou encontrar, na oposio polonesa, interlocutores com os quais se pudesse chegar a um compromisso. Uma iniciativa desse tipo tinha de ser acompanhada pela diminuio dos nveis de represso. Em 11 de setembro de 1986, o Ministrio do Interior anunciou a libertao de todos os presos polticos: um total de 225. No intuito de manter algum rigor, foi decidido que a participao em qualquer organizao proibida ou publicao clandestina seria punida com pagamento de multas ou aprisionamento, no numa priso comum, mas numa instituio de deteno. A represso retornou aos nveis de 1976-1980, com uma diferena: o poder confrontava-se j no com algumas centenas, mas sim com dezenas de milhares de militantes. Durante os primeiros meses de 1988, depois de novas ondas grevistas, a represso aumentou de novo, mas em 26 de agosto, um comunicado anunciava o incio de conversaes com o Solidarnosc.
	   Embora frustrados, os elementos do aparelho da Segurana se comportavam, de uma maneira geral, com bastante disciplina, embora seja provvel que alguns tenham tentado impedir o futuro acordo, como parecem provar os assassinatos, em janeiro de 1989, de dois padres encarregados do servio pastoral das estruturas locais do Solidarnosc. At hoje ningum sabe se foram atentados cometidos pela clula D ou foram crimes comuns.
	Depois das eleies de 4 de junho de 1989 e da formao do governo de Tadeusz Mazowiecki, o controle dos ministrios da fora (Interior e Defesa) continuou nas mos dos seus antigos chefes. Em 6 de abril 1990, o SB foi dissolvido e substitudo pelo Gabinete para a Proteo do Governo (UOP).
	Na Polnia, o sistema comunista nunca esteve de acordo com a legalidade, visto no respeitar nem o direito internacional nem a sua prpria Constituio. Criminoso desde o seu incio (1944-1956), o sistema mostrou-se sempre disposto a recorrer  aplicao da fora (inclusive a militar) em grande escala.

	BIBLIOGRAFIA

	O texto apresentado baseia-se, de modo geral, nas minhas prprias pesquisas em arquivos. Como perito da Comisso de Responsabilidade Constitucional, tive acesso a muitos dossis (ainda secretos) relativos aos anos 1980-1982. A literatura mais abundante diz respeito ao perodo de 1944-1948. Para os perodos ulteriores, apenas se encontram disponveis obras de carter geral e alguns documentos sobre conflitos sociais. A bibliografia que se segue no inclui os numerosos testemunhos e relatos de lembranas.
	- O Aparelho de Segurana nos Anos 1944-1956. Ttica, Estratgia e Mtodos (ed. A. Paczkowski): I, Os Anos 1945-1947, Varsvia, 1994; II, Os Anos 1948-1949, idem, 1996.
	- K. Bedynski, Histria do Regime das Prises na Polnia Popular, 1944-1956, Varsvia, 1988.
	- A. Dudek, T. Marszalkowski, Combates de Rua na Polnia Popular, 1956-1989, Cracvia, 1992. -J. Eisler, Maro de 1968, Varsvia, 1991.
	- A. Golimont. Os Generais da Segurana, Varsvia, 1992.
	- O Glgota de Wroclaw, 1945-1956 fred- K. Szwagrzyk), Wroclaw, 1995.
	- A Comisso Especial para a Luta contra os Abusos e a Sabotagem Econmica, 1945-1954, Documentos Escolhidos (red. D. Jarosz, T. Wolsza), Varsvia, 1995.
	   - P. Machcewicz, O Ano Polons de 1956, Varsvia, 1993.
	- S. Marat, J. Snopkiewicz, Os Homens da Segurana. Documentao sobre um Perodo sem Lei, Varsvia, 1990.
	- P. Michel, G. Mink, Mortd'unprtre. L 'affaire Popieluszko, Paris, 1985. 
	- E. Nalepa, Pacificao de uma Cidade Revoltada. O Exrcito Polons em Poznan, em 	junho de 1956, Varsvia, 1992.
	- Os Campos de Trabalho da Alta-Silsia (red. A. Topol), Katowice, 1994.
	- Defesa da Segurana do Estado e da Ordem Pblica na Polnia, 1944-1988 (ed. T. Walichnowski), Varsvia, 1989. -J. Poksinski, TUN. Tatar-Utnik-Nowicki.Vaxsviz, 1992.
	- Os Poloneses Foce  Violncia, 1944-1956(ka. Barbara Otwinowska, J. Zaryn), Varsvia, 1996.
	- Oanuta Suchorowska, A Grande Educao. Memrias dos Prisioneiros Polticos do PRL (1945-1956), Varsvia, 1990.
	- Maria Turlejska, Essas Geraes Cobertas de Luto.... Os Condenados  Morte e os seus Juizes, 1944-1954, Londres, 1989.
	
	   2. Europa Central e do Sudeste
	por Karel Bartosek

	Terror importado?

	No espao centro-europeu, o terror deve ser analisado em relao  guerra, sua expresso suprema durante a primeira metade do sculo XX. Alis, a Segunda Guerra Mundial, iniciada no espao centro-europeu, ultrapassou de longe a concepo de guerra total teorizada pelo general Ludendorff. A democratizao da morte (Miguel Abensour) atingiu dezenas de milhes de pessoas, com o extermnio confundindo-se com a idia de guerra. A barbrie nazista dirigiu-se contra a populao civil, particularmente com o extermnio dos judeus. Os nmeros so eloquentes: na Polnia, as baixas militares representam 320.000 mortos e as perdas civis 5,5 milhes; na Hungria, 140.000 e 300.000, respectivamente; na Tchecoslovquia, as perdas civis representam de 80% a 90% das perdas totais...
	No entanto, o grande terror da guerra no se esgotou com a derrota alem. As populaes civis comearam por sofrer expurgos nacionais que se revestiram nesta regio de um carter especfico com a chegada do Exrcito Vermelho, o punho armado do regime comunista. Comissrios polticos e servios especiais desse exrcito - o SMERSCH e o NKVD - empenharam-se a fundo numa depurao, sobretudo nos Estados que haviam enviado tropas para a frente de guerra contra a Unio Sovitica - Hungria, Romnia e Eslovquia. Centenas de milhares de pessoas foram deportadas, dessa vez para o Gulag sovitico (os nmeros exatos encontram-se ainda em fase de avaliao).
	Segundo estudos recentes (hngaros e russos), divulgados depois da abertura dos arquivos - que so prudentes quanto a nmeros exatos -, teriam sido deportadas centenas de milhares de pessoas, soldados e civis, entre os quais crianas de 13 anos e velhos de 80: cerca de 40.000 da Ucrnia subcar-ptica, pertencente  Tchecoslovquia, ocupada pela Hungria depois dos acordos de Munique em 1938 e anexada de fato pela Unio Sovitica em 1944. Na Hungria - com cerca de nove milhes de habitantes -, teriam sido deportadas nessa poca mais de 600.000 pessoas, apesar de as estatsticas soviticas mencionarem apenas 526.604. Esse nmero foi estabelecido aps a chegada aos campos e no considerava os mortos nos campos de trnsito na Romnia (Brasso-Brasov, Temesvar-Timisoara, Maramossziget-Maramures), na Moldvia (Foscani), na Bessarbia (Balty) ou na Galcia (Sambor). Cerca de 75% dos deportados transitaram por esses campos. Entre eles encontravam-se tambm judeus, integrados em batalhes de trabalho do exrcito hngaro. Dois teros desses prisioneiros foram enviados para campos de trabalho e um tero (civis) para campos de concentrao onde a mortalidade, provocada sobretudo por epidemias, era o dobro da normal. Segundo estimativas recentes, cerca de 200.000 dos deportados da Hungria - entre os quais pessoas que pertenciam  minoria alem, russos que chegaram depois de 1920, franceses e poloneses radicados na Hungria - nunca regressaram.
	Apenas uma parte das depuraes era gerida pelos tribunais, populares e de exceo; no fim da guerra e nos primeiros meses do ps-guerra, dominou uma perseguio extrajudiciria, com um grau de violncia - execues, assassinatos, torturas e tomada de refns - permitido pela ausncia ou pelo desrespeito da lei e das convenes internacionais sobre prisioneiros de guerra e populaes civis. O caso da Bulgria, naquele momento com sete milhes de habitantes,  exemplar. Logo aps o dia 9 de setembro de 1944, data da tomada do poder pela Frente Patritica e da entrada do Exrcito Vermelho no pas, entraram em funcionamento a milcia popular e a Segurana de Estado, controladas pelos comunistas. Em 6 de outubro, um decreto instituiu tribunais populares. Em maro de 1945, esses tribunais j haviam pronunciado 10.897 veredictos em 131 processos e condenado  morte 2.138 pessoas, entre as quais os regentes (um deles o irmo do rei Boris III), a maior parte dos membros do Parlamento e dos governos do perodo ps-1941, oficiais superiores, policiais, juizes, industriais e jornalistas. No entanto, segundo vrios especialistas, foi a depurao selvagem a responsvel pela maior parte das vtimas: entre 30.000 e 40.000 pessoas, na sua maioria personalidades locais, presidentes de cmara, professores, popes e comerciantes. Em 1989, graas a testemunhas que j no tinham medo de falar, comearam a ser descobertas valas comuns, repletas de cadveres, cuja existncia era at ento desconhecida. No entanto, a Bulgria no havia enviado as suas tropas contra a Unio Sovitica e conseguira salvar do genocdio a maior parte de seus judeus. Para melhor se compreender a amplitude da represso comunista que se abateu sobre esse pas,  til mencionar alguns dados sobre o nmero de vtimas do perodo entre 1923 e 1944, sob o Antigo Regime, naquela poca freqiientemente denunciado na Europa como ditatorial. Segundo uma investigao conduzida em 1945 pelo novo Parlamento, o cmputo para esse perodo era de 5.632 vtimas: assassinadas, executadas, mortas nas prises ou na sequncia de sua deteno. Entre 1941 e 1944, anos da resistncia antifascista e da sua represso, 357 pessoas - no apenas resistentes - teriam sido condenadas  morte e executadas.
	Sob a tutela do Exrcito Vermelho, a depurao provocou, de acordo com a populao atingida, um estado de maior ou menor intensidade de medo, j que no era apenas dirigida contra os que ativamente haviam apoiado os nazistas, os fascistas locais e aqueles contra quem a perseguio pudesse aparecer como justificvel, mas tambm contra muitos outros, inocentes ou indiferentes.
	Num documentrio blgaro do incio dos anos 90, realizado depois da queda do regime comunista, uma mulher conta um episdio passado durante o outono de 1944: Depois da primeira priso do meu pai, no dia seguinte, por volta de meio-dia, apareceu em nossa casa um policial, que entregou a minha me uma convocao que a intimava a apresentar-se s cinco da tarde no posto de polcia n<? 10. A minha me, uma mulher muito bonita, muito doce, foi vestir-se e partiu. E ns, trs crianas, ficamos esperando por sua chegada. Ela voltou para casa  Ih30min da madrugada, lvida, com roupa e cabelos desarranjados. Imediatamente depois de entrar, ela se dirigiu para o fogo, retirou a placa superior, comeou a despir-se e queimou tudo. Depois tomou um banho e foi s ento que ela nos apertou nos braos. Fomos todos nos deitar. Na manh seguinte, ela fez uma primeira tentativa de suicdio, e depois mais trs. Ela tentou envenenar-se por duas vezes. Ainda est viva, sou eu quem cuida dela...  uma doente mental. Nunca conseguimos saber o que lhe fizeram.
	Durante esse perodo, sob o sol da libertao pelo Exrcito Vermelho que, segundo a propaganda comunista posterior, devia brilhar eternamente, so inmeros os casos de vira-casaca, e a delao se alastrou. Essa reviravolta da histria foi acompanhada por uma real crise de identidade, tanto entre os que sempre esperam para ver, cmplices passivos dos carrascos, quanto muitas vezes entre as vtimas que mais sofreram, os judeus: os Rosensweig passaram a querer chamar-se Rosanski, e os Breitenfeld, Bares...
	A presena do terror, do medo e da angstia na Europa Central e do Sudeste no pra por aqui. A luta armada contra as novas autoridades, que prolonga a guerra, continua sobretudo na Polnia e atinge tambm a Eslovquia em 1947, ano de chegada das unidades de Bander expulsas da Ucrnia. Os grupos armados formados por antigos membros da Guarda de Ferro fascista atacam por sua vez na zona dos Crpatos romenos, sob o nome de Casacos Negros. A Europa Central continuava a ser palco de um anti-semitismo combativo: os ltimos pogroms, ou tentativas de pogrom, da histria da Europa tiveram lugar nessa rea em 1946, na Polnia, na Hungria e na Eslovquia. Essa nova tragdia judaica, que se verificou imediatamente aps os massacres da guerra,  tambm o drama dos povos nos quais, segundo a expresso do grande pensador hngaro Istvan Bibo, se exprime um neo-anti-semitismo. E a amplitude da violncia revestiu outra dimenso.
	Um agressivo nacionalismo antialemo, explicvel em parte pelo passado recente e pela represso da Alemanha nazista, pesou muito na evoluo de alguns pases, contribuindo para limitar consideravelmente as possibilidades de implantao do comportamento democrtico. A violncia era vivida no cotidiano, pela transferncia de milhes de pessoas pertencentes s minorias alems e cuja instalao nessas regies datava por vezes do sculo XIII: 6,3 milhes de alemes foram obrigados a abandonar as suas casas nos territrios recuperados pela Polnia; 2,9 milhes foram expulsos da Tchecoslovquia, 200.000 da Hungria, mais de 100.000 da lugoslvia... A frieza desses nmeros globais no pode fazer esquecer os milhes de dramas individuais: enquanto os homens, militares, estavam geralmente em campos de prisioneiros de guerra, as mulheres, as crianas e os velhos eram obrigados a abandonar as suas casas, apartamentos, lojas, oficinas ou stios. A transferncia, oficializada e aprovada pelos Aliados durante o vero de 1945, fora, em certas zonas, precedida por uma transferncia selvagem; os nacionalistas tchecos, desenfreados, assassinaram vrios milhares de civis durante essa caa ao alemo.
	Os ingredientes do terror encontravam-se, portanto, j presentes no espao centro-europeu antes mesmo da instalao dos regimes comunistas; a violncia fora frequentemente parte integrante das experincias recentes e da realidade social e mental dos pases em questo. Por isso mesmo, as suas sociedades estavam mais fragilizadas para resistirem  nova onda de barbrie, que no tardou a se abater sobre elas.
	Os instrumentos da nova violncia foram, sobretudo, os partidos comunistas. Os seus aparelhos e os seus dirigentes eram fiis discpulos da doutrina bolchevique, j enriquecida na Unio Sovitica dirigida por Joseph V. Stalin. Vimos nos captulos precedentes que os objetivos gerais das aes dos partidos comunistas eram claros: assegurar por todos os meios o monoplio do poder comunista, o papel dirigente do Partido, segundo o modelo existente na Unio Sovitica. No estava em questo instalar qualquer tipo de poder partilhado, uma separao de poderes, um pluralismo poltico e uma democracia parlamentar, embora o sistema parlamentar fosse formalmente mantido. A doutrina reinante na poca apresentava a Unio Sovitica - aureolada pela sua contribuio para a derrota da Alemanha nazista e dos seus aliados - como a principal fora da revoluo, o seu guia universal. Claramente, esperava-se das foras comunistas locais que elas coordenassem e sobretudo subordinassem a sua atividade ao centro do comunismo mundial, a Moscou e ao seu chefe, Stalin.
	O monoplio do poder dos comunistas foi praticamente assegurado logo aps a Libertao, em dois pases: na Jugoslvia, sob a direo de Josip Broz, dito Tito, e na Albnia, onde Enver Hoxha encabeava o PCA. Ambos haviam chefiado, nos respectivos pases, a resistncia contra os invasores nazistas ou italianos e, apesar das presses externas (incluindo a da Unio Sovitica), foi somente por muito pouco tempo que eles aceitaram partilhar o poder com outras forcas polticas.
	Raramente, no decorrer da histria, a instalao de um novo poder foi precedida por um banho de sangue como na lugoslvia (cerca de um milho de vtimas para um pas com uma populao de 15,5 milhes de habitantes); mltiplas guerras civis, tnicas, ideolgicas e religiosas fizeram ento mais mortos do que a guerra - eficaz e apreciada pelos Aliados - contra os ocupan-tes ou contra a represso exercida por eles, cuja principal vtima foi, em determinadas regies, a prpria populao civil: na sua maioria mulheres, crianas e idosos. Essa guerra, verdadeiramente fratricida e com alguns aspectos de genocdio - guerra em que um irmo combateu o prprio irmo -, desembocou numa depurao tal que, na ocasio da Libertao, quase no restavam no interior do pas rivais polticos dos comunistas ou do seu chefe Tito -quem, diga-se de passagem, dedicou-se a sua rpida eliminao. Evoluo idntica verificou-se na vizinha Albnia, alis, com a ajuda dos comunistas iugoslavos.
	Nos outros pases da Europa Central e do Sudeste ( exceo da Tchecoslovquia) os partidos comunistas representavam, antes da guerra, foras relativamente marginais com alguns milhares de filiados. O Partido blgaro, por exemplo, foi importante entre 1919-1923, clandestino depois, mas muito presente na Resistncia. Seguros do apoio do Exrcito Vermelho e na conjuntura da poca, tornaram-se forcas polticas importantes. Participando dos novos governos, eles controlaram quase todos os ministrios encarregados da represso (Ministrios do Interior e da Justia) ou susceptveis de o virem a ser (Ministrio da Defesa). Em 1944-1945 os partidos comunistas detinham as pastas do Interior na Tchecoslovquia, na Bulgria, na Hungria e na Romnia; a da Justia na Bulgria e na Romnia, e a da Defesa na Tchecoslovquia. Os ministros da Defesa da Tchecoslovquia e da Bulgria, generais Ludvik Svoboda e Damian Veltchev, eram ambos criptocomunistas. Os homens a seu servio encabeavam a polcia secreta, a Segurana de Estado - a Darjavna Sigournost na Bulgria, a Aliam Vdlmi Osztaly, AVO (posteriormente AVH) na Hungria - e os servios de informaes do exrcito. Na Romnia, o Servio Especial, predecessor da famosa Securitate, era dirigido por Emil Bodnaras, antigo oficial do exrcito e, segundo Cristina Boico, agente sovitico desde os anos 30. Por toda parte e sempre, a prioridade comunista foi a de instalar um aparelho de terror. A propsito do controle absoluto da AVO, Mtys Rkosi, secretrio-geral do PCH, declarou:  a nica instituio da qual nos reservamos a direo total, recusando categoricamente partilh-la com os outros partidos da coligao na proporo das nossas foras respectivas.

	Os processos polticos contra os aliados no comunistas

	O discurso ocasional de certos dirigentes comunistas da poca sobre as vias nacionais para o socialismo, sem ditadura do proletariado  sovitica, camuflava a estratgia real de todos os partidos do centro e do sudeste da Europa. Tal estratgia consistia na aplicao de doutrinas e prticas bolcheviques que j haviam demonstrado seu valor na Rssia a partir de 1917. A represso seguia uma lgica ensaiada e testada. Assim como os bolcheviques haviam eliminado os seus aliados de outubro de 1917, os socialis-tas-revolucionrios ou outros ainda, seus alunos aplicados, liquidaram, logo a partir de 1946, os seus parceiros de coalizo. Os analistas fazem referncia ao processo de sovietizao desses pases e ao plano estratgico elaborado por Moscou. Pois foi o prprio Stalin quem, no vero de 1947, ordenou a rejeio do Plano Marshall e foi ele quem inspirou a criao do Bureau de Informao dos partidos comunistas (Kominform), em setembro de 1947, para controlar ainda melhor os partidos no poder.
	Certamente, havia diferenas na evoluo dos pases de que nos ocupamos. Por todos os lugares, no entanto, os partidos comunistas visavam  aniquilao total dos seus adversrios ou concorrentes polticos, ideolgicos, espirituais, reais ou potenciais. A doutrina exigia a sua eliminao, e todos os mtodos eram bons para alcan-la - desde a condenao  morte, a execuo, a priso de longa durao at a exlio forado no Ocidente, processo menos cruel mas que enfraquecia as forcas de resistncia dos comunistas, tendo sido, de uma forma geral, subestimado nas anlises das histrias desses pases. No fazem o direito  ptria e ao lar parte integrante dos direitos fundamentais do homem? A partir de 1944-1945, dezenas de milhares de hngaros, eslavos, poloneses e outros fugiam dos seus pases com medo do Exrcito Vermelho.
	O primeiro instrumento do arsenal da represso foi o processo poltico contra dirigentes de outros partidos, que no eram nem colaboracionistas dos ocupantes nazistas, nem fascistas locais, mas, pelo contrrio, eram muitas vezes resistentes que haviam conhecido as prises e os campos dos regimes fascistas ou nazistas. Esses processos comearam nos pases ex-aliados da Alemanha, sob controle direto do Exrcito Vermelho (Hungria, Romnia e Bulgria): nas comisses interaliadas criadas em 1944 e funcionando at 1947, os militares soviticos tinham um papel amplamente preponderante, sempre impondo os seus pontos de vista. Na Hungria, o Partido dos Pequenos Proprietrios, grande vencedor das eleies de 1945, com 57% dos votos, foi alvo no apenas de manobras polticas como tambm de grandes operaes policiais. Em janeiro de 1947, o Ministrio do Interior, controlado pelo comunista Laszlo Rajk, ex-combatente das Brigadas Internacionais da Guerra Civil da Espanha e depois dirigente da Resistncia interna no fim da guerra, anunciou a descoberta de uma conspirao contra o Estado, pondo em causa a comunidade hngara que se formara durante a guerra para combater clandestinamente o ocupante nazista. A polcia prendeu um ministro e vrios deputados do Partido dos Pequenos Proprietrios; o chefe dos pretensos conspiradores, Gyrgy Donath, foi condenado  morte e executado, e os outros acusados condenados a pesadas penas de priso.
	Em fevereiro de 1947, Bela Kovacs, secretrio-geral desse poderoso partido, foi preso pelas autoridades soviticas sob a acusao de conspirar contra a segurana do Exrcito Vermelho; ele foi encarcerado na Unio Sovitica, onde ficou at 1956. O nmero de vtimas aumentou rapidamente, j que a polcia comunista continuava a pensar, tanto na Hungria como por toda a parte, que em cada conspirao havia forosamente ramificaes.
	Dois anos aps o fim da guerra, o principal partido poltico hngaro encontrava-se decapitado e desmembrado. Como Bla Kovacs, os seus dirigentes mais importantes encontravam-se presos ou no exlio: Perene Nagy, presidente do Conselho, Zoltan Tildy, seu predecessor, Bla Varga, presidente da Assembleia Nacional, Jozsef Kvago, presidente da Cmara Municipal de Budapeste; com eles, dezenas de deputados e responsveis desse partido. O Partido da Independncia e o Partido Democrtico Popular foram dissolvidos entre o final de 1947 e o incio de 1949. A ttica do salame, mais tarde vangloriada por Mtys Rkosi, secretrio-geral do Partido Comunista, que regressava de Moscou com o Exrcito Vermelho, a propsito do Partido dos Pequenos Proprietrios, preconizava a destruio do adversrio por fatias sucessivas. Com a firme convico de que a ingesto dessas fatias no causaria nunca problemas de digesto...
	Foi ainda na Hungria, em fevereiro de 1948, que foi conduzida a perseguio dos social-democratas, com a priso de Justus Kelemen, ento subsecretrio de Estado junto ao ministro da Indstria. Essa perseguio comeara provavelmente - Polnia  parte - na Bulgria, onde o dirigente social-demo-crata Krastiu Pastukhov havia sido condenado, em junho de 1946, a cinco anos de priso. Antes do vero de 1946, estavam na priso 15 membros do Comit Central da Social-Democracia Independente, dirigido por Kosta Lultchev. Este ltimo, com outros dirigentes, foi preso em 1948 e condenado, em novembro, a 15 anos de priso. Chegando  Romnia em 1948, com a priso de Constantin Titel Petrescu e Anton Dimitriu - respectivamente presidente e secretrio-geral do Partido Social-Democrata Independente -, essa represso atingiu duramente todos os que se opunham  unio forada dos partidos social-democratas aos partidos comunistas dominantes. A aliana dos social-democratas, solicitada na Libertao, revelou-se como pura ttica; o pluralismo do movimento operrio nunca ocupou realmente qualquer lugar no interior dos regimes comunistas. A perseguio aos social-democratas conheceu um episdio especial na zona de ocupao sovitica na Alemanha, transformada em Repblica Popular da Alemanha. Entre 1945 e 1950, cinco mil social-democratas, 400 dos quais morreram quando se encontravam detidos, teriam sido condenados pelos tribunais soviticos e da Alemanha de Leste. O ltimo grande processo contra os social-democratas desse perodo teve lugar em Praga no final de 1954.
	Na Bulgria, 24 militantes do Partido Agrrio foram assassinados antes das eleies de 27 de outubro 1946. Nicolas Petkov, dirigente do partido, foi preso em 5 de junho de 1947, em plena Assembleia Nacional, juntamente com 24 outros deputados. Republicano francfilo, ele passara sete anos de exlio na Franca aps o assassinato, em 1924, de seu irmo, deputado pela Unio Agrria. Em 1940, Petkov fora aprisionado durante alguns meses no campo de Gonda-Voda, sendo depois colocado sob residncia fixa; durante esse perodo, ele preparou a fundao da Frente Patritica, que integrava tambm resistentes comunistas. Presidente do Conselho no fim da guerra, ele se 	demitiria mais tarde como protesto contra as violncias terroristas verificadas durante as depuraes conduzidas pelos comunistas, ento minoritrios. Chefe da Oposio Unida, esse antigo aliado dos comunistas foi, em 1947, acusado de conspirao armada contra o governo, sendo julgado em 5 de agosto, e condenado  morte em 16 e enforcado em 23 de setembro. Entre os responsveis comunistas e da Segurana de Estado que prepararam tanto a priso como o processo de Petkov figurava um certo Traitcho Kostov, que seria enforcado dois anos depois...

	A priso de Sighet
	No extremo noroeste da Romnia, encontra-se a localidade de Sighet. Em 1896, foi construda ali uma priso de paredes espessas que em 1948 se tornou uma priso poltica com um regime severo.
	Em maio de 1950, vrios furges levaram para Sighet mais de 200 personalidades, incluindo alguns ministros dos governos posteriores a 1945. A maior parte eram pessoas idosas - caso do chefe do Partido Nacional Campons, Juliu Maniu, com 73 anos, ou do decano da famlia Bratianu (o fundador da Romnia moderna), de 82 anos. A priso ficou repleta de polticos, generais, jornalistas, padres, bispos greco-catlicos, etc. Cinco anos depois, 52 prisioneiros haveriam de encontrar a morte naquele lugar.

	Nos outros dois antigos pases satlites da Alemanha, os processos polticos visaram, num primeiro momento, os dirigentes dos poderosos partidos agrrios, que em alguns casos haviam contribudo para a ruptura da aliana com a Alemanha, facilitando assim a entrada do Exrcito Vermelho. Em outubro de 1947, na Romnia, Juliu Maniu e lon Mihalache foram condenados  priso perptua, no decorrer de um importante processo baseado em provocaes policiais; foram tambm condenadas 17 personalidades do Partido Nacional Campons. Esse processo marcou o incio da perseguio em massa aos polticos no comunistas. Juliu Maniu morreria em 1952 na priso. No entanto, vrios homens polticos, entre eles o liberal Vintila Bratianu, haviam sido condenados por um tribunal militar antes das eleies de 18 de novembro de 1946, acusados falsamente de terem montado uma organizao terrorista.
	No que se refere a processos polticos contra antigos aliados, talvez a Tchecoslovquia seja o pas que oferece o exemplo mais puro, mais nu, da utilizao da metodologia comunista. A Tchecoslovquia pertencia ao grupo de pases vencedores, e a sua restaurao, em 1945, fizera esquecer a aliana do Estado eslovaco com a Alemanha, aliana alis apagada pela insurreio nacional eslovaca contra a ocupao nazista no final do ms de agosto de 1944. Em novembro de 1945, devido aos acordos dos Aliados, o Exrcito Vermelho teve de se retirar, o mesmo acontecendo com os americanos que tinham libertado a Bomia Ocidental. O Partido Comunista ganhou as eleies de 1946, sendo, no entanto, minoritrio na Eslovquia, zona onde o Partido Democrtico recolhia 62% dos votos. Os polticos, que, aps a Libertao, partilhavam o poder com os comunistas, haviam comprovado o seu amor pela liberdade e pela democracia com a sua participao na Resistncia, tanto no interior como no exterior, inclusive na Eslovquia.

	   A ltima declarao de Nicolas Petkov
	
	   Aps a interveno do procurador-geral, que pedira a sua condenao  pena capital, Nicolas Petkov tinha o direito de fazer uma ltima declarao. Tirou uma folha de papel do bolso e, com voz calma, comeou a ler:
	Senhores juizes [...], com a conscincia tranquila e estando plenamente a par das minhas responsabilidades para com a justia blgara, para com a sociedade e para com a organizao poltica a que perteno e pela qual estou sempre pronto a dar a vida,  meu dever declarar que:
	Nunca participei, nem tive inteno de participar, de qualquer atividade ilegal dirigida contra o poder popular de 9 de setembro de 1944, do qual, com a Unio Agrria a que perteno, fui um dos fundadores.
	Fao parte da Unio Agrria blgara desde 1923- Os princpios fundamentais da sua ideologia so: a paz, a ordem, a legalidade e o poder do povo; as suas nicas armas so a fora dos boletins de voto, a livre expresso e a imprensa. A Unio Agrria blgara jamais recorreu a organizaes e aes secretas e conspirativas. Nunca participou em golpes de Estado, embora frequentemente fosse vtima deles.
	N. Petkov evocou depois os dias 9 de junho 1923 e 19 de maio 1934 - o comeo do fascismo na Bulgria e a sua demisso do Governo.
	Se eu fosse, como os senhores da acusao pblica afirmam, um homem vido de poder e carreirista, seria ainda hoje vice-presidente do Conselho da Bulgria. Mesmo na oposio e at o momento da minha priso, nunca cessei de trabalhar para o entendimento entre a Unio Agrria e o Partido Operrio Comunista, o que para mim representa uma necessidade histrica. Nunca servi qualquer reao, no pas ou no exterior.
	Senhores juizes, h dois anos, mais exatamente desde 25 de junho de 1945, venho sendo alvo da mais cruel e impiedosa campanha jamais lanada contra um poltico blgaro. A minha vida, pblica e privada, foi devassada. Fui trs vezes enterrado simbolicamente em Sofia e uma dezena de outras na provncia. Por trs vezes li, com os meus prprios olhos, o meu obiturio, afixado  entrada do cemitrio de Sofia. Suportei tudo isso sem me queixar. Com coragem suportarei igualmente tudo o que me espera, j que tal  o inelutvel destino da triste realidade poltica blgara.
	Modesto operrio da vida pblica, no posso me queixar, j que dois homens, hoje por todos reconhecidos como grandes homens de Estado, Dimitri Petkov e Petko Pedcov, foram assassinados como traidores nas ruas de Sofia. [Nicolas Petkov se referia a seu pai, Dimitri, ento presidente do Conselho, assassinado em 11 de maro de 1907 com dois disparos pelas costas; e a Petko, seu irmo, deputado, morto em 14 de junho de 1924, com tiros de revlver em pleno peito.]
	Senhores juizes, estou convencido de que poro de lado a poltica, j que ela no tem lugar num tribunal, para considerarem apenas os fatos incontesta-
	
velmente provados. E estou convencido de que, guiados apenas pela conscincia de juizes - pelo menos  o que espero -, se pronunciaro a favor da minha absolvio.
	Em 16 de agosto 1947, depois de ter escutado a sentena que o condenava  morte por enforcamento, em nome da nao blgara, Nicolas Pedcov exclamou, em voz alta e forte:
	No! No em nome do povo blgaro! Morro por ordem dos vossos patres estrangeiros, os do Kremlin ou outros. O povo blgaro, esmagado pela tirania sangrenta que quereis fazer passar por justia, no acreditar nunca nas vossas infmias!
	(Paul Vergnet e Jean Bernard-Derosne, UAffaire Petkov, Paris, Self, 1948, pp. 188-92.)

	A abertura dos arquivos tchecos e soviticos permitiu compreender melhor toda a perversidade do comportamento dos mulos dos bolcheviques. Em dezembro de 1929, o seu chefe na Tchecoslovquia, o deputado Klement Gottwald, declarava num discurso no Parlamento, respondendo  acusao de que o PCT atuava sob as ordens de Moscou: Somos o partido do proletariado tcheco, e o nosso quartel-general supremo revolucionrio  realmente Moscou. Quando vamos a Moscou  para aprendermos, sabem o qu? Vamos a Moscou para aprender como torcer o vosso pescoo. Como sabeis, os bolcheviques russos so mestres nisso. 
	Depois das eleies de maio de 1946, Gottwald, o determinado torcedor de pescoos, cujo destino de operrio autodidata transformado em chefe de um partido comunista bolchevizado lembra o de um outro comunista, Maurice Thorez, chegou a presidente do Conselho. Transformou-se ento no maestro da represso, primeiro nos bastidores, depois sob as luzes da ribalta.
	O primeiro alvo das manobras polticas e das provocaes da Segurana de Estado foi o Partido Democrtico Eslovaco. No se verificou reao por parte dos no-comunistas tchecos, nacionalistas por vezes intensamente antieslovacos. Em setembro de 1947, a polcia, controlada pelos comunistas, anunciou a descoberta de uma fictcia conspirao na Eslovquia, dirigida contra o Estado. No decorrer da crise que se seguiu, o Partido Democrtico perdeu a sua maioria no interior do governo eslovaco, e dois dos seus trs secretrios foram presos.
	A represso foi consideravelmente acelerada em fevereiro de 1948, depois do golpe de Praga que abriu as portas  instalao do monoplio do poder do PCT. Desde o incio da crise de fevereiro, provocada pela demisso da maioria dos ministros no comunistas, foram presos, entre outros, o eslovaco Jan Ursiny, presidente do Partido Democrtico e vice-primeiro-ministro do Governo de Gottwald - at ser forado  demisso, no outono de 1947 -e Prokop Drtina, o seu ministro da Justia. Ambos haviam participado da Resistncia durante a Ocupao.
	Os primeiros grandes processos, inteiramente montados, contra os dirigentes do Partido Democrata Eslovaco ocorreram em abril e maio de 1948: 25 foram condenados, um deles a 30 anos de priso. Os objetivos gerais da represso policial e judiciria pareciam ento j definidos: procurava-se atingir os inimigos no exrcito e nos servios de segurana bem assim como os dirigentes polticos democratas, liberais ou socialistas, que at fevereiro de 1948 haviam sido aliados, muitas vezes partidrios bastante sinceros da colaborao com os comunistas.
	Consideremos, quanto s elites, dois casos tpicos do prisioneiro poltico desse perodo.
	Heliodor Pika, general, patriota reconhecido e democrata, desempenhara um papel de grande importncia na Resistncia exterior. Partidrio da colaborao com a Unio Sovitica, fora, desde a primavera de 1941, escolhido para chefiar a delegao militar tcheca na URSS, antes portanto da ofensiva alem de 22 de junho contra a URSS. As suas iniciativas e atuao durante os anos 30, favorveis  colaborao e poltica de amizade com Moscou, eram conhecidas. Reconhecidos eram tambm os seus confrontos com o aparelho sovitico, provocados pelas suas tentativas de obter a libertao das prises e dos campos de encarceramento soviticos de mais de dez mil cidados tchecos, presos na sua maioria por passagem ilegal das fronteiras da URSS, entre 1938 e 1939. O objetivo era fazer com que eles integrassem o exrcito tcheco que estava para ser organizado na Unio Sovitica. O patriotismo de Pika e os servios prestados  revoluo democrtica e nacional nunca haviam sido contestados: em 1945, ele desempenhava as funes de adjunto do chefe de estado-maior do exrcito.
	A partir do final de 1945, as atividades de Heliodor Pika comearam a ser seguidas muito de perto pelos servios de informao militares dirigidos por Bedrich Reicin, comunista com estreitas ligaes aos servios especiais soviticos. No final de fevereiro de 1948, o general Pika foi expulso do exrcito e, no comeo de maio, preso sob a dupla acusao de sabotagem contra as operaes do exrcito tcheco na URSS, trabalhando para os servios britnicos, e de atuao contra os interesses da Unio Sovitica e da Repblica... O Tribunal do Estado, especialmente constitudo em meados de 1948 para superintender a represso poltica, condenou-o  morte em 28 de janeiro de 1949. Pika foi enforcado em 21 de junho de 1949, s 6 horas da manh, no ptio interior da priso de Plzen (Pilsen). B. Reicin confessou claramente a colaboradores prximos as razes da liquidao fsica do general: os rgos soviticos a haviam exigido porque ele sabia demais sobre os servios de informao soviticos. A mesma razo explica tambm, sem dvida, o enforcamento de Reicin trs anos mais tarde.
	O caso de Josef Podsednik  igualmente exemplar. Em fevereiro de 1948, ele tornou-se prefeito de Brno, uma grande metrpole na Morvia e segunda cidade mais importante da Tchecoslovquia. Ele chegou a esse cargo atravs das eleies democrticas de 1946, s quais concorrera como candida to do Partido Socialista Nacional, constitudo no incio do sculo e sem qual quer relao com o nacional-socialismo de Hitler. Partidrio do ideal demo crtico e humanista de Tomas Masaryk, o primeiro presidente da Repblica nascida em 1918, representando um grupo importante do socialismo tcheco, a sua colaborao com os comunistas era sincera. Em fevereiro de 1948, Josef Podsednik havia considerado, num primeiro momento, sair do pas, decidin do-se depois pela permanncia e auxlio a antigos membros do seu partido perseguidos na regio (mais de 60 mil em 31 de dezembro de 1947). Preso em 3 de setembro desse ano, o Tribunal de Estado condenava-o, em maro de 1949, a 18 anos de priso por atividades ilegais visando  destruio do regi me pela violncia, em compl com a reao estrangeira, etc. Juntamente com Podsednik, 19 dirigentes do Partido Socialista Nacional foram condena dos, perfazendo um total de 74 anos de priso. As testemunhas apresentadas no decorrer do processo eram todas presos polticos que aguardavam julga mento. Outros grupos, incluindo 32 militantes da regio da Morvia do Sul, seriam mais tarde, mas ainda no contexto do caso J. Podsednik, condenados a um total de 62 anos de cadeia.
	   O processo de J. Podsednik foi pblico. Algumas dezenas de responsveis do PCT assistiram a esse primeiro grande processo poltico perante o Tribunal de Estado.  frente desse grupo, encontrava-se Otto Sling [um dos futuros condenados  morte no processo Slansky] que riu bastante quando foi pronunciado o veredicto, como mais tarde testemunhou Josef Podsednik, que saiu da priso em 1963, depois de cumpridos os 15 anos de pena.
	   
	Um estranho jogo dos intelectuais comunistas
	No final desse ano de 1951, falava-se ainda muito pouco de psicodramas. Cheguei com Claire, por volta da meia-noite, na noite de Saint Silvestre, vindo de uma festa de famlia, ao rveillon da minha outra famlia, na casa de Pierre Courtade [jornalista e escritor comunista]. Todo o mundo estava alegre. Todos muito bbados. Estvamos a sua espera!, exclamaram os meus camaradas. Explicaram-me o jogo. Jean Duvignaud [socilogo da arte] disse ento que cada poca inventa o seu gnero literrio: os gregos, a tragdia; o Renascimento, o soneto; o sculo XVII, os cinco atos em verso e a regra das trs unidades, etc. A era socialista j havia inventado o seu gnero: o processo de Moscou. Era o jogo do processo que os convivas, j um pouco bbados, haviam decidido jogar. Esperava-se apenas um acusado. Eu, portanto. Roger Vailland [escritor comunista] era o procurador, Courtade faria o papel de defensor. Restava-me apenas tomar o meu lugar na cadeira do ru. Protestei em vo e depois acabei por me submeter ao jogo. A acusao foi implacvel: eu era culpado de infraes contra dez artigos do Cdigo: sabotagem da luta ideolgica, comprometimento com o inimigo cultural, compl com os espies cosmopolitas, alta traio filosfica, etc. Como eu quis discutir durante o interrogatrio, procurador, advogado de defesa e testemunhas de acusao zangaram-se. A defesa feita pelo meu advogado foi lamentvel: eu tinha direito a circunstncias atenuantes, isto , a que me libertassem do fardo da vida to rapidamente quanto possvel. Com a ajuda do lcool, o burlesco da cena transformava-se em pesadelo, a pardia em ferida. No momento da sentena (de morte, claro), duas mulheres na assistncia, uma delas a minha esposa, tiveram uma crise de nervos. Todos gritavam, choravam, procuravam o amonaco no armrio dos remdios, umedeciam toalhas em gua fria. Procurador, advogado e acusado se curvavam sobre os que estayam em convulso. Certamente, eu era o nico que no estava bbado. Mas no era o nico a sentir vergonha.
	Hoje, no me restam mais dvidas: estvamos todos loucos. Existe talvez um momento no esprito em que a loucura atenua as responsabilidades. Mas, antes de chegar a esse lugar, muitas vezes o alienado no  aquele cuja loucura alivia do fardo da responsabilidade, mas sim o que escolhe a loucura para escapar ao n que o estrangula, mas que ele no ousa cortar.
	A nossa alienao era apenas a consequncia de uma alienao histrica. Racionalizvamos e interiorizvamos uma demncia mais geral.
	(Claude Roy, Naus, Paris, Gallimard, col. Folio, 1980, pp. 389-90.)
	   
	A eliminao dos aliados democratas ou socialistas culminou, na Tchecoslovquia, com o processo de Milada Horakova, realizado em Praga entre 31 de maio e 8 de junho de 1950. Treze pessoas foram condenadas: os dirigentes dos partidos Socialista Nacional, Social-Democrata e Popular e um trotskista; as sentenas foram: quatro condenaes  morte (entre elas a de Milada Horakova), quatro outras  priso perptua e, finalmente, cinco a penas de priso entre os 15 e os 28 anos - 110 anos no total. Um relatrio do Supremo Tribunal de Justia, publicado em 1968, na ocasio da Primavera de Praga, refere a realizao de 300 processos polticos decorrentes do de Milada Horakova. Mais de 7.000 antigos membros do Partido Socialista Nacional foram assim condenados. Os processos mais importantes desenrolaram-se entre maio e julho de 1950, em vrias cidades da provncia, para que a dimenso nacional da pretensa conspirao se tornasse mais evidente. Houve 35 processos, com 639 condenados, dos quais 10  pena capital, 48  priso perptua e os outros a um total de 7.850 anos de priso.
	O processo de Milada Horakova fez histria por diversas razes: foi o primeiro processo de grande espetculo (expresso criada por um dos grandes especialistas da represso, o historiador tcheco Karel Kaplan); foi, tambm, o primeiro diretamente preparado por conselheiros soviticos, altos responsveis dos servios especiais que vieram para co-gerir a represso e estruturar um mecanismo que, posteriormente, aparecia como clssico - a preparao minuciosa do espetculo, confisses decoradas e declamadas, mquina de propaganda utilizada  fora, etc.
	Esse processo marcou uma etapa importante na represso poltica na Europa no apenas comunista; uma mulher foi enforcada, uma mulher resistente - extremamente corajosa -, desde o incio da ocupao dos pases tche-cos em maro de 1939, uma mulher aprisionada pelos nazistas durante quase cinco anos, uma mulher democrata  qual nunca passara pela cabea combater pelas armas a ditadura comunista...
	Por que  que a opinio pblica ocidental no se mobilizou contra esse crime comunista? Por que  que a indignao do fsico Albert Einstein no foi apoiada por uma intensa campanha de coleta de assinaturas? Por que  que os resistentes, na Frana e em outros pases, no denunciaram vigorosamente esse crime? Por que  que no se verificaram manifestaes macias de solidariedade para com uma democrata para salv-la da forca?
	
	   A destruio da sociedade civil
	
	   Para que nos faamos entender,  necessrio - em virtude do caos semntico em que nos  dado viver - explicitar o que significa a noo de sociedade civil, mesmo sem pretender estabelecer uma definio final. Essa sociedade evolui com o capitalismo e a formao do Estado moderno. Contraponto ao poder estatal, ela  independente dele. Ela se sustenta, em primeiro lugar, num sistema de necessidades onde a atividade econmica privada desempenha um papel essencial. A sociedade civil pressupe um indivduo rico em necessidades, ela se assenta nos valores desse ltimo, sujeito da conscincia e da ao, detentor da liberdade humana. Esse indivduo  ao mesmo tempo um ser egosta, independente (burgus) e um cidado interessado pelos assuntos pblicos (homem comunitrio). Lubomir Sochor, filsofo e poli-tlogo, define a sociedade civil como o conjunto das instituies sociais suprafamiliares e ao mesmo tempo no estatais que congregam os membros da sociedade, objetivando uma ao coordenada e exprimindo as opinies e interesses particulares desses membros. Claro que sob a condio de esses organismos e instituies serem autnomos e no transformados em organismos paraestatais ou meras 'correias de transmisso' do poder do Estado. Incluiremos, portanto, entre os organismos da sociedade civil que constituem uma forma de fiscalizao social do Estado, corporaes e associaes, Igrejas, sindicatos, municpios e poderes locais (self-government), partidos polticos e opinio pblica.
	A estratgia amadurecida e refletida pela represso comunista, visando  instaurao do poder absoluto, supunha, depois de eliminados os concorrentes polticos e todos os possveis detentores de um poder real - entre eles os quadros do exrcito e da Segurana -, a destruio dos organismos da sociedade civil. Os que queriam para si o monoplio do poder e da verdade eram portanto obrigados a eliminar as foras detentoras, ou que tendiam a ser detentoras, de um poder poltico-espiritual: dirigentes e militantes polticos ou sindicais, eclesisticos, jornalistas, escritores, etc. As vtimas eram muitas vezes escolhidas entre os que ocupavam postos-chave nos organismos da sociedade civil - partidos, Igrejas, sindicatos, ordens religiosas, associaes, rgos da imprensa, poder local.
	No critrio de escolha das vtimas h que se mencionar tambm o internacionalismo. O poder, totalmente subordinado  Unio Sovitica, mandava que fossem cortados todos os laos, extremamente ricos, da sociedade civil com o estrangeiro. Os social-democratas, os catlicos, os trotskistas, os protestantes, etc. foram visados no s pelas suas atividades no interior dos seus pases, mas igualmente porque representantes de correntes que, pela sua natureza, mantinham ligaes tradicionais ricas e frutuosas com o exterior. Os interesses e a finalidade da estratgia sovitica exigiam o desmantelamento dessas relaes.
	De uma forma geral, nas novas democracias populares, as sociedades civis no eram fortes. No perodo anterior  guerra, o seu desenvolvimento fora interrompido por regimes autoritrios ou semi-autoritrios, ou ainda por economias e estruturas sociais muito pouco evoludas. A guerra, os fascismos locais e a poltica dos ocupantes haviam contribudo fortemente para essa fraqueza. Depois da Libertao, o comportamento das autoridades soviticas e as depuraes selvagens limitaram ainda mais as suas possibilidades de desenvolvimento.
	Por outro lado, as intervenes do Exrcito Vermelho na zona de ocupao da Alemanha de Leste explicam, em grande parte, a relativa clemncia da represso policial e judicial e a ausncia de processos polticos de grande espetculo na Repblica Democrtica da Alemanha durante o seu perodo da fundao (ela nasceu em 1949) - represso e processos que acompanharam, em todos os outros pases, a instaurao dos regimes comunistas. Na RDA, o recurso a esses instrumentos de violncia no foi necessrio; os objetivos do novo regime haviam sido atingidos atravs da represso precedente. Segundo estudos realizados depois da queda do muro de Berlim, em 1989, as autoridades soviticas de ocupao foram, entre 1945 e 1950, responsveis pelo aprisionamento de 122.000 pessoas, 43.000 das quais morreram na priso, e 756 foram condenadas  morte. A direo do SED foi diretamente responsvel por uma represso que atingiu entre 40.000 e 60.000 pessoas.
	A Tchecoslovquia constitui uma exceo de outro tipo, pela violncia da represso que se abateu sobre a sociedade civil a partir de 1948. Esse pas era o nico da Europa Central e do Sudeste a ter estabelecido uma real democracia parlamentar no perodo entre as duas guerras - experincia vivida tambm na Romnia, se bem que de forma limitada. Acrescente-se que a Tchecoslovquia pertencia ento ao grupo dos dez pases mais industrializados do mundo. A sua sociedade civil era, na ocasio da Libertao e no espao da Europa do Centro e do Sudeste, a mais desenvolvida e a mais estruturada e se havia reconstitudo logo desde 1945. J em 1946, quase 2,5 milhes de cidados, cerca de metade da populao adulta, eram filiados a um dos quatro partidos polticos das trs naes tchecas (Bomia, Morvia e Silsia). Dois milhes de tchecos e eslovacos pertenciam a sindicatos unificados. Centenas de milhares de pessoas participavam de numerosas associaes; uma associao desportiva, politizada desde o final do sculo XK na luta pela afirmao nacional, o Sokol (Falco), contava em 1948 mais de 700.000 filiados. Os primeiros Sokols comearam a ser presos durante o vero de 1948, durante a realizao do slet (reunio gmnica nacional). Os primeiros processos polticos que os atingiram tiveram lugar em setembro de 1948; dois anos depois, essa associao encontrava-se praticamente aniquilada, uma parte fora transformada - nos povoados - em organismos paraestatais, mas o essencial de sua fora encontrava-se paralisado pela priso de milhares de responsveis. O Sokol - como outros organismos da sociedade civil, escoteiros, associaes protestantes, catlicas ou outras - fora aniquilado atravs de perseguio policial e judicial, pelos expurgos impostos, pela ocupao de locais e pelo confisco de bens, aes nas quais os agentes da polcia secreta - protegidos pelos Comits de ao criados em fevereiro de 1948 - eram peritos.

	Prises nazistas e prises comunistas

	1. Nyeste, hngaro e resistente, dirigia depois da guerra uma organizao de jovens; recusou-se a se filiar ao PC. Condenado depois de processo, cumpriu a sua pena no campo de trabalho de Resz, onde permaneceu at 1956; de acordo com o seu testemunho, os prisioneiros passavam 12 horas por dia no inverno, e 16 no vero, quebrando pedras. No entanto, o mais difcil de suportar era a fome:
	A diferena entre a polcia secreta comunista e a dos nazistas - sou um dos felizes eleitos a ter experimentado ambas - no reside nos seus nveis de crueldade e de brutalidade. A sala de tortura de um crcere nazista era idntica  de um crcere comunista. A diferena no se encontra a. Se os nazistas o prendiam como dissidente poltico, queriam geralmente saber quais eram as suas advidades, quem eram os seus amigos, quais eram os seus planos e assim por diante. Os comunistas no perdiam tempo com isso. Sabiam j, ao prend-lo, que tipo de confisso voc iria assinar. Mas o senhor no sabia. Eu no podia jamais imaginar que seria transformado num... 'espio americano'!
	(Entrevista para a emisso The Other Europe, janeiro de 1988, citada in Jacques Rupnik, LAutre Europe. Crise et fin du communisme, Paris, Odile Jacob, 1990, p. 147.)
	
	   Para o poder comunista, as Igrejas representavam o mais importante problema no processo de controle e de esmagamento dos organismos da sociedade civil. A sua histria e o seu enraizamento eram multisseculares. A aplicao do modelo bolchevique foi mais difcil em certos pases do que em outros que conheciam a tradio da Igreja Ortodoxa, a tradio bizantina do csaro-papismo, tendendo para a colaborao da Igreja com o poder estabelecido - afirmao que de forma alguma pretende subestimar a represso sofrida pelos ortodoxos, tanto na Rssia como no conjunto da URSS. No caso da Igreja Catlica, a sua organizao internacional, dirigida a partir do Vaticano, representava um fenmeno insuportvel para o campo socialista emergente. A confrontao entre as duas grandes Internacionais da f, com as suas duas capitais, Moscou e Roma, era, portanto e logicamente, fatal. A estratgia de Moscou estava bem-defmida: romper os laos existentes entre as Igrejas Catlica ou Greco-Catlica e o Vaticano, submetendo-as ao poder e transformando-as em Igrejas nacionais.  o que deixam entender as consultas com os responsveis soviticos quando da reunio do Bureau de Informao dos Partidos Comunistas, em junho de 1948, relatada por Rudolf Slansky, secre-trio-geral do PCT.
	Para atingir o seu objetivo - a reduo da influncia das Igrejas sobre a vida social, submet-las ao controle meticuloso do Estado e transform-las em instrumento da sua poltica -, os comunistas combinaram represso, tentativas de corrupo e... limpeza da hierarquia; a abertura de arquivos permitiu desmascarar, por exemplo, na Tchecoslovquia, numerosos eclesisticos, principalmente bispos, como colaboradores da polcia secreta. Tero alguns querido, com isso, evitar o pior?
	A primeira onda de represso anti-religiosa - no se considerando agora o caso das vtimas de depuraes selvagens (por exemplo, a dos popes blgaros, j mencionada) - verifica-se provavelmente na Albnia. O primaz Gaspar Thaci, arcebispo de Shkoder, morreu em residncia vigiada quando se encontrava nas mos da polcia secreta. Vincent Prendushi, arcebispo de Durrs, condenado a 30 anos de trabalhos forados, morreu em fevereiro de 1949, provavelmente em consequncia de tortura. Em fevereiro de 1948, cinco religiosos, entre eles os bispos Volai e Ghini, o superior da delegao apostlica, foram condenados  morte e fuzilados. Mais de cem religiosos e religiosas, padres e seminaristas morreram na priso ou foram levados diante de pelotes de fuzilamento. Como consequncia dessa perseguio, pelo menos um muulmano, o jurista Mustafa Pipa, foi executado: ele havia tomado a defesa de franciscanos. Antecipando um pouco, lembremos que, em 1967, Henver Hoxha declarava que a Albnia se tornara o primeiro Estado ateu do mundo. A gazeta Nendori anunciava com orgulho que todas as mesquitas e igrejas do pas haviam sido demolidas ou se encontravam fechadas ao culto - 2.169 no total, das quais 327 eram santurios catlicos.
	Na Hungria a confrontao violenta entre a Igreja Catlica e o poder iniciou-se no decorrer do vero de 1948, com a nacionalizao das vrias escolas confessionais. Cinco padres foram condenados em julho; as condenaes continuaram durante o outono. O indomvel primaz da Hungria, cardeal Jozsef Mindszenty, foi preso em 26 de dezembro de 1948, segundo dia das festas do Natal, e condenado a priso perptua em 5 de fevereiro de 1949. Com a assistncia de seus cmplices, ele teria fomentado uma conspirao contra a Repblica, seguido da prtica de espionagem, etc. - tudo isso, bem entendido, a favor das potncias imperialistas e em primeiro lugar dos Estados Unidos. Um ano mais tarde o poder ocupava grande parte dos conventos, expulsando a maior parte dos 12 mil religiosos e religiosas que neles viviam. Em junho de 1951 o decano do episcopado e colaborador mais prximo do cardeal Mindszenty, Monsenhor Grosz, arcebispo de Kalocza, conhecia destino idntico ao do seu primaz. As Igrejas Calvinista e Luterana, nitidamente com menos fora, contaram tambm vrias vtimas, bispos e pastores, entre eles uma eminente personalidade calvinista, o bispo Laszlo Ravasz.
	Na Tchecoslovquia, como acontecera na Hungria, o poder tudo fez para criar no interior da Igreja Catlica uma corrente de dissidncia disposta  colaborao. Como os resultados obtidos foram apenas parciais, passou-se depois a um grau superior de represso. Em junho de 1949, Josef Beran, arcebispo de Praga, encarcerado pelos nazistas desde 1942 nos campos de Terezin e de Dachau, foi colocado sob residncia vigiada e depois aprisionado. Em setembro de 1949, foram presos algumas dezenas de vigrios que protestavam contra a lei sobre as Igrejas. Em 31 de maro de 1950, abria-se em Praga o processo de altos dignitrios das ordens religiosas, acusados de espionagem a favor do Vaticano e de outras potncias estrangeiras, de organizao de depsitos clandestinos de armas e de preparao de um golpe de Estado. O redentorista Mastilak, reitor do Instituto Teolgico, foi condenado a priso perptua. Os outros acumularam entre si 132 anos de cadeia. Na noite de 13 para 14 de abril do mesmo ano, verificava-se uma interveno de grande envergadura contra os conventos, preparada pelo Ministrio do Interior como uma operao militar. A maior parte dos religiosos foi deslocada e aprisionada. Simultaneamente, a polcia colocou os bispos sob residncia vigiada, de tal modo que todo o contato com o mundo exterior era impossvel.
	   Na primavera de 1950, o regime ordenou na Eslovquia Oriental a liquidao da Igreja Greco-Catlica (Uniata) atravs da sua integrao forada na Igreja Ortodoxa - processo utilizado em 1946 na Ucrnia Sovitica. Os eclesisticos que se opuseram foram aprisionados ou afastados das suas parquias. O arcipreste da Rutnia Sovitica, Jozsef Csati, foi deportado, depois de um processo fictcio, para o campo de Vorkuta, na Sibria, onde permaneceu de 1950 at 1956.
	A represso das Igrejas foi concebida e supervisada pelas cpulas do PCT. A sua direo aprovava, em setembro de 1950, a concepo poltica de uma srie de processos contra catlicos a terem incio em Praga, em 27 de novembro de 1950. Nove personalidades do crculo de colaboradores mais prximos dos bispos -  frente das quais figurava Stanislav Zela, vigrio-geral de Olomuc, na Morvia Central - foram condenadas a pesadas sentenas. Em 15 de janeiro de 1951, dessa vez em Bratislava, capital eslovaca, terminava o processo de trs bispos, entre eles o da Igreja Greco-Catlica. Os acusados nesses dois processos dirigidos contra os agentes do Vaticano na Tchecos-lovquia (frase comum na poca) foram condenados a sentenas entre os dez anos e a priso perptua. Essa srie terminou no ms de fevereiro de 1951, com novos processos, alguns incidindo de novo sobre os crculos prximos dos bispos; mas a represso no pararia aqui. Stepan Trochta, bispo de Litomerice (Bomia Central), resistente preso em maio de 1942 e detido at o fim da guerra nos campos de concentrao de Terezin, Mauthausen e Dachau, foi condenado a 25 anos de priso... em julho de 1954.
	Os que concebiam e executavam a represso julgaram necessrio no apenas decapitar a hierarquia, como atingir os intelectuais cristos. Resistente, professora de histria da arte na Universidade Charles, Ruzena Vackova, uma mulher muito apreciada pelos prisioneiros polticos, foi condenada em junho de 1952, permanecendo na priso at 1967! A elite da intelligentsia catlica foi duramente atingida pelos dois processos de 1952. O segundo desenrolou-se no ms de julho em Brno, capital da Morvia, e foi provavelmente o mais importante processo poltico contra os homens de letras em toda a histria do sculo XX na Europa.
	Nos pases balcnicos, a represso contra as Igrejas seguiu o mesmo roteiro. Na Romnia, a liquidao da Igreja Greco-Catlica (Uniata), a segunda mais importante em nmero de fiis depois da Ortodoxa, acentuou-se durante o outono de 1948. A Igreja Ortodoxa assistiu, muda, aos acontecimentos, uma vez que, em geral, a sua hierarquia apoiava o regime (o que no impediu o fechamento de vrias igrejas e a priso de alguns popes). Em outubro, encontravam-se j presos todos os bispos uniatas. A Igreja Greco-Catlica foi oficialmente proibida em 19 de dezembro de 1948. Contava, naquele momento, com 1.573.000 fiis (numa populao de 15 milhes de habitantes), 2.498 edifcios de culto e 1.733 padres. As autoridades confiscaram os seus bens, fecharam as suas catedrais e igrejas, chegando ao ponto de incendiar as suas bibliotecas; foram presos l.400 padres (em torno de 600 em novembro de 1948) e cerca de 5.000 fiis, dos quais 200, em mdia, foram assassinados nas prises.

	   A confisso e o no-ser de um catlico

	Importante intelectual catlico que no apreciava muito a hierarquia da sua Igreja, o tcheco Bedrich Fucik foi preso durante a primavera de 1951 e condenado a 15 anos de priso, num processo de grande espetculo realizado em Brno em 1952; saiu da priso, anistiado, em 1960. Ele havia sofrido tortura fsica durante os interrogatrios. Um dia, depois de ter respondido com evasivas - nada, no sei, nenhum - aos seus carrascos durante sete horas, ele no suportou mais e comeou a confisso. Deixem-me em paz, eu lhes suplico, ele disse aos inter-rogadores, hoje no posso,  o aniversrio da morte da minha me. Durante toda a semana anterior ao processo, ele foi obrigado a decorar as respostas para as perguntas que lhe seriam colocadas em tribunal. Ele pesava 48 quilos (contra os 61 na ocasio da priso) e se encontrava muito debilitado fisicamente.
	Transcrevemos aqui extratos das entrevistas feitas por Karel Bartosek e gravadas em Praga entre 1978 e 1982:
	- O senhor tinha conscincia, no tribunal, de ser o ator de uma comdia, de um espetculo?
	Sim. Tinha conscincia disso j muito antes.
	Por que  que o senhor se prestou a essa comdia? Como um intelectual catlico, aceitou participar da encenao de um tribunal comunista stalinista...
	
	Foi o que de mais pesado eu trouxe comigo da priso... a fome, o frio, o buraco... as terrveis dores de cabea, na ocasio em que deixei de ver... tudo isso se pode esquecer... mesmo se tudo permanece sempre num canto do crebro. O que est sempre presente, o mais terrvel e que nunca me abandonar,  que de repente passaram a existir duas pessoas dentro de mim... Dois homens. Eu, o pri meiro, o homem que sempre rui, e eu, o segundo, que diz para o primeiro: Voc  um criminoso, e fez isto e aquilo. E o primeiro se defende. E o dilogo conti nua, entre os dois que sou eu. Trata-se do desdobramento absoluto da personali dade, um humilhando o outro cem cessar: No! Voc  um mentiroso, no  ver dade! E o outro responde: Sim,  verdade! Eu assinei... assinei sim...
	No  o nico a ter confessado. Foram muitos os que confessaram. Todos homens nicos, individualidades, com uma estrutura fsica e mental origi nal, nica; e no entanto o seu comportamento foi idntico ou muito parecido; submeteram-se  encenao de um grande espetculo, aceitaram participar na comdia, aceitaram aprender de cor os papis distribudos. Gravei j as causas da confisso de comunistas, quebrados, destrudos. Mas o senhor era um homem com uma viso do mundo diferente. Como  que isso lhe aconteceu a si? Por que  que colaborou com o poder dos carrascos?
	No me sabia defender, fsica e moralmente, contra a lavagem ao crebro que eles executavam. Eu apenas me submeti. J lhe falei do momento de capitula o em que interiormente fui vencido (o meu interlocutor agita-se, quase que gri ta). Depois j no era... Considero esse estado de no-ser como a maior humilha o, o nvel mais baixo a que um homem pode descer, uma destruio do ser. E sou eu o prprio, sou o executor.

	A Igreja Catlica Romana - 1.250.000 fiis - sofreu os primeiros ataques em maio de 1948, com a priso de 92 padres. As autoridades fecharam as escolas catlicas e confiscaram as instituies mdicas e de caridade. Em junho de 1949, vrios bispos da Igreja Romana foram presos; no ms seguinte, as ordens monsticas foram proibidas. A represso culminou em setembro de 1951, com a organizao de um grande processo poltico no tribunal militar de Bucareste: numerosos bispos e leigos foram condenados como espies.
	Um dos bispos greco-catlicos, ordenado secretamente, preso durante 15 anos e que mais tarde trabalhou como operrio, testemunha:
	Durante longos anos, suportamos em nome de So Pedro a tortura, os espancamentos, a fome, o frio, o confisco de todos os nossos bens, o escrnio e o desprezo. Beijvamos as algemas, as cadeias e as grades de ferro das nossas celas como se fossem objetos de culto, sagrados; e a nossa farda de prisioneiros era o nosso hbito de religiosos. Ns havamos escolhido carregar a cruz, apesar de nos proporem sem cessar uma vida fcil em troca da renncia a Roma. Os nossos bispos, padres e fiis foram condenados, no total, a mais de 15 mil anos de deteno e cumpriram mais de mil. Seis bispos amargaram na priso por fidelidade a Roma. Hoje, apesar de todas as vtimas, a nossa Igreja possui o mesmo nmero de bispos que na poca em que Stalin e o patriarca ortodoxo Justiniano, com todo o triunfo, a declararam morta. 
	O sistema concentracionrio e a gente do povo
	A histria das ditaduras  complexa, e a das ditaduras comunistas no escapa  regra. O seu nascimento na Europa Central e do Sudeste foi marcado pelo apoio popular, por vezes em massa, fenmeno provocado pelas esperanas criadas pelo esmagamento da ditadura nazista e, tambm, pela arte incontestvel com que os dirigentes comunistas cultivaram a iluso e o fanatismo dos quais os jovens foram as primeiras presas - como sempre e por todo lugar. O Bloco de Esquerda, por exemplo, criado na Hungria por iniciativa dos comunistas, minoritrios nos resultados eleitorais, foi capaz de organizar em Budapeste, em maro de 1946, uma manifestao gigantesca com cerca de quatrocentos mil participantes...
	O regime comunista que se instalava no poder assegurou, no incio, a promoo social de centenas de milhares de pessoas provenientes das camadas sociais mais desfavorecidas. Na Tchecoslovquia, pas industrializado em que os operrios representavam cerca de 60% da populao no pas tcheco e 50% no eslovaco, entre 200 e 250 mil operrios substituram os afastados pelos expurgos ou foram reforar o aparelho. Eram, na sua esmagadora maioria, membros do PCT. Milhes de pequenos agricultores ou operrios agrcolas da Europa Central e do Sudeste foram beneficiados, com o fim da guerra, de reformas agrrias, da partilha de latifndios (incluindo os da Igreja Catlica); do mesmo modo, o pequeno comerciante e os artesos aproveitaram-se do confisco dos bens dos alemes expulsos.
	A felicidade de uns, baseada na infelicidade de outros, revelou-se muitas vezes efmera, pois a doutrina bolchevique exigia a liquidao da propriedade privada e o desenraizamento, para sempre, do seu proprietrio. No contexto da guerra fria, a teoria da intensificao da luta de classes e a luta ofensiva das classes vieram acrescentar-se a essa doutrina. A partir de 1945, os novos regimes comearam as nacionalizaes (estatizaes) das grandes empresas, operao muitas vezes legitimada pela expropriao necessria dos bens dos alemes, traidores e colaboracionistas. Assegurado o monoplio do poder, chegou a vez dos pequenos proprietrios, comerciantes e artesos. Os proprietrios de oficinas e de modestas lojas que nunca haviam explorado quem quer que fosse, exceto eles prprios ou os seus familiares, tinham amplas razes de descontentamento. O mesmo acontecia com os camponeses, ameaados desde 1949-1950 pela coletivizao forada das suas terras, imposta sob presso dos dirigentes soviticos. Em situao idntica se encontravam os operrios (sobretudo nos centros industriais), atingidos por diferentes medidas que afetavam o seu nvel de vida ou liquidavam as conquistas sociais do passado.
	O descontentamento ganhou terreno, as tenses sociais aumentaram. Os operrios, para demonstrarem essa situao, utilizaram no apenas a palavra ou o envio de resolues, mas tambm outras formas mais radicais de combate: a greve e a manifestao de rua. Durante o vero de 1948, poucos meses depois do Fevereiro Vitorioso, iniciaram greves em 15 cidades da Tchecoslovquia e da Morvia e trs da Eslovquia, por vezes acompanhadas por manifestaes de rua. Nos ltimos meses de 1951, eles se tornaram reincidentes, com a organizao de greves em todas as regies industriais do pas, reunies de protesto nas fabricas e manifestaes (dez a 30 mil pessoas nas ruas de Brno). Depois, no comeo do ms de junho de 1953, em protesto contra a reforma monetria, greves e paradas de trabalho ocorreram em dezenas de fabricas importantes, acompanhadas por manifestaes que, em Plzen, se transformaram em combates de rua. Em 1953, foram presos 472 grevistas e manifestantes; a direo do PCT pediu que fossem imediatamente elaboradas listas dos envolvidos na agitao, e que estes ltimos fossem isolados e postos em campos de trabalho.
	Quanto aos camponeses, eles se revoltaram algumas vezes. Um dos participantes na revolta dos camponeses romenos, em julho de 1950, conta como se reuniram em frente da sede do Partido Comunista, sem armas, e como um ativista comunista comeou a disparar com um revlver: Foramos ento a entrada da sede do Partido, testemunha, atiramos os retratos de Stalin e de Gheorghiu Dej ao cho e os pisoteamos. [...] Os reforos chegaram. Primeiro, os gendarmes do povoado. [...] Tivemos sorte porque uma moa, Maria Stoian, havia cortado os cabos da central telefnica e comeara a tocar os sinos. Os bolcheviques dispararam sobre ela tanto quanto puderam. [...] E depois, l pelo meio da manh, pelas 10 horas, creio, chegou a Securitate, com metralhadoras e armamento pesado. As mulheres e os velhos caram de joelhos: 'No atirem sobre ns e os nossos filhos. Vocs tambm tm filhos, e pais e mes velhos. Estamos morrendo de fome e somente nos juntamos para gritar que esto roubando nosso trigo'. O major Stanescu Martin deu ento ordem para atirar. O autor dessa descrio foi preso, torturado e enviado para um campo de trabalhos forados; ele foi libertado apenas em 1953.
	Nos regimes em que as liberdades e direitos fundamentais do cidado no so respeitados, qualquer expresso de descontentamento  entendida como poltica e contra o Estado. A perseguio foi conscienciosamente utilizada pelos dirigentes comunistas para mergulhar a sociedade no que Karel Kaplan classifica como psicologia do medo e que era concebida por eles como fator de estabilizao do regime.
	Nos anos 1949-1954, milhes de pessoas foram atingidas pela represso: trata-se, com efeito, no apenas do aprisionamento de um ou outro indivduo, mas tambm da priso dos membros de suas famlias. A represso se revestiu de mltiplas formas: no podemos nos esquecer dos deslocados de Budapeste, Sofia, Praga, Bucareste ou de outras cidades para a provncia; entre eles, encontravam-se, no vero de 1951, 14 mil judeus de Budapeste, sobreviventes de muitos massacres e a mais numerosa minoria judaica que subsistia na Europa Central. Lembremos ainda as famlias dos emigrantes, os estudantes excludos das faculdades, as centenas de milhares de pessoas que figuravam nas listas - elaboradas a partir de 1949 pelos servios de Segurana e constantemente atualizadas - de politicamente suspeitos ou de pessoas hostis.
	O mar de sofrimento era imenso, e os rios caudalosos que o alimentavam no cessavam de correr. Depois da eliminao dos representantes dos partidos polticos e da sociedade civil, chegou a vez da gente do povo. Nas fabricas, perturbadores da ordem foram tratados como grandes sabotado-res e atingidos pela justia de classe. Essa justia voltou-se tambm contra todos os que, nos povoados, tinham o privilgio de uma autoridade natural em virtude de um saber e de uma experincia acumulados ao longo de dcadas, e que se opunham a uma coletivizao forada de suas terras inspirada no modelo da melhor agricultura do mundo. Milhes de pessoas compreenderam ento que as promessas que muitas vezes os haviam levado a se filiarem  poltica comunista no passavam de mentiras tticas. Alguns ousaram exprimir o seu desacordo.
	No dispomos ainda de estudos aprofundados sobre a dimenso social da represso, da perseguio da gente do povo. Dispomos de estatsticas confiveis para as regies tchecas e a Eslovquia, onde os arquivos foram no apenas abertos como consultados. Quanto aos outros pases da Europa Central, teremos de nos contentar com os trabalhos de investigao jornalstica e os testemunhos, bastante numerosos a partir de 1989.
	Na Tchecoslovquia, em meados de 1950, o nmero de pessoas que haviam exercido a profisso de operrio antes da sua priso j representava 39,1% da totalidade das prises por crimes contra o Estado; os pequenos empregados de escritrio, frequentemente vtimas dos expurgos da administrao, ocupavam o segundo lugar, com 28%. Em 1951-1952, cerca de metade daqueles que foram presos pela Segurana de Estado eram operrios; os camponeses, que ocupavam o terceiro lugar, disputavam de perto a segunda posio com os empregados de escritrio.
	Do mesmo modo,  atravs do relatrio sobre a atividade dos tribunais e da procuradoria para o ano de 1950 que ficamos sabendo que, do total dos condenados por delitos de menor gravidade contra a Repblica (incitao  revolta, propagao de notcias falsas, sabotagem de menor gravidade, etc.) e julgados no pas tcheco por tribunais distritais, 41,2% eram operrios e 17,7% camponeses. Na Eslovquia as percentagens so, respectivamente, 33,9% e 32,6%. O nmero de operrios e camponeses julgados pelo Tribunal de Estado por ocasio de casos importantes era bem menor. Os operrios, incluindo os operrios agrcolas, representavam no entanto um dos mais importantes grupos sociais, e essas camadas populares forneceram, se acrescentarmos a elas os camponeses, 28% dos condenados, 18,5% das condenaes  morte e 17,6% das condenaes a priso perptua.
	O mesmo se verifica nos outros pases, embora, por vezes, sejam os camponeses os que ocupam o primeiro lugar entre as vtimas da represso. O influxo da gente do povo no universo carcerrio liga-se provavelmente  expanso dos campos,  instalao do sistema concentracionrio, talvez o fenmeno mais caracterstico da barbrie dos regimes comunistas. As prises deixaram de ser suficientes para acolher a massa de presos, e o poder retomou, tambm nesse domnio, a experincia da Unio Sovitica e criou o arquiplago dos campos.
	A histria da represso no sculo XX foi indubitavelmente enriquecida, tanto pelo bolchevismo como pelo nazismo, com a utilizao do sistema de campos de concentrao, mesmo em tempo de paz. At a emergncia do Gulag e do Lager (a anterioridade  do Gulag) os campos eram, historicamente, um dos meios da represso e da excluso em tempo de guerra - como o assinalou Annette Wieviorka na sua introduo ao estudo sobre os campos, publicado na revista Vingtime Sicle, em 1997. Durante a Segunda Guerra Mundial, o sistema concentracionrio instalou-se na Europa Continental, e o Campo de concentrao, o Lager ou o Gulag figuravam nos mapas da Europa dos Urais ao sop dos Pireneus. Mas a sua histria no terminou com a derrota da Alemanha e dos seus aliados.
	Foram os regimes fascistas ou autoritrios, aliados da Alemanha, que introduziram o Campo de Concentrao na histria dos seus respectivos pases. Na Bulgria, o governo conservador havia instalado um campo de aprisionamento na pequena ilha de Santa Anastsia, no Mar Negro, ao largo de Burgas, depois os campos de Gonda Voda e de Belo Pol, onde foram encarcerados os opositores polticos. Na Eslovquia, os populistas que ocupavam o poder abriram, entre 1941 e 1944, prximo dos estaleiros que necessitavam de mo-de-obra, 15 estabelecimentos penitencirios de trabalho, para onde foram enviados elementos associais, geralmente ciganos Roms. Na Romnia, a ditadura do marechal Antonescu criou, objetivando a represso racial, campos de concentrao para presos polticos, como o de Tirgu-Jiu e outros, concebidos especialmente no territrio entre os rios Dniestr e Bug.
	No fim da guerra, havia vrios campos em estado de funcionamento e que podiam ser aproveitados como campos de trnsito para a massa de novos deportados (j o vimos no caso da Hungria) ou como campos de encarceramento para pessoas suspeitas de colaborao com os nazistas: foi o caso de Buchenwald e de Sachsenhausen, campos de concentrao clebres da represso nazista, na zona de ocupao sovitica na Alemanha de Leste.
	A partir de 1945 apareceram novos campos, nos quais o poder encarcerou os seus adversrios polticos. A primazia da sua criao parece caber  Bulgria, onde, em 1945, um decreto autorizava a polcia a estruturar uma rede de lares de educao pelo trabalho (TVO em blgaro); centenas de pessoas, entre elas dezenas de anarquistas, foram enviadas para o campo de Kutsian (prximo do importante centro mineiro de Pernik) - conhecido j na poca como As Carcias da Morte -, para Bobov Dol ou para Bogdanov Dol, o Campo das Sombras, para os que nele estavam detidos. Desde maro de 1949, esses campos foram denunciados pelos anarquistas franceses, apoiados em pormenorizada documentao, como campos de concentrao bolcheviques.^
	O arquiplago do Gulag, para retomar a expresso do escritor russo Alexandre Soljenitsyne, instalou-se na Europa Central e do Sudeste entre 1949-1950. Uma sntese que pretenda hoje apresentar a histria desses campos no pode apoiar-se, infelizmente, numa grande quantidade de estudos e testemunhos comparvel  que possumos sobre os campos nazistas. No entanto, devemos tentar realiz-la, tanto para aprofundar o conhecimento da natureza dos regimes comunistas quanto por respeito para com a memria das vtimas da arbitrariedade nesta parte da Europa.
	Parece-nos - e o estudo do Gulag sovitico faz com que nos inclinemos a aceitar essa hiptese - que os campos de concentrao como sistema desempenharam, antes de mais nada, uma funo econmica. Certamente, o sistema foi concebido para isolar e punir determinadas pessoas. No entanto, a anlise do mapa com a localizao geogrfica dos campos comunistas nos leva imediatamente a constatar que eles se situavam justamente nas zonas em que o regime necessitava de uma fora de trabalho numerosa, disciplinada e barata. Esses escravos dos tempos modernos no foram obrigados a construir pirmides, mas sim canais, barragens, fbricas ou edifcios em honra dos novos faras, ou a trabalhar nas minas de carvo, de antracite e de urnio. Teriam a escolha das vtimas, o ritmo da represso e a sua magnitude sido influenciados pela encomenda de prisioneiros necessrios  construo ou s minas?
	Na Hungria e na Polnia, os campos foram instalados junto de zonas ricas em carvo. Na Romnia, a maior parte localizava-se no traado do canal Danbio - Mar Negro e no delta do Danbio. Entre os campos de concentrao, o maior, e primeiro, era conhecido como Poarta Alba, principal localidade desse pequeno arquiplago em que nomes como Cernavoda, Medjidia, Valea Neagra ou Basarabi - assim como os nomes do segundo conjunto, situado no delta do rio Danbio (Periprava, Chilia Veche, Stoenesti, Tataru) - ficaram gravados na memria. Alis, a construo do canal Danbio - Mar Negro ficou conhecida como Canal da Morte. Nesse canteiro de trabalho forado, onde as condies de vida eram extremamente terrveis, morreram tanto indivduos suspeitos quanto camponeses que recusaram a coletiviza-o. Na Bulgria, os prisioneiros do campo de Kutsian trabalhavam numa mina metalfera a cu aberto, os de Bukhovo numa de urnio, os de Belene no reforo dos diques do Danbio. Na Tchecoslovquia, a grande maioria dos camponeses encarcerados foi concentrada em redor das minas de urnio da regio de Jachymov, na Bomia Ocidental, e depois na bacia carbonfera de Ostrava, na Morvia do Norte.
	Por que razo esses locais de deteno foram chamados campos de trabalho? Ser que os seus responsveis ignoravam que na entrada dos campos de concentrao nazistas figurava a inscrio Arbeit macht frei (O trabalho liberta)? As condies de vida nesses locais de deteno eram extremamente duras, sobretudo entre 1949 e 1953, e o trabalho cotidiano levava por vezes ao completo esgotamento dos prisioneiros.
	Comea agora a ser possvel conhecer o nmero exato de prises e de campos de concentrao. J o nmero de pessoas que os povoaram  bem mais difcil de ser determinado. Na Albnia, o mapa estabelecido por Odile Daniel indica a localizao de 19 campos e prises. Na Bulgria, o mapa do Gulag blgaro, estabelecido depois de 1990, localiza 86 campos, e cerca de 187.000 pessoas foram recenseadas pela associao dos antigos presos polticos para o perodo de 1944-1962. Esse nmero engloba no apenas os condenados, como tambm os que foram deportados sem julgamento e os detidos nos comissariados de polcia, por vezes durante semanas, sobretudo camponeses que a priso causaria posteriormente a integrao s cooperativas agrcolas. Segundo outras estimativas, cerca de 12.000 pessoas teriam sido enviadas para os campos de trabalho entre 1944 e 1953, e cerca de 5.000 entre 1956 e 1962.
	Na Hungria, vrias centenas de milhares de pessoas teriam sido perseguidas entre 1948 e 1953 e, segundo diferentes estimativas, 700.000 a 860.000 pessoas teriam sido condenadas. Na maior parte dos casos, tratava-se de delitos contra a propriedade do Estado.  necessrio, tanto para a Hungria quanto para os outros pases, incluir nas estimativas as deportaes administrativas da responsabilidade da polcia poltica. Na Repblica Democrtica Alem, onde o muro-fronteira com o Ocidente ainda no havia sido levantado, os presos polticos novos, alm dos j referidos no captulo precedente, parecem ter sido pouco numerosos.
	Na Romnia, a avaliao do nmero de presos durante o regime comunista varia entre 300.000 e 1.000.000; o segundo nmero inclui provavelmente no apenas os presos polticos como tambm os de direito comum (sempre lembrando que a distino entre esses dois tipos se revela por vezes bastante complicada, sobretudo nos casos de parasitismo). No que se refere aos campos de concentrao, o historiador ingls Dennis Deletant avaliou em 180.000 o nmero de pessoas presas nos campos romenos no incio dos anos 50. Na Tchecoslovquia, o nmero de presos polticos nos anos 1948-1954 est hoje estabelecido em 200.000 pessoas. Para uma populao de 12,6 milhes de habitantes, funcionaram 422 campos e prises. O nmero dos presos engloba no apenas pessoas julgadas e condenadas, mas tambm pessoas encarceradas sem julgamento, aprisionadas em campos por deciso arbitrria das autoridades locais.
	O universo carcerrio de todos esses pases apresentava semelhanas, o que parece lgico, j que a sua inspirao brotava da mesma fonte, a Unio Sovitica, cujos emissrios vigiavam, por toda parte, o seu estabelecimento. Parece-nos, no entanto, que certos pases contriburam para enriquecer o sistema com traos originais: caso da Tchecoslovquia, Romnia e Bulgria.
	A Tchecoslovquia, pelo seu perfeccionismo burocrtico: certos analistas so da opinio que o peso da burocracia do Imprio Austro-Hngaro era ainda sensvel no comportamento dos comunistas tchecos. Assim, o poder dotou-se de uma legislao original, a Lei n 247, de 25 de outubro de 1948, que regulamentava a instalao dos TNP (tabory nucenprace: campos de trabalho forado) concebidos para indivduos entre os 18 e os 60 anos a serem educados num prazo de trs meses a dois anos, prazo suscetvel de ser encurtado ou... prolongado. A lei era dirigida contra os delinquentes, os que evitam trabalhar e aqueles cuja maneira de viver necessita ser corrigida. A Lei Penal Administrativa n 88, de 12 de julho de 1950, autorizava o envio para os TNP de todos os que no respeitavam, por exemplo, a proteo da horticultura e da silvicultura ou mostravam uma atitude hostil para com a ordem democrtica popular da Repblica ou da sua construo. As medidas legisladoras visavam, como foi explicado na Assembleia Nacional, a uma represso eficaz aos inimigos de classe. 
	De acordo com essas leis, a relegao do inimigo para os campos era decidida por uma comisso de trs membros, criada inicialmente junto ao Comit nacional regional e, a partir de 1950, junto ao Comit nacional de distrito ou ento pela Comisso Penal anexa a esse Comit, que era presidido pelo chefe da sua seo de segurana. Em geral, o poder comunista enviou para os TNP a gente do povo e, sobretudo, os operrios, como se pode verificar nos estudos realizados a partir de 1989.
	   Em 1950, a burocracia comunista inventou ainda um outro instrumento de represso, canalizado pelo exrcito: os PTP (pomocny technicky prapor: batalho de apoio tcnico). Os mobilizados para esses batalhes, que geralmente ultrapassavam em muito a idade do servio militar, eram obrigados a um duro trabalho nas minas; eles viviam em condies por vezes idnticas s dos campos de trabalho forcado.
	Como a Tchecoslovquia, a Romnia tambm contribuiu com medidas originais para a histria da represso nos pases da Europa Central e do Sudeste: foi provavelmente o primeiro pas a introduzir no continente europeu os mtodos de reeducao atravs da lavagem cerebral, utilizados pelos comunistas asiticos; talvez os tenha at aperfeioado antes da sua utilizao em larga escala na sia. O objetivo demonaco era levar os detidos a torturarem-se uns aos outros. Essa inveno desenvolveu-se em Pitesti, uma priso relativamente moderna, construda durante os anos 30, a cerca de 110 quilmetros de Bucareste. A experincia comeou em dezembro de 1949 e durou cerca de trs anos. As suas causas so mltiplas: polticas, ideolgicas, humanas e pessoais. Graas aos acordos celebrados entre o comunista Alexandru Nikolski, um dos chefes da polcia poltica romena, e Eugen Turcanu, um prisioneiro com um passado fascista, este ltimo tornou-se o chefe de um movimento chamado Organizao dos Detidos com Convices Comunistas (ODCC). O objetivo era a reeducao dos presos polticos, combinando o estudo de textos doutrinrios comunistas com tortura fsica e moral. O ncleo reeducativo era constitudo por 15 detidos escolhidos, com a misso de primeiro estabelecerem contatos e depois recolherem as confidncias dos outros presos. Segundo o relato do filsofo Virgil lerunca1', a reeducao comportava quatro fases.
	A primeira chamava-se o desmascaramento externo: o preso devia dar provas da sua lealdade, confessando o que ele havia escondido na ocasio do inqurito do seu processo, sobretudo as suas ligaes com amigos que continuavam em liberdade. No decorrer da segunda fase, a do desmascaramento interno, ele devia denunciar os que o tinham ajudado no interior da priso. Na terceira fase, a do desmascaramento moral pblico, era exigida a negao de tudo o que para ele era importante ou mesmo sagrado - os pais, a mulher, a noiva, os amigos e Deus, caso se tratasse de algum religioso. Chegava depois a quarta fase: o candidato a membro da ODCC devia reeducar o seu melhor amigo, torturando-o pessoalmente e tornando-se ele prprio um carrasco. A tortura era a chave do xito. Pontuava implacavelmente as confisses ao longo das quatro fases. [.,.] Era impossvel escapar-lhe. Podia-se, quando muito, ser encurtada pela confisso dos piores horrores. Alguns estudantes foram torturados durante dois meses; outros, mais 'cooperativos', durante apenas uma semana. 

	O inferno de Pitesti

	A Securitate, a polcia poltica romena, utilizou os instrumentos clssicos de tortura durante os interrogatrios: espancamentos, pancadas nas solas dos ps, suspenso e priso dos ps junto ao teto, com o indivduo de cabea para baixo. Em Pitesti a crueldade da tortura ultrapassou e muito esses mtodos: foi praticada toda gama - possvel e impossvel-de suplcios. O corpo era queimado com cigarros; panes do corpo de alguns prisioneiros comeavam a gangrenar, caam como as dos leprosos; outros eram obrigados a ingerir excrementos e, se os vomitavam, o vmito era-lhes enfiado pela garganta abaixo.
	A imaginao delirante de Turcanu se excitava sobretudo com os estudantes religiosos, que se recusavam a renegar Deus. Alguns eram balizados todas as manhs da seguinte maneira: enfiavam-lhes a cabea num tonel cheio de urina e fezes enquanto os outros presos recitavam em volta a frmula do batismo. Para que o torturado no se asfixiasse, de tempos a tempos a sua cabea era levantada do tonel, para que ele pudesse respirar, e de novo a mergulhavam no magma repugnante. Um dos que sistematicamente sofreram essa tortura criara o seguinte automatismo, que durou cerca de dois meses: era ele prprio que todas as manhs imergia a cabea no tonel, sob as gargalhadas dos reeducadores.
	Quanto aos seminaristas, Turcanu obrigava-os a oficiar nas missas negras que ele prprio encenava, sobretudo durante a Semana Santa, na viglia pascal. Alguns desempenhavam o papel de meninos do coro, outros de padres. O texto litrgico de Turcanu era, evidentemente, pornogrfico e parafraseava de forma demonaca o original. A Virgem Maria era referida como a grande prostituta, e Jesus o imbecil que morreu na cruz. O seminarista que desempenhava o papel de padre devia despir-se completamente; depois ele era envolvido por um lenol sujo de excrementos e lhe penduravam no pescoo um falo confeccionado com sabo, miolo de po e pulverizado com DDT. Na noite que antecedeu a Pscoa de 1950, os estudantes em curso de reeducao foram obrigados a passar diante do padre e a beijar o falo, dizendo: Cristo ressuscitou.
	(V. lerunca, op. cit., pp. 59-61.)
	
	   Em 1952, as autoridades romenas decidiram - sem sucesso - ampliar a experincia de Pitesti, em particular aos campos de trabalho do canal Danbio - Mar Negro. O segredo foi entretanto revelado pelas rdios ocidentais, obrigando a direo comunista a pr fim a essa reeducao, em agosto de 1952. Por ocasio de um processo, em 1954, Eugen Turcanu e seis dos seus cmplices foram condenados  morte, mas nenhum verdadeiro responsvel do aparelho policial foi atingido.
	Finalmente, o terceiro exemplo entre os pases que, em nossa opinio, acrescentaram um trao original  histria da represso comunista na Europa: a Bulgria e o seu campo de Lovetch. O campo foi criado em 1959, sete anos depois da morte de Stalin, trs anos aps o discurso de Kruschev que condenava os crimes stalinistas no XX Congresso do PCUS e num momento em que vrios campos destinados aos presos polticos estavam sendo fechados, inclusive na Unio Sovitica. A rea de Lovetch no era extensa e a sua capacidade no excedia os mil presos. Mas o que ali se passava era atroz pelas matanas que os carrascos praticavam. Os presos eram torturados e executados da maneira mais primitiva: a pauladas.
	O campo fora aberto depois do encerramento do de Belene, bem presente na memria coletiva hngara, e onde se davam aos porcos os cadveres dos detidos mortos ou assassinados.
	Oficialmente, o campo foi criado para receber criminosos perigosos e malfeitores irrecuperveis, mas os testemunhos que foram conhecidos a partir de 1990 demonstram no entanto que a maioria dos detidos foram enviados ali sem serem julgados: Se voc usa calcas  ocidental, cabelo comprido, ouve msica americana, fala as lnguas desse mundo que nos  hostil, o que lhe permite estabelecer contato com turistas estrangeiros... ento, voc vai para a priso! Assim, os detidos nesse campo, nesse centro de reeducao pelo trabalho, eram geralmente jovens.
	Tzvetan Todorov, no prefcio do livro que apresenta o testemunho de prisioneiros, dos seus familiares e tambm de elementos do aparelho repressivo, resume assim o dia-a-dia em Lovetch:
	Durante o toque da alvorada, logo pela manh, o chefe da polcia (o representante da Segurana de Estado no campo) escolhe as suas vtimas; ele tem por hbito tirar do bolso um pequeno espelho e d-lo a eles dizendo: 'Tome... olhe o seu rosto pela ltima vez!' A cada um dos condenados  ento dado um saco, que servir para transportar para o campo,  noite, o seu cadver: todos so obrigados a lev-lo eles mesmos, como Cristo transportou a sua cruz at o Glgota. Eles partem ento para o local de trabalho, no caso uma pedreira.  l que iro ser espancados at a morte, os corpos enfiados depois nos sacos, fechados com um pedao de arame.  noite, seus camaradas traro seus corpos para o campo, num carrinho de mo, e os cadveres empilhados por detrs das latrinas, onde ficaro - at chegarem ao nmero de 20, para que o caminho no desperdice viagens. Todos os que, durante o dia, no cumprirem as normas, sero distinguidos durante o toque de recolher: o responsvel da polcia desenhar com seu cassetete um crculo no cho a sua frente; os que forem convidados a entrar vo ser cobertos de pancadas.?
	No foi ainda estabelecido o nmero exato de mortos nesse campo, mas mesmo que se trate apenas de algumas centenas, Lovetch - fechado pelas autoridades blgaras em 1962, depois de um ntido abrandamento do seu regime interno em 1961 -,  um smbolo importante da barbrie dos pases comunistas. Teramos vontade de falar aqui de barbrie dos Blcs, em referncia ao livro sobre o terror nos Blcs depois da Primeira Guerra Mundial, escrito por Henri Barbusse, um autor lembrado com freqncia por suas posies pr-stalinistas.
	Finalizando essa anlise sobre a represso que se abateu sobre todos os no-comunistas, devemos sublinhar que o terror de massa no era de modo algum justificado pelo contexto da poca, pela guerra fria que desde 1947 regia o mundo e que atingia o auge nos anos seguintes, com a guerra quente, a verdadeira guerra na Coreia de 1950 a 1953. Os adversrios do poder comunista no interior dos pases de que nos ocupamos nunca defenderam, na sua esmagadora maioria, o uso de mtodos violentos ou a luta armada (a Polnia representa a nica exceo digna de nota, para alm da existncia de grupos armados na Bulgria e na Romnia). Geralmente espontnea e desorganizada, a sua oposio revestia-se de formas democrticas. Os polticos que no tinham emigrado acreditavam de incio que a represso era um fenmeno passageiro. Os casos de oposio armada foram raros; tratava-se, muitas vezes, de acertos de contas dos servios secretos ou aes s cegas, sem contexto poltico e mais prximas do crime puro e simples do que da luta poltica premeditada.
	Portanto, a violncia ou a importncia das atividades oposicionistas no so suficientes para justificar a violncia da represso. Pelo contrrio, sabe-se que a luta de classes foi regularmente organizada e que redes oposicionistas eram por vezes montadas pelos agentes provocadores da polcia secreta. Sabe-se tambm que acontecia ao Grande Manipulador recompensar esses agentes pelos seus servios prestados, deixando-os ser executados.
	Ainda hoje nos confrontamos, a propsito da histria do comunismo, com um discurso que evoca o respeito pelo contexto da poca, o aspecto social, etc. Esse discurso no ter subentendida uma viso ideolgica da Histria e um outro revisionismo que no respeitam os fatos estabelecidos e se opem a uma verdadeira busca da verdade? Os que lhe slo sensveis no deveriam debruar-se sobre a dimenso social da represso, sobre toda essa gente do povo cruelmente perseguida?

	Os processos dos dirigentes comunistas

	A perseguio aos comunistas deve ser relacionada aos episdios mais importantes da histria da represso na Europa Central e do Sudeste na primeira metade do sculo XX. O movimento comunista internacional e as suas sees nacionais nunca deixaram de acusar a justia e a polcia burguesas e mais particularmente as represses fascista e nazista. Milhares de comunistas devotados foram efetivamente vtimas de regimes fascistas e da ocupao nazista durante a Segunda Guerra Mundial.
	No entanto, a perseguio aos comunistas no cessou com a instalao progressiva das democracias populares, quando o Estado da ditadura do proletariado substituiu o Estado burgus.
	Logo em 1945, na Hungria, a polcia poltica prendia Pai Demeny, Jozsef Skolnik e alguns dos seus camaradas. Esses consideravam-se comunistas e nessa qualidade haviam dirigido grupos clandestinos da Resistncia geralmente integrando jovens e operrios; nos grandes centros industriais, os filiados a esses grupos eram mais numerosos do que os do Partido Comunista ligado a Moscou. Para esse partido, os comunistas como Demeny eram tidos como concorrentes e denominados trotskistas ou desviacionistas. O resistente Pai Demeny partilhou assim, depois da Libertao, o seu destino com o dos que haviam combatido e ficou preso at 1957. Na Romnia, o destino de Stefan Foris, secretrio-geral do PCR desde meados dos anos 30, foi mais trgico. Acusado de ser agente da polcia, mantido sob residncia fixa em 1944, foi mono em 1946, a cabea despedaada por uma barra de ferro. A sua velha me, que o procurava por todo lado, foi um dia encontrada afogada num rio da Transilvnia, com grandes pedras atadas ao pescoo. O assassinato poltico de Foris, assim como os que o executaram, foram denunciados em 1968 por Ceausescu.
	Os casos de Demeny, de Foris e de outros apontam para uma realidade difcil de definir: para o aparelho repressivo, havia os bons comunistas, organizados no partido fiel a Moscou, e os maus, que recusavam ingressar nas suas fileiras. No entanto, esse princpio no foi vlido durante muito tempo em todos os pases, e a dialtica da perseguio aos comunistas tornou-se mais refinada em 1948.
	   No final do ms de junho de 1948, o Kominfbrm (Bureau de Informao dos Partidos Comunistas), criado em setembro de 1947 e reunindo os partidos comunistas no poder (com exceo da Albnia) e os dois partidos comunistas mais fortes da Europa Ocidental (o francs e o italiano) condenava a Jugoslvia de Tito e convocava a deposio desse dirigente. Nos meses seguintes, tomava forma um fenmeno at a desconhecido na histria do movimento comunista: o desviacionismo, a oposio aos chefes de Moscou, a necessidade de autonomia e de independncia relativamente ao Centro-Rei, que estivera sempre confinada a pequenos grupos de militantes, surgia agora sob uma forma estatizada. Um pequeno Estado balcnico, onde o monoplio do poder pelo Partido Comunista j havia se tornado patente, inclusive pela sua crueldade, desafiava o centro do imprio comunista. A situao, cada vez mais tensa, dava  perseguio aos comunistas perspectivas at ento inimaginveis, pois eles podiam ser reprimidos, nos Estados dirigidos por comunistas, como aliados ou como agentes de um outro Estado comunista.
	Consideremos as duas vertentes dessa novidade histrica na perseguio aos comunistas, cuja vertente iugoslava foi durante muito tempo ocultada e geralmente ignorada na histria das democracias populares. Consumada a ruptura que o vocabulrio jornalstico chamou de Tito-Stalin, a Jugoslvia sofreu uma situao de misria e fome tais que alguns a classificaram como pior do que a vivida durante a guerra. De um dia para o outro as ligaes com o exterior foram totalmente interrompidas, e o pas seriamente ameaado, com os tanques soviticos concentrados nas suas fronteiras. A possibilidade de uma nova guerra, entre 1948-1949, foi real, num pas destrudo por conflito anterior, ainda to prximo.
	O poder em Belgrado reagiu  condenao da traio iugoslava e s ameaas reais com o isolamento dos fiis a Moscou, chamados informbirovt-si (Icominformistas), e de todos os que aprovavam a deciso do Kominform de junho de 1948. Esse isolamento no significava apenas um encarceramento que impedisse o contato com o mundo exterior. O poder titista, impregnado da doutrina bolchevique, recorreu aos mtodos que correspondiam a sua cultura poltica: os campos de concentrao. A Jugoslvia possua numerosas ilhas e, talvez por referncia ao primeiro campo bolchevique instalado no arquiplago das Solovki, uma delas, Goli Otok (a ilha nua), tornou-se o principal campo. E no era um campo qualquer, j que os mtodos de reeducao utilizados eram semelhantes aos utilizados no campo de Pitesti, na Romnia; talvez esses mtodos devam ser chamados de balcnicos. Assim, o recm-chegado era obrigado a passar entre duas filas de um corredor da desonra ou prova de fogo composta por outros presos que queriam resgatar-se ou melhorar a sua situao e que o injuriavam, o socavam ou apedrejavam. Assim tambm, o ritual das crticas e autocrticas, ligado, bem entendido, ao das confisses.
	A tortura era o po de cada dia dos internados. Entre os suplcios, citemos o do tonel - a cabea do detido era mergulhada num recipiente cheio de excrementos - e tambm o do bunker, uma espcie de crcere instalado numa trincheira. No entanto, o que era utilizado com maior freqncia pelos guardas-reeducadores, e que faz lembrar os mtodos dos campos de concentrao nazistas, era o de quebrar pedras, onipresente naquela ilha rochosa do Mar Adritico. E, para acabar de humilhar o executante, o cascalho obtido era lanado ao mar...
	Provavelmente, a perseguio dos comunistas na Jugoslvia, que surgiu em 1948-1949, faz parte das perseguies mais macias conhecidas at ento na Europa aps a da Unio Sovitica nos anos 20, a da Alemanha nos anos 30 e a represso dos comunistas durante a ocupao nazista - uma perseguio francamente macia se considerarmos o nmero de habitantes e o nmero de comunistas filiados. Segundo fontes oficiais, durante muito tempo secretas, a represso atingiu 16.731 pessoas, 5.037 das quais condenadas aps processos formais. Trs quartos das vtimas foram enviadas para Goli Otok e para Grgur. As anlises independentes de Vladimir Dedijer estimam que s pelo campo de Goli Otok passaram 31.000 ou 32.000 pessoas.  ainda impossvel precisar o nmero de prisioneiros mortos, vtimas de execues, de esgotamento, de fome e de epidemias ou ainda de suicdios, soluo extrema pela qual alguns comunistas respondiam aos dilemas que a situao cruelmente lhes colocava.
	A segunda vertente da perseguio dos comunistas  mais conhecida: a represso dos agentes titistas, nas outras democracias populares. Ela se revestiu, com freqncia, da forma dos processos de grande espetculo destinados a impressionar no apenas a opinio pblica dos pases onde se desenrolaram, como a de todos os pases reunidos  fora no campo da paz e do socialismo. O desenrolar dos processos devia provar a razo de uma afirmao cara a Moscou, segundo a qual o inimigo principal devia ser procurado no interior dos partidos comunistas, sendo necessrio instaurar a desconfiana generalizada e uma vigilncia sem falhas.
	Desde o incio de 1948, o Partido Comunista Romeno (PCR) debruou-se sobre o caso de Lucretiu Patrascanu, ministro da Justia entre 1944 e 1948, intelectual e terico do marxismo, um dos fundadores do Partido, em 1921, com apenas 21 anos. Algumas das acusaes contra Patrascanu preludiavam a campanha contra Tito. Demitido em fevereiro de 1948 e preso, Patrascanu s foi condenado  morte em 1954, sendo executado em 16 de abril, depois de seis anos de priso e um ano aps a morte de Stalin. O mistrio dessa execuo to demorada no foi ainda totalmente esclarecido. Uma das explicaes avanadas defende que Gheorghiu Dej, secretrio-geral do PCR, teria receado uma hipottica reabilitao de Patrascanu, que o transformaria num concorrente; essa hiptese  satisfatria, j que os dois dirigentes se encontravam em conflito desde a guerra.
	Em 1949, os processos contra dirigentes comunistas visaram inicialmente os pases vizinhos da Jugoslvia. O primeiro desenrolou-se na Albnia, cuja direo estava muito ligada aos comunistas iugoslavos. A vtima escolhida, Koci Xoxe, um dos chefes da Resistncia armada comunista, ministro do Interior e secretrio-geral do PCA depois da guerra, era verdadeiramente um homem devotado a Tito. Aps todo o outono de 1948, quando uma campanha poltica fustigou a faco trotskista pr-iugoslava dirigida por Xoxe e Kristo no interior do Partido, os aliados dos comunistas iugoslavos foram presos, em maro de 1949. Koci Xoxe foi julgado em Tirana com outros quatro dirigentes - Pandi Kristo, Vasco Koleci, Nuri Huta e Vango Mitrojorgji. Condenado  morte em 10 de junho, ele foi executado no dia seguinte. Os seus quatro camaradas foram condenados a pesadas penas de priso, e outros comunistas pr-iugoslavos seguiriam pelo mesmo caminho, todos vtimas da depurao do Partido albans.
	O segundo processo espetacular da srie antititista desenrolou-se em Budapeste, em setembro de 1949, tendo como acusado mais ilustre Laszlo Rajk, antigo combatente das Brigadas Internacionais na Espanha e um dos dirigentes da Resistncia interna, posteriormente um ministro do Interior muito duro na represso dos democratas no comunistas e finalmente ministro das Relaes Exteriores. Preso em maio de 1949, Rajk foi torturado e, ao mesmo tempo, sujeito  chantagem dos seus antigos camaradas da direo - se ele ajudasse o Parado, seria condenado mas no executado - at se submeter a confisses que ele relatou perante o tribunal, com acusaes muito fortes contra Tito e os iugoslavos, inimigos das democracias populares. A sentena do tribunal hngaro, pronunciada em 24 de setembro, foi sem apelo: Laszlo Rajk, Tibor Sznyi e Andras Szalai foram condenados  morte; o iugoslavo Lazar Brankov e o social-democrata Pai Justus,  priso perptua. Rajk foi executado em 16 de outubro. Quatro oficiais de alta patente foram tambm condenados  morte por um tribunal militar, num processo anexo.
	Na Hungria, durante a represso decorrente do processo Rajk, outras 94 pessoas teriam sido detidas e posteriormente condenadas ou encarceradas. Quinze dos condenados foram executados, 11 morreram na priso, 50 cumpriram penas de mais de dez anos. O numero de mortos provocados por esse caso teria sido de cerca de 60 pessoas, se incluirmos os suicdios dos seus prximos, mas tambm - e por que no? - de juizes e oficiais implicados no inqurito do processo.
	As animosidades no interior da equipe dirigente, bem como o zelo do secretrio-geral do Partido, Mtys Rkosi, e dos chefes da polcia secreta deviam sem dvida ser levados em considerao na escolha das vtimas e de seu chefe, Laszlo Rajk. No entanto, esses fatores ou ainda outros no deviam esquecer o essencial: durante uma primeira onda de represso, os decisores de Moscou, entre os quais figuravam os responsveis da Segurana e dos servios de informao encarregados da Europa Central e do Leste Europeu, estavam no centro das aes contra certos comunistas. No se poupavam a esforos para descobrir uma vasta conspirao internacional anti-sovitica. O processo Rajk devia desempenhar a um papel-chave, com a sua principal testemunha de acusao, Noel Field, um americano que se filiara secretamente ao comunismo e que ajudava os servios soviticos, o que ficou claramente provado na ocasio da recente abertura dos arquivos.
	Essa tentativa de internacionalizar a conspirao, at o momento sobretudo titista, foi mais uma vez verificada com o processo, em Sofia, contra Traitcho Kostov. Kominternista de longa data, condenado  morte pelo Antigo Regime, dirigente da Resistncia armada interna, vice-presidente do Conselho aps a guerra, Kostov era considerado como o delfim de Georgui Dimitrov. O estado de sade desse ex-secretrio-geral da Internacional Comunista e chefe do Partido Comunista Blgaro desde 1946 havia se agravado muito em 1949 (embora tratado na URSS desde maro, morreu em 2 de julho).
	Desde o final de 1948 que, na cpula do PCB, os moscovitas (os dirigentes que tinham passado a guerra em Moscou, como acontecera com o hngaro Rkosi e com o tcheco Gottwald) criticavam os defeitos e os erros de Kostov, particularmente o seu relacionamento incorreto com a URSS no domnio da economia. Apesar das suas autocrticas e com o consentimento de Dimitrov (que o condenava violentamente numa carta datada de 10 de maio, enviada de um sanatrio sovitico), Kostov foi preso, juntamente com vrios dos seus colaboradores, em junho de 1949.
	O processo contra Traitcho Kostov e os seus nove camaradas teve incio em Sofia em 7 de dezembro de 1949. A sentena foi pronunciada em 14: Kostov foi condenado  morte como agente ao mesmo tempo da antiga polcia blgara, do traidor Tito e dos imperialistas ocidentais; quatro outros dirigentes comunistas - Ivan Stelanov, Nikola Pavlov, Nikola Netchev e Ivan Tutev- foram condenados a priso perptua; trs, a 15 anos; um, a 12, e o outro, a oito. Kostov foi enforcado dois dias depois de o recurso ter sido recusado.
	O processo de Sofia ocupa um lugar original na histria dos processos contra os dirigentes comunistas sob regimes igualmente comunistas. Por ocasio de suas primeiras declaraes em tribunal, Kostov renegou as confisses feitas precedentemente, extorquidas durante o interrogatrio do processo, proclamando a sua inocncia. Posteriormente impedido de tomar a palavra, ele foi no entanto autorizado a fazer uma declarao final, na qual se proclamou um amigo da Unio Sovitica - no conseguiu,  claro, terminar o discurso. Incidentes como esses obrigaram os encenadores de futuros processos pblicos a refletir.
	Na Bulgria, o caso Kostov no terminou com o enforcamento da principal vtima. Em agosto de 1950, comeava o processo de 12 colaboradores de Kostov, escolhidos entre os responsveis pela economia; um outro processo, contra dois membros do bando conspirador de Kostov, foi iniciado em abril de 1951, seguido por um terceiro que visou dois membros do Comit Central do PCB. Ligados ao contexto desse caso, realizaram-se ainda alguns outros, mas a portas fechadas, contra oficiais do exrcito e da Segurana.
	Na Tchecoslovquia, os dirigentes j haviam sido avisados, em junho de 1949, de que perigosos conspiradores se escondiam no interior do PCT. Para identific-los, especialmente o Rajk tcheco, foi criado em Praga um grupo especial em que operavam responsveis do aparelho do Comit Central, da polcia poltica e da Comisso de Controle do PCT. As primeiras prises, em 1949, atingiram responsveis comunistas de pouca importncia. O regime, nessa primeira onda de processos contra comunistas, conseguiu montar apenas um nico processo antititista: aquele que, entre 30 de agosto e 2 de setembro de 1950, julgou em Bratislava, capital da Eslovquia, 16 pessoas, entre elas dez iugoslavos.  cabea do grupo encontrava-se Stefan Kevic, vice-cnsul da Jugoslvia em Bratislava. Dois dos eslovacos julgados foram condenados  morte, e um deles, Rudolf Lancanic, executado.
	Foi no final de 1949 que a mquina policial que vinha no rastro do Rajk tcheco, reforada e dirigida por homens experientes vindos da central de segurana de Moscou, ganhou velocidade. Os chefes dos conselheiros soviticos no escondiam o objetivo da sua misso. Um deles, Likhatchev, irritado com a falta de cuidado demonstrada por um responsvel eslovaco da Segurana, exclamou: Fui mandado aqui por Stalin, para organizar os processos. No tenho tempo a perder. No vim  Tchecoslovquia para discutir; vim para cortar cabeas (svolotchit golovy). Prefiro torcer 150 pescoos a deixar que o meu seja torcido. 
	A reconstituio desse momento histrico da represso pde ser feita meticulosamente, uma vez que os historiadores haviam conseguido, j em 1968, ter acesso aos mais recnditos cantos dos arquivos do Partido e da polcia; posteriormente, em novembro de 1989, eles puderam aprofundar ainda mais os seus estudos.
	O casal Pavlik foram as primeiras pessoas a serem presas em maio de 1949, durante a preparao do processo de L. Rajk na Hungria - o processo de Gejza Pavlik aconteceu no ms de junho de 1950. Em junho de 1949, o hngaro Mtys Rkosi entregara ao chefe do PCT, Klement Gottwald, em Praga, a listagem de cerca de 60 altos responsveis tchecos cujos nomes haviam sido referidos no decorrer do inqurito do caso Rajk. Praga, interessada nesse processo e sob presso contnua dos servios de segurana soviticos e hngaros, comeou a considerar com ateno crescente os comunistas que haviam passado a guerra exilados no Ocidente, particularmente os antigos membros das Brigadas Internacionais. No outono, o PCT constituiu uma seo especial da Segurana de Estado com o objetivo de identificar os inimigos no interior do Partido, e no hesitou em recorrer a antigos elementos da Gestapo, especialistas no movimento comunista. Com a priso de Evzen Lbl, vice-ministro do Comrcio Exterior, em novembro de 1949, a represso lanada contra os comunistas passou para uma etapa superior: ela atingia agora quadros superiores, o que se confirmou no decorrer do ano seguinte, implicando, entre outros, dirigentes do Partido a nvel regional.
	Em janeiro e fevereiro de 1951, uma grande onda de prises atingiu uma faixa importante da pirmide do poder. Entre os 50 presos, altos representantes do Partido e do Estado, contavam-se comunistas francfonos e outros ainda, responsveis de uma maneira ou de outra pelos contatos com os demais partidos, como Karel Svab.
	Entretanto, a etiqueta de lder da conspirao passava de um para outro e foram necessrios dois anos para se descobrir o Rajk tcheco. S no vero de 1951, e com a concordncia imediata de Klement Gottwald, Stalin decidiu que o lder seria Rudolf Slansky, secretrio-geral do PCT em pessoa, cujo brao direito era Bedrich Geminder, outra personalidade poderosa do aparelho do Komintern. Seu nome figura praticamente sempre junto do de Rudolf Slansky, tanto na correspondncia entre Stalin e Gottwald, como nos interrogatrios de comunistas cujas prises antecederam a de Slansky. Os autores soviticos da encenao encaravam Geminder como um lder sobressalente. A Segurana de Estado prendeu esses dois chefes da conspirao em 24 de novembro de 1951. No decorrer dos meses seguintes, dois outros altos responsveis se juntaram a eles na priso: Rudolf Margolius, vice-minis-tro do Comrcio Exterior, em 12 de janeiro de 1952, e Josef Frank, adjunto de Rudolf Slansky, em 23 de maio de 1952.
	Os conselheiros soviticos e os seus subalternos locais torturaram ininterruptamente, a fim de preparar mais um processo de grande espetculo. Eles alcanaram seus objetivos, e em 20 de novembro de 1952 pde comear em Praga o processo da direo do centro da conspirao encabeada por Rudolf Slansky contra o Estado. Dessa vez eram julgados dirigentes comunistas de primeiro plano. A sentena foi pronunciada pelo tribunal em 27 de novembro: 11 dos rus eram condenados  morte; trs,  priso perptua. Na madrugada de 3 de dezembro, entre as 3h e as 5h45min, o carrasco da priso de Pankrac, em Praga, amarrava ao poste os 11 condenados.

	O processo Slansky, modelo simblico de represso

	Aps os dos dirigentes bolcheviques em Moscou, nos anos 30, o processo Slansky foi o mais espetacular e o mais comentado na histria do comunismo. Entre os condenados encontravam-se personalidades eminentes do aparelho comunista internacional, transformando Praga, durante a guerra fria, na Genebra comunista. A capital tcheca desempenhava ento um papel-chave nas relaes interpartidrias, sobretudo com os partidos comunistas francs e italiano.
	Rudolf Slansky, secretrio-geral do PCT desde 1945, era um admirador incondicional de Moscou, presidente do Grupo dos Cinco, organismo especialmente encarregado da superviso cotidiana da represso e, a esse ttulo, diretamen-te responsvel pela aprovao de dezenas de penas de morte.
	Bedrich Geminder e Josef Frank eram os seus vice-secretrios-gerais. Geminder trabalhara na cpula do aparelho do Komintern. De Moscou ele havia regressado a Praga para a dirigir o departamento internacional do PCT. Frank, preso nos campos de concentrao nazistas entre 1939 e 1945, supervisionava os assuntos econmicos e a ajuda financeira destinada aos partidos comunistas ocidentais. Rudolf Margolius supervisionava, como vice-ministro do Comrcio Exterior, as relaes com as sociedades comerciais controladas por esses partidos. Otto Fischl, vice-ministro das Finanas, estava tambm ao corrente de certas manipulaes financeiras do PCT. Ludvik Frejka havia participado, durante a guerra, da Resistncia tcheca em Londres e dirigia, desde 1948, quando Klement Gottwald se tornara Presidente da Repblica, o departamento econmico da sua chancelaria.
	Entre os condenados ligados aos servios especiais soviticos, quer diretarnente, quer atravs do aparelho comunista internacional -  parte Slansky e Geminder -, citemos Bedrich Reicin, chefe dos servios de informao do exrcito e, depois de fevereiro de 1948, vice-ministro da Defesa; Karel Svab, prisioneiro dos campos de concentrao nazistas e depois responsvel pelos assuntos do pessoal no aparelho central do PCT, funo que o levara ao cargo de vice-ministro da Segurana Nacional; Andr Simone, jornalista que trabalhara antes da guerra, sobretudo na Alemanha e na Frana; e finalmente Artur London, colaborador dos servios de informao soviticos durante a Guerra da Espanha, resistente na Frana e deportado, tendo ajudado os servios de informao comunistas a partir de 1945 na Sua e na Frana, e, a partir do incio de 1949, como vice-ministro das Relaes Exteriores em Praga.
	Dois outros responsveis desse ministrio figuram entre os acusados: o eslo-vaco Vladimir Clementis, ministro desde a primavera de 1948, advogado comunista antes da guerra, exilado na Frana, onde ele expressara uma opinio crtica quanto ao pacto germano-sovitico, o que lhe valera a excluso do Partido, deciso abolida em 1945; e Vavro Hajdu, tambm ele eslovaco, vice-ministro. O terceiro eslovaco do processo, Evzen Lbl, que passara a guerra exilado em Londres, foi preso quando desempenhava as funes de vice-ministro do Comrcio Exterior.
	Otto Sling tambm havia participado da Resistncia tcheca em Londres, depois de ter integrado as Brigadas Internacionais na Espanha. Finda a guerra, ele se tornara secretrio regional do PCT em Brno, capital da Morvia.
	Os trs condenados a priso perptua - Vavro Hajdu, Artur London e Evzen Lbl - viram a sua origem judaica posta em evidncia durante o processo. O mesmo aconteceu com oito dos 11 condenados  morte, com exceco de Clementis, Frank e Svab.
	O processo Slansky  um smbolo, em todas as democracias populares, e no apenas na Tchecoslovquia, da represso dirigida contra os comunistas. No entanto, a sua monstruosidade no pode fazer esquecer o fato de que as vtimas de represso eram sobretudo no-comunistas. Durante todo o perodo de 1948 a 1954, os comunistas representam na Tchecoslovquia cerca de 0,1% dos condenados, 5% dos condenados  morte e 1% dos mortos - penas capitais executadas, suicdios provocados por perseguio, mortes nas prises ou nos campos de concentrao (acidentes de trabalho nas minas, assassinatos executados por guardas durante tentativas de fuga ou no decorrer de atos de rebelio).
	O processo Slansky, minuciosamente preparado por conselheiros soviticos residentes na Tchecoslovquia agindo de acordo com as altas esferas do poder de Stalin em Moscou, marcou a segunda onda dos grandes processos polticos contra dirigentes comunistas que se desenrolaram nas democracias populares a partir de 1949.
	Em 1953 e 1954, na Tchecoslovquia, ao grande espetculo do processo Slansky seguiram-se os processos consecutivos ao processo Slansky, apesar da morte de Stalin e da de Gottwald em maro de 1953- Eles chegaram ao seu pice em 1954. O primeiro grande processo desse ano decorreu em Praga entre 26 e 28 de janeiro: Marie Svermova, fundadora do PCT e membro da sua direo de 1929 a 1950, foi condenada  priso perptua; e os seus seis co-acusados, altos responsveis do aparelho partidrio, a um total de 111 anos de cadeia. A esse processo seguiu-se um segundo, um ms mais tarde, entre 23 e 25 de fevereiro. Sete militantes do PCT, membros do Grande Conselho trotskista, foram condenados a um total de 103 anos de priso. O terceiro processo teve lugar em Bratislava, de 21 a 24 de abril, dirigido contra antigos lderes do Partido Comunista Eslovaco, julgados como grupo de nacionalistas burgueses eslovacos. Um dos dirigentes da Resistncia, Gustav Husak, foi condenado  priso perptua; e seus quatro co-acusados, a 63 anos de cadeia. No decorrer do ano de 1954, foram organizados outros seis grandes processos contra altos dignitrios do exrcito, contra altos responsveis da economia (11 pessoas condenadas a 204 anos de priso no total) e contra a direo ilegal da social-democracia. Por fim, vrias pessoas foram julgadas individualmente. Como de norma h vrios anos, antes de cada processo importante, a ata de acusao e as sentenas a serem pronunciadas eram aprovadas pelo secretariado poltico do PCT no incio de cada um; a direo discutia depois o relatrio sobre o desenrolar do processo.
	Os processos de 1953 e 1954 perderam as caractersticas de grande espetculo. O ltimo processo poltico do perodo de 1948-1954, em 5 de novembro de 1954, foi o de Eduard Utrata, responsvel pela economia.
	Osvald Zavodsky, antigo combatente das Brigadas Internacionais, resistente na Frana e deportado, chefe da Segurana de Estado depois de 1948, foi o ltimo comunista executado por essa onda de represso. O tribunal condenou-o  pena capital em dezembro de 1953. O pedido de clemncia foi recusado pelo poder: ele tambm sabia demais sobre os servios especiais soviticos. Em 19 de maro de 1954, seu corpo balanava no cadafalso de Praga.
	Como  que a represso conseguiu atingir os comunistas mais categorizados? A escolha da vtima obedeceria a uma lgica qualquer? A abertura dos arquivos e novas investigaes confirmaram em vrios pontos as anlises apresentadas antes de 1989: os processos pr-fabricados, o papel desempenhado pelas confisses extorquidas, a encenao dirigida por Moscou, o frenesi ideolgico e a poltica antititista em primeiro lugar, depois a anti-sionista e a antiamericana, tudo isso traduzido em atos judiciais. Numerosos fatos deram preciso e completaram o que agora se sabe. A abertura dos arquivos permite tambm - para a segunda onda repressiva dirigida contra os comunistas, diferente da primeira, provocada pela necessidade imediata de combater a heresia titista - aprofundar o conhecimento do fenmeno atravs da formulao de algumas hipteses.
	Estudos solidamente documentados esclareceram as causas evidentes: a interveno, a ingerncia de Moscou, foram determinantes. Os processos dos comunistas estavam estreitamente articulados com a situao internacional da poca, e o poder stalinista devia, depois da revolta de Tito, impor total submisso ao movimento comunista e acelerar o processo de satelitizao dos novos territrios do imprio sovitico. Essa represso ligava-se igualmente aos problemas polticos, sociais e econmicos de cada um dos pases que a conheceram: o dirigente comunista condenado servia de bode expiatrio; os seus erros deviam explicar as insuficincias do governo, c o seu castigo canalizar a clera do povo. O terror onipresente semeou e fez germinar o medo nas camadas dirigentes, o que era necessrio para obter uma obedincia absoluta e a submisso total s ordens do Partido e s necessidades do campo da paz, definidas pelos dirigentes soviticos.
	As divergncias internas nos meios dirigentes pesaram incontestavelmente na escolha das vtimas Os dios e as invejas recprocas, to frequentes nas sociedades submissas a um poder colonial, no so nada negligenciveis. Foram assim, certamente, oferecidas ao senhor, ao Grande Manipulador de Moscou, interessantes variaes do jogo que ele prprio jogava com os seus vassalos aterrorizados: com efeito, ele j possua h bastante tempo todas as informaes pormenorizadas sobre esses dios e esses cimes.
	As duas ondas repressivas que visaram os dirigentes comunistas definem, tambm, a tipologia da vtima-modelo. A represso atacou antigos voluntrios da Guerra Civil da Espanha, homens que haviam participado na Resistncia do exterior, resistentes na lugoslvia, emigrantes na Frana ou na Inglaterra. Na Hungria, Bulgria e Eslovquia os alvos foram, na sua maioria, comunistas da Resistncia interna.
	No entanto, deve-se ir mais longe e perguntar: por que  que o processo de Rudolf Slansky, o mais importante de todos, se transformou num grande espetculo mundial? Que interesses subjacentes do poder stalinista no mundo emergiram na sua concepo? Qual a razo de uma tal publicidade, de uma tal brutalidade nas sentenas, por que a violncia espetacular num momento em que a URSS parecia controlar perfeitamente as democracias populares? As formas com que esse controle se revestia, cartas ucasses, reunies para consulta e at as atividades de milhares de conselheiros soviticos locais so agora bem conhecidas.
	Nessa busca da lgica profunda da represso, torna-se agora necessria a formulao de uma primeira hiptese: o bloco sovitico preparava uma guerra, preparava a guerra na Europa. O imperialismo americano havia se tornado o inimigo principal, e os dirigentes soviticos acreditavam - ou queriam fazer acreditar - que o inimigo preparava uma agresso contra o campo comunista. O processo Slansky, o seu desenrolar, a sua repercusso organizada, a sua ideologia violentamente antiamericana - o antititismo continua presente mas articulado ao sentimento antiamericano dominante - foram tambm, e sem dvida antes de tudo mais, um fenmeno que testemunha os preparativos de uma guerra por parte do poder sovitico. A pedagogia dos cadveres destinava-se no apenas s fileiras comunistas, mas tambm aos adversrios. Stalin j havia se servido dela durante os anos 30, com os grandes expurgos na Unio Sovitica, na conjuntura do perodo que precedeu a guerra. Estaria ele convencido de poder recorrer mais uma vez ao mesmo mtodo?
	Ningum, entre os que puderam conhecer a riqueza dos arquivos disponveis, duvida hoje de que, em 1950-1951, enquanto acontecia a Guerra da Coreia, o bloco sovitico preparava a guerra na Europa com o objetivo de ocupar a sua parte ocidental. Stalin, durante a reunio dos representantes polticos e militares do campo, em 1951, mencionou a possibilidade de guerra para 1953. No bloco sovitico, a militarizao da economia atingira o seu auge.
	A Tchecoslovquia possua uma forte indstria de armamentos, cujas razes remontavam  poca da monarquia austro-hngara; nos anos 30 o pas contava-se entre os principais exportadores mundiais de armas. A partir de 1949, ela foi obrigada a transformar-se no fornecedor de armas do campo sovitico. Essa deciso foi acompanhada pela militarizao total da economia e da sociedade, pela propaganda constante sobre a iminncia de uma guerra e pelo aumento sem precedentes das despesas militares - em cinco anos, as despesas destinadas ao exrcito foram multiplicadas por sete! Somos forados a acrescentar: a pilhagem sistemtica das minas de urnio dirigida por peritos soviticos' e a destruio desenfreada da sociedade civil.
	O historiador militar Jindrich Madry, que estudou os arquivos abertos depois de 1989, conclui num estudo recente: At maio de 1953, os armamentos da Tchecoslovquia foram intensificados ao mximo na previso da 'guerra inevitvel' que se aproximava. O oramento do Ministrio da Defesa, planificado para 1953, devia ser dez vezes superior ao de 1948. Segundo as exigncias soviticas, a economia tcheca devia evoluir em termos de economia de pr-guerra. Em 19 de janeiro de 1953, o nmero de homens mobilizados atingia os 292.788, o dobro dos efetivos de 1949, e em abril o presidente da Repblica decidiu prolongar o servio militar para trs anos. Reservas financeiras e materiais eram acumuladas tendo em vista a guerra, e  nesse contexto que se deve situar a reforma monetria de junho de 1953, que depauperou os detentores de poupanas. Vrios indcios apontam para uma mudana da situao precisamente em junho de 1953, quando a guerra inevitvel parece ter deixado de ser a estratgia preconizada pelos novos senhores de Moscou.
	A lgica que presidiu  escolha das vtimas  mais claramente compreendida se a represso contra os responsveis comunistas for situada na perspectiva da preparao de uma guerra. O Grande Irmo no s conhecia muito bem os seus fiis camaradas, como possua idias bastante claras relativamente aos seus adversrios ocidentais. A sua pedagogia dos cadveres atingiu, segundo parece, o auge do maquiavelismo. O que seria necessrio fazer para convencer o adversrio da sua prpria fora e da sua determinao (e semear eventualmente a iluso de uma fraqueza) e mergulh-lo numa total confuso? O que seria necessrio fazer para convencer os seus fiis, iniciados nos segredos do movimento, da gravidade da situao, da necessidade de uma disciplina de ferro no conflito que se mostrava iminente e da necessidade sagrada do sacrifcio?
	Impunha-se sacrificar os fiis entre os fiis, escolher os que garantissem que essa deciso teria o maior alcance possvel  escala internacional, em todas as direes, incluindo a Unio Sovitica. A utilizao como arma da mais simples mentira, aquela de que se conhecem todos os contornos. Teria a encenao do grande espetculo tido uma eficcia idntica se os escolhidos como agentes imperialistas fossem um Antonin Zapotocky ou um Antonin Novotny, pouco conhecidos tanto no aparelho sovitico como nos outros? Quem  que hoje em dia acredita que um Thorez ou um Togliatti, um Kruschev ou um Gottwald pensaram, mesmo por uma frao de segundo, em 1952, que Rudolf Slansky, Bedrich Geminder e outros dos seus mais prximos pudessem ser agentes americanos?  verdade que os iniciados se viram obrigados a usar todas as suas foras para decifrar e compreender essa mensa-gem-mentira, e a residia um dos objetivos dessa operao maquiavlica.
	Para que encontrasse-eco o que Annie Kriegel classificou como pedagogia infernal, era necessrio escolher personalidades conhecidas no movimento antifascista na Espanha, na Frana, na URSS e na Inglaterra, conhecidas por terem sido deportadas para campos nazistas. Os personagens-chave dos aparelhos sabiam perfeitamente quais os servios prestados pela maior parte dos comunistas condenados e at que ponto era inquestionvel a sua lealdade para com Moscou. Entre os comunistas sacrificados, muitos eram os que tinham grandes responsabilidades na perseguio e nos assassinatos anteriores dos no-comunistas; muitos tinham colaborado estreitamente com os rgos soviticos.
	Os processos continuaram at 1953-1954, quando a URSS optou pela nova estratgia de coexistncia pacfica.
	Uma segunda hiptese que nos parece necessrio formular diz respeito ao anti-semitismo presente na represso contra os comunistas. As anlises dos processos mencionam regularmente um aspecto desse fenmeno: a luta contra o sionismo e os sionistas (ou seja, o banal anti-semitismo) que claramente se articulava com a mudana da poltica sovitica relativamente a Israel e ao mundo rabe. O novo Estado de Israel - para o qual a Tchecoslovquia, entre outros, muito contribura atravs do fornecimento de armas  Haganah - havia se transformado num grande inimigo; a estratgia sovitica passava a contar agora com a luta de libertao nacional dos rabes.
	Nicolas Werth (ver a primeira parte deste livro) identificou claramente, na Unio Sovitica, um componente anti-semita na represso a partir de dezembro de 1947 e na preparao do grande expurgo final do incio dos anos 50. Na Europa Central, o anti-semitismo era j muito ntido no processo Rajk: o juiz sublinhou os apelidos de origem judaica dos quatro acusados, insinuando - em vo - que Rajk teria um av judeu. Esse anti-semitismo atingiu o auge no processo Slansky, durante o qual se colocou grande nfase na origem judaica dos 11 acusados e nas suas ligaes ao sionismo internacional.
	Para avaliar a intensidade desse anti-semitismo nos bastidores, basta escutar um dos chefes dos conselheiros de Moscou, j citado. O camarada Likhatchov, que pedira informaes sobre a atividade subversiva de determinados dirigentes eslovacos, teria declarado (trata-se do testemunho do seu interlocutor, um policial eslovaco): No ligo  mnima de onde voc os tira. Nem tampouco para saber se  verdade ou mentira. Estou disposto a acreditar em tudo e, quanto ao resto, deixe o caso comigo. Por que tanta preocupao com essa merda judia? 
	Desse ponto decorre um outro aspecto desse componente anti-semita que, tanto quanto sabemos, nunca foi mencionado. Stalin e os seus mulos queriam acertar as contas com os elementos judaicos do aparelho comunista internacional, eliminando-os definitivamente. Esses judeus comunistas no professavam a f judaica.  sua identidade parece antes ligar-se  nao  qual eles se haviam assimilado ou ao fato de pertencer  comunidade comunista internacional. Infelizmente - j que nos faltam testemunhos e fontes - ns ignoramos como  que essa identidade dos judeus comunistas foi influenciada pela experincia do genocdio. No entanto, sabemos que muitos dos seus prximos haviam morrido nos campos de extermnio nazistas.
	Muito bem representados no aparelho da Internacional Comunista, esses judeus comunistas continuaram, depois da guerra, a ocupar lugares-cha-ve em vrios partidos e aparelhos de Estado da Europa Central. Miklos Moinar escreve na sua sntese sobre o comunismo hngaro: Na cpula da hierarquia, os dirigentes so praticamente todos de origem judaica, assim como ocorre, em proporo menos significativa, no aparelho do Comit Central, na polcia poltica, na imprensa, na edio, no teatro, no cinema... A forte e incontestvel promoo de quadros operrios no pode escamotear o fato de que o poder de deciso pertence, numa larga medida, aos camaradas provenientes da pequena burguesia judaica. Em janeiro de 1953, o chefe da Segurana de Estado da Hungria e antigo amigo de Rajk, Gabor Peter, foi preso sob a acusao de conspirador sionista. O discurso oficial de Rkosi, ele prprio judeu comunista, difamando-o como Peter e o seu bando (Gabor Peter e outros oficiais da Segurana), fez dele um bode expiatrio.
	Na Romnia, o destino da kominterniana judia Ana Pauker foi decidido em 1952. Como Gheorghiu Dej, chefe do Partido, e Vasile Luca, Ana Pauker pertencia  troika dirigente. Segundo um testemunho ainda no confirmado por outras fontes, Stalin, na ocasio de um encontro com Dej, em 1951, teria se mostrado surpreendido por nenhum dos agentes do titismo ou do sionismo j terem sido presos, exigindo uma mo de ferro. Desse modo, Vasile Luca, ministro das Finanas, foi exonerado em maio de 1952, juntamente com Teohari Georgescu, ministro do Interior, e condenado  morte. A condenao foi transformada em priso perptua, durante a qual ele morreu. Ana Pauker, ministra dos Negcios Estrangeiros, foi destituda no incio de julho, presa em fevereiro de 1953 e libertada em 1954, passando a ter uma vida familiar. Com ela, o pendor anti-semita da represso atingiu os quadros mdios do aparelho.
	Os acontecimentos ento verificados em Moscou - reorganizao profunda dos servios de Segurana e priso do seu chefe, Abakumov, em julho de 1951 - levam-nos  formulao de uma terceira hiptese: a do confronto de cls no interior do aparelho da Segurana sovitico. Esse confronto foi provavelmente decisivo tanto na escolha definitiva das vtimas entre os que haviam colaborado com os servios de Segurana, quanto na importncia da pena. Karel Kaplan constata no seu ultimo trabalho de sntese: Uma questo permanece em aberto, a de se saber se a liquidao de um grupo de colaboradores dos servios de segurana soviticos, bem como a sua substituio por outros (Bacilek, Keppert e outros) no tm a sua origem nos conflitos e nas mudanas que se verificaram no interior da central moscovita de segurana.  
	O fundamento dessa hiptese apenas poder ser demonstrado depois de longa pesquisa nos principais arquivos de Moscou. E fato verdico a existncia de divergncias, no final do reinado de Stalin, entre os seus potenciais sucessores - Kruschev, Malenkov, Beria - ligados aos diferentes chefes e grupos dos servios de segurana; temos uma idia das rivalidades existentes entre os servios especiais do exrcito e os do NKVD, que estavam em situao de concorrncia precisamente nas democracias populares onde o exrcito havia penetrado primeiro.
	Os arquivos de Praga refletem o estado de irresoluo em que se encontravam os servios de segurana soviticos. Na primavera de 1950, a central de Moscou procedeu  substituio dos conselheiros soviticos que foram para Praga no princpio de outubro de 1949 e que no tinham obtido os resultados previstos. Durante um reunio no Kremlin em 23 de julho de 1951, para a qual Gottwald, convidado, se fizera substituir por Alexei Cepicka, ministro da Defesa Nacional, Stalin criticou esses conselheiros pela sua atuao irresponsvel. Escreveu, tambm, numa carta para Gottwald (versando principalmente sobre os destinos de Slansky e Geminder), trazida de Moscou por Cepicka: No que se refere a sua avaliao positiva do trabalho do camarada Boiarski [principal conselheiro sovitico] e ao desejo que expressou de o manter nas funes de conselheiro do Ministrio da Segurana Nacional da Repblica Tcheca, somos de opinio contrria. A experincia do trabalho do camarada Boiarski na Repblica Tcheca demonstrou bem que ele no tinha a qualificao necessria para desempenhar responsavelmente os seus deveres de conselheiro. Por isso decidimos que abandonasse a Tchecoslovquia. Se h realmente a necessidade de um conselheiro em matria de segurana de Estado (compete-lhe a deciso), ns nos esforaremos para encontrar um responsvel mais slido e com maior experincia. 
	Nessas condies, compreende-se que os chefes da Segurana se encontrassem psicologicamente fragilizados. Por exemplo, o chefe do grupo de responsveis tchecos pela investigao tomou nota de uma declarao de um dos conselheiros: S se podem deixar prematuramente os servios de segurana para ir  cidade dos ps juntos. Jindrich Vesely, chefe da Segurana de Estado, tentou suicidar-se em 1950. Falhou, mas repetiu a tentativa, em 1964, com sucesso. Antes dessa segunda tentativa, deu uma longa explicao do seu suicdio; parece sincera e pode ser consultada nos arquivos do Comit Central do PCT. No documento, Vesely se refere  causa da primeira tentativa de suicdio. Sabia que Stalin procedia regularmente  eliminao dos chefes dos servios de segurana: ele quis assim escapar a sua prpria liquidao.
	Nessa busca da lgica da escolha das vtimas entre os dirigentes comunistas,  finalmente indispensvel a formulao de uma quarta hiptese: a preparao de um grande processo na capital moscovita do imprio devia coroar a srie de processos polticos conduzidos nos outros pases e punir os pretensos protagonistas de uma imensa conspirao internacional no prprio centro, em Moscou. Os novos dados analisados no captulo A ltima conspirao constituem argumentos srios que apoiam essa interpretao da represso contra os comunistas na Europa Central e do Sudeste.

	Do ps-terror ao ps-comunismo

	Antes de abordar o perodo que vai de 1955-1956 - definido pelo historiador hngaro Miklos Moinar como ps-terror - at 1989-1990, data em que a maior parte dos regimes comunistas da Europa Central e do Sudeste entram em decomposio, impem-se algumas constataes. Provavelmente, elas nos ajudaro a compreender a evoluo e a lgica da represso, a partir de 1955-1956.
	Verifica-se, em primeiro lugar, que a represso que se seguiu  expanso dos regimes comunistas na Europa, e que sem dvida pode ser classificada como terror de massa, assentava - era alis o seu objetivo - na violao e na liquidao das liberdades e dos direitos fundamentais. Estes haviam sido definidos e explicitados por documentos internacionais, particularmente pela Declarao Universal dos Direitos do Homem, votada em dezembro de 1948 pela Assembleia Geral das Naes Unidas, a despeito da absteno da URSS e de cinco democracias populares. Essa represso estava em total contradio com o texto das Constituies em vigor nos pases respectivos; com efeito eram a direo e o aparelho do Partido Comunista que decidiam a sua amplitude e grandes orientaes, agindo como organismos no constitucionais. Na Tchecoslovquia, por exemplo, foi somente em 1960 que o papel dirigente do Partido Comunista foi introduzido na Constituio, proclamada como a segunda Constituio socialista que se seguiu  da URSS, Frequentemente, a represso violava tambm as leis em vigor: nenhuma lei permitia o emprego da tortura em larga escala na ocasio da deteno e do inqurito do processo; nenhuma lei dava plenos poderes  polcia poltica, transformada em mquina de fabricar processos.  bom ressaltar que os comentrios que acompanharam as primeiras revises dos processos contra comunistas condenavam a polcia por ter-se erguido acima do Partido e no acima da lei - isto certamente com a finalidade de diminuir ou escamotear a responsabilidade dos dirigentes polticos no funcionamento do sistema policial.
	Analisemos em seguida as especificidades da ditadura comunista. Ela no foi especfica de um Estado - embora esse Estado cobrisse a sexta parte da rea total do globo - mas de vrios Estados, internacionalizando-se. As ditaduras comunistas representavam um sistema de vasos comunicantes entre si, tendo Moscou como o seu centro. Sabemos, graas  abertura dos arquivos, que a represso nas futuras democracias populares foi inspirada e dirigida, logo aps 1944, pelo poderoso aparelho comunista internacional, estruturado em redor da Internacional Comunista, posteriormente integrada pelo aparelho central sovitico. Em 12 de junho de 1943, imediatamente aps a dissoluo do Komintern, anunciada em 9 de junho, foi criado o Departamento de Informaes Internacionais do Comit Central do PC(b)US, chefiado por Alexandre Stcherbakov, assistido por Georgi Dimitrov e Dimitri Manuilski. Esse departamento continuou a dirigir os partidos comunistas. Dimitrov, desde o incio o seu verdadeiro chefe, foi nomeado chefe oficial por deciso do Politburo Sovitico no final do ms de dezembro de 1943. O departamento dava suas diretivas atravs dos servios estrangeiros dos partidos comunistas instalados na URSS (que no existiam na Albnia e na lugoslvia), atravs das ligaes radiofnicas ou de mensageiros, e mais tarde durante as consultas em Moscou. Uma conversa entre Wladyslaw Gomulka e Dimitrov, em 10 de maio de 1945, exemplifica essa situao. Esse ltimo criticava-o por no utilizar na Polnia medidas punitivas severas, e acrescentava: No podemos dispensar os campos de concentrao. Ser que a utilizao dos campos contra inimigos polticos foi planejada logo no fim da guerra? 
	A ampliao da experincia bolchevique aos Estados no integrados  Unio Sovitica depressa se revelou arriscada: as sensibilidades nacionais continuavam a existir - e a se exprimir -, apesar das intervenes de Moscou destinadas a uniformizar os regimes do bloco sovitico. Na sequncia dos acontecimentos verificados em 1948-1949 na lugoslvia, entre 1953 e 1956 na Hungria e em 1956 na Polnia, a diversificao dos regimes comunistas acentuou-se no incio dos anos 60, com a ruptura entre a URSS e a China e a sua repercusso nos pases satlites europeus, principalmente na Albnia e na Romnia.
	Ressaltemos finalmente que os comunistas que ocupavam o poder souberam confrontar-se com o seu passado de opressores; nesse ponto reside uma das diferenas fundamentais entre o comunismo e o nazismo, que nunca teve um Kruschev, um Nagy, um Dubcek ou um Gorbatchev. No decorrer dos anos 50, a reabilitao das vtimas transformou-se no principal trunfo dos combates pela sucesso no poder, sucesso aberta, quer pelo desaparecimento do grande chefe - Stalin e Gottwald em 1953, Bierut na Polnia em 1956 -, quer provocada pela destituio do secretrio-geral - Rkosi -, na Hungria, em 1956. Reabilitar significava no apenas denunciar crimes gritantes, mas tambm identificar os seus responsveis. A importncia das reabilitaes nas lutas dentro das cpulas perdurou durante os anos 60, sobretudo na Tchecoslovquia. O fenmeno influenciou tambm as bases humanas da utopia (sobretudo a intelligentsi), para as quais o ideal comunista possua uma dimenso moral e que se sentiram tradas com a revelao dos crimes do regime. A histria da represso deve portanto integrar, a partir de 1953 e at aos anos 60, as anistias, mesmo se muitas vezes parciais, pois representaram atos polticos de extraordinrio significado.
	Assim, em 1955-1956, a mquina de destruir pessoas continuava instalada, mas comeava a emperrar. Responsveis da polcia poltica, agentes consumados da represso entre 1949 e 1953, foram exonerados, por vezes presos e condenados, embora as penas fossem leves. Dirigentes polticos eram obrigados a apresentar a demisso, substitudos algumas vezes por antigos presos - caso de Gomulka, na Polnia, e Kadar, na Hungria. A represso tornava-se mais suave...
	O perodo fundador dos regimes comunistas deixara muitas feridas abertas. O terror de massa como mtodo de represso no desapareceu por completo tanto nos anos 50 como nos 60. Com efeito, parece-nos legtimo incluir nesta categoria as intervenes militares do exrcito sovitico. Os tanques na rua destinaram-se a semear o terror entre a populao.
	Os tanques soviticos atuaram pela primeira vez em 17 de junho de 1953 na RDA: a sua utilizao destinava-se a esmagar - em Berlim Leste e em outras grandes cidades - manifestaes espontneas de trabalhadores provocadas por medidas governamentais que endureciam as condies de trabalho. Segundo os estudos mais recentes, pelo menos 51 pessoas encontraram a morte no decorrer dos motins e na represso que se seguiu: duas pessoas foram esmagadas pelos tanques, sete condenadas pelos tribunais soviticos, trs por tribunais da RDA, 23 morreram em consequncia de ferimentos; seis mortos pertenciam s foras de segurana. At 30 de junho, 6.171 pessoas foram oficialmente detidas e, depois dessa data, cerca de 7.000 outras.
	Depois do XX Congresso do PCUS, os dirigentes soviticos recorreram ainda por duas vezes a intervenes militares de grande envergadura: na Hungria, em 1956, e na Tchecoslovquia, em 1968. Os tanques serviram, em ambos os casos, para esmagar uma revolta antitotalitria popular que conquistara a adeso de importantes camadas da populao.
	Na Hungria, pas onde o exrcito sovitico tinha foras estacionadas, as suas unidades intervieram por duas vezes: por volta das 2 horas da madrugada de 24 de outubro em Budapeste - comeando a retirada no dia 30 - e durante a noite de 3 para 4 de novembro. Violentos combates duraram at a noite do dia 6 de novembro, com focos de resistncia que subsistiram, sobretudo nas zonas operrias da cidade, at 14 de novembro, enquanto no mesmo dia era derrotado um grupo rebelde na zona montanhosa de Mecsek. Os confrontos armados reapareceram em dezembro, ligados a manifestaes de rua. Em Salgotarjan, em 8 de dezembro, 131 pessoas morreram como consequncia de disparos efetuados por unidades soviticas ou hngaras.
	A morte violenta, ou a sua ameaa - elemento essencial do terror -, foram durante algumas semanas a realidade do cotidiano magiar. Os combates provocaram cerca de 3.000 mortos, dois teros dos quais em Budapeste, e 15.000 feridos. Com a abertura dos arquivos, os historiadores hngaros puderam estabelecer tambm o nmero de vtimas do lado dos opressores. Entre 23 de outubro e 12 de dezembro, as unidades da polcia poltica (AVH), dos exrcitos sovitico e hngaro e do Ministrio do Interior teriam registrado 350 baixas; 37 elementos da AVH, da polcia ou do exrcito teriam sido executados sumariamente, quer fuzilados, quer linchados. Assim, a honra da revoluo foi manchada, segundo os termos dos historiadores.
	A represso que se seguiu ao esmagamento da revolta hngara, e na qual a polcia militar sovitica participou ativamente at incio de 1957, atingiu mais de cem mil pessoas, vrias dezenas de milhares foram encarceradas em campos de concentrao oficialmente reabertos em 12 de dezembro; 35.000 foram levadas a tribunal, das quais entre 25.000 e 26.000 foram presas. Vrios milhares de hngaros foram deportados para a Unio Sovitica; 229 rebeldes foram condenados  morte e executados; finalmente, 200.000 pessoas evitaram a represso e emigraram.
	Essa represso depressa recorreu a um instrumento j bastante experimentado: a justia de exceo, articulando-se  volta dos tribunais populares e da cmara especial dos tribunais militares. Foi perante o tribunal popular de Budapeste que se desenrolou o processo de Imre Nagy, comunista de longa data, que emigrou para Moscou durante a guerra, afastado do poder em 1948 mas primeiro-ministro em 1953, para de novo ser afastado em 1955. Nagy assumira a presidncia do governo insurrecional. O seu processo terminou no final de junho de 1958. Dois dos seus co-acusados encontravam-se ausentes: Geza Losonczy, jornalista comunista, antigo resistente que j fora preso entre 1951 e 1954, ministro do governo de Nagy, morto na priso em 21 de dezembro de 1957, provavelmente com a ajuda dos investigadores; e Jozsef Szilagyi, comunista de antes da guerra, resistente preso durante a guerra, chefe do gabinete de Nagy em 1956, condenado  morte em 22 de abril e executado em 24. Segundo os documentos existentes, J. Szilagyi teria se comportado no decorrer da investigao como um acusador determinado, repetindo aos investigadores, entre outras coisas, que, comparadas com as daquele momento, as prises do regime fascista de Horthy tinham sido meros sanatrios.
	A sentena do processo de Imre Nagy, iniciado em 9 de junho de 1958, foi pronunciada no dia 15, e os trs condenados  morte foram executados no dia 16. Alm de Nagy, foram condenados  pena capital o general Pai Maleter, resistente durante a guerra, comunista desde 1945, ministro da Defesa do governo insurrecional de 1956, preso pelas autoridades soviticas; e Miklos Gimes, jornalista comunista, fundador de um jornal clandestino aps o esmagamento da revoluo. Cinco outros acusados foram condenados a penas entre os cinco anos de priso e a priso perptua.
	O processo de Imre Nagy, um dos ltimos grandes processos polticos das democracias populares, demonstrava ser impossvel ao poder comunista, restaurado graas  interveno militar sovitica, no recorrer a esse instrumento ltimo de represso. No entanto, ele j no tinha a capacidade para organizar grandes espetculos; o processo de Nagy decorreu a portas fechadas, no edifcio da priso central e da sede da polcia poltica de Budapeste, numa sala especialmente preparada para o efeito. Em 1958, Nagy e os seus pares - smbolos da revolta popular, que recusavam reconhecer como legtimas a interveno sovitica e a tomada do poder pela equipe dirigida por Janos Kadar - no podiam continuar vivos.
	As novas investigaes sublinham a crueldade dessa represso, no hesitando em utilizar a palavra terror. No entanto, elas constatam a ambivalncia do perodo e as suas diferenas relativamente a 1947-1953. Em 1959, com processos contra os rebeldes ainda em vigor, teve lugar a primeira anistia, embora parcial; as medidas de exceo foram levantadas em 1960, os campos de encarceramento suprimidos, etc. O ano de 1962 assistiu ao afastamento dos agentes da polcia implicados nos processos pr-fabricados do perodo de Rkosi; Rajk e 190 outras vtimas daquela ocasio foram definitivamente reabilitados. Em 1963, foi proclamada uma anistia geral, mas que no atingiu alguns dos rebeldes, condenados como assassinos. A represso violenta cessava. No entanto, a reabilitao de Imre Nagy e dos seus cmplices s aconteceu em 1989; ainda em 1988, a polcia espancava, em Budapeste, manifestantes que queriam comemorar o aniversrio da sua execuo...
	Dois fatores externos influenciaram essa evoluo: por um lado, a crtica mais aprofundada ao reinado de Stalin na URSS e o decorrente afastamento dos seus partidrios na direo sovitica; por outro lado, uma conjuntura internacional nova, em que a idia de coexistncia pacfica nas relaes Leste-Oeste comeava a tomar peso. Dois fatores que no se repercutiram apenas na Hungria...
	Na Tchecoslovquia, 12 anos depois da insurreio hngara, os tanques soviticos semeavam de novo o terror. A interveno militar de 1968 deve distinguir-se da de 1956, ainda que tivesse o mesmo objetivo - o esmagamento de uma revolta popular contra o socialismo  sovitica. So diferentes pelo tempo que passou, pela conjuntura internacional e pela conjuntura especfica do sistema comunista mundial. O grosso das tropas de assalto era evidentemente sovitico, mas quatro outros membros do Pacto de Varsvia participaram: Bulgria, Hungria, Polnia e Repblica Democrtica Alem. Ressaltemos um outro fato fundamental: o exrcito sovitico no possua unidades estacionadas na Tchecoslovquia, como aconteceu na Hungria de 1956, pas vencido que devemos considerar como ocupado e onde as divises soviticas intervieram no combate armado que explodira nas ruas. O Esta-do-Maior sovitico devia encarar a eventualidade de uma resistncia armada dos tchecos  invaso, com a possibilidade de uma guerra local ou mesmo europeia.
	Compreendem-se assim os impressionantes meios mobilizados. Na noite de 20 para 21 de agosto de 1968, com o nome de cdigo Danbio, a operao preparada desde 8 de abril, quando foi assinada a diretiva GOU/1/87654 do marechal Gretchko, ministro da Defesa sovitico, ps em ao principalmente tropas soviticas estacionadas nos territrios da RDA, da Polnia e da Hungria. Em primeiro lugar as unidades blindadas, os preciosos tanques que por todo lugar simbolizaram a represso, inclusive na praa de Tian'anmen, em Pequim, em 1989. O primeiro escalo era composto por 165.000 homens e 4.600 tanques; cinco dias mais tarde, a Tchecoslovquia encontrava-se ocupada por 27 divises apoiadas por 6.300 tanques, 800 avies, 2.000 canhes e cerca de 400.000 homens.

	Caixes incmodos

	Executados os 11 condenados no processo Slansky, em dezembro de 1952, os corpos foram incinerados e as cinzas dispersas sobre as estradas e campos gelados dos arredores de Praga. Seis anos depois, no entanto, o poder comunista hngaro repugnava a soluo das cinzas.
	Depois de executados, Imre Nagy e seus companheiros foram, primeiro, enterrados na priso de Kozma, onde decorrera o processo de investigao, por debaixo de uma espessa camada de concreto. Os cadveres, se bem que colocados em local desconhecido das suas famlias, continuavam a assustar. Durante o vero de 1961, eles foram exumados e sepultados, em grande segredo durante a noite, no cemitrio pblico de Budapeste, prximo do local onde se encontravam j duas outras vtimas do mesmo processo, Geza Losonczy e Jozsef Szilagyi. Os caixes entraram para o cemitrio por cima do muro, e os guardas ignoravam tudo sobre o enterro desses trs mortos, registrados sob nomes fictcios. Durante 30 anos, os esforos dos familiares para saberem o local de sepultura foram vos. Com base em informaes no confirmadas, as famlias punham flores em alguns tmulos da parcela n. 301 do cemitrio comunal. A polcia molestava os visitantes e por vrias vezes danificou os tmulos, fazendo com que fossem pisoteados por cavalos.
	Os corpos puderam finalmente ser exumados em maro de 1989. A autpsia de Geza Losonczy revelou vrias fraturas das costelas, algumas das quais eram seis meses anteriores  morte, e outras mais recentes.
	O governo da poca havia entregue a investigao sobre o local de sepultura a jovens oficiais. Entre os que se recusaram a ajudar os investigadores figurava Sandor Rajnai, responsvel pela investigao do processo e embaixador da Hungria em Moscou entre 1988 e 1989.
	Baseado no testemunho de Alajos Dornbach, advogado da parte civil no pedido de reviso do processo Nagy em 1988, publicado em Communisme, n? 26-27, Paris, L'ge d'Homme, 1990.
	Para termos mais claramente a medida do poder de ataque desses tanques, monstros mensageiros do terror, lembremos que em 1940 a Franca foi atacada por cerca de 2.500 tanques - nitidamente menos pesados em massa de ao e esteira e com menor poderio de fogo do que os de 1968 -, e que a Alemanha de Hitler mobilizou, em junho de 1941, 3.580 tanques durante o ataque  URSS. E, finalmente, que a Tchecoslovquia tinha aproximadamente 14,3 milhes de habitantes, muito menos de metade da populao francesa em 1940.
	No houve guerra local, e a resistncia  invaso foi pacfica, no houve conflito armado, o que no impediu que os invasores tivessem matado 90 pessoas, sobretudo em Praga. Mais de 300 tchecos e eslovacos ficaram gravemente feridos, e mais de 500 sofreram ferimentos leves. O nmero de baixas na fora de ocupao permanece at hoje desconhecido - acidentes de estrada, manipulao desajeitada de armas, execuo de desertores. Sabe-se apenas que os tchecos abateram um soldado blgaro. As autoridades soviticas prenderam e deportaram vrios dirigentes, sendo no entanto obrigadas a libert-los poucos dias depois e a negociar com eles. Politicamente, a interveno armada resultou num enorme fiasco: as foras de ocupao no conseguiram instalar o governo operrio e campons que fora previsto.
	A represso ligada a essa interveno militar no terminou em 1968: entre as suas vtimas figuram as tochas humanas, os que publicamente se imolaram pelo fogo como protesto contra a ocupao. Conquistaram na poca, e at hoje, o estatuto de vtimas simblicas. O primeiro a escolher esse destino foi Jan Palach, estudante de 20 anos, imolado pelo fogo no centro de Praga em 16 de janeiro de 1969 por volta das I4h30min. A sua morte provocou, trs dias mais tarde, enormes manifestaes. Jan Zajic, outro estudante, seguiu os mesmos passos de Jan Palach, em fevereiro. A terceira tocha humana - um comunista de 40 anos, Evzen Plocek - incendiou-se no princpio de abril em Jihlava, na Morvia.
	A represso na Tchecoslovquia depressa revestiu traos originais: foi executada pela polcia e pelo exrcito nacionais, depois de normalizados. A presso exercida pelas autoridades soviticas, apoiada na instalao durvel das foras de ocupao, foi enorme. Um acontecimento imprevisto fez com que as coisas andassem mais rpido: as manifestaes espontneas da noite de 28 para 29 de maro de 1969, com cerca de meio milho de pessoas. Os tchecos e os eslovacos saram s ruas de 69 cidades para celebrarem a vitria da equipe nacional contra a da Unio Sovitica no campeonato mundial de hquei sobre o gelo. Vinte e uma das 36 guarnies soviticas na Tchecoslovquia foram ento atacadas. Os marechais agitaram-se e avisaram a Alexandre Dubcek, ainda secretrio-geral do PCT - at 17 de abril -, que ele estava se arriscando a ter a mesma sorte de Imre Nagy...
	O potencial de represso das forcas tchecas normalizadas - unidades especiais do exrcito e da polcia, assim como da milcia popular, formada nas fbricas - foi posto  prova no primeiro aniversrio da ocupao. Elas haviam sido conscientemente preparadas para isso. Provocaram numerosos confrontos com os manifestantes, na sua maioria jovens. As cargas foram por vezes brutais, sobretudo em Praga, onde logo em 20 de agosto dois adolescentes haviam sido mortos. Todas as grandes cidades sofreram o choque das unidades especiais do exrcito, com tanques e blindados. Esse episdio violento foi classificado pelos especialistas como a a mais importante operao de combate executada pelo exrcito tcheco no ps-guerra. Trs outros manifestantes tombaram em 21 de agosto, dezenas ficaram gravemente feridos. Milhares foram presos e espancados. E, antes do fim de 1969, 1.526 manifestantes foram condenados por um decreto da presidncia da Assembleia Federal, com fora de lei, assinado em 22 de agosto pelo presidente desse organismo, Alexandre Dubcek...
	O ano de 1969 assistiu  priso de alguns dos participantes na revolta de 1968: o mesmo caminho foi seguido por um grupo de jovens, o Movimento da Juventude Revolucionria (HRM), ativo na preparao das comemoraes do primeiro aniversrio da invaso: a polcia conseguira infiltrar um elemento no grupo. No entanto, apesar da forte presso exercida pelos ultras, o poder dos normalizadores continuava a no dar luz verde para a preparao de processos polticos contra os dirigentes comunistas de 1968. As anlises mencionam frequentemente que a nova equipe temia iniciar um processo que poderia voltar-se contra ela prpria. Gustav Husak, o novo secretrio-geral do PCT, escolhido pelos soviticos para substituir Dubcek, conhecia a partitura: condenado em 1954  priso perptua, durante um grande processo contra os nacionalistas burgueses eslovacos, ele havia passado mais de nove anos na cadeia. Entretanto, o terror de massa, aprovado por Moscou, continuava a exercer-se de maneira insidiosa e cruel, numa estratgia sutil, destinada a instaurar o medo: centenas de milhares de pessoas viram cerceado o seu direito de participao na vida pblica, sofrendo tambm discriminao profissional; os seus filhos, impedidos de acesso ao ensino secundrio ou superior, tornaram-se refns. Desde o incio da normalizao, o regime atacou os rgos da sociedade civil que haviam se reorganizado em 1968: cerca de 70 organizaes e associaes foram proibidas ou liquidadas atravs de fuso com outras, a censura reinstalou-se, etc. Dezenas de milhares de tchecos e eslovacos seguiram finalmente os passos dos exilados de 1948. Durante os 40 anos de regime comunista, cerca de 400.000 pessoas, na sua maioria qualificadas e com estudos superiores, escolheram abandonar o pas; depois de 1969, os tribunais as condenaram sistematicamente por contumcia.
	Entretanto, os processos polticos no desapareceram completamente durante a represso que se seguiu ao esmagamento da Primavera de Praga. Depois do processo de 16 membros do HRM, em maro de 1971, no decorrer do qual o seu lder, Petr Uhl, foi condenado a quatro anos de priso, nove outros se desenrolaram durante o vero de 1972. Neles foram julgados alguns dos protagonistas de segunda linha dos acontecimentos de 1968, perseguidos pelas suas atividades aps a ocupao. Dos 46 acusados, dois teros dos quais eram antigos comunistas, 32 foram condenados a um total de 96 anos de priso, e 16, depois de vrios meses de deteno, a um total de 21 anos de pena, com direito a sursis. A pena mais pesada foi de cinco anos e meio de cadeia, clemente se comparada com as penas aplicadas no perodo fundador do regime. Vrios dos condenados por essa onda de represso - Petr Uhl, Jaroslav Sabata, Rudolf Batek- foram de novo presos depois de cumprirem as respectivas penas. Passaram ao todo, nos anos 70 e 80, nove anos das suas vidas na priso. A Tchecoslovquia detinha, naquele momento, o triste recorde da perseguio poltica na Europa.
	As grandes revoltas de 1956 e de 1968 - e o seu esmagamento - convidam-nos  anlise de uma outra caracterstica da lgica repressiva, a dos vasos comunicantes. Os acontecimentos que agitaram um pas tiveram repercusso nos outros, em particular quando a potncia do centro se comprometeu mili-tarmente. Em 1956, em ligao com a revolta hngara, a direo ps-stalinis-ta do PCT, alarmada, encontrava-se preparada para enviar unidades do exrcito tcheco para a Hungria. Internamente, intensificava-se a represso, com o reenvio para a priso de centenas de prisioneiros polticos j libertados e com a perseguio dos simpatizantes tchecos e eslovacos da revolta hngara; l. 163 pessoas foram levadas a tribunal, com freqncia por terem expresso verbalmente a sua solidariedade para com os hngaros; a maior parte, 53,5%. eram operrios, e as condenaes foram de at um ano de priso, raramente ultrapassando esse perodo. Nessa poca, a represso na Albnia foi mais espetacu-lar: em 25 de novembro de 1956, o regime de Hoxha anunciava a condenao  morte e execuo de trs dirigentes acusados de titismo - Liri Gega, membro do Comit Central do PCA, ento grvida, o general Dale Ndreu e Petro Buli. Na Romnia, Gheorghiu Dej - que comeava a jogar a cartada chinesa no seu relacionamento com a URSS - teve gestos de clemncia para com nacionalistas que estavam sendo perseguidos; paralelamente, ele organizava um grande processo contra responsveis pelo comrcio externo, frequentemente judeus comunistas.
	Ainda em 1968, os regimes - incluindo a Unio Sovitica - que receavam o contgio das idias da Primavera de Praga intensificaram a perseguio antes e depois da interveno militar na Tchecoslovquia. O destino de Alfred Foscolo  testemunha disso, permitindo-nos compreender a atmosfera da poca. De me blgara e pai francs, professor na Bulgria at 1949, o jovem francs continuava a passar regularmente frias na Bulgria. Estudante de Direito e lnguas orientais em Paris, ele decidiu colaborar com os seus amigos blgaros fazendo a cpia, na Frana, de 500 exemplares de um panfleto que ele mesmo transportou para Sofia. Os jovens reivindicavam eleies livres, liberdade de movimentos e de imprensa, a reabilitao das vtimas da represso, a autogesto operria e a abolio do Pacto de Varsvia. No mesmo ano, ele tem uma filha com Raina Aracheva, que era blgara. Fredy e Raina apresentam ento um pedido de autorizao de casamento, que demora a ser concedida. Mas 1968 chega.
	No seu testemunho, Foscolo escreve:
	No incio de 1968 fui chamado para o servio militar. Em julho, a embaixada da Bulgria informa-me que a autorizao de casamento seria concedida na condio de me deslocar para Sofia. Corri para l durante um perodo de frias de 14 dias. Uma vez em Sofia, a autorizao foi de novo recusada. Estamos em agosto de 1968; em 21, os soviticos entram em Praga; em 28, sem saber o que fazer, tomo o Oriente-Express para Paris. S viria a chegar l alguns anos mais tarde: na fronteira sou preso pelos agentes da Darjavna Sigurnost. Incomunicvel nos locais da Segurana de Estado, sou dado como desaparecido durante 15 dias para todos, exceto para o comandante Nedkov, que no me deixou alternativa: ou colaborava declarando-me agente imperialista ou ento nunca mais ningum ouviria falar de mim. Aceitei, com a esperana de que durante o processo poderia repor a verdade.
	O processo se inicia em 6 de janeiro de 1969. Dois amigos de Raina acompanham-me como rus. Ao procurador, que pede para mim a pena de morte, o meu advogado de defesa responde que eu a mereo totalmente e pede clemncia. Trata-se na verdade de uma farsa destinada a propaganda. Sou condenado a 27 anos de priso com um cmulo de 15 de deteno severa por espionagem. Os amigos de Raina apanham entre dez e 12 anos de cadeia, e Raina - que nada sabia do panfleto -, um ano. Um outro amigo, emigrante poltico blgaro em Paris,  condenado  morte por contumcia.
	Depois de um ms na zona dos condenados  morte da priso central de Sofia (7 diviso), sou transferido para a priso de Stara-Zagora, onde se encontrava detida a maioria dos 200 a 300 presos polticos do pas. Nela, aprendi muito sobre a histria penitenciria da Bulgria nos seus primeiros 25 anos de comunismo, apercebendo-me de que as minhas atribulaes pouco representavam comparativamente ao que milhares de blgaros haviam vivido. Testemunhei tambm o motim de 8 de outubro de 1969, durante o qual vrios presos morreram. Um outro pedido de autorizao para nos casarmos, apresentado naquela ocasio por mim prprio e por Raina, quando detidos, foi de novo recusado.
	Inesperadamente, fui libertado em 30 de abril de 1971 e expulso para Franca. A nossa priso em 1968, quando da ocupao da Tchecoslovquia, seguida de um processo de grande espetculo, destinava-se a provar a implicao das foras imperialistas no movimento de emancipao do Leste; mas com o incio das conversaes de Helsinque, a minha presena nas prises blgaras tornou-se indesejvel. Os meus dois camaradas blgaros no se beneficiaram de clemncia.
	De volta a Paris, imaginei vrios cenrios para que Raina e a minha filha viessem se juntar a mim. Finalmente, cheguei clandestinamente a Sofia, sob uma falsa identidade e munido de passaportes falsificados. Graas a eles e a uma sorte tremenda, atravessamos os trs a fronteira blgaro-turca na noite de 19 para 2 de janeiro de 1974. Dois dias depois, chegvamos a Paris. 
	No perodo entre 1955-1956 e 1989, a represso foi marcada pela lgica prpria a todos os regimes ditatoriais: o aparelho policial est ativo e ataca a oposio, geralmente espontnea nos movimentos sociais - greves ou manifestaes de rua - ou j mais amadurecida, deliberada, formulando reivindicaes e esforando-se para se munir de uma estrutura organizacional. Para prevenir ou esmagar as atividades da oposio numa sociedade em que a contestao ganhava terreno e aproveitava a conjuntura internacional a partir da segunda metade dos anos 70 com os acordos de Helsinque, o aparelho apia-se numa rede de informantes cada vez mais extensa.  muito significativo para o estado do sistema que se tenha de recorrer a essa forma de controle da sociedade, aumentando consideravelmente o volume de informantes. Por exemplo, na Tchecoslovquia do incio dos anos 60, a polcia contentava-se com cerca de 8.000 informantes oficialmente recrutados, pois cada membro disciplinado do Partido Comunista estava evidentemente pronto a dar as informaes desejadas. No final dos anos 80, a mesma polcia precisava de 170.000 a 180.000 informantes!
	Mas, paralelamente, a lgica repressiva no ps-terror foi cada vez mais influenciada pelas especificidades nacionais, pela relao de foras no interior das equipes dirigentes, pela apreciao pontual que essas faziam sobre a solidez dos seus regimes e pelo sucesso, ou insucesso, dos seus projetos polticos e econmicos. O Muro de Berlim, construdo em 13 de agosto por iniciativa do SED, e com a aprovao dos dirigentes soviticos, foi antes de mais nada uma manifestao de pnico quanto ao futuro do regime.
	Na Romnia, a direo comunista exprimiu claramente a sua independncia atravs da recusa em participar na interveno militar contra a Tchecoslovquia. Algum tempo depois e ainda nos anos 80, o seu comunismo nacional revelou-se, juntamente com o comunismo albans, o mais repressivo de todos os pases do espao de que nos ocupamos. A represso era efetivamente inerente ao sistema comunista, mesmo que a metrpole sovitica no interviesse nela diretamente.
	A Romnia de Nicolas Ceausescu, o Conducator - que se fez adorar como o Guia, o Duce, o Fiihrer -, teve de enfrentar, desde a segunda metade dos anos 70, uma grave crise econmica e social, que provocou uma forte contestao. Se esse movimento se insere na luta pelas liberdades democrticas que se desenrolavam tambm nos outros pases, ele se sustentou sobretudo na participao operria. A grande greve dos 35 mil mineiros do vale do Jiu, em agosto de 1977, as manifestaes e as greves do vero de 1980, acompanhadas pela ocupao de fbricas em Bucareste, Galati, Tirgoviste e nas bacias mineiras, a revolta do vale de Motru, no outono de 1981, e outras tantas manifestaes de contestao provocaram uma represso muito dura por parte do poder de Ceausescu. Prises, deslocamentos forados, residncias fixas, espancamentos, licenciamentos, internamentos psiquitricos, processos e assassinatos - todo o arsenal repressivo foi amplamente utilizado. Corn sucesso imediato, mas intil a longo prazo. As manifestaes e as greves explodiram de novo em 1987, culminando em novembro de 1988 com o levantamento popular de Brasov, a segunda maior cidade romena, com uma populao de 300 mil habitantes. Os confrontos com as foras da ordem foram violentos e sangrentos; houve mortos e centenas de prises.
	Na Romnia, o calvrio de alguns presos polticos parece eterno. Como o do padre Calciu, Gheorghiu Calciu Dumitreasa, por exemplo. Nascido em 1927, ele foi preso ainda estudante de medicina e enviado para Pitesti, priso de que j falamos. O cativeiro durou at 1964.  sada da priso, decidiu tornar-se padre. Comprometido, entre outros, com os fundadores do Sindicato Livre dos Trabalhadores Romenos (SLOMR), ele foi julgado, a portas fechadas, em 10 de maio de 1979, e condenado a dez anos de priso por transmisso de informaes que pem em perigo a Segurana do Estado. Preso, ele fez cinco greves de fome. Ou ainda lon Puiu, antigo responsvel do Partido Nacional Campons, condenado em 1947 a 20 anos de cadeia, de onde saiu em 1964 para de novo ser preso, em 1987, pela sua atividade na oposio.
	O recrudescimento ou o abrandamento da represso estiveram sempre ligados  situao poltica internacional, s relaes Leste-Oeste e s flutuaes da poltica sovitica. De Brejnev a Gorbatchev o mundo evoluiu e com ele a ideologia da represso. Nos anos 60 e posteriormente, j no se perseguia - ou pouco - por apoio ao titismo ou ao sionismo. Na maior parte dos pases que nos interessam, a polcia preocupava-se muito mais com a diverso ideolgica e com as relaes ilegais com o estrangeiro, sobretudo no ocidente.
	As formas de represso, j bem mais suave em um grande nmero de pases, modificaram-se: por vezes, o exlio forado - sobretudo na RDA e na Tchecoslovquia - e, copiando o modelo sovitico, o tratamento psiquitrico substituram a priso. A violncia do regime era ento mais pormenorizadamente comentada e denunciada no Ocidente; a sua repercusso era imediata, e algumas das suas vtimas tinham o privilgio de testemunhar em publicaes de grande tiragem. O fato de os crimes serem tornados pblicos e mediatizados incitava os executantes da ditadura  reflexo, inclusive no caso da Romnia.
	Entretanto, o sofrimento dos oprimidos, ainda que fosse atenuado, continuava a ser sofrimento. Os campos de concentrao desapareceram, exceto na Albnia e na Bulgria, onde eles serviram, principalmente nos anos 80, para o encarceramento de blgaros de origem turca. Excetuando a Hungria, os processos polticos continuaram, marcos na evoluo dos pases que nos interessam. Como antes de 1956, esse mtodo de dissuaso visava os que tinham querido fazer renascer a sociedade civil, os partidos que haviam sido liquidados ou sindicatos independentes, os que tinham mantido vivas as Igrejas da sombra. Foram raras as excees em que os processos tocaram dirigentes comunistas. A esse propsito, podemos citar Paul Merker na RDA, condenado em maro de 1955 a oito anos de priso e libertado em 1956; Rudolf Barak, ministro tcheco do Interior, condenado a seis anos em abril de 1962; Milovan Djilas, importante dissidente do comunismo iugoslavo, preso uma primeira vez entre 1956 e 1961 e uma segunda, de 1962 a 1966. Quando a Albnia rompeu com a URSS alinhando com a China, os pr-soviticos Liri Belishova, membro do Bureau Poltico, e Koo Tashko, presidente da Comisso de Controle do PCA, foram duramente punidos; o contra-almirante Temo Sejko foi executado em maio de 1961, na companhia de vrios oficiais. Em 1975, j consumada a ruptura com a China, Henver Hoxha ordenou a liquidao de Beqir Balluku, ministro da Defesa, e Petrit Dume, chefe do Estado-Maior.
	
	Presos polticos romenos em 1987: alguns casos
	
	Francise Barabas, 40 anos, mecnico numa fabrica de txteis, condenado a seis anos de priso. Esse hngaro da Transilvnia distribura, com a ajuda do irmo e da sua futura mulher, panfletos onde se lia em hngaro: Abaixo o sapateiro! Abaixo o assassino! (A primeira profisso de Ceausescu havia sido a de sapateiro.)
	Ion Bugan, eletricista, nascido em 1936. Condenado a dez anos, porque transportara no seu automvel, pelas ruas do centro de Bucareste, em maro de 1983, um letreiro onde se lia: Deixem-nos em paz, assassinos!
	Ion Guseila, engenheiro, condenado, nos finais de 1985, a quatro anos, por ter distribudo panfletos nos quais se pedia a substituio do chefe do Estado.
	Gheorghiu Nastasescu, operrio da construo civil, 56 anos, condenado a nove anos por propaganda contra o regime. Passara j quatro anos na cadeia, por propaganda anti-socialista. No outono de 1983, ele havia lanado, do alto dos andaimes de um prdio em Bucareste, panfletos convidando todos a manifestarem o seu descontentamento.
	Victor Totu, Gheorghiu Pavel, Florin Vlascianu, operrios, nascidos em 1955, condenados a sete e oito anos; na noite de 22 de agosto de 1983, vspera do Dia da Romnia, escreveram nas paredes: Abaixo Ceausescu, comparando o seu regime ao regime nazista.
	Dimitru luga, 40 anos, condenado a dez anos em 1983; ele j tinha por vrias vezes se juntado a outros jovens com o objetivo de organizar manifestaes contra Ceausescu. Estavam decididos a agir pacificamente. Sete jovens foram condenados a cinco anos de cadeia e - exceto luga - libertados em 1984, graas a uma anistia.
	Nicolae Litoiu, 27 anos, condenado a 15 anos em 1981 por conspirao contra a Segurana do Estado. No vero de 1981, em Ploiesti, ele havia lanado um petardo contra a Casa do Partido; ele tambm atirou panfletos do alto dos Armazns Omnia. Gheorghiu Manu, seu cunhado, foi condenado a oito anos por ter sido informado das intenes de Litoiu.
	Attila Kun, mdico, condenado a trs anos em janeiro de 1987 por ter se recusado a passar uma certido de bito referente a um preso poltico morto em consequncia de tortura.
	I. Borbely, professor de Filosofia, 50 anos, condenado em 1982 a oito anos por colaborao na publicao de um samizdat em lngua hngara.
	La Nouvelle Alternative, n 7, setembro de 1987, Paris.
	
	A enumerao dos principais processos polticos desse perodo seria longa; somos forados a contentar-nos com alguns exemplos.
	As condenaes  morte foram raras - exceto quanto a verdadeiros casos de espionagem - e raramente executadas. Foi o caso do blgaro Dimitar Pentchev, condenado, juntamente com um amigo e cmplice,  pena capital, em 1961, por ter tentado, com um grupo de jovens, ressuscitar o Partido Agrrio de Nicolas Petkov; a sentena foi comutada, depois de recurso, em 20 anos de recluso, e Pentchev foi libertado no outono de 1964, por ocasio de uma anistia geral. Transformado em operrio, Pentchev ainda no havia terminado a sua instrutiva experincia de crcere. Foi de novo preso, entre 1967 e 1974, dessa vez acusado de passagem ilegal da fronteira, aventura em que um dos seus amigos foi morto. Em 1985, suspeito de terrorismo, passou dois meses na ilha de Belene, acabando por ser colocado sob residncia vigiada numa pequena cidade mineira, Bobov-Dol...
	Durante o perodo do ps-terror, o nmero de mortos, vtimas da represso, foi nitidamente inferior ao do perodo anterior a 1956. Alm das mortes, s quais j nos referimos - de 1956 na Hungria e 1968-1969 na Tchecoslovquia -, contam-se algumas centenas a mais. Uma grande parte, cerca de 200 pessoas, foram mortas a tiro quando atravessavam a fronteira da RDA e o famoso Muro de Berlim. Um dos ltimos presos polticos desse perodo a encontrar a morte foi o tcheco Pavel Wonka, morto na priso em 26 de abril de 1988, por falta de cuidados mdicos...
	As contas fazem-se pouco a pouco, mas no  fcil, pois entre os mortos devem ser considerados os assassinatos executados pela polcia secreta e mascarados, por exemplo, em acidentes de automvel, como aconteceu com dois engenheiros romenos dirigentes do movimento grevista no vale do Jiu em 1977, algumas semanas depois de a greve ser esmagada.
	Sem dvida, as pesquisas futuras procuraro, como no perodo que precedeu 1956, estabelecer uma tipologia das vtimas, ou seja, definir o prisioneiro tpico. Sabemos hoje que nem todas as vtimas desse perodo conheceram a priso: caso dos que foram mortos durante as intervenes militares ou de tentativas desesperadas de passagem das fronteiras. Sabemos tambm que seria errado salientar os casos do dramaturgo tcheco Vaclav Havei, do filsofo hngaro Istvan Bibo, ou do escritor romeno Paul Goma, e deixar na sombra a gente do povo. Limitar a anlise da represso a sua dimenso cultural  demasiado redutor. Alis, que Babel ou que Mandelstam foi executado ou assassinado entre 1956 e 1989? Verificou-se,  certo, um assassinato, o do escritor blgaro Georgui Markov em Londres, em setembro de 1978, pelo guarda-chuva blgaro de um agente secreto. Entre as vtimas contam-se, sem dvida, jovens cujo talento poderia ter desabrochado. Mas, no conjunto de pases que estudamos - e o exemplo romeno apoia essa convico -, foi a gente do povo que muito provavelmente forneceu o maior contingente de presos e de mortos. A histria no deve esquec-los.
	Sabemos que as ditaduras comunistas receavam os espritos criadores, a sua liberdade de expresso. As 260 assinaturas que acompanharam o manifesto oposicionista da Cana 77 provocaram, no incio de 1977, o pnico da Tchecoslovquia comunista. Mas esses regimes policiais assustaram-se ainda mais com a sada  rua de dezenas de milhares de pessoas.
	No final dos anos 80, a represso mostrava-se incapaz de semear o terror de massa. E os oprimidos souberam ultrapassar os ltimos medos e as ltimas angstias para iniciarem o assalto geral contra o poder.
	Uma gesto complexa do passado
	Ser que um dia poderemos nos esquecer - ou escamotear - do sofrimento provocado por um sistema e pelos seus agentes quando esse sofrimento durou dezenas de anos? Ser lcita a indulgncia para com os vencidos quando se trata de um carrasco, de um torturador? Que fazer, quando se quer instalar a democracia e um Estado de direito, com os antigos senhores e os seus numerosos sicrios, com o aparelho onipresente e estruturado do Estado e do partido que o dirigiu?
	As respostas a essas perguntas no faltaram nas democracias nascentes da Europa Central e do Sudeste, aps a derrocada dos regimes comunistas. A depurao dos antigos aparelhos comunistas esteve na ordem do dia, mesmo se a palavra lembrava memrias amargas. Portanto, no causou surpresa que os novos dirigentes - entre eles antigos comunistas em vrios pases - tenham se mostrado divididos quanto  extenso e aos mtodos dessa depurao. Medidas radicais foram pedidas, entre elas a proibio dos partidos comunistas, classificados de organizaes criminosas, e processos pblicos contra os responsveis comunistas ainda vivos. E, por outro lado, quis-se evitar novos expurgos, idnticos aos velhos mtodos comunistas. Denunciar os crimes e baixezas do antigo regime no significava, para o primeiro-ministro polons Tadeusz Mazowiecki ou para o presidente da Repblica Federativa Tcheca e Eslovaca Vaclav Havei, recorrer aos mtodos utilizados pelo poder autoritrio. Esses democratas anticomunistas recusavam-se a governar no medo e pelo medo. Gyrgy Dalos, escritor hngaro e opositor de longa data do regime autoritrio, escrevia em 1990: As depuraes, mesmo quando se pretendem tornar mais aceitveis batizando-as de 'grande limpeza de primavera', podero provocar insegurana entre os funcionrios qualificados do antigo sistema dos quais temos uma necessidade urgente [... ]. Seria grave se usssemos o medo para provocar uma nova 'lealdade', que muito pouco teria a ver com a idia que uma democracia tem de si prpria. 
	Desde os primeiros dias da instaurao da liberdade, a vtima do regime comunista, muito concretamente identificada, morta ou viva, silenciosa ou no, foi posta no centro das interrogaes sobre as responsabilidades. A vtima no sentido amplo, indo das pessoas injustamente executadas ou presas e do pequeno sapateiro expropriado aos seres cotidianamente humilhados pela sua submisso  mentira do poder. A sociedade ps-comunista devia fazer face a essa herana monstruosa, como lhe chamou Vaclav Havei, e aos graves problemas do crime e do castigo. A vtima, testemunha principal do sofrimento, interpelava necessariamente as novas estruturas polticas, que enquadravam, exploravam ou acalmavam o ressentimento provocado por esse sofrimento. Havia os que atiavam o fogo para da tirarem proveito e os que no queriam que a vida da sociedade se incendiasse numa vingana cega; havia os que observavam e os que, conscientes da fragilidade humana, procuravam as verdadeiras causas do mal e propunham medidas democrticas. Havia uma maioria silenciosa em todos os regimes comunistas, e eram muitas vezes os covardes e os medrosos de outrora, os semicolaboracionistas, que reclamavam subitamente, e mais alto, uma vingana brutal.
	No  de se estranhar que, depois de tantos anos de memria amputada, a interpretao do passado recente tivesse sido passional, com a procura de novas legitimidades, novas identidades.  compreensvel que, nas transformaes em curso, opinies e pontos de vista se tivessem prioritariamente expresso atravs da imprensa, livre de censura. Uma abordagem jornalstica, sensacionalista, e a corrida em direo ao sensacional pesaram muito, com uma viso em preto e branco da histria, com a reduo da sua evoluo  dimenso carrasco-vtima, onde toda a nao e cada um dos seus membros se transformavam em resistentes ao regime imposto pelo estrangeiro. Essa abordagem no se preocupava com sutilezas de vocabulrio: a utilizao do termo genocdio, por exemplo, foi muito frequente. Esse genocdio, fomentado pelos comunistas, teria sido utilizado contra romenos, tchecos e outros; e no s: sob o regime comunista, os tchecos teriam tentado o genocdio dos eslovacos... Na Romnia, foram os prprios livres-pensadores que criaram o conceito de holocausto vermelho; na Bulgria continua a ser utilizada a frmula esses inmeros Auschwitz sem fornos crematrios, a propsito do Gulag.
	Essas abordagens do passado recente j foram objeto de estudos imparciais; provam o peso que a Segunda Guerra Mundial teve nas sociedades comunistas. O exemplo extremo  fornecido pela Jugoslvia, onde a guerra que terminou h pouco  hoje analisada como um prolongamento das lutas fratricidas que precederam a instaurao do poder comunista, com a manipulao das memrias sendo apontada como uma das causas do conflito. A sombra dos anos de guerra no se dissipou ainda, sobretudo no campo dos antigos aliados da Alemanha nazista. Se o marechal francs Philippe Ptain tivesse nascido romeno ou eslovaco, seria certamente apresentado por algumas das correntes como uma vtima do comunismo; foi o que se passou com o ditador romeno Antonescu ou com o presidente eslovaco Jozsef Tiso, condenados e executados depois da guerra como co-responsveis pelas atrocidades cometidas pelos seus Estados.
	A histria dos regimes comunistas revela-se extremamente politizada, uma constatao banal quando nascem novos partidos e movimentos desejosos de se enraizarem no passado, de procurarem antepassados e tradies. O polons Andrzej Paczkowski, co-autor desta obra, no hesita, a propsito da procura da tradio na Polnia atual, em falar de guerra civil, felizmente verbal se pensarmos na lugoslvia. Indivduos e grupos procuram uma identidade de que a memria  um dos componentes. Uma abordagem instrumen-talista, manipuladora do passado, afirma-se no presente, os antigos mitos e lendas renascem e aparecem outros novos. O mito do nmero de vtimas merece pois uma ateno especial. Segundo o historiador francs Robert Frank, esse nmero representa um smbolo-chave, de aparncia cientfica (matemtica); ele autoriza um discurso sobre a morte em nmeros e permite instrumentalizar e sacralizar a morte em massa, o que se passou na histria de todos os pases a propsito das vtimas do comunismo. Isso obriga o investigador a um imperativo absoluto de prudncia, prudncia necessria tambm para combater as mitologias nacionais ou de grupo.
	A interpretao politizada ao extremo da histria facilita anlises aprofundadas da evoluo poltica dos pases, sugere o hngaro Gyrgy Litvan, diretor do Instituto de Histria da Revoluo Hngara de 1956: a relao ao passado recente informa-nos frequentemente melhor sobre a base democrtica de uma ou outra corrente do que o seu discurso sobre os problemas econmicos ou outros da transio em progresso.
	Entre as memrias que se (re)constituem, reconstitui-se tambm a memria oficial: legisladores e decisores selecionam as tradies destinadas aos prembulos das constituies, escolhem as personalidades que figuram nas novas notas de banco, as festas nacionais que devem ser celebradas, as condecoraes a serem atribudas, as datas comemorativas, os nomes a serem dados s ruas, praas e demais logradouros pblicos e, evidentemente, definem os programas de ensino. Os heris-vtimas do perodo comunista no podem, como  bvio, ser esquecidos. No entanto prope-se tambm  populao em causa que ponha a histria do perodo comunista entre parnteses (parnteses criminosos, infelizes - os adjetivos no faltam). Nada disto  novidade no sculo XX, constata a historiadora italiana Maria Ferretti,32 especialista da memria na Rssia, lembrando Benedetto Croce, que propunha que se pusesse entre parnteses o fascismo italiano. Tudo prova pois que o passa-do-parnteses no passa de uma mentira: duas dcadas no podem ser esquecidas, ignoradas, apagadas, pois marcaram consideravelmente a esmagadora maioria dos atuais cidados desses pases, o espao urbano e rural, os stios. Algumas anlises imparciais propem explicaes para esses comportamentos: ausncia (ou falta de convico) de uma autocrtica histrica nos indivduos, grupos e povos; o desejo de evitar qualquer reflexo sobre a responsabilidade coletiva no apoio, muitas vezes tcito, ao regime; a presena do sentimento do povo mrtir e inocente (Alexandra Laignel-Lavastine estuda na Romnia uma martirologia coletiva, acompanhada do complexo de inocncia que relega para o outro qualquer responsabilidade).
	A gesto do passado nos Estados ps-comunistas mereceria que lhe fosse dedicado um livro. Ao passarmos a limpo a situao em 1997, constatamos de novo a diversidade entre os pases, ligada dessa vez principalmente s conjunturas polticas,  manuteno ou ao recuo das antigas estruturas. Na Romnia, em particular, os homens do antigo aparelho comunista controlaram o poder at as eleies legislativas e presidenciais de novembro de 1996; uma situao semelhante existiu durante muito tempo na Bulgria. No entanto, mesmo nesses pases surgiu uma documentao considervel sobre a represso comunista. Um segundo aspecto deve ser ressaltado: atualmente, qualquer cidado dispe de numerosos documentos sobre esse assunto em todos os pases de que nos ocupamos. O testemunho sobre o sofrimento domina largamente, com uma presena muito forte nos meios audiovisuais. De momento, e salvo talvez na Repblica Tcheca e na Polnia, ou ainda na Hungria, nota-se a ausncia de uma historiografia digna desse nome e fundamentada numa consulta sria dos arquivos.
	Salientemos em seguida que em nenhum lado o Partido Comunista foi proibido. Os antigos partidos no poder mudaram geralmente de nome, exce-to na Repblica Tcheca, onde foi organizado um referendo no interior desse partido que se pronunciou pela continuao do antigo nome. Por quase todos os lugares, os dirigentes mais comprometidos foram afastados e as dire-es renovadas.
	Houve poucos processos contra os responsveis da represso ainda vivos. O mais espetacular desenrolou-se na Romnia, sob a forma de um pseudoprocesso que terminou com a execuo de Nicolas Ceausescu e da sua mulher, em 25 de dezembro de 1989, tendo o cadver do ditador sido mostrado na televiso. Na Bulgria, Todor Jivkov, antigo secretrio-geral do Partido, foi julgado em abril de 1991, mas ficou em liberdade. No h notcia de que tenha sido aplicado um dos mandamentos da nomenclatura blgara: Tomamos o poder pelo sangue, s pelo sangue o cederemos. Na Albnia, alguns dirigentes comunistas foram condenados por... utilizao abusiva dos bens pblicos e infrao  igualdade dos cidados, entre eles a viva de Enver Hoxha, condenada ali anos de priso. Na Tchecoslovquia, Miroslav Stepan, membro da direo e secretrio do PCT para Praga, foi condenado em 1991 a dois anos de priso como responsvel pelas violncias cometidas contra a manifestao de 17 de novembro de 1989. Vrios processos foram finalmente abertos contra os dirigentes da RDA, sendo o mais recente o do seu ltimo presidente, Egon Krenz, em agosto de 1997. Condenado a seis anos e meio de priso efetiva, ele foi posto em liberdade enquanto espera o resultado de um recurso. Alguns processos continuam em aberto, como, na Polnia, o que diz respeito  responsabilidade do general Jaruzelski durante o estado de stio em dezembro de 1981 ou o dos dirigentes tchecos que teriam convidado os ocupantes em agosto de 1968.
	A justia ps-comunista instaurou vrios processos contra os funcionrios do aparelho -de segurana, diretamente implicado nos crimes. Um dos mais interessantes  talvez o processo polons, visando Adam Humer e os seus 11 co-acusados, oficiais do UB (Urzad Bezpieczenstwa, Departamento de Segurana), por crimes na represso da oposio ao regime no final dos anos 40 e incio dos anos 50; Adam Humer era, na poca, coronel, vice-diretor do departamento de investigao do Ministrio da Segurana Pblica at 1954. Esses crimes foram efetivamente qualificados de crimes contra a humanidade, os nicos que, segundo a legislao, nunca prescrevem. No final desse processo, que durou dois anos e meio, o antigo coronel foi condenado a nove anos de priso em 8 de maro de 1996. Na Hungria, os autores do tiroteio de 8 dezembro de 1956 em Salgotarjan, uma cidade industrial a nordeste de Budapeste, foram condenados em janeiro de 1995 por crimes contra a humanidade. No entanto, a sentena do Supremo Tribunal de janeiro de 1997 decide que a partir de 4 de novembro de 1956, e devido  interveno ilegal das foras soviticas, houve estado de guerra entre os dois pases e que esses atos devem ser qualificados como atos de guerra contra civis e no crimes contra a humanidade.
	
	De que modo a Repblica Tcheca gere os crimes do comunismo

	Entre os pases do antigo bloco sovitico, a Repblica Tcheca ocupa um lugar original na gesto do seu passado comunista.  o nico pas - ainda no contexto da antiga Repblica Federativa Tcheca e Eslovaca - a ter adotado leis sobre a restituio dos bens confiscados pelo poder aps 25 de fevereiro de 1948 e sobre a reabilitao macia dos condenados; em 1994, os tribunais de distrito e de regio reabilitaram cerca de 220 mil pessoas.  tambm o nico pas a ter adotado uma lei, muitas vezes contestada tanto no interior como no exterior, sobre as purificaes, limitando o acesso  funo pblica; essa lei exigiu a verificao do passado pessoal, com base em pesquisas nos registros dos colaboradores da polcia poltica.  tambm o nico pas que se dotou de um organismo especial para pesquisar os abusos do antigo regime: o Gabinete de Documentao e Investigao para os Crimes do Comunismo. Esse rgo faz parte integrante do Gabinete de Investigao da Polcia da Repblica Tcheca e tem plenos poderes para investigar e levar a tribunal, mas tambm recolher documentao sobre todos os crimes para o perodo compreendido entre 1948 e 1989. Tal tarefa est entregue a cerca de 90 pessoas. O Gabinete intervm como rgo legal no processo judicial e cabe-lhe investigar cada delito, juntar provas e enviar o dossi para o tribunal com um pedido de acusao. Em 1997, 98 pessoas foram levadas a tribunal depois da investigao por parte desse organismo, e o procurador da Repblica entregou um ato de acusao contra 20 pessoas, cinco das quais compareceram perante os tribunais, e uma s - um antigo responsvel do inqurito na Segurana de Estado - foi condenada a cinco anos de priso efetiva. O prazo de prescrio dos delitos investigados expira em 29 de dezembro de 1999.
	O atual diretor do Gabinete, Vaclav Benda, matemtico de formao, opositor nos anos 70 e 80, passou quatro anos na priso; hoje, senador democrata-cristo, expressou numa entrevista recente a sua posio sobre os crimes comunistas - crimes contra a humanidade: A imprescritibilidade dos crimes contra a humanidade existe na nossa legislao, mas resta saber a que crimes do comunismo pode ser aplicada. No podemos definir automaticamente todos os crimes comunistas como crimes contra a humanidade. Por outro lado, esse compromisso internacional [sobre a imprescritibilidade] foi assumido pela Tchecoslovquia em 1974, e os pontos de vista jurdicos, sobre a questo de saber se  possvel considerar os crimes cometidos antes dessa data como passveis de cair sob a alada da imprescritibilidade, so divergentes.  
	Pavel Rychetsky, vice-primeiro-ministro do Governo Federal em 1991-1992, responsvel por essa legislao, atualmente senador eleito nas listas dos social-democratas e presidente da Comisso Legislativa do Senado tcheco, declarou-nos em junho de 1997: Na Repblica Tcheca, todos sentimos a necessidade de que se realizem processos, no para ver castigar velhos, mas para tornar pblico tudo o que se passou - numa espcie de catarse. Mas isso j foi feito para a maioria dos casos, e no podemos saber de nada mais horrvel do que aquilo que j sabemos. O genocdio, crime contra a humanidade,  evidentemente imprescritvel. Mas no se pode qualificar como tal nenhum crime comunista na Tchecoslovquia, pois no conseguiremos nunca provar que se tratava de atos correspondentes a essa definio. Na Unio Sovitica houve sem dvida crimes de genocdio contra grupos tnicos ou outros grupos da populao claramente circunscritos: cossacos, chechenos, etc. No entanto esse crime no  punvel, uma vez que no estava nos termos da lei em vigor, no momento em que foi cometido.
	Esses exemplos - poderamos, alis, citar outros - nos levam a constatar que numerosos crimes continuam impunes, cobertos pela prescrio, ausncia de testemunhas ou de provas. Uma vez depurada, a justia tornou-se independente do poder executivo e assegura o respeito pelos princpios dos pases civilizados, como se diz. Assim, o princpio da prescrio e o princpio da no-retroatividade da lei - s  possvel punir atos que eram abrangidos pelas leis da poca em que foram cometidos. Em vrios pases, a legislao foi modificada para que certos crimes pudessem ser julgados. Na Polnia, a lei de 4 de abril de 1991 alterou uma lei de abril de 1984, sobre a Comisso Principal das Investigaes sobre os Crimes Hitlerianos e o Instituto da Memria Nacional. A nova lei coloca o comunismo no mesmo nvel dos ocupantes e dos fascistas, introduzindo a noo de crimes stalinistas, que so definidos deste modo: Os crimes stalinistas, no sentdo da lei, cobrem os atentados contra indivduos ou grupos humanos, cometidos pelas autoridades do poder comunista ou por ele inspirados ou tolerados no perodo at 31 de dezembro de 1956. Esses crimes no prescrevem. Em 1995, os artigos do Cdigo Penal sobre a prescrio foram modificados, e os crimes mais graves, cometidos contra as liberdades cvicas antes de 31 de dezembro de 1989, podem ser julgados num prazo de 30 anos a partir de 19 de janeiro de 1990. Na Repblica Tcheca, a lei sobre a ilegitimidade do regime comunista e a resistncia face a ele, adotada em 1993, prolonga at ao fim de 1999 o prazo de prescrio para crimes cometidos entre 1948 e 1989 que possam ser classificados como polticos.
	A gesto do passado, como se v,  complexa. Seja-me permitido terminar num registro mais pessoal. Em minha opinio, o castigo dos culpados no foi aplicado a tempo, de maneira adequada. Apesar do empenho de alguns, entre os quais me incluo, no foi possvel introduzir na Tchecoslovquia qualquer coisa de semelhante  acusao de indignidade nacional, punida com a degradao nacional - como aconteceu na Frana no ps-guerra. No entanto, a maneira como os alemes abriram os arquivos da Stasi, a polcia poltica da RDA, a todos os cidados que se sintam atingidos, parece-me judiciosa. Ela d responsabilidade, e cada um  convidado a investigar o seu prprio processo - o teu marido era informante, agora j sabes,  contigo... A ferida, apesar de tudo, continua aberta.

	BIBLIOGRAFIA SELECIONADA 
	(No referimos as obras citadas nas notas e nos quadros)

	- Karel Kaplan, Dam ls archives du Comit Central- Trente ans de secrets du bloc sovitique, Paris, Albin Michel, 1978.
	- Georges Mink, Vida e Morte do Bloco Sovitico, Florena, Casterman-Giunti, 1997.
	- Karel Bartosek, Ls Aveux ds Archives Prague-Paris-Prague, 1948-1968, Paris, L Seuil, 1996.
	- Antoine Mars (sob a direo de), Histoire et Pouvoir en Europe Mdiane, Paris, LHarmattan, 1996.
	- Vladimir Tismaneanu, Fantoma lui Gheorghiu-Dej, Bucareste, Editura Univers, 1995.
	- Antonia Bernard, Petite Histoire de Ia Slovnie, Otto Urban, Petite Histoire ds Pays Tchques, Liptak Lubomir, Petite Histoire da Ia Slovaquie, Paris, d. de 1'Institut d'tudes slaves, 1996.
	- Vincent Savarius, Volontairespour Ia Potence, Paris, dossiers ds Lettres nouvelles, Julliard, 1963.
	- La Nouvelle Alternative, revista trimestral, dossiers Ls regimes postcommunistes et Ia mmoire du temps prsent (n 32, 1993); La justice du postcommunis-me (n 35,1994); Mmoire ds guerres et ds rsistances en Tchcoslovaquie, en Europe centrale et en France (n0. 37 et 38, 1995).
	
	QUARTA PARTE

	COMUNISMOS DA SIA: ENTRE "REEDUCAO" E MASSACRE
	A China, o Vietn, o Laos e o Camboja por Jean-Louis Margolin
	A Coreia do Norte por Pierre Rigoulot

	A Jean Pasqualini, morto em 9 de outubro de 1997, que revelou ao mundo os horrores do sistema concentraconro chins.

	Relativamente aos comunismos europeus, os da sia apresentam trs especificidades primordiais. Com exceo da Coreia do Norte, ocupada pelos soviticos em agosto de 1945, eles nasceram essencialmente dos seus prprios esforos, o que lhes deu (incluindo Pyongyang, devido  guerra da Coreia) a capacidade de construrem sistemas polticos independentes, enxertando um passado prprio com o marxismo-leninismo de origem sovitica, e fortemente marcados por uma vertente nacionalista; o Laos constitui uma semi-exce-o, haja vista a sua evidente inferioridade em face do "grande irmo" vietnamita. Em segundo lugar, eles continuam no poder, neste momento em que escrevemos  at mesmo no Camboja , ao preo de grandes concesses. O que significa  e  esta a terceira especificidade  que os arquivos essenciais no foram ainda abertos, com exceo daqueles relativos ao perodo Pol Pot, no Camboja  e mesmo esses permanecem largamente inexplorados , e dos do Komintern, em Moscou, que infelizmente se calam antes da chegada ao poder de qualquer dos comunismos asiticos.
	O conhecimento sobre esses regimes e sobre seu passado, no entanto, progrediu muito ao longo da ltima dcada. Por um lado,  agora relativamente fcil visitar a China, o Vietn, o Laos ou o Camboja, percorrer esses pases e a realizar pesquisas. Por outro, outras fontes importantes esto doravante disponveis (j o estavam para certos interessados): meios de comunicao oficiais (incluindo escutas radiossintetizadas por diversos organismos ocidentais), e particularmente a imprensa regional, memrias publicadas de antigos dirigentes, testemunhos escritos de refugiados no estrangeiro, testemunhos orais recolhidos localmente  na sia, os grandes dramas no so assim to antigos. Por razes de poltica interna, as autoridades de Phnom Penh encorajam at as crticas ao perodo Pol Pot, enquanto as de Pequim estimulam a denncia dos horrores da Revoluo Cultural. Mas os debates no mais alto nvel permanecem inacessveis: continuamos a no saber como e por que morreu, em 1971, o "sucessor designado" de Mo, o marechal Lin Biao. Essa abertura seletiva teve efeitos perversos: dispomos de relatos extraordinrios e de algumas boas monografias locais e setoriais sobre a Revoluo Cultural, mas as intenes de Mo continuam a ser um mistrio, e sobretudo os expurgos dos anos 50 (na China e no Vietn) ou o Grande Salto Adiante so ainda muito pouco estudados: haveria o risco de pr em causa os prprios fundamentos dos regimes ainda instalados. O que se passa nos maiores e mais assas sinos campos de concentrao da China, no oeste do pas, continua praticamente ignorado. Globalmente, conhecemos muito melhor a sorte dos quadros comunistas e dos intelectuais reprimidos do que a da "gente do povo", que constitui a grande massa das vtimas: no  fcil evitar a iluso de tica. Acrescentemos que a Coreia do Norte, ltimo verdadeiro comunismo "duro", permanece obstinadamente fechada, e que, at muito recentemente, eram muito poucos os que conseguiam de l fugir. Os desenvolvimentos que se seguem tero sempre, inevitavelmente, o carter de primeiras abordagens, muito incertas, inclusive no que concerne aos dados bsicos, como o nmero de vtimas. Contudo, os objetivos e os mtodos dos sistemas comunistas do Extremo Oriente no do lugar a grandes dvidas...

	l. China: uma longa marcha na noite

	"Depois do aniquilamento dos inimigos armados, haver ainda os inimigos no armados; estes lutaro contra ns numa batalha de morte; no devemos nunca subestim-los. Se o problema no for colocado ou compreendido desde j nestes termos, cometeremos os mais graves erros."
	Mo Zedong1

	A represso na China comunista foi uma rplica das prticas do "Irmo Mais Velho" - a URSS de um Stalin, cujo retrato estava ainda em evidncia em Pequim2 no incio dos anos 80? No, se levarmos em conta a quase-ausncia de expurgos assassinos no interior do Partido Comunista ou a relativa discrio da polcia poltica - no obstante o peso, nos bastidores, de seu chefe, Kang Sheng, desde os tempos da resistncia em Yan'an, nos anos 40, at a sua morte, em 1975. Mas sim, seguramente, se considerarmos - sem contar com a guerra civil  todas as mortes violentas atribuveis ao regime: apesar da ausncia de qualquer contabilizao minimamente confivel, estimativas srias apontam para algo entre seis e dez milhes o nmero de vtimas diretas, incluindo centenas de milhares de tibetanos; alm disso, dezenas de milhes de "contra-revolucionrios" passaram longos perodos das suas vidas no sistema penitencirio, onde talvez 20 milhes tenham perecido. Sim, ainda mais definitivamente, se incluirmos os "mortos a mais", contando entre 20 e 43 milhes, dos anos 1959-1961, aqueles do indevidamente chamado "Grande Salto Adiante", vtimas de uma fome inteiramente provocada pelos projetos aberrantes de um homem, Mo Zedong, e mais ainda, em seguida, pela obstinao criminosa com que ele se recusou a reconhecer o erro e aceitar que se tomassem medidas para minorar os efeitos desastrosos da sua poltica. Sim, finalmente, se observarmos os nmeros de um quase-genocdio no Tibet: provavelmente, entre 10% e 20% dos habitantes do "teto do mundo" pereceram em consequncia da ocupao chinesa. A surpresa muito sincera de um Deng Xiaoping, ao observar que a chacina da Praa Tiaranmen, em junho de 1989 (talvez um milhar de mortos), era evidentemente insignificante  escala do que a China tinha conhecido num passado muito recente, constitua, a contrario, uma forma de confisso.  nem sequer se pode argumentar que esses massacres foram a triste consequncia de uma guerra civil atroz (pois ela foi de fato de pequenas propores, e o regime estava solidamente instalado em 1950), a simples continuao de uma histria sinistra: se excetuarmos a ocupao japonesa (que, de resto, no provocou qualquer fome generalizada),  preciso recuar at o incio da segunda metade do sculo XIX para encontrar matanas e fomes de uma amplitude minimamente comparvel. Elas no tiveram nem a generalidade nem o carter sistemtico e planificado das atrocidades maostas; no entanto, esse momento da histria da China foi excepcionalmente dramtico.
	O exame do comunismo chins  duplamente importante. Em 1949, o regime de Pequim governava cerca de dois teros da humanidade situada sob a bandeira vermelha. Depois do desaparecimento da URSS (1991) e da desco-munizao do Leste Europeu, essa proporo subiu para nove dcimos;  mais do que evidente que a sorte dos farrapos dispersos do "socialismo real" depende do futuro do comunismo na China - pas que desempenha, alis, o papel de uma "segunda Roma" do marxismo-leninismo, sobretudo depois da ruptura sino-sovitica de 1960, mas de fato desde o perodo de instalao da "zona liberada" de Yaran (1935-1947), depois da Longa Marcha: era l que os comunistas coreanos, japoneses e por vezes vietnamitas iam procurar refugio e abastecimento. Se o regime de Kim II Sung  anterior ao triunfo do Partido Comunista Chins (PCC) e deveu sua existncia  ocupao sovitica, ele s sobreviveu durante a Guerra da Coreia graas  interveno (novembro de 1950) de um milho de "voluntrios" chineses armados. As modalidades da represso na Coreia do Norte devem muito ao "modelo" stalinista, mas do maosmo (que desde Yaran se confunde totalmente com o comunismo chins) de Pyongyang reteve a "linha de massa" (enquadramento e mobilizao extremamente intensos e constantes da totalidade da populao) e a sua consequncia lgica: a insistncia na "educao permanente" como principal meio de controle social.
	Kim parafraseia Mo quando afirma: "A linha de massa consiste em defender ativamente os interesses das massas trabalhadoras, em educ-las e reeduc-las para congreg-las em torno do Partido, em contar com a sua fora e mobiliz-las para a realizao das tarefas revolucionrias." 
	A influncia chinesa  ainda mais evidente nos regimes comunistas asiticos posteriores a 1949. Desde a publicao das Memrias do dirigente vietnamita Hoang Van Hoan, morto em Pequim,5 sabemos que, a partir de 1950 e at os acordos de Genebra (1954), numerosos conselheiros chineses dirigiam as tropas e a administrao do Viet-minh, e que cerca de 30 mil soldados, na maior parte ligados  engenharia militar, vindos de Pequim, asseguraram, entre 1965 e 1970, a substituio das tropas norte-vietnamitas que tinham ido combater para o Sul. O general Vo Nguyen Giap, vencedor de Dien Bien Phu, reconheceu indiretamente, em 1964, a contribuio chinesa: "A partir de 1950, depois da vitria chinesa, o nosso exrcito e o nosso povo tiveram oportunidade de aprender lies preciosas com o Exrcito de Libertao do Povo Chins. Ns pudemos nos educar graas ao pensamento militar de Mo Zedong. Esse foi o fator importante que determinou a maturidade do nosso exrcito e contribuiu para as nossas sucessivas vitrias." Por sua vez, o Partido Comunista Vietnamita (PCV, na poca chamado Partido do Trabalho) inscreveu nos seus estatutos, em 1951: "O Partido do Trabalho reconhece a teoria de Marx, Engels, Lenin e Stalin, e o pensamento de Mo Zedong, adaptado  realidade da Revoluo Vietnamita, como o fundamento terico do seu prprio pensamento e como a bssola que lhe indica a dire-o em todas as suas atividades."? Linha de massa e reeducao foram as duas diretivas em torno das quais se organizou o sistema poltico vietnamita. O cheng feng (reforma do estilo de trabalho"), forjado em Yan'an, presidiu, sob a sua transcrio vietnamita (chinh huan), aos ferozes expurgos de meados dos anos 50. Quanto ao Camboja dos Khmers Vermelhos (1975-1979), tambm ele recebeu uma fortssima ajuda de Pequim, e tentou ter xito onde o prprio Mo fracassara, retomando em particular o mito voluntarista do Grande Salto Adiante. Todos esses regimes, como o de Mo, foram fortemente marcados pela sua origem guerreira (menos sensvel na Coreia do Norte, ainda que Kim tenha vaidosamente se atribudo proezas como guerrilheiro antijapons), prolongada por uma militarizao permanente da sociedade (menos sensvel na China, que no  uma "linha de frente").  notvel que a funo central exercida pela polcia poltica no sistema sovitico fica aqui sob a responsabilidade do exrcito, por vezes diretamente encarregado do trabalho de represso.
Uma tradio de violncia?
	Enquanto foi vivo, Mo Zedong mereceu frequentemente, pela sua oni-potncia, a alcunha de "imperador vermelho". O que hoje sabemos sobre o seu carter caprichoso e ferozmente egocntrico, sobre as suas vinganas assassinas e sobre a vida de devassido prolongada at os ltimos dias,9 torna fcil a sua assimilao aos dspotas que reinaram no Imprio do Centro. E, no entanto, a violncia erigida como um sistema de reinado contemporneo ultrapassa em muito uma tradio nacional que era na verdade liberal.
	No que a China no tenha conhecido, em vrias ocasies, erupes sangrentas. Esses episdios utilizaram geralmente, como em outras partes do mundo, o vetor da religio, aqui inseparvel de uma certa Weltanschauung, viso global do universo. O que separa as duas grandes tradies chinesas  o confucionismo e o taosmo  so menos divergncias tericas, oposies termo a termo, do que a insistncia, do lado de Confiicio, na sociedade e no racional, e, do lado de Lao-tseu, promotor do To, no indivduo e no intuitivo, no sensvel, e mesmo no irracional. Ora, todo chins, ou quase, traz em si, diversamente dosadas, estas duas faces da sinidade. Ocasionalmente, nos momentos de crise, entre os mais deserdados, os mais desorientados, a segunda impe-se totalmente e lana-se ao assalto do bastio da primeira: a pirmide dos letrados, ou, em outras palavras, o Estado. Foram inmeras as insurreies inspiradas por seitas apocalpticas e messinicas: Turbantes Amarelos em 184, revolta matresta de Faqing em 515, rebelio maniquesta10 de Fang La em 1120, Lotus Branco em 1351, Oito Trigramas em 1813, etc. A mensagem desses movimentos  bastante similar; sincretiza taosmo e budismo popular, apresentando frequentemente Matreia, Buda do futuro cujo advento luminoso e redentor, iminente, deve realizar-se na catstrofe universal do "velho mundo". Os fiis, elite escolhida, devem ajudar a realizao da profecia e depositam nessa realizao as suas esperanas de salvao. Todos os laos contingentes devem ser quebrados, incluindo os familiares: segundo a crnica da dinastia Wei, em 515, "os pais, os filhos e os irmos no se reconhecem mais uns aos outros."
	Ora, na China, o conjunto da moralidade baseia-se no respeito pelas obrigaes familiares: se estas so rejeitadas, tudo  permitido. O indivduo submete-se totalmente  famlia de substituio que a seita passa a ser ento. O resto da humanidade est condenado ao inferno no Alm - e  morte violenta neste mundo. Por vezes (como em 402), os funcionrios do Estado so cortados em pedaos, e se as respectivas mulheres e filhos se recusam a devor-los, so por sua vez esquartejados; em 1120, a matana parece ter se estendido a milhes de pessoas.!3 Todos os valores so invertidos: segundo uma proclamao de 1130, "matar pessoas  cumprir o dharma (lei bdica)";14 o assassinato  um ato de compaixo, uma vez que liberta o esprito; o roubo favorece a igualdade; o suicdio  uma felicidade invejvel; quanto mais horrvel for a prpria morte, maior ser a sua recompensa: segundo um texto do sculo XDC, "a morte por esquartejamento lento assegurar a entrada no Cu em veste escarlate".^ Torna-se difcil no comparar, sob certos aspectos, esses cruis milenarismos com os movimentos revolucionrios asiticos do nosso sculo. Eles no so suficientes para explicar muitas das caractersticas desses movimentos revolucionrios, mas ajudam a compreender por que razo alguns triunfaram e por que a violncia que os acompanhou pde, em dado momento, parecer normal, quase banal, aos olhos de muita gente.
	As salvaguardas so, todavia, poderosas e explicam que, no final das contas, s muito raramente a ordem tenha sido perturbada: os visitantes europeus da Idade Mdia, e at os do Iluminismo, ficaram extraordinariamente impressionados, e seduzidos, pela Grande Paz emblemtica do velho imprio. O confucionismo, doutrina oficial ensinada at nos rinces mais distantes das cidades, fazia da Benevolncia a virtude cardeal do soberano e pretendia moldar o Estado pela famlia. Aquilo que podemos sem anacronismo designar como princpios humanistas reprova o recurso ao assassinato e valoriza a vida humana. E isso desde os tempos mais remotos. Para nos limitarmos a pensadores considerados cannicos ao longo de 21 sculos de imprio, evocaremos em primeiro lugar o filsofo chins Mo Ti (479-381 a.C., aproximadamente), que condena a guerra de agresso da seguinte maneira: "Se o homicdio simples  considerado um crime, enquanto o homicdio mltiplo, como o que consiste em atacar outro pas,  louvado como uma boa ao, podemos dizer que isso  saber distinguir o bem do mal?"'6 Na famosa obra A Arte da Guerra, de Sun Tzu (cerca de 500 a.C.), pode-se ler: "A guerra  semelhante ao fogo; aqueles que se recusam a depor as armas perecem pelas armas."? Convm combater com parcimnia, o menos tempo possvel e derramando o menos sangue possvel: "Nunca se viu que uma guerra prolongada beneficiasse qualquer pas... conseguir cem vitrias em cem batalhas no  o cmulo da eficincia... Aquele que sabe verdadeiramente vencer os seus inimigos triunfa antes que as ameaas destes ltimos se concretizem." Poupar as prprias foras  essencial, mas tambm no se deve chegar ao extermnio do adversrio: "Capturar o exrcito inimigo  melhor do que destru-lo... Que no se encoraje o assassinato." Devemos ver nessa proposio menos uma proclamao moral do que uma considerao de convenincia: as chacinas e as atrocidades provocam o dio e a energia do desespero no adversrio, que pode beneficiar-se desse fato para inverter a situao a seu favor. De resto, para o vencedor, "a melhor poltica  tomar o Estado intacto; aniquil-lo  um recurso a ser evitado".
	Raciocnio tpico da grande tradio chinesa (muito particularmente ilustrada pelo confucionismo): os princpios ticos no decorrem de uma viso transcendental, mas de um pragmatismo ligado  harmonia e  eficcia do funcionamento social. O que, sem dvida, s lhes d mais eficcia. E o outro "pragmatismo", o dos legistas - contemporneo de Confcio e de Sun Tzu, mas que insiste, ao contrrio, na necessidade de o Estado afirmar o seu poder absoluto atravs da terrorizao da sociedade , prova a sua ineficincia fundamental para fazer funcionar essa mesma sociedade na sua hora de glria: a curta dinastia Qin, do sculo III a.C. Embora as coisas possam variar enor-memente de um reinado para o outro, este tipo de arbitrariedade tende a diminuir, sobretudo a partir da dinastia Song do Norte (960-1127): o exlio para uma regio longnqua - que no exclui o regresso s boas graas da hierarquia  torna-se o castigo mais frequente para o funcionrio faltoso. No tempo dos Tang, em 654, havia sido promulgado um cdigo penal mais humano, que atribua uma maior importncia tanto  inteno quanto ao arrependimento, e suprimia a responsabilidade familiar automtica em caso de rebelio; o processo que precedia a aplicao da pena capital tornou-se mais complexo e mais demorado, ao mesmo tempo em que certas punies mais horrveis eram abolidas; institua-se igualmente um sistema de apelo. 
	A violncia do Estado aparece, no seu conjunto, limitada e controlada. A historiografia chinesa horroriza-se com o caso dos 460 letrados e administradores enterrados vivos pelo "primeiro imperador", Qin Shi (221-210 a.C.). Esse soberano - que Mo, lcido no seu cinismo, escolheu especificamente como modelo - mandou igualmente queimar toda a literatura clssica (e o simples fato de evoc-la era passvel da pena capital), condenou  morte ou deportou cerca de 20.000 membros da pequena aristocracia rural e sacrificou dezenas, seno centenas de milhares de vidas na construo da primeira Grande Muralha. Com a dinastia dos Han (206 a.C.-220 d.C.), diferentemente, o confucionismo retorna com toda a fora, e o imprio no voltar a conhecer tiranias semelhantes nem matanas to frequentes. A ordem  rigorosa, a justia severa, mas, excetuando as pocas (infelizmente bastante numerosas) de grandes insurreies ou de invases estrangeiras, a vida humana passa a ter mais garantias do que na maioria dos outros Estados antigos, incluindo aqueles da Europa medieval ou moderna.
	 certo que cerca de trs centenas de delitos eram passveis da pena de morte durante a pacfica dinastia Song, no sculo XII, mas cada execuo devia em princpio ser examinada e confirmada pelo imperador. As guerras consumiam normalmente centenas de milhares de vidas, e a mortalidade final era decuplicada pelo efeito das epidemias, das fomes, das cheias (lembremos os catastrficos desvios do curso inferior - represado - do rio Amarelo) e da desorganizao dos transportes que os conflitos provocavam. A revolta dos Taiping e a sua represso (18511868) foram assim responsveis por um nmero de mortos entre vinte e cem milhes, tendo, em todo o caso, a populao chinesa decado, de 410 milhes, em 1850, para 350 milhes, em 1873. Mas s uma nfima parte dessas vtimas pode considerar-se como tendo sido efetivamente, intencionalmente, chacinada (cerca de um milho, sem dvida, pelos Taiping). Tratava-se ento de um perodo excepcionalmente agitado, marcado por numerosas rebelies, por agresses repetidas dos impe-rialismos ocidentais e pelo desespero crescente de uma populao depauperada. Foi, infelizmente, num contexto semelhante que viveram as duas, trs ou quatro geraes que precederam os revolucionrios comunistas, acostumando-as a um nvel de violncia e de desintegrao dos valores inusitado na longa histria chinesa.
	E todavia a China da primeira metade do sculo XX no anunciava, nem em quantidade nem em modalidades, os excessos do maosmo triunfante. Se a revoluo de 1911 foi pouco dramtica, os 16 anos que se seguiram, antes da semi-estabilizao imposta pelo regime do Kuomintang, conheceram um certo nmero de matanas. Foi, por exemplo, o caso desse foco revolucionrio que era Nanquim, onde, de julho de 1913 a julho de 1914, o ditador Yuan Shikai mandou executar vrios milhares de pessoas.24 Em junho de 1925, a polcia das concesses estrangeiras de Canto matou 52 participantes de uma manifestao operria. Em maio de 1926, em Pequim, 47 estudantes morreram durante uma manifestao pacfica antijaponesa. Sobretudo, em abril/maio de 1927, primeiro em Xangai e depois nas outras grandes cidades do Leste, milhares de comunistas foram executados pela original coligao que unia o chefe do novo regime, Chiang Kai-shek, e as sociedades secretas do submundo local. A Condio Humana, de Andr Malraux, evoca o carter atroz de certas execues, na caldeira de uma locomotiva. No parece que os primeiros episdios da guerra civil que ops os comunistas aos nacionalistas tenham sido acompanhados por matanas de grande amplitude, tal como a Longa Marcha (1934-1935); ao contrrio dos japoneses, que cometeram, entre 1937 e 1945, inmeras atrocidades na vasta poro da China que ocupavam.
	Bem mais assassinas do que a maior parte destes atos foram as fomes de 1900,1920-1921 e 1928-1930. Todas elas atingiram o norte e/ou o noroeste do pas, regies mais sensveis  seca: a segunda causou a morte de meio milho de pessoas, a terceira de dois a trs milhes. Mas, embora a segunda tenha estado ligada  desorganizao dos transportes provocada pelas guerras civis, no se pode dizer que tenha havido qualquer "conspirao de fome", e no se pode, ento, falar de chacina. O mesmo no acontece com o caso do Henan, onde, em 1942-1943, de dois a trs milhes de pessoas morreram de fome (ou seja, 5% da populao), tendo sido registrados atos de canibalismo.
	Apesar de as colheitas terem sido desastrosas, o governo central de Chongqing no concedeu qualquer reduo de impostos, e numerosos camponeses viram todos os seus bens serem confiscados. A presena da frente de combate contribuiu para tornar as coisas ainda piores: os camponeses estavam submetidos, sem salrio, a trabalhos obrigatrios, como cavar um fosso antitanque com 500 quilmetros de comprimento, que se revelou completa-mente intil. Foi como que uma prefigurao de certos erros do Grande Salto Adiante, ainda que a guerra pudesse, no caso de Henan, constituir uma desculpa parcial. De qualquer modo, o ressentimento dos camponeses foi enorme.
	As atrocidades mais numerosas e, consideradas em conjunto, seguramente mais assassinas ocorreram sem alarde e deixaram poucos vestgios: tratava-se de pobres (ou semipobres) que lutavam contra outros pobres, afastados dos grandes eixos, no oceano da China dos povoados. Entre esses assassinos de baixo coturno contavam-se os salteadores que, formando por vezes bandos temveis, pilhavam, saqueavam, espoliavam, sequestravam e matavam os que lhes resistiam ou os refns que fugiam, se os respectivos resgates tardavam. Quando esses homens eram apanhados, os camponeses gostavam de participar ativamente nas execues... Mas os soldados representavam frequentemente um flagelo ainda maior do que os bandidos que deviam combater: uma petio oriunda de Fujian solicitava, em 1932, a retirada das foras ditas da ordem, "de modo que tenhamos de combater apenas os bandidos". Na mesma provncia, em 1931, a maioria de uma fora militar composta por 2.500 soldados que haviam excedido todos os limites em matria de violaes e pilhagens acabou por ser exterminada pelos camponeses revoltados. Em 1926, os camponeses do oeste do Hunan, passando-se por membros da sociedade secreta dos Lanas Vermelhas, desembaraaram-se da mesma maneira, segundo se diz, de meia centena de milhares de "soldados-bandidos" que pertenciam a um senhor da guerra vencido. Quando, em 1944, na mesma regio, os japoneses passaram  ofensiva, os camponeses, que se recordavam dos mortferos trabalhos obrigatrios do ano anterior, perseguiram os militares derrotados, chegando por vezes a enterr-los vivos; morreram cerca de 50.000. E, no entanto, os soldados no passavam de pobres diabos, camponeses como os seus carrascos, vtimas desafortunadas e aterrorizadas por um alistamento militar que, segundo o general americano Wedemeyer, se abatia sobre os aldeos como a fome ou a cheia, e fazia ainda mais vtimas.
	Muitas outras revoltas, geralmente menos violentas, tinham como alvo aquilo que era sentido como exaes por parte da administrao: impostos sobre a terra, sobre o pio, sobre o lcool, sobre o abate de porcos, a corvia, os exageros de usura, os julgamentos injustos... Mas os seus piores golpes, os camponeses reservavam-nos frequentemente para outros camponeses: guerras ferozes contra outros povoados, outros cls ou sociedades secretas devastavam os campos e criavam, com a ajuda do culto dos antepassados assassinados, dios inextinguveis. Assim, em setembro de 1928, os Espadas Pequenas de um condado da regio de Jiangsu chacinaram 200 Espadas Grandes e incendiaram seis povoados. Desde o fim do sculo XDC, o leste do Guangdong estava dividido entre povoados Estandartes Negros e povoados Estandartes Vermelhos, violentamente hostis. Na mesma regio, o condado de Puning viu o cl Lin perseguir e exterminar todos os que tinham a infelicidade de usar o patronmico Ho, sem excetuar os leprosos, muitas vezes queimados vivos, e numerosos cristos. Essas lutas nunca eram polticas nem sociais: atravs delas, os pequenos nobres locais consolidavam o seu ascendente. O adversrio era frequentemente o imigrante, ou o que vivia do outro lado do rio... 

	Uma revoluo inseparvel do terror (1927-1946)
	
	E no entanto, quando, em janeiro de 1928, os habitantes de um povoado Estandarte Vermelho viram chegar uma tropa que arvorava a bandeira escarlate, juntaram-se entusiasticamente a um dos primeiros "sovietes" chineses, o de Hai-Lu-Feng, dirigido por P'eng P'ai. Os comunistas tiveram o cuidado de jogar com o equvoco, mas souberam colorir com o seu discurso os dios locais, e finalmente, aproveitando a coerncia da mensagem de que eram portadores, us-los para os seus prprios fins, concedendo aos partidrios nefitos a possibilidade de darem livre curso a seus mais cruis impulsos. Assistiu-se assim, 40 ou 50 anos antes, durante alguns meses de 1927-1928, a uma espcie de prefigurao dos piores momentos da Revoluo Cultural ou do regime Khmer Vermelho. Desde 1922 que o movimento tinha sido preparado por uma intensa agitao mantida pelos sindicatos camponeses suscitados pelo Partido Comunista, conduzindo a uma forte polarizao entre "camponeses pobres" e "proprietrios de terras" - sendo esses incansavelmente denunciados -, ainda que nem os conflitos tradicionais e nem sequer as realidades sociais permitissem dar um particular destaque a essa diviso. Mas a anulao das dvidas e a abolio dos arrendamentos asseguravam ao soviete um vasto apoio. P'eng P'ai aproveitou a circunstncia para pr em vigor um regime de "terror democrtico": o povo inteiro era convidado a assistir aos julgamentos pblicos dos "contra-revolucionrios", quase que invariavelmente condenados  morte; participava das execues, gritando "mata, mata" aos Guardas Vermelhos que tratavam de cortar a vtima pedao a pedao, que por vezes cozinhavam e comiam, ou obrigavam a famlia do supliciado - que, ainda vivo, assistia a tudo  a comer; todos eram convidados para os banquetes em que se partilhava o corao ou o fgado do antigo proprietrio, e para os comcios onde o orador discursava diante de uma fileira de estacas cada uma enfeitada com uma cabea recentemente cortada. Esse fascnio por um canibalismo de vingana, que iremos reencontrar no Camboja de Pol Pot e que responderia a um antiqussimo arqutipo largamente difundido na sia Oriental, aparece frequentemente nos momentos paroxsticos da histria chinesa. Assim, numa era de invases estrangeiras, em 613, o imperador Yang (dinastia Suei) vingou-se de um rebelde perseguindo at os seus parentes mais afastados: "Os que foram mais duramente castigados sofreram o suplcio do esquartejamento e da exposio da sua cabea espetada numa vara, ou foram desmembrados, trespassados por flechas. O imperador intimou os grandes dignitrios a comerem, pedao a pedao, a carne das vtimas. O grande escritor Lu Xun, admirador do comunismo num momento em que este no rimava com nacionalismo nem com antiocidentalismo, escreveu: "Os chineses so canibais..." Menos populares que estas orgias sangrentas eram as violncias que os Guardas Vermelhos de 1927 praticavam nos templos, contra os religiosos-feiticeiros taostas: os fiis pintavam os dolos de vermelho, tentando preserv-los, e P'eng P'ai comeava a se beneficiar dos primeiros sinais de uma divinizao. Cinquenta mil pessoas, entre as quais numerosos pobres, fugiram da regio durante os quatro meses em que o soviete a reinou. 
	P'eng P'ai (fuzilado em 1931) foi o verdadeiro promotor do comunismo rural e militarizado, soluo imediatamente recuperada pelo quadro comunista at ento um pouco marginal que era Mao Zedong (ele prprio de origem camponesa), e teorizada no seu clebre Relatrio sobre o Movimento Campons no Hunan (1927). Essa alternativa ao movimento comunista operrio e urbano, naquele momento totalmente falido devido  represso que sobre ele exercia o Kuomintang de Chiang Kai-shek, imps-se rapidamente e conduziu, em 1928,  criao da primeira "base vermelha", nos longnquos montes Jinggang, em Hunan e Jiangxi. Foi a leste dessa provncia que, em 7 de novembro de 1931 (dia do aniversrio do Outubro Russo...), a consolidao e o alargamento da principal base permitiram a proclamao de uma Repblica Chinesa dos Sovietes, cujo Conselho dos Comissrios do Povo era presidido por Mo. At a vitria de 1949, o comunismo chins conhecer numerosas metamorfoses e terrveis reveses, mas o modelo est definido: concentrar a dinmica revolucionria na construo de um Estado, e concentrar esse Estado, guerreiro por natureza, na construo de um exrcito capaz, in fine, de derrotar o exrcito e o Estado "fantoches" inimigos - no caso, o governo central de Nanquim, presidido por Chiang Kai-shek. No espanta, pois, o fato de a dimenso militar e repressiva ser primordial, e fundadora, j na prpria fase revolucionria: estamos aqui muito longe do primeiro bolchevismo russo, porm mais longe ainda do marxismo: ser atravs do bolchevismo, reduzido a uma estratgia de tomada do poder e de reforo de um Estado nacio-nal-revolucionrio, que os fundadores do PCC, e em particular a sua "cabea pensante", Li Dazhao, chegaro ao comunismo, em 1918-1919. Onde quer que o PCC triunfe,  o socialismo da caserna (e dos tribunais de exceo, e dos pelotes de fuzilamento) que se instala. P'eng P'ai, decididamente, tinha fornecido o modelo.
	Uma parte da originalidade das prticas repressivas do comunismo chins decorre de um fato que tende a passar inicialmente despercebido: o "Grande Terror" stalinista dos anos 1936-1938 foi precedido pelos sovietes chineses, responsveis, segundo certas estimativas, por 186.000 vtimas, no considerados os combates, no Jiangxi, entre 1927 e 1931. A grande maioria dessas mortes foi provocada por resistncias  reforma agrria radical quase imediatamente implementada, a um rigoroso sistema de cobrana de impostos e  mobilizao de jovens justificada pelas necessidades militares. O esgotamento da populao  tal que, onde o comunismo foi particularmente radical (Mao foi criticado, em 1931, pelos seus excessos terroristas, que alienavam o povo, e perdeu provisoriamente a direo), e onde os quadros locais se viram marginalizados (por exemplo, em torno da "capital" sovitica, Ruijin), a ofensiva das forcas de Nanquim encontra apenas uma fraca resistncia. Esta resistncia  mais viva, e por vezes vitoriosa, nas "bases" mais tardias, mais autnomas, onde os quadros aprenderam as dolorosas lies da poltica do terror. Registraram-se tenses anlogas, que o PC aprendeu todavia a regular graas a uma represso mais seletiva, menos sangrenta, na base de Shaanxi-Norte, centrada em Yan'an. A presso fiscal sobre os camponeses  terrvel: 35% das colheitas em 1941, quatro vezes mais do que nas zonas controladas pelo Kuomintang. Os membros dos povoados acabam por desejar abertamente a morte de Mo... O Partido reprime, mas faz compromisso: inicia - sem nunca o confessar - o cultivo e a exportao em grande escala de pio, que, at 1945, proporcionar entre 26% e 40% das receitas pblicas da base. 
	Como tantas vezes acontece nos regimes comunistas, as exaes de que foram vtimas os prprios militantes deixaram mais rastros: porque sabiam exprimir-se melhor, e sobretudo porque faziam parte de redes que frequentemente subsistiram. Algumas contas pendentes foram ajustadas depois de dcadas... Os quadros mais visados so quase invariavelmente aqueles que mantm laos mais estreitos com as populaes no interior das quais militam. Os seus adversrios, mais dependentes do aparelho central, os acusam de "localismo", uma atitude que, com efeito, os leva frequentemente a uma certa moderao, quando no mesmo a discutirem as instrues do partido. Mas esse conflito esconde outro: os militantes locais so com freqncia oriundos das camadas mais abastadas do campesinato, sobretudo de famlias de proprietrios de terras (que fornecem tambm a maioria dos letrados), vindos para o comunismo baseado num nacionalismo radical. Os militantes "centrais", os soldados do exrcito "regular", por seu turno, so na maior parte recrutados entre os marginais, os desqualificados: bandidos, vadios, mendigos, militares sem soldo, e, no caso das mulheres, prostitutas. Mao pensava, j em 1926, em lhes atribuir um papel importante na revoluo: "Essas pessoas so capazes de bater-se muito corajosamente; chefiadas de uma maneira adequada, podem tornar-se uma fora revolucionria. Ele mesmo no considerava a si prprio um deles quando, muito mais tarde, em 1965, se apresentou ao jornalista americano Edgar Snow como "um velho monge passeando sob as estrelas com o seu guarda-chuva esburacado"?37 O resto da populao, excetuando uma minoria de opositores resolutos (tambm eles frequentemente membros da elite), brilha sobretudo pela sua passividade, pela sua "frieza", dizem os dirigentes comunistas - incluindo esse "campesinato pobre e semi-pobre" que  suposto constituir a base da classe do PC no meio rural... Os desqualificados transformados em quadros, que devem toda a sua existncia social ao Partido, mais ou menos confusamente vidos de desforra e apoiados pelo Centro,38 tendem espontaneamente para as solues mais radicais, e, quando necessrio, para a eliminao dos quadros locais. Esse tipo de contradio continuar a explicar, depois de 1946, muitos dos excessos mais sangrentos da reforma agrria. 
	O primeiro grande expurgo documentado, em 1930-1931, assolou a base de Donggu, no norte do Jiangxi. As tenses descritas mais acima foram localmente agravadas pela intensa atividade de uma organizao poltico-poli-cial ligada  direita do Kuomintang, o Corpo AB (de "antibolchevique"), que soube cultivar suspeitas de traio entre membros do PC. Este ltimo recrutou largamente no interior das sociedades secretas. A adeso, em 1927, do chefe da sociedade dos Trs Pontos constituiu um reforo decisivo. Tudo comea com a execuo de numerosos quadros locais, aps o que o expurgo se volta para o Exrcito Vermelho: cerca de 2.000 dos seus membros so liquidados. Alguns quadros detidos conseguem evadir-se, procuram suscitar a revolta contra Mo, "imperador do Partido", so ento convidados para negociaes, novamente presos e mortos. O II Exrcito, de que uma das unidades se tinha rebelado,  desarmado at o ltimo homem, e todos os seus oficiais executados. As perseguies dizimam durante mais de um ano os quadros civis e militares; as vtimas contam-se aos milhares. Dos 19 mais altos quadros locais, alguns dos quais fundadores da base, 12 foram executados como "con-tra-revolucionrios", cinco mortos pelo Kuomintang, um morreu de doena, e o ltimo abandonou a regio e a revoluo.
	No incio da presena de Mao em Yan'an, a eliminao do fundador da base, o lendrio guerrilheiro Liu Zhidan, enquadra-se aparentemente no mesmo esquema; ela revela um aparelho central igualmente desprovido de escrpulos, porm mais racional no seu maquiavelismo. O responsvel parece, neste caso, ter sido o "bolchevique" Wang Ming, "homem de Moscou" ainda no marginalizado dentro da direo e que pretende usurpar o controle das tropas de Liu. Este ltimo, confiante, aceita ser detido; torturado, no confessa a sua "traio"; os seus principais partidrios so ento enterrados vivos. Zhou Enlai, adversrio de Wang Ming, consegue a sua libertao, mas Liu insiste em conservar a autonomia do seu comando e  declarado "direitista empedernido". Enviado para a frente, morre em combate, talvez com uma bala nas costas... 
	O mais clebre dos expurgos do perodo anterior a 1949 comeou por atingir os mais brilhantes intelectuais comunistas de Yan'an, em junho de 1942. Como voltar a fazer 15 anos mais tarde, desta vez  escala do pas inteiro, Mao comea por autorizar, durante dois meses, uma grande liberdade de crtica. Depois, subitamente, todos os militantes so "convidados" a "lutar", atravs de uma infinidade de comcios, contra Ding Ling, que tinha denunciado o formalismo da apregoada igualdade entre homens e mulheres, e contra Wang Shiwei, que tinha ousado reivindicar a liberdade de criao e de crtica ao poder para os artistas. Ding cede, aceita uma abjeta autocrtica e ataca Wang, que, por sua vez, no cede. Expulso do PC,  preso, sendo executado quando da evacuao provisria de Yan'an, em 1947. O dogma da submisso do intelectual ao poltico, desenvolvido em fevereiro de 1942 em Conversas sobre a Arte e a Literatura, do presidente do Partido, tem a partir de ento o valor de lei. As sesses de chengfmg multiplicam-se, at a submisso total.  no incio de julho de 1943 que o expurgo ganha novo impulso, se amplia e se torna mortfero. O devoto incondicional dessa "Campanha de Salvamento", supostamente destinada a proteger os militantes contra as suas prprias insuficincias, suas prprias dvidas ocultas,  o membro do Bureau Poltico Kang Sheng, posto por Mo, em junho de 1942,  frente de um indito Comit Geral de Estudos, que tem a funo de supervisionar a Retificao. Esta "sombra negra", vestida de couro preto, montando um cavalo preto, acompanhada por um feroz co preto, formada na escola do NKVD sovitico, soube organizar a primeira verdadeira "campanha de massas" da China comunista: crticas e autocrticas generalizadas, detenes seletivas conduzindo a confisses que permitem novas detenes, humilhaes pblicas, espancamentos, elevao do pensamento de Mo, decretado infalvel,  condio de nico ponto de apoio garantido. Durante um comcio, Kang Sheng aponta para o pblico e declara: "Todos vocs so agentes do Kuomintang... O processo da sua reeducao ser ainda bastante longo." As prises, a tortura, as mortes (60, muitas por suicdio, s no Centro) se espalham ao ponto de inquietarem a direo do Partido, apesar de Mao ter afirmado que "os espies eram to numerosos como os plos num co". No dia 15 de agosto, os "mtodos ilegais" de represso so proibidos, e, no dia 9 de outubro, como sabemos hoje, Mao tem uma sbita mudana de atitude e proclama: "No devemos matar seja quem for; a maioria no devia sequer ter sido presa." A campanha  ento definitivamente interrompida. Em dezembro, numa autocrtica de fato, Kang Sheng foi obrigado a reconhecer que, entre os detidos, apenas 10% eram culpados, e que os mortos deviam ser publicamente reconhecidos como inocentes. A sua carreira estagnar at a ecloso da Revoluo Cultural, em 1966, e Mo, diante de uma assembleia de altos quadros, em abril de 1944, ter de desculpar-se e inclinar-se trs vezes numa homenagem  memria das vtimas inocentes, antes de ser aplaudido. Mais uma vez, o seu extremismo espontneo encontrou pela frente uma forte resistncia. Mas a recordao do terror de 1943 permaneceu indelvel, no dizer daqueles que o conheceram: o que Mao perdeu em popularidade, ganhou em medo. 
	Pouco a pouco, a represso torna-se mais sofisticada. Se a guerra (contra os japoneses, contra o Kuomintang) , nessa ocasio, acompanhada por matanas terroristas que fazem milhares de vtimas (3.600 em trs meses, em 1940, numa pequena parte do Hebei, que importava de tomar o controle),46 o assassinato tende a individualizar-se. Os renegados so particularmente visados, o que corresponde tambm s prticas tradicionais das sociedades secretas. Seguindo um antigo chefe da guerrilha: "Matvamos um grande nmero de traidores, de maneira que o povo no tivesse outra escolha seno continuar na via da revoluo." O sistema penitencirio desenvolve-se, evitando ter de recorrer s execues to frequentemente quanto antes. Em 1932, os sovietes de Jiangxi haviam visto florescer os estabelecimentos de correo pelo trabalho, ironicamente previstos por uma lei do Kuomintang. Em 1939, os condenados a longas penas de priso so enviados para Centros de Trabalho e Produo, enquanto tribunais no totalmente de exceo comeam a aparecer aqui e ali. O interesse  triplo: no provocar o desafeto da populao atravs de castigos demasiado terrveis, beneficiar-se de uma fora de trabalho disponvel, conseguir novos fiis atravs de uma reeducao j bem mais hbil. Desse modo, at alguns prisioneiros de guerra japoneses puderam ser integrados no Exrcito Popular de Libertao (EPL), herdeiro do Exrcito Vermelho Chins, e utilizados contra Chiang Kai-shek!

	Os mtodos maostas em Yan'an, vistos por um stalinista sovitico
	
	A disciplina do Partido baseia-se em formas estupidamente rgidas de crtica e autocrtica.  o presidente da clula que decide quem deve ser criticado e por que razo. "Ataca-se" em geral um comunista de cada vez. Todos participam. Ningum pode esquivar-se. O "acusado" tem apenas um direito: arrepender-se dos seus "erros". Se acaso se declara inocente ou se "admite sua culpa" sem muita convico, renova-se o ataque.  um verdadeiro adestramento psicolgico. [...] Compreendi uma realidade trgica. Este cruel mtodo de coero psicolgica a que Mao chama "purificao moral" criou uma atmosfera sufocante na organizao do Partido em Yan'an. Um numero no desprezvel de militantes comunistas suicidaram-se, fugiram ou tornaram-se psicticos... O mtodo do chengfing responde ao princpio de que "cada um deve saber tudo sobre os pensamentos ntimos dos outros". Tal  a vil e vergonhosa diretiva que rege todas as reunies. Tudo o que h de mais ntimo e pessoal  desnudado sem o menor pudor, para exame pblico. Sob o rtulo da crtica e da autocrtica, inspecionam-se os pensamentos, as aspiraes e os atos de cada um. 

	Reforma Agrria e expurgos urbanos (1946-1957)

	 O pas onde os comunistas tomam o poder, em 1949, no  exatamen-te uma terra de doura e de harmonia. A violncia e frequentemente o assassinato constituem meios banalizados tanto de governar quanto de fazer oposio, ou ainda de ajustar contas entre vizinhos. Os atos de que vamos agora falar tiveram, pois, um carter de oposio  violncia, de resposta a exaes bem reais (uma das vtimas de P'eng P'ai, um magistrado local, havia mandado executar uma centena de camponeses sindicalizados) e foram seguramente vistos como tais por uma grande pane da populao rural. Por conseguinte, esse perodo conserva uma excelente imagem, tanto na histria oficial ps-maosta (de um modo geral, at s vsperas do Movimento Antidireitista de 1957, o Timoneiro teria procedido corretamente) quanto na memria de numerosas testemunhas, por vezes beneficirias diretas (ou pelo menos assim se considerando) das desgraas dos seus concidados demasiado abastados. Uma coisa explicando a outra, os  comunistas (incluindo os intelectuais comunistas) no foram, na ocasio, muito afetados pelos expurgos. E, no entanto, trata-se da mais sangrenta onda de represso jamais lanada pelo Partido Comunista Chins, estendendo-se por todo o pas. Pela sua amplitude, pela sua generalidade, pela sua durao (houve breves momentos de trgua, mas praticamente em todos os anos assistiu-se ao lanamento de uma nova "campanha de massas"), pelo seu aspecto planificado e centralizado, ela faz a violncia chinesa dar um salto qualitativo: a "retificao" de Yan'an, em 1943, havia sido um ensaio geral, mas restrito apenas  escala de um rinco remoto do imenso pas. No que diz respeito a certas camadas sociais, os assassinatos adquirem as propores genocidrias que a China nunca conhecera at ento, pelo menos em escala nacional (os prprios mongis, no sculo XIII, s devastaram o Norte do imprio). Algumas dessas atrocidades ocorreram no contexto de uma guerra civil que durava havia trs anos: por exemplo, a chacina de 500 habitantes, em grande parte catlicos, da cidade de Siwanze, na Man-chria, quando da sua conquista. De resto, a partir do momento em que, em 1948, comearam a conquistar uma vantagem decisiva, os comunistas deixaram de libertar, como antes faziam, para fins propagandsticos, grandes massas de prisioneiros da oposio. A partir de ento, encarcerados s centenas de milhares, e ultrapassando rapidamente a capacidade das prises superlotadas, eles foram os primeiros pensionistas dos novos campos de reforma pelo trabalho (laodonggaizao, ou seja, abreviadamente, laoga), em que se conjugavam as preocupaes de reeducao e a contribuio para o empreendimento de guerra. Mas durante as prprias hostilidades os piores atos ocorreram por trs da cena principal, fora de qualquer contexto militar.
	
	Os campos: submisso e engenharia, social
	
	Ao contrrio da revoluo russa de 1917, a revoluo chinesa de 1949 propagou-se dos campos para as cidades. Portanto,  lgico que os expurgos urbanos foram posteriores ao movimento de reforma agrria. Os expurgos eram algo de que os comunistas tinham larga experincia, como se viu. No entanto - a fim de concretizarem e depois preservarem, melhor ou pior, a "frente unida" antijaponesa com o governo central do Kuomintang -, eles haviam resolvido, a partir de 1937, silenciar esse ponto fundamental do seu programa. Foi s depois da derrota nipnica que relanaram o movimento, no contexto da ecloso, em 1946, da guerra civil que iria lev-los ao poder. Milhares de equipes de agitadores profissionais - de preferncia estranhos  regio, para evitar que se deixassem envolver por solidariedades de vizinhana, de cl e de sociedade secreta - foram enviados de povoado em povoado, por todas as "zonas libertadas" pelo EPL. Com o avano das tropas, o movimento estender-se- gradualmente at s fronteiras meridionais e ocidentais (que no incluam, na ocasio, o Tibet).
	 No nos iludamos: na verdadeira revoluo agrria que vai convulsionar, um a um, as centenas de milhares de povoados chineses, seria to falso ver apenas uma manipulao vinda de cima como imaginar, ingenuamente, que o Partido Comunista se teria limitado a responder  "vontade das massas". Estas ltimas tinham inmeras razes para se sentirem infelizes e desejarem mudanas. E um dos desequilbrios mais gritantes era a desigualdade entre camponeses: assim, no povoado da Longa Curva (Shanxi), onde William Hin-ton acompanhou a revoluo,52 7% dos camponeses possuam 31% das terras cultivveis e 33% dos animais de trao. Uma investigao nacional, feita em 1945, atribui aos 3% de notveis rurais cerca de 26% das terras. A desigualdade de propriedade era redobrada pelo efeito da usura (de 3% a 5% ao ms, at 100% ao ano),?4 um quase-monoplio dos proprietrios rurais mais ricos.
	 Os mais ricos, ou simplesmente os menos pobres? Se, nas regies costeiras do Sul, se encontram propriedades de vrias centenas de hectares, a maior parte dos muito modestos "proprietrios de terras" contenta-se com dois ou trs hectares; na Longa Curva (1.200 habitantes), o mais rico  dono de dez minguados hectares. Alm disso, as fronteiras entre grupos de camponeses so muito pouco ntidas: a maior parte da populao rural pertence a essa classe intermediria entre os miserveis sem terra e os proprietrios que no vivem essencialmente do seu prprio trabalho. Relativamente aos contrastes sociais extremos, que os campos do Leste Europeu conheceram at 1945, e que os da Amrica Latina conhecem ainda hoje, pode-se dizer que a sociedade rural chinesa era relativamente igualitria. E, j o dissemos, os conflitos entre ricos e pobres estavam longe de constituir uma das principais causas de perturbao. Como em Hai-Lu-Feng, em 1927, os comunistas - a comear pelo prprio Mao  desempenharam assim o papel de engenheiros sociais: tratava-se de polarizar, muito artificialmente, grupos rurais definidos e delimitados de modo totalmente arbitrrio (havia quotas, fixadas pelo aparelho, a respeitar: de 10% a 20% de "privilegiados", conforme as regies e os meandros da poltica central), para em seguida decretar que nessa polarizao residia a causa quase nica da misria camponesa. A rota para a felicidade tornava-se ento muito fcil de encontrar-Os agitadores comearam ento a dividir os camponeses em quatro grupos: pobres, semipobres, mdios e ricos - os excludos dessa classificao eram, com mais ou menos argumentos, declarados "proprietrios de terras" e, nas circunstncias, homens a abater. Por vezes, na falta de critrios de discriminao claros, e porque isso agradava aos mais pobres, eram acrescentados os camponeses ricos, ultrapassando frequentemente as diretivas do Partido (tambm  verdade que essas diretivas variavam...). Se o destino dos pequenos notveis rurais estava, de sada, claramente traado, os caminhos escolhidos para o cumprir foram tortuosos, ainda que por certo os politicamente mais eficazes: convinha, com efeito, fazer com que as "grandes massas" participassem, de forma, no mnimo, a comprometer-lhes, a fazer com que a partir desse instante eles temessem a derrota dos comunistas, e se possvel dar-lhes a iluso do livre-arbtrio, de que o novo poder se limitava a apoiar e depois ratificar suas decises. Iluso, incontestavelmente: porque em todo o lado, e quase simultaneamente, o processo e o resultado so os mesmos, ao passo que as condies concretas variam muito segundo os povoados e as regies. Sabemos hoje quanto custou a montagem do cenrio da "revoluo camponesa" aos militantes, sempre prontos a utilizar o terror para conseguir mais rapidamente as convices: durante a guerra, muitos jovens preferiram fugir para as zonas controladas pelos japoneses a alistarem-se no EPL. Os camponeses, sempre apticos na sua massa, e frequentemente to submissos em relao aos proprietrios que continuavam a pagar-lhes clandestinamente as rendas tradicionais, mesmo depois da reeducao (prlogo da reforma) imposta pelo novo poder, estavam muito longe de aderir aos ideais do PC numa base social. Entre si, os agitadores classificavam-nos conforme a respectiva posio poltica: ativistas, ordinrios, atrasados e simpticos aos proprietrios. Depois, tanto bem quanto mal, enxertavam essas categorias nos grupos sociais oficiais, criando uma sociologia " Frankenstein", igualmente influenciada por uma mirade de querelas privadas e de desejos inconfessveis (por exemplo, desembaraar-se de um marido incmodo). A classificao podia ser revista  vontade: para conclurem mais rapidamente a redistribuio das terras, as autoridades da Longa Curva resolveram subitamente passar o nmero de famlias de camponeses pobres de 95 (num total de 240) para 28!56 Quanto aos quadros comunistas, os civis eram geralmente classificados como "operrios" e os militares como "camponeses pobres" ou "semipobres", embora a maioria fosse oriunda das camadas privilegiadas...
	 O elemento-chave da reforma agrria foi o "comcio da acidez": diante do povoado reunido, compareciam o ou os proprietrios, frequentemente apelidados de "traidores" (era hbito assimil-los aos autnticos colaboradores do ocupante japons, "esquecendo" - exceto nos primeiros tempos, em 1946 - que os camponeses pobres haviam feito exatamente o mesmo). Seja por receio desses personagens, ainda ontem poderosos, seja por conscincia de uma certa injustia, as coisas demoram muitas vezes a engrenar, e nesse caso os militantes tm de dar uma ajuda, maltratando fisicamente e humilhando os acusados; ento, geralmente, a conjuno dos oportunistas com aqueles que tm contas a ajustar permite que jorrem as denncias, e a temperatura comea a subir; tendo em vista a tradio camponesa de violncia, no  difcil, depois disso, chegar  condenao  morte dos proprietrios (evidentemente acompanhada pelo confisco dos respectivos bens), muitas vezes executada no prprio local e no mesmo instante, com a participao mais ou menos ativa dos camponeses. Mas os quadros procuram na maioria das vezes, embora nem sempre o consigam, apresentar o condenado  justia da capital do distrito, para confirmar a sentena. Esse teatro de horrores, em que cada um desempenha com perfeio o seu papel, e com uma convico real ainda que tardia, inaugura os "comcios de luta" e outras sesses de autocrtica que todos os chineses sofreram pessoalmente e impuseram a outros pelo menos at  morte do Grande Timoneiro, em 1976. Trata-se, sem dvida, de uma manifestao da grande propenso, tradicional na China, para o ritualismo e o conformismo, tendncia da qual um poder cnico pode usar e abusar  vontade.
	 Nenhum dado preciso permite determinar o nmero de vtimas, mas, como "tinha de haver", pelo menos aparentemente, uma por cada povoado,58 um milho parece ser o estrito mnimo, e a maior parte dos autores est de acordo em admitir cifras entre dois e cinco milhes de mortos. Alm disso, de quatro a seis milhes de "kulaks" chineses contriburam para encher os novssimos laogai, e sem dvida o dobro foi colocado, por perodos de tempo variveis, "sob controle" das autoridades locais: vigilncia constante, as tarefas mais duras, perseguies em caso de "campanhas de massas". Houve, no total, 15 mortos na Longa Curva, o que, se generalizarmos, nos levaria a estimativa mais alta. Mas o processo de reforma comeou mais cedo nesse povoado; ora, depois de 1948, certos excessos foram banidos. E eles haviam atingido duramente essa aldeia: massacre de toda a famlia do presidente da associao catlica local (com a igreja tendo sido fechada), espancamento e confisco dos bens dos camponeses pobres que se tinham solidarizado com os ricos, procura de "origens feudais" ao longo de trs geraes (o que no deixava praticamente ningum livre de uma "requalificao" funesta), torturas at  morte para obter a localizao de um mtico tesouro, interrogatrios sistematicamente acompanhados por torturas com ferros em brasa, extenso das perseguies aos familiares dos executados, violao e destruio de sepulturas, a arbitrariedade de um quadro, antigo bandido, catlico renegado que obriga uma menina de 14 anos a se casar com um dos seus filhos, e declara a quem queira ouvi-lo: "A minha palavra  lei, e aquele que eu condeno  morte tem de morrer." No outro extremo da China, no Yunnan, o pai de He Liyi, polcia do antigo governo,  por essa simples razo classificado como "proprietrio de terras". Tratando-se de um funcionrio,  imediatamente condenado a trabalhos forcados; em 1951, no auge da reforma agrria local, declarado "inimigo de classe", ele  levado e exibido de povoado em povoado, e em seguida condenado  morte e executado, sem qualquer espcie de processo. Seu filho mais velho, militar que havia iniciado um movimento de aliciamento de soldados do Kuomintang para o EPL, o que lhe valera ser oficialmente felicitado, foi apesar disso classificado como "reaconrio" e colocado sob "controle". Tudo isso, repetimos, parece no entanto ter a aprovao da maior parte dos habitantes do meio rural, que podiam em seguida partilhar as terras dos expropriados. Alguns, por uma ou outra razo (frequentemente de ordem familiar), sentem-se atingidos por essas execues tantas vezes arbitrrias; o seu desejo de vingana encontrar, em certos casos, ocasio de satisfazer-se, de modo oblquo, durante a Revoluo Cultural, inclusive atravs da aparncia de um ultra-radicalismo contra o novo establishment.^ A matana dos bodes expiatrios no ter como consequncia essa unanimidade camponesa atrs do Partido "justiceiro", tal como visava a direo do PC.
	 Os verdadeiros objetivos desse amplo movimento so, com efeito, acima de tudo polticos, depois econmicos, e s em ltimo lugar sociais. Embora 40% das terras tenham sido redistribudas, o pequeno nmero de privilegiados rurais e sobretudo a elevada densidade populacional da maior parte das regies fizeram com que os camponeses pobres no ganhassem uma riqueza significativa: depois da reforma agrria, as terras trabalhadas somavam, em mdia, escasso 0,8 hectare. Outros pases da regio (Japo, Taiwan, Coreia do Sul) levaram a cabo, com xito, no mesmo perodo, reformas agrrias no menos radicais em reas rurais que eram antes muito menos igualitrias. Que saibamos, no houve um nico morto, e os expropriados receberam indenizaes mais ou menos adequadas. A terrvel violncia do equivalente chins visava, pois, no  reforma em si mesma, mas  tomada do poder total pelo aparelho comunista: seleo de uma minoria de ativistas, destinados a serem militantes ou quadros; "pacto de sangue" com as massas camponesas, implicadas nas execues; demonstrao aos recalcitrantes e aos indecisos da capacidade do PC de jogar com o terror mais extremo. Tudo isto permitia, finalmente, chegar a um conhecimento ntimo do funcionamento e das relaes no interior dos povoados, que se constituam como base, a mdio prazo, da sua colocao a servio da acumulao do capital industrial atravs da cole-tivizao.

	As cidades: "ttica do salame"e expropriaes

	Embora tudo devesse supostamente partir das bases, o prprio Mao Zedong achou conveniente sancionar publicamente as matanas em curso, quando da fase de radicalizao que se seguiu  entrada das tropas chinesas no conflito coreano (novembro de 1950): "Devemos certamente matar todos esses elementos reacionrios que merecem ser mortos." Mas a novidade, nesse momento, no  a reforma agrria, que, pelo menos no Norte da China, chega ao fim (em contrapartida, no Sul do pas - "libertado" mais tarde, e particularmente nas provncias mais rebeldes como o Guangdong - o movimento est ainda longe de ter terminado, no incio de 1952),66 e sim a extenso do expurgo violento s cidades, atravs de uma srie de "movimentos de massas" dirigidos, simultneos ou sucessivos, que pouco a pouco reduzem  mais absoluta submisso os diversos grupos (intelectuais, burgueses - incluindo os pequenos patres , militantes no comunistas, quadros comunistas demasiado independentes) suscetveis de entravar o projeto de controle totalitrio por parte do PCC. Poucos anos nos separam aqui da "ttica do salame" do perodo da instaurao das democracias populares europeias:  o perodo em que a influncia sovitica se faz sentir mais nitidamente, na economia mas tambm no aparelho poltico-repressivo. Um pouco  parte (embora se faam frequentemente terrveis amlgamas entre opositores, adversrios de classe e bandidos, todos considerados "inimigos do governo popular"), a criminalidade e a marginalidade (prostituio, antros de jogo, casas de pio, etc.) so duramente reprimidas: de acordo com o prprio PC, dois milhes de "criminosos" teriam sido "liquidados" entre 1949 e 1952, e provavelmente outros tantos encarcerados.
	 O sistema de controle, em grande parte montado ainda antes da vitria, rapidamente disps de meios considerveis: 5,5 milhes de milicianos no fim de 1950, 3,8 milhes de propagandistas (ou ativistas) em 1953, 75.000 informantes encarregados de coorden-los (e de vigiar sua dedicao...). Na cidade, aperfeioando o sistema de controle mtuo tradicional (o baojia) recuperado pelo Kuomintang, os grupos de residentes (de 15a 20 lares) so encabeados por comisses de moradores, por sua vez subordinadas s comisses de rua ou de bairro. Nada deve escapar-lhes: toda e qualquer visita noturna ou estada de um dia ou mais de um "forasteiro" deve ser objeto de registro junto  comisso de moradores; h um cuidado especial para que todos disponham do respectivo hukou, certificado de inscrio no registro dos habitantes da cidade, que se destina especialmente a evitar o xodo rural "selvagem". Desse modo, mesmo aquele que tem menos responsabilidade desempenha um papel de auxiliar da polcia. Essa entidade, que de incio recupera (como a justia ou as prises) a maior parte dos funcionrios do Antigo Regime (pessoas que constituiro como alvos "naturais" nos futuros movimentos, uma vez esgotada a sua utilidade provisria), no tarda a tornar-se sobredimensionada: 103 postos de polcia por ocasio da tomada de Xangai em maio de 1949, 146 no final desse ano. As tropas da Segurana (polcia poltica) atingem 1,2 milho de homens. Por toda parte, mesmo nas menores cidades, elas abrem crceres improvisados, ao mesmo tempo que nas prises j existentes a superlotao e as condies so de uma dureza sem precedentes: at 300 detidos numa cela com 100 metros quadrados, e 18.000 na penitenciria central de Xangai; raes alimentares de fome, esgotamento pelo trabalho; disciplina desumana com violncias fsicas constantes (por exemplo, coronhadas, pelo simples fato de erguer a cabea, obrigatoriamente baixa durante toda a marcha). A mortalidade, at 1952 seguramente muito superior a 5% anuais (mdia dos anos 1949-1978 no laogai), chega a atingir 50% em seis meses numa determinada brigada do Guangxi, ou 300 mortos por dia em certas minas do Shanxi. As torturas mais variadas e mais sdicas so fatos comuns, sendo a mais frequente a suspenso pelos pulsos ou pelos polegares; um religioso chins morre, depois de 102 horas de interrogatrio contnuo. Os indivduos mais terrivelmente brutos agem sem o menor controle: um comandante de campo teria assassinado ou mandado enterrar, vivos, 1.320 detidos, num ano, alm de cometer inmeros estupros. As revoltas, nessa ocasio muito numerosas (os detidos, incluindo um grande nmero de militares, no tinham tido ainda tempo de serem moralmente esmagados), conduzem a verdadeiras matanas: vrios milhares dos 20 mil degredados dos campos petrolferos de Yanchang so executados; em novembro, mil dos cinco mil amotinados de um estaleiro florestal so enterrados vivos.
	 A campanha para a "eliminao dos elementos contra-revolucionrios" foi lanada em julho de 1950, e em 1951 sero sucessivamente desencadeados os movimentos dos "Trs Anti" (contra a corrupo, o desperdcio e a burocracia dos quadros do Estado e do Partido), dos "Cinco Anti" (contra os subornos, a fraude, a evaso fiscal, a prevaricao e a divulgao de segredos de Estado, o que visa a burguesia), e a campanha de "reforma do pensamento", dirigida contra os intelectuais ocidentalizados: eles devero a partir desse momento seguir regularmente estgios de "reeducao" e provar seus "progressos" junto  sua coletividade de trabalho (danwe). A conjugao temporal entre todos esses movimentos mostra que o essencial  que nenhum membro das elites urbanas possa continuar a sentir-se privilegiado: a definio de "contra-revolucionrio", em particular,  to vaga, to ampla, que qualquer posio presente ou passada que se afaste minimamente da linha definida pelo PC pode bastar para fazer condenar qualquer pessoa. Isso significava a delegaco de um poder repressivo quase discricionrio aos secretrios do Partido, locais ou de operao. Com o encorajamento do Centro, e a ajuda desse "brao armado" que  a Segurana, esses secretrios vo usar e abusar de um tal poder:  perfeitamente apropriado, como fez Alain Roux, utilizar a expresso "terror vermelho" a propsito, em particular, do terrvel ano de 1951.
	 Os nmeros por si ss j impressionam: 3.000 detenes numa noite, em Xangai (e 38.000 em quatro meses); 220 condenaes  morte e execues pblicas imediatas num s dia, em Pequim; 30.000 comcios de acusao, nessa mesma cidade, em nove meses; 89.000 detenes, 23.000 das quais conduziram a condenaes  morte, em dez meses, em Canto. Um total de 450.000 empresas privadas (cerca de 100.000 das quais s em Xangai) est sujeito a inqurito, um tero dos patres e quadros  considerado culpado de malversaes (na maioria das vezes, evaso fiscal) e punido com maior ou menor severidade (cerca de 300.000 com penas de priso). Os residentes estrangeiros so particularmente visados: em 1950, so detidos 13.800 "espies", sobretudo eclesisticos, entre os quais um bispo italiano, condenado  priso perptua. Resultado, os missionrios catlicos passam, de 5.500 em 1950, para uma dezena em 1955  os fiis chineses podero ento sofrer plenamente o choque da represso, sem testemunhas incmodas: 20.000 detenes, pelo menos, em 1955, mas centenas de milhares de cristos de todas as Ordens sero encarcerados durante as duas dcadas seguintes. Os antigos quadros polticos e militares do Kuomintang, anistiados com tanta ostentao em 1949, para minimizar sua fuga para Taiwan e Hong Kong, so dizimados, menos de dois anos mais tarde: a imprensa, muito seriamente, explica que "a extrema mansuetude das massas para com os reacionrios tem limites". A legislao penal contribui para facilitar a represso: distinguindo, entre os "contra-revolu-cionrios", os "ativos" e os "histricos", mas punindo igualmente estes ltimos, introduz o princpio da retroatividade dos delitos; permite, por outro lado, julgar por "analogia" (baseando-se no tratamento do delito mais "parecido") o acusado que no cometeu qualquer ato especificamente sancionado por uma lei. As penas so extremamente severas: oito anos de priso  praticamente o mnimo para os crimes "vulgares", sendo a mdia mais prxima dos 20 anos.
	  muito mais difcil, tambm nesse caso, globalizar, mas o prprio Mao evoca para esse perodo, em 1957, o nmero de 800.000 contra-revolucionrios liquidados. As execues urbanas atingiram, ao que tudo indica, pelo menos um milho, ou seja, um tero do valor mais provvel para as "liquidaes" rurais: como havia naquela ocasio pelo menos cinco rurais por cada citadino, pode deduzir-se que foi nas cidades que a represso se fez sentir mais rudemente. O quadro torna-se ainda mais sombrio se levarmos em conta os cerca de dois milhes e meio de detidos dos "campos de reeducao", representando aproximadamente 4,1% dos citadinos (contra 1,2% dos rurais encarcerados),76 bem como os numerosssimos suicdios de pessoas perseguidas ou molestadas, que Chow Ching-wen77 calculou em 700.000; em certos dias, em Canto, contavam-se at 50 suicdios de contra-revolucionrios. As modalidades da represso urbana assemelham-se com efeito s da reforma agrria e afastam-se das praticadas na URSS, quase exclusivamente policiais e largamente secretas. O comit local do Partido conserva na China o controle da maior parte das atividades da polcia, e h um esforo para fazer a populao participar ao mximo na represso, sem, como  evidente, lhe dar mais poder real de deciso do que nos campos.
	 Os operrios, coordenados pelos comits de rua, atacam os "covis" dos "tigres capitalistas", obrigando-os a abrirem seus livros de contabilidade, a receberem crticas e a autocriticarem-se, a aceitarem o controle do Estado sobre os seus negcios; se eles se "arrependem" completamente, so convidados a participar nos grupos de investigao e a denunciar os colegas; se mostram a menor resistncia, o ciclo recomea... Passa-se mais ou menos o mesmo com os intelectuais: eles tm de participar, no local de trabalho, nas reunies "de submisso e de renascimento", confessar conscienciosamente os seus erros, mostrar que dali para frente romperam sinceramente com o "liberalismo" e o "ocidentalismo", que tomaram conscincia dos malefcios do "imperialismo cultural americano", que mataram o "homem velho" que havia neles, com as suas dvidas e o seu pensamento autnomo. Isso pode ocup-los at dois meses por ano. Meses durante os quais qualquer outra atividade  proibida. Tambm nesse caso, os acusadores tm todo o tempo, e no h fuga possvel, a no ser o suicdio - soluo chinesa conforme a tradio -, para aqueles que querem escapar  vergonha das renegaes sucessivas,  ignomnia das denncias obrigatrias de colegas, ou que um dia pura e simplesmente rompem o limite do suportvel. Reencontraremos esses mesmos fenmenos durante a Revoluo Cultural, amplificados e acompanhados de violncias fsicas. Agora,  toda a populao e o conjunto das atividades urbanas que passam a ficar sob o controle absoluto do Partido. Os patres, obrigados, em 1951, a porem a nu as suas contabilidades, esmagados por impostos, forados, em novembro de 1953, a abrir o seu capital ao Estado, e, em 1955, a filiarem-se a sociedades pblicas de abastecimento (o racionamento est, nesse momento, generalizado), e, novamente submetidos a uma investigao geral em outubro de 1955, no resistem sequer duas semanas quando, em 1956, lhes  "proposta" a coletivizao, a troco de uma modesta renda vitalcia e por vezes um lugar de diretor tcnico nas suas antigas empresas (a Revoluo Cultural renegar essas promessas). Um recalcitrante de Xangai, levado a tribunal pelos seus operrios, sob diversas acusaes,  arruinado em dois meses e em seguida enviado para um campo de trabalho. Os pequenos e mdios empresrios, totalmente espoliados, suicidam-se frequentemente; j os grandes empresrios so bastante menos maltratados: s suas competncias ainda teis somam-se os laos que eles mantm com as influentes e ricas redes chinesas de alm-mar, cujo apoio, na poca,  ferozmente disputado com Taiwan.
	 A mquina de triturar no se deteve.  certo que as campanhas lanadas em 1950-1951 terminaram oficialmente em 1952 ou 1953. Na verdade trabalharam to bem, que havia muito menos gro para moer. A represso continuou, no entanto, muito dura, e, em 1955, foi desencadeada uma nova campanha de "eliminao de contra-revolucionrios escondidos" (sufan), que visou particularmente os intelectuais, incluindo a partir de ento os velhos companheiros de estrada do Partido que ousavam dar provas de um mnimo de independncia. Assim, o brilhante escritor marxista Hu Feng, discpulo do reverenciado Lu Xun, tinha, em julho de 1954, denunciado junto do Comit Central os "cinco punhais" (em especial a submisso da criatividade  "linha geral") que as diretivas do Partido cravavam na cabea dos escritores. Em dezembro  lanada contra ele uma enorme campanha: todos os intelectuais de renome tm de rivalizar na denncia, e depois as "massas" so convocadas para o golpe de misericrdia. Hu, completamente isolado, apresentou a sua autocrtica em janeiro, mas essa foi recusada. Preso em julho, juntamente com 130 "cmplices", passar dez anos num campo; novamente detido em 1966, errar por todo o sistema penitencirio at  sua reabilitao total, em 1980. Pela primeira vez, os membros do Partido so maciamente envolvidos: o Dirio do Povo denuncia a existncia, entre as suas fileiras, de 10% de "traidores escondidos", e esse nmero parece ter guiado as quotas de interpelaes.
	 No que diz respeito aos sufan, uma fonte relata 81.000 detenes (o que parece bem modesto), outra fala de 770.000 mortos: mistrios da China... Quanto s famosas "Cem Flores", elas fazem parte, no quadro da represso em massa, desse ciclo de campanhas sucessivas. Simplesmente, nesse caso, o esmagamento dos "rebentos venenosos" ser na mesma proporo das esperanas e dos mpetos despertados, durante algumas breves semanas, pela liberalizao anunciada, e depois renegada, por Mo. O seu objetivo era duplo: primeiramente, como em todos os movimentos de Retificao (que aconteciam, de tempos a tempos, at nas prises),81 suscitar a palavra espontnea, a expresso mais ampla dos desacordos, para em seguida melhor esmagar aqueles que tinham revelado os seus "maus pensamentos"; e, em segundo lugar, em face da dureza das crticas assim manifestadas, reconstituir a unidade do aparelho do Partido em torno das posies radicais do seu presidente, numa altura em que o XX Congresso do PCUS havia acentuado, na prpria China, a tendncia para uma legislao das prticas repressivas (mais controle dos tribunais sobre as atividades da Segurana e sobre a execuo de penas)82 e para questionar o culto a Mo.  significativo o fato de os intelectuais comunistas, escaldados depois de Yan'an, terem se mantido, no seu conjunto, prudentemente  margem. Mas centenas de milhares de ingnuos  frequentemente "companheiros de estrada" de 1949, e em particular membros dos insignificantes "partidos democrticos" que o PC achara melhor deixar subsistir - foram apanhados na armadilha, ao assumirem suas posies, quando o navio guinou brutalmente para o seu novo rumo "antidireitista". Houve, de um modo geral, poucas execues, mas de 400.000 a 700.000 quadros (pelo menos 10% dos intelectuais chineses, incluindo tcnicos e engenheiros), rotulados com o infamante rtulo de "direitistas", tero duas boas dezenas de anos para se arrependerem, num campo ou num remoto povoado privado de tudo, se conseguirem sobreviver  passagem dos anos,  fome de 1959-1961, ao desespero ou, uma dcada mais tarde, ao furaco dos Guardas Vermelhos, que lhes moveram uma perseguio obstinada. Ser preciso esperar at 1978 para assistir s primeiras reabilitaes. Alm disso, milhes de quadros (100.000 s no Henan)83 e de estudantes so "ruralizados", provisoriamente ou mesmo definitivamente: envi-los para os rudes campos constitui um castigo, mas visa tambm preparar o Grande Salto Adiante, que neles deve se concentrar. O encarceramento penitencirio  geralmente precedido por um encarceramento social, durante o perodo de "luta" contra o direitista. Ningum quer conhec-lo, nem mesmo para lhe dar um pouco de gua quente. Ele tem de se apresentar no local de trabalho, mas para redigir confisses sucessivas e suportar reunies e mais reunies de "crtica-educao". Uma vez que o alojamento anda geralmente junto com o emprego, os vizinhos-colegas, ou mesmo seus filhos,84 no lhe do um momento de descanso: sarcasmos, insultos, proibio de caminhar pelo lado esquerdo da rua "por ser um direitista", ladainha que terminar com "o povo vai lutar85 o direitista at  morte". Convm, evidentemente, aceitar tudo sem retorquir, sob pena de tornar o seu caso ainda mais grave. Entende-se facilmente que os suicdios sejam ento numerosos. Atravs das inmeras investigaes e sesses de crtica, atravs tambm de um expurgo que deve - milagre burocrtico - atingir 5%87 dos membros de cada unidade de trabalho (7% nas universidades, que se tinham distinguido por ocasio das Cem Flores), os funcionrios do Partido instalam-se  frente das principais instituies culturais: o brilhante florescimento intelectual e artstico que a China conhecera na primeira metade do sculo estava morto, assassinado. Os Guardas Vermelhos tentaro mais tarde matar at a sua recordao.
	  ento que a sociedade maosta da maturidade ganha verdadeiramente forma. Os prprios sobressaltos da Revoluo Cultural s a desestabilizam por um momento. Ser preciso esperar pelas grandes reformas de Deng Xiaoping para que essa pgina seja virada. O fundamento desse fato poderia ser o adgio do Grande Timoneiro: "No esqueam a luta de classes!" Tudo assenta, com efeito, numa rotulao generalizada dos indivduos, iniciada nos campos com a reforma agrria e nas cidades com os movimentos de "massas" de 1951, mas que s vem a terminar em 1955. A coletividade trabalhista desempenha um papel no processo, mas  significativo o fato de, em todos os casos, ser a polcia quem tem a ltima palavra. Trata-se, mais uma vez, de uma compartimentao sociolgica fantasista, mas com consequncias diablicas para dezenas de milhes de pessoas. Em 1948, um quadro do povoado da Longa Curva afirmava que "a maneira como se ganha a vida determina a maneira de pensar. " E o inverso tambm  vlido, se seguirmos a lgica maosta. Misturam-se, com efeito, grupos sociais (muito arbitrariamente delimitados) e grupos polticos, para chegar a uma diviso binria entre "categorias vermelhas" (operrios, camponeses pobres e semipobres, quadros do Partido, militares do EPL e "mrtires revolucionrios") e "categorias negras" (proprietrios de terras, camponeses ricos, contra-revolucionrios, "maus elementos" e direitistas). Entre esses dois grupos, encontramos as "categorias neutras" (por exemplo, intelectuais, capitalistas, etc.), mas essas tendem a ser progressivamente empurradas para as "negras", na companhia dos desqualificados, marginais, "funcionrios do Partido que escolheram a via capitalista" e outros espies. Assim, durante a Revoluo Cultural, os intelectuais sero a "nona categoria (negra) fedorenta". O rtulo, o que quer que se faa,  literalmente colado  pele: um direitista, mesmo que oficialmente "reabilitado", ser um alvo privilegiado na primeira campanha de massas, e nunca ter o direito de regressar  cidade. A lgica infernal do sistema  que so necessrios inimigos para combater, e por vezes para abater, e que o estoque deve ser renovado, atravs de uma extenso das caractersticas incriminatrias ou por degenerescncia: um quadro comunista pode, por exemplo, tornar-se um direitista.
	 Trata-se, como se deixa ver, menos de classes sociais no sentido marxista da expresso do que de castas  maneira indiana (a China tradicional, na verdade, nunca conhecera nada de semelhante). Por um lado, com efeito, o que conta  a situao social anterior a 1949, sem levar em considerao as enormes transformaes posteriores. Por outro, a classificao do chefe da famlia  via de regra automaticamente estendida aos filhos (em contrapartida, a esposa conserva seu "rtulo de solteira"). Essa hereditarizao contribui para ossificar terrivelmente uma sociedade que se diz revolucionria, e para lanar ao desespero os "malnascidos". A discriminao , efetivamente, sistemtica contra os "negros" e seus respectivos filhos, quer se trate da entrada para a universidade ou para a vida ativa (diretiva de julho de 1957), ou ainda para a vida poltica. Torna-se muito difcil para um "negro" casar-se com um cnjuge "vermelho", pois a sociedade tende a ostraciz-lo: receiam-se os aborrecimentos com as autoridades que a convivncia com essa gente "com problemas" pode acarretar. Com a Revoluo Cultural, a rotulao vai atingir o seu paroxismo e provar todos os seus efeitos perversos, do ponto de vista do prprio regime.
A maior fome da histria (1959-1961)
	 Durante muito tempo, circulou no Ocidente um mito tenaz: sim, a China no  um modelo de democracia, mas "pelo menos Mao conseguiu dar uma tigela de arroz a cada chins". Infelizmente, nada  mais falso: por um lado, como vamos ver, a modesta rao alimentar disponvel por habitante no aumentou provavelmente de forma significativa entre o incio e o fim do seu reinado, e isto a despeito de esforos impostos a um campesinato, raramente vistos no curso da histria; por outro lado, e sobretudo, Mao e o sistema que ele criou foram diretamente responsveis por aquela que continuar a ser (assim esperamos...) a mais mortfera fome de todos os tempos, em todos os pases, em valor absoluto.
	 Certamente o objetivo de Mao no era o de matar em massa os seus compatriotas. Mas o mnimo que se pode dizer  que os milhes de pessoas mortas de fome no o incomodaram minimamente; a sua principal preocupao durante esses anos negros parece ter sido negar ao mximo uma realidade cuja responsabilidade ele sabia poder ser-lhe atribuda.  muito difcil, nessa catstrofe, saber quanto se deve ao prprio projeto e quanto se deve aos desvios constantes da sua aplicao. Seja como for, o resultado final revela cruamente a incompetncia econmica, o desconhecimento do pas, o isolamento na auto-suficincia e a utopia voluntarista da direo do PC e, singularmente, do seu chefe. A coletivizao de 1955-1956 havia sido bastante bem aceita pela maioria dos camponeses: ela agrupava-os com base nos respectivos povoados, e o direito de retirar-se da cooperativa no era letra morta - 70.000 lares fizeram uso dele na provncia de Guangdong, em 1956-1957, e numerosas unidades foram dissolvidas. Esse xito aparente e os bons resultados das colheitas de 1957 levam Mao a propor e impor aos reticentes, em agosto de 1958, tanto os objetivos do Grande Salto (anunciados em dezembro de 1957, definidos em maio de 1958), como o suposto meio de l chegar: a comuna popular.
	 Trata-se, simultaneamente, e em muito pouco tempo ("trs anos de esforos e de privaes, mil anos de felicidade", assegura um slogan na moda), de modificar completamente o modo de vida dos camponeses - obrigados a agruparem-se em unidades de milhares, quando no de dezenas de milhares de famlias em que tudo se torna comum, a comear pelas refeies -, de desenvolver a produo agrcola numa proporo enorme, graas a obras faranicas de irrigao e a novos mtodos de cultivo e, finalmente, de suprimir a diferena entre o trabalho agrcola e o trabalho industrial atravs da instalao por todo lado de unidades industriais, sobretudo pequenos altos-for-nos (a "agrocidade" kruscheviana no est muito longe). O objetivo  simultaneamente assegurar a auto-suficincia de cada comunidade local e permitir um crescimento acelerado da indstria, tanto atravs das novas empresas rurais quanto graas aos considerveis excedentes agrcolas que as comunas deveriam entregar em proveito do Estado e da grande indstria que ele controla: nesse belo sonho, que coloca o comunismo ao alcance da mo, como se diz, a acumulao de capital e a melhoria rpida do nvel de vida podem andar juntas. Bastar cumprir os objetivos fixados de cima...
	 Durante alguns meses, tudo parece correr da melhor maneira. Trabalha-se dia e noite sob as bandeiras vermelhas drapejando ao vento, pro-duz-se "mais, com maior rapidez, melhor e mais economicamente"; os responsveis locais anunciam recorde atrs de recorde, e em consequncia os objetivos sobem constantemente: at 375 milhes de toneladas de cereais para 1958, o dobro dos 195 milhes de toneladas (um nmero bastante bom) do ano anterior; em dezembro, anunciar-se- que o objetivo foi atingido.  verdade que tal anncio  feito depois de mandarem para os campos o pessoal do Departamento Central de Estatsticas, seguramente "direitista", uma vez que manifestara dvidas... A Gr-Bretanha, que o Grande Salto deveria permitir ultrapassar em 15 anos, ser agora, com toda a certeza, alcanada em dois. Porque, afirma o presidente, "a situao  excelente", ajustam-se para cima as normas de produo, aumentam-se as entregas obrigatrias, manda-se desguarnecer os campos em proveito das oficinas. Uma provncia que se pretende modelo, como o Henan, cede generosamente 200 mil dos seus trabalhadores quelas que declaram resultados no to bons. A "emulao socialista" vai cada vez mais longe: supresso total das parcelas individuais e dos mercados livres, abolio do direito de abandonar o coletivo, recolha de todos os utenslios metlicos para transform-los em ao, e por vezes das portas de madeira para aquecer os altos-fornos. A ttulo de compensao, todas as reservas alimentares comuns sero consumidas no curso de memorveis banquetes. Como se pode lembrar, "era considerado revolucionrio comer carne" no Shanxi: nenhum problema, a colheita ia ser fabulosa... "A vontade  senhora das coisas", tinha j proclamado a imprensa do Henan, por ocasio de um Congresso Hidrulico Provincial, em outubro de 1957.
	 Mas, logo, os dirigentes que por vezes ainda saem da Cidade Proibida (o que nesse momento no  de modo algum o caso de Mo) tm de render-se  evidncia: caram na sua prpria armadilha, a do otimismo encomendado, do xito obrigatrio e da suposta onipotncia dos dirigentes mticos vindos da Longa Marcha, habituados a gerir a economia e os trabalhadores como exrcitos em campanha.  menos arriscado para um quadro falsificar as suas estatsticas, mesmo que para isso tenha de pressionar insuportavelmente os seus subordinados para fornecerem de qualquer maneira as quantidades previstas, do que confessar o no-cumprimento dos sacrossantos objetivos: sob a palmatria de Mo, o "desvio  esquerda" (uma vez que voluntarismo, dogmatismo e violncia so supostamente de esquerda) foi sempre menos perigoso do que a mediocridade direitista. Em 1958-1959, quanto maior for a mentira, mais rpida ser a promoo do seu autor: o descontrole e os excessos so totais, os "termmetros" esto todos quebrados, e os potenciais crticos estio na priso ou nas obras de irrigao.
	 As razes do drama so igualmente tcnicas. Certos mtodos agronmicos vindos diretamente do acadmico sovitico Lyssenko, e baseados na negao voluntarista da gentica, tm valor de dogma tanto na China quanto na URSS. Impostos aos camponeses, revelam-se desastrosos: apesar de Mao afirmar que "com companhia [os gros] nascem facilmente, quando crescem juntos sentem-se mais satisfeitos" - aplicao criativa da solidariedade de classe  natureza , as sementeiras ultra-apertadas (cinco a dez vezes a densidade normal) matam as jovens plantas, os sulcos profundos secam a terra ou fazem subir os sais; o trigo e o milho no se do muito bem nos mesmos campos, e a substituio da cevada tradicional pelo trigo nas altas terras frias do Tibet  pura e simplesmente catastrfica. Outros "erros" so de iniciativa nacional: o extermnio dos pardais comedores de gros fez proliferar os parasitas; muitas obras hidrulicas, executadas s pressas ou mal coordenadas umas com as outras, revelam-se inteis ou at perigosas (eroso acelerada, risco de rotura brutal s primeiras cheias), e a sua construo custa caro em vidas humanas (10.000 dos 60.000 trabalhadores numa obra no Henan); a vontade de apostar o futuro numa enorme colheita de cereais (tal como o ao na indstria: "big is beautifur) arruina as "pequenas" atividades agrcolas anexas, incluindo a pecuria, frequentemente indispensveis ao equilbrio alimentar; no Fujian, as plantaes de ch, geradoras de um fortssimo valor acrescentado, so transformadas em arrozais.
	 , finalmente, no plano econmico que a alocao dos recursos se revela devastadora: a taxa de acumulao de capital atinge um nvel sem precedentes (43,4% do PIB em 1959),96 mas serve para implementar grandes obras de irrigao frequentemente no terminadas ou atamancadas, e sobretudo para desenvolver maciamente a indstria dos centros urbanos (a China "caminha sobre duas pernas", segundo um clebre slogan maosta, mas todo o sangue da "perna" agrcola tem de passar para a industrial). Essa aberrante distribuio do capital determina no menos aberrantes distribuies de mo-de-obra: as empresas do Estado contratam em 1958 a bagatela de 21 milhes de novos operrios, ou seja, um crescimento, nesse setor, de 85% num nico ano! Resultado: entre 1957 e 1960, a populao no agrcola passa de 15% para 20% do total  e  o Estado que tem de aliment-la. Ora, paralelamente, os trabalhadores dos campos ocupam-se de tudo (grandes obras, microaciarias cuja produo vai geralmente inteira para o refugo, destruio dos antigos povoados e construo de novos alojamentos, etc.), menos do cultivo; em face das "mirficas" colheitas de 1958, considerou-se at mesmo possvel reduzir em 13% a rea semeada de cereais. O resultado dessa combinao de "delrio econmico e mentira poltica" foram as colheitas de cereais de 1960, que os camponeses j no tinham sequer foras para apanhar. O Henan, primeira provncia a declarar-se "100% hidraulizada" (todos os trabalhos de irrigao e de represamento possveis foram em princpio realizados), ser tambm uma das mais duramente atingidas pela fome (entre dois e oito milhes de mortos, conforme as estimativas). As amostragens realizadas pelo Estado atingem o seu ponto mais alto: 48 milhes de toneladas de cereais entregues em 1957 (17% das disponibilidades), 67 milhes em 1959 (28%), e ainda 51 milhes em 1960. A armadilha recai sobre os mentirosos, ou melhor, infelizmente, sobre os administrados: no distrito considerado modelo de Fengyang (Anhui), foram anunciadas 199.000 toneladas de cereais em 1959, um belo progresso em relao s 178.000 do ano anterior; na realidade, a produo foi de 54.000 toneladas, contra 89.000 em 1958; mas o Estado reclamou a sua parte bem real da colheita-fantasma: 29.000 toneladas! Ser, pois, no ano seguinte, a dieta de sopa rala de arroz para (quase) toda a gente, e o slogan da moda ser a frase surrealista lanada por um Dirio do Povo de finais de 1959: "Viver de uma maneira frugal num ano de abundncia". A imprensa nacional ps-se a preconizar as virtudes da sesta, e os professores de Medicina insistem na fisiologia particular dos chineses, que lhes torna suprfluas gorduras e protenas.
	 Talvez ainda houvesse tempo de corrigir o rumo, e, em dezembro de 1958, tomam-se as primeiras medidas nesse sentido. Mas o incio da tenso com a URSS, e sobretudo, em julho de 1959, o ataque ao Bureau Poltico desencadeado pelo prestigiado marechal Peng Dehuai contra a estratgia empregada pelo prprio Mao levam este ltimo, por razes depura tticapoltica, a recusar-se  reconhecer a menor dificuldade, a fim de evitar ter de admitir o mais insignificante erro. O ministro da Defesa, excessivamente lcido,  substitudo por Lin Biao, que se revelar uma servil criatura do Grande Timoneiro. Peng, marginalizado, mas no preso, ser, em 1967, expulso do Partido, condenado  priso perptua, e morrer encarcerado em 1974: Mao sabia ser tenaz nos seus dios. Tentando explorar a sua vantagem, imps, em agosto de 1959, um relanamento e um aprofundamento do Grande Salto, com a inteno de alargar s cidades as comunas populares (o que ao fim no ir acontecer). A China ter a sua grande fome - mas Mao sobreviver. Pois, como afirmar mais tarde Lin Biao, so os gnios que fazem a histria...
	 A fome afetar todo o pas: em Pequim, a quadra de basquete  transformada em horta, e dois milhes de galinhas invadem as varandas da capital;102 nenhuma provncia escapa ao flagelo, a despeito da imensido do pas e  extrema diversidade das condies naturais e das culturas. S isso bastaria para provar a inanidade da incriminao oficial das "piores catstrofes naturais do sculo". Na realidade, 1954 e 1980 foram anos meteorologicamente muito mais perturbados; em 1960, s oito das 120 estaes meteorolgicas chinesas relataram seca intensa, e menos de um tero dessas estaes relatou seca. Ora, a colheita de 1960, com 143 milhes de toneladas de cereais,  26% inferior  de 1957 (a de 1958 a tinha ultrapassado ligeiramente); voltou-se ao nvel de 1950 - com mais cem milhes de chineses para alimentar. As cidades, privilegiadas pela distribuio dos estoques e pela proximidade dos rgos do poder, so menos duramente atingidas (assim, em 1961, no auge da crise, os seus habitantes beneficiam-se, em mdia, de 181 quilos de cereais, enquanto os rurais recebem apenas 153; a rao destes ltimos diminuiu 25%, contra apenas 8% no caso dos citadinos). Mo, de acordo com a tradio dos senhores da China, mas contrariamente  lenda compla-centemente construda  sua volta, revela aqui a sua escassa preocupao com a sobrevivncia desses seres grosseiros e primitivos que so os camponeses. Por outro lado, as desigualdades regionais, quando no locais, so muito acentuadas: as provncias mais frgeis, as do Norte e do Noroeste, as nicas a serem atingidas pela fome do sculo anterior, so logicamente as mais afetadas. Em contrapartida, o Heilongjiang, no extremo Norte, pouco atingido e ainda largamente virgem, v a sua populao saltar de 14 para 20 milhes de habitantes:  um porto de abrigo para os famintos. Segundo um processo bem conhecido, quando das fomes do passado da Europa, as regies especializadas nas culturas industriais (cana-de-acar, oleaginosas, beterraba e sobretudo algodo), cujos produtos os esfomeados no tm meios para comprar, tm a sua produo duramente afetada (diminuindo por vezes em dois teros) quando a fome as atinge mais fortemente: o preo do arroz nos mercados livres (ou no mercado negro) foi multiplicado por 15, e s vezes por 30. O dogma maos-ta agrava o desastre: uma vez que as comunas populares devem proporcionar a auto-suficincia, as transferncias de vveres entre provncias so drasticamente reduzidas. As pessoas sofrem com a escassez de carvo (os mineiros, esfomeados, foram procurar comida, ou ento cultivam hortas), e tambm com a tendncia  apatia e  dissoluo suscitadas pela fome. Numa provncia industrializada como Liaoning, os dois efeitos acumulam-se: produo agrcola de 1960 reduzida  metade daquela de 1958, e, enquanto uma mdia de 1,66 milho de toneladas de cereais l chegava todos os anos no incio da dcada de 50, em 1958 as transferncias caem para 1,5 milho de toneladas em todo o pas.
	 O fato de a fome ter sido de natureza poltica est demonstrado pela concentrao de uma grande parte da mortalidade nas provncias governadas por maostas radicais, ao passo que, em tempos normais, so antes exportadoras de alimentos: Sichuan, Henan, Anhui. Esta ltima, no Centro-Norte,  sem dvida a mais afetada: a mortalidade cresce 68%o, em 1960 (contra cerca de 15%o num perodo normal), enquanto a natalidade cai para l l%o (contra cerca dos 30%o habituais). Resultado: a populao sofre uma diminuio de dois milhes de pessoas (6% do total) num nico ano. Os ativistas do Henan esto convencidos, como Mo, de que todas as dificuldades so provocadas pelo fato de os camponeses esconderem os cereais: segundo o secretrio da prefeitura de Xinyang (com dez milhes de habitantes), onde tinha sido lanada a primeira comuna popular do pas, "no  que faltem os alimentos. H gros em quantidade, mas 90% dos habitantes tm problemas ideolgicos." E contra o conjunto dos rurais (a "hierarquia de classes" est, no momento, esquecida) que, no outono de 1959,  lanada uma ofensiva de estilo militar, na qual os encarregados recuperam os mtodos da guerrilha antijaponesa. Pelo menos dez mil camponeses so aprisionados, e muitos morrem de fome.  dada ordem de quebrar todos os utenslios de cozinha dos particulares (os que no foram transformados em ao inutilizvel), a fim de impedir qualquer espcie de auto-alimentao e de tirar-lhes a vontade de rapinar os bens das comunidades.  mesmo proibido fazer fogo, num momento em que o rude inverno se aproxima! As distores da represso so terrveis: tortura sistemtica de milhares de detidos, crianas mortas, cozinhadas e em seguida utilizadas como adubo  isto enquanto uma campanha nacional incita a "aprender com o Henan". No Anhui, onde se proclama a inteno de "conservar a bandeira vermelha, mesmo com 99% de mortos",107 os quadros voltam s boas e velhas tradies de enterrar as pessoas vivas ou tortur-las com ferros em brasa. Os funerais so proibidos: receia-se que o seu nmero assuste os sobreviventes e se transformem em manifestaes de protesto.  proibido recolher as inmeras crianas abandonadas: "Quantas mais forem recolhidas, mais sero abandonadas". Os aldeos desesperados que tentam chegar s cidades so recebidos a tiro. O distrito de Fenyang conta mais de 800 mortos, e 12,5% da sua populao rural, ou seja, 28.000 pessoas so punidas segundo diversas modalidades. A situao ganha contornos de uma verdadeira guerra anticamponesa. Como disse Jean-Luc Domenach, "a intruso da utopia na poltica coincidiu muito precisamente com a do terror policial na sociedade". A mortalidade pela fome ultrapassa os 50% em certos povoados; por vezes, s os quadros que abusaram do seu poder esto em condies de sobreviver. E, como no Henan, os casos de canibalismo so numerosos (63 reconhecidos oficialmente), em especial atravs de "associaes" onde as pessoas trocam os seus filhos pelos de outros, para os comerem.
	 No momento em que Gagarin se lana ao espao, e num pas dotado de mais de 30 mil quilmetros de estradas de ferro, onde existe o telefone e o rdio, encontramos devastaes prprias das grandes crises de subsistncia do Antigo Regime europeu, mas que atingem uma populao igual  do mundo inteiro no sculo XVTII: milhes de famintos que tentam alimentar-se cozendo ervas, casca de rvore e folhas de choupo, errando pelas estradas em busca de qualquer coisa para comer, tentando atacar os comboios de mantimentos, lanando-se por vezes em motins provocados pelo desespero (distritos de Xinyang e de Lan Kao no Henan)111  no lhes sero enviados quaisquer alimentos, mas por vezes vir a ordem para fuzilar os quadros locais "encarregados"; uma maior sensibilidade s doenas e s infeces multiplica a mortalidade; as mulheres, esgotadas, quase no so mais capazes de conceberem e parirem filhos. Os detidos do laogai no so os ltimos a morrer de fome, embora a sua situao no seja necessariamente mais precria do que a dos camponeses vizinhos, que vo por vezes s portas do campo de concentrao mendigar um pouco de comida: trs quartos dos membros da brigada de trabalho de Jean Pasqualini em agosto de 1960 estavam, um ano depois, mortos ou moribundos, e os sobreviventes tinham sido levados a procurar gros de milho no digeridos nos excrementos dos cavalos, e vermes na bosta das vacas. Servem igualmente de cobaias para a experimentao de sucedneos para a fome, como a mistura de farinha com 30% de pasta de papel na confeco do po, ou de plncton dos pntanos com caldo de arroz; o primeiro provoca no campo inteiro uma onda de terrveis constipaes, acarretando numerosas mortes; o segundo causa igualmente doenas, a que os mais fracos no resistem. Finalmente, chega-se ao sabugo de milho modo, que se espalhar pelo pas inteiro.
	 Em todo o pas, a mortalidade salta de 11%o em 1957 para 15%o em 1959 e 1961, e sobretudo para 29%o em 1960. A natalidade cai de 33%o em 1957 para 18%o em 1961. Sem ter em conta o dficit de nascimentos (talvez 33 milhes, mas alguns so simplesmente adiados), as perdas ligadas  sobremortalidade causada pela fome podem ser avaliadas, de 1959 a 1961, entre 20 milhes (nmero semi-oficial na China desde 1988) e 43 milhes de pessoas. De fato, estamos em presena da fome mais grave (pelo menos em nmeros absolutos) de toda a histria da China (a segunda seria a de 1877-1878, no Norte do pas, que fez entre 9 e 13 milhes de vtimas), e sem dvida tambm da histria do mundo. Aqui, um pouco no mesmo contexto poltico-econmico, afetara a URSS entre 1932 e 1934, causando cerca de cinco milhes de mortos, ou seja, bastante menos em proporo do que na China do Grande Salto. A mortalidade nos campos era, em tempos normais, 30% a 60% superior  das cidades; passa para o dobro (29%o contra 14%o) em 1960. Os camponeses adiaram um pouco os efeitos da fome, consumindo o capital produtivo representado pelo gado: 45% dos porcos so abatidos, de 1957 a 1961, e sobretudo 30% dos animais de trao. Quanto s culturas no estritamente alimentares (como o algodo, que quela altura era a base da principal indstria do pas), a superfcie que lhes  dedicada diminui em mais de um tero entre 1959 e 1962: a quebra da produo trans-mitir-se- desse modo ao setor manufatureiro. Embora, por volta do fim de 1959, os mercados livres camponeses voltem a ser autorizados, numa tentativa de incitar a produo, os preos que propem  determinados pelas escassas quantidades - so to elevados, que poucos a podem encontrar com que sobreviver: em 1961, a carne de porco custa nesses mercados 14 vezes mais do que nos armazns do Estado. Os preos dos produtos da pecuria sobem muito menos do que os dos cereais no Noroeste pastoril, cronicamente deficitrio em cereais: no Gansu, continua-se a morrer de fome em 1962, e a rao cerealfera  equivalente  metade do limite de "semifome".

	A recordao do Grande Salto em Anhui, ou como Wei Jingsheng rompeu com o maosmo

	Desde que aqui cheguei, ouvia muitas vezes os camponeses falarem do Grande Salto Adiante, como se tivesse sido um apocalipse, com o qual estavam felizes por terem conseguido escapar. Tendo-me apaixonado pelo tema, interrogava-os frequentemente sobre os pormenores, de tal modo que, com o passar do tempo, acabei por convencer-me, por minha vez, de que os "trs anos de catstrofes naturais" no tinham sido to naturais assim. Muito pelo contrrio, eram o resultado de uma poltica errada. Os camponeses contavam, por exemplo, que, em 1959-1960, durante o "vento comunista", a fome era tal, que no tinham sequer foras para apanhar o arroz maduro, apesar de esse ano ter sido um bom ano. Muitos deles morriam de fome vendo os bagos de arroz carem nos campos, sacudidos pelo vento. Em certos povoados, no se encontrava absolutamente ningum para fazer a colheita. Certa vez, quando me dirigia acompanhado por um parente a um local situado a poucos lis da nossa casa e para onde tnhamos sido convidados, passamos nas proximidades de um povoado deserto onde nenhuma das casas tinha telhado. S restavam as paredes de terra.
	Convencido de que se tratava de uma localidade abandonada durante o Grande Salto Adiante, na poca dos grandes agrupamentos de povoados, perguntei:
"Por que no derrubam essas paredes, para fazer campos de sementeira?"
Ao que o meu parente respondeu:
	Essas casas pertencem a pessoas; no podem ser derrubadas sem sua autorizao.
	Olhando para aquelas runas, recusei-me a acreditar que fossem habitadas.
	"Claro que so habitadas! Aqui, morreram todos de fome durante o vento comunista! E nunca ningum voltou. Ento, distriburam as terras s equipes de produo vizinhas. No entanto, como se pensava que pelo menos alguns haviam de voltar, no se fez a partilha dos terrenos de habitao. Mas, ao fim de tanto tempo, receio bem que j ningum volte."
	Passvamos justamente ao lado do povoado. Os raios brilhantes do sol iluminavam as ervas daninhas, de um verde-jade, que cresciam entre as paredes de terra, sublinhando assim o contraste com os bem-cuidados campos de arroz  volta e aumentando a desolao da paisagem. Diante dos meus olhos, entre as ervas daninhas, surgiu subitamente uma cena que me tinha sido descrita durante um banquete [sic]: a de famlias trocando os filhos entre si para os comerem. Distinguia claramente os rostos consternados dos pais que mastigavam a carne das crianas pelas quais tinham trocado as deles. Os garotos que perseguiam as borboletas nos campos situados  volta dessa cidade pareciam-me ser a reencarnao das crianas devoradas pelos pais. Faziam-me pena. Mas os pais faziam-me ainda mais pena. Quem os tinha obrigado a engolir, no meio das lgrimas e da dor de outros pais, aquela carne humana que nunca, nem nos seus piores pesadelos, teriam pensado provar? Compreendi ento quem era aquele carrasco, "um carrasco tal, que a humanidade, em vrios sculos, e a China, em vrios milnios, tinham produzido apenas um": Mao Zedong. Mao Zedong e os seus sectrios que, com o seu sistema e a sua poltica de criminosos, haviam levado pais enlouquecidos pela fome a entregar a outros a carne da sua carne para que matassem a fome, e a receber a carne da carne de outros pais para matar a deles. Mao Zedong, que, para lavar o crime que cometera ao assassinar a democracia, havia lanado o "Grande Salto Adiante" e obrigado milhares e milhares de camponeses estupidificados pela fome a matarem a golpes de enxada os seus antigos companheiros e a salvar assim a sua prpria vida graas  carne e ao sangue dos amigos de infncia. No, os carrascos no eram eles, os carrascos eram Mao Zedong e os seus seguidores. Finalmente, compreendia onde Peng Dehuai fora buscar a fora para atacar o Comit Central do Partido dirigido por Mao Zedong; finalmente, compreendia por que razo os camponeses detestavam tanto o "comunismo" e por que motivo no tinham admitido que se atacasse a poltica das "trs liberdades e uma garantia" de Liu Shaoqi. Pela simples e boa razo de que no queriam no futuro ter de dar a mastigar a outros a carne da sua carne nem abater os companheiros para os comerem num acesso de loucura, por instinto de sobrevivncia. Essa razo pesava muito mais decisivamente do que qualquer ideologia. 

	 Fosse por inconscincia inacreditvel, fosse, mais verdadeiramente, por indiferena absoluta relativamente queles milhes de "ovos" que era preciso quebrar para chegar ao comunismo, o Estado reagiu  crise  se assim se pode dizer - com medidas que, nas circunstncias, foram mesmo criminosas. Assim, as exportaes lquidas de cereais, principalmente para a Unio Sovitica, sobem de 2,7 milhes de toneladas em 1958 para 4,2 milhes em 1959, e em 1960 no fazem mais do que voltar ao nvel de 1958; importam-se 5,8 milhes de toneladas em 1961, contra 66.000 em 1960, mas continua a ser muito pouco. E a ajuda dos Estados Unidos  recusada, por razes polticas. O mundo, que poderia ter se mobilizado, deve continuar a ignorar as desventuras do socialismo  chinesa. Finalmente, a ajuda aos necessitados dos campos representa menos de 450 milhes de yuans por ano, ou seja, 0,8 yuan por pessoa - enquanto o quilo de arroz custa nos mercados livres entre 2 e 4 yuans... O comunismo chins, como ele prprio se gaba, soube "deslocar montanhas" e domar a natureza. Mas foi para deixar morrer de fome os construtores do ideal.
	 Entre o relanamento de agosto de 1959 e 1961, tudo se passa como se o Partido, estupefato, contemplasse o espetculo do desastre sem conseguir reagir. Criticar o Grande Salto, atrs do qual Mao pusera todo o seu peso, era demasiado perigoso. Mas a situao degradou-se a tal ponto, que Liu Shaoqi, "nmero dois" do regime, pde colocar o presidente do Partido na defensiva e impor um quase-regresso  coletivizao "suave" de antes da formao das comunas populares: pequenos terrenos particulares, mercados camponeses, empresas artesanais livres, desconcentrao ao nvel da brigada de trabalho (equivalente ao antigo povoado) da gesto das atividades camponesas. Essas medidas permitiram sair rapidamente da fome. Mas no da pobreza:  como se a produo agrcola, que crescera notavelmente entre 1952 e 1958, tivesse sido freada no seu mpeto, durante duas dcadas: a confiana no podia voltar enquanto "estivesse ainda quente" (Mo, as comunas populares) o ventre de onde jorrara o gigantesco flagelo dos anos 1959-1961.  certo que o valor bruto da produo agrcola duplicava entre 1952 e 1978, mas simultaneamente a populao passava de 574 para 959 milhes, e o essencial do pequeno crescimento por habitante tinha de ser lanado na conta dos belos anos 50. Para a maior parte das produes, seria necessrio esperar pelo menos at 1965 (1968-1969 no Henan) apenas para voltar ao nvel de 1957 (em valor bruto). A produo agrcola final foi ainda mais afetada: o Grande Salto, com o seu desavergonhado desperdcio, a fez cair cerca de 25%. Foi preciso esperar por 1983 para voltar globalmente ao nvel de eficcia de 1952. Todos os testemunhos da poca da Revoluo Cultural confirmam a grande pobreza do mundo rural, perpetuamente no limite da subalimentao, privado de tudo o que seja suprfluo (o tesouro, para uma famlia, pode ser uma simples garrafa de azeite), onde todos haviam se tornado extremamente cticos em relao  propaganda do regime em consequncia do traumatismo do Grande Salto.  facilmente compreensvel que tenham sido os pequenos camponeses que, respondendo com entusiasmo s reformas liberais de Deng Xiaoping, constituram a vanguarda da reintroduo da economia de mercado na China, exa-tamente 20 anos depois do lanamento das comunas populares.
	 O desastre de 1959-1961, "grande segredo" do regime, para cuja denegao muitos visitantes estrangeiros contriburam naquele momento, nunca foi, porm, reconhecido como tal. Liu foi j muito longe, em janeiro de 1962, diante do auditrio restrito de uma assembleia de quadros: a fome teria sido, em 70%, produto de erros humanos. Era, na poca, impossvel ir mais alm sem pr diretamente em causa a chefia de Mo. No entanto, mesmo depois da morte deste ltimo, e da emisso, em 1981, do "veredicto final" do PCC sobre o seu antigo chefe, o Grande Salto continua a escapar a toda e qualquer condenao, pelo menos publicamente.

	Um "Gulag" escondido: o laogai

	Os armrios do comunismo chins esto decididamente cheios de cadveres, e o mais extraordinrio  o fato de ter conseguido escond-los durante tanto tempo aos olhos do mundo. A imensa cmara frigorfica que  o arquiplago concentracionrio no foge  regra. Constitudo por um bom milhar de campos de trabalho de grande dimenso (ver mapa), bem corno por uma infinidade de centros de deteno, ele raramente  objeto da menor referncia nas obras dedicadas  Repblica Popular, mesmo as mais pormenorizadas ou relativamente recentes.  verdade que o aparelho repressivo soube esconder-se: no se  condenado a "deteno" ou a "trabalhos forados" (isso soaria demasiado prximo do Antigo Regime), mas  "reforma" ou  "reeducao pelo trabalho". Os principais lugares de internamento esto, muito logicamente, disfarados de empresas pblicas: assim,  preciso saber que a "tinturaria industrial de Jingzhou" (nico nome que figura sobre a porta)  na realidade a priso n. 3 da provncia de Hubei, ou que a "fazenda de ch de Yingde" corresponde  unidade de recuperao n9 7 da provncia de Guang-dong. As prprias famlias dos internos s escrevem para uma caixa postal annima. E foi regra durante a era maosta que as visitas fossem proibidas durante todo o perodo de instruo (que normalmente ultrapassava um ano). Os parentes nem sempre eram informados sobre o lugar de deteno ou o falecimento do prisioneiro, especialmente durante a Revoluo Cultural  ou ento s muito tempo depois: os filhos do ex-presidente da Repblica Liu Shaoqi, encarcerado numa priso secreta, s souberam da morte do pai (novembro de 1969) em agosto de 1972; s nessa ocasio eles puderam visitar a me, tambm detida desde agosto de 1967. Por ocasio de seus raros deslocamentos "pelo mundo", os prisioneiros devem fazer-se invisveis. Habituados a manterem sempre a cabea baixa quando fora das suas celas, e a calarem-se, eles recebem, numa estao de trem, estas estranhas instrues: "Comportem-se naturalmente no interior do trem.  proibido, repito, proibido baixar a cabea. Se algum precisar ir aos lavabos, dever fazer sinal ao guarda: punho fechado com o polegar estendido. Falar e fumar sero autorizados. Nada de brincadeiras. Os guardas tm ordens para disparar." 
	Os testemunhos de antigos prisioneiros foram durante bastante tempo muito raros: por um lado, como veremos, era, na poca de Mo, muito difcil, e pouco frequente, sair do universo penitencirio; por outro, o libertado era muitas vezes obrigado a prometer nada revelar sobre o que tinha sofrido, sob pena de reencarceramento. Por isso, os estrangeiros  nfima parte dos detidos  forneceram a grande maioria dos relatos que, ainda hoje, constituem o essencial da nossa informao: protegidos pelos respectivos governos, eles conseguiram frequentemente sair vivos do crcere. Alguns foram expressamente encarregados de testemunhar sobre o sofrimento do exrcito de sombras de que participaram durante algum tempo. Foi o caso de Jean Pasqualini (seu nome chins sendo Bao Ruo-wang): um dos camaradas de cadeia explicou-lhe por que razo os outros presos velavam tanto pela sua sade e segurana: "Todos esses homens... e pensar que nenhum deles conseguir jamais sair da priso, incluindo eu prprio.  um contrato para a vida. Voc  o nico diferente, Bao. Pode ser que um dia voc saia pela porta grande. Pode acontecer a um estrangeiro, mas no a ns. Voc ser o nico a poder falar disso, se voc sair. Foi por isso que quisemos conservar sua vida, Bao, [...] enquanto estiver aqui voc vai continuar vivo. Posso prometer isso. E, se voc for transferido para outros campos, voc encontrar outros presos que pensaro como ns. Voc  uma carga preciosa, meu velho!" 

	O sistema penitencirio mais povoado de todos os tempos

	O laogai, ou seja, parte nenhuma... Nesse buraco negro, o sol radioso do maosmo enterra dezenas de milhes de indivduos (50 milhes no total at meados dos anos 80, segundo Harry Wu - o nmero  apenas uma ordem de grandeza). Muitos morrero: se cruzarmos as duas avaliaes aproximativas de Jean-Luc Domenach (uma dezena de milhes de detidos por ano, em mdia - entre 1% e 2% da populao chinesa, conforme os momentos , e 5% de mortalidade anual), veremos que 20 milhes de chineses morreram em cativeiro, quatro milhes dos quais durante o Grande Salto, entre 1959 e 1962 (mas o regresso s raes "normais" - que j eram mnimas - s aconteceu, em alguns casos, em 1964).'35 Depois do extraordinrio testemunho de Pasqualini, dois estudos recentes (os de Wu e de Domenach) permitem que tenhamos uma viso de conjunto do mais desconhecido dos trs grandes universos concentracionrios do sculo.
	 de fato um vasto universo, com permanncia (pelo menos at 1978, ano da primeira grande onda de libertaes)'36 e tambm variedade. Variedade de prisioneiros: 80% de "polticos" por volta de 1955 (mas numerosos indivduos presos por delito comum podem ser requalificados como polticos  o que agrava a pena); os indivduos presos por "delito comum" so aproximadamente 50% no incio da dcada seguinte, e perto de dois teros em 1971:137 sinal da desafetao popular relativamente ao regime e do regresso da criminalidade numa atmosfera de instabilidade poltica. Variedade de formas de internamento:138 centros de "preventiva", prises (entre as quais algumas muito especiais para dirigentes cados em desgraa), laogai propriamente dito, e formas "atenuadas" de deportao que so o laojiao e o jiuye. Os centros de detenoconstituem os canais de acesso ao arquiplago penitencirio; em nmero de aproximadamente 2.500, situados nas cidades,  l que os suspeitos passam pela fase de formao de culpa, de durao varivel (podendo ir at dez anos!);  tambm neles que se cumprem frequentemente as penas inferiores a dois anos. As prises, que albergam apenas 13% dos detidos, so cerca de um milhar, e em geral dependem diretamente das autoridades centrais; desempenhando um papel semelhante quele dos nossos "presdios de segurana mxima", encerram, sob vigilncia reforada, os condenados a penas mais pesadas (em especial as condenaes  morte com um adiamento de dois anos, bizarria do direito chins que na maioria das vezes se traduz num indulto por "reforma sincera"), e os prisioneiros "sensveis" (altos quadros, estrangeiros, eclesisticos, dissidentes, espies, etc.); as condies de vida, muito variveis, podem no ser excessivamente ms (a Priso n<? l de Pequim, onde os presos so bem alimentados, dormem num colcho de palha de arroz e no em cima de uma tbua  um "sonho" para os que l chegam vindos de outros pontos do arquiplago139 ,  o estabelecimento modelo que se mostra aos visitantes estrangeiros); mas a disciplina, particularmente estrita, a dureza do trabalho industrial imposto, a intensidade do enquadramento ideolgico levam frequentemente os detidos a solicitar o seu envio para "o ar livre", num campo de trabalho.
	A grande massa dos detidos encontra-se, pois, em vastos campos de trabalho, espalhados por todo o pas, situando-se os maiores e mais povoados nas zonas semidesrticas do Norte da Manchria, da Monglia Interior, do Tibet, do Xinjiang e sobretudo do Qinghai, verdadeira "provncia penitenciria", espcie de Kolyma chins de clima ardente no vero e glacial no inverno... O seu campo n. 2  talvez o maior da China, com pelo menos 50.000 deportados. Os campos das regies mais remotas do Oeste e do Nordeste tm a reputao de serem muito duros, mas globalmente os ritmos de trabalho so mais esgotantes nas fbricas-prises das zonas urbanas do que nas grandes fazendas penitencirias do Estado. Dependendo em princpio das administraes provinciais ou municipais (Xangai tem a sua rede, distribuda por numerosas provncias), os detidos tm, no seu conjunto, a mesma origem geogrfica (no se encontram tibetanos no Leste da China; ao contrrio do que acontecia na URSS, os campos integram-se em estratgias econmicas locais ou regionais, e s excepcionalmente participam em projetos em escala nacional, como a "estrada de ferro da amizade", em direo  Quirguzia sovitica, cuja concluso foi atrasada 30 anos pela dissenso sino-sovitica...
	A populao desses campos divide-se em trs grupos cuja situao  muito diferente. A massa mais importante, e sobretudo a mais permanente,  representada, no tempo de Mo, pelos adstritos ao laogai propriamente dito, termo que se poderia traduzir por "reforma1^ pelo trabalho". Esses condenados a penas de mdia e longa durao esto organizados militarmente (esquadres, batalhes, companhias, etc.); eles perderam todos os direitos cvicos, no recebem nenhum salrio e s muito ocasionalmente podem ter visitas. Nos mesmos campos, e mais raramente nos estabelecimentos especiais, encontramos igualmente os sujeitos  "reeducao pelo trabalho", ou laojiao. Trata-se de uma forma de deteno administrativa, criada em agosto de 1957, no auge da campanha antidireitista; de certo modo, ela formaliza as prticas de encarceramento paralegal da Segurana. As vtimas no so condenadas (no h, portanto, um perodo fixo para a deteno), no perdem os seus direitos cvicos (mas no h assembleias de voto nos campos...) e recebem um pequeno salrio (quase totalmente retido para cobrir as despesas de "cama e mesa"). As faltas de que as acusam so leves, e a sua estada no laojiao no excede em princpio alguns anos; mas lhes  dado a entender, da forma mais dura, que muito depende da sua atitude... A disciplina, as condies de deteno e de trabalho no laojiao so, na realidade, muito prximas das do laogai, e  a Segurana que administra ambos.
	Um pouco mais "privilegiados" so os "adstritos profissionais obrigatrios" dojiuye, por vezes denominados "trabalhadores livres". Essa liberdade  limitada, uma vez que eles no tm o direito de abandonar o local de trabalho, na maioria das vezes um campo de trabalho, exceto por ocasio de uma ou duas licenas anuais. Mais bem tratados, um pouco menos mal pagos do que no laojiao, podem mandar vir a famlia ou casar, mas vivem em condies de semi-encarceramento. Trata-se, na realidade, da "cmara de descompresso" dos campos, onde os "libertados" so guardados por vezes para o resto das suas vidas: nos anos 60, 95% dos sobreviventes do laogai teriam sido colocados no jiuye, e 50% ainda no incio da dcada de 80, bem como de 20% a 30% dos ex-laojiao.M3 Afastados de seus lugares de origem, tendo perdido os empregos e o direito a residir na cidade, geralmente divorciados (a esposa  constantemente incitada pelas autoridades a separar-se do "criminoso"), suspeitos para o resto das suas vidas porque "erraram", o mais triste  que muitas vezes no tm outro lugar para onde ir, e resignam-se  sua condio... Nada mais tendo a esperar, podem inspirar pena at aos detidos do laogai: "Os trabalhadores livres, que comevamos a encontrar, formavam um triste grupo. Podemos dizer que estavam verdadeiramente na priso como residentes. Eram preguiosos, inexperientes e pouco asseados. Visivelmente, tinham chegado  concluso de que j nada valia a pena, e de certa forma tinham razo. Estavam sempre famintos, sob as ordens dos guardas, e eram fechados durante a noite como o resto de ns. A nica diferena entre a nossa condio e a deles era o privilgio que tinham de visitar a famlia. Nada mais que isso.  verdade que recebiam um salrio, mas gastavam-no todo na alimentao e na roupa, que tinham deixado de ser oferecidas pelo governo. Esses trabalhadores livres mostravam-se totalmente indiferentes a tudo o que pudesse acontecer. Sob o regime de Mo, qualquer condenao era na realidade uma condenao para toda a vida.

	 procura do "homem novo"

	A priso ilimitada constitui uma contradio com o prprio projeto, altamente propagandeado, do sistema penitencirio: a reforma do detido, a sua transformao num "homem novo". Com efeito, diz Jean-Luc Do-menach, o sistema proclama alto e bom som que "a deteno no  um castigo, mas uma ocasio para o criminoso se reabilitar". Um documento interno da Segurana especifica o processo a que o suspeito deve ser submetido: "Ningum pode submeter-se  lei, sem primeiro ter reconhecido os seus crimes. O reconhecimento dos crimes  uma condio prvia obrigatria; a submisso  lei  o comeo da reforma. Reconhecimento e submisso so as duas primeiras lies que  necessrio ensinar ao prisioneiro e ter presentes no esprito ao longo de todo o processo de reforma"; uma vez conseguida a ruptura com o passado, o prisioneiro pode comear a ser penetrado por "ideias justas": "E imperativo instituir os quatro princpios educativos de base  para voltar a encaminhar as ideias polticas do detido no bom sentido: o marxismo-leninis-mo, a f no maosmo, no socialismo, no Partido Comunista e na ditadura democrtica do povo." Consequentemente, os estabelecimentos prisionais so sobretudo locais de ensino para esses "maus alunos" indisciplinados e um pouco lentos de esprito que so os detidos. "Damos as boas-vindas aos novos camaradas estudantes", anuncia uma bandeirola do campo de trabalho que acolhe Pasqualini. O estudo  tudo, menos uma palavra v: durante todo o perodo de instruo, ocupa pelo menos duas horas dirias,  noite, depois do jantar, no mbito da cela; mas, se os "progressos" de certos prisioneiros so insuficientes, ou durante as campanhas polticas, pode prolongar-se por todo o dia, toda a semana ou at todo o ms. Em muitos casos, um perodo de "estudo contnuo", que pode ir de 15 dias a trs meses, serve de estgio de integrao no universo prisional. As sesses decorrem de acordo com um ritual extremamente rgido, durante o qual  rigorosamente proibido caminhar, levantar-se (mesmo para mudar a posio sentada  preciso pedir autorizao), conversar... e dormir, tentao permanente, sobretudo se o trabalho foi duro durante o dia. Pasqualini, criado no catolicismo, ficou surpreendido ao encontrar a meditao, a confisso e o arrependimento transformados em prticas marxistas-leninistas  situando-se a diferena na dimenso obrigatoriamente coletiva e pblica desses atos: o objetivo no  restaurar o lao entre o homem e Deus, mas fundir o indivduo numa massa totalmente submetida ao Partido. Para variar os prazeres, as sesses centradas na confisso (obrigatoriamente muito pormenorizada) deste ou daquele detido alternam com as leituras comentadas do Dirio do Povo (durante a Revoluo Cultural, sero as Obras do presidente Mao  era obrigatrio trazer sempre consigo o livro das suas Citaes), ou com "discusses" sobre qualquer acontecimento considerado assunto edificante.
	Em todos os casos, o objetivo  sempre o mesmo: levar  abdicao da personalidade. O chefe da cela, tambm ele um prisioneiro, frequentemente um antigo membro do PC, desempenha aqui papel fundamental: "Lanava-nos infatigavelmente em discusses de grupo ou em histrias que contivessem princpios morais a observar. Todos os outros temas a que os nossos espritos poderiam abandonar-se - a famlia, a comida, o desporto, os passatempos ou, evidentemente, o sexo - eram absolutamente proibidos. 'Aos olhos do governo, devemos estudar em conjunto e vigiar-nos mutuamente', tal era a divisa, e estava inscrita por todo lado na priso." Convm purgar-se, reconhecer que se agiu mal porque se era mau: "Seja qual for a categoria a que pertenamos, todos cometemos os nossos crimes porque tnhamos maus pensamentos", assegura o chefe da cela. E se isso acontecia, a culpa era da contaminao pelas ideias capitalistas, imperialistas, reacionrias: todos os delitos so, em ltima anlise, polticos numa sociedade onde nada escapa ao poltico.
	 A soluo  simples: mudar de ideias. E, como na China o rito  inseparvel do corao, aceitar o molde que far de todos e cada um mais um revolucionrio padronizado, seno mesmo um heri do tipo Lei Feng, esse soldado muito orgulhoso de ser uma pequena engrenagem sem crebro ao servio da Causa e que, tendo tido a sorte de morrer esmagado em servio, foi, no incio dos anos 60, apresentado pelo marechal Lin Biao como o exemplo a seguir: "O prisioneiro aprende muito rapidamente a falar sob a forma de slogans que no lhe dizem nada. O perigo disto, evidentemente,  que acaba por pensar s por slogans. A maior parte sucumbe a esse mal."
	 A pretensa "lavagem cerebral" descrita por certos ocidentais no  mais do que isso: em si mesma, nada de muito sutil, a imposio bastante rude de uma ideologia grosseira, que tem resposta para tudo precisamente porque  simplista. Trata-se principalmente de no dar ao prisioneiro a mnima possibilidade de expresso autnoma. Os meios para consegui-lo so mltiplos. Os mais originais so uma subalimentao sistemtica, que enfraquece tanto a resistncia como a vida interior, e uma saturao permanente atravs da mensagem da ortodoxia, num contexto em que no se dispe de tempos livres (estudo, trabalho, tarefas que preenchem inteiramente os longos dias), nem de espao de intimidade (celas superlotadas, luzes acesas toda a noite, muito poucos objetos pessoais autorizados), nem, evidentemente, da menor latitude para exprimir um ponto de vista original: todas as intervenes (alis obrigatrias) numa discusso so minuciosamente anotadas e registradas no dossi de cada preso. Em 1959, Pasqualini pagou caro por ter expressado uma ligeira falta de entusiasmo relativamente  interveno chinesa no Tibet. Outra originalidade: delegar aos prprios prisioneiros a maior parte do trabalho ideolgico, o que prova o alto nvel de eficcia do sistema. Os presos revistam-se mutuamente, avaliam os resultados dos companheiros em matria de trabalho (e por conseguinte de raes alimentares), pronunciam-se sobre o grau de "reforma" dos libertveis; e, sobretudo, criticam os companheiros de cela, tanto para os levarem a uma autocrtica completa quanto para provarem os seus prprios progressos.

	Urina e dialtica

	Numa noite fria e ventosa,  hora do estudo, sa da cela para ir urinar. Quando o vento gelado do nordeste me bateu no rosto, senti-me menos inclinado a percorrer os 200 metros que me separavam das latrinas. Caminhei at um barraco e urinei contra a parede. Afinal, pensei, ningum me veria naquela escurido.
	Enganava-me. Quando estava acabando recebi um violento pontap no traseiro. Quando me voltei, tudo o que consegui distinguir foi uma silhueta, mas a voz era a de um guarda.
"No conhece o regulamento de higiene? - perguntou. - Quem  voc?"
	Disse o meu nome, e o que se seguiu foi uma lio, da qual nunca me esquecerei, f...]
	"Admito que errei, guarda, mas aquilo que acabo de fazer constitui apenas uma infrao ao regulamento da priso, ao passo que o senhor violou a lei. Os funcionrios do governo no tm o direito de bater nos prisioneiros. A violncia fsica  proibida."
Seguiu-se um silncio, durante o qual a silhueta refletiu, e eu esperei o pior.
	"O que diz  correto, Bao - respondeu ele calmamente, num tom comedido. Se eu admitir que cometi um erro - e eu levantarei a questo quando da nossa prxima sesso de autocrtica (a dos guardas) , estaria disposto a voltar  sua cela e a escrever uma confisso completa?"
	Fiquei surpreendido por essa reao. E comovido tambm, pois estava em presena de um guarda que admitia o seu erro diante de um prisioneiro! [...]
"Sim, guarda, com certeza que sim."
	[...] Sentei-me no meu lugar e comecei a preparar a minha confisso. Quando do exame de conscincia semanal, alguns dias mais tarde, li-a em voz alta para que toda a cela ouvisse.
	"Superficialmente, o que fiz pode parecer sem grande gravidade  acrescentei, depois de ter acabado a minha leitura , mas, se examinarmos as coisas mais atentamente, o meu ato demonstra que no respeito os ensinamentos do governo e que resisto  reforma. Ao urinar daquela maneira, fazia disfaradamente ostentao da minha clera. Foi um gesto cheio de covardia. Foi como se cuspisse na cara do governo pensando que ningum me via. S posso pedir ao governo que me castigue o mais severamente possvel.
	A confisso foi enviada ao guarda Yang, e eu fiquei  espera. Preparava-me j, fortalecendo a minha coragem, para fazer mais uma estada na solitria. Dois dias mais tarde, Yang entrou na cela com o seu veredicto.
	"H dias, disse ele, um de vocs julgou-se acima da lei e cometeu um falta grave. [...] Deixaremos passar por essa vez, mas no pensem que podero sempre livrar-se de dificuldades escrevendo uma carta de desculpas."

	A arma alimentar

	Depois, havia a comida - a nica coisa importante, a maior alegria e a mais poderosa motivao de todo o sistema penitencirio. Eu tivera a pouca sorte de chegar  Alameda da Bruma sobre a Erva154 apenas um ms depois da introduo do racionamento como parte oficial da tcnica dos interrogatrios. A desesperada-mente magra e aguada papa de milho, as pequenas e duras bolachas de wo'tou e a folha de um legume tornaram-se o centro da nossa vida e o objeto fundamental da nossa ateno mais profunda.  medida que o racionamento continuava e ns emagrecamos, aprendemos a comer cada pedao com uma aplicao infinita, fazendo-o durar o maior tempo possvel. Circulavam rumores e histrias desesperadas sobre a qualidade e a abundncia da comida nos campos de trabalho. Essas informaes, descobri mais tarde, eram frequentemente inventadas pelos interro-gadores para encorajarem os presos a confessar. Ao fim de um ano desse regime, eu estava disposto a admitir fosse o que fosse para conseguir mais comida.
	A falta de alimentao era admiravelmente estudada: davam-nos o suficiente para nos manter vivos, mas nunca o bastante para nos permitir esquecer a nossa fome. Durante os meus 15 meses no centro de interrogatrios, comi arroz uma nica vez, e carne nunca. Seis meses depois de ter sido preso, j no tinha mais nenhuma barriga, e comeava a ter as articulaes feridas de uma forma caracterstica devido ao simples contato do corpo com o leito comunitrio. A pele das minhas ndegas pendia como os seios de uma velha. Comecei a ver mal, e perdi a capacidade de concentrao. Atingi uma espcie de recorde de carncia de vitaminas quando fui finalmente capaz de cortar as unhas dos ps com a mo, sem me servir do cortador de unhas. Os meus cabelos caam. [...]
	"Antigamente a vida no era to m assim - disse-me Loo. Tnhamos um prato de arroz de 15 em 15 dias, autntico po branco no fim de cada ms e um pouco de carne nas grandes festas, como o ano-novo, o 19 de maio e o 19 de outubro. No era nada mau."
	A mudana deveu-se ao seguinte: uma delegao do povo fora inspecionar a priso durante o perodo das Cem Flores. 157 Eles tinham ficado horrorizados ao verem os presos comerem to bem. Era intolervel, concluram, que aqueles contra-revolucionrios - refugo da sociedade e inimigos do povo - se beneficiassem de um nvel de vida superior ao de muitos camponeses. A partir de novembro de 1957, deixara de haver arroz, carne e farinha de trigo nos dias de festa.
	A alimentao obcecava-nos ao ponto de nos tornarmos loucos, em certo sentido. Estvamos dispostos a tudo. Era um clima perfeito para os interrogatrios. Pusemo-nos todos a pedir para sermos enviados para os campos de trabalho. Ningum saa da Alameda da Bruma sobre a Erva sem t-lo especificamente solicitado por escrito. Havia at uma frmula oficial: "Peo que me autorizem a demonstrar quanto me arrependo dos meus erros trabalhando nos campos de trabalho".
	Mais tarde, quaisquer que fossem as condies intolerveis que tivssemos de suportar nos campos de trabalho, qualquer guarda podia dizer-nos, sem mentir, que s estvamos ali porque o tnhamos pedido. 

	Os outros meios de presso sobre o prisioneiro so mais clssicos. A cenoura  uma promessa de indulgncia se ele confessar todos os seus "crimes", se for um preso modelo, se contribuir ativamente para a "recuperao" dos companheiros, e tambm se denunciar os seus "cmplices", os colegas de crcere insubmissos (trata-se de um teste essencial de sinceridade na reforma: "A denncia dos outros  uma excelente forma de penitncia." Na sala de interrogatrios, uma bandeirola proclama: "Indulgncia para com os que confessam; severidade para com os que resistem; redeno para os que conseguem mritos, recompensas para os que conquistam grandes mritos." Alguns, condenados a longas penas, esperando conseguir alguns anos de remisso, mostram-se zelosos propagandistas. O problema - Pasqualini d numerosos exemplos -  que no lhes pagam na mesma moeda: a "boa conduta" no evita uma pesada condenao, e, dado que muitas vezes as penas s so anunciadas oralmente (o acusado est frequentemente ausente do seu prprio julgamento), uma "remisso" no faz mais do que reduzir a durao da deteno quilo que sempre esteve previsto desde o incio. Um velho prisioneiro revela o segredo do negcio: "Os comunistas no se sentem obrigados a cumprir as promessas que fazem aos seus inimigos. Como meios para atingir os seus fins, no hesitam em utilizar todas as artimanhas e astcias que possam servir-lhes  e isso inclui ameaas e promessas [...]E no se esquea de um outro detalhe: os comunistas no tm o mnimo respeito por aqueles que viram a casaca." 
	O porrete tem, infelizmente, mais consistncia. Os agravamentos de pena esto longe de serem excepcionais: aquele que no se submete confessando, aquele que se recusa a denunciar ("esconder informaes ao governo  um delito passvel de castigo"),162 aquele que faz afirmaes herticas, aquele que, interpondo apelo  sua condenao, mostra que no aceita a "vontade das massas", todos eles incorrem em novas e pesadas condenaes:  assim possvel passar de cinco anos de priso para priso perptua... E, depois, h o mal que os prisioneiros podem fazer uns aos outros. Uma vez que a "carreira" do chefe de cela depende das suas "ovelhas", esse ser mais severo com os recalcitrantes, sendo por sua vez apoiado pelos oportunistas. Um grau acima,  a "prova", ou a "luta". Nada  espontneo - a vtima  escolhida pela direo; o lugar (cela ou ptio), o momento e a intensidade so predeterminados -, mas a atmosfera anda prxima (pelo menos no assassinato) dos pogroms camponeses da reforma agrria: "A nossa vtima era um prisioneiro com cerca de 40 anos, acusado de ter feito uma falsa confisso. ' um contra-revolucionrio empedernido!', gritava um guarda atravs de um megafone de cartolina. [...] Sempre que ele levantava a cabea para dizer qualquer coisa - fosse verdade ou mentira, no nos interessava - ns o afogvamos sob uma tempestade de gritos: 'Mentiroso!', 'Vergonha da humanidade!', ou mesmo 'Pulha!' [...] A prova continuou nessa linha durante trs horas, e a cada minuto que passava tnhamos mais frio e mais fome, e tornvamo-nos mais malvados. Penso que seramos capazes de faz-lo em pedaos para conseguirmos o que queramos. Mais tarde, quando tive tempo para reletir, compreendi que tambm ns tnhamos sido as nossas prprias vtimas e tnhamos submetido a ns mesmos  prova, preparando-nos mentalmente para aceitar a posio do governo com um consentimento apaixonado, fossem quais fossem os mritos do homem que atacvamos."
	 compreensvel que, em semelhantes condies, a imensa maioria dos prisioneiros apresente, depois de algum tempo, todos os sinais exteriores da submisso. Isso s muito secundariamente tem a ver com as caratersticas da identidade chinesa: tratados sobretudo menos desumanamente, muitos prisioneiros de guerra franceses do Vietminh, confrontados com a mesma poltica de reeducao, seguiram o mesmo itinerrio. A eficcia da reedu-cao tem a ver com a combinao sinrgica de dois poderosos meios de presso psicolgica: uma infantilizao radical, em que o Partido e a administrao se tornam pai e me, que reensinam o preso a falar, a andar (de cabea baixa, a correr, guiado pela voz do guarda), a controlar o apetite e a higiene, etc., numa relao de dependncia absoluta; a fuso no grupo, responsabilizvel por cada gesto, por cada palavra, famlia de substituio no preciso momento em que os contatos com a verdadeira famlia tornaram-se quase impossveis, em que as esposas dos detidos so incitadas a divorciarem-se, e os filhos a renegarem os pais.
	Qual , no entanto, o grau de profundidade da reforma? Falar por slogans, reagir como um autmato,  simultaneamente aniquilar-se, fazer um "suicdio psquico", e proteger-se contra os problemas, sobreviver. Pensar que  fcil conservar a sua identidade, duplicando sua personalidade seria certamente demasiado otimista. Mas at aquele que acaba por no detestar mais o Big Brother raciocina mais em termos de utilidade do que de convico. Pasqualini diz que, em 1961, a sua "reeducao tinha sido to bem-sucedida, que [ele] comeava a acreditar sinceramente no que os guardas [lhe] diziam". E acrescenta em seguida: "Sabia perfeitamente que era do meu interesse manter a minha conduta to prxima quanto possvel da letra da lei". A contraprova  essa tomada de posio ultramaosta de um chefe de cela: para provar o seu ardor no trabalho e a sua fidelidade ao regime, os detentos deveriam exigir ir trabalhar, mesmo quando o limite fatdico de 15C negativos era ultrapassado; deveriam levantar-se antes da hora imposta. Mas o guarda acaba por interromper a homilia, considerando-a "totalmente contrria  ortodoxia", e os detidos parecem aliviados. Como tantos chineses, acreditavam um pouco naquilo, mas estavam sobretudo interessados em evitar problemas.

	Criminoso, forosamente criminoso
	
	Podemos muito bem notar que nunca  considerada a possibilidade de uma falsa acusao, ou de uma absolvio. Na China, ningum  preso por ser culpado, mas  culpado por ter sido preso. Com efeito, todas as detenes so feitas pela polcia, rgo do "governo popular", por sua vez dirigido pelo Partido Comunista, presidido por Mao Zedong. Contestar a justia da sua prpria deteno , consequentemente, opor-se  linha revolucionria do presidente Mo, e revelar ainda mais claramente a sua verdadeira natureza de contra-revolucionrio. Seguindo o mesmo raciocnio, o mais insignificante dos guardas, confrontado com qualquer desacordo, por fim ao debate exclamando: "Como voc ousa opor-se ao governo popular?" Aceitar os seus crimes, submeter-se em tudo, tal  a nica via admitida. No interior da cela, os presos dizem uns aos outros: "Voc  um contra-revolucionrio. Todos ns o somos. Do contrrio, no estaramos aqui." Na lgica delirante desse sistema mental funcionando em circuito fechado, o acusado deve fornecer os motivos para a sua prpria deteno ("Diga-nos por que est aqui"  frequentemente a primeira pergunta que o instrutor do processo lhe faz) e redigir a sua prpria ata de acusao, incluindo a avaliao da pena "merecida". Entre essas duas fases: confisses sucessivas (se surge algum problema srio,  preciso recomear do zero), que podem exigir meses de trabalho e comportar centenas de pginas, relatando dcadas de vida; e, enfim, os interrogatrios, que se estendem geralmente por longos perodos, podendo chegar a trs mil horas: "O Partido tem todo o tempo do mundo",  o que se ouve dizer. Os interrogadores jogam frequentemente com a privao do sono (redobrada pelo carter muitas vezes noturno das sesses de instruo), com a ameaa de uma pena mais severa - seno mesmo de uma execuo -, ou com a visita aterradora a uma sala de tortura em estado de funcionamento, apresentada depois como um "museu".
	A violncia fsica propriamente dita  rara, pelo menos entre meados dos anos 50 e a Revoluo Cultural; tudo o que possa assemelhar-se  tortura, assim como as pancadas e at os insultos so formalmente proibidos, e os detidos o sabem: um "deslize", e tm a oportunidade nica de fazer tremer os guardas. Por isso, esses recorrem a uma violncia disfarada, que no se confessa: a "prova" (onde as pancadas, vindas dos outros prisioneiros, so toleradas), ou o encarceramento em atrozes masmorras, sem aquecimento, sem ar, por vezes to estreitas, que um homem no pode sequer estender-se, e onde o preso est em geral permanentemente acorrentado ou algemado (muitas vezes com as mos atrs das costas), o que torna a higiene e as refeies quase impossveis. O prisioneiro, levado  condio de animal, esfomeado, acaba frequentemente por morrer se o castigo se prolonga para alm dos oito dias. A imposio permanente de algemas muito apertadas  a forma de "quase-tortura" mais praticada: a dor torna-se rapidamente insuportvel, as mos incham, as cicatrizes so frequentemente irreversveis: "Usar algemas especiais e apert-las nos pulsos dos prisioneiros era uma forma de tortura muito utilizada nas prises de Mo. Tambm acontecia acorrentarem os tornozelos do preso. Por vezes, prendiam as algemas s grades da janela, de modo que o preso no podia comer, nem beber, nem ir s latrinas. O objetivo era minar o moral do indivduo, degradando-o. [...] Como o governo popular pretendia ter abolido todas as formas de tortura, isto se chamava oficialmente 'punio' ou 'persuaso'".
	A instruo tem por objetivo obter a confisso (que, de fato, tem fora de prova) e as denncias, que autenticam a sua "sinceridade" ao mesmo tempo que lhe do sentido, do ponto de vista do aparelho policial:  de regra que trs denncias significam priso, e a sequncia continua... Salvo algumas poucas excees relatadas, os mtodos destinados a vencer a resistncia do detido so classicamente policiais: coloc-lo face s suas contradies, fingir que se sabe tudo a seu respeito, confrontar as suas declaraes com outras confisses ou denncias. Estas ltimas, obtidas por coao ou espontaneamente (h "caixas de denncias" por todo lado, nas ruas das cidades), so to numerosas, que  muito difcil esconder qualquer episdio significativo do seu passado. A leitura das cartas de delao que lhe dizem respeito provoca o desmoronar da resistncia de Pasqualini: "... Foi uma revelao assustadora. Entre aquelas centenas de pginas encontravam-se formulrios de denncia preenchidos por colegas, por amigos e por todo o gnero de pessoas que eu s tinha encontrado uma ou duas vezes [...] quantas pessoas, a quem eu dera a minha confiana sem reservas, tinham-me trado!"'72 Nien Cheng, libertada em 1973 sem ter confessado (fato excepcional, ligado, nesse caso,  sua extrema tenacidade, mas tambm aos ataques desferidos contra o aparelho judicirio-policial pela Revoluo Cultural), viveu em seguida durante anos rodeada por parentes, amigos, alunos e criados que tinham tido, todos eles, qualquer coisa a dizer  Segurana a seu respeito - o que, por vezes, eles prprios reconheceram, considerando no entanto que no tinham tido escolha. 

	Resistir a Mo

	No dia em que regressei ao hospital, a guarda apresentou-me uma caneta e um frasco de tinta:
- Comece a escrever suas confisses! O instrutor est esperando.
	Peguei no rolo de papel que o instrutor me entregara e vi que, em vez das folhas brancas que me tinham dado em 1966 para escrever a minha autobiografia, a primeira pgina apresentava, dentro de um quadrado vermelho e sob o ttulo "Diretiva Suprema", uma citao de Mo: "Eles tm apenas o direito de ser dceis e obedientes; no tm o direito de falar nem de agir quando no  a sua vez". Ao fundo da folha lia-se: "Assinatura do criminoso".
	Senti a clera subir em mim ao ver aquela palavra insultuosa e tomei a deciso de no assinar aquilo. Mas, depois de um momento de reflexo, concebi uma maneira de explorar a situao e desforrar-me dos maostas.
	Por baixo da citao de Mo, desenhei outro quadrado que intitulei igualmente "Diretiva Suprema" e no qual inscrevi uma outra citao de Mo. No fazia parte do Livro Vermelho, mas do seu ensaio Da justa soluo das contradies no seio do povo. Dizia o seguinte: "Onde quer que haja contra-revoluo, devemos evidentemente suprimi-la; quando cometemos um erro, devemos evidentemente corrigi-lo". [...]
Entreguei o papel  guarda, e nessa tarde fui chamada para um interrogatrio.
	Excetuando o militar, encontravam-se na sala os mesmos homens, de rostos sombrios - o que eu j esperava depois de me ter oposto ao seu direito de me considerarem culpada quando no o era. Sem esperar que me ordenassem, inclinei-me imediatamente diante do retrato de Mo. A citao que o instrutor tinha escolhido e que eu li em voz alta era: "Contra os ces dos imperialistas de hoje e aqueles que representam os interesses dos latifundirios e da corja reacionria do Kuomintang, ns devemos exercer o poder da ditadura para suprimi-los. Eles tm apenas o direito de serem dceis e obedientes. No tm o direito de falar nem de agir quando no  a sua vez".
	O papel que eu tinha entregue estava diante do instrutor. Quando me sentei, ele deu um murro na mesa, olhando para mim, e gritou:
 Que significa isto? Pensa que estamos achando isto divertido?
 A sua atitude no  sria - disse o velho operrio.
	- Se no mudar de atitude - afirmou o operrio jovem , voc nunca mais sair daqui.
	Antes que eu pudesse dizer fosse o que fosse, o instrutor atirou o meu relatrio para o cho, espalhando as folhas, e ps-se de p.
	Volte para a sua cela e comece de novo!
Um guarda chega para me levar de volta.
	 No final do processo de instruo, tem de haver um "romance verdadeiro" da culpa, "co-produo entre o juiz e o suspeito", e que representa a "subverso semntica de fatos exatos".'75 O "crime" deve, com efeito, inserir-se na vida real (torna-se mais eficaz quando tanto o acusador quanto o acusado acreditam pelo menos um pouco, e, sobretudo, isso permite implicar "cmplices"), mas totalmente reinterpretado, de forma paranica, como a expresso constante de uma oposio poltica radical e raivosa: assim, evocar numa carta dirigida a um estrangeiro a reduo da rao de cereais em Xangai durante o Grande Salto torna-se uma prova de espionagem  apesar de esses nmeros terem sido publicados pela imprensa oficial e serem conhecidos por toda a comunidade estrangeira da cidade.

	Abdicar da sua personalidade

	No se precisa de muito tempo para que o prisioneiro perca a confiana em si mesmo. Ao longo dos anos, a polcia de Mao aperfeioou os seus mtodos de interrogatrio e atingiu um tal grau de refinamento, que eu desafiaria qualquer pessoa, chinesa ou no, a resistir-lhe. O objetivo no  tanto obrigar-nos a inventar crimes inexistentes, mas fazer-nos admitir que a vida normal que levvamos estava podre, era culposa e passvel de castigo, uma vez que no correspondia  concepo de vida deles prprios  da polcia. A razo desse xito reside no desespero, na percepo de que o preso tem de estar completa, definitiva e irrecupera-velmente  merc dos seus carcereiros. Ele no dispe de qualquer defesa, uma vez que a sua priso  a prova absoluta e indiscutvel da sua culpabilidade. (Durante os meus anos de priso, conheci um homem que tinha efetivamente sido detido por engano - tinha o mesmo nome que a pessoa procurada. Depois de alguns meses, tinha confessado todos os crimes do outro. Quando o erro foi descoberto, as autoridades da priso tiveram uma enorme dificuldade em convenc-lo a voltar para casa. Sentia-se demasiado culpado para isso.) O prisioneiro no tem direito a qualquer processo, apenas a uma cerimnia bem-regulamentada que dura talvez meia hora; no tem o direito de consultar um advogado nem de apresentar recurso no sentido ocidental do termo. 
	 Pronunciada a sentena, o preso  despachado para um campo de trabalho (fazenda do Estado, mina ou fbrica). Embora o pretenso estudo prossiga, mesmo que a "prova", para no enferrujar, continue a esmagar os faltosos de tempos a tempos, o essencial agora  trabalhar: na frase "reforma pelo trabalho", um dos termos, pelo menos, nada tem de hipottico. Os detentos so avaliados, antes de mais nada, com base na capacidade de aguentar 12 horas de um trabalho tremendamente cansativo, com um regime de duas refeies dirias to ralas  mais do que magras  quanto so as refeies do centro de deteno. A cenoura, nesse caso, passa a ser uma rao alimentar de "trabalhador cumpridor", que exige ultrapassar uma norma j claramente superior  dos "civis". Assim individualizados, os resultados so tambm considerados no nvel da cela ou do alojamento: da as competies coletivas (chamadas "lanamentos de Sputniks", no fim dos anos 50) para ver quem consegue embrutecer-se mais (16, 18 horas seguidas) para maior felicidade da administrao. No h dia de descanso, exceto nas grandes festas, em que se  obrigado, de qualquer maneira, a suportar as interminveis arengas polticas. As roupas so muito insuficientes: o preso usa por vezes durante anos aquilo que tinha vestido no momento da deteno; roupas de inverno s so fornecidas nos campos do Norte da Manchria, essa Sibria chinesa, e o regulamento prev uma muda de roupa interior... por ano.
	 A rao alimentar mdia situa-se entre 12 e 15 quilos de cereais por ms (mas um detido que tenha fama de "preguioso" pode ver a sua, reduzida a nove quilos): menos do que recebiam os forados franceses do tempo da Restaurao, menos at que a dos deportados dos campos soviticos, mais ou menos igual  dos campos vietnamitas de 1975-1977-179 As carncias vitam-nicas e proteicas so terrveis: quase nenhuma carne, nem acar, nem leo, poucos legumes ou frutas - da os muitos roubos de comida, sempre pretexto para punies severas, e tentativas de "auto-alimentao" (por exemplo, ratos, que se comem secos, ou plantas comestveis) nas fazendas. Os cuidados mdicos so mnimos (exceto, em certa medida, no caso de doenas contagiosas), e os mais fracos, demasiado velhos ou demasiado desesperados so mandados para verdadeiros campos de moribundos, onde as raes de fome depressa se encarregam de elimin-los. O nico verdadeiro ponto positivo relativamente aos centros de deteno  a conjugao de uma disciplina um pouco menos rgida e de detidos menos endurecidos, menos receosos, mais espontaneamente dispostos a violar os regulamentos quando os guardas do as costas, embora respeitem formalmente a linguagem e o comportamento codificados impostos: um meio humanamente mais vivel, onde  possvel contar com um mnimo de solidariedade.
	  medida que o detido progride na carreira do "sistema laogai", aquilo que constitui a sua grande originalidade - a tnica posta na reeducao -  menor. Mas, a, a trajetria do indivduo acompanha a do pas: depois da fase, de "perfeio" do laogai (1954-1965, aproximadamente) - que v milhes de detidos transformados em estudantes zelosos que se autodisciplinam quase sem interveno exterior e se tornam eventualmente bons e fiis comunistas na priso - tudo comea a esfiapar-se, a degradar-se, a banalizar-se. Isso coincidiu simultaneamente com a chegada cada vez mais macia de presos de delito comum, frequentemente muito jovens, e com esse esforo de desmoralizao geral dos quadros do regime que foi a Revoluo Cultural. Pouco a pouco, o aparelho relaxou a sua presso, ao mesmo tempo que, cada vez com mais freqncia, se formavam gangues entre os detidos. A obedincia e o respeito pela hierarquia deixavam ento de ser automatismos: era preciso um maior enquadramento para obt-los, fosse atravs de concesses, fosse atravs de um uso novo da violncia - e essa violncia nem sempre era em sentido nico. A grande vtima foi de qualquer maneira a reforma do pensamento, essa educao para a servido voluntria. Mas no estaria a contradio inscrita no prprio projeto? De um lado, o apelo a elevar-se acima de si mesmo, a aperfeioar-se, a purificar-se, a juntar-se  massa proletria em marcha para um futuro radioso. Do outro, a sinistra realidade de uma vida inteira em cativeiro, por muitos esforos que se fizessem, e, no caso raro de uma verdadeira libertao, a ostracizao pela incapacidade de lavar-se do pecado original. Em resumo, um discurso sobre a infinita perfectibilidade escondendo mal a rigidez absoluta de uma sociedade regida pela fatalidade - a do erro de um instante, e mais frequentemente ainda a do nascimento.  essa mesma insuportvel, desumana contradio que vai provocar a imploso social da Revoluo Cultural, e que, no resolvida, conduzir ao seu fracasso.

	Uma execuo sumria no laogai

	No meio deles todos estava o cabeleireiro, acorrentado. Uma corda  volta do pescoo, firmemente presa  cintura, mantinha-lhe a cabea baixa. Tinha as mos atadas atrs das costas. Os guardas empurraram-no at  beira do estrado, bem  nossa frente. Ele ali ficou, de p, em silncio, como um penitente amarrado, enquanto dos rastos deixados pelos seus ps se elevava um ligeiro vapor. Yen tinha preparado um discurso.
	"Tenho algo de horrvel a dizer-lhes. No me sinto feliz por isso, e no tenho orgulho em faz-lo.  o meu dever, e isso deveria servir-lhes de lio. Esse ovo podre, que aqui vem  frente de vocs, foi preso por um problema moral: ele mantivera relaes homossexuais com um rapaz. Por esse delito, foi condenado apenas a sete anos. Mais tarde, quando trabalhava na fbrica de papel, a sua conduta foi constantemente m, e ele roubou em diversas ocasies. A pena foi-lhe duplicada. Agora descobrimos que, durante a sua estada aqui, seduziu um jovem prisioneiro de 19 anos - um prisioneiro mentalmente retardado. Se isto acontecesse l fora, na sociedade, seria severamente punido. Mas, ao cometer o seu ato aqui, no s pecou moralmente, como tambm manchou a reputao da priso e da grande poltica da Reforma pelo Trabalho.  por isso que, considerando os seus crimes repetidos, o representante do Supremo Tribunal Popular vai agora ler-lhes a sua sentena."
	O homem de uniforme azul-escuro avanou e leu o sombrio documento, uma recapitulao dos delitos que terminava com a deciso do tribunal popular: a morte, com execuo imediata da sentena.
	Aconteceu tudo de uma forma to repentina, que no tive sequer tempo para ficar chocado ou assustado. Antes mesmo que o representante do tribunal popular acabasse de ler a ltima palavra, o cabeleireiro estava morto. O guarda que se encontrava atrs dele empunhou uma enorme pistola e estourou-lhe os miolos. Uma chuva de sangue e de matrias cerebrais voou pelos ares e foi cair sobre aqueles entre ns que estavam nas primeiras filas. Desviei os olhos da figura horrvel que, no cho, era agitada pelos ltimos sobressaltos, e vomitei. Yen reapareceu e falou novamente:
	"Que isto lhes sirva de aviso. Fui autorizado a dizer-lhes que doravante no haver mais qualquer espcie de indulgncia aqui. A partir de hoje, todos os delitos de ordem moral sero punidos da mesma maneira. Agora, voltem para as suas celas e discutam o que acaba de acontecer." 

	A Revoluo Cultural: um totalitarismo anrquico (1966-1976)
	
	Ao lado dos horrores astronmicos, e quase desconhecidos, da reforma agrria ou do Grande Salto, os cerca de 400 mil a um milho de mortos (esse ltimo nmero  o mais verossmil) relatados pela maioria dos autores a propsito dos estragos da "Grande Revoluo Cultural Proletria" poderiam parecer quase modestos. Se, mais do que qualquer outro episdio da histria contempornea da China, ela impressionou o mundo inteiro e permanece na memria de todos, foi pelo radicalismo extremo do seu discurso e de alguns dos seus atos, mas tambm porque teve lugar nas cidades, porque se concentrou nos meios polticos e intelectuais - e tudo isso na era da televiso, que soube oferecer soberbas imagens de cerimnias polticas as mais convenientes e cheias de um fervor tocante. Enfim, diferentemente dos movimentos anteriores, ela comeou a ser oficialmente condenada na prpria China quase imediatamente depois de ter terminado: tornou-se de oportuno denunciar os excessos dos Guardas Vermelhos, em especial os velhos quadros e dirigentes comunistas - em lugar de insistir nos massacres levados a cabo pelo EPL na fase subsequente, do regresso  "ordem".
	O primeiro paradoxo da Revoluo Cultural reside no seguinte: ao mesmo tempo que o extremismo exaltado pareceu mais do que nunca perto de ter xito, quando do relanamento de um processo revolucionrio que parecia solidamente institucionalizado  varrendo em pouco mais de um ano praticamente todos os centros de poder , ela era, apesar de tudo, um movimento parcial, enquistado nas zonas urbanas, e hegemnico exclusivamente entre a juventude escolarizada. Numa altura em que os campos estavam ainda mal refeitos do Grande Salto e o conflito com a URSS atingia o seu ponto mximo, foi decidido pelo prprio "Grupo da Revoluo Cultural" (GRC) no tocar nem na investigao cientfica - na ocasio concentrada no armamento nuclear , nem no campesinato, nem no exrcito. No esprito do GRC, e talvez no de Mo, era recuar para melhor saltar: nenhum setor da sociedade e do Estado deveria escapar por muito tempo  revolucionarizao. Mas a massa dos rurais agarrava-se ferozmente s "pequenas liberdades" concedidas por Liu Shaoqi, e pelo menos  parcela privada. No se podia destruir a capacidade de defesa nem a economia: a recente experincia do Grande Salto incitava  prudncia neste ltimo aspecto. A premissa bsica era a tomada do poder na "superestrutura" intelectual e artstica e a conquista do poder do Estado. Mas este ltimo objetivo nunca foi totalmente atingido. Essas restries foram por vezes violadas, mas em todo o caso no se assinalam grandes confrontaes ou matanas de grandes propores nos povoados, onde continuava a viver a esmagadora maioria dos chineses: 64% dos incidentes classificados como rurais ocorreram na coroa periurbana de uma grande cidade;184 no entanto, na fase final de "retomada do controle", os relatos do conta de numerosas execues individuais, entre a populao rural, dos que se tinham alinhado do lado errado, ou de Guardas Vermelhos urbanos em fuga para os campos. Finalmente, e aqui reside a grande diferena em relao s depuraes dos anos 50, o objetivo nunca foi claramente eliminar uma camada particular da populao. At os intelectuais, particularmente visados de incio, depressa deixaram de estar na primeira fila dos perseguidos. Alm disso, os perseguidores eram muitas vezes oriundos do seu prprio meio. Os episdios mais mortferos foram, de um modo geral, o resultado de excessos, de violncias relativamente espontneas e de origem local, sem plano de conjunto. Mesmo quando o Centro ordenou operaes militares que conduziram inevitavelmente a assassinatos, foi de uma maneira essencialmente reativa, para fazer face a uma situao fora de controle: nesse sentido, j estamos mais perto da represso de junho de 1989 do que da reforma agrria, e a Revoluo Cultural permanecer talvez como o primeiro sinal do impasse de um comunismo chins perdendo sua energia revolucionria.
	O segundo paradoxo explica, inversamente, por que razo convm dar  Revoluo Cultural todo o lugar que merece nesse relato. O movimento dos Guardas Vermelhos foi uma "rebelio repressiva" (e o seu esmagamento uma vasta represso). J vimos que, desde finais dos anos 20, a dimenso terrorista era inseparvel do comunismo chins. Em 1966-1967, os prprios grupos mais radicais, os que mais ostentam seus ataques s instituies estatais, tm sempre um p no Estado, onde dispem de aliados, no mnimo o presidente Mo, referncia absoluta e constantemente invocada em apoio da menor deciso ttica. Integrando, na grande tradio chinesa, as lgicas do poder at na rebelio, nunca se recusam a exagerar em matria de represso; criticando a pretensa pusilanimidade dos dirigentes face ao inimigo de classe, organizaro imediatamente os seus prprios grupos de "investigadores" truculentos, a sua polcia moral, os seus "tribunais" e as suas prises. Ao longo da Revoluo Cultural, "encontramos a luta da base contra a cpula, mas uma 'base' mobilizada, manobrada, enquadrada, aterrorizada por um poder e uma elite que no ousam mostrar-se"; esse transbordamento do poder atravs de uma verso de si mesmo, uma espcie de alter ego que o imita ao mesmo tempo que o cobre de crticas e de ataques,  representativo da "frmula definitiva do maosmo [que], depois de uma longa busca, acabou por fazer do par rebelio-imprio o princpio permanente de uma alternativa fundadora do poltico acima do Estado e da sociedade". Trata-se, evidentemente, de uma alternativa invivel, porque baseada numa falcia, e da a frustrao daqueles que tinham dado um sentido  sua rebelio: desse "mudar tudo para que nada mude", segundo a frmula de O Leopardo, sair uma contestao tanto da rebelio como do imprio.  certo que muito minoritria, mas consequente, essa contestao levar ao Muro da Democracia de 1979 e ao seu pensador mais ousado, Wei Jingsheng, que, no seu relato autobiogrfico j citado, traz  luz as contradies finalmente mortais de um movimento nascido de descontentamentos legtimos: "Essa exploso de clera revestiu a forma de um culto do tirano e foi canalizada para a via da luta e do sacrifcio pela tirania... [Isto] conduziu a essa situao paradoxal, absurda, de um povo que se ergue contra o seu governo para melhor defend-lo. O povo ops-se ao sistema hierrquico que o subjugava ao mesmo tempo que agitava a bandeira do apoio aos fundadores desse sistema. Exigiu direitos democrticos ao mesmo tempo que lanava um olhar de desprezo  democracia, e pretendeu deixar-se guiar, no seu combate pela conquista dos seus direitos, pelo pensamento de um dspota." Acreditamos, nesse caso, que podemos nos abster de uma apresentao to completa quanto aquela dos episdios anteriores: a Revoluo Cultural, que deu origem a uma literatura abundante e frequentemente de qualidade, em particular atravs dos testemunhos dos seus atores e vtimas,  seguramente menos mal conhecida do que tudo o que a precede. Mas, principalmente, trata-se muito mais de uma outra revoluo (mimada, abortada, desviada, pseudo, se quisermos, mas mesmo assim revoluo) do que de mais uma "campanha de massas". Represso, terror e crimes esto longe de esgotar o sentido do fenmeno, alis extremamente proteiforme, variando segundo os momentos e os lugares. S nos ocuparemos, pois, dos aspectos repressivos da Revoluo Cultural. Podemos distribu-los por trs grandes categorias claramente distintas, inclusive temporalmente: as violncias contra os intelectuais e os quadros polticos (essencialmente 1966-1967), as confrontaes faccionais entre Guardas Vermelhos (1967-1968), e finalmente a brutal retomada do controle da situao operada pelos militares (1968). Com o IX Congresso do PC (1969), inicia-se a fase de institucionalizao - fracassada - de certas "conquistas" de 1966 e, sobretudo, das lutas palacianas, tendo em vista a sucesso de Mao Zedong, enfraquecido pela doena. Os sobressaltos so muitos: eliminao, em setembro de 1971, do sucessor oficialmente designado, Lin Biao; regresso, em 1973, de Deng Xiaoping ao posto de vice-primeiro-minis-tro, e reintegrao macia dos altos quadros afastados por "revisionismo"; ofensiva da "esquerda" do aparelho, em 1974; tentativa, em 1976, de controle do Centro pelos "Quatro de Xangai", dirigida pela esposa do presidente, Jiang Qing, aproveitando a janela de oportunidade que se abriu entre a morte do primeiro-ministro moderado, Zhou Enlai, em janeiro, e a de Mao Zedong, em setembro; em outubro, os Quatro j so apenas um "Bando", devidamente encarcerado, e Hua Guofeng, senhor do pas durante dois anos, pode apitar o fim da Revoluo Cultural. Pouco falaremos dos "anos cinzentos" (a expresso  de J.-L. Domenach) posteriores ao esmagamento dos Guardas Vermelhos: a represso foi, sem dvida, dura, mas retomou nas suas grandes linhas as modalidades dos anos 50.

	Os atares da revoluo
	
	A Revoluo Cultural representa o encontro de um homem com uma gerao. O homem , evidentemente, o prprio Mao. Atingido no interior do aparelho centralpdo desastre do Grande Salto, ele teve de entregar, a partir de 1962, a direo efetiva do pas ao presidente da Repblica, Liu Shaoqi. Reduzido  posio certamente prestigiosa de presidente do Partido, refugia-se nesse "magistrio da palavra" onde sabe no ter de temer qualquer concorrncia. Mas, como velho estrategista que , e receando ser simultaneamente transformado em esttua e definitivamente marginalizado ainda em vida, procura meios de transmisso eficazes que lhe permitam impor as suas escolhas fundamentais. O Partido, firmemente controlado por Liu e pelo seu adjunto, o secretrio-geral Deng Xiaoping, ter de ser contornado por fora; quanto ao governo, subordinado ao PC como em todos os pases comunistas, sob a eficaz direo desse oportunista inteligente que  Zhou Enlai, moderado em razo seno em corao, constitui um elemento neutro na perspectiva de uma confrontao entre faces. Mao tem conscincia de ter perdido o apoio da maior parte dos quadros e intelectuais quando ocorreram os expurgos de 1957, e o das massas rurais com a fome de 1959-1961. Mas, num pas como a China comunista, uma maioria passiva, atomizada e assustada conta menos do que as minorias ativas e colocadas em posies estratgicas. Ora, desde 1959, o EPL  chefiado por Lin Biao, vassalo incondicional do Grande Timoneiro: pouco a pouco, Mao faz dele um centro de poder alternativo, que desempenha um importantssimo papel, a partir de 1962, no Movimento de Educao Socialista  espcie de depurao antidireitista sub-reptcia que pe a tnica no puritanismo, na disciplina e na dedicao, valores muito militares , fornecendo, em 1964, pelo menos um tero dos novos quadros polticos, e fazendo a sua juno com a pequena equipe de intelectuais e artistas fracassados que se estrutura  volta de Jiang Qing e do seu programa de destruio de toda a arte ou de toda a literatura no engajadas conformemente  linha do Partido. A formao militar torna-se obrigatria para os estudantes e, a partir de 1964, o EPL organiza milcias armadas nas fbricas, bairros e distritos rurais. O exrcito no , e nunca ser, candidato ao poder: o enquadramento do Partido  demasiado eficaz, e o medocre Lin Biao  acusado por alguns de ser viciado em herona  no tem pensamento nem projeo poltica prprios. Porm, mais do que nunca, ele . para Mao o seu "seguro de vida" ou, para usar as suas prprias palavras, a sua Grande Muralhado
	A outra alavanca estratgica com que Mao pensa poder contar  a j mencionada gerao, ou mais exatamente a sua frao escolarizada ao nvel dos ensinos secundrio e superior e institutos de formao profissional (incluindo as academias militares, nico elemento do EPL autorizado a formar unidades de Guardas Vermelhos);"i eles apresentam a enorme vantagem de estarem concentrados nas cidades, sobretudo nas maiores, no palco onde decorrero as lutas pelo poder: um quarto dos habitantes de Xangai freqiien-ta as suas escolas. Os que tm entre 14 e 22 anos em 1966 sero para Mao instrumentos muito entusiastas,  proporo de seu grande fanatismo doutrinrio e de sua grande frustrao. Fanatismo: primeira gerao totalmente educada depois da revoluo de 1949, eles so simultaneamente demasiado jovens e demasiado urbanos para saberem alguma coisa sobre os horrores do Grande Salto, !93 dos quais Liu e os seus consortes podero vir a arrepender-se amargamente de no os ter criticado oficialmente. Tal revoluo foi louvada com todas as palavras pelo regime, sendo, segundo Mo, a "pgina em branco" pura de toda e qualquer escria em que ser escrita a exultante epopeia da construo do comunismo, garantida pelo velho tirano: "O mundo vos pertence. O destino da China vos pertence." Depressa essa gerao aprendeu que, como diz uma cano dos Guardas Vermelhos: "O Partido  a nossa me e o nosso pai".'95 E, em caso de conflito de paternidade, a escolha deve ser clara: renegar os genitores. Pasqualini conta deste modo a visita que um "horroroso fedelho de 10 ou 11 anos" faz ao pai, internado no laogai, em 1962: "No queria vir aqui - brada ele, altivamente -, mas a minha me me obrigou. Voc  um contra-revolucionrio e uma desonra para a famlia. Voc causou graves prejuzos ao governo. Merece estar na priso. Tudo o que posso dizer  que seria melhor se reformar, pois, do contrrio, voc ter o que merece". At os guardas ficaram chocados com essas palavras. O prisioneiro voltou lavado em lgrimas (o que  proibido)  sua cela, murmurando: "Se soubesse que isso iria acontecer, tinha-o estrangulado no dia em que nasceu". Tien deixou passar o incidente sem sequer o censurar". Esse garoto teria cerca de 15 anos em 1966, a idade certa para se tornar um Guarda Vermelho... Os mais jovens foram sempre os mais violentos, os mais obstinados a humilhar as suas vtimas.
	Ao mesmo tempo, porm, esses jovens, ensinados a se comportarem como pequenos "robs" vermelhos, sentem-se frequentemente frustrados. Frustrados de herosmo  enquanto a gerao de seus pais lhes enche os ouvidos com relatos das suas proezas revolucionrias e guerreiras , eles imitaro a Longa Marcha, as primeiras bases vermelhas ou a guerrilha antijaponesa durante as confrontaes de 1966-1968: uma vez mais, para parafrasear Marx, a Histria iria se repetir, mas sob a forma de farsa. Frustrados em relao ao essencial da literatura clssica e pela ausncia de liberdade de discusso face aos hiperprudentes professores sobreviventes da Retificao de 1957, eles iriam utilizar os seus pobres conhecimentos  principalmente as obras de Mo, e uma pitada de Lenin - para contestar, em nome da prpria Revoluo, a cinzenta monotonia a que a sua institucionalizao dera lugar. Finalmente, muitos deles, oriundos das camadas "negras" da populao, sujeitos  corrida de obstculos representada pelas selees e pelas quotas sucessivas regidas pelo princpio da origem de classe, podiam considerar-se frustrados de qualquer possibilidade real de alguma vez conseguirem um lugar equivalente ao seu trabalho, ao seu valor e s suas ambies: os estabelecimentos escolares de elite, onde os "negros" so frequentemente majoritrios, sero tambm frequentemente os mais revolucionrios; e a abertura oficial dos Guardas Vermelhos aos "malnascidos", decretada pelo GRC em 1. de outubro de 1966,198 permitir  Revoluo Cultural dar um passo essencial  frente. 
	A autorizao, em 16 de novembro, para a criao de grupos de Guardas Vermelhos nas fbricas e, em 15 de dezembro, nos povoados representar a outra extenso decisiva do movimento. Nessa altura so igualmente suspensos todos os veredictos polticos negativos impostos desde o incio da Revoluo Cultural (maio de 1966) aos operrios; na dinmica do momento, os reabilitados procuraro com freqncia conseguir a anulao de todas as rotulaes "direitistas" e a destruio das fichas secretas onde esto registrados as opinies e os "erros" de cada um. Duas categorias de trabalhadores industriais juntam-se ento em massa aos estudantes e colegiais: os "elementos retardados" e outros discriminados por motivos polticos (mas tudo  poltica...), seja qual for a sua idade; e os trabalhadores sazonais, trabalhadores sem vencimentos fixos, sem garantia de emprego nem proteo sindical (e logo social), geralmente jovens, que formam a maioria do proletariado das novas grandes fbricas e que exigem melhores salrios e contratos permanentes.) Acrescentemos ainda um bom punhado de jovens quadros que entrevem a ocasio inesperada de uma carreira rpida, e de encarregados outrora punidos por uma ou outra razo e desejosos de vingana,201 bem como de oportunistas sempre prontos a uivarem com os lobos do momento (e a tra-los na primeira ocasio): teremos a heterclita coligao de descontentes que, armados de dio e de desejo de promoo social, se lanaram ao assalto de todos os poderes - na escola, na fbrica, nos gabinetes... Entretanto, minoritrios na escala de uns 20% da populao urbana, e mais ainda na escala do pas inteiro, s podem ser bem-sucedidos quando, diante deles, o Estado est paralisado pelos ataques do Centro e o EPL constrangido pelas suas ordens: em ltima anlise,  Mao quem abre e fecha alternadamente as comportas da revoluo, correndo o risco de ocasionalmente no saber o que fazer, devido  rapidez das alteraes da relao de foras e  diversidade das situaes locais, bem como  sua procura permanente de uma conciliao entre rebelio e a manuteno do imprio. Quando os "rebeldes" -  a designao que os engloba -"tomam o poder" (ou, mais concretamente, conseguem que o poder lhes seja entregue: basta para isso a transferncia dos selos), as suas contradies internas e as suas ambies egostas vm imediatamente  tona e do origem a lutas implacveis, frequentemente armadas, entre faces incapazes de definirem-se de outra maneira que no seja contra.

	O momento de glria dos Guardas Vermelhos
	
	As perseguies desencadeadas em 1966 por esses estudantes e colegiais que continuam a ser chamados, essencialmente, os "rebeldes revolucionrios" ficaram como o smbolo do conjunto da Revoluo Cultural. Mas elas foram, no seu conjunto, relativamente pouco mortferas e absolutamente nada inovadoras: com mais um pouco de sadismo e de exaltao juvenil, assemelham-se muito quelas de que foram vtimas os intelectuais dos anos 50. Teriam sido muito mais espontneas? Seria evidentemente absurdo pensar que Mao e os seus aclitos manipulavam cada equipe de Guardas Vermelhos, mas encontramos o cime de Jiang Qing, a esposa do Grande Timoneiro, por detrs das humilhaes de que foi vtima Wang Guangmei, mulher do presidente da Repblica Liu Shaoqi;203 este ltimo s foi sujeito  "autocrtica" e em seguida atirado para a priso (onde morreu, torturado) quando Mao o considerou suficientemente isolado; inversamente, Zhou Enlai, apesar de duramente criticado, escapou a toda e qualquer humilhao. O aspecto sensacional do movimento so os ajustes de contas no topo da hierarquia, com o intermdio dos Guardas Vermelhos;  tambm a ruptura definitiva de solida-riedades que datam, em alguns casos, dos tempos da Longa Marcha; e so os expurgos de quadros comunistas (60% foram expulsos dos seus cargos, embora muitos deles tenham sido reintegrados alguns anos mais tarde, mesmo antes da morte de Mao em setembro de 1976: Deng Xiaoping constitui o melhor exemplo). Mesmo aqui, h que se relativizar a violncia: muito ao contrrio do que aconteceu na URSS stalinista dos anos 30, a maior parte dos altos dirigentes e dos quadros sobreviver aos maus-tratos. S o pouco conhecido ministro de Huillres foi espancado at  morte pelos Guardas Vermelhos, e no houve qualquer execuo judiciria no mais alto nvel. Liu morreu louco, em 1969; Peng Dehuai sofreu fratura de duas costelas, em julho de 1967, durante uma "luta", e morreu de cncer em 1974; o ministro das Relaes Exteriores Chen Yi, muito atacado, foi "ruralizado" em 1969, mas arranjou maneira de voltar ao primeiro plano do cenrio poltico aps a morte de Lin Biao, pouco antes de morrer em consequncia de uma doena; o caso mais dramtico - e mais precoce - continua a ser o do ministro da Segurana Luo Ruiqing: afastado em novembro de 1965 para deixar a Kang Sheng o caminho livre, preso em 1966, ferido nos ps durante uma tentativa de defenestrao voluntria, ele foi finalmente mutilado em 1969 - a operao arriscada foi adiada vrias vezes numa tentativa de faz-lo confessar -, conseguindo mesmo assim sobreviver a Mo. As condies de deteno de todos eles, se bem que penosas e humilhantes, foram muito menos duras do que as dos milhes de prisioneiros que tinham contribudo para enviar para o laogai: beneficiaram-se sobretudo de um mnimo de cuidados mdicos. 
	O cenrio das exaes dos Guardas Vermelhos  tristemente semelhante, de uma ponta  outra da China, nas cidades e nas universidades. Tudo comea em 19 de junho de 1966, na sequncia da leitura, na rdio, do dazibao (cartaz redigido em grandes caracteres) de Nie Yuanzi, professor assistente de Filosofia em Beida (universidade de Pequim, a mais prestigiosa do pas), que convoca  luta diabolizando o adversrio: "Quebremos todos os controles e as malficas conjuras dos revisionistas, resolutamente, radicalmente, totalmente, completamente! Destruamos todos os monstros, todos os revisionistas do tipo Kruschev!" Milhes de estudantes organizam-se, ento, e encontram sem dificuldade nos seus professores, nos encarregados pelas universidades, e depois nas autoridades municipais ou provinciais que tentam defend-los, os "monstros e demnios" a serem eliminados; com uma certa imaginao, chamam-lhes ainda de "gnios malfeitores" ou ento "fantasmas bovinos" ou "espritos reptilianos". O extremista do GRC, Qi Benyu, afirma a propsito de Peng, em 18 de julho de 1967: "A serpente venenosa est inerte, mas ainda no est morta. O tigre de papel Peng Dehuai mata sem pestanejar. E um senhor da guerra. No se deixem iludir pela sua posio, a de um lagarto imvel. Finge simplesmente a morte.  o seu instinto. At os insetos e os animais tm um instinto de conservao, para no falar desse animal carnvoro. Derrubem-no e pisoteiem o seu corpo." Devemos tomar esses termos pitorescos muito a srio, pois eles destinam-se a suprimir por recusa de identificao toda e qualquer possibilidade de piedade. Sabemos agora que essas denominaes conduzem geralmente  "luta", e com bastante freqncia  morte: o apelo  destruio "de todos os monstros" que desencadeou o movimento na universidade de Pequim no permaneceu letra morta. O "inimigo de classe", adornado com cartazes, com chapus e por vezes com roupas ridculas (sobretudo as mulheres), forcado a posturas grotescas (e penosas), com o rosto sujo de tinta preta, obrigado a latir como um cachorro, "de quatro", deve perder a sua dignidade humana. Um professor chamado Ma ("cavalo") teve de comer erva. Conta um velho universitrio, que viu um dos seus estudantes ser espancado at  morte por um colega: "Quase no consigo compreender como aquilo aconteceu. Naquela ocasio, os proprietrios eram os inimigos. Verdadeiramente, tinham deixado de ser pessoas. Podia-se, portanto, usar de violncia contra eles. Era normal"? Em agosto de 1967, a imprensa de Pequim vocifera: os antimaostas so "ratazanas que correm pelas ruas, matem-nos, matem-no". Encontramos essa mesma desumanizao no perodo da reforma agrria, em 1949: assim, um proprietrio de terras  atrelado a um arado e obrigado a lavrar a terra  fora de chicote: "Voc nos tratou como bestas, agora voc pode ser o nosso animal! ",29 gritam os camponeses. Vrios milhes de "animais" como esse foram exterminados. Alguns foram at mesmo comidos: 137, pelo menos, no Guangxi, sobretudo diretores de colgio, e isto com a participao dos quadros locais do PC; certos Guardas Vermelhos mandaram servir carne humana na cantina; foi aparentemente tambm o caso de certas administraes. Harry Wu fala de um executado do laogai, em 1970, cujo crebro foi devorado por um guarda da Segurana. Ele tinha - crime sem igual - ousado escrever: "Derrubem o presidente Mo".
	No se sabe o que, naquele instante, motiva mais esses Guardas Vermelhos cujo grosso cinturo vai, durante muito tempo, constituir a principal arma: parecem oscilar constantemente entre um real desejo de transformao social e o happening de um vero particularmente quente, passando pela prudncia conformista de quem no quer problemas  permanecer passivo equivale a ser qualificado como revisionista, ento, sendo assim... As contradies multiplicam-se j no incio: repete-se interminavelmente o novo slogan simplista: "H sempre razo para nos revoltarmos", inventado em 18 de maio por Mao (e ao qual, aparentemente, poderiam resumir-se os "mil componentes" do marxismo), mas as pessoas impem a si mesmas e s outras um verdadeiro culto do presidente e das suas obras (o famoso Livro Vermelho); sobretudo, s o Centro tem o direito de decidir quem se favorece do "direito  revolta" ( impensvel d-lo aos inimigos, feitos apenas para serem esmagados) e quando essa licena pode ser utilizada: da uma competio feroz entre organizaes de Guardas Vermelhos para se beneficiarem do precioso selo "esquerda". Pretende-se fazer "fogo contra os estados-maiores" - mas o do Exrcito, controlado por Lin Biao, protege os Guardas Vermelhos, e o dos Transportes os leva e trs gratuitamente por toda a China, no outono de 1966, em comboios que gozam de prioridade absoluta... Os "intercmbios de experincias" que os justificam transformam-se frequentemente em inebriantes viagens tursticas para jovens que nunca saram da sua cidade natal, tendo, como atrao 'quatro estrelas', o encontro coletivo com Mo, que provoca lgrimas (obrigatrias para as moas), demonstraes de fervor religioso e, ocasionalmente, tumultos mortais.
	 Mao disse-o em 18 de agosto: "No queremos gentileza, queremos a guerra"; e a Guarda Vermelha Song Binbin ("Song, a Gentil") logo se torna Song Yaowu ("Song Quer a Guerra"). O novo ministro da Segurana, Xie Fuzhi, prximo de Jiang Qing, declara no fim do ms de agosto diante de uma assembleia de quadros policiais: "No podemos nos limitar s prticas comuns; no podemos seguir o Cdigo Penal. Se prenderem pessoas porque bateram noutras, cometero um erro... Os Guardas Vermelhos que matam devem ser punidos? A minha opinio  que, se as pessoas so mortas, pois bem, so mortas; o problema no  nosso... No aprovo o fato de as massas matarem, mas, se as massas odeiam os maus ao ponto de no podermos det-las, ento no insistamos... A polcia popular deve estar ao lado dos Guardas Vermelhos, aliar-se a eles, solidarizar-se com eles, e fornecer-lhes informaes, sobretudo a respeito dos elementos das Cinco Categorias (negras)." Haver, pois, de incio, um combate sem grande risco: face a um aparelho do Partido agitado por correntes contraditrias, dominado pela audcia de Mao e que no ousa condenar o movimento em curso, os intelectuais e tudo o que os rodeia (livros, pinturas, porcelanas, bibliotecas, museus, edifcios culturais) so presas fceis, a respeito das quais todos os cls do poder podem pr-se de acordo.
	 O antiintelectualismo tem, com efeito, j o assinalamos, uma pesada tradio no PCC, e Mao encarnou-a particularmente bem. No  verdade que os Guardas Vermelhos repetem constantemente sua citao: "A classe capitalista  a pele; os intelectuais so os cabelos que crescem na pele. Quando a pele morre, deixa de haver cabelos"? Os funcionrios nunca utilizam a palavra "intelectual" sem acrescentarem o epteto "fedorento"; Jean Pasqualini, que limpava as sandlias ao sair de um chiqueiro de porcos, passou por essa experincia com um guarda, que praguejou: "O seu crebro  ainda mais sujo do que isso, e cheira ainda pior! Pare imediatamente! Isso  um hbito burgus. Limpe antes o seu crebro!" No incio da Revoluo Cultural, os alunos receberam um pequeno compndio de Mao referente ao ensino, no qual o Grande Timoneiro condena o saber dos professores "incapazes de distinguir os cinco gros" e que, "quanto mais aprendem, mais estpidos se tornam". Defende igualmente o encurtamento dos estudos e a supresso da seleo atravs de exames: a universidade deve formar "vermelhos", e no "peritos", e deve ser prioritariamente aberta aos "vermelhos" de nascimento. 
	Com experincia de duas ou trs autocrticas, a maioria dos intelectuais tem pouca vontade de resistncia. E os velhos escritores fazem uma pantomima, durante horas, do "avio", at carem esgotados, diante dos jovens que os insultam; desfilam pelas ruas com o bon de burro enfiado na cabea; so muitas vezes espancados, brutalmente. Alguns morrem, muitos outros suicidam-se, como o grande escritor Lao She, em agosto, ou Fu Lei, tradutor de Balzac e de Mallarm, em setembro. Teng To  assassinado, Wu Han, Cho Shu-li e Liu Ching morrem no cativeiro, e Pa Kin passa anos vigiado em sua residncia. Ding Ling v serem-lhe confiscados e destrudos dez anos de manuscritos. O sadismo e o fanatismo dos "revoltosos" carrascos so terrveis. Assim, na universidade deXiamen (Fujian): "Certos [professores], incapazes de suportar as sesses de ataques e de crticas, adoeceram e morreram praticamente na nossa presena. No senti qualquer pena deles, nem dos poucos que se atiraram pelas janelas, nem daquele que se lanou numa das nossas famosas fontes termais, onde morreu cozido". Cerca de 10% dos professores foram "lutados" (por seus colegas no ensino primrio), e muitos outros foram atormentados.
	As cidades aguardam a chegada dos Guardas Vermelhos como se aguarda um tufo, quando da campanha contra as "Quatro Velharias" (velhas ideias, velha cultura, velhos costumes, velhos hbitos), lanada por Lin Biao em 18 de agosto: os templos foram trancados (mas muitos foram destrudos - por vezes em autos-de-f pblicos  ou danificados), os tesouros escondidos, os afrescos recobertos com massa para sua proteo, os livros escondidos. Queimam-se os cenrios e o guarda-roupa da pera de Pequim, suprimida em proveito das "peras revolucionrias de tema contemporneo" da Senhora Mo, durante dez anos praticamente a nica forma de expresso artstica autorizada. A prpria Grande Muralha  em parte destruda: usam-se os seus tijolos para a construo de chiqueiros. Zhou manda ento murar parcialmente e proteger com tropas o Palcio Imperial de Pequim. Os diversos cultos so muito afetados: disperso dos monges do clebre complexo budista dos montes Wutai, manuscritos antigos queimados, destruio parcial dos seus 60 templos; auto-de-f de exemplares do Alcoro dos Ugures de Xinjiang, proibio de festejar o ano-novo chins... A xenofobia, velha tradio chinesa, atinge extremos aterradores: saque dos tmulos "imperialistas" em certos cemitrios, quase-proibio das prticas crists, martelamento das inscries inglesas e francesas no Bund, em Xangai. Nien Cheng, viva de um cidado britnico, que julgou dever oferecer um caf a um Guarda Vermelho em "servio de revista", ouve-o responder: "Para que necessita beber uma bebida estrangeira? Para que precisa comer comidas estrangeiras? Por que  que tem tantos livros estrangeiros? Por que  que a senhora  to estrangeira?" Os Guardas Vermelhos, esses garotos tragicamente srios, resolvem proibir esses "derivativos da energia revolucionria" que so os gatos, as aves e as flores (tornando-se, assim, contra-revolucionrio plant-las em seu jardim), e o primeiro-ministro tem de intervir para impedir que o sinal vermelho nos semforos passe a significar "Avanar". Nas grandes cidades - principalmente em Xangai , grupos de adolescentes tosquiam sumariamente os cabelos compridos, rasgam com tesouras as calas justas, arrancam os saltos altos, abrem  fora os sapatos de bico pontiagudo, obrigam as lojas a adotar nomes "convenientes": centenas de Orientes Vermelhos que s vendem retratos e obras do Grande Timoneiro desorientam os velhos habitantes deXangai. Os contra-ventores arriscam-se a ver as suas portas seladas com um retrato de Mo, que seria sacrilgio rasgar. Os Guardas Vermelhos detm os transeuntes nas ruas e obrigam-nos a recitar uma citao de Mo,  sua escolha. Muitos j no ousam sair de casa.
	O mais duro, para milhes de famlias "negras", foram, no entanto, as revistas dos Guardas Vermelhos. Misturando procura de "provas" de supostos crimes, confisco de prata e de ouro para as autoridades locais, para a sua organizao... ou para eles prprios, e vandalismo puro e simples, partem, pilham e muitas vezes confiscam parte dos objetos ou mesmo tudo no interior de uma residncia. Humilhaes, insultos e pancadas so quase obrigatrios para os revistados. Alguns defendem-se, o que  pior para eles; uma simples expresso de desdm, uma palavra levemente desrespeitosa, uma recusa de confessar onde esto escondidos os "tesouros", e vem a chuva de pancadas, e muitas vezes o assassinato; ou ento, na melhor das hipteses, o saque generalizado da casa. H tambm, raramente, mortos entre os Guardas. Frequentemente, pode-se ser "visitado" vrias vezes, por diversas organizaes; para no se revelarem frustrados, os ltimos que aparecem levam frequentemente o mnimo vital que os seus predecessores tinham generosamente deixado aos "capitalistas" cados em desgraa. Nessas condies, foram sem dvida os suicdios que causaram o maior nmero de bakas, mas  intil tentar fazer um inventrio demasiado preciso: muitos assassinatos foram simulados desse modo...
	Dispomos, no entanto, de dados parciais: o "terror vermelho" teria feito em Pequim 1.700 mortos, enquanto 33.600 lares teriam sido revistados e 84.000 "negros" expulsos da cidade; em Xangai, 150.000 casas teriam sido revistadas, e 32 toneladas de ouro confiscadas. Na grande cidade industrial de Wuhan (Hubei), 21.000 revistas acompanhadas por 32 espancamentos mortais e 62 suicdios. Ocorreram por vezes sangrentos desvios, como no distrito de Daxing, ao sul da capital, onde 325 "negros" e membros de suas respectivas famlias foram assassinados em cinco dias: o mais velho tinha 80 anos; o mais novo, 38 dias. Um mdico  executado como "assassino de um vermelho" porque o seu doente, um "rebelde", teve uma alergia mortal  peni-cilina. As "investigaes" na administrao  por vezes conduzidas por policiais disfarados de Guardas Vermelhos - foram macias e ocasionalmente mortferas: cerca de 1.200 execues na depurao do Ministrio da Segurana, 22.000 pessoas interrogadas, e frequentemente encarceradas, no mbito da constituio do processo Liu Shaoqi, expulso (e geralmente deteno) de 60% dos membros do Comit Central (que quase nunca se reunia) e de trs quartos dos secretrios provinciais do Partido; no total, juntando todos os perodos da Revoluo Cultural, encarceramento de trs a quatro milhes de quadros (num total de aproximadamente 18 milhes) e de 400.000 militares  a despeito da proibio de Guardas Vermelhos dentro do EPL. Entre os intelectuais, 142.000 professores, 53.000 tcnicos e cientistas, 500 professores de Medicina e 2.600 artistas e escritores teriam sido perseguidos, sendo muitos deles mortos ou levados ao suicdio. Em Xangai, onde essas categorias so particularmente numerosas, calcula-se oficialmente, em 1978, que dez mil pessoas teriam sido mortas com extrema violncia devido aos excessos da Revoluo Cultural.
	O que mais impressiona, porm,  a facilidade com que esses jovens, que encontram pouco apoio nas outras camadas da sociedade, podem, no fim de 1966 e princpio de 1967, atacar os mais altos encarregados do Partido, "criticando-os" nos estdios de Pequim, quando no os torturando at  morte, como o encarregado do Partido em Tianjin, ou o presidente da cmara de Xangai, que, amarrado ao gancho da grua de reparo de bondes eltricos, espancado, responde teimosamente aos que lhe exigem uma autocrtica: "Prefiro morrer!" Uma nica explicao: o elemento determinante  Mo, o Centro -; alm disso, toda a massa do aparelho do Estado est ao lado dos "revolucionrios", e medidas como o fechamento por seis meses (o prazo ser prorrogado), em 26 de julho de 1966, de todos os estabelecimentos de ensino secundrio e superior so estmulos  mobilizao para os seus 50 milhes de alunos. Desocupados, tendo garantida uma impunidade absoluta - mesmo que matem (sero "acidentes") , e constantemente incitados pela propaganda oficial, quem poderia lhes oferecer resistncia?

	O primeiro pogrom

	[...] Quando alguns de ns voltvamos da praia, aonde tnhamos ido tomar banho, ouvimos, ao aproximarmo-nos da entrada principal da escola, gritos e voci-feraes. Alguns camaradas de classe corriam para ns, gritando: "A luta comeou! A luta comeou!"
	Corri para dentro. No campo de jogos, e ainda mais longe diante de um edifcio escolar novo com trs andares, vi um grupo de professores, 40 ou 50 no total, dispostos em filas, com a cabea e a cara pintadas com tinta preta, de modo que formavam efetivamente um "bando negro". Tinham pendurados ao pescoo cartazes com inscries como "fulano de tal, autoridade acadmica reacionria", "beltrano, inimigo de classe", "fulano, defensor da via capitalista", "beltrano, chefe de bando corrupto" - todos qualificativos tirados dos jornais. Todos os cartazes estavam marcados com cruzes vermelhas, o que dava aos professores o aspecto de condenados  morte  espera da execuo. Todos tinham na cabea bons de burro, nos quais estavam pintados eptetos semelhantes, e carregavam nas costas vassouras sujas, espanadores e sapatos.
	Tinham tambm pendurado em seus pescoos baldes cheios de pedras. Avistei o diretor: o balde que carregava era to pesado, que o fio metlico cortara-lhe profundamente a pele, e ele cambaleava. Todos descalos, batiam em gongos ou panelas dando a volta no campo, ao mesmo tempo que gritavam... "Eu sou o gngster fulano!"
	Finalmente, caram todos de joelhos, queimaram incenso e suplicaram a Mao Zedong que "fossem perdoados pelos seus crimes". Fiquei chocado com essa cena e senti-me empalidecer. Algumas moas quase desmaiaram.
	Seguiram-se pancadas e torturas. Eu nunca tinha visto antes torturas como aquelas: obrigaram essas pessoas a comer matrias das latrinas e insetos; submeteram-nas a choques eltricos; fizeram com que se ajoelhassem em cima de cacos de vidro; foraram-nas  performance do "avio", pendurando-as pelos braos e pelas pernas.
	Os primeiros a pegar nos porretes e a torturar foram os brbaros da escola: filhos de quadros do Partido e de oficiais do exrcito, pertenciam s cinco classes vermelhas - categoria que compreendia igualmente os filhos de operrios, de camponeses pobres e semipobres, e de mrtires revolucionrios. [...] Grosseiros e cruis, eles estavam habituados a jogar com a influncia dos pais e a brigar com os outros alunos. Sendo de tal modo incompetentes nos estudos, eles estavam para ser expulsos, e culpavam provavelmente os professores por esse fato.
	Encorajados pelos provocadores, os outros alunos gritavam: "Batam neles!", e, lanando-se contra os professores, davam-lhes murros e pontaps. Os mais tmidos foram obrigados a apoi-los, gritando a plenos pulmes e erguendo o punho.
	No havia nada de estranho em tudo aquilo. Os jovens alunos eram, normalmente, calmos e bem-educados, mas, dado o primeiro passo, no podiam fazer outra coisa seno seguir adiante. [...]
	O golpe mais duro para mim, nesse dia, foi, porm, o assassinato do meu querido professor Chen Ku-teh, aquele por quem eu tinha mais amor e respeito. [...]
	O professor Chen, que tinha mais de 60 anos e sofria de hipertenso, foi arrastado para fora s Ilh30min, exposto ao sol do vero durante mais de duas horas, e depois forado a desfilar com os outros carregando um cartaz e batendo num gongo. Em seguida, arrastaram-no para o primeiro andar de um edifcio escolar, depois novamente para baixo, batendo-lhe com os punhos e com cabos de vassoura ao longo de todo o trajeto. No primeiro andar, alguns dos agressores entraram numa sala de aula para irem buscar varas de bambu, com as quais continuaram a bater-lhe. Detive-os, suplicando:
"No h necessidade de fazer isso!  demais!"
	O professor Chen desmaiou vrias vezes, mas eles faziam-no voltar a si jogando baldes de gua fria em seu rosto. Quase no conseguia mexer-se: tinha os ps cortados pelos vidros e rasgados pelos espinhos. Mas o seu esprito no fora abatido.
	"Por que no me matam?" - gritava. "Matem-me!"
	Isso durou seis horas, at que ele perdeu o controle dos seus excrementos. Os atormentadores tentaram enfiar um basto no reto. Caiu pela ltima vez. Novamente jogaram-lhe gua fria, mas era tarde demais. Os assassinos ficaram por um instante como que atordoados, pois era, sem dvida, a primeira vez que espancavam um homem at  morte, tal como era, para a maior parte de ns, a primeira vez que assistamos a semelhante cena. Comearam a fugir, uns atrs dos outros. [...] Arrastaram o corpo de sua vtima para fora do campo, at uma cabana de madeira onde os professores costumavam jogar pingue-pongue. A, estenderam-no em cima de um tapete de ginstica sujo e depois chamaram o mdico da escola e disseram-lhe:
	"Verifique cuidadosamente se ele morreu mesmo de hipertenso. Voc no tem o direito de defend-lo!"
	O mdico examinou-o e declarou que tinha morrido em consequncia de torturas. Ento, alguns o agarraram e comearam a bater nele, dizendo:
	"Por que  que voc respira pela mesma narina que ele? Quer acabar da mesma maneira?"
	O mdico acabou escrevendo na certido de bito: "Morte devida a um sbito ataque de hipertenso".

	Os revolucionrios e seu Mestre
	
	Lenda dourada: durante muito tempo, o Ocidente considerou os Guardas Vermelhos como primos, apenas um pouco mais fanticos, dos revolucionrios de 68,234 seus contemporneos. Lenda negra: a partir da queda dos Quatro, os Guardas Vermelhos so considerados na China como os auxiliares quase-fascistas de um bando de aventureiros polticos. A realidade foi muito diferente: os "rebeldes" viam-se a si mesmos como bons comunistas maostas, totalmente alheios a qualquer ideal democrtico ou libertrio. E eles o foram, efetivamente, no essencial. Com muito pouco centralismo democrtico - e isso ps fim  experincia em apenas dois anos -, eles representaram coletivamente uma espcie de estranho "partido comunista bis", no momento em que as divises do primeiro o paralisavam completamente. Prontos a morrer por Mo, ligados tanto ideologicamente como humanamente a Lin Biao e sobretudo ao GRC de Jiang Qing, eles s eram uma alternativa em relao s direes municipais e provinciais que enfrentavam a hostilidade do Centro maosta, e uma fora suplementar para os ajustes de contas do Palcio, em Pequim. A energia imensa dessas dezenas de milhes de jovens foi puramente destrutiva: durante os perodos - curtos,  verdade - em que conseguiram ocupar o poder, no fizeram estritamente nada e no modificaram em nenhum ponto assinalvel os princpios bsicos do totalitarismo instalado. Os Guardas Vermelhos pretenderam frequentemente imitar os princpios da Comuna de Paris de 1871, mas nunca as eleies que organizaram tiveram o que quer que fosse de livre e aberto: tudo era decidido por minsculos aparelhos autoproclamados; a alternncia s se fazia  fora, em conflitos constantes, no interior das organizaes e das estruturas administrativas que conseguiram controlar. Alm disso, houve,  certo, numerosas "libertaes" individuais e o triunfo de certas reivindicaes sociais nas fbricas: porm, mais dura ser muitas vezes a queda, em 1968...
	Mil laos uniam os Guardas Vermelhos ao aparelho comunista. Em junho/julho de 1966, foram as equipes de trabalho enviadas para os principais estabelecimentos de ensino pelo grupo de Liu Shaoqi e pelas direes provinciais subordinadas que criaram os primeiros "antros negros" para professores "lutados", e impulsionaram os grupos iniciais de Guardas Vermelhos. Ainda que oficialmente retiradas no incio de agosto, no mbito do golpe de fora de Mao no interior do Comit Central, essas equipes continuaram por vezes a influenciar por muito tempo as organizaes locais;237 em todo o caso, estimularam de forma decisiva o recurso  violncia contra os professores e quadros do ensino, e abriram caminho ao movimento contra as Quatro Velharias. Essa campanha, estimulada pelas autoridades locais,  na realidade dirigida pela polcia, que fornece a lista dos "revistveis" e recolhe tanto as provas de acusao quanto os objetos confiscados: Nien Cheng ter a surpresa, e a alegria, de recuperar, em 1978, uma grande parte das porcelanas que lhe tinham sido barbaramente roubadas 12 anos antes. As vtimas expiatrias so frequentemente os eternos "lutados" das campanhas anteriores, mais alguns quadros intermedirios sacrificados para salvar os verdadeiros detentores do poder.
	 A extenso do movimento s fbricas e o descontrole de um Mao que sente o seu objetivo  eliminar os seus adversrios dentro do aparelho  fugir-lhe por entre os dedos conduzem naturalmente a confrontaes de grande amplitude entre rebeldes e municipalidades ou direes provinciais. Mas, por um lado, essas sabem construir para seu uso poderosas organizaes de massas, ditas "conservadoras", no fundo muito difceis de distinguir dos rebeldes mais prximos da linha maosta. Por outro, os rebeldes, mais independentes ao nvel local, vem a sua salvao na filiao nesse "Supercomit Central" em que se tornou o GRC, onde Kang Sheng desempenha um papel to discreto quanto essencial: equipes especializadas fazem a ligao com Pequim (de incio, foram frequentemente estudantes da capital), que envia conselhos e listas negras (dois teros dos membros do Comit Central, entre outros), esperando, em troca, resultados de investigaes e provas, e fornece aos seus aliados as preciosas "boas etiquetas", durante muito tempo escudo mgico face ao EPL. Os rebeldes fazem parte da mquina estatal tanto quanto os conservadores: apenas, no  exatamente a mesma mquina. Finalmente,  importante destacar a que ponto o consenso  total entre todos os grupos, todas as faces, no que diz respeito  represso - e trata-se evidentemente de uma enorme diferena em relao  tradio revolucionria do Ocidente. Se crticas so feitas ao laogai (alis pouco afetado),  para censurar-lhe seu "laxismo": Nien Cheng sentiu duramente a chegada das brutais e desumanas novas guardas maostas. Hua Linshan, rebelde de extrema esquerda e em luta aberta contra o EPL, ocupou a seo de mecnica de uma fbrica-priso, para a fabricar armas; no entanto "durante toda a nossa estada, [os prisioneiros] permaneceram nas suas celas, e ns no tivemos praticamente qualquer contato com eles". Os Guardas Vermelhos, que utilizam o rapto como um meio essencial de luta, tm a sua prpria rede penitenciria, em cada escola, cada administrao, cada fbrica: nesses "estbulos", nesses "antros" ou, por eufemismo, nessas "classes de estudo" sequestra-se, interroga-se, tortura-se sem descanso, com muita inventividade e imaginao; assim, Ling fala de um "grupo de estudos psicolgicos" informal no seu colgio: "Evitvamos mencionar as torturas, mas ns as considervamos como uma arte [...]. Acabamos at por pensar que as nossas pesquisas no eram suficientemente cientficas. Havia muitos mtodos que no estvamos em condies de experimentar." Uma milcia "radical" de Hangzhou, essencialmente formada por "negros" anteriormente perseguidos, detm em mdia mil pessoas nos seus trs centros de investigao; condena 23 indivduos por calnias dirigidas ao seu lder Weng Senhe; os seus membros operrios ganham trs dias de frias por cada dia dedicado  milcia, bem como refeies gratuitas.  significativo o fato de, em todos os relatos de antigos Guardas Vermelhos, as prticas repressivas terem tanta relevncia, de haver tantas referncias a adversrios atirados ao cho, prostrados, humilhados, por vezes assassinados, sem que, aparentemente, algum se oponha.  igualmente significativo que o perodo da Revoluo Cultural tenha sido marcado pelo reencarceramento de antigos detidos, pela reatribuio generalizada de rtulos de "direitista" anteriormente retirados, pela deteno sistemtica de estrangeiros ou de chineses de alm-mar, ou mesmo por novas infmias como a obrigao de as filhas terminarem as penas dos pais mortos na priso:242 a administrao civil sofreu consideravelmente, mas a do laogai teve pelo menos uma grande liberdade de ao. Ento, gerao de rebeldes, ou gerao de carcereiros?
	 Ideologicamente, nem mesmo grupos rebeldes to radicais e preocupados com a elaborao terica quanto o Shengwulian do Hunan conseguiram afastar-se do quadro de referncia maosta;  verdade que o pensamento do presidente  to vago, as suas palavras to contraditrias, que cada um pode servir-se delas um pouco como quiser: tanto os conservadores como os rebeldes tinham o seu estoque de citaes  por vezes as mesmas, interpretadas de maneira diferente. Na estranha China da Revoluo Cultural, um mendigo podia justificar um roubo usando uma frase de Mao sobre a entreajuda, e um trabalhador que tivesse desviado tijolos para um biscate podia rejeitar quaisquer escrpulos porque "a classe operria deve exercer a sua dire-o sobre tudo". H em todo o caso um ncleo duro, incontornvel: a santificao da violncia, o radicalismo das confrontaes de classe e dos respectivos prolongamentos polticos. Tudo  permitido ao detentor da linha justa. Os rebeldes no sonharam sequer afastar-se da propaganda oficial, cujo obscuro linguajar macaqueiam nos textos que produzem; nunca se privaram de mentir de uma forma desvergonhada, no s s massas, mas tambm aos seus prprios camaradas de organizao.
	 O mais dramtico  talvez, no entanto, o consenso sobre a "castifica-o" operada nos anos 50 e reforada pela Revoluo Cultural. Poderia ter sido de outra maneira: para apressar as coisas, o GRC, diz-se, abriu as portas da organizao aos negros, que logo a invadiram. Muito naturalmente, inscreveram-se nos rebeldes (45% de filhos de intelectuais entre os dos colgios de Canto), enquanto a prole dos quadros e dos operrios especializados constitua 82% dos conservadores da grande metrpole meridional. Os rebeldes, que se apoiavam igualmente nos operrios no especializados, eram os adversrios naturais dos quadros polticos, enquanto os conservadores concentravam o seu fogo sobre os negros. Mas, como a sua viso inclua a cesura entre categorias sociopolticas, e, partindo da, para se libertarem da mancha de infmia nativa, os rebeldes lanaram-se numa espcie de competio repressiva com os conservadores, e no se privaram de atacar tambm os negros, pedindo aos cus que o golpe poupasse os prprios pais... Pior ainda, aceitaram para si mesmos a nova noo de hereditariedade de classe, inicialmente propagada pelos Guardas Vermelhos de Pequim, dominados pelos filhos de militares e de quadros, mas nunca explicitamente combatida.
	Exprimia-se, por exemplo, neste notvel canto de marcha:

	"Se o pai  um bravo, afilho  um heri,
	Se o pai  um reacionrio, afilho  um cuzo.
	Se voc  um revolucionrio, ento avana e vem conosco.
	Se no , cresa e aparea.
	[...]
	Apaream todos!
	Vamos expuls-los da merda de seus postos!
	Mata! Matai Mata!

	Uma "bem-nascida" faz o seguinte comentrio: "Ns nascemos vermelhos! O vermelho vem da barriga das nossas mes! E digo-o muito claramente: voc nasceu negro! O que  que se h de fazer?" A radicalizao das categorias  furiosa. Zhai Zhenhua, de cinto na mo e injria na boca, obriga a metade negra da sua classe a passar todo o seu tempo a estudar Mo: Para se salvarem, tinham primeiro de aprender a ver a vergonha da sua horrvel origem familiar, bem como a de seus pais, e a odi-los. No existe a menor possibilidade de os negros se juntarem aos Guardas Vermelhos. Na estaco de trem de Pequim, estes ltimos patrulham, espancam e reenviam para casa todo e qualquer guarda vermelho "malnascido". H, frequentemente, mais tolerncia na provncia, onde os negros ocupam muitas vezes posies de responsabilidade; de qualquer maneira, os "bem-nascidos" tm sempre primazia: A composio de classe da Porquinha era excelente, e isso constitua uma qualificao importantssima: oriunda de uma famlia de pedreiros, gabava-se frequentemente de que nunca, havia pelo menos trs geraes, a sua famlia tivera um teto sobre a cabea. Nas confrontaes verbais, o argumento do nascimento vem constantemente  baila, sem nunca ser rejeitado. Hua Linshan, rebelde muito militante,  expulsa de um trem de Guardas Vermelhos mais conservadores: "O que ainda hoje sinto muito vivamente  o fato de a minha presena fsica ser para eles uma ofensa, uma sujeira. [...] Tive ento a sensao de ser uma coisa imunda." Nas manifestaes, os Cinco Vermelhos so sempre colocados  frente. O apanheid estende-se ao conjunto da sociedade: numa reunio de bairro, em 1973, Nien Cheng senta-se por distrao junto do proletariado. "Como se tivessem recebido um choque eltrico, os operrios mais perto de mim afastaram imediatamente os seus bancos, e vi-me isolada na sala cheia de gente"; ela vai ento juntar-se a um grupo de mulheres "exclusivamente composto por membros da classe capitalista e intelectuais, os intocveis da Revoluo Cultural." Nien esclarece que no foi a polcia nem o Partido que impuseram essa segregao.
Da exploso das lutas de faces ao esmagamento dos rebeldes
	 A segunda fase do movimento comea no momento em que, no incio de janeiro de 1967, se pe a questo do poder. O Centro maosta sabe que ultrapassou o ponto a partir do qual no h mais volta na confrontao com a antiga direo liusta, encurralada em Pequim, mas que pode ainda contar com poderosos basties na maioria das provncias. Para aplicar-lhe o golpe de misericrdia, os rebeldes tm que tomar o poder; o exrcito, trunfo principal, no intervir: as novas tropas do presidente tero, assim, o campo livre. Xangai d o sinal em janeiro, e praticamente por todo lado as municipalidades e comits do Partido so facilmente derrubados. Agora, no se trata mais de criticar, mas de governar. E o desastre comea: as tenses entre grupos rebeldes rivais, entre estudantes e operrios, entre operrios permanentes e temporrios, levam quase instantaneamente a duras confrontaes que envolvem cidades inteiras - em breve com armas de fogo e j no simplesmente cintos ou punhais. Os dirigentes maostas, agora prximos da vitria, assustam-se: a produo industrial cai assustadoramente (-40% em Wuhan, em janeiro), j no h mais administrao, e grupos que escapam ao seu controle instalam-se em posies de poder. A China tem uma falta terrvel de quadros competentes: convm ento reintegrar a grande maioria daqueles que foram atacados.  preciso pr as fbricas para funcionar, e os estabelecimentos escolares no podem continuar indefinidamente fechados. Da a dupla escolha, desde o final de janeiro: promover uma nova estrutura de poder, os Comits Revolucionrios (CR), baseados no princpio "trs em um" - aliana dos rebeldes, dos antigos quadros e do EPL -, e empurrar sutilmente os Guardas Vermelhos para a sada (ou, antes, para as salas de aula), utilizando, se preciso for, o outro brao armado de Mo, colocado em estado de alerta j havia seis meses: o exrcito.
	Para os rebeldes, a rocha de Tarpia est muito perto do Capitlio... A Revoluo Cultural , no entanto, cheia de surpresas. Em abril j no h mais esperanas de um retorno  ordem, e Mao se inquieta: os conservadores e, por detrs deles, os outros que foram derrubados em janeiro levantam a cabea por todo lado e constituem por vezes uma perigosa frente comum com as guarnies do EPL, como em Wuhan, onde os rebeldes esto em debandada. Vem ento nova guinada  esquerda, acentuada em julho, depois do encarceramento dos emissrios do GRC, pelos militares de Wuhan, que durou dois dias. Mas, como sempre que os Guardas Vermelhos sentem o vento de popa, assiste-se  exploso de violncia e de lutas faccionais, que levam  anarquia -e os CRs nem sempre conseguem assumir suas funes. Assim, em setembro,  dada autorizao ao EPL para fazer uso de suas armas (at ento, tivera de assistir, impotente,  pilhagem dos seus arsenais), e uma segunda libertao de rebeldes. O ano de 1968 repete parcialmente o de 1967: novas inquietaes para Mao em maro, e incitaes - mais comedidas do que um ano antes -  esquerda; face  extenso das confrontaes, cada vez mais mortferas, liquidao, dessa vez radical, dos rebeldes, em julho.
	Muito depende das hesitaes de Mo, colocado perante esse cruel dilema do qual no consegue sair: caos de esquerda, ou ordem de direita. Todos os atores esto na expectativa da ltima diretiva do senhor do jogo, esperando que ela lhes seja favorvel. Estranha situao: os inimigos mortais so todos sectrios incondicionais do mesmo deus vivo. Assim, a poderosa federao conservadora do Milho de Heris, em Wuhan, ao saber da sua desautorizao, em julho de 1967, declara: "Quer estejamos convencidos ou no, devemos seguir e aplicar as decises do Centro, sem reservas", e dissolve-se imediatamente. No h, no entanto, interpretao cannica: os exegetas oficiais  os comits do Partido  esto muito desconsiderados: reina assim a maior confuso quanto s intenes do Centro. E ningum quer acreditar que o prprio Centro possa ser to hesitante. Por outro lado, esse permanente jogo de balana faz com que cada um tenha oportunidade para sua sangrenta vingana, e os vencedores do momento nunca praticam a magnanimidade.
	A essas causas exgenas do agravamento da violncia somam-se dois fatores endgenos s organizaes, sobretudo as rebeldes. Interesses de pequenos grupos e ambies individuais, nunca democraticamente arbitrados, conduzem constantemente a novas cises, enquanto cnicos "polticos empresrios" tentam capitalizar suas respectivas auras atravs de uma integrao nos novos poderes locais, cultivando sobretudo suas relaes com os esta-dos-maiores regionais do EPL: muitos acabaro associados aos Quatro e convertidos em tiranetes de provncia. As lutas faccionais perdem pouco a pouco o seu carter poltico e resumem-se  confrontao entre os que esto no poder e os que gostariam de substitu-los. Finalmente, e j o vimos no lao-gai, aquele que acusa, na China comunista, tem sempre razo, uma vez que se apoia e se protege em citaes e slogans intocveis; quem se defende, agrava quase sistematicamente o seu caso. A nica resposta eficaz consiste, pois, numa contra-acusao de nvel superior: que seja ou no fundada, pouco importa, o essencial  que se exprima em termos politicamente justos. A lgica do debate leva assim a um alargamento constante do campo dos ataques e do nmero dos atacados. E, como tudo  poltica, o menor incidente pode ser facilmente interpretado como prova das piores intenes criminosas. A arbitragem por eliminao fsica est prxima...
	A expresso "guerra civil", larvar ou declarada, seria frequentemente mais adequada para classificar esses acontecimentos do que a palavra "massacre", ainda que uma conduza quase automaticamente  outra. Assiste-se cada vez mais a uma guerra de todos contra todos. Em Wuhan, em finais de dezembro de 1966, os rebeldes jogaram na priso 3.100 conservadores e quadros. O primeiro morto entre os rebeldes e a federao Milho de Heris tomba em 27 de maio de 1967: cada um trata ento de armar-se e de ocupar pontos estratgicos. O QG dos rebeldes operrios  tomado em 17 de junho: nessa ocasio foram 25 mortos, e 158 no total desse campo em 30 de junho. Depois da derrota dos conservadores, no final de julho, as represlias so terrveis: 600 mortos, 66.000 perseguidos, muitas vezes feridos, entre as suas fileiras. No momento da virada  esquerda de maro de 1968, a cacada recomea: dezenas de milhares de sequestrados num estdio; milcias cada vez mais infiltradas por marginais e gangues de rua semeiam o terror; as armas afluem das provncias vizinhas. Em maio, as confrontaes entre faces rebeldes criam uma atmosfera de guerra civil: 80.000 armas roubadas do exrcito em 27 de maio (recorde da China para um dia...), o que permite a criao de um autntico mercado paralelo de armamento, que atrai compradores do pas inteiro; as fbricas passam agora a produzir tanques ou explosivos para abastecer as faces. Em meados de junho, j 57 pessoas tinham sido mortas por balas perdidas. Armazns e bancos so pilhados: a populao comea a fugir da cidade. O deus ex machina de Pequim conseguir, no entanto, afundar os rebeldes, bastando para isso desautoriz-los; o EPL intervm em 22 de julho sem disparar um tiro, e as faces so obrigadas a se autodissolverem em setembro. Como acontece no Fujian pouco industrializado, onde a clivagem entre conservadores e rebeldes no se consolida,  o bairrismo que domina, ou a hostilidade cidades-campos: quando os Guardas Vermelhos de Xiamen desembarcam na capital da provncia, so atacados aos gritos de "Fuzhou pertence aos habitantes de Fuzhou [...]; e, habitantes de Fuzhou, no esqueam os seus antepassados! Seremos sempre os inimigos jurados de Xiamen". Em Xangai, de uma maneira mais tortuosa,  a oposio entre provenientes do Norte e do Sul do Jiangsu que explica certos confrontos. Mesmo ao nvel minsculo do povoado da Longa Curva (ver acima), a luta entre faces revolucionrias disfara mal o reacender da velha querela entre o cl Lu, que domina o norte do povoado, e o cl Shen, hegemnico no sul;  tambm a ocasio de ajustar velhas contas, que remontam ao tempo da ocupao japonesa ou aos sangrentos comeos da reforma agrria, em 1946. No Guangxi, predo-minantemente rural, os conservadores, expulsos de Guilin, cercam progressivamente a cidade com milcias camponesas, finalmente vitoriosas. As batalhas campais entre faces do Estandarte Vermelho e do Vento de Leste fazem 900 mortos em Canto, em julho-agosto de 1967. Os combates travam-se por vezes com tiros de canho.
	A dureza desse perodo fica bem expressa por esse testemunho de um guarda vermelho que tinha ento 14 anos: "ramos jovens. ramos fanticos. Acreditvamos que o presidente Mao era grande, que detinha a verdade, que era a verdade. Eu acreditava em tudo o que Mao dizia. E acreditava que havia razes para a Revoluo Cultural. Julgvamos ser revolucionrios e que,  medida que ramos revolucionrios que seguiam o presidente Mo, poderamos resolver qualquer problema, todos os problemas da sociedade." As atrocidades ganham maiores propores, e so mais "tradicionais" do que as do ano anterior. Eis, por exemplo, ao que se podia assistir perto de Lanzhou, no Gansu: "Devia haver uns 50 veculos... Atravessado sobre o radiador de cada caminho, estava amarrado um ser humano, por vezes dois. Estavam todos estendidos na diagonal e presos com arames e cordas... A multido rodeava um homem e cravava-lhe no corpo dardos e sabres rudimentares, at que ele casse numa massa contorcida de onde jorrava o sangue." 
	A segunda metade de 1968  marcada pela retomada generalizada do controle da situao pelo exrcito, pela dissoluo dos Guardas Vermelhos, pelo envio, no outono, de milhes (5,4 no total at 1970) de "jovens instrudos" para os confins dos campos, de onde se espera no v-los regressar to depressa (muitos por l ficaro dez anos ou mais); de 12 a 20 milhes de pessoas sero ruralizadas  fora antes da morte de Mo, incluindo um milho de habitantes de Xangai - 18% da populao da cidade, um recorde. Trs milhes de quadros que haviam sido suspensos so alceados, s vezes por vrios anos, nesses centros de reabilitao semiprisionais que so as Escolas de 7 de Maio.  tambm sem dvida o ano dos maiores massacres, na ocasio da entrada das equipes de operrios do Partido e de soldados nos campi, e sobretudo quando foram retomadas certas cidades do Sul. Assim, Wuzhou, no Guangxi,  atacada com artilharia pesada e napalm; Guilin  reconquistada em 19 de agosto por 30.000 soldados e milicianos camponeses armados, no final de uma verdadeira guerra de trincheiras (a indiferena dos camponeses pela Revoluo Cultural parece assim por vezes ter se transformado em franca hostilidade,  certo que manipulada e amplificada pelo aparelho polti-co-militar). Durante seis dias, os rebeldes so executados em massa. Quando cessam os combates, o terror se alastra durante um ms aos campos vizinhos, dessa vez contra os negros e antigos membros do Kuomintang, eternos bodes expiatrios. A sua amplitude  tal, que certos distritos podero proclamar-se "completamente livres de qualquer membro dos cinco elementos negros".  ento que o futuro presidente do PC, Hua Guofeng, chefe da Segurana da sua provncia, ganha a alcunha de "o carniceiro do Hunan". O Sul do pas foi o que mais sofreu: talvez 100.000 mortos s no Guangxi, 40.000 no Guangdong, 30.000 no Yunnan. Os Guardas Vermelhos foram cruis. Mas as verdadeiras matanas devem ser postas na conta dos seus carrascos: militares e milcias cumprindo ordens do Partido.

	Guilin: exrcito contra Guardas Vermelhos
	
	Mal o dia nasceu, os milicianos comearam a revistar as casas e a efetuar prises. Ao mesmo tempo, os militares puseram-se a apregoar as suas diretivas atravs de alto-falantes. Tinham estabelecido uma lista de dez crimes, da qual constavam: ter-se apoderado de uma priso, ter ocupado um banco, ter atacado rgos militares, ter entrado  fora nos gabinetes da segurana pblica, ter pilhado trens, ter participado na luta armada, etc. Bastava ter cometido qualquer um desses crimes para ser preso e julgado "segundo a ditadura do proletariado". Fiz um rpido clculo e apercebi-me de que tinha acumulado seis desses delitos. Mas qual deles no fora cometido "pelas necessidades da revoluo"? Nenhuma dessas atividades me proporcionara qualquer vantagem pessoal. Se no tivesse querido "fazer a revoluo", nunca me teria entregue a qualquer daqueles atos criminosos. Queriam atirar-me toda a responsabilidade nas costas. Aquilo parecia-me injusto e, ao mesmo tempo, enchia-me de medo. [...]
	Mais tarde, soube que os milicianos tinham matado alguns dos nossos "heris de combate". Depois tinham cortado os tubos que faziam chegar o sangue e o oxignio a alguns pacientes, fazendo novas vtimas. Daqueles que ainda conseguiam andar, tiraram todos os medicamentos e os levaram para as prises provisrias.
	Um ferido tinha fugido durante o trajeto, e os milicianos cercaram o bairro. Procederam a uma nova revista de todas as casas. Aqueles cujos nomes no estavam inscritos nos registro do bairro foram presos, e foi o que me aconteceu. [...]
	Encontrei no mesmo andar em que estava (na Escola n. 7 de Guilin, transformada em priso) um amigo da Escola de Mecnica. Disse-me que um heri de combate da sua escola tinha sido morto pelos milicianos. Aquele estudante resistira, no alto de uma colina, aos ataques dos milicianos por trs dias e trs noites. O quartel-general rebelde, para louvar a sua coragem, tinha-o nomeado "heri solitrio e corajoso". Os milicianos, que tinham invadido a escola e procedido a numerosas prises, mandaram-no sair das fileiras. Em seguida, eles o colocaram num saco de pano e o penduraram numa rvore, para que se parecesse verdadeiramente com uma "vescula biliar". Depois, diante de todos os alunos reunidos, eles o golpearam, um soldado a cada vez, com a coronha de seus fuzis, at o matarem.
	As histrias horrveis abundavam na priso, e eu recusava-me a ouvir mais. Durante aqueles dois dias, houve execues em toda a cidade, e tornaram-se o principal tema de conversa. Aquelas matanas pareciam a todos quase normais. Os que realizavam aqueles massacres pouco ligavam, e aqueles que os relatavam tinham se tornado frios e insensveis. Eu prprio ouvia aqueles relatos como se no tivessem qualquer relao com a realidade.
	O mais terrvel, na priso, era quando um prisioneiro que aceitava colaborar com as autoridades ia tentar reconhecer alguns de ns. Os que nos guardavam gritavam subitamente: "Levantem essas caras de ces!" Alguns indivduos mascarados entravam ento na sala e nos observavam longamente. Se avistavam algum rosto conhecido, os milicianos apontavam as espingardas ao infeliz e mandavam-no sair. Muitas vezes, os rebeldes eram abatidos ali mesmo.
	Ento, em 1968, o Estado retorna, de armas e bagagens. Recupera o monoplio da violncia legtima, e no tem dificuldade em utiliz-la. Com um grande nmero de execues pblicas, volta-se s formas essencialmente policiais de antes da Revoluo Cultural. Em Xangai, o ex-operrio Wang Hongwen, subordinado de Jiang Qing e em breve vice-presidente do Partido, proclama a "vitria sobre a anarquia; em 27 de abril, vrios dirigentes rebeldes so condenados  morte e imediatamente executados, diante de uma enorme multido. Zhang Chunqiao, outro membro dos Quatro, proclama em julho: "Se algumas pessoas forem falsamente acusadas [...], o problema no  muito grave. Mas seria dramtico deixar escapar um nico verdadeiro culpado." Entra-se, com efeito, numa sombria era de conspiraes fantasmagricas, que permitem prises em massa muito reais, e o retorno da sociedade ao silncio; s a morte de Lin Biao, em 1971, atenuar, sem a interromper, aquela que foi a pior campanha de terror que a China conheceu desde os anos 50.
	O primeiro caso  o do pretenso Partido do Povo da Monglia Interior, na realidade dissolvido e incorporado ao PC em 1947, mas que teria sido clandestinamente reconstitudo. So perseguidas 346.000 pessoas entre fevereiro e maio de 1968, trs quartos das quais mongis (o chauvinismo antimi-noritrio no deixa a mnima dvida); execues, torturas e suicdios deixam um rastro de 16.000 mortos e 87.000 deficientes. Acusaes semelhantes levam a 14.000 execues no Yunnan, outra provncia frtil em minorias tnicas. Particularmente tenebrosa , porm, a conspirao do Regimento de 16 de Maio. Essa organizao de Guardas Vermelhos pequineses de ultra-esquerda, provavelmente minscula e muito provisria (houve milhares de outras comparveis), deixou como nico testemunho algumas inscries hostis a Zhou Enlai, em julho de 1967. Por razes ainda pouco claras, o Centro maosta resolveu transform-la numa vasta rede de "bandidos negros", contra-revolucionrios, e a campanha foi relanada em 1970-1971, para s acabar  sem concluso nem processo  em 1976: comcios de "luta", confisses e torturas multiplicaram-se por todo o pas. Seiscentos dos dois mil funcionrios do Ministrio de Relaes Exteriores foram perseguidos. A guarda pessoal de Mo, a Unidade 8341, penetra na Universidade de Pequim, onde foram descobertos 178 "inimigos", dos quais dez morreram vtimas dos maus-tratos infligidos. Numa fbrica do Shaanxi, em finais de 1968, descobriram-se nada mais, nada menos que 547 "espies", e 1.200 cmplices destes ltimos. Quanto  atriz de pera Yan Fengying, acusada de treze crimes graves, comete o suicdio em abril de 1968; autopsiam-na, em busca de um emissor de rdio escondido no seu corpo. Do mesmo modo, os 13 maiores campees de pingue-pongue pem fim aos seus dias. 
	Na pior das noites, prepara-se, no entanto, um futuro menos trgico. Todos os testemunhos o confirmam: a China de 1969 e dos anos que se seguem  cheia de violncias, de campanhas, de slogans. O fracasso patente da Revoluo Cultural acaba por afastar do regime a maior parte da populao urbana, e particularmente os jovens, que se sentem trados na proporo de suas enormes esperanas. A freqncia com que se recusam a ser ruralizados origina o aparecimento de uma camada flutuante de citadinos que vivem numa semiclandestinidade. Cinismo, criminalidade e egosmo progridem por todo lado. Em 1971, a eliminao brutal e inexplicada do sucessor designado pelo prprio Mo, Lin Biao, abre muitos olhos: decididamente, o Timoneiro deixou de ser infalvel. Os chineses esto fartos e cheios de medo - e com boas razes: o laogai embarcou sem dvida mais dois milhes de passageiros, mesmo tendo em conta as sadas, entre 1966 e 1976. Continuam a fingir a fidelidade ao chefe, mas, subterraneamente, prepara-se um despertar da sociedade civil, que acontecer entre 1976 e 1979. Ele constituir um movimento muito mais fecundo do que uma Revoluo Cultural cuja divisa poderia bem ser a frmula atribuda por Mo, em 1966, a um "bom" estudante: " por obedincia que me revolto."

	O terror teatralizado em 1969: uma reunio de "luta"
	
	O auditrio gritava slogans e agitava o Livro Vermelho. Depois do "Viva o Nosso Grande Dirigente, o Presidente Mo", foi o "Boa Sade para o Nosso Comandante Supremo Adjunto Lin, sempre Boa Sade!" Isto refletia no s a posio elevada de Lin Biao depois do IX Congresso do Partido, mas tambm o fato de terem sido os partidrios deste ltimo que, desejosos de manter o culto da personalidade, organizaram aquela reunio. Estariam eles encarregados da instruo do meu caso?
	Duas pernas apareceram no meu campo visual, e um homem falou  minha frente. Apresentou-me ao auditrio, resumindo as minhas origens familiares e a minha vida pessoal. Tinha notado que de cada vez que os revolucionrios contavam a histria da minha vida, eu me tornava mais rica, e o meu modo de vida mais decadente e mais luxuoso. Agora, a farsa adquiria propores fantsticas. Como tinha prometido no responder e permanecer muda, sentia-me muito mais descontrada do que durante a minha primeira reunio de luta, em 1966. No entanto, a plateia levantou-se, e muitos homens juntaram-se  minha volta para gritarem a sua clera e a sua indignao no momento em que o orador lhes disse que eu era uma agente do imperialismo.
	Esses insultos eram de tal modo intolerveis, que ergui instintivamente a cabea para responder. Ento as mulheres levantaram as minhas mos algemadas, em minhas costas, com tal brutalidade, que tive de dobrar-me para a frente, ao meio, para atenuar a dor. Mantveram-me nessa posio at o fim da denncia do orador. Foi s quando a plateia comeou a gritar slogans que me voltaram a baixar os braos. Soube mais tarde que tinham me obrigado a adorar a "posio do jaco" inventada para casos semelhantes pelos revolucionrios. [...]
	Os indivduos que participavam na reunio chegaram perto da histeria. Os gritos deles abafavam a voz do orador. Algum me empurrou com fora, por detrs. Estremeci e deixei cair o microfone. Uma das mulheres abaixou-se para apanh-lo, enredou-se nos fios e caiu, arrastando-me consigo. Como tinha os braos presos atrs das costas, fiquei numa posio desconfortvel, de cara contra o cho; na confuso, muitos caram em cima de ns. Toda a gente gritava, e precisou-se de vrios minutos para que finalmente me levantassem.
	Completamente esgotada, estava ansiosa para que a reunio terminasse, mas os discursos sucediam-se sem interrupo, como se todos os presentes na tribuna quisessem dar a sua contribuio. Tinham deixado de atacar-me e lanavam-se agora num torneio oratrio em que cada um queria cantar mais alto louvores a Lin Biao, usando os termos mais lisonjeiros e mais extravagantes que a rica lngua chinesa podia oferecer-lhes.
	Subitamente, abriu-se uma porta atrs de mim, e uma voz de homem gritou que algum tinha partido. O efeito dessas palavras foi instantneo. O orador interrompeu-se no meio de uma frase. Tive ento a certeza de que algum importante escutava na sala ao lado e que a sua partida tornava intil a continuao da representao montada em seu proveito. Uns comeavam a abandonar a sala, outros pegavam suas bolsas e casacos. O orador ps-se a gritar slogans a toda a pressa, para tentar voltar a entusiasm-los, mas ignoraram-no quase completamente. S algumas vozes se fizeram ouvir enquanto a sala se esvaziava. J ningum parecia estar zangado comigo. No me sorriam, mas olhavam para mim com indiferena. No passava de uma das inmeras vtimas com que tinham animado a reunio de luta. Tinham feito o que se esperava deles, e agora estava acabado. Houve at mesmo uma mo gentil que veio em minha ajuda quando um homem me empurrou. Foram embora conversando sobre bobagens, como se estivessem saindo de uma sesso de cinema.

	A era Deng: a desagregao do terror (depois de 1976)

	Quando, em setembro de 1976, chega seu fim, Mao j estava politicamente mono havia algum tempo. Assim o revela o pouco entusiasmo das rea-es populares espontneas quando da notcia do seu falecimento, bem como o fato de ter sido incapaz de assegurar a sua prpria sucesso: os Quatro, de que estava ideologicamente prximo, so jogados numa priso menos de um ms aps a morte do seu padrinho; Hua Guofeng, que devia garantir a continuidade, tem de abdicar do essencial do seu poder, em dezembro de 1978, em favor do insubmersvel Deng Xiaoping, odiado pelos maostas. No entanto, a grande virada ocorrera talvez, em 5 de abril de 1976, quando se celebra a festa dos mortos na China, ocasio em que o povo de Pequim comemora maciamente, e a sim, espontaneamente, o falecimento do primeiro-ministro Zhou Enlai, que ocorrera em janeiro. O poder assusta-se, e com razo, com essa capacidade de mobilizao indita, que escapa s lgicas faccionais e ao controle do Partido; alm disso, certos poemas depostos juntamente com as coroas de flores contm ataques maldisrados contra o velho Timoneiro. A multido  ento reprimida (mas, tal como em 1989, no so permitidos tiros na Praa de Tian'anmen), contam-se oito mortos e 200 feridos, milhares de detenes em todo o pas (houve rplicas na provncia do luto de Pequim), pelo menos 500 execues  das quais cem foram de manifestantes presos  e investigaes que, at outubro, envolvem dezenas de milhares de pessoas. Business as usual? No: o ps-maosmo tinha comeado, marcado por um recuo do poltico e pela perda da capacidade do Centro de gerir sozinho as mobilizaes. "Se, em 1966, na Praa de Tian'anmen, era um povo beato que contemplava - de lgrima no canto do olho - o homem que lhe roubaria a liberdade, em 1976, nessa mesma praa,  agora um povo que se tornou corajoso e que faz frente  mesma pessoa." 
	O Muro da Democracia (inverno de 1978-primavera de 1979) ia simbolizar essa nova realidade, ao mesmo tempo que mostrava claramente os seus limites. Uma pliade de antigos guardas vermelhos afixa nele, com o consentimento de Deng, opinies surpreendentes para quem foi educado no maosmo. O mais articulado desses pensadores, Wei Jingsheng, no seu dazibao (cartaz escrito em grandes caracteres) intitulado "A Quinta Modernizao: a Democracia",292 afirma, com efeito, que o povo  explorado pela classe dirigente do "socialismo feudal" que ocupa o poder; que a democracia  a condio de um desenvolvimento duradouro, e logo das "quatro modernizaes" econmicas e tcnicas propostas por Deng; que o marxismo, origem do totalitarismo, deve ser rejeitado em favor das correntes democrticas do socialismo. Em maro de 1979, Deng, seguro do seu poder, manda prender Wei e alguns outros: ser condenado a 15 anos de priso por entrega de informaes a um estrangeiro (o que constitui um "crime contra-revolucionrio"). Libertado em 1993 sem nunca ter "confessado", exprime-se to francamente, que, depois de ter sido novamente preso ao cabo de oito meses,  condenado a 14 anos de priso em 1995 por ter forjado "um plano de ao que visava derrubar o gover-no". O poder continua a ter dificuldade em aceitar crticas...
	No entanto, com Deng pode-se pelo menos ser crtico e sobreviver: grande progresso se compararmos com a era de Mo, quando uma palavra a mais ou um grafite bastava para se ser fuzilado.  certo que as reformas ps-maostas privilegiaram a economia, mas a poltica no foi esquecida. Tudo - a comear pelas transformaes econmicas - vai no sentido de uma emancipao e de uma limitao da arbitrariedade do poder: assim, nos anos 80, a supresso das associaes de camponeses pobres e semipobres s deixa na dependncia organizada do PCC um dcimo do campesinato, que voltou maciamente ao empreendimento familiar; nas cidades, o setor em plena expanso das empresas individuais e privadas tira de qualquer espcie de controle poltico direto uma grande parcela da mo-de-obra. As estruturas estatais so formalizadas, mais regularizadas do que circunscritas, mas isto tem como efeito a devoluo ao indivduo dos meios de se defender. Em 1978, multiplicam-se as libertaes (cerca de cem mil) e as reabilitaes (muitas vezes a ttulo pstumo), sobretudo nos meios artsticos e literrios; assim, Ding Ling, vtima da Rerificao de 1957-1958, escapa, em 1979, da relegao rural a que estava sujeita, e de uma longa srie de perseguies que remonta a Yan'an.  o incio de uma "literatura das cicatrizes" e de um regresso ainda tmido  liberdade de criao. Dois teros dos ruralizados da Revoluo Cultural podem regressar s cidades. A nova Constituio restabelece um mnimo de direitos para a defesa judiciria. Em 1979, o primeiro Cdigo Penal da histria da RPC (Mo, que queria ter as mos livres, entravara a sua promulgao) limita a pena de morte aos "delitos abominveis", restabelece o direito de apelo (que deixa de poder traduzir-se num agravamento da pena) e afasta a administrao judiciria dos comits do Partido.
	Em 1982 vemos uma onda de reabilitaes ainda maior: 242.000 s no Sichuan; no Cuangdong, 78% dos que tinham recebido a etiqueta con-tra-revolucionria so lavados da infmia e recebem uma pequena indeniza-o por cada ano passado na priso. Entre os novos condenados, os polticos caem para 0,5%. Em 1983, o Ministrio da Segurana v as suas competn-cias drasticamente reduzidas e tem de ceder ao da Justia a administrao do laogai. O Ministrio Pblico comea a anular certas prises, a instruir queixas contra a polcia, a perseguir os guardas torturadores - publicamente condenados e a inspecionar os campos. Em princpio, deve deixar-se de considerar a origem de classe na instaurao dos processos. Em 1984,  facilitado o regresso  sociedade no final da pena, e, na priso, a formao profissional comea a suplantar o estudo ideolgico. Introduzem-se as noes de reduo de pena, de liberdade condicional, de licenas de alguns dias; a preservao do lao familiar  doravante favorecida. Em 1986, os efetivos nas prises caram para cerca de cinco milhes (e no voltaro a subir depois): menos da metade de 1976 e, com 0,5% da populao total, o mesmo que nos Estados Unidos, menos do que na URSS dos ltimos anos. Apesar de terem sido feitos enormes esforos, a parte do PIB produzida no laogai situa-se na mesma ordem de grandeza, ou seja, trs vezes menos do que no final dos anos 50.
	Os progressos continuaram aps a comoo do "segundo Tian'anmen". Desde 1990, os cidados podem combater a administrao na justia. A partir de 1996, a deteno administrativa  estritamente regulamentada, e reduzida a um ms; a pena mxima de laojiao tinha j passado para trs anos. O papel e a autonomia dos advogados de defesa foram reforados; o seu nmero mais do que duplicou entre 1990 e 1996. A partir de 1995, os magistrados so recrutados por concurso (anteriormente, tratava-se as mais das vezes de antigos militares ou policiais).
	Estamos, no entanto, muito longe de poder pensar que a China se tornou um Estado de direito. A presuno de inocncia continua a no ser admitida, o crime contra-revolucionrio no foi retirado dos cdigos, embora seja agora utilizado com prudncia. Em dezembro de 1994, o termo "laogai" foi substitudo pelo mais banal "priso", mas a Gazeta Legal acha conveniente precisar: "A funo, o carter e as tarefas da nossa administrao penitenciria permanecero inalterados". A maior parte dos julgamentos decorre sem a presena do pblico, e os processos continuam frequentemente expeditivos (instruo quase sempre inferior a trs meses, por vezes a uma semana) e no motivados. Apesar de a corrupo entre os quadros ser geral, eram menos de 3% os julgados por esse delito em 1993-1995. Globalmente, embora os membros do PCC (4% da populao) representassem, nos anos 80, 30% dos culpados, s forneciam 3% dos executados. Tudo isto  bem revelador dos laos de influncia e da solidariedade que continuam a reger as relaes entre os aparelhos poltico e judicirio. A deteno de uma parte da equipe municipal de Pequim por malversao provocou uma grande comoo em meados dos anos 80, mas continua a ser um fato relativamente isolado. A nomenkla-tura comunista, cada vez mais envolvida nos negcios, permanece praticamente invulnervel.
	Finalmente, essa violncia extrema que  a pena de morte continua a ser correntemente aplicada na China. Existem centenas de casos de condenao  morte, entre os quais os "casos graves" de contrabando, a exportao ilegal de obras de arte ou a "revelao de segredos de Estado" (cuja definio  temivelmente vaga). O perdo presidencial, previsto em 1982, continua a no ser praticado. A China, com vrios milhares de execues todos os anos,  responsvel por mais de metade das execues que ocorrem em todo o planeta; e o nmero continua aumentando em relao ao final dos anos 70, e tambm aos ltimos sculos do imprio chins.  lcito aproximar essa sinistra realidade da facilidade com que se transgredia no sentido da eliminao fsica quando de campanhas ou crises. Em 1983, o aumento da criminalidade provocou talvez um milho de detenes, e provavelmente um mnimo de dez mil execues (muitas das quais pblicas e "pedaggicas", o que em princpio  proibido pelo Cdigo Penal), numa "campanha de massas"  moda dos anos 50. Tal como nessa poca, tenta-se amalgamar todos os elementos perturbadores: muitos intelectuais, sacerdotes e estrangeiros foram importunados quando da campanha Contra a Poluio Espiritual, lanada logo em seguida. Quanto  ocupao da Praa de Tian'anmen durante um ms, na primavera de 1989, a sua represso foi  medida dos temores da equipe Deng, que mandou disparar, quando os dirigentes maostas de 1976 tinham se recusado a faz-lo: mil mortos aproximadamente, talvez dez mil feridos em Pequim, centenas de execues na provncia, muitas vezes mantidas em segredo ou disfaradas sob a capa de casos de delito comum; cerca de dez mil prises em Pequim, 30 mil em toda a China. As condenaes a penas de priso contaram-se por milhares, e os dirigentes do movimento que no "se arrependeram" receberam sentenas de at 13 anos de crcere. As presses e as represlias contra as famlias, prtica que se julgaria abandonada, recomearam em grande escala, tal como a postura de cabea baixa em pblico, as brutalidades e a sentena condicionada pela extenso do arrependimento e das denncias do acusado. Se os presos polticos constituem agora apenas uma pequena minoria dos detidos, contavam-se mesmo assim cerca de cem mil em 1991, dos quais mil eram dissidentes recentes. A China comunista do final do sculo  consideravelmente mais prspera e menos violenta do que a de Mo; rejeitou por muito a tentao da utopia e da guerra civil purificadora. Mas, no tendo nunca desautorizado claramente o seu fundador, continua pronta, em caso de dificuldade grave, a reutilizar alguns dos seus funestos mtodos.

	Tibet: um genocdio no teto do mundo?

	Em pane alguma as derivas da era Deng foram mais desastrosas do que no Tibet; em parte alguma a continuidade do Grande para o Pequeno Timoneiro foi mais sensvel. Sendo um Estado unitrio, a China concede s minorias nacionais direitos especiais, e uma certa autonomia administrativa no caso dos mais considerveis. Mas os quatro a seis milhes de tibetanos, que demonstraram de facto que no estavam dispostos a contentar-se com isso, tm saudades do tempo em que eram praticamente senhores de si mesmos, e em que o seu territrio histrico no estava dividido entre a Zona Autnoma do Tibet (que representa apenas metade do pas) e vrias provncias chinesas: a do Qinghai foi constituda nos anos 50 a expensas do Amdo tibetano, e as pequenas minorias tibetanas gozam de muito poucos direitos no Sichuan, no Gansu e no Yunnan, onde foram provavelmente tratadas ainda com menos considerao do que na Regio Autnoma, o que levou em particular  dura rebelio dos nmades guerreiros Golok do Amdo (Tibet Setentrional).
	Dificilmente se contestar que os tibetanos vivem um drama desde a chegada do Exrcito Popular de Libertao (EPL) em 1950-1951. Mas no ter esse drama sido muitas vezes agravado, com as inevitveis variantes locais, pelo desprezo chins por esses "selvagens atrasados" dos altos plats, desprezo do conjunto dos habitantes da China Popular? Assim, de acordo com os adversrios do regime, 70 mil tibetanos teriam morrido de fome entre 1959 e 1962-1963 (como noutras regies isoladas, houve bolses de fome que subsistiram por muito mais tempo). Isto representa de 2% a 3% da populao, ou seja, perdas proporcionalmente bastante inferiores s sofridas pelo pas no seu conjunto.  verdade que um estudo recente de Becker reporta nmeros muito mais elevados, chegando aos 50% de mortos no distrito natal do Dalai-Lama, no Qinghai. Entre 1965 e 1970, as famlias foram coercivamente agrupadas em comunas populares militarmente organizadas - como em outras regies, e um pouco mais tardiamente. A vontade de produzir a todo o custo os mesmos "grandes" cereais que na China propriamente dita levou  tomada de medidas absurdas, responsveis pela fome, como obras de irrigao e construo de socalcos malconcebidos, a supresso do pousio, indispensvel nos solos pobres e no adubados, a substituio sistemtica da cevada rstica, capaz de suportar o frio e a seca, pelo trigo, muito mais frgil, ou a limitao das pastagens dos iaques: muitos desses animais morreram, e os tibetanos deixaram de ter laticnios (a manteiga  um elemento fundamental da sua alimentao) e novas peles com que cobrir as suas tendas no inverno - alguns morreram de frio. Parece igualmente que, como noutros lugares, as entregas obrigatrias de mercadorias foram excessivas. As nicas dificuldades verdadeiramente especficas foram: a instalao de dezenas de milhares de colonos chineses, a partir de 1953, no Tibet Oriental (Sichuan), onde eles se beneficiaram de uma parte das terras coletivizadas; a presena na Regio Autnoma de cerca de 300 mil chineses da maioria Han, dos quais 200 mil militares, que era preciso alimentar; e o adiamento para 1965 das medidas de liberalizao rural implementadas por Liu Shaoqi, o que nas outras provncias aconteceu em 1962, e simbolizadas no Tibet pelo slogan "Uma parcela de terra, um iaque".
	O Tibet tambm no foi poupado pela Revoluo Cultural. Em julho de 1966, os Guardas Vermelhos (entre os quais alguns tibetanos,309 o que des-tri o mito unanimista mantido pelos partidrios do Dalai-Lama) revistam casas particulares e substituem nos altares os Budas por retratos de Mao Zedong; submetem os monges a essas "sesses de luta" contnuas das quais nem sempre se sai vivo; mas, principalmente, eles tomam os templos, incluindo os mais famosos: Zhou Enlai  obrigado a mandar soldados para proteger o prprio Potala de Lhassa (antiga residncia do "deus vivo"). O saque do mosteiro de Jokhang, em Lhassa, repete-se em milhares de outros lugares; segundo o testemunho de um monge: "Havia vrias centenas de capelas. S duas foram poupadas. Todas as outras foram pilhadas e profanadas. Todas as imagens, textos sagrados e objetos rituais foram destrudos ou levados... S a esttua de akyamuni,  entrada do Jokhang, foi poupada pelos Guardas Vermelhos, porque [...] simbolizava os laos entre a China e o Tibet. As des-truies duraram quase uma semana. Depois de tudo isto, o Jokhang foi transformado em caserna para os soldados chineses... Uma outra parte [...] foi transformada em matadouro." Considerando o peso da religio na sociedade tibetana, essas exaes tpicas desse perodo foram evidentemente ainda mais duramente sentidas do que noutros lugares. Parece tambm que o exrcito, menos ligado  populao local, apoiou aqui mais decididamente os Guardas Vermelhos, pelo menos quando lhes era oposta resistncia. No entanto, tambm nesse caso, as grandes matanas ocorreram no fim do movimento, em 1968, nas batalhas entre grupos maostas (centenas de mortos em Lhassa, em janeiro), e, sobretudo, durante o vero, quando o exrcito imps a formao de um Comit Revolucionrio por ele dirigido. Houve assim, no total, talvez mais chineses do que tibetanos mortos durante a Revoluo Cultural.
	Para o Tibet, no entanto, os piores anos foram, de longe, os que tinham comeado com a chegada das tropas chineses e culminado, em 1959, com a coletivizao forada (trs anos depois da China), a insurreio que se seguiu, a brutal represso que a esmagou e a fuga para a ndia do Dalai-Lama (soberano temporal e espiritual), acompanhado por cem mil pessoas, em que se inclua uma larga parte da pequena elite culta do pas. Certamente os anos 50 no foram na China propriamente dita um mar de rosas, mas, no alto plat, o poder deu mostras de uma violncia extrema, destinada a impor simultaneamente o comunismo e o domnio chins a. uma populao ferozmente independente, em parte seminmade (cerca de 40% dos habitantes), em parte ligada aos mosteiros. A situao torna-se ainda mais tensa com a coletivizao, em meados da dcada. E,  sublevao dos guerrilheiros de Khampa, o exrcito responde com atrocidades absolutamente desproporcionais. Mas j na ocasio dos festejos do ano-novo tibetano, em 1956, o grande mosteiro de Chode Gaden Phendeling, em Batang, tinha sido destrudo por um bombardeio areo, causando a morte de pelo menos dois mil monges e peregrinos. 
	A litania das atrocidades  sinistra, e muitas vezes inverificvel. Mas a concordncia dos testemunhos  tal, que o Dalai-Lama declarou, no sem razo, a propsito dessa poca: "[Os tibetanos] no foram apenas fuzilados, foram espancados at  morte, crucificados, queimados vivos, afogados, mutilados, mortos por inanio, estrangulados, enforcados, cozidos em gua fervendo, enterrados vivos, esquartejados ou decapitados." O momento mais sombrio  sem dvida o ano de 1959, o da grande insurreio do Kham (Tibet Oriental), que se espalha at Lhassa.  impossvel distinguir entre o que foi reao s comunas populares e ao Grande Salto, o que foi mobilizao espontnea contra vrios anos de exaes e o que se deveu  infiltrao macia, por parte da CIA, dos guerrilheiros Khampa, previamente treinados nas prticas de guerrilha em bases de Guam e do Colorado. A populao civil, que parece simpatizar com os insurrectos e aceitar que eles se misturem a ela, sofrer como eles os bombardeios macios do exrcito chins; os feridos, abandonados sem socorro, eram por vezes enterrados vivos ou acabavam sendo devorados pelos ces sem dono  o que tambm explica o elevado nmero de suicdios entre os vencidos. Lhassa, bastio de 20.000 tibetanos muitas vezes armados de mosquetes e sabres, foi retomada em 22 de maro, ao preo de entre 2.000 e 10.000 mortos e de destruies importantes infligidas ao templo de Ramoche e ao prprio Potala, escolhidos como alvos. O dirigente tibetano e uma centena de milhares dos seus compatriotas fugiram para a In-dia. Houve pelo menos mais uma grande revolta em Lhassa, em 1969, reprimida com muito sangue. E a guerrilha Khampa reacendeu-se ento at 1972. O ciclo revoltas-violncias-novas revoltas recomeou, pelo menos em Lhassa, a partir de outubro de 1987, ao ponto de, em maro de 1989, ter sido declarada a lei marcial; a capital tibetana acabava de passar por trs dias de sublevaes claramente independentistas, acompanhadas porpogromsanchi-neses. As violncias teriam feito mais de 600 vtimas em 18 meses, segundo o general Zhang Shaosong. A despeito de alguns excessos inaceitveis, especialmente contra monjas em cativeiro,  todavia claro que os mtodos chineses mudaram: j no se pode falar de massacres. Mas, no total, poucas famlias tibetanas no ficaram com pelo menos um drama ntimo para contar.^17
	A maior tragdia do Tibet contemporneo foi a das centenas de milhares de prisioneiros dos campos de concentrao - talvez um tibetano em cada dez, no total - dos anos 50 e 60. Parece que muito poucos (h quem fale de 2%)3is escaparam vivos dos 166 campos recenseados, a maior parte no Tibet e nas provncias vizinhas: as organizaes a servio do Dalai-Lama reportaram, em 1984, 173.000 mortos em cativeiro. Comunidades monsticas inteiras foram enviadas para as minas de carvo. As condies de deteno - fome, frio, calor extremo - parecem ter sido, no seu conjunto, terrveis, e fla-se tanto de execues de detidos que se recusavam a abrir mo da ideia de um Tibet independente quanto de casos de canibalismo entre os prisioneiros quando da fome do Grande Salto. Tudo se passa como se os tibetanos, entre os quais um quarto dos homens adultos so lamas, constitussem uma populao de suspeitos: um em cada seis adultos, aproximadamente, foi classificado como direitis-ta, contra um em 20 na China. Na regio tibetana das plancies, no Sichuan, onde Mao pudera reabastecer-se quando da Longa Marcha, dois homens em cada trs so presos nos anos 50, s vindo a ser libertados em 1964 ou 1977. O Panchen-Lama, o segundo mais alto dignitrio do budismo tibetano, ousa protestar junto de Mo, num relatrio de 1962, contra a fome e a represso que dizimam os seus compatriotas. Em resposta,  atirado para a priso e depois colocado em regime de priso domiciliar, at 1977; o "veredicto" que o condena  anulado em 1988.
	Se nenhum argumento convincente permite pensar que os chineses tenham planejado o genocdio fsico dos tibetanos, o fato  que tentaram incontestavelmente o genocdio cultural. Os templos, j o dissemos, foram as suas vtimas preferidas: no dia seguinte  Revoluo Cultural, apenas 13 dos 6.259 locais de culto do budismo tibetano continuavam a funcionar. Dos outros, os mais favorecidos foram transformados em casernas, em hangares ou em centros de deteno: apesar das enormes depredaes, eles conseguiram sobreviver, e alguns deles esto hoje reabertos. Mas muitos foram totalmente arrasados, e os seus tesouros  manuscritos seculares, afrescos, thanka (pinturas), esttuas, etc. , destrudos ou roubados, sobretudo quando continham metais preciosos. Uma fundio de Pequim recolhe 600 toneladas de esculturas tibetanas at 1973- Em 1983, uma misso oriunda de Lhassa encontrou na capital chinesa 32 toneladas de relquias tibetanas, que incluam 13.537 esttuas e estatuetas. O esforo de erradicao do budismo foi acompanhado por uma tentativa de impor nomes chineses aos recm-nascidos tibetanos, e, at 1979, de escolarizar as crianas em mandarim; numa espcie de recordao tardia - e malsituada - da revoluo antimanchu de 1911, os Guardas Vermelhos puseram-se a cortar as tranas dos tibetanos dos dois sexos; tentaram igualmente impor as normas de vestimentas ento em moda entre os Han.
	As mortes violentas foram, sem dvida, em proporo, mais numerosas no Tibet do que em qualquer outro territrio do conjunto chins.  no entanto difcil levar inteiramente a srio os nmeros divulgados pelo governo tibetano no exlio em 1984: 1.200.000 vtimas, ou seja, aproximadamente um tibetano em cada quatro. Anunciar 432.000 mortos em combate parece particularmente pouco verossmil. Mas  lcito falar de massacres genocidrios: pelo nmero de mortos, pelo pouco caso em relao aos civis e aos prisioneiros, pela regularidade das atrocidades. A populao da Regio Autnoma baixou de 2,8 milhes de habitantes em 1953 para 2,5 milhes em 1964; tendo em conta o nmero de exilados e a taxa de natalidade (tambm ela incerta), isto poderia representar cerca de 800.000 "mortos a mais", ou seja, uma taxa de perdas semelhante  do Camboja dos Khmers Vermelhos.^22 O fato de, nessas condies, se manifestar to frequentemente nas mulheres tibetanas o medo de um aborto ou da esterilizao forados quando da menor estada num hospital  tanto um indcio suplementar de um sentimento de extrema insegurana quanto o efeito de prticas rudemente antinatalistas (que imitavam as prticas recentes em vigor entre a maioria Han, que por muito tempo dispensou as minorias). Diz-se que o secretrio-geral do PCC, de visita a Lhassa em 1980, chorou de vergonha diante de tanta misria, tanta discriminao, tanta segregao entre Han e tibetanos, e falou de colonialismo "em estado puro". Os tibetanos, durante muito tempo esquecidos no seu pas de neve e de deuses, tm a infelicidade de viver numa zona eminentemente estratgica em pleno corao da sia. Esperemos que eles no tenham de pagar por isso com seu desaparecimento fsico  felizmente improvvel  ou de sua alma.

	2. Coreia do Norte, Vietn e Laos: a semente do Drago
	por Pierre Rigoulot

	CRIMES, TERROR E SEGREDO NA COREIA DO NORTE

	A Repblica Popular e Democrtica da Coreia (RPDC) foi criada em 9 de setembro de 1948 na parte do pas que se estende ao norte do Paralelo 38. Nos termos de um acordo assinado com os americanos em 1945, a URSS havia sido encarregada de administrar "provisoriamente" essa zona, enquanto os Estados Unidos administrariam a Coreia Meridional, ao sul do mesmo paralelo.
	Muito rapidamente, a Coreia do Norte revelou-se como o Estado comunista mais fechado do mundo. As autoridades soviticas depressa vedaram o acesso ao Norte a qualquer representante da comunidade internacional.
	Essa atitude de isolamento iria acentuar-se ainda mais durante os dois primeiros anos de existncia da RPDC.
	Finalmente, a guerra que o Norte desencadeou em 25 de junho de 1950 - e que ainda no est formalmente terminada, pois somente um armistcio foi assinado, em 27 de julho de 1953, com as tropas da ONU  agravou o peso das mentiras, da desinformao e da propaganda, assim como a extenso a praticamente todos os aspectos da vida do pas das reas normalmente abrangidas pelo chamado segredo de Estado.
	Todavia, no  s a guerra que est em causa: a natureza intrnseca do regime comunista norte-coreano, fechado sobre si prprio at mesmo em relao ao mundo comunista (com efeito, durante o conflito sino-sovitico, o regime tergiversou todo o tempo, sem pender de uma forma clara ou duradoura para qualquer dos lados), e tambm o receio, um pouco na linha dos comunistas albaneses ou cambojanos, de ver a influncia do mundo exterior corromper a "unidade ideolgica do povo e do Partido", explicam que o Estado norte-coreano merece muito bem o nome que por vezes lhe  conferido, de "reino eremita". Alm disso, esse autismo poltico foi teorizado atravs da ideologia chamada do "Djutch", ou seja, do domnio de si prprio, da independncia e at da auto-suficincia, ideologia que passa a fazer oficialmente parte dos estatutos do Partido do Trabalho Coreano a partir do seu V Congresso, em novembro de 1970.
	Nessas condies, e menos do que em qualquer outro lugar, no se pode ter a esperana de produzir informaes globais e pormenorizadas acerca das realidades da represso na Coreia do Norte, at porque nunca foi possvel constituir, nem no interior nem no exterior do pas, uma oposio ativa que pudesse, como aconteceu na URSS e nos pases do Leste Europeu, recolher e difundir informaes. Temos de nos contentar com ecos oficiais, que  preciso interpretar ou decifrar, com testemunhos de fugitivos, em nmero crescente desde h alguns anos,  verdade, mas durante muito tempo pouco numerosos, com dados recolhidos pelos servios de informaes dos pases vizinhos, muito particularmente pela Coreia do Sul. Dados que convm, evidentemente, manejar com precauo.

       Antes da constituio do Estado comunista
	
       O comunismo coreano no foi fundado por Kim II Sung, ao contrrio do que afirmam as hagiografias que a populao norte-coreana  obrigada a engolir desde a infncia. O seu nascimento  mais antigo, uma vez que em 1919 existiam dois grupos que se reclamavam bolchevistas. Uma vez que Moscou no deu o seu aval imediato a nenhuma das duas faces, a luta entre elas foi feroz. As primeiras vtimas do comunismo coreano so, portanto, os prprios comunistas. Guerrilheiros antijaponeses do "PC Coreano pan-russo", conhecidos como "grupo de Irkutsk", confrontaram-se de armas na mo com outros guerrilheiros de um grupo que fundara um "Partido Comunista Coreano" em junho de 1921. O caso fez vrias centenas de mortos e obrigou o Komintern a sair da sua reserva e a tentar impor a unidade do movimento coreano.
	Os comunistas coreanos estiveram frequentemente nas linhas da frente na luta contra os japoneses (recordemos que, em 1910, o Japo fez da Coreia uma colnia), e a ferocidade da represso colonialista causou numerosas vtimas nas suas fileiras. No entanto,  difcil no atribuir aos prprios comunistas coreanos uma parte da responsabilidade pelo seu esmagamento: o desconhecimento do pas por parte dos quadros formados no estrangeiro e a vontade possivelmente herica  mas de consequncias catastrficas  de organizar manifestaes em dias de importncia simblica, como o 1 de maio, devem ser postos em causa.
	Outros comunistas vo tombar mais tarde, durante as lutas entre faces no momento em que o pas era dividido em duas zonas, como conseqncia da derrota do Japo na Segunda Guerra. Kim II Sung, simples comandante de uma unidade de guerrilha antijaponesa nos confins da Mancharia,  o escolhido pelos soviticos, em detrimento de comunistas que militavam no interior do pas havia muito tempo. Em setembro de 1945, em Pyongyang, ocorrem diversos assassinatos de quadros comunistas que se opem a Kim II Sung, como Hyon Chun Hyok. Algumas dezenas? Algumas centenas? Ainda no se sabe.
	Os nacionalistas, que em Pyongyang, nesse inverno de 1945-1946, ainda tinham direito de cidadania, foram tambm perseguidos e presos. Atravs do seu dirigente, Cho Man Sik, eles denunciavam a deciso da conferncia dos ministros dos Negcios Estrangeiros das grandes potncias, realizada em Moscou, em dezembro de 1945, de colocar a Coreia sob tutela durante um perodo de pelo menos cinco anos. Cho foi preso em 5 de janeiro de 1946 e executado passados mais de quatro anos, em outubro de 1950, durante a evacuao de Pyongyang diante do avano das tropas da ONU.  evidente que vrios dos seus amigos polticos mais chegados sofreram igual sorte...
	A represso exerce-se igualmente sobre a populao. Nessa parte setentrional do pas, os soviticos forjam praticamente de alto a baixo um Estado  sua imagem: reforma agrria para abrir caminho  coletivizao, partido nico, enquadramento ideolgico da populao em associaes de massas, etc. Qualquer adversrio poltico, qualquer proprietrio de terras, qualquer opositor  reforma agrria, qualquer cidado suspeito de ter colaborado com os japoneses,  perseguido. No entanto,  difcil colocar na conta do comunismo as vtimas de uma depurao que, provavelmente, no teria sido menos severa nas mos dos dirigentes nacionalistas. Alis, a implementao do regime, numa primeira fase, d origem menos a um banho de sangue do que  fuga para Sul de centenas de milhares de pessoas pertencentes s camadas sociais  qual nos referimos acima, e mais geralmente de todos aqueles que temiam pela sua vida e pelos seus bens. Embora o fechamento do Norte a organismos internacionais ou provenientes da zona Sul se faa muito rapidamente, continua a ser possvel passar do Norte para o Sul, mais ou menos facilmente, at 1948.

       Vtimas da luta armada
	
       Essa fuga, possvel durante os trs primeiros anos de existncia de um poder que ainda no se afirma como Estado, no significa que os dirigentes comunistas tenham renunciado a uma "comunizao" geral da populao da pennsula. Consideravam, com efeito, como provvel e prxima a unificao, em seu benefcio, da Coreia. Os arquivos recentemente abertos em Moscou mostram um Kim H Sung impaciente por derrubar aqueles a quem ele j chama de "marionetes" dos americanos: as marionetes em questo tm um exrcito muito mais fraco que o do Norte (os Estados Unidos receavam que elas prprias se lanassem numa aventura no Norte), a sua concepo autoritria do poder  contestada sob a forma de greves, e muitas vezes de atentados e de aes de guerrilha enquadradas pelos comunistas em diversas regies do pas, e a populao do Sul - Kim II Sung pensa desta forma e, principalmente, diz isto  tinha confiana nele e em seu exrcito. Kim D Sung insiste, pois, junto a Stalin, que d finalmente luz verde no fim do inverno de 1949-1950. Em 25 de junho de 1950, ocorre a premeditada invaso. As tropas norte-coreanas invadem o Sul de surpresa.  o incio de uma guerra terrvel que far mais de meio milho de mortos na totalidade da populao coreana, cerca de 400.000 mortos e um pouco mais de feridos entre os chineses vindos em socorro dos norte-coreanos quando esses se vem ameaados de uma derrota total face s tropas da ONU comandadas pelo general MacArthur, pelo menos 200.000 mortos entre os soldados norte-coreanos, 50.000 entre os soldados sul-coreanos, mais de 50.000 americanos, alm de milhes de desabrigados. O batalho francs integrado nas forcas da ONU contar cerca de 300 mortos e 800 feridos.
	Raras so as guerras cuja origem est to obviamente ligada  vontade comunista de expandir - para o bem do povo - a sua zona de influncia... Na poca, numerosos intelectuais franceses de esquerda - Jean-Paul Sartre, por exemplo - apoiaram a posio comunista, fazendo da Coreia do Sul o agressor de um pas pacfico. Hoje, principalmente graas ao estudo dos arquivos  nossa disposio, j no se permite a dvida: esses sofrimentos e outros, como os que suportaram os prisioneiros (6.000 soldados americanos e quase outros tantos provenientes de outros pases, na maior parte sul-coreanos, morreram na priso) ou como o calvrio do pessoal diplomtico francs e ingls que ficou em Seul, preso e depois deportado pelas tropas norte-coreanas, o dos missionrios que trabalhavam na Coreia do Sul, igualmente deportados, devem indiscutivelmente ser postos na conta do comunismo.
	Sabemos que ao cabo de trs anos de guerra foi assinado, em julho de 1953, um armistcio que estabelecia uma zona desmilitarizada entre as duas Coreias, mais ou menos sobre a linha de partida do conflito, ou seja, o Paralelo 38. Um armistcio, e no a paz. A continuao de incurses e ataques por parte da Coreia do Norte causou numerosas vtimas. Entre os golpes desferidos pelo Norte contra o Sul e que visaram tanto civis como militares, podemos citar o ataque, em 1968, por um comando de 31 homens, ao palcio presidencial sul-coreano (um nico sobrevivente entre os assaltantes), o atentado de Rangoon, na Birmnia, dirigido em 9 de outubro de 1983 contra membros do governo de Seul - fez 16 mortos, quatro dos quais ministros sul-coreanos - ou a exploso, em pleno voo, de um avio da Korea Air Line, em 29 de novembro de 1987, com 115 pessoas a bordo.
	A Coreia do Norte no  suspeita,  culpada. Uma terrorista a seu servio foi detida e explicou que em Pyongyang se pretendia, com aquela operao, mostrar que o Sul no era capaz de garantir a segurana dos jogos Olmpicos de Seul previstos para alguns meses mais tarde e, desse modo, abalar o seu prestgio.
	Acrescentemos, porque se trata aqui da guerra conduzida contra o conjunto do mundo capitalista, que nos anos 60 e 70 a Coreia do Norte deu asilo a vrios grupos terroristas, principalmente o Exrcito Vermelho japons  que se destacou em Israel por seus atentados, grupos de fedayin palestinos, guerrilheiros filipinos, entre outros.
Vtimas comunistas do Partido-Estado norte-coreano
	Lembramo-nos de que o relatrio Kruschev foi sobretudo uma denncia dos crimes de Stalin contra os comunistas. Na Coreia do Norte, seria igualmente longa a lista das vtimas dos expurgos no seio do Partido do Trabalho. Calculou-se que, dos 22 membros do primeiro governo norte-coreano, 17 foram assassinados, executados ou vtimas do expurgo!4
	Logo que o armistcio de Pan Mun Jon  assinado, sabe-se que um expurgo atinge, no interior do Partido Comunista norte-coreano, um certo nmero de quadros de alto nvel. Em 3 de agosto de 1953, um "grande processo"  ocasio para aniquilar os comunistas "do interior", julgados por espionagem a favor dos americanos e por tentativa de subverso do regime. Ti-bor Meray, jornalista e escritor hngaro, assistiu a esse processo. Ele havia conhecido um dos acusados, Sol Jang Sik, intrprete adjunto da delegao norte-coreana nas negociaes de Kaesong em julho-agosto de 1951, alm de poeta e tradutor de Shakespeare para o coreano.

	O nmero 14

	"Um grande nmero havia sido costurado nas costas do uniforme de cada prisioneiro. O principal acusado era o nmero l, e os restantes estavam numerados por ordem de importncia at o nmero 14.
	O nmero 14 era Sol Jang Sik.
   	Mal consegui reconhec-lo. O seu belo rosto apaixonado de outros tempos estava abatido e exprimia fadiga e resignao. J no havia brilho em seus olhos sombrios. Movia-se como um rob. Como vim a saber vrios anos mais tarde, os acusados eram bem alimentados nas semanas anteriores ao seu aparecimento, para apresentarem melhor aspecto aps as provaes e as torturas. Se o processo ocorria em pblico, as autoridades esforavam-se por dar ao auditrio, e particularmente aos representantes da imprensa ocidental, a impresso de que os prisioneiros estavam com boa sade, bem-alimentados, em boa forma fsica e mental. Como na Coreia no existiam correspondentes ocidentais, havendo apenas representantes da imprensa sovitica e de outros jornais comunistas, o objerivo bvio era demonstrar a culpabilidade dos prisioneiros, humilhando aquelas pessoas que tinham sido personagens mais ou menos importantes e agora eram acusados.
   	Tirando isso, o processo era muito semelhante aos diferentes julgamentos polticos hngaros, tchecos ou blgaros. Eu estava to perturbado ao ver Sol naquelas condies, e a traduo era to sumria, que mal consigo recordar o contedo exato das acusaes (s esperava que Sol no me visse, e julgo que isso no aconteceu, pois a sala estava abarrotada). Tanto quanto me lembro, estava em causa uma conspirao contra a democracia popular coreana, com um compl para assassinar Kim II Sung, o lder bem-amado da nao. Os acusados desejavam o retorno da velha ordem feudal... Alm disso, eles queriam tambm passar a Coreia do Norte para as mos de Syngman Rhee e, sobretudo, faziam espionagem a favor dos imperialistas americanos e dos agentes a quem esses pagavam..."
	Da lista de acusados faziam parte muitos funcionrios altamente colocados - entre outros, Li Sung Yop, um dos secretrios do Comit Central do Partido Comunista, Paik Hyung Bok, do Ministrio do Interior, e Cho II Myung, ministro adjunto da Cultura e da Propaganda. Sol tinha muito pouca importncia naquele grupo. Vrios deles vinham do sul da Coreia.
	Pak Hon Yong, ministro dos Negcios Estrangeiros, um comunista que lutara durante muito tempo no interior do pas, foi condenado  morte em 15 de dezembro de 1955 e executado trs dias mais tarde como "agente secreto americano". Outros lhe seguiram, em 1956, com a eliminao de Mu Chong, representante do grupo dito "de Yenan", antigo general no VIII Exrcito chins, comandante da artilharia norte-coreana e depois chefe de estado-maior do GQG das foras combinadas sino-norte-coreanas durante a guerra contra o Sul e a ONU. Um outro expurgo atingiu os quadros ligados aos soviticos, como Ho Kai, e mais uma vez quadros conhecidos por pertencerem  faco Yenan, ligados aos chineses, como Kim Du Bong, em maro de 1958, e tambm, na mesma poca, outros quadros, abertos s reformas kruschevianas. Vrias ondas de expurgos ocorreram em 1960, em 1967 (Kim Kwang Hyup, secretrio do Secretariado do Partido,  enviado para um campo de concentrao), em 1969 (a vtima mais conhecida  Hu Hak-bong, encarregado das operaes secretas contra o Sul, mas  preciso notar igualmente o desaparecimento de 80 estudantes do Instituto Revolucionrio das Lnguas Estrangeiras de Pyongyang), em 1972 (Pak Kum Chul, antigo vice-primeiro-ministro e membro do Bureau Poltico, encontra-se num campo), em 1977 (Li Yong Mu, antigo membro do Bureau Poltico,  igualmente enviado para um campo, tambm nesse caso com o desaparecimento de um certo nmero de estudantes, filhos de quadros postos sob suspeita), em 1978, em 1980, etc.
	Na realidade, esses expurgos existem de uma forma estrutural, e no contingente ou conjuntural. Ainda recentemente, em 1997,  possvel que tenha ocorrido uma no princpio do ano, dirigida contra oficiais do exrcito e quadros do Partido com veleidades reformadoras,  cabea dos quais estaria o primeiro-ministro Kang Son San. Segundo testemunhos de fugitivos, sempre que surge uma tenso ligada a dificuldades materiais suplementares impostas  populao, alguns quadros comunistas so designados como bodes expiatrios, a fim de evitar que o poder seja minimamente posto em causa, e depois so presos, enviados para um campo, ou executados.

	As execues

	Ignoramos quantas foram, embora o Cdigo Penal norte-coreano possa dar-nos uma indicao - h pelo menos 47 crimes punveis com a pena de morte, que se podem classificar em:
	- crimes contra a soberania do Estado;
	- crimes contra a administrao do Estado, crimes contra a propriedade do Estado;
	- crimes contra as pessoas;
	- crimes contra os bens dos cidados;
	- crimes militares.
	Kang Koo Chin, o melhor especialista dos anos 60 e 70 do sistema legal da Coreia do Norte, tentou um clculo, apenas no que se refere aos expurgos no interior do Partido no perodo da brutal represso de 1958-1960. Segundo ele, cerca de nove mil pessoas teriam sido excludas do Partido, julgadas e condenadas  morte! Extrapolando essa estimativa sria e levando em considerao a quantidade de expurgos em massa conhecidos (uma dezena), atingir-se-ia o nmero respeitvel de 90 mil execues. Mais uma vez, trata-se simplesmente de uma ordem de grandeza: os arquivos de Pyongyang falaro mais tarde.
	Foi tambm possvel recolher alguns ecos, da parte de fugitivos, a respeito de execues pblicas visando a populao "civil" e tendo como motivos a "prostituio", a "traio", o assassinato, o estupro, a "sublevao"... A multido  ento incitada a adotar uma atitude cooperante, e o julgamento  acompanhado de gritos, insultos e at de arremesso de pedras. Por vezes, chega-se a encorajar um verdadeiro linchamento, sendo o condenado espancado at  morte enquanto a multido grita palavras de ordem. O fato de pertencer a uma ou outra classe desempenha aqui um papel capital. Duas testemunhas afirmaram perante os inquiridores da sia Watch que o estupro s era punvel com a morte para os cidados pertencentes s "categorias mais baixas".
	Juizes s ordens do Partido  desde o princpio que lhes  exigido que se comportem em estrito acordo com a doutrina legal marxista-leninista -, julgamentos que s cobrem uma parte das decises de encarceramento ou de execues  procedimentos mais expeditivos so efetivamente possveis , advogados s ordens do Partido, tudo isso d uma ideia da natureza do sistema judicial norte-coreano.
Prises e campos
	A Sr Li Sun Ok era membro do Partido do Trabalho e responsvel por um centro de abastecimento reservado aos quadros. Vtima de um desses expurgos regulares, ela foi presa juntamente com outros camaradas. Longamente torturada com gua e eletricidade, espancada, privada de sono, acabou por confessar tudo o que lhe exigiram, e principalmente que ela se tinha apropriado de bens do Estado, sendo, logo aps, condenada a 13 anos de priso. Apesar de o termo no ser oficialmente utilizado, trata-se realmente de uma priso. Seis mil pessoas, duas mil das quais mulheres, trabalham nesse complexo penal como animais, das cinco e meia da manh at a meia-noi-te, fabricando pantufas, coldres de pistola, sacos, cintos, detonadores para explosivos, flores artificiais. As prisioneiras grvidas so forcadas a abortar brutalmente. Qualquer criana nascida na priso  irremediavelmente estrangulada ou degolada.
	Outros testemunhos mais antigos j haviam trazido  luz a dureza das condies de vida na priso. Um relato excepcional do que se passava nas prises norte-coreanas durante os anos 60 e 70 chega-nos atravs de Ali Lameda, um poeta comunista venezuelano, favorvel ao regime, que fora trabalhar para Pyongyang como tradutor dos textos da propaganda oficial. Tendo deixado transparecer algumas dvidas acerca da eficcia da referida propaganda, Lameda foi preso em 1967. Embora no tenha ele prprio sido torturado durante o seu ano de cativeiro, afirmou ter ouvido os prolongados gritos de prisioneiros submetidos  tortura. No decorrer da sua deteno, perdeu cerca de 20 quilos, e o seu corpo ficou coberto de abscessos e de chagas.
	Numa brochura publicada pela Anistia Internacional, Lameda recorda a simulao de julgamento no fim do qual foi condenado a 20 anos de trabalhos forcados por "ter tentado sabotar, espionar e introduzir agentes estrangeiros na Coreia do Norte", as condies em que esteve detido,? e finalmente a sua libertao ao fim de seis anos, na sequncia de repetidas intervenes das autoridades venezuelanas.
	Outros depoimentos evocam a fome, utilizada como arma para quebrar a resistncia dos prisioneiros. No s a quantidade de alimento era insuficiente, como tudo era feito para adulterar as raes distribudas. Os prisioneiros ficavam frequentemente doentes: diarreias, doenas de pele, pneumonia, hepatite e escorbuto no eram raros.
	As prises e os campos fazem parte de um vasto conjunto de instituies que organizam a represso. Distinguem-se:
	- os "postos de socorro", espcie de prises transitrias nas quais se
aguarda julgamento por delitos polticos ligeiros e por delitos e crimes no
polticos;
	- os "centros de regenerao" pelo trabalho, que acolhem de cem a
200 pessoas julgadas associais, ociosas, ou apenas preguiosas. Existem em
quase todas as cidades. Fica-se por l entre trs meses e um ano, muitas vezes
sem julgamento nem acusao precisa;
	 os campos de trabalhos forados. Conta-se uma boa dzia deles no pas, comportando entre 500 e 2.500 pessoas cada. Os detidos so criminosos de delito comum, acusados de roubo, de tentativa de assassinato, de violao, mas havia tambm filhos de presos polticos, pessoas capturadas quando tentavam fugir do pas, etc.;
	 as "zonas de deportao", para onde so levados os elementos considerados pouco seguros (familiares de um desertor para o Sul, famlias de antigos proprietrios de terras, etc.). Essas fixaes de residncia so feitas em lugares distantes e tero atingido vrias dezenas de milhares de pessoas;
	- as "zonas de ditadura especial", que so verdadeiros campos de concentrao onde se podem encontrar prisioneiros polticos. Existem cerca de uma dzia desses campos, que renem entre 150.000 e 200.000 pessoas. Notar-se- que esse nmero representa apenas 1% da populao global, um nvel claramente inferior ao atingido pelo Gulag sovitico no incio dos anos 50. Evidentemente, essa "performance" deve ser interpretada no como o efeito de uma bondade especial, mas antes como a manifestao de um nvel excepcional de controle e de vigilncia sobre a populao.
	Essas zonas de ditadura especial encontram-se sobretudo no Norte do pas, em regies montanhosas e frequentemente de difcil acesso. A zona de Yodok seria a maior de todas e comportaria 50.000 pessoas. Abrange os campos de Yongpyang e Pyonjon, muito isolados, que agrupam cerca de dois teros dos prisioneiros da zona, e os de Ku-up, Ibsok e Daesuk, onde so mantidas, embora separadamente, famlias de antigos residentes no Japo e os solteiros. Existem ainda outras zonas de ditadura especial em Kae-chon, Hwasong, Hoiryung e Chongjin.
	Esses campos de concentrao foram criados no fim dos anos 50 para encarcerar "criminosos polticos" e opositores a Kim II Sung no interior do Partido... A respectiva populao aumentou acentuadamente em 1980, na sequncia do importante "expurgo" que se seguiu  derrota dos opositores  institucionalizao do comunismo dinstico no VI Congresso do Partido do Trabalho. Alguns deles, como o campo n 15 da zona de Yodok, esto divididos em "bairros de revolucionarizao", onde se encontram os prisioneiros que podem esperar rever um dia o mundo exterior, e "bairros de alta segurana", de onde jamais algum poder sair.
	O bairro de revolucionarizao  sobretudo ocupado por detidos da elite poltica, ou por repatriados do Japo que tm relaes pessoais com dirigentes de associaes japonesas favorveis  Coreia do Norte.
	A descrio feita pelos raros fugitivos que passaram pelos campos  apavorante: altas cercas de arame farpado, ces pastores-alemes, guardas armados, campos de minas em redor. A alimentao  totalmente insuficiente; o isolamento do exterior, completo; o trabalho, duro (minas, pedreiras, escavao de canais de irrigao, corte de madeira durante cerca de 12 horas por dia, s quais se somam duas horas de "formao poltica"). Todavia, a fome  o pior suplcio, e os detidos tudo fazem para capturar e comer rs, ratos e minhocas.
	Esse quadro clssico do horror deve ser completado pela meno da progressiva decadncia fsica dos prisioneiros, da utilizao dos detidos para trabalhos "especiais", como a perfurao de tneis secretos, ou perigosos, em instalaes nucleares, e mesmo como alvos vivos para os exerccios de tiro praticados pelos guardas. Torturas e violncias sexuais so alguns outros aspectos entre os mais chocantes da vida dos detidos norte-coreanos.
	Acrescentemos a afirmao pelo regime do carter familiar da responsabilidade: muitas famlias encontram-se num campo devido  condenao de um nico dos seus membros; no entanto, se, na ocasio do grande expurgo dos adversrios de Kim D Sung, em 1958, a punio era muitas vezes alargada a trs geraes, esse sistema tende hoje a aligeirar-se. O que no impede que testemunhos relativamente recentes ilustrem essa estranha concepo do direito. Uma jovem fugitiva, Kang Chul Hwan, entrou no campo aos 9 anos. O ano era 1977. Ela havia sido internada junto com o pai, um dos irmos e dois dos avs porque, em 1977, o av, antigo responsvel pela Associao dos Coreanos de Kyoto, no Japo, tinha sido preso por causa de algumas observaes demasiado complacentes acerca da vida num pas capitalista.
	At os 15 anos, Kang Chul Hwan seguiu no campo o regime reservado s crianas: de manh, escola, onde se ensina sobretudo a vida do gnio nacional, Kim II Sung;  tarde, trabalho (arrancar ervas daninhas, apanhar pedras, etc.).
	Devemos basear-nos no testemunho dos diplomatas franceses aprisionados pelos norte-coreanos em julho de 1950, no incio da guerra? Ou no dos americanos do Pueblo, um navio-espio que navegava ao largo das costas coreanas, detido para averiguao em 1968? As circunstncias, nos dois casos, so excepcionais, mas as declaraes de uns e de outros demonstram a brutalidade dos interrogatrios, a indiferena face  vida humana, as sistemticas e pssimas condies de deteno.
	Em 1992, dois fugitivos trouxeram novas informaes quanto  vida no maior dos campos norte-coreanos, o de Yodok. Eles afirmaram principalmente que ali as condies de deteno eram to duras, que todos os anos, apesar das cercas eletrificadas, das torres de vigilncia a cada quilmetro e do risco, em caso de fracasso, de um processo pblico e de execuo perante os outros detidos, cerca de 15 presos tentavam fugir. Esses dois homens tornam mais pesada a fatura em vidas humanas das vtimas do comunismo, pois, segundo eles, no houve at hoje uma nica evaso bem-sucedida.
	Retemos, ainda, o testemunho excepcional recentemente produzido por um antigo guarda de um campo da zona de Hoiryong. Esse homem, que fugiu para a China em 1994, antes de alcanar Seul, fez progredir consi-deravelmente os nossos conhecimentos acerca do mundo concentracionrio coreano. Segundo essa testemunha, chamada An Myung Chul, as autoridades designam os "maus elementos" que devem ser executados: "Insubmis-sos, responsveis por revoltas, assassinos, mulheres grvidas (qualquer relao sexual  formalmente proibida aos prisioneiros), matadores de gado, destruidores de materiais utilizados na produo. No crcere, amarram-lhes um grosso pedao de madeira entre as pernas dobradas e as ndegas, forando-os a ficarem ajoelhados nessas condies. A m circulao do sangue provoca danos fsicos a longo prazo, e, mesmo que os libertassem, eles no poderiam mais andar e morreriam ao fim de alguns meses".
	Nesse campo, as execues deixaram de ser pblicas. Isso acontecia antigamente, mas as mortandades tinham se tornado to correntes, que acabaram por inspirar menos terror do que revolta. A guarda, fortemente armada, devia proteger o local do suplcio, e, a partir de 1984, as execues passam a ocorrer em segredo.

	A golpes de p

   	Quem se encarrega das execues? A escolha  deixada a critrio dos agentes da Segurana, que fuzilam quando no querem sujar as mos, ou matam lentamente se pretendem acompanhar a agonia. Assim, tive conhecimento de que se pode matar a paulada, por apedrejamento ou com uma p. Chegou-se ao ponto de matar os prisioneiros como se fosse um jogo, organizando um concurso de tiro no qual eles servem de alvos. Tambm aconteceu forar os supliciados a lutarem entre si e a se despedaarem mutuamente. [...] Vi vrias vezes com os meus prprios olhos cadveres atrozmente trucidados: as mulheres raramente morrem em paz. Vi seios rasgados a facadas, partes genitais dilaceradas por um cabo de p, nucas despedaadas a marteladas [...] No campo, a morte  algo muito banal. E os "criminosos polticos" batem-se como podem para sobreviver. Fazem o que quer que seja para conseguir mais milho e banha de porco. Entretanto, apesar dessa luta, morrem diariamente no campo, em mdia, quatro ou cinco pessoas, de fome, por acidente ou... executadas.
	 praticamente impensvel fugir de um campo. Um guarda que prende um fugitivo pode esperar entrar para o Partido e depois frequentar a Universidade. Alguns obrigam prisioneiros a escalar as cercas de arame farpado. Ento eles disparam e fingem t-los detido.
	Alm dos guardas, h ces vigiando os criminosos polticos. Servem-se desses terrveis animais, muito bem-treinados, como mquinas de matar. Em julho de 1988 no campo n 13, dois prisioneiros foram atacados pelos ces. Dos seus corpos s restaram os ossos. Tambm em 1991, dois rapazes de 15 anos foram devorados por esses ces.
	An afirma ter ouvido uma conversa entre o chefe da guarda e outros dois membros do pessoal de enquadramento do campo n 13, durante a qual se evocaram prticas que se julgariam exclusivas dos exterminadores dos campos nazistas. "Camarada", pergunta um deles, subchefe de esquadra, "ontem vi fumaa saindo da chamin da Terceira Seo.  verdade que se prensam os corpos para lhes extrair a gordura?"
	O chefe da guarda responde que tinha ido uma vez ao tnel da Terceira Seo, perto de uma colina.
	"Senti o cheiro do sangue e vi cabelos colados s paredes... Nessa noite no consegui dormir. A fumaa que voc viu provm da cremao dos ossos dos criminosos. Mas no fale com eles a esse respeito, ou voc se arrepender. Pode chegar a sua vez de ter um feijo-preto (uma bala) na cabea!"
	Outros guardas falaram das experincias que se faziam no campo, como deixar morrer de fome os prisioneiros, a fim de estudar a sua resistncia:
	"Os encarregados dessas execues e dessas experincias bebem lcool antes de matar. Agora tornaram-se verdadeiros peritos; por vezes, batem nos prisioneiros com um martelo, na nuca. Os infelizes perdem ento a memria; e desses semimortos fazem alvos vivos para os exerccios de tiro. Quando a Terceira Seo tem falta de pessoas, um caminho negro, conhecido como 'o corvo', vem buscar mais, semeando o terror entre os presos. O 'corvo' vem ao campo uma vez por ms e leva 40 ou 50 pessoas no se sabe bem para onde..."
	Em todos os casos, as detenes fazem-se discretamente, sem procedimentos legais, de modo que os prprios parentes e vizinhos nada sabem.
11 Uma das subdirees da "Agncia de Segurana Nacional", encarregada das regies fronteirias. Esse campo encontra-se efetivamente bem ao lado da fronteira chinesa. Quando se apercebem do desaparecimento, evitam fazer perguntas, com receio de eles tambm terem aborrecimentos.
	Depois de tais horrores, mal nos atrevemos a mencionar a existncia dos campos de lenhadores norte-coreanos na Sibria, a partir de 1967, apesar das duras condies de trabalho, da alimentao insuficiente, da vigilncia de guardas armados, das solitrias para quem no cumprisse disciplinadamente as normas norte-coreanas, etc.
	Quando a URSS desmoronou, e graas ao testemunho de vrios lenhadores evadidos e aos esforos de Serguei Kovalev, responsvel por uma comisso dos direitos humanos junto a Boris Yeltsin, melhoraram as condies desses trabalhadores imigrados de uma natureza especial, e j no esto apenas sob o controle das autoridades norte-coreanas.
	Paremos por um momento. Tal como no caso dos expurgos no interior do Partido, trata-se aqui somente da procura de uma ordem de grandeza. Encontrando-se dez mil pessoas detidas no campo n 22, segundo uma estimativa da testemunha, morrendo ali cinco pessoas por dia e considerando que o nmero total de detidos nos campos de concentrao norte-coreanos  da ordem dos 20.000, chega-se a um total de cem mortos dirios, ou 36.500 por ano. Multiplicando esse nmero por 45 anos (perodo de 1953-1998), atinge-se um valor de cerca de 1,5 milho de mortos pelos quais o comunismo coreano seria diretamente responsvel.

       O controle da populao

	Se os campos abrigam um concentrado de horror, existe pouca liberdade fora deles. A Coreia do Norte  um lugar de negao da escolha individual, da autonomia pessoal. "A sociedade inteira deve ser firmemente constituda por uma fora poltica unida que respira e avana com um s pensamento e com uma s vontade sob o comando do lder supremo", afirmava um editorial difundido numa rdio em 3 de janeiro de 1986.  um slogan corrente na Coreia do Norte ordena: "Pensem, falem e ajam como Kim II Sung e Kim Jong II..."
	De alto a baixo da escala social, o Estado, o Partido, as suas associaes de massas ou a sua polcia controlam os cidados em nome do que chamam de "os dez princpios do Partido para realizar a unidade".  esse texto, e no a Constituio, que ainda hoje rege a vida quotidiana dos norte-coreanos. Limitemo-nos, para captar o seu esprito, a citar o artigo 3: "Imporemos absolutamente a autoridade do nosso Lder".
	Em 1945, apareceu um Departamento da Segurana Social (entenda-se: um departamento encarregado, no plano social, do controle da populao); em 1975, surgiu uma Comisso Nacional de Censura (a qual existia, evidentemente, desde h muito) e, em 1977, uma "Comisso Jurdica da Via Socialista".
	Quanto  polcia poltica, constituiu, em 1973, um "Ministrio da Proteo Poltica Nacional", atualmente rebatizado com o nome de "Agncia da Segurana Nacional", dividida em diferentes sees (a Segunda Seo ocupa-se dos estrangeiros; a terceira, da proteo das fronteiras; a stima, dos campos, etc.).
	Uma vez por semana, todo mundo  "convidado" para um curso de doutrinao, e, tambm semanalmente, para uma sesso de crtica e autocrtica chamada na Coreia do Norte "balano de vida". Cada um dos participantes deve acusar-se de pelo menos uma falta poltica e dirigir no mnimo duas censuras aos que o rodeiam.
	Os quadros norte-coreanos so certamente privilegiados nos planos material e alimentar, mas o controle de que so alvo  tambm mais rigoroso: vivem num bairro especial, e as suas conversas telefnicas ou outras so sujeitas a escutas, as fitas cassetes udio ou vdeo que possuem so verificadas, sob pretexto de "consertos", ou de "interveno causada por fuga de gs". Mas, para todos os norte-coreanos, os aparelhos de rdio ou de televiso apenas do acesso, atravs de um sistema de blocagem dos botes, s estaes do Estado; os deslocamentos necessitam do acordo das autoridades locais e das unidades de trabalho; a fixao de domiclio em Pyongyang, a capital e vitrine do socialismo norte-coreano, , como noutros Estados comunistas, estritamente controlada.
Tentativa de genocdio intelectual?
	A represso, o terror no significam somente agresso ou sujeio do corpo, mas tambm do esprito. O encarceramento pode ser tambm espiritual, e essa no  a menor das degradaes. Ao abrir esse panorama, evocamos o encerramento do pas como uma clusula metodolgica: era impossvel, relativamente a esse Estado, conseguir um conjunto de informaes to precisas e fiveis quanto desejaramos. Mas o fechamento ao mundo exterior, reforado por uma agresso ideolgica permanente, por uma violncia sem paralelo em qualquer outro lugar, faz inegavelmente parte dos crimes do comunismo norte-coreano.  certo que os fugitivos que conseguem atravessar as malhas da rede testemunham tambm a extraordinria capacidade de resistncia do ser humano.  nesse sentido que os adversrios do conceito do totalitarismo afirmam que h sempre "encenao", resistncia, e que a "totalidade" visada pelo Big Brother nunca. foi conseguida.
	No que diz respeito  Coreia do Norte, a conduo da propaganda se faz segundo dois eixos. Um eixo classicamente marxista-leninista: o Estado socialista e revolucionrio oferece a melhor vida possvel aos cidados cumpridores. A vigilncia face ao inimigo imperialista deve, no entanto, man-ter-se (visto que, poder-se-ia hoje acrescentar, muitos "camaradas" do exterior capitularam). O outro eixo  de tipo nacional e arcaico: afastado do materialismo dialtico, o poder norte-coreano utiliza uma mitologia tendente a fazer crer aos sditos da dinastia dos Kim que o cu e a terra esto coniventes com os seus amos. Assim, a agncia oficial norte-coreana assegurou que, em 24 de novembro de 1996 (trata-se s de alguns exemplos entre milhares), durante uma inspeo de Kim Jong II s unidades do exrcito norte-coreano estacionadas em Pan Mun Jon, a zona ficou envolta por um nevoeiro to denso como inesperado. Assim, o nmero um pde andar pelos diferentes locais, a fim de tomar conhecimento das "posies inimigas", sem ser visto por quem quer que fosse. Misteriosamente, o nevoeiro levantou-se, e o tempo clareou no exato momento em que ele posava para ser fotografado com um grupo de soldados... A mesma coisa havia acontecido numa ilha do Mar Amarelo. Tendo chegado a um posto avanado de observao, Kim Jong II iniciou o estudo de um mapa das operaes. Foi ento que a chuva e o vento cessaram, as nuvens se afastaram, e o sol comeou a brilhar... Os despachos da mesma agncia oficial mencionam igualmente "uma srie de fenmenos misteriosos que ocorreram em toda a Coreia com a aproximao do terceiro aniversrio da morte do Grande Lder [...] O cu sombrio tornou-se subitamente luminoso no canto de Kumchon [...] e trs grupos de nuvens vermelhas dirigiram-se para Pyongyang... Pelas 20hlOmin do dia 4 de julho, a chuva, que havia comeado a cair desde a manh, parou, e um duplo arco-ris estendeu-se por cima da esttua do presidente (...); depois, uma estrela muito brilhante resplandeceu no cu por cima da esttua", etc. 

       Uma hierarquia estrita

	Nesse Estado que se reclama como socialista, a populao no se encontra apenas enquadrada e controlada; est registrada em funo de critrios que respeitam a origem social, a localizao geogrfica (provm de uma famlia do Sul ou do Norte?), os antecedentes polticos e os sinais recentes de lealdade para com o regime. Uma "sbia" diviso do conjunto foi assim implementada nos anos 50. Com a ajuda da burocracia, foram desse modo constitudas pelo menos 51 categorias, que determinavam fortemente o futuro material, social e poltico dos cidados. Provavelmente de gesto muito pesada, esse sistema foi simplificado nos anos 80, reduzindo de 51 para trs o nmero de categorias sociais.  certo que o "adiamento" continua ainda muito complexo, visto que, alm dessas "classes", os servios secretos vigiam particularmente algumas "categorias" representadas numa ou noutra classe, principalmente a das pessoas vindas do exterior do pas, sejam elas residentes ou visitantes.
	Distingue-se, assim, uma classe "central", "ncleo" da sociedade, uma classe "indecisa" e uma classe "hostil", que representa cerca de um quarto da populao norte-coreana. O sistema comunista norte-coreano justifica, por essas distines, uma espcie de apartheid: um jovem de "boa origem", oriundo, por exemplo, de uma famlia que conta entre os seus membros antigos guerrilheiros antijaponeses, no pode desposar uma jovem de "m origem", proveniente, por exemplo, de uma famlia do Sul. Um antigo diplomata norte-coreano, Koh Yung Hwan, que foi, no Zaire, nos anos 80, pri-meiro-secretrio da embaixada sul-coreana, afirma: "Na Coreia do Norte existe um sistema mais rgido do que o das castas." 
	Mesmo admitindo que essa discriminao por origens faa sentido do ponto de vista marxista-leninista, a discriminao biolgica , desse mesmo ponto de vista, muito mais difcil de justificar. Todavia, os fatos a esto: os deficientes fsicos norte-coreanos so vtimas de um severo ostracismo. Assim, no lhes  permitido residir na capital, Pyongyang. At h pouco tempo, eram simplesmente transferidos para localidades dos arredores, de maneira que os membros vlidos das respectivas famlias pudessem visit-los. Hoje, so deportados para locais isolados, nas montanhas ou nas ilhas do Mar Amarelo. Dois locais de exlio foram identificados com exatido: Bu Jun e Euijo, no Norte do pas, no distantes da fronteira chinesa. Essa discriminao em relao aos deficientes acentuou-se recentemente com a aplicao dessa poltica de excluso em outras grandes cidades alm de Pyongyang: Nampo, Kaesong, Chongjin.
	Em paralelo com os deficientes, os anes so sistematicamente perseguidos, detidos e enviados para campos onde no s so isolados, como tambm impedidos de ter filhos. "A raa dos anes deve desaparecer", ordenou o prprio Kim Jong Il...

       A fuga

	Apesar da vigilncia dos guardas da fronteira, alguns norte-coreanos conseguiram fugir; depois da guerra, cerca de 700 pessoas escaparam para o Sul, mas pensa-se que vrios milhares atravessaram a fronteira chinesa. Ignorando o que se passa no exterior, estritamente controlados, os norte-coreanos que atravessam clandestinamente a fronteira so ainda pouco numerosos. Estima-se em cerca de uma centena os fugitivos que chegaram ao Sul em 1997, um nmero superior  mdia dos anos 90 e sobretudo das dcadas anteriores. O nmero de fugas anuais quintuplicou desde 1993, e tende a aumentar. Geralmente, os candidatos  passagem clandestina da fronteira fogem a uma ameaa de sano ou tiveram a oportunidade de viajar ao estrangeiro.  assim que, entre os fugitivos, se conta um certo nmero de diplomatas ou de funcionrios de alto nvel. Em fevereiro de 1997, o idelogo do Partido, Hwang Jang Yop, refugiou-se na embaixada da Coreia do Sul em Pequim antes de chegar a Seul. Quanto ao embaixador no Egito, que fugiu para os Estados Unidos no fim de agosto de 1997, tinha razes para temer pelo seu futuro poltico: no ano anterior, o seu prprio filho tinha "desaparecido". Koh Yung Hwan, o diplomata da embaixada nor-te-coreana no Zaire, j mencionado, receava ser preso: ele tinha, imprudentemente, diante de uma transmisso televisiva do julgamento do casal Ceau-sescu, "esperado que nada de semelhante acontecesse no seu pas" - prova flagrante da sua falta de confiana na direo. Fugiu quando tomou conhecimento da chegada de agentes da Segurana do Estado  embaixada, alguns dias depois. Segundo ele, qualquer tentativa de fuga descoberta antes da sua concretizao leva o autor  priso e ao campo. Pior: como pde verificar em Ama, na Jordnia, o projeto de fuga de um diplomata salda-se geralmente por uma "neutralizao": o candidato a fuga  engessado dos ps  cabea e despachado para Pyongyang. No aeroporto,  apresentado como vtima de um acidente de automvel, ou outro qualquer!
	O simples cidado que falha em sua tentativa de fuga no tem melhor sorte. Como a imprensa francesa relatou recentemente,18 os fugitivos so provavelmente executados antes de sofrerem um tratamento particularmente degradante: "Os testemunhos recolhidos ao longo do rio (o Yalu) so concordantes. Os policiais que recuperam os fugitivos introduzem um arame na boca ou no nariz dos traidores  nao, que ousaram abandonar a me-p-tria. Uma vez levados de volta, so executados. As respectivas famlias so enviadas para campos de trabalho."

       Atividades no exterior

	No satisfeita em impedir brutalmente qualquer tentativa de fuga, a direo norte-coreana envia agentes ao estrangeiro para a atingir os inimigos do regime. Em setembro de 1996, por exemplo, o adido cultural da Coreia do Sul em Vladivostok foi assassinado. O Japo suspeita que norte-coreanos tenham raptado cerca de 20 mulheres japonesas, mais tarde obrigadas a trabalhar na formao de espies ou de terroristas. Existe um outro litgio entre o Japo e a Coreia do Norte a respeito das centenas de mulheres japonesas que se instalaram nesse ltimo pas a partir de 1959 com os seus esposos coreanos. Apesar das promessas ento feitas pelo governo norte-coreano, nenhuma delas pde regressar, ainda que temporariamente, ao seu pas natal. Sabe-se, atravs do testemunho dos raros fugitivos que conheceram os campos, que vrias dessas mulheres foram detidas e que a taxa de mortalidade entre elas  muito elevada. Das 14 japonesas encarceradas no campo de Yodok no final dos anos 70, apenas duas estavam ainda vivas 15 anos mais tarde. O governo norte-coreano serve-se dessas mulheres, s quais promete autorizao para partir, contra uma ajuda alimentar japonesa. Os despachos das agncias no mencionam quantos quilos de arroz vale, aos olhos dos dirigentes norte-coreanos, a libertao de uma mulher japonesa. A Anistia Internacional e a Sociedade Internacional dos Direitos do Homem, entre outras associaes, esto preocupadas com esses casos. O rapto de pescadores sul-coreanos  igualmente uma prtica corrente.
	Entre 1955 e 1995, os incidentes no cessaram. O governo sul-corea-no afirma que mais de 400 pescadores continuam desaparecidos. Alguns passageiros e membros da tripulao de um avio desviado em 1969 e que nunca foram devolvidos ao governo do Sul, um diplomata sul-coreano raptado na Noruega em abril de 1979, um pastor, o reverendo Ahn Sung Un, raptado na China e levado para a Coreia do Norte em julho de 1995, representam outros tantos exemplos de cidados sul-coreanos vtimas das violncias norte-coreanas em territrio estrangeiro.
	
       Fome e misria

	Recentemente, um outro motivo grave veio pr em causa o regime norte-coreano: a situao alimentar da populao. Medocre desde h muito tempo, agravou-se nos ltimos anos de tal forma, que as autoridades nor-te-coreanas, apesar do seu sacrossanto princpio de auto-suficincia, lanaram recentemente apelos ao auxlio internacional. A colheita de cereais em 1996 cifrou-se em 3,7 milhes de toneladas, ou seja, menos trs milhes do que a produo do incio dos anos 90. A de 1997 ser certamente pouco diferente. A Coreia do Norte atribui, principalmente junto do Programa Alimentar Mundial da ONU, mas tambm junto dos Estados Unidos ou da Comunidade Europeia, a vrias catstrofes naturais (inundaes em 1994 e 1995, seca e macarus em 1997). As causas dessa penria alimentar esto de fato ligadas s dificuldades estruturais prprias de qualquer agricultura socialista, planificada e centralizada. Erros grosseiros, como o desflorestamento de colinas inteiras, a construo apressada de culturas em socalcos por equipes mais ou menos competentes, por ordens da cpula do Partido, desempenharam tambm o seu papel na gravidade das inundaes. O desmantelamento do comunismo sovitico e o novo rumo adotado pela China implicam que a ajuda desses dois pases  Coreia do Norte tenha diminudo bastante. A Rssia e a China tm agora de negociar de acordo com as leis do mercado internacional. A falta de divisas fortes pesa, portanto, sobre o governo norte-coreano, que adquire com grandes dificuldades mquinas agrcolas, adubos e combustveis.
	Qual , porm, exatamente a gravidade da situao alimentar? No sabemos, apesar das afirmaes catastrficas de organizaes humanitrias como a World Vision  que avana a possibilidade de dois milhes de vtimas  ou a Cruz Vermelha alem  que fala de dez mil mortes de crianas por ms. l9 Existem indicaes claras de graves dificuldades: relatrios de peritos da ONU confirmam os boatos que circulam entre a populao fronteiria chinesa: h, sem a mnima dvida, escassez de alimentos e, em certos locais, h fome. Mas a utilizao de viagens de personalidades de boa vontade que no hesitam em falar da possibilidade de "milhes de mortos" futuros se o auxlio no for ampliado, a difuso no estrangeiro de fotografias de crianas esquelticas ou de gravaes de vdeo de conselhos transmitidos atravs da televiso sobre as maneiras de usar ervas como alimento revelam um esforo organizado no sentido de enegrecer um quadro que de qualquer forma no  brilhante. No se trata, hoje, de levar o Presidente Herriot a dizer que a Ucrnia est bem, quando o pas atravessa uma terrvel fome, mas, pelo contrrio, de afirmar que a Coreia do Norte enfrenta uma terrvel fome e que qualquer interrupo de auxlio poderia conduzir a aes imprevistas e perigosas para a estabilidade da pennsula e para a paz no Extremo Oriente. O gigantesco exrcito norte-coreano est, no entanto, bem alimentado, e constri msseis cada vez mais aperfeioados.
	No dispomos praticamente de qualquer dado quantificado relativo s vtimas dessa escassez alimentar, exceto indicaes, fornecidas pelos prprios norte-coreanos, de uma percentagem no negligencivel de crianas que apresentam sinais de subnutrio: os especialistas do Programa Alimentar Mundial puderam, por exemplo, levar a cabo um estudo sobre 4.200 crianas de uma amostragem escolhida exclusivamente pelo governo norte-coreano: 17% sofriam de subnutrio,20 o que tende a confirmar a existncia de uma escassez generalizada e de muito provveis bolses locais ou regionais de fome. Essa escassez e essa fome, fortemente ligadas s escolhas polticas do regime norte-coreano, so entretanto limitadas e combatidas graas aos esforos do mundo "imperialista", que entrega milhes de toneladas de cereais. Entregue somente aos efeitos do regime comunista, a populao norte-coreana sofreria efetivamente uma verdadeira fome de consequncias terrveis. Torna-se tambm necessrio notar que os efeitos da penria em termos de vtimas so bastante reais, embora sejam sobretudo indiretos e se traduzam numa susce-tibilidade acrescida s diversas doenas.
	Em concluso, pode-se falar de centenas de milhares de vtimas diretas e indiretas das penrias alimentares, embora tendo presentes os esforos do governo norte-coreano para "enegrecer", por todos os meios, a situao,  semelhana do que fizeram os soviticos quando, em julho de 1921, constituram "uma comisso de auxlio aos famintos", pedindo ajuda s boas vontades do mundo burgus.

       Balano final

	Na Coreia do Norte, mais do que em qualquer outro lugar,  difcil traduzir em nmeros a desgraa comunista. Devido  escassez de elementos estatsticos,  impossibilidade de conduzir inquritos locais,  inacessibilida de dos arquivos. E tambm por razes que tm a ver com o isolamento. Como contabilizar os efeitos do derrame de uma propaganda to imbecil como permanente? Como quantificar a ausncia de liberdades (de associao, de expresso, de deslocamento, etc.)? Como avaliar a vida estragada de uma criana enviada para um campo porque o av foi condenado, ou de uma mulher encarcerada obrigada a abortar em condies atrozes? Como incluir nas estatsticas a mediocridade de uma vida obcecada pela falta de alimento, de aquecimento, de roupas confortveis e elegantes, etc.? O que pesa, ao lado desse conjunto, a "americanizao" da sociedade sul-coreana, invocada pelos nossos crticos do ultraliberalismo para colocar no mesmo plano a democracia obviamente imperfeita do Sul e o pesadelo organizado do Norte?
	Pode objetar, do mesmo modo, que o comunismo norte-coreano  uma caricatura do comunismo, tal como foi o dos Khmers Vermelhos. Uma exceo arqueostalinista. Certamente, mas esse museu do comunismo, esse Madame Tussaud asitico, continua vivo...
	Feitas essas reservas, podemos adicionar aos 100.000 mortos em consequncia dos expurgos no interior do Partido do Trabalho, 1,5 milho de mortos devido ao internamento concentracionrio e 1,3 milho de mortos na sequncia da guerra desejada, organizada e desencadeada pelos comunistas -uma guerra inacabada que aumenta regularmente a quantidade das vtimas devido a operaes pontuais, mas mortferas (ataques de comandos nor-te-coreanos contra o Sul, atos de terrorismo, etc.). Haveria que se adicionarem a esse balano as vtimas diretas e sobretudo indiretas da subnutrio.  nessa rea que hoje faltam mais dados, mas tambm  a que, agravando-se a situao, os elementos podem, dramaticamente e muito proximamente, tornar-se mais pesados. Mesmo que nos contentemos, desde 1953, com 500 mil vidas perdidas devido  fragilizao face s doenas, ou diretamente provocadas pela escassez alimentar (correm atualmente boatos, evidentemente incon-trolveis, de atos de canibalismo!), chegamos, para um pas com 23 milhes de habitantes e submetido a um regime comunista durante 50 anos, a um resultado global de trs milhes de vtimas.
	
	VIETN: OS IMPASSES DE UM COMUNISMO DE GUERRA
       por Jean-Louis Margolin

       "Vamos transformar as prises em escolas!" 
       L Duan, secretrio-geral do Partido Comunista Vietnamita

	Admitir as culpas do comunismo vietnamita  ainda hoje uma provao para uma quantidade de ocidentais que, ao mobilizarem-se contra outras faltas  as do colonialismo francs, as do imperialismo americano , se colocaram objetivamente no mesmo campo que o Partido Comunista Vietnamita (PCV). Da, a pensar que esse ultimo era a expresso das aspiraes de um povo, que visava construir uma sociedade fraterna e igualitria, ia s um passo. O ar simptico do seu fundador e dirigente at 1969, Ho Chi Minh, a tenacidade extraordinria dos seus combatentes e a habilidade da sua propaganda externa, pacifista e democrtica, fizeram o resto. Era to difcil demonstrar simpatia por Kim II Sung e pelo seu regime de concreto armado quanto parece fcil preferir,  podrido do regime de Saigon de Nguyen Van Thieu (1965/1975), a austeridade sorridente dos mandarins vermelhos de Hani. Pretendeu-se crer que o PCV j no era um partido stalinista: acima e antes de tudo nacionalista, teria principalmente utilizado a sua etiqueta comunista para receber auxlio dos chineses e dos soviticos
	No se trata de pr em causa a sinceridade do patriotismo dos comunistas vietnamitas, que lutaram com uma determinao sem paralelo, durante meio sculo, contra franceses, japoneses, americanos e chineses: a acusao de "traio" ou de "colaborao" desempenhou frequentemente no Vietn o mesmo papel que a de "contra-revoluo" na China. Mas o comunismo no foi em parte alguma incompatvel com o nacionalismo ou mesmo com a xenofobia, e na sia menos ainda do que em qualquer outro lugar. Ora, sob o verniz de um agradvel unanimismo nacional, quem no quiser ser cego detecta facilmente um stalinismo-maosmo muito servil em relao aos seus prottipos.
	O jovem Partido Comunista Indochins (PCI)22 comeou bastante mal. Logo na sua fundao, em 1930, teve de enfrentar, por ocasio de um processo espetacular, as consequncias dos erros sinistros de alguns dos seus ativistas de Saigon, os quais, j empenhados em 1928, e influenciados pela tradio das sociedades secretas e do terrorismo nacionalista, tinham julgado e executado um dos seus camaradas, queimando, em seguida, o corpo; o crime do qual ele era acusado: ter seduzido uma militante. Em 1931, lanando-se um pouco loucamente na criao dos "sovietes" rurais no Nge Tinh (segundo o modelo do Jiangxi, mas o Vietn no tem a imensido da China...), comea de imediato a liquidar, as centenas, os proprietrios de terras; uma parte dos habitantes foge, o que facilita o regresso rpido e em fora das tropas coloniais. Quando o PCI, dissimulado sob a "Frente Unida" da Liga para a Independncia do Vietn - ou Vietminh -, ousa finalmente lanar-se na luta armada em grande escala, na primavera de 1945, ataca mais facilmente os "traidores" e os "reacionrios" (que por vezes incluem o conjunto dos funcionrios) do que o ocupante japons, decerto mais bem armado; um dos seus responsveis prope uma campanha de assassinatos, a fim de "acelerar os progressos do movimento". Proprietrios e mandarins rurais constituem tambm alvos preferidos; criam-se "tribunais populares" para conden-los e confiscar-lhes os bens. Mas o terror visa igualmente os adversrios polticos do fraco PCI, que conta apenas com cerca de cinco mil militantes:  necessrio fazer o vcuo, muito rapidamente, e ficar sozinho  frente do movimento nacional. O Dai Viet, partido nacionalista aliado dos japoneses,  selvatica-mente perseguido: o Vietminh de Son Tay pede a Hani um gerador eltrico e um especialista para torturar os "traidores" em grande escala. 
	A revoluo de agosto, que projeta Ho Chi Minh para o poder por ocasio da capitulao nipnica, faz do PCI o elemento central do novo Estado. O Partido aproveita as poucas semanas que antecedem a chegada das tropas aliadas (francesas e britnicas no Sul e chinesas no Norte) para redobrar de ardor na liquidao da concorrncia. Constitucionalistas moderados (incluindo a sua figura emblemtica, Bui Quang Chieu) e a seita polti-co-religiosa Hoa Ho (inclusive o seu fundador, Huynh Phu S, ele prprio responsvel por vrios assassinatos) so to esquecidos quanto o grande intelectual e poltico de direita que  Pham Quynh. Mas so os trotskistas, ainda ativos na regio de Saigon, embora pouco numerosos, que se tornam alvo de um verdadeiro extermnio: o seu principal dirigente, Ta Thu Tau,  preso e morto em setembro, em um Quang Ngai particularmente devastado pelas depuraes,2? e o dirigente comunista de Saigon, Tran Van Giau, um veterano de Moscou, apesar de t-los caucionado, posteriormente negar qualquer responsabilidade nesses assassinatos. Ele declara, em 2 de setembro: "Um certo nmero de traidores  ptria est em vias de engrossar as suas fileiras para servir o inimigo [...]  necessrio punir os bandos que, criando perturbaes na Repblica Democrtica do Vietn (RDV), do ao inimigo a oportunidade de nos invadir." Um artigo da imprensa de Hani, de 29 de agosto, incita  criao, em cada bairro ou povoado, de "comisses de eliminao de traidores". Dezenas, talvez centenas de trotskistas so perseguidos e abatidos; outros, que participam em outubro na defesa de Saigon contra os franco-britnicos, so privados de munies e de abastecimentos: a maioria morrer. Em 25 de agosto, est organizada em Saigon uma Segurana de Estado, segundo o modelo sovitico, e as prises, que acabam de esvaziar-se, enchem-se de novo; o Vietminh cria uma "Comisso de Assassinato de Assalto", que desfila pelas ruas; amplamente recrutada entre pessoas do submundo, essa comisso est  frente do movimento popular antifrancs de 25 de setembro, que deixa atrs de si dezenas de cadveres, frequentemente mutilados. As companheiras vietnamitas de franceses so por vezes sistematicamente abatidas, apesar de acusadas de "falsas Vietminh". S no decorrer dos meses de agosto e setembro, os assassinatos com origem no Vietminh contam-se por milhares, e os sequestros por dezenas de milhares; a iniciativa  muitas vezes local, mas no h dvida de que o aparelho central d uma ajuda; o PCI lamentar mais tarde publicamente no ter ento eliminado mais "inimigos". No Norte, nica parte do pas que o PCI controlava at ao desencadear da guerra da Indochina, em dezembro de 1946, campos de deteno e polcia poltica esto bem implantados, e a RDV  dirigida por um partido nico de fato: os nacionalistas radicais do Viet-Nam Quoc Dan Dang (VNQDD, Partido Nacional do Vietn, fundado em 1927), que se tinham envolvido com o Vietminh numa luta feroz marcada por assassinatos recprocos, foram fisicamente eliminados a partir de julho, embora o seu partido tivesse sido to duramente reprimido como o PCI pelo poder colonial, em especial depois de ter organizado, em 1930, o motim de Yenbai.
	A violncia repressiva comunista ser em seguida, e durante muito tempo, desenvolvida como uma resistncia armada contra a Frana. Vrios testemunhos chamaram a ateno para os campos onde estiveram internados os soldados do Corpo Expedicionrio Francs. Muitos a sofreram e a morreram: de 20.000, apenas 9.000 sobreviviam quando os Acordos de Genebra (julho de 1954) permitiram a sua libertao. As terrveis doenas das montanhas indochinesas haviam dizimado muitos prisioneiros privados de proteo medicamentosa e de higiene - e muitas vezes deliberadamente su-balimentados  pelo enquadramento Vietminh. Houve maus-tratos, e por vezes verdadeiras torturas, embora os militares franceses lhes fossem teis: considerados como "criminosos de guerra", pretendia-se lev-los a se arrependerem e em seguida a aderirem aos valores dos seus carcereiros, sendo que o objetivo, para fins de propaganda, era o de fazer com que se voltassem contra o seu prprio lado. Essa "reeducao" de influncia chinesa (os conselheiros enviados por Mao abundam desde 1950), realizada  custa de sesses de propaganda nas quais  exigida uma participao ativa aos "alunos", em que os prisioneiros so divididos em "reacionrios" e "progressistas", e em que so feitas promessas (incluindo a de uma libertao), conheceu alguns xitos impressionantes, principalmente devido ao esgotamento fsico e psicolgico dos detidos. Alm disso, concorreu tambm o fato de, na RDV, os franceses terem sido bem menos maltratados do que aconteceria mais tarde com os prisioneiros autctones.
	 no momento em que a vitria parece possvel, em dezembro de 1953, que se resolve lanar a reforma agrria nas zonas libertadas. Antes do fim de 1954, o movimento estende-se ao conjunto do territrio nacional situado a norte do Paralelo 17, concedido  RDV pelos acordos de Genebra; a reforma s terminar em 1956. O seu ritmo, bem como os seus objetivos, so os mesmos da reforma agrria chinesa dos anos 1946-1952: reforo dos laos do Partido - oficialmente ressurgido em 1951 - com o campesinato pobre e mdio, preparao do desenvolvimento econmico pelo alargamento do controle estatal, e eliminao de embries potenciais de resistncia ao comunismo. E, entretanto, mais ainda do que na China, a elite tradicional dos campos, por uma conscincia nacional exacerbada, havia fortemente apoiado o Vietminh. Mas os mtodos, ferozes e deliberadamente mortferos, so tambm os aplicados no grande vizinho do Norte: em cada povoado, os ativistas "atiam'' - muitas vezes com dificuldade - os camponeses classificados como pobres e mdios (por vezes com a ajuda de grupos de teatro), depois segue-se o "processo de rancor" contra a ou as vtimas, bodes expiatrios, com freqncia escolhidas arbitrariamente (h uma quota a respeitar: de 4% a 5% da populao - os eternos 5% do maosmo),35 e a morte, ou pelo menos a priso e o confisco dos bens; o oprbrio  alargado a toda a famlia - como na China. O fato de nunca se levarem em considerao os "mritos" polticos mostra simultaneamente o impiedoso dogmatismo e tambm a vontade de enquadramento totalitrio da sociedade que sustenta o PCV. Uma proprietria e rica comerciante, me de dois Vietminh da primeira hora, que tivera direito ao ttulo de "benfeitora da revoluo", foi "lutada" duas vezes, mas os camponeses no demonstraram muito entusiasmo. Ento, "um grupo bem experimentado na China foi enviado para o local e conseguiu atrair a ateno da assistncia. [...]  Sr? Long foi acusada de ter matado trs rendeiros antes de 1945, de ter dormido com o residente francs, de ter lambido as botas dos franceses e feito espionagem a favor deles. Esgotada pela deteno, acabou por confessar tudo e foi condenada  morte. O seu filho, que se encontrava na China, foi chamado de volta ao pas, aviltado, despojado das suas condecoraes e condenado a 20 anos de priso." Tal como em Pequim, algum torna-se culpado apenas por ser acusado, uma vez que o Partido no se engana jamais. Assim sendo, o menor dos males que cada um pode fazer a si prprio  desempenhar o papel que se espera dele: "Mais valia ter matado o pai e a me e confess-lo do que nada dizer sem ter feito mal algum."
	O desencadear de violncia  alucinante. O tema do dio contra o adversrio - de classe ou no -  repisado: segundo L Duc Tho, futuro Prmio Nobel da Paz juntamente com Henry Kissinger, "se se pretende levar os camponeses a pegarem em armas,  preciso de imediato despertar neles o dio ao inimigo". Em janeiro de 1956, o rgo oficial do PC, Nhan Dan, escreve: "A classe dos latifundirios nunca se manter sossegada enquanto no for eliminada. " Como acontece ao norte da fronteira, a palavra de ordem : "Antes dez mortos inocentes do que um s inimigo sobrevivente." A tortura  prtica corrente, o que preocupar Ho no fim de 1954: "Alguns quadros tm ainda [sic] cometido o erro de utilizar a tortura. Trata-se de um mtodo selvagem, utilizado pelos imperialistas, pelos capitalistas e pelos senhores feudais para dominar as massas e controlar a revoluo [...] No decorrer dessa fase [re-sic], o recurso  tortura  estritamente proibido."
	Havia uma originalidade relativa ao evidente modelo chins: a essa "re-tificao" da sociedade que  a reforma agrria junta-se a do Partido (mais tardia na China); o peso dos membros das camadas privilegiadas no interior deste ltimo explica sem dvida tal simultaneidade. Tambm aqui se encontrariam "5%" de elementos infiltrados do VNQDD, partido semelhante ao Kuomintang chins; recordao longnqua dos expurgos do Jiangxi (ver anteriormente), anda-se  caa de "elementos contra-revolucionrios AB" (anti-bolcheviques) fantasmas. A parania quebra todas as barreiras: heris da guerra da Indochina so assassinados ou internados em campos de concentrao. O traumatismo  terrvel, e, no discurso dos comunistas vietnamitas, "1956" (o chinh huan culmina no princpio do ano) evoca ainda hoje o cmulo do horror: "Um secretrio do Partido Comunista caiu sob as balas do peloto de execuo gritando: 'Viva o Partido Comunista Indochins!' Incapaz de compreender o que lhe acontecia, morreu convencido de ter sido abatido pelos fascistas." As baixas, dificilmente quantificveis, so de qualquer modo catastrficas: provavelmente em torno de 50.000 execues nas zonas rurais (excluindo qualquer combate), ou seja, de 0,3% a 0,4% da populao total (estamos muito prximos da taxa mdia de vtimas provocadas pela reforma agrria chinesa);43 entre 50.000 e 100.000 pessoas teriam sido presas; estima-se em 86% a proporo de depurados nas clulas rurais do Partido, chegando por vezes aos 95% de excluses entre os quadros da resistncia antifrancesa. De acordo com o responsvel pelo expurgo, que admite "erros" em julho de 1956: "A direo (da retificao) acabou por fazer um julgamento tendencioso acerca da organizao do Partido. Partiu do princpio de que as clulas rurais, e sobretudo as da zona recentemente libertada, se encontravam todas sem exceo em poder do inimigo ou por ele infiltradas, e at mesmo que os rgos de direo dos distritos e das provncias tinham cado sob o domnio da classe dos latifundirios e dos elementos contra-revolu-cionrios." Temos aqui uma primeira prefigurao da condenao global do "novo povo" operada pelos Khmers Vermelhos (ver mais adiante).
	O exrcito tinha sido o primeiro a organizar nas suas fileiras um chinh huan, mais ideolgico do que repressivo, em 1951. Entre 1952 e 1956, a "retificao," torna-se quase permanente. Em certos "seminrios", a tenso  tal, que se torna necessrio retirar lminas e facas aos homens e deixar a luz acesa durante toda a noite para tentar prevenir os suicdios.  no entanto do exrcito que vir o fim do expurgo. As perseguies atingem to duramente os seus quadros, que eles comeam a reagir com freqncia atravs da desero e da passagem para o Vietn do Sul,47 que a instituio se assusta ao sentir-se enfraquecida, dado que a sua misso  a reunificao do pas. Comparativamente com a China, o peso das necessidades militares impe frequentemente um certo realismo, e a fraca extenso do pas facilita a partida de alguns descontentes: tudo isto vai no sentido de um certo atenuar da violncia arbitrria. O destino dos catlicos do Norte (1,5 milho de pessoas, 10% da populao total) tambm o confirma: imediatamente perseguidos, fortemente organizados, eles se aproveitaram da escapatria representada pela partida em massa, sob a proteo das ltimas tropas francesas; pelo menos 600.000 chegaram ao Sul.
	O efeito do XX Congresso do PC Sovitico (fevereiro) comea tambm a fazer-se sentir, e o Vietn conhecer umas temidas "Cem Flores" em abril de 1956. Em setembro, publica-se a revista Nhn Van (Humanismo), que simboliza a aspirao dos intelectuais  liberdade. Alguns escritores atrevem-se a escarnecer da prosa do censor oficial To Huu, autor deste poema:

       Viva Ho Chi Minh
       O farol do proletariado!
       Viva Stalin,
       A grande rvore eterna!
       Abrigando a paz  sua sombra!
       Matem, matem de novo, que a mo no pare um minuto;
       Para que arrozais e terras produzam arroz em abundncia,
       Para que os impostos sejam cobrados rapidamente.
Para que o Partido perdure, marchemos em conjunto com a mesma energia. Adoremos o presidente Moo, 
prestemos um culto eterno a Stalin
	
       Foi sol de pouca durao: em dezembro de 1956, as revistas literrias e crticas so proibidas, e uma campanha semelhante quela organizada na China contra Hu Feng e a liberdade de criao (ver anteriormente) alastra-se pouco a pouco com o apoio pessoal de Ho Chi Minh. Trata-se de fazer voltar ao bom caminho os intelectuais de Hani, membros ou prximos do Partido, frequentemente antigos resistentes. No incio de 1958, 476 "sabotado-res da frente ideolgica" so forados a uma autocrtica e enviados para um campo de trabalho ou para o equivalente vietnamita do laojiao chins. Como na RPC, a tentao kruscheviana  pois rapidamente rejeitada em benefcio de um ressurgimento da veia totalitria. O que simultaneamente a sustentar e limitar, em relao s flutuaes do Norte,  a guerra no Sul, que se reacende em 1957 contra a feroz represso anticomunista do regime de Ngo Dinh Diem apoiado pelos Estados Unidos; o PCV decide secretamente, em maio de 1959, generaliz-la e apoi-la a fundo com as suas remessas de armas e de homens, ao preo de imensos esforos da populao do Vietn do Norte. Tal no impede, em fevereiro de 1959, o lanamento de uma espcie de "grande salto adiante" na agricultura, depois de uma srie de artigos entusisticos escritos pelo prprio Ho, em outubro de 1958. A conjuno das enormes obras de irrigao com uma grave seca d origem, como mais a norte,  queda da produo e a uma fome generalizada que vitimou um nmero indeterminado de pessoas. O esforo de guerra tampouco impede, em 1963-1965, e depois em 1967, o expurgo de centenas de quadros "pr-soviticos" do partido, inclusive o antigo secretrio pessoal do "tio Ho", pois o PCV partilha na altura o "anti-revisionismo" dos comunistas chineses. Alguns expurgados passaro dez anos nos campos, sem julgamento. 
	A "guerra americana" - que s termina com os acordos de Paris (janeiro de 1973), que marcam a retirada das tropas dos Estados Unidos, ou melhor, com o desmoronamento do regime sul-vietnamita (30 de abril de 1975) - no foi acompanhada dos "banhos de sangue" que muitos temiam, e que atingiram o vizinho Camboja. Mas os prisioneiros vietnamitas feitos pelas foras comunistas - incluindo os "traidores" nas suas prprias fileiras - foram horrivelmente maltratados, e muitas vezes liquidados por ocasio dos deslocamentos; e  evidente que aquilo que foi pelo menos tanto uma guerra civil quanto uma "luta de libertao" assistiu, de ambos os lados, a numerosas atrocidades e exaes diversas, inclusive contra civis "recalcitrantes" em apoiar um ou outro campo;  no entanto muito difcil quantific-las e saber que parte excedeu a outra na utilizao de mtodos terroristas. Os comunistas cometeram pelo menos uma chacina de grande amplitude: durante as semanas em que o "Vietcong" controlou a antiga capital imperial de Hu, no quadro da ofensiva do Tet (fevereiro de 1968), foram mortas pelo menos trs mil pessoas (muito mais do que as piores barbaridades cometidas pelo exrcito americano), incluindo padres vietnamitas, religiosos franceses, mdicos alemes e todos os funcionrios, grandes ou pequenos, que foram encontrados pela frente; alguns foram enterrados vivos, enquanto outros foram convocados para "sesses de estudos", das quais jamais regressaram. Torna-se difcil compreender esses crimes, nunca reconhecidos pelos seus autores, e que tanto prenunciam a poltica dos Khmers Vermelhos. Caso se tivessem apoderado de Saigon em 1968, teriam os comunistas procedido do mesmo modo?
	O certo  que no foi assim que se comportaram em 1975. Durante algumas breves semanas, o milho de antigos funcionrios e militares do regime de Saigon pde mesmo acreditar que a to exaltada "poltica de clemncia do presidente Ho" no seria demagogia; assim, eles no temeram registrar-se junto s novas autoridades. Depois, no incio de junho, eles foram convocados para reeducao - "por trs dias" para os simples soldados, e "por um ms" para os oficiais e altos funcionrios. Na realidade, os trs dias transformaram-se em trs anos, e o ms em sete ou oito anos; os ltimos sobreviventes "reeducados" s regressaram em 1986. Pham Van Dng, ento primei-ro-ministro, reconheceu, em 1980, a existncia de 200.000 reeducados no Sul; as estimativas credveis variam entre 500.000 e um milho (numa populao de cerca de 20 milhes de habitantes), incluindo um grande nmero de estudantes, de intelectuais, de religiosos (sobretudo budistas e, por vezes, catlicos), de militantes polticos (entre os quais comunistas), principalmente muitos que haviam simpatizado com a Frente Nacional de Libertao do Vietn do Sul; essa organizao revela-se ento como um simples biombo que serve de cobertura  tomada total do poder pelos comunistas vindos do Norte, que violam quase instantaneamente todas as suas promessas de respeitar a personalidade prpria do Sul. Como em 1954-1956, os companheiros de estrada e camaradas de ontem so os "retificados" de hoje. Aos prisioneiros encarcerados em estruturas especializadas, durante anos e anos, h que se acrescentar um nmero indeterminado, mas significativo, de reeducados "leves", enclausurados durante algumas semanas nos respectivos locais de trabalho ou de ensino. Note-se que nos piores momentos do regime sulista os adversrios de esquerda denunciavam o encarceramento de 200 mil pessoas... 
	As condies de deteno no so uniformes. Inmeros campos, prximos das cidades, no tm arame farpado, e o regime  mais constrangedor do que penoso. Para os "casos difceis", pelo contrrio,  o envio para as terras altas do Norte, insalubres e longnquas.  provvel que alguns desses campos tenham sido inaugurados por prisioneiros franceses. Ali, o isolamento  absoluto, os cuidados mdicos mnimos, e a sobrevivncia depende muitas vezes do envio de vveres pelas famlias, que se arruinam para consegui-lo. A subnutrio  igualmente dramtica nas prises (200 gramas dirios de um arroz avermelhado cheio de pedras), usadas sobretudo "preventivamente" para os que so alvo de uma investigao. Doan Van Toai deixou-nos uma descrio avassaladora desse universo, que lembra algumas das caractersticas dos centros de deteno chineses, e at piores no tocante  superlotao, s condies sanitrias,  violncia dos castigos por vezes mortais (flagelao em especial), e tambm  lentido dos perodos de instruo dos processos. Acumulam-se 70 ou 80 presos numa cela para 20, e qualquer passeio  inviabilizado pela construo apressada de novos edifcios de deteno no ptio; as celas que datam da poca colonial so lugares confortveis em comparao s novas. O clima tropical e a falta de arejamento tornam a respirao difcil (os presos revezam-se durante todo o dia diante de uma nica e minscula abertura), os cheiros so insuportveis, as doenas de pele permanentes. A prpria gua  severamente racionada. , porm, a ida para a solitria, por vezes durante anos, sem o menor contato com a famlia, que mais custa a suportar. A tortura est dissimulada, mas presente, como as execues; o isolamento sanciona a menor transgresso do regulamento; nesses lugares, come-se to pouco, que o resultado mais provvel  a morte ao fim de algumas semanas. 
	A esse quadro de uma "libertao" muito estranha, haveria que se acrescentar o calvrio das centenas de milhares de boat people que fogem  represso e  misria e que muitas vezes morrem afogadas ou assassinadas pelos piratas. S em 1986 comea a manifestar-se uma relativa acalmia: o novo secre-trio-geral do PC, Nguyen Van Linh, manda ento libertar a maioria dos presos polticos e ordena, em 1988, o fechamento dos ltimos campos da morte das terras altas. Um primeiro Cdigo Penal vai finalmente ser promulgado. A liberalizao , no entanto, tmida e contraditria, e a presente dcada  marcada por uma espcie de equilbrio instvel entre conservadores e reformistas. As erupes repressivas desencorajaram muitas esperanas, apesar de as detenes serem a partir de ento seletivas e relativamente pouco macias. Vrios intelectuais e religiosos foram perseguidos e detidos; o descontentamento rural no Norte deu origem a revoltas reprimidas com violncia. As melhores hipteses de abertura residem sem dvida, a longo prazo, na irrupo irresistvel da economia privada, a qual, como na China, subtrai uma parte crescente da populao ao controle do Estado e do Partido. Em contrapartida, porm, esse mesmo Partido tende a transformar-se numa oligarquia carreirista e corrupta, o que provoca uma nova forma de opresso, mais banal, sobre uma populao ainda mais pobre do que a da China.

       Testamento dos prisioneiros patriotas do Vietn (excertos)

       Ns,
        Operrios, camponeses e proletrios,
   	- Religiosos, altistas, escritores e intelectuais patriotas anualmente detidos em diferentes prises no Vietn,
       Queremos antes de mais nada exprimir o nosso mais vivo reconhecimento a:
        todos os movimentos progressistas do mundo inteiro,
       - todos os movimentos de luta dos trabalhadores e intelectuais,
       - e todas as pessoas que, no decorrer desses ltimos dez anos, apoiaram os
movimentos de luta pelo respeito dos Direitos do Homem no Vietn, pela
democracia e pela liberdade dos vietnamitas oprimidos e explorados. [...]
       O regime penitencirio do Antigo Regime (alvo de condenaes muito tenazes e de severos protestos da opinio internacional) foi substitudo por outro regime concebido e planejado para a execuo de crueldades e atrocidades mais sutis. Qualquer relao entre o prisioneiro e a sua famlia est absolutamente proibida, mesmo pelo correio. Desse modo, a famlia do preso, ignorando com-pletamente a sua sorte, encontra-se mergulhada numa angstia insuportvel, e, face a essas humilhantes medidas discriminatrias, tem de guardar silncio, devido ao receio de que o prisioneiro, mantido como refm, possa ser assassinado sem que o saibam. [...]
       Temos de insistir na denncia das condies de deteno absolutamente inimaginveis. Na priso de Chi Hoa, a priso oficial de Saigon, havia cerca de 8.000 pessoas encarceradas sob o Antigo Regime, e esse fato era severamente criticado. Hoje, essa mesma priso encerra mais de 40.000 pessoas. Com freqncia, os prisioneiros morrem de fome, de falta de ar, sob tortura, ou suicidam-se. [...]
       H duas espcies de prises no Vietn: as prises oficiais e os campos de concentrao. Esses campos esto perdidos na selva, o prisioneiro  ali condenado perpetuamente a trabalhos forados, nunca  julgado, e nenhum advogado pode assumir a sua defesa. [...]
       Se  verdade que a humanidade atual recua com temor diante do desenvolvimento do comunismo, e principalmente da pretensa "invencibilidade" dos comunistas vietnamitas que "venceram o todo-poderoso imperialismo americano", ento ns, prisioneiros do Vietn, pedimos  Cruz Vermelha Internacional, s organizaes humanitrias do mundo, aos homens de boa vontade que enviem com urgncia a cada um de ns um comprimido de cianeto, a fim de que possamos pr fim ao nosso sofrimento e  nossa humilhao. Queremos morrer imediatamente! Ajudem-nos a realizar esse ato: ajudem-nos a morrer imediatamente. Ficaremos imensamente reconhecidos.
       Feito no Vietn, do ms de agosto de 1975 ao ms de outubro de 1977.
       
       LAOS: POPULAES EM FUGA

	Todos ouvimos falar do drama dos boatpeopk vietnamitas. Mas o Laos, tornado comunista na esteira do Vietn do Sul, em 1975, conheceu, em proporo, um xodo ainda mais considervel;  verdade que bastava atravessar o Mekong para se chegar  Tailndia, e que a maioria dos laocianos vive no vale desse rio, ou nas proximidades; a extenso do seu curso, os meios repressivos bastante limitados do poder, facilitavam a fuga. Assim, cerca de 300.000 pessoas (10% da populao total) saram do pas, entre as quais 30% da importante minoria montanhesa dos H'mong (perto de 100.000 pessoas), e sem dvida 90% das camadas intelectuais, tcnicas e dos funcionrios. Isto representa muito, e merece, sem dvida, alguma reflexo. S a Coreia do Norte, na sia comunista, conheceu provavelmente, no contexto do conflito coreano, uma proporo de partidas ainda mais considervel.
       A seguir a 1945, o destino do Laos esteve sempre estreitamente ligado ao do Vietn. Os franceses, e depois os americanos, sustentaram, inclusive militarmente, um poder monrquico dominado pelas forcas de direita. Os comunistas vietnamitas reforaram o pequeno Pathet Lao, dominado por alguns comunistas locais (em muitos casos pessoalmente ligados ao Vietn) e que sempre dependeu militarmente deles. O Leste do pas, muito escassamente povoado, foi diretamente envolvido na fase americana do conflito vietnamita: por l passavam as vitais pistas de Ho Chi Minh; a aviao americana bombardeou constantemente a regio, e a CIA conseguiu suscitar um forte movimento anticomunista armado entre uma grande parte da populao H'mong. No se assinalam atrocidades significativas num conflito pouco intenso e intermitente. Em 1975, os comunistas controlavam os trs quartos orientais do pas, mas somente um tero da sua populao; o restante, incluindo 600.000 refugiados internos (um laociano em cada cinco), encontrava-se perto do Mekong, a oeste.
	A tomada do poder, na nova relao de forcas indochinesas, foi pacfica: uma espcie de "golpe de Praga", asitico. O ex-primeiro-ministro (neu-tralista) Suvanna Phuma tornou-se conselheiro especial (ouvidor) do novo regime, representado pelo prncipe Suphanuvong, parente do rei deposto. A nova Repblica Democrtica Popular seguiu, no entanto, o exemplo vietnamita: a quase-totalidade dos funcionrios do antigo regime (cerca de 30.000) foi enviada para "seminrios"  ou, mais exatamente, para campos de reeducao -, frequentemente para as provncias do Norte e do Leste, longnquas, insalubres e prximas do Vietn; por l ficaram cinco anos, em mdia. Os "criminosos" mais empedernidos (oficiais do exrcito e da polcia), cerca de 3.000, foram internados em campos de regime severo nas ilhas Nam Ngum. A prpria antiga famlia real foi presa em 1977, e o ltimo prncipe herdeiro morreu na priso. Tudo isto ajuda a explicar o grande nmero de fugas do pas, elas prprias, por vezes, origem de dramas: no era raro os soldados dispararem sobre os fugitivos.
	A principal originalidade em relao ao modelo vietnamita reside, no entanto, na manuteno obstinada de uma guerrilha anticomunista de alguns milhares de combatentes, na sua maioria H'mong, cuja atividade preocupou a tal ponto o poder de Vientiane, por volta de 1977, que esse mandou a aviao bombarde-los; falou-se com insistncia, na ocasio, de "chuvas amarelas" qumicas ou bacteriolgicas, mas o fato nunca foi verdadeiramente confirmado. O que  certo, em compensao,  que essa guerrilha, que dava seguimento  mobilizao H'mong durante a guerra, esteve na origem de partidas em massa. Desde 1975, infindveis colunas de civis Hmong dirigiam-se para a Tailndia; registrou-se pelo menos um incidente muito grave com o exrcito comunista, e, ao todo, os refugiados mencionam cerca de 45.000 vtimas (mortas em ataques ou de fome) durante esses deslocamentos; esse nmero  inverificvel. Em 1991, 55.000 laocianos, 45.000 dos quais montanheses (a maioria H'mong), ainda se encontravam nos campos tailandeses, aguardando um destino de acolhimento definitivo (alguns encontraram refgio na Guiana Francesa...).
	Vrios expurgos (no sangrentos) atingiram igualmente o topo do Estado e do Partido, em 1979, quando se deu a ruptura com a China, e em 1990, quando alguns foram tentados por uma evoluo semelhante  do Leste Europeu. A partida dos cerca de 50.000 soldados vietnamitas, em 1988, depois uma liberalizao econmica forte e a reabertura da fronteira tailandesa aliviaram a atmosfera. Deixa de haver detidos polticos, e a propaganda comunista fz-se discretamente. Mas apenas alguns milhares de refugiados regressaram definitivamente ao pas do "milho de elefantes". O estreitamento dos laos de um pas extremamente pobre e atrasado com essa dispora competente e por vezes abastada  uma aposta essencial para o futuro do pas. 

       3. Camboja: no pas do crime desconcertante
       "Devemos dar da histria do Partido urna imagem pura e perfeita."
       Pol Potl

	De Mao Zedong a Pol Pot, a filiao  bvia. Mas aqui tocamos no primeiro desses paradoxos que tornam to delicada de analisar, e mais ainda de compreender, essa revoluo khmer vermelha em forma de turbilho fnebre: o tirano cambojano, na sua pouco contestvel mediocridade,  apenas uma plida cpia do caprichoso e culto autocrata de Pequim, capaz em todo o caso de fundar no pas mais povoado do planeta, e sem uma ajuda exterior decisiva, um regime cuja viabilidade ainda no est esgotada. So, pelo contrrio, a Revoluo Cultural e o Grande Salto que podem passar por provas medocres, por esboos preparatrios daquilo que ficar talvez como a tentativa de transformao social mais radical de todos os tempos: aplicar o comunismo integral imediatamente, sem esse longo perodo de transio que parecia fazer parte dos fundamentos da ortodoxia marxista-leninista. E abolir a moeda, completar a coletivizao integral em menos de dois anos, suprimir as diferenas sociais pelo aniquilamento do conjunto das camadas proprietrias, intelectuais e comerciantes, resolver o antagonismo milenar entre campos e cidades pela supresso, em apenas uma semana, destas ltimas. S era preciso querer, com muita fora, e o paraso descia sobre a Terra: Pol Pot acreditou sem dvida que se elevava assim ainda mais alto do que os seus gloriosos antepassados - Marx, Lenin, Stalin, Mao Zedong  e que a revoluo do sculo XXI falaria khmer, tal como a do sculo XX havia falado russo e depois chins.
       A marca que os Khmers Vermelhos2 deixaro na Histria , porm, inteiramente feita de sangue. Basta ler a abundante bibliografia suscitada por essa experincia-limite: quer se trate dos testemunhos dos evadidos ou das anlises dos investigadores, s se fala praticamente de represso. A nica questo vlida parece ser: como, por que semelhante horror? Nesse sentido, sim, o comunismo cambojano3 ultrapassa todos os outros, e difere deles. Conforme se insista num ou noutro desses termos, considerar-se- que constitui um caso extremo, marginal, aberrante - e a brevidade do exerccio do poder (trs anos c oito meses) aponta nesse sentido -, ou ento que representa a caricatura, grotesca mas reveladora, de alguns traos fundamentais do fenmeno comunista. O debate no est encerrado, no s porque os dirigentes khmers vermelhos so avaros de palavras e de escritos (e por isso os conhecemos mal), mas tambm porque os arquivos dos seus sucessivos mentores  vietnamitas e chineses - permanecem inacessveis.
	O dossi , no entanto, abundante: comunismo tardio, o Camboja foi tambm o primeiro pas a dissociar-se do sistema comunista (1979), pelo menos na sua forma radical. E a estranha "democracia popular", que lhe sucedeu, durante a dcada da ocupao militar vietnamita, encontrou o seu fundamento ideolgico quase nico (o socialismo estava demasiadamente desconsiderado pelo traumatismo anterior) na condenao da "quadrilha genocida Pol Pot-Ieng Sary". As vtimas (em parte refugiadas no estrangeiro) eram encorajadas a falar (e o fazem facilmente, por pouco que lhes  solicitado), e os investigadores, em certa medida, a trabalhar. A instaurao de um regime poltico pluralista^ sob a gide da ONU, a partir de 1992, seguido da concesso de importantes fundos de pesquisa pelo Congresso dos Estados Unidos em benefcio do Programa do Genocdio Cambojano, coordenado pela Universidade de Yale, facilita as condies materiais; pelo contrrio, a vontade de "reconciliao" entre cambojanos, que chegou  reintegrao dos ltimos Khmers Vermelhos no jogo poltico, tende a suscitar uma inquietante amnsia na elite do pas, no seio da qual se falou insistentemente do fechamento do Museu do Genocdio (ex-priso central) e no enterro dos ossurios exumados.
       Sabemos, pois, aproximadamente o que os cambojanos viveram entre 1975 e 1979, embora haja ainda muito que fazer ao nvel da quantificao, das variaes locais, da cronologia exata e das modalidades de tomada de deciso no interior do Partido Comunista do Kampuchea (PCK). Sabemos o bastante, de todo o modo, para justificar plenamente os precoces gritos de alerta de um Franois Ponchaud, que, como os de Simon Leys antes dele, incomodaram to fortemente o conformismo intelectual da esquerda, que durante algum tempo as pessoas se recusaram a escut-los. Gradualmente reconhecidas como verdicas, em parte graas aos comunistas vietnamitas, as "amargas narrativas" do terror khmer vermelho desempenharam um papel no negli-gencivel na crise do comunismo e do marxismo ocidentais. Tal como esses judeus que mobilizaram as suas ltimas foras para que o mundo soubesse o que tinha sido a Shoah, testemunhar constituiu o objetivo mximo e a grande motivao de alguns cambojanos que, desafiando tudo, conseguiram fugir: a sua tenacidade havia finalmente dado resultado.  a humanidade inteira que deve hoje continuar esse trabalho, o de um Pin Yathay, por exemplo, que vagou um ms pela selva, sozinho, esfomeado, "para testemunhar o genocdio cambojano, para descrever o que tnhamos sofrido, para contar como se programara friamente a morte de vrios milhes de homens, de velhos, de mulheres e de crianas... Como o pas fora arrasado, e atirado de volta para a era pr-histrica, e os seus habitantes torturados... Eu queria viver para suplicar ao mundo que ajudasse os sobreviventes a escapar ao extermnio total."
A espiral do horror
	Apesar do seu nacionalismo desconfiado, os cambojanos lcidos reconhecem que o pas foi fundamentalmente vtima de si mesmo: desse pequeno grupo de idealistas que viraram carrascos, e de uma elite tragicamente incapaz. Mas esse tipo de coquetel no  assim to invulgar, tanto na sia quanto em outros lugares, e s raramente conduz a revolues.  aqui que a conjugao de uma situao geogrfica (a longa fronteira com o Vietn e o Laos) e uma conjuntura histrica (a guerra do Vietn, em plena escalada a partir de 1964) exerce a sua fora indubitavelmente decisiva.

       Uma guerra civil (l970-1975) 

	O reino khmer, protetorado francs desde 1863, tinha mais ou menos conseguido escapar  guerra da Indochina (1946-1954). No momento em que as guerrilhas ligadas ao Vierminh comeavam a desenvolver-se, em 1953, o rei Sihanuk soube lanar-se numa pacfica "cruzada para a independncia" - facilitada pelas suas boas relaes com Paris -, a qual, coroada de sucesso, puxava o tapete dos seus adversrios de esquerda. Todavia, diante do confronto entre os comunistas vietnamitas e os Estados Unidos, o sutil jogo de equilbrio que tentou, a fim de preservar a neutralidade cambojana, valeu-lhe gradualmente a desconfiana de todos no exterior, e uma crescente incompreenso no interior.
	Em maro de 1970, a derrubada do prncipe pelo seu prprio governo e pela Assembleia, com a bno da CIA (mas, ao que parece, no organizada por ela), s iria precipitar o pas inteiro na guerra na medida em que foi acompanhada por terrveis fogroms contra a minoria vietnamita (perto de 450.000 pessoas, dois teros das quais conseguem chegar ao Vietn do Sul), pelo incndio das embaixadas comunistas vietnamitas e, finalmente, pelo ultimato (perfeitamente vo) que ordenava s "tropas estrangeiras" que elas deixassem o pas. Hani, que subitamente se viu sem outro trunfo no Camboja, exceto os Khmers Vermelhos, decidiu apoi-los a fundo (armas, conselheiros, formao militar no Vietn) e, nesse meio tempo, ocupar a maior parte do pas em nome deles, ou melhor, em nome de Sihanuk, furioso com a humilhao sofrida ao ponto de associar-se aos seus piores inimigos da vspera  os comunistas locais , que se apressaram a estender-lhe o tapete vermelho, aconselhados por Pequim e Hani, mas sem lhe concederem a menor parcela de controle real sobre a resistncia interna. Comunistas formalmente "monarquistas" bateram-se, pois, contra a bastante formal Repblica Khmer. Esta ltima, em posio de inferioridade militar face aos norte-vietnamitas, e incapaz de capitalizar em seu benefcio a grande impopularidade de Sihanuk nas camadas urbanas, mdias e intelectuais, teve rapidamente de apelar  ajuda americana (bombardeios, armamento, conselheiros) e de aceitar uma v interveno dos soldados da infantaria sul-vietnamita.
Depois do desastre da operao Chenla-II, que, no incio de 1972, viu as melhores tropas republicanas dizimadas, a guerra no foi mais do que uma longa agonia, com o cerco apertando constantemente em torno das principais zonas urbanas, abastecidas e ligadas umas s outras cada vez mais exclusivamente por via area. Mas esse combate de retaguarda foi, no entanto, destrutivo, mortfero e sobretudo desestabilizador para uma populao que, ao contrrio da vietnamita, nunca conhecera algo comparvel. Os bombardeiros americanos, principalmente, despejaram 540.000 toneladas de explosivos sobre as zonas de combate, metade das quais no decorrer dos seis meses anteriores  proibio dos bombardeios pelo Congresso (agosto de 1973). Eles conseguiram atrasar o avano dos Khmers Vermelhos, mas asseguraram-lhes um forte recrutamento rural provocado pelo dio aos Estados Unidos, desestabi-lizaram um pouco mais a repblica atravs do afluxo de refugiados s cidades (sem dvida um tero dos oito milhes de cambojanos),11 permitiram mais tarde a sua evacuao quando da vitria dos Khmers Vermelhos e, finalmente, possibilitaram essa mentira grosseira, argumento recorrente da propaganda dos comunistas: "Vencemos a maior potncia mundial, portanto venceremos qualquer resistncia, da natureza, dos vietnamitas, etc."
	A conquista de Phnom Penh, em 17 de abril de 1975, e das ltimas cidades republicanas, foi, assim, recebida naquela ocasio pelos prprios vencidos com um alvio quase generalizado: nada, acreditava-se, podia ser pior do que aquela guerra cruel e intil. E contudo... Os Khmers Vermelhos no tinham esperado pela vitria para mostrarem a sua aptido desconcertante para a violncia e para as medidas mais extremas.  medida que a "libertao" progredia, o pas cobriu-se de "Centros de Reeducao", cada vez menos diferentes dos "Centros de Deteno", reservados em princpio aos "criminosos" mais empedernidos. Esses centros foram sem dvida inicialmente constitudos segundo o modelo dos campos de prisioneiros do Vietminh dos anos 50, sendo tambm reservados essencialmente aos prisioneiros do exrcito Lon Nol. No se punha a questo de se aplicarem as Convenes de Genebra, uma vez que os republicanos eram "traidores" antes de serem combatentes. No entanto, no Vietn, no houve matanas deliberadas de detidos, franceses ou mesmo dos povos nativos. No Camboja, pelo contrrio, o regime mais severo tendeu a generalizar-se, e parece ter sido decidido desde o incio que a sorte mais natural para qualquer detido era a morte. Um grande campo, onde estavam encarcerados mais de mil detidos, foi estudado por Henri Locard;1^ fundado em 1971 ou 1972, eram para l atirados no s os soldados inimigos, mas igualmente as respectivas famlias (verdadeiras ou supostas), incluindo crianas, e ainda monges budistas, viajantes "suspeitos", etc. Os maus-tratos, um regime de fome e as doenas liquidaram rapidamente a maioria dos detidos e a totalidade das crianas. As execues eram igualmente numerosas: at 30 por noite.
	Outras fontes sugerem o massacre de uma dezena de milhares de pessoas durante a tomada da antiga capital real, Udong, em 1974. '5 E as deportaes em massa de civis comearam em 1973: cerca de 40 mil foram transferidos da provncia de Tako para as zonas fronteirias do Vietn - muitos fugiram para Phnom Penh; na ocasio da tentativa abortada de tomada da cidade de Kompong Cham, milhares de citadinos foram obrigados a seguir os Khmers Vermelhos na sua retirada;16 Krati, a primeira cidade relativamente importante a ser conquistada, foi inteiramente esvaziada da sua populao. O ano de 1973 assinalou tambm um momento decisivo na emancipao relativamente ao Vietn do Norte: irritado pela recusa do PCK em aderir ao processo da partida negociada dos americanos (acordos de Paris, janeiro de 1973), a ajuda vietnamita sofreu uma importante reduo. Os seus meios de presso decresceram proporcionalmente, e a equipe de Pol Pot17 aproveitou para comear a eliminar fisicamente os sobreviventes dos "Khmers Vietminhs" que haviam regressado ao Camboja, antigos resistentes antifranceses (cerca de um milhar) que tinham partido para Hani depois dos acordos de Genebra (1954). Pela sua experincia, pelos laos que mantinham com o PC vietnamita, eles representavam uma alternativa aos dirigentes em funo, e se haviam aproximado do comunismo, principalmente, depois da guerra da Indochina e/ou enquanto estudavam na Frana; muitas vezes, eles haviam iniciado a sua vida militante no Partido Comunista Francs. A partir desse momento, reescrevendo a histria, impem o dogma de um PCK fundado em 1960, e no, como realmente aconteceu, em 1951, a partir do Partido Comunista Indochins (PCI), iniciado por Ho Chi Minh e centrado no Vietn. Tratava-se de retirar dos "51" - que passaram a ser perseguidos a partir de ento  toda e qualquer legitimidade histrica e criar artificialmente uma soluo de continuidade com o Partido Comunista Vietnamita (PCV). Como medida de precauo, os poucos sihanukistas dispersos na guerrilha foram igualmente liquidados. Os primeiros choques srios entre tropas vietnamitas e Khmers Vermelhos parecem tambm datar de 1973.

       Deportaes e segmentao da populao (1975-1979)

	O esvaziamento integral de Phnom Penh, logo depois da vitria, foi, contudo, um choque to inesperado para os habitantes da cidade como para a opinio mundial, a qual percebeu pela primeira vez que se desenrolavam no Camboja acontecimentos excepcionais, mesmo que os cidados de Phnom Penh estivessem tentados a acreditar nos pretextos adiantados pelos novos senhores: proteger a populao de eventuais bombardeios americanos e assegurar o seu abastecimento. A evacuao das cidades, que ficar talvez como a "assinatura" do regime na histria, foi espetacular, mas, ao que parece, no excessivamente onerosa em vidas: tratava-se de populaes que se encontravam de boa sade e bem alimentadas, que puderam levar algumas reservas (e meios de troca, comeando pelo ouro, jias... e os dlares). A populao no sofreu naquela ocasio brutalidades sistemticas, embora no tenham faltado os recalcitrantes mortos "para servir de exemplo", nem a execuo dos soldados derrotados. Os deportados no so em geral despojados dos seus haveres, nem sequer revistados. As vtimas diretas e indiretas da evacuao  feridos ou operados expulsos dos hospitais, velhos ou doentes isolados; igualmente, numerosos suicidas, por vezes famlias inteiras...  foram talvez cerca de dez mil, em dois a trs milhes de habitantes da capital, e algumas centenas de milhares no que respeita s outras cidades (de 46% a 54% da populao total teriam sido jogados nas estradas!).  o traumatismo que fica, indelvel, na memria dos sobreviventes. Eles tiveram de deixar as suas casas e os seus bens em menos de 24 horas, embora um pouco tranquilizados pela mentira piedosa de que " apenas por trs dias", mas estonteados por um turbilho humano onde era fcil perder-se, por vezes definitivamente, os parentes. Soldados inflexveis (yotkea), que nunca sorriam, os arrastavam: de fato, a regio de destino dependia do bairro de partida  infelicidade para as famlias divididas nesse momento. Foram aterrorizados com cenas de morte e de desespero, e no receberam em geral a menor ajuda (alimentos, cuidados...) dos Khmers Vermelhos durante um lento xodo, que para alguns durou semanas.
	Essa primeira deportao correspondeu tambm  primeira triagem dos ex-urbanos, feita nos cruzamentos de estradas. Ela era rudimentar e geralmente declarativa: inexplicavelmente, pelo menos numa perspectiva de controle policial, os Khmers Vermelhos haviam ordenado a destruio de todos os documentos de identificao; isso permitiu a inmeros antigos funcionrios ou militares forjarem uma personalidade nova e, com alguma sorte, sobreviverem. Sob o pretexto de poder servir ao novo regime na capital, ou de ir acolher condignamente Sihanuk, chefe de Estado nominal at 1976, procurava-se selecionar o maior nmero de funcionrios de grau mdio ou superior, e sobretudo de oficiais do exrcito. A maioria foi imediatamente liquidada, ou pereceu pouco depois na priso.
	Gerir inteiramente os enormes fluxos de citadinos estava ainda fora do alcance do fraco aparelho khmer vermelho, geralmente estimado, em 1975, em cerca de 120.000 militantes e simpatizantes (na sua maioria muito recentes), metade dos quais combatentes. Deixou-se portanto os evacuados instalarem-se onde queriam (ou podiam), com a condio de obterem a concordncia do chefe do povoado. O Camboja no  nem muito grande nem muito densamente povoado, e quase todos os cidados urbanos tinham famlia prxima no campo: um grande nmero pde juntar-se a eles, o que melhorou as suas possibilidades de sobrevivncia, pelo menos enquanto no fossem deportados de novo (ver mais adiante). Globalmente, as coisas no foram demasiado difceis: alguns habitantes dos povoados chegaram a abater uma vaca em homenagem aos evacuados, ajudando-os muitas vezes a se instalarem. Mais geralmente, at o momento da queda do regime, os testemunhos falam pelo menos tanto de relaes de entre-ajuda, ou de troca, quanto de hostilidade  sobretudo de incio; poucos maus-tratos fsicos, e aparentemente nenhum assassinato espontneo. As relaes parecem ter sido particularmente amigveis com os Khmers Loeu (minoria tnica das regies remotas). O fato de esses ltimos, junto dos quais os Khmers Vermelhos constituram as suas primeiras bases, terem sido especialmente favorecidos pelo regime, pelo menos at 1977, permite concluir que as tenses muitas vezes crescentes em outras partes do pas entre os recm-chegados e os camponeses provinham da extrema penria geral, em que uma boca a mais podia significar uma dura fome: esse tipo de situao jamais contribuiu para o altrusmo...
	A afluncia dos citadinos perturbava a vida rural e o equilbrio entre recursos e consumo: nas frteis plancies de arrozais da regio 5 (Noroeste), aos 170.000 habitantes de origem juntavam-se 210.000 recm-chegados!32 Alm disso, o PCK fez de tudo para aumentar o abismo entre o Pracheachon Chah - antigo povo, ou povo de base, por vezes designado como "70", porque estiveram de um modo geral sob o domnio dos Khmers Vermelhos desde o princpio da guerra - e o Pracheachon Thmei - novo povo, ou "75", ou ainda "17 de abril". Ele estimulou o "dio de classe" dos "proletrios patriotas" contra os "capitalistas-lacaios dos imperialistas". Estabeleceu um direito diferenciado; ou, mais precisamente, apenas os Antigos, uma pequena quantidade da populao, tinham alguns direitos, em especial, no princpio, o de cultivar uma parcela privada, e o de comerem na cantina obrigatria antes dos outros, e um pouco melhor; acidentalmente, por vezes, tinham tambm o direito de participar das "eleies" de candidato nico. O apanheidvi& completo - em princpio no tinham o direito de se falarem, e de qualquer modo nunca o de se casarem , e at no prprio habitat: cada grupo tinha sua residncia fixada em um bairro do povoado. 
	Assim, as clivagens multiplicavam-se no interior de cada um dos dois grandes grupos da populao. Do lado dos Antigos, tudo se fez para opor os "camponeses pobres" aos "latifundirios", aos "camponeses ricos" e aos ex-comerciantes (rapidamente a coletivizao passou a ser total). Entre os Novos, os no-funcionrios e os no-escolarizados foram separados ao mximo dos antigos servidores do Estado e dos intelectuais. O destino dessas duas ltimas categorias foi geralmente infeliz: pouco a pouco, e descendo cada vez mais abaixo na hierarquia, elas foram "expurgadas", muitas vezes at ao seu completo desaparecimento, incluindo com muita freqncia, a partir de 1978, mulheres e crianas.
	No entanto, no bastava aos dirigentes do PCK terem ruralizado a qua-se-totalidade da populao cambojana: poucos meses depois de se instalarem, uma grande parte dos Novos foi forada a dirigir-se para novos locais de deportao, dessa vez sem a mnima chance de protesto: assim, s no decurso do ms de setembro de 1975, vrias centenas de milhares de pessoas deixaram as zonas do Leste e do Sudoeste em direo ao Noroeste. No so raros os casos de trs ou quatro deportaes sucessivas, sem contar com as "brigadas de trabalho" que arrastam, por vezes durante meses consecutivos, jovens e adultos sem filhos de tenra idade para longe do povoado que lhes estava designado. A inteno do regime era qudrupla: impedir qualquer lao duradouro - politicamente ameaador - entre Novos e Antigos, e mesmo entre os prprios Novos; "proletarizar" continuamente estes ltimos, impedindo-os de levarem os seus magros bens36 e de terem tempo para colher o que haviam semeado; estabelecer um controle completo sobre os fluxos de populao, permitindo o lanamento de grandes frentes de trabalho e a valorizao agrcola das montanhas e matagais subpovoados da periferia do pas; finalmente, sem dvida, eliminar um mximo de "bocas inteis", de tal forma as novas evacuaes (por vezes a p, quando muito em carroa ou em vages repletos de trens bastante lentos, pelos quais se chegava a esperar uma semana) foram terrveis para indivduos que se tornaram subnutridos, que viam suas reservas de medicamentos se esgotarem.
	As transferncias "voluntrias" eram um caso um pouco especial. Frequentemente,  proposto aos Novos que "regressem ao seu povoado natal", ou que vo trabalhar para uma cooperativa menos dura, menos insalubre, com melhor alimentao. Invariavelmente, os voluntrios (muitas vezes numerosos) viam-se enganados e atirados para um lugar ainda mais sinistro, mais mortfero. Pin Yathay, ele prprio vtima desse logro, soube decifrar o enigma: "Tratava-se, realmente, de uma sondagem para detectar as tendncias individualistas. [...] o citadino provava que no se libertara das suas lastimveis propenses. Demonstrava assim que devia sofrer um tratamento ideolgico mais severo num povoado onde as condies de vida fossem ainda mais difceis e rudes. Apresentando-nos como voluntrios, denuncivamo-nos a ns mesmos. Atravs desse mtodo infalvel, os Khmers Vermelhos detectavam os deportados mais instveis, os menos satisfeitos com o seu destino."

	A poca dos expurgos e dos grandes massacres (1976-1979)

	Tudo se passa como se a loucura classificativa e eliminatria imposta  sociedade progredisse pouco a pouco at a cpula do poder. Vimos como os "pr-vietnamitas" autnticos e os Hu Yun haviam sido eliminados precoce-mente; os diplomatas do "governo real", que no eram todos comunistas, receberam ordens para que regressassem em dezembro de 1975, e todos,  exce-o de dois, foram torturados e em seguida executados. Entretanto, num PCK que parece nunca ter conhecido um funcionamento regular, as suspeitas de traio eram alimentadas, desde o princpio, pela grande autonomia das diferentes zonas (assim, o exrcito s foi unificado aps o 17 de abril), depois pelos fracassos manifestos da economia e, finalmente, a partir de 1978, pelas fceis contra-ofensivas vietnamitas na fronteira.
	Desde a priso, em setembro de 1976, de Keo Meas, que foi o "N 6" na hierarquia do PCK, o Partido viu-se como que devorado por dentro num ritmo cada vez mais acelerado. Nunca houve julgamentos, ou mesmo acusaes claras, e todos os prisioneiros foram assassinados, ao fim de terrveis torturas; somente as suas "confisses" nos fazem entrever aquilo de que se podia acus-los, mas as divergncias com a linha Pol Pot nunca so claras; tratava-se indubitavelmente de "esmagar" todos aqueles cujo brilho pessoal, uma mnima independncia de esprito ou uma associao anterior ao PCV (e at ao "bando dos Quatro" chins, como no caso de Hu Nim), pudesse um dia ameaar a preeminncia de Pol Pot. A parania parecia uma caricatura dos piores excessos stalinistas. Assim, durante uma sesso de estudos dos quadros do PC, imediatamente aps o incio do expurgo, o "Centro" evoca, como concluso, "um combate feroz e sem piedade, at  morte, contra o inimigo de classe [...], em especial nas nossas fileiras";40 na publicao mensal do Partido, Tung Padevat (Bandeiras Revolucionrias), escreve-se, em julho de 1978: "H inimigos por toda parte em nossas fileiras, no centro, no esta-do-maior, nas zonas, nos povoados de base." E, no entanto, nessa ocasio, cinco dos 13 mais altos responsveis de outubro de 1975 haviam sido executados, assim como a maioria dos secretrios das regies. Dois dos sete membros da nova direo de 1978 so ainda liquidados antes de janeiro de 1979, sendo um deles o vice-primeiro-ministro Vorn Vet, que Pol Pot teria espancado pessoalmente, ao ponto de lhe quebrar uma perna. O expurgo se auto-alimenta: bastam trs denncias como "agente da CIA" para que algum seja preso  da o afinco dos inquisidores em mandar redigir confisso sobre confisso ao "peixe grado" (sete sucessivas para Hu Nim), fosse qual fosse o mtodo utilizado... As conspiraes imaginrias se espalham continuamente, as "redes" se multiplicam. O dio furioso contra o Vietn faz perder todo o sentido das realidades: um mdico  acusado de ter sido membro da "CIA vietnamita"; ele teria sido recrutado em Hani, em 1956, por um agente americano disfarado de turista. As liquidaes descem at ao nvel das cooperativas: num nico distrito, 40.000 dos 70.000 habitantes seriam "traidores que colaboram com a CIA"?
	Foi, no entanto, apenas na zona Leste que a retomada do poder assumiu propores propriamente genocidrias. O Vietn hostil estava prximo, e o chefe militar e poltico, So Phim, construra uma slida base local de poder; fenmeno nico, uma rebelio dos quadros locais ir degenerar numa curta guerra civil, em maio-junho de 1978. Em abril, 409 quadros do Estado haviam sido encerrados em Tuol Sleng; em junho, vendo-se perdido, So Phim suicidou-se; a mulher e os filhos foram assassinados enquanto se cumpriam os ritos fnebres; alguns restos dispersos das foras armadas da zona tentaram insurgir-se e em seguida passaram para o Vietn, onde constituram o embrio da Frente Unida de Salvao Nacional que acompanhar o exrcito de Hani at Phnom Penh. O Centro triunfava, mas no deixava de condenar  morte esses "vietnamitas em corpos khmers" que seriam os habitantes do Leste. De maio a dezembro de 1978, entre 100.000 e 250.000 pessoas (em 1,7 milho de habitantes) foram massacradas - a comear pelos jovens e pelos militantes -, como, por exemplo, a totalidade das 120 famlias (700 pessoas) do povoado de So Phim; num outro povoado, apenas sete pessoas escaparam para um total de 15 famlias, 12 das quais foram totalmente eliminadas. A partir de julho, os sobreviventes foram deportados em caminhes, trens ou barcos para outras zonas, onde eles estavam destinados a ser progressivamente exterminados (milhares foram assassinados durante o transporte): assim, as pessoas eram vestidas com uniformes azuis (vindos da China em cargueiros especiais), enquanto o "uniforme" dos seguidores do regime de Pol Pot devia ser negro. E progressivamente, sem alarde, geralmente fora da vista dos outros cidados do povoado, os "azuis" desapareceram; numa cooperativa do Noroeste, somente uma centena, em trs mil, se encontrava viva quando chegou o exrcito vietnamita. Essas atrocidades assinalam uma reviravolta tripla, s vsperas do desmoronamento do regime: as mulheres, as crianas e os velhos so to exterminados quanto os homens adultos; os Antigos so mortos como os Novos; finalmente, ultrapassados pela tarefa que a si mesmos impuseram, os Khmers Vermelhos exigem por vezes  populao, incluindo os "75", que os ajude. A "revoluo" tornava-se realmente louca, e ameaava agora devorar at o ltimo cambojano.
	A dimenso das fugas para o estrangeiro prova que o poder khmer vermelho conduzira ao desespero uma grande parte dos cambojanos: sem contar com as chegadas (pouco numerosas) de abril de 1975, havia na Tailndia 23.000 refugiados em novembro de 1976. Em outubro de 1977, encontravam-se no Vietn cerca de 60.000 cambojanos. E, entretanto, a extrema periculosidade da fuga, sempre punida com a morte em caso de captura e somente factvel  custa de dias, ou mesmo de semanas vagueando por uma selva hostilsi - num momento em que o esgotamento era geral -, fez recuar a maioria daqueles que a ponderavam. Dos que partiram, apenas uma pequena parte (quatro em 12 no grupo de Pin Yathay, que no entanto se tinham preparado minuciosamente) chegou a um porto seguro.
	Depois de 20 meses de conflito fronteirio espordico, inicialmente encoberto, depois declarado a partir de janeiro de 1978, a chegada dos vietnamitas, em janeiro de 1979, foi sentda pela grande maioria dos cambojanos como uma "libertao" (a sua designao oficial, at hoje);  emblemtico o fato de os habitantes do povoado de Samlaut ("heris" da revolta de 1967) terem, como muitos outros, massacrado os seus quadros khmers vermelhos que no haviam rugido a tempo. Esses ltimos tiveram, mesmo assim, tempo para cometer as derradeiras atrocidades: em inmeras prises,53 entre as quais Tuol Sleng, no houve praticamente ningum para libertar. Que muitos se tenham mais tarde se desencantado, e que as intenes de Hani no tenham sido primariamente humanitrias, nada pode diminuir esse fato - que foi na poca contestado: diante da virada verificada no regime khmer vermelho, particularmente em 1978, uma quantidade incalculvel de pessoas foi salva da morte pelas divises blindadas vietnamitas. O pas pde, pouco a pouco, retornar  vida, os seus habitantes puderam recuperar progressivamente a liberdade de se deslocarem, de cultivarem as suas terras, de acreditarem, de aprenderem, de amarem...

	Variaes em torno de um martirolgio

	O horror no precisa de ser quantificado para ser estabelecido. O que j dissemos e o que seremos forados a dizer basta, indubitavelmente, para qualificar o regime do PCK. No entanto, quantificar  compreender: embora nenhuma categoria da populao fosse poupada, quem eram os principais visados? Onde e quando aconteceu o que aconteceu? Como situar a tragdia do Camboja entre todas as deste sculo, e dentro do decorrer da sua prpria histria? O cruzamento de diferentes mtodos (demografia, microestudos quantitativos, narrativas, avaliaes provenientes dos protagonistas), nenhum dos quais  satisfatrio em si mesmo, permite avanar em direo  verdade.

	Dois milhes de monos?

	Para comear pela inevitvel necessidade de avaliao global, deve-se convir que o raio de ao  grande, demasiado grande - o que j pode ser considerado como significativo da amplitude do acontecimento: quanto mais considervel e difcil de compreender  um massacre, mais delicado  fazer o seu balano. Por outro lado, muita gente teve interesse em confundir as pistas em direes opostas: os Khmers Vermelhos para negarem as suas responsabilidades, e os vietnamitas e seus aliados cambojanos para se justificarem. Pol Pot, na sua ltima entrevista jornalstica em dezembro de 1979, garantiu que "somente alguns milhares de cambojanos devem ter morrido em consequncia dos erros na aplicao da nossa poltica, que consistia em dar a abundncia ao povo. Khieu Samphan, numa publicao oficial de 1987, deu preciso aos fatos: 3.000 vtimas de "erros", 11.000 execues de "agentes vietnamitas", 30.000 assassinatos por "agentes vietnamitas infiltrados" (sic). Entretanto, o documento menciona que os ocupantes vietnamitas, em 1979-80, teriam matado "cerca de 1.500.000 pessoas"; estando esse numero fantasiosamente exagerado, pode ele ser tomado como uma confisso involuntria da mortalidade do perodo que comeou em 1975, que deve ser lanado em grande parte no ativo dos Khmers Vermelhos. O "desvio de cadveres"  ainda mais flagrante ao tratar-se da avaliao dos mortos de antes do 17 de abril, durante a guerra civil: Pol Pot mencionou, em junho de 1975, o nmero, j sem dvida exagerado, de 600.000; em 1978, o mesmo passou para "mais de l ,4 milho". A propsito das vtimas dos Khmers Vermelhos, o ex-presiden-te Lon Nol preferiu falar de 2.500.000, e Pen Sovan, antigo secretrio-geral do Partido Popular Revolucionrio do Kampuchea (PPRK), no poder desde 1979, avanou o nmero considerado pela RPK e pela propaganda vietnamita: 3.100.000.
	Os dois primeiros estudos quantitativos considerados srios  embora reconheam as suas incertezas  so sem dvida o de Ben Kiernan, que chegou a 1.500.000 mortos, e o de Michael Vickery, que avana um nmero menos significativo (embora baseando-se inicialmente numa populao indubitavelmente subavaliada). Stephen Heder retoma a estimativa de Kiernan, dividindo-a em partes iguais entre os Antigos e os Novos (o que  difcil de aceitar), e dividindo igualmente ao meio o nmero de mortos de fome e de assassinados. David Chandler, incontestado especialista, mas que no fez uma avaliao analtica, fala de 800.000 a um milho de pessoas como nmero mnimo. Um estudo da CIA, baseado em dados aproximados, estima o dficit demogrfico total (incluindo a diminuio do nmero de nascimentos induzida pelas dificuldades) em 3.800.000 pessoas entre 1970 e 1979 (as perdas da guerra de 1970-1975 esto, portanto, includas), para uma populao subsistente em 1979 de cerca de 5.200.000 habitantes. Baseando-se na comparao entre a rea de arrozais cultivada antes de 1970 e em 1983, uma estimativa chega a 1.200.000 vtimas. Marek Sliwinski, num recente e inovador estudo de base demogrfica (enfraquecido no entanto pela ausncia de qualquer recenseamento entre o fim dos anos 60 e 1993), fala de um pouco mais de dois milhes de mortos, ou seja, 26% da populao (mortalidade natural, avalivel em 7%, no includa). E o nico a tentar precisar a sobre-mortalidade dos anos de 1975-1979 em funo do sexo e da idade: 33,9% de homens e 15,7% de mulheres; uma tal diferena teria como causa uma maioria de assassinatos; a mortalidade foi terrvel em todas as idades, embora sobretudo nos jovens adultos (34% de homens de 20 a 30 anos, 40% dos 30-40 anos) e nos de mais de 60 anos de ambos os sexos (54%). Como por ocasio das grandes fomes ou epidemias do Antigo Regime, a natalidade baixou enormemente: 3% em 1970 e 1,1% em 1978. O que  certo  que nenhum pas foi, desde 1945, atingido a esse ponto. Em 1990, no voltara ainda a ser alcanado o nmero de habitantes de 1970. E a populao encontra-se muito desequilibrada: 1,3 mulheres por homem; entre os adultos de 1989, conta-se a bagatela de 38% de vivas, contra 10% de vivos. Encontramos 64% de mulheres na populao adulta, e 35% dos chefes de famlia so mes; a ordem de grandeza  a mesma para os 150.000 cambojanos refugiados nos Estados Unidos. 
	Um tal volume de perdas - decerto quase igual a um habitante em cada sete, pelo menos, e mais provavelmente a um em cada quatro ou cinco  permite j eliminar a seguinte opinio frequentemente expressa:65 a violncia dos Khmers Vermelhos, por mais inaceitvel que seja, teria sido em grande medida reativa  a reao de um povo louco de dor e de raiva  perante o "pecado original" dos bombardeios americanos. Notaremos de imediato que outros povos copiosamente bombardeados (os britnicos, os alemes, os japoneses, os vietnamitas...) no foram, por esse fato, tomados de uma exploso extremista comparvel (pelo contrrio, por vezes). Mas, principalmente, as devastaes da guerra, por dramticas que sejam, no podem verdadeiramente ser comparadas com o que o PCK fez em tempo de paz, mesmo excluindo o ltimo ano e o seu conflito fronteirio com o Vietn. O prprio Pol Pot, que certamente no teria qualquer interesse em minimizar, estimou, diz-se, o total de vtimas (sem justificar essa quantificao) em 600.000  nmero levado em considerao, por mais espantoso que possa parecer, por muitos especialistas; Chandler, no menos apressadamente, avana "meio milho" de vtimas; quanto aos bombardeios americanos, ele menciona, apoiando-se em diversos estudos, de 30.000 a 250.000 mortos. Sliwinski, por sua vez, chega a 240.000 mortos numa avaliao mdia, aos quais se deveriam talvez juntar cerca de 70.000 civis vietnamitas, na sua maioria vtimas dos pogroms de 1970; reduz os mortos por bombardeio a cerca de 40 mil (um quarto dos quais combatentes), fazendo notar que as provncias mais bombardeadas eram frequentemente muito pouco povoadas e que em 1970 abrigavam pouco mais de um milho de habitantes  muitos dos quais rapidamente fugiram para as cidades; pelo contrrio, os "assassinatos" do perodo de guerra, em grande parte devidos aos Khmers Vermelhos, teriam sido cerca de 75.000.  certo que a guerra enfraqueceu a resistncia da sociedade, destruiu e desmoralizou uma parte das elites e aumentou fantasticamente o poder dos Khmers Vermelhos, tanto devido s escolhas estratgicas de Hani como  presuno irresponsvel de Sihanuk: os autores e os padrinhos do golpe de maro de 1970 tm muito a censurar a si prprios. Mas isso em nada atenua a responsabilidade do PCK depois de 1975; alis, as violncias no tiveram, na ocasio, muito de espontneo, como vimos.
	 igualmente necessrio interrogarmo-nos acerca das modalidades desses homicdios em massa. Os poucos estudos quantitativos srios, apesar das suas contradies, permitem-nos entrev-las. A ruralizao forada dos citadinos (deportaes, esgotamento no trabalho...) fez, no mximo, 400.000 vtimas, provavelmente bastante menos. As execues so o dado mais incerto, cifrando-se o valor mdio  volta de 500.000; porm, Henri Locard, raciocinando por extrapolao, atribui s s prises - o que deixa de lado as execues "no local", tambm elas numerosas  pelo menos de 400.000 a 600.000 vtimas; Sliwinski afirma um total de urn milho de assassinatos. A doena e a fome foram sem dvida as mais mortferas, com provavelmente, no mnimo, 700.000 mortos; Sliwinski fala de 900.000, incluindo os efeitos diretos da ruralizao.

       Alvos e suspeitos

	Se  to delicado deduzir dados globais a partir de estudos locais,  porque a distribuio do horror foi bastante desigual.  evidente que os "70" sofreram menos do que os "75", em particular de fome, mesmo que se mantenha a iluso de ptica proveniente do fato de terem sido os Novos a fornecer a quase-totalidade dos testemunhos publicados. A mortalidade  muito forte nos ex-citadinos: dificilmente se encontra uma famlia intacta. Ora, trata-se de cerca de metade da populao total. Assim, em cada 200 famlias instaladas num povoado da zona Norte, cerca de 50 sobreviviam em janeiro de 1979, e apenas uma tinha perdido "s" os avs. Mas certas categorias mais restritas foram ainda bem mais dizimadas. J mencionamos a caa aos antigos funcionrios da administrao Lon Nol e sobretudo aos militares; expurgos sucessivos atingiram estratos cada vez mais baixos na hierarquia. Aparentemente, apenas os ferrovirios, insubstituveis, foram parcialmente mantidos nos seus postos  mas determinado chefe de estao acha sensato declarar uma posio mais subalterna. Os monges, enquadramento tradicional desse pas budista, representavam uma fora concorrente inaceitvel. Os que no renunciaram foram sistematicamente eliminados. Assim, de um grupo de 28 religiosos evacuados de um povoado da provncia de Kandal, apenas um sobrevivia em 1979. Em escala nacional, de 60.000 ficariam reduzidos a cerca de um milhar. A quase-totalidade dos fotgrafos de imprensa desapareceu. O destino dos "intelectuais" foi mais diversificado. Por vezes foram perseguidos enquanto tais. Porm, mais frequentemente, segundo parece, a renncia a qualquer pretenso de especializao e aos atributos simblicos (livros, e at culos) bastava para os eximir.
	Os Antigos eram mais bem tratados, sobretudo no que diz respeito  alimentao: dentro de certos limites, podiam consumir frutas, acar, um pouco de carne; a quantidade de suas raes era maior e, luxo quase incrvel sob Pol Pot, tinham muitas vezes direito a arroz "duro", em vez da universal sopa de arroz, rala, sinnimo de fome para tantos dos seus concidados. Os militares khmers vermelhos eram os primeiros a servir-se, apesar das suas pretenses  frugalidade. Os "70" tinham por vezes acesso a verdadeiras enfermarias e verdadeiros medicamentos, fabricados na China. As vantagens eram, no entanto, relativas: embora no fossem deportados, eles eram com freqncia sujeitos a penosas tarefas em locais bem afastados de seu domiclio; as suas horas de trabalho eram igualmente extenuantes. A reduzida classe operria, que vivia num clima de acampamento militar que invadiu Phnom Penh, foi tambm submetida a uma frrea disciplina. Alm disso, pouco a pouco, os camponeses pobres, supostamente mais fiis, substituram os operrios de antes de 1975. 
	Alguns indcios, em 1978, deixavam entrever a abolio progressiva da barreira entre Novos e Antigos; os primeiros ascenderam mesmo, por vezes, a responsabilidades locais. Interpretao positiva: aqueles que tinham conseguido sobreviver podiam ser considerados, a partir de ento, adaptados s exigncias do regime. Interpretaes mais sinistras: tratar-se-ia de reforar a unidade nacional diante do conflito com o Vietn, do mesmo modo que Stalin havia feito em 1941 face  Alemanha; e, num contexto de generalizao dos expurgos, ter-se-ia tornado necessrio preencher os enormes vazios cavados no aparelho. Como quer que seja, o agravamento geral da represso no ltimo ano do regime faz pensar num nivelamento por baixo;  desse perodo que se pode, sem dvida, datar a passagem da maioria dos "70" para a oposio, silenciosa, aos Khmers Vermelhos.
	O destino das quase 20 minorias tnicas, que representavam em 1970 pelo menos 15% da populao do pas, no foi homogneo. Deve-se fazer uma distino inicial entre minorias essencialmente urbanas (chineses, vietnamitas) e rurais (Cham muulmanos das regies lacustres e fluviais, Khmers Loeu - termo genrico que engloba grupos variados, muito dispersos - das montanhas e das selvas). As primeiras no parecem ter sido reprimidas enquanto tais, pelo menos at 1977.  verdade que cerca de 150.000 residentes vietnamitas foram repatriados,79 na base do voluntariado, entre maio e dezembro de 1975, o que reduziu inegavelmente a comunidade a algumas dezenas de milhares de pessoas, essencialmente cnjuges de khmers. Mas, naquela ocasio, escapar  tutela khmer vermelha seria suficientemente tentador para que numerosos khmers procurassem se fazer passar por vietnamitas -	o que no parecia ento especialmente perigoso. Por outro lado, nos lugares de deportao no h discriminao entre minorias urbanas e outros ex-citadinos; a provao comum constitui mesmo um cimento novo: "Os cambojanos das cidades, os chineses e os vietnamitas eram reunidos, todos misturados, sob a designao desonrosa de povo novo'. ramos todos irmos. Tnhamos esquecido as rivalidades nacionalistas e os rancores antigos [...]. Os cambojanos eram provavelmente os mais deprimidos. Estavam desalentados com os procedimentos dos seus compatriotas e dos seus carrascos: os Khmers Vermelhos. [...] Estvamos revoltados com a ideia de que os nossos torturadores tinham a nossa nacionalidade." 
	Como compreender ento que uma elevada proporo desses minoritrios no tenha sobrevivido ao regime khmer vermelho? Avalia-se em 50% a mortalidade para os cerca de 400.000 chineses, e bem mais para os vietnamitas que ficaram depois de 1975; Sliwinski estabelece os valores de 37,5% para os vietnamitas e 38,4% para os chineses. A resposta est na comparao com outros grupos de vtimas: segundo Sliwinski, 82,6% dos oficiais do exrcito republicano, 51,5% dos diplomados do ensino superior e principalmente 41,9% dos residentes de Phnom Penh desapareceram. Esse ltimo nmero est muito prximo do estabelecido para as minorias: essas foram perseguidas enquanto "ultracitadinas" (em 1962, Phnom Penh contava 18% de chineses, 14% de vietnamitas)84 e, secundariamente, "ultra-exploradores" -	muitos no souberam disfarar a tempo a sua antiga posio social. A sua riqueza, com freqncia superior  dos Khmers, era simultaneamente uma vantagem (o que se conseguia levar permitia a sobrevivncia graas ao mercado negro) e uma ameaa, porque os "transformava em alvos" aos olhos dos novos senhores. No entanto, comunistas consequentes, estes ltimos privile giavam a luta de classes (ou o que eles entendiam como tal) relativamente  luta das raas ou dos povos.
	Tal fato no significa que os Khmers Vermelhos no tenham usado e abusado do nacionalismo e da xenofobia. Em 1978, Pol Pot garantia que o Camboja construa o socialismo sem qualquer modelo, e o seu discurso em Pequim, em homenagem a Mao Zedong (1977), no foi transmitido para Phnom Penh. O dio ao Vietn, "ladro" no sculo XVIII do Kampuchea Krom (englobado na Cochinchina), tornou-se pouco a pouco um tema central da propaganda  e permanece como sendo praticamente a nica razo de afirmao subsistente ainda hoje para os Khmers Vermelhos. Desde meados de 1976, os vietnamitas que ficaram no Camboja caram na armadilha: foi-lhes proibida a sada do pas. Ao nvel local, ocorreram algumas chacinas, que se generalizaram (sobre uma populao reduzida,  bom lembrar) na sequncia de uma diretiva do Centro, em l de abril de 1977, que prescrevia a priso e a entrega s foras de segurana centrais do conjunto dos vietnamitas -e, por precauo, dos seus amigos, assim como dos khmers que falassem vietnamita. Na provncia de Krati, limtrofe de um Vietn com o qual as hostilidades j haviam comeado, qualquer ascendente vietnamita condenava as pessoas, e as autoridades qualificavam os Yun como "inimigos histricos". Nesse clima, acusar a totalidade dos habitantes da zona Leste, em 1978, de serem "vietnamitas na pele de khmers" era assegurar-lhes a morte.
	O punhado de catlicos cambojanos foi, segundo Sliwinski, o grupo tnico ou religioso mais martirizado: 48,6% de desaparecidos.  sua cidadania se somavam com freqncia uma etnicidade muitas vezes vietnamita e uma associao com o "imperialismo colonial". A catedral de Phnom Penh foi o nico edifcio completamente arrasado. As minorias tnicas viram ser-lhes negada a sua personalidade prpria. De acordo com um decreto, "no Kampuchea, s h uma nao e uma s lngua, a lngua khmer. Doravante, as diferentes nacionalidades j no existem no Kampuchea." Os "montanheses" (Khmers Loeu), pequenos grupos de caadores das florestas, foram, porm, inicialmente mais favorecidos: o PCK tivera entre eles as suas primeiras bases e l havia recrutado uma parte significativa das suas primeiras tropas. Todavia, a partir do final de 1976, para satisfazer a obsesso da produo ori-zcola, os povoados das terras altas foram destrudos, e os seus habitantes obrigados a instalarem-se no fundo dos vales, o que perturbou totalmente o seu modo de vida e para eles constituiu um drama. Em fevereiro de 1977, os guardas Jarai, de Pol Pot, foram presos e em seguida liquidados.
	Quanto aos Cham  principal minoria autctone, que eram 250.000 em 1970, agricultores e sobretudo pescadores -, eles conheceram uma sorte muito particular, sobretudo devido  sua religio muulmana. Considerados excelentes guerreiros, tinham sido cortejados pelos Khmers Vermelhos no incio da sua "guerra de libertao"; eles faziam geralmente parte dos Antigos, embora lhes fosse censurado o fato de se envolverem com freqncia em ati-vidades comerciais (forneciam peixe a uma grande parte dos cambojanos). Todavia, em 1974, Pol Pot ordenou secretamente a disperso de seus pequenos povoados, o que foi feito de uma forma progressiva. Em 1976, todos os quadros de origem cham foram expulsos dos seus postos. A partir de 1975, segundo um texto khmer vermelho, os Cham "devem mudar os seus nomes, ado-tando outros novos semelhantes aos nomes khmers. A mentalidade cham  abolida. Aqueles que no se conformarem com essa ordem sofrero as consequncias":90 na zona Noroeste, podia-se ser morto por falar cham. Probe-se s mulheres o uso do sarongue (saia malaia) e dos cabelos compridos.
	Foi, no entanto, a tentativa de erradicao do isl que provocou os piores dramas. Em 1973, nas zonas libertadas, foram destrudas mesquitas, e proibida a orao. A partir de maio de 1975, essas medidas se generalizaram. Foram recolhidos os Alcores para que fossem queimados; as mesquitas foram reconvertidas ou arrasadas. Em junho, 13 dignitrios muulmanos foram executados, uns por terem preferido a orao a uma reunio poltica, outros por terem reclamado o direito ao casamento religioso. Frequentemente, forou-se a escolha entre a criao ou consumo de carne de porco e a morte  ironicamente, ao mesmo tempo que, para muitos dos cambojanos, a carne desaparecia totalmente da alimentao durante anos seguidos, os Cham viam-se obrigados a comer carne de porco duas vezes por ms (alguns foravam o prprio vmito aps a refeio). Os religiosos, particularmente visados, foram dizimados: de um milhar de Haji, sobreviveram cerca de 30. Ao contrrio dos outros cambojanos, os Cham revoltaram-se frequentemente, o que provocou, em represlia, inmeros massacres. A partir de meados de 1978, os Khmers Vermelhos comearam a exterminar sistematicamente numerosas comunidades cham, incluindo mulheres e crianas  mesmo quando haviam aceito comer carne de porco. Ben Kiernan menciona, para eles, 50% de mortalidade global, e Sliwinski 40,6%.

	Variaes no espao e no tempo
	
	A mortalidade conheceu igualmente importantes variaes locais. Tudo de acordo com a provenincia das vtimas: segundo Sliwinski, em 1979 eram ainda desse mundo 58,1% dos habitantes de Phnom Penh (o que representa cerca de um milho de pessoas, metade do total), 71,2% dos de Kompong Cham (outra provncia povoada), mas 90,5% dos de Oddar Mean Chhey, no Norte quase desrtico - a sobremortalidade ligada ao regime cai aqui para 2,6%. Previsivelmente, as zonas conquistadas mais tarde, as mais densamente povoadas e as mais prximas da capital (a evacuao das povoaes de provncia foi aparentemente menos dramtica) foram as que mais sofreram. Mas a sobrevivncia dependia principalmente da zona onde as pessoas se encontravam (voluntariamente ou deportadas) na poca do Kampuchea Democrtico. Ser enviado para uma zona de floresta ou montanhosa, para uma regio de cultura industrial como a juta (j no havia praticamente circulao inter-regional de vveres), era quase uma sentena de morte:96 qualquer que fosse a zona atribuda, a insensibilidade niveladora do regime impunha grosso modo as mesmas normas de produo, geralmente sem fornecer o mnimo apoio. Quando era necessrio comear a desbravar terreno para construir uma miservel cabana, e depois esgotar-se de tanto trabalhar com raes de fome (sem mencionar a disenteria e o paludismo que vinham atingir os organismos j bastante enfraquecidos), as devastaes tornavam-se terrveis: Pin Yathay avalia a mortalidade de um campo florestal, no final de 1975, em um tero em quatro meses; no povoado de arroteamento de Don Ey, a fome  geral, deixa de haver nascimentos e registram-se talvez 80% de mortos no total. Em compensao, chegar a uma regio agrcola prspera era uma possibilidade de sobrevivncia, especialmente se a sobrecarga dos Novos, ponto muito importante, no vinha pesar exageradamente nos equilbrios locais. Em contrapartida, tratava-se de um local bem mais controlado, em que se estava mais facilmente exposto aos expurgos: uma segunda "boa escolha", inversa, podia ser a das zonas mais longnquas, com quadros mais tolerantes e residentes Khmers Loeu mais acolhedores, como vimos; nesses locais afastados, a doena era inegavelmente o perigo principal.
	Ao nvel ainda mais restrito do povoado, o comportamento dos quadros locais era ainda mais decisivo, chegando a condicionar, em larga medida, as relaes com os Antigos. A fraqueza e a mediocridade do aparelho burocrtico khmer vermelho concediam efetivamente uma grande autonomia s direes locais, para o melhor e para o pior. Houve brutos sdicos (mulheres jovens, frequentemente), arrivistas ou incompetentes desejosos de se distinguirem reforando a represso e as normas de trabalho. Dois tipos de quadros aumentavam, em compensao, a esperana de vida: primeiro os mais humanos, como este chefe de povoado que, em 1975, apenas impunha aos refugiados quatro horas de trabalho por dia; e todos aqueles, que os sobreviventes encontraram num ou noutro momento crtico, que autorizaram um doente ou um exausto a descansar, um marido a ir ver a sua mulher, que fecharam os olhos  "auto-alimentao", em princpio proibida e que era porm vital. Mas eram tambm preciosos os mais corruptos, aqueles a quem a atrao por um relgio Omega ou um tael de ouro podia fazer assinar uma mudana de residncia ou de equipe de trabalho, ou mesmo levar a aceitar, por um perodo, uma vida totalmente  margem dos padres estritamente estabelecidos. No entanto, o reforo da centralizao do regime reduziu cada vez mais os interstcios iniciais de tolerncia, e a sua lgica infernal, atravs dos expurgos, conduziu  substituio gradual dos quadros humanos - suspeitos de fraqueza ou de corrupo  por novos responsveis, muito jovens, mais puros e sobretudo terrivelmente duros.
	Finalmente, a mortalidade variou no tempo. A escassa durao e principalmente o polimorfismo geogrfico do regime khmer vermelho impedem a definio de perodos bem delimitados. Alm disso, o terror e a fome foram permanentes, e mais ou menos generalizados; apenas a respectiva intensidade variou, embora as possibilidades de sobrevivncia dependessem bastante dessa intensidade. Os testemunhos proporcionam no entanto elementos suficientes para caminharmos no sentido de uma cronologia do martirolgio. Os primeiros meses do regime foram assinalados por mortandades em massa, socialmente orientadas e facilitadas pela ingenuidade inicial dos "75" diante dos seus novos senhores. Em compensao, pelo menos at o outono, a suba-limentao no foi excessivamente grave; alm disso, as cantinas coletivas no tinham ainda proibido as refeies em famlia. O Centro ordenou por diversas vezes o fim das matanas, entre o fim de maio e outubro: vestgio da influncia residual ento mantida pelos dirigentes mais moderados, ou, mais provavelmente, vontade de acentuar a sua autoridade sobre os estados-maiores de zona, demasiado autnomos. Os assassinatos prosseguiram posteriormente, mas a um ritmo mais moderado: segundo o banqueiro Komphot, refugiado na zona Norte, "as pessoas eram mortas uma a uma  no havia grandes massacres. Primeiro foi uma dzia de 'novos', aqueles de quem se suspeitava terem sido soldados ou algo no gnero. No decorrer dos dois primeiros anos, um dcimo dos novos foram mortos, um a um, com os respectivos filhos. No sei dizer quanto isso representa no total".
	Aparentemente, 1976 foi o ano da terrvel fome. A loucura das grandes obras atingia o seu pleno, esgotando os mais ativos e travando a agricultura. As colheitas de 1976, porm, no foram muito ms, e recompuseram momentaneamente a situao no primeiro semestre (a. colheita principal  feita entre dezembro e janeiro); mesmo assim, atingia-se, sem dvida penosamente, metade dos valores mdios dos anos 60. Em 1977, segundo alguns testemunhos, vive-se o cmulo do horror: a fome devastadora, mas igualmente o retorno dos expurgos. Estes ltimos vieram revestidos de uma forma diferente dos de 1975: mais polticos (eram frequentemente consequncia de conflitos crescentemente ferozes no interior do regime), com maiores conotaes tnicas, como vimos, eles atingiam novas categorias - em particular os camponeses ricos, ou mesmo mdios, do "povo de base", e, mais sistematicamente do que antes, os professores. Eles tambm foram marcados por uma nova ferocidade: embora instrues dadas em 1975 tivessem j determinado a execuo das mulheres e filhos dos oficiais republicanos, foi s em 1977 que as esposas dos homens anteriormente executados (mesmo muito tempo antes) foram presas e mortas; a liquidao de famlias inteiras, e at de povoados inteiros - como o do ex-presidente Lon Nol (350 famlias), em 17 de abril de 1977,  guisa de uma comemorao do aniversrio da "Libertao"  j no  excepcional. O ano de 1978 foi mais controverso: segundo Sliwinski, a fome atenuar-se-ia notoriamente, devido sem dvida a melhores colheitas e principalmente a uma maior flexibilidade de gesto; segundo Twining, corroborado por testemunhos, a seca e a guerra teriam, pelo contrrio, atuado conjuntamente no sentido de provocar privaes sem precedentes. O certo  que as mortandades, cada vez mais generalizadas (tambm entre os Antigos e, sobretudo, na zona Leste), atingiram ento um nvel excepcional.

	A morte cotidiana no tempo de Pol Pot

	"No Kampuchea Democrtico, no havia prises, nem tribunais, nem universidades, nem liceus, nem moeda, nem correios, nem livros, nem prtica de esportes, nem distraes... No era tolerado qualquer tempo morto numa jornada de 24 horas. A vida cotidiana dividia-se assim: 12 horas de trabalhos fsicos, duas horas para comer, trs horas para repouso e educao, sete horas de sono. Estvamos num imenso campo de concentrao. J no havia justia. Era em Angkar110 que se decidia sobre todos os atos da nossa vida. [...] Os Khmers Vermelhos utilizavam frequentemente parbolas para justificarem os seus atos e ordens contraditrios. Comparavam o indivduo a um boi: 'Vocs vem esse boi que puxa o arado. Ele come onde ns mandamos. Se o deixarmos pastar nesse campo, ele come. Se o levarmos para outro campo onde no haja erva suficiente, ele pasta, apesar de tudo. No se pode deslocar.  vigiado. E, quando lhe dizemos que puxe o arado, ele o puxa. Ele nunca pensa na mulher, nem nos filhos'."
	O Kampuchea Democrtico deixou, a todos os sobreviventes, essa impresso de estranheza, de perda das referncias e dos valores. Passara-se realmente para o outro lado do espelho, e, se uma pessoa queria manter uma possibilidade de sobreviver, tinha de iniciar-se urgentemente nas novas regras do jogo. O primeiro ponto era o desprezo radical pela vida humana: "Perder-te no  uma perda. Manter-te no tem qualquer utilidade"  todos os testemunhos referem essa temida frmula. Foi efetivamente uma descida ao inferno o que viveram os cambojanos, alguns desde 1973: os territrios "libertados" da zona Sudoeste conheceram desde ento a supresso da cultura budista, o arrancar dos jovens s suas famlias, a imposio de um cdigo de indumentria uniforme, a transformao das cooperativas de produo em brigadas.  das incontveis ocasies que se tinha de morrer que se torna agora necessrio falar.

	Futuro radioso, escravatura, fome
	
	Para comear, convinha aceitar a sua nova condio, intermediria, pelo menos no que se refere aos "75", entre a de uma besta de carga e a de um escravo de guerra (tambm isso pertencia  tradio angkoriana...). A admisso num povoado de Antigos era facilitada se o candidato tivesse um aspecto robusto e no viesse acompanhado de demasiadas bocas inteis. As pessoas viam-se progressivamente espoliadas dos seus haveres, e isso desde a evacuao, atravs dos soldados khmers vermelhos; no campo, ela foi feita pelos quadros e pelos Antigos, atravs do mercado negro - em perodo de penria extrema, uma caixa de arroz (250 gramas) podia atingir o preo exorbitante de 100 dlares. Eles tinham de habituar-se ao desaparecimento de qualquer espcie de ensino, de qualquer liberdade de deslocamento, de qualquer comrcio lcito, de qualquer medicina digna desse nome, da religio, da escrita, assim como  imposio de normas estritas de vestimenta (uniforme negro, de mangas compridas, abotoado at ao pescoo) e de comportamento (nada de demonstraes de fato, nada de disputas ou de injrias, nada de queixumes ou de choros). Tinham de obedecer cegamente a todas as ordens, assistir (com o ar de quem escuta atentamente) s interminveis reunies, gritar ou aplaudir  ordem, criticar os outros e autocriticar-se... A Constituio de 1976 do Kampuchea democrtico indicava com muita oportunidade que o primeiro direito dos cidados era o de trabalhar: nunca os Novos conheceram outro. Compreende-se que os primeiros tempos do regime tivessem sido marcados por uma epidemia de suicdios que atingiram especialmente os que estavam separados dos familiares, as pessoas idosas que se sentiam uma carga para as famlias ou aqueles que tinham pertencido ao grupo dos mais abastados.
	A adaptao dos "75" tornou-se com freqncia mais difcil ainda devido  mediocridade das condies de "acolhimento" (se nos atrevermos a usar esse termo). Eles foram em grande parte enviados para regies insalubres, principalmente no outono de 1975. Tudo o que podiam esperar eram ferramentas rudimentares e raes sempre insuficientes  nunca apoio tcnico ou formao prtica - e os piores castigos para aqueles que se saam mal, fosse qual fosse a razo: mesmo uma deficincia fsica evidente no evitava a sano aplicada aos "preguiosos", e aos incapazes: a morte. Salvo ligao familiar particularmente forte, a instalao nunca era definitiva: as mudanas de brigada de produo, e sobretudo as novas deportaes imprimiam o sentimento de um arbtrio total do poder. Da, frequentemente, nos mais capazes, a tentao de fuga para terras ainda governadas com um mnimo de racionali-dade, de previsibilidade, seno de humanidade. A fuga se assemelha muitas vezes a um suicdio adiado: tentada frequentemente sem bssola e sem mapa,116 normalmente na estao das chuvas, a fim de ser perseguido ou detectado com maior dificuldade, com provises insuficientes e o organismo enfraquecido pelas privaes, pode imaginar-se que uma grande maioria dos fugitivos desapareceu, antes mesmo de ser localizada por uma eventual patrulha khmer vermelha, que tinha ordens para no mostrar qualquer clemncia. No entanto, as tentativas foram numerosas, e estimuladas por uma vigilncia relativamente frouxa, tendo em conta a pequena quantidade dos soldados e dos quadros. 
	E, se a instalao na nova existncia pusesse difceis problemas de adaptao, o sistema em vigor no facultava aos recm-chegados qualquer possibilidade de recuperao. Os responsveis pareciam convencidos de que o "futuro radioso" estava ao alcance da mo, sem dvida no final do Plano de Quatro Anos (1977-1980) apresentado por Pol Pot em agosto de 1976. O Plano pretendia desenvolver maciamente a produo e a exportao de produtos agrcolas, nico recurso evidente do pas, de modo a realizar o acmulo primitivo do capital. Desse modo, garantir-se-iam a industrializao da agricultura, o desenvolvimento de uma indstria leve e diversificada e, um pouco mais tarde, uma poderosa indstria pesada. Estranhamente, essa mstica modernista apoiava-se num fantasma passadista: o de Angkor. "Se o nosso povo foi capaz de construir Angkor, no h nada que no esteja ao nosso alcance", assegurava Pol Pot, no discurso em que, em 27 de setembro de 1977, anunciou oficialmente que a Angkar era de fato o Partido Comunista do Kampu-chea." A outra justificao do voluntarismo khmer vermelho  o "glorioso 17 de abril", que teria demonstrado a superioridade dos camponeses pobres do Camboja sobre a maior potncia imperialista.
	Foi bastante ftil, nesse contexto, o esforo exigido da populao de passar para "trs toneladas (de paddy, um arroz no descascado) por hectare" - uma vez que, por volta de 1970, no se produzia mais de uma tonelada. Ftil tambm foi planejar triplicar a rea dos arrozais no rico Noroeste. Concretamente, isso significaria o desmatamento de novas terras e o desenvolvimento da irrigao numa escala enorme: tratava-se de passar muito rapidamente de uma para duas e, depois, a longo prazo, para trs colheitas de paddy por ano. Em compensao, todas as outras culturas passavam para segundo plano; e o esforo exigido desse "exrcito do trabalho" que os Novos representavam no estava sequer avaliado. Ora, tal esforo vai assumir as propores de um esgotamento, de consequncias muitas vezes mortais, das foras mais vivas de uma populao inteira: so com freqncia os homens mais robustos, aqueles dos quais mais se exige, os que morrem mais rapidamente. As jornadas de trabalho duravam normalmente 11 horas; mas, ocasionalmente, competies entre povoados (para maior glria dos respectivos quadros) obrigavam a iniciar o trabalho s quatro horas da manh e continuar at s dez ou 11 da noite. Quanto aos dias de descanso (por vezes totalmente suprimidos), s ocorriam geralmente de dez em dez dias; mesmo esses, no entanto, eram ocupados em interminveis reunies polticas. O ritmo de trabalho no era, em tempo normal, necessariamente superior ao que o campons cambojano conhecia habitualmente. A grande diferena residia na quase ausncia de momentos de repouso, na insuficincia das pausas de descanso durante o trabalho e, principalmente, na subalimentaco crnica.
	O futuro seria talvez radioso, mas o presente era desastroso. Em novembro de 1976, a embaixada americana em Bangkok, baseando-se nos relatos dos refugiados, estimava em 50% o recuo da rea cultivada em relao ao perodo anterior a 1975. Aqueles que nessa ocasio viajaram pelo pas descrevem campos semidesrticos, sementeiras abandonadas, em consequncia dos deslocamentos em massa para os estaleiros e para as zonas de arroteamento. O testemunho de Laurence Picq  alucinante (ver quadro a seguir).

	A desorganizao dos campos

	Dos dois lados da estrada, arrozais abandonados estendiam-se a perder de vista.
	Procurei em vo os trabalhos de transplantao. Nada, a no ser, aps cerca de dez quilmetros, um grupo de trabalho composto por algumas moas.
	Onde se encontravam as centenas de jovens das brigadas mveis de que a rdio falava diariamente?
	Grupos de homens e mulheres perambulavam de um lugar a outro, com ar vago, de trouxa nos ombros. Pelo seu vesturio, roupas andrajosas, outrora de cores vivas, calas justas ou saias rasgadas, adivinhava-se que eram "novos", antigos citadinos banidos da cidade.
	Tomo conhecimento de que haviam sido organizadas novas transferncias de populao, por volta da metade do ano, para compensar o desequilbrio causado pela poltica absurda de um "bando de traidores".
	Esses citadinos tinham sido, numa primeira fase, enviados para as regies privadas de recursos do Sudoeste, nas quais, diante da misria total, deviam passar a ter uma "nova concepo do mundo". Ora, entretanto, as regies frteis eram deixadas sem mo-de-obra. Morria-se de fome em todo o pas, embora somente um quinto das terras semeadas fosse explorado!
	Para onde teria ido a antiga mo-de-obra que trabalhava aquelas terras? Muitas perguntas ficavam sem resposta.
	Quanto s brigadas mveis, louvadas pela capacidade intrpida de trabalho, elas viviam em condies duras. As refeies eram levadas aos campos: algumas campnulas cozidas em gua, um pouco de arroz, ou seja, metade do que tnhamos em Phnom Penh. Com tais raes, tornava-se impossvel fornecer um verdadeiro esforo e, consequentemente, produzir o que quer que fosse. [...]
	Arregalei os olhos. O espetculo era terrvel: uma misria humana indescritvel, uma desorganizao total, um desperdcio lamentvel...
	Enquanto o carro rodava em grande velocidade, um velho precipitou-se ao seu encontro, agitando os dois braos.  beira da estrada estava estendida uma jovem, sem dvida doente. O motorista deu uma guinada, e o velho manteve-se no meio da estrada, com os braos erguidos para o cu. 

	O projeto econmico do PCK implicava por si mesmo tenses intolerveis. Essas foram ainda agravadas pela incapacidade arrogante dos quadros encarregados de o aplicar. A irrigao era a pedra angular do Plano, e foram dedicados a ela grandes esforos, sacrificando de algum modo o presente ao futuro. Porm, a mediocridade de concepo e/ou execuo da maioria das obras empreendidas tornou esse esforo, em grande parte, quase intil. Ao lado de alguns diques, canais ou barragens bem-concebidos, ainda utilizados nos nossos dias, quantos foram levados na primeira enxurrada (afogando eventualmente algumas centenas de construtores ou de camponeses), quantos fizeram circular a gua em sentido inverso, quantos se encheram de lodo em poucos meses... Os engenheiros hidrulicos, por vezes presentes entre a mo-de-obra, s podiam se desesperar em silncio: criticar teria sido um ato de hostilidade para com a Angkar, com as conhecidas consequncias... "Para construir barragens, tudo o que vocs precisam  de educao poltica", assegurava-se aos escravos. Para aqueles camponeses analfabetos que, muitas vezes, eram os seus chefes, a acumulao mxima de cavadores, de horas de trabalho e de terra fazia as vezes de nico princpio tcnico.
	Esse desprezo pela tcnica e pelos tcnicos era acompanhado por uma rejeio do mais elementar bom senso campons: aqueles pobres-diabos de mos calosas talvez dirigissem os estaleiros e os povoados, mas os seus senhores eram intelectuais urbanos, sedentos de racionalidade formal e de uniformidade, e convencidos da sua oniscincia. Desse modo, havia sido ordenado que se nivelasse a maioria dos pequenos diques que delimitavam os arrozais, sendo a dimenso imposta, em todos os lugares, de um hectare. O calendrio dos trabalhos agrcolas era determinado para uma regio inteira, fossem quais fossem as condies ecolgicas locais. Sendo a produo de arroz considerada o nico critrio de xito, alguns quadros acharam por bem cortar a totalidade das rvores nas zonas cultivadas, incluindo as rvores frutferas; para destruir o abrigo de alguns pardais, que prejudicavam a plantao, eliminavam-se fontes de alimentao da populao esfomeada. Se a natureza foi submetida a duras provas, a mo-de-obra, por sua vez, foi subdividida e especializada at ao absurdo: cada categoria de idade foi "mobilizada"  parte (os dos 7 aos 14 anos, depois dos 14 anos at ao casamento, os velhos, etc.), e as equipes dedicadas a uma tarefa precisa e nica multiplicaram-se. Ao lado disso tudo, quadros distantes, aureolados em seu poder, que no trabalhavam com os seus subordinados e que davam ordens sem sofrer a menor contestao.
	A fome que atingiu milhes de cambojanos durante anos foi tambm utilizada, conscientemente, para melhor escravizar. Seres enfraquecidos, incapazes de constiturem reservas de alimentos, eram menos tentados a fugir. Permanentemente obcecados com a alimentao, a mola real do pensamento autnomo, a contestao e a prpria sexualidade era quebrada entre eles. O stop-and-go a que se jogava durante as refeies fazia suportar melhor os deslocamentos forados ou a passagem pelas cantinas coletivas (algumas refeies satisfatrias e todo mundo comeava a gostar da Angkar), ou ajudava a quebrar as solidariedades interindividuais, inclusive entre pais e filhos. No se receava beijar a mo que alimentava, por mais sangrenta que fosse. 
	Triste ironia: um regime que tinha querido sacrificar tudo  mstica do arroz (como houve uma mstica do ao na URSS, ou do acar em Cuba) tornou esse alimento cada vez mais mtico. O Camboja exportava regularmente, desde os anos 20, centenas de milhares de toneladas de arroz por ano, alimentando, frugal mas corretamente, a massa da sua populao. Ora, uma boa parte dos cambojanos passou a conhecer apenas a sopa de arroz rala (contendo aproximadamente o equivalente a quatro colheres de caf de arroz por pes-soa'35), desde que as cantinas coletivas foram generalizadas, no incio de 1976. E as colheitas, como vimos, variaram entre o miservel e o catastrfico. As raes dirias reduziram-se em propores extraordinrias. Estima-se que, antes de 1975, um adulto da regio de Battambang consumia cerca de 400 gramas de arroz por dia  quantidade mnima para uma atividade normal. Mas todos os testemunhos coincidem: sob o regime dos Khmers Vermelhos, quando se conseguia dispor de uma caixa de arroz (250 gramas) por pessoa, era um festim. Embora as raes tenham variado muito, no era excepcional cinco, seis e mesmo oito pessoas terem de contentar-se com uma s caixa.'36
	Da o carter geralmente vital do mercado negro  que permitia conseguir arroz, proveniente especialmente dos quadros que desviavam as raes dos numerosos mortos no declarados , assim como a procura individual de alimento, globalmente proibida  a Angkar agia para o bem do povo, logo as suas raes tinham de bastar... , por vezes oficial137 ou oficiosamente tolerada  salvo, evidentemente, quando se tratava de "roubo". Nada escapava  fome violenta dos famintos, nem os bens em princpio coletivos (paddy, antes ou durante a ceifa, e frutos, permanentemente), nem as escassas propriedades individuais (galinheiros, e depois os animais domsticos dos Antigos), nem os caranguejos, rs, caracis, lagartos e serpentes que pululavam nos arrozais, nem as formigas vermelhas ou as grandes aranhas devoradas cruas, nem os rebentos, cogumelos e tubrculos da floresta, os quais, mal selecionados ou insuficientemente cozinhados,^8 provocavam um grande nmero de mortes. Atingiram-se extremos insuspeitos, mesmo para um pas pobre: disputar com os porcos o farelo da sua gamela,139 ou fazer um banquete com ratos do campo. A busca individual de alimento foi um dos principais pretextos para sanes, podendo ir desde a advertncia at as execues, a ttulo de exemplo, no caso de pilhagem em massa das colheitas.
	A subalimentao crnica, enfraquecendo os organismos, favoreceu o conjunto das doenas (em particular a disenteria), acentuando-lhes a gravidade. Houve tambm "as doenas da fome", das quais a mais corrente, e a mais grave, era o edema generalizado  descrito em muitas outras ocasies histricas comparveis -, causado pelas fortes quantidades de sal do caldo quotidiano. Essa morte relativamente tranquila (as pessoas enfraquecem, e depois perdem a conscincia) acaba por ser considerada desejvel por alguns, em particular os velhos. 
	O mnimo que se pode dizer  que essa morbilidade dramtica - por vezes so os doentes acamados que constituem a maioria de uma comunidade - nunca comoveu os responsveis khmers vermelhos. O acidentado era um culpado, visto que fizera com que "Angkar perdesse mo-de-obra". O doente, sempre suspeito de ser um preguioso, s podia deixar de trabalhar na condio de ir para a enfermaria ou para o hospital, onde as raes alimentares eram reduzidas  metade e onde o risco de epidemias era muito elevado. Henri Locard tem inegvel fundamento ao escrever que "os hospitais so mais um lugar de eliminao da populao do que de cura": Pin Yathay perdeu, em algumas semanas, quatro membros da sua famlia num hospital. Um grupo de 15 jovens atingido por varicela foi tratado sem qualquer considerao: manuteno do trabalho, sem qualquer cuidado mdico, obrigao de dormirem como normalmente faziam, no cho, apesar das feridas provocadas pelas erupes cutneas. Resultado: um nico sobrevivente.

	Da destruio das referncias  animalizao
	
	A fome, como se sabe, desumaniza. Faz com que as pessoas se fechem sobre si mesmas, esquecendo qualquer considerao estranha  sua prpria sobrevivncia. Como explicar de outra forma o recurso ocasional ao canibalismo? Foi, em todo o caso, menos extenso do que na China do Grande Salto Adiante, e parece ter se limitado ao consumo de cadveres. Pin Yathay menciona dois exemplos concretos: uma ex-professora que devorou parcialmente a irm, e, numa enfermaria de hospital, a partilha do cadver de um jovem. Em ambos os casos, a sano para os "ogres" (esprito particularmente demonaco na tradio khmer)  a morte; e, no caso da professora, atravs de espancamento diante de todo o povoado (e de sua filha). O canibalismo vingativo tambm existia, como na China: Ly Heng evoca o caso de um soldado khmer vermelho, desertor, forado, antes de ser executado, a comer as suas prprias orelhas. O consumo de fgado humano  o mais citado, apesar de no se tratar de uma especificidade dos Khmers Vermelhos: os soldados republicanos impunham-no por vezes aos seus inimigos, entre 1970 e 1975; encontramos costumes semelhantes por todo lado no Sudeste Asitico. Haing Ngor14> relata a extirpao, numa priso, do feto, do fgado e dos seios de uma mulher grvida assassinada; o feto  jogado fora (onde outros j se encontram secando dependurados na beirada do telhado do crcere), o resto  levado, com esse comentrio: "Esta noite temos fartura de carne!" Ken Khun recorda um chefe de cooperativa preparando um remdio para os olhos a partir de vesculas biliares humanas (e distribuindo-o liberalmente pelos seus subordinados!) enquanto exaltava as qualidades palatares do fgado humano. No existir nesse recurso  antropofagia um caso-limite de um fenmeno muito mais geral: o enfraquecimento dos valores, das referncias morais e culturais e, antes de mais nada, da compaixo, virtude to fundamental no budismo? Paradoxo do regime dos Khmers Vermelhos: afirmando querer implementar uma sociedade de igualdade, de justia, de fraternidade, de abnegao, e, tal como os outros poderes comunistas, provocou-se um desencadeamento espantoso de egosmo, do cada um por si, de desigualdade no poder, de arbitrariedade. Para sobreviver, era necessrio sobretudo, e antes de mais nada, saber mentir, enganar, roubar e permanecer insensvel.
	O exemplo, se assim se pode dizer, vinha de cima. Pol Pot, desaparecido na clandestinidade desde 1963, nada fez para retomar o contato com a famlia, mesmo depois de 17 de abril de 1975. Os seus dois irmos e a cunhada foram, portanto, deportados com os outros, e um deles pereceu rapidamente; os dois sobreviventes, compreendendo tardiamente, atravs de um retrato oficial, a verdadeira identidade do ditador, acharam por bem (sem dvida, com razo) nunca dar a conhecer o seu parentesco com ele. 152 O regime fez de tudo para afrouxar ou quebrar os laos familiares, tendo percebido claramente que os mesmos constituam uma forte resistncia espontnea diante do projeto totalitrio de uma dependncia exclusiva de cada indivduo em face da Angkar. A unidade de trabalho dispunha frequentemente das suas prprias "instalaes" (muitas vezes simples esteiras, ou camas de rede), mesmo a pouca distncia do povoado. Era muito difcil obter autorizao para abandon-las: os maridos ficavam longe das esposas por semanas a fio, ou mais; os filhos eram afastados dos pais; os adolescentes podiam passar seis meses sem autorizao para ver a famlia, sem notcias, 153 para por vezes descobrirem, quando regressavam, que todos haviam morrido. Tambm aqui o modelo vinha de cima: os casais dirigentes viviam frequentemente separados. No era bem-visto uma me dedicar-se demasiado ao filho, mesmo pequeno.
	O poder dos maridos sobre as esposas, dos pais sobre os filhos foi abolido: podia-se ser executado por ter esbofeteado a esposa, ser denunciado pelos filhos por lhes ter batido, ou forado  autocrtica por uma injria ou uma discusso. Num contexto muito pouco humanista, devemos ver nesses aspectos a vontade do poder de arrogar-se o monoplio da violncia legtima, de dissipar todas as relaes de autoridade que lhe escapassem. Os sentimentos familiares eram encarados com o maior desprezo: as pessoas podiam estar separadas umas das outras, muitas vezes definitivamente, por no terem conseguido embarcar no mesmo caminho, ou porque duas carroas que seguiam em fila tinham ordens para no tomarem a mesma estrada de deportao. Aos quadros pouco importava que velhos ou crianas se encontrassem doravante isolados: "No se preocupem. A Angkar cuidar deles. No confiam na Angkar?" - tal era a tpica resposta aos que suplicavam para que fossem reunidos aos familiares.
	Com a substituio da cremao pelo enterro dos cadveres (salvo exce-es, para as quais era preciso suplicar, e ter um responsvel com alguns sentimentos humanos), verificou-se mais um atentado  solidariedade familiar: para um Khmer, abandonar um parente prximo ao frio, na lama, sem ritos funerrios (nada est previsto em semelhante caso),  faltar-lhe ao respeito mais elementar,  comprometer a sua reencarnao, eventualmente obrig-lo  existncia como fantasma. Dispor de um pouco das suas cinzas era, em compensao, particularmente valorizado, nesse perodo de deslocamentos frequentes. Tratava-se de fato de uma das pedras angulares do ataque sistemtico contra a rica cultura tradicional do Camboja, fosse budista ou pr-budista (as cerimnias "primitivas" dos Khmers Loeu no foram mais preservadas do que os ritos provenientes do Imprio Angkoriano), popular (cantigas de amor, gracejos) ou erudita (danas de corte, pinturas de templo, esculturas...). O Plano de 1976, imitando inegavelmente a Revoluo Cultural chinesa, no reconhecia outras formas de expresso artstica alm dos cnticos e poemas revolucionrios.
	Mas a reduo do estatuto dos mortos  a outra vertente da negao da humanidade dos vivos. "No sou um ser humano, sou um animal", conclui na sua confisso o antigo dirigente e ministro Hu Nim. O homem vale s o mesmo que o animal? Podia-se perder a vida por deixar um boi fugir, e ser torturado at  morte por ter batido em um. Houve homens amarrados a arados e fustigados sem piedade por no se terem mostrado  altura da vaca que ajudavam. A vida humana tem um preo to baixo... "Voc tem tendncias individualistas. [...] Voc deve [...] se libertar dos seus sentimentos", retorquia um soldado khmer vermelho a Pin Yathay, que pretendia manter junto de si o filho ferido. Querendo ir v-lo, morto, alguns dias mais tarde, Pin Yathay teve de provar que, doente, "no estaria desperdiando as [prprias] foras em detrimento da Angkar", a fim de, arduamente, conseguir a autorizao para ver o corpo do filho. Mais tarde, no lhe  dado o direito de ir visitar a mulher no hospital, sob o pretexto de que "a Angkar ocupa-se dela". Tendo ido ajudar uma vizinha gravemente doente e os seus dois filhos, ouviu esta observao de um Khmer Vermelho: "No  seu dever ajud-la; pelo contrrio, isso prova que voc ainda tem piedade, sentimentos de amizade.  preciso renunciar a esses sentimentos e extirpar do seu esprito as propenses individualistas. Volte imediatamente ao seu lugar."
	Essa negao sistemtica do humano tem, do ponto de vista dos senhores do pas, o seu reverso: o desaparecimento nas vtimas de qualquer escrpulo em mentir, em parar de trabalhar quando os guardas e os espies esto de costas voltadas, e, principalmente, em roubar.  uma questo de vida ou de morte, tendo em conta as raes fornecidas pela Angkar: todo o mundo rouba, das crianas aos velhos - o que significa simplesmente, uma vez que tudo pertence ao Estado, a colheita de alguns frutos. Infernal armadilha de uma sociedade que apenas deixa s pessoas a escolha entre morrer, roubar e enganar: essa deseducao, particularmente nos jovens, permitiu manter-se at hoje um cinismo e um egosmo que comprometem as possibilidades de desenvolvimento do Camboja.

	O triunfo da brutalidade
	
	Outra contradio irredutvel do regime: a exigncia de transparncia absoluta das vidas e dos pensamentos ope-se ao carter particularmente dissimulado do grupo no poder. Fenmeno nico no contexto dos regimes comunistas: a existncia do PCK s  oficialmente declarada em 27 de setembro de 1977, 30 meses aps o 17 de abril. A prpria personalidade de Pol Pot  um segredo particularmente bem guardado. Aparece pela primeira vez nas "eleies" de maro de 1976, sob a designao de "operrio das plantaes de seringueiras". Na realidade, ele nunca trabalhou, nem sequer no "stio dos pais", como afirma uma biografia difundida por ocasio da sua visita  Coreia do Norte, em outubro de 1977. Foram os servios secretos ocidentais que, por verificao, identificaram Pol Pot e Saloth Sar como uma nica e mesma pessoa, militante comunista que havia fugido de Phnom Penh em 1963 e fora declarado "morto na resistncia" por certos quadros do PCK. A vontade de permanecer na sombra para melhor exercer todo o poder era tal, que Pol Pot no ter biografia, nem busto, nem sequer retrato oficial; a sua fotografia s raramente apareceu, e no houve nenhuma coletnea dos seus textos. Nada, pois, que evoque um culto da personalidade - e muitos cambojanos s depois de janeiro de 1979 tiveram conhecimento de que ele tinha sido o seu primei-ro-ministro. Pol Pot confundiu-se com a Angkar, e reciprocamente: tudo se passou como se, Annimo supremo dessa organizao annima, ele estivesse presente no menor dos povoados, invisvel, por detrs do menor detentor de autoridade. A ignorncia  me do terror: ningum, em momento algum, pode sentir-se seguro.
	Opacidade/transparncia: os escravos do sistema j no pertencem a si prprios, por pouco que seja. O seu presente  totalmente orientado, atravs de um emprego de tempo feito para no lhes dar um momento de descanso, pela obsesso da comida, pelas frequentes reunies de crtica-autocrtica, nas quais a menor falha pode originar problemas. O passado de cada um  minuciosamente investigado, 164 no caso de haver a menor dvida acerca da veracidade das suas declaraes, e muitas prises, seguidas de torturas, destinam-se a obrig-los a confessar o que teriam tentado esconder. As pessoas encontram-se  merc de uma denncia, do encontro casual de um antigo colega, vizinho, aluno... Relativamente ao futuro, parece s haver uma direo, submetida ao mnimo capricho do Moloch no poder. Nada deve poder escapar ao olhar do poder, que "tem tantos olhos como o anans", diz um slogan corrente. Partindo-se do princpio de que tudo tem um significado poltico, a menor violao das regras estabelecidas pode assumir o valor de ato de oposio, e portanto de "crime contra-revolucionrio". Era necessrio evitar a menor afronta, mesmo involuntria: na lgica paranica que os Khmers Vermelhos difundiam ao seu redor (estava-se rodeado de inimigos to prfidos quanto bem dissimulados), no havia acidentes, no havia acasos, no havia inaptides - apenas "traies". Quebrar um copo, no dominar bem um bfalo e traar sulcos oblquos eram coisas que podiam levar uma pessoa - bem como os seus parentes e amigos  diante dos membros da cooperativa transformados em tribunal, e os acusadores no faltavam. Nunca se deviam evocar os mortos, traidores justamente punidos ou covardes que tinham subtrado a sua fora de trabalho  Angkar. A prpria palavra "morto" tinha se tornado um tabu; devia-se dizer batkluon (corpo que desaparece).
	O ponto fraco foi, no entanto, a ausncia de qualquer aparelho judicirio (nunca houve julgamentos), e principalmente de um aparelho policial digno desse nome  era o exrcito, nada preparado para essa funo, que estava encarregado da segurana interna. A rusticidade do aparelho repressivo explica a grande facilidade que havia em traficar, em falar livremente em particular, em roubar... Mas explica tambm o uso imoderado que foi feito das crianas e dos adolescentes, transformados em auxiliares de polcia. Uns, j integrados no aparelho khmer vermelho, designados chhlop, eram essencialmente espies, escondendo-se, por exemplo, debaixo das estacas das casas, esperando ouvir conversas repreensveis, ou procurando descobrir as proibidas reservas alimentares particulares. Outros, frequentemente mais jovens, tinham sobretudo por tarefa seguir o itinerrio poltico dos pais, irmos ou irms e denunci-los, "para seu prprio bem", no caso de pensamentos "heterodoxos". Para o conjunto dos cambojanos, tudo o que no era explicitamente autorizado era proibido (ou podia ser considerado como tal). Tendo em conta que a priso era de fato a antecmara da morte, os atos delituosos menores, sem reincidncia, e que fossem objeto de uma autocrtica espontnea suficientemente humilde, ou eram perdoados, ou punidos com uma mudana de local de trabalho (por exemplo, para o chiqueiro   chinesa) ou com um espancamento mais ou menos violento, em geral no fim da reunio coletiva. Os pretextos abundavam. Como esperar que os membros de uma famlia aceitassem no se verem durante meses, embora as suas equipes de trabalho estivessem frequentemente apenas a alguns quilmetros de distncia uma das outras? Como evitar pequenos erros no trabalho, muitas vezes provenientes da falta de experincia, do esgotamento que enfraquece a ateno, do desgaste das ferramentas? Como resistir  tentao de colher um alimento, ou desse "roubo" que representa apanhar uma simples banana?
	Qualquer desses "crimes" podia conduzir  priso ou  morte. Todo o mundo os cometia, e, no entanto, o mais frequente era uma sano mais comedida. Tudo  relativo: a flagelao, sobretudo para os jovens, era um castigo banal; os adultos mais pareciam ter sido espancados  e chegavam mesmo a morrer. Os carrascos podiam ser militares khmers vermelhos. Mas o mais normal era as pessoas serem espancadas pelos seus prprios colegas de trabalho, os "75", que, muitas vezes, rivalizavam tanto mais em zelo quanto  certo que eles prprios se sabiam em perigo constante. Como sempre,  preciso fingir uma submisso absoluta: queixas - ou, pior ainda, protestos  seriam interpretadas como sinais de oposio ao castigo, e portanto ao regime. Tratava-se de castigar, mas tambm de aterrorizar: faziam-se execues simuladas. 

	O assassinato como mtodo de governo

	"Basta um milho de bons revolucionrios para o pas que estamos construindo. No precisamos do resto. Preferimos abater dez amigos a conservar vivo um inimigo": tal era o discurso dos Khmers Vermelhos nas reunies de cooperativa. E puseram em prtica essa lgica genocida. A morte violenta era quotidiana sob o regime de Pol Pot; morria-se mais frequentemente de assassinato do que de doena ou de velhice. O castigo, em toda parte chamado "supremo", era banalizado pela sua freqncia, t pela futilidade das razes que levavam  sua aplicao. Estranha inverso: era nos casos considerados mais graves que uma pessoa ia para a priso (onde,  certo, a morte era apenas adiada), para ser obrigada a confessar conspiraes e cmplices. Embora a realidade do sistema repressivo fosse cuidadosamente dissimulada - mistrio que o tornava ainda mais terrvel , alguns deportados perceberam as suas grandes linhas: "Talvez houvesse dois sistemas paralelos de represso. Um sistema de crcere, parte integrante de uma burocracia que se alimentava de si mesma, a fim de justificar a sua existncia, e um outro sistema, mais informal, que dava aos chefes de cooperativa o direito de fazerem justia. No fim, o resultado para os prisioneiros era o mesmo." Henri Locard confirma essa hiptese. Conviria acrescentar um terceiro modo de matar, que tende a prevalecer no ltimo ano do regime: o "expurgo militar"  fazendo lembrar um pouco as "colunas infernais" da guerra da Vendia, em 1793-1795 , em que as tropas ligadas ao Centro massacram localmente, e em massa, equipes de quadros locais cados em desgraa, povoados suspeitos, populaes inteiras como na zona Leste. O que nunca ocorre  um ato de acusao preciso, nem possibilidade de defesa ou de comunicao da sorte das vtimas aos familiares ou colegas de trabalho: "Angkar mata, mas nunca explica", tal era um dos novos ditados da populao.
	Torna-se difcil definir com exatido os delitos punidos com a morte. No porque faltem, mas, pelo contrrio, porque  quase impossvel citar uma falta que no possa implicar a execuo capital: para o quadro khmer vermelho,  cmodo, e recomendvel como prova de inteligncia poltica, ter uma viso o mais paranica possvel do mnimo desvio. Limitar-nos-emos, portanto, a uma recapitulao dos principais motivos conducentes  morte, comeando pelos mais frequentes. O "roubo" de alimentos vem certamente  cabea. Tendo em conta a importncia do arroz na alimentao, e o controle dele efetuado pelo regime, a sentena de morte foi aplicada em massa no caso de respiga selvagem, de pilhagem nos celeiros ou na cozinha; os ladres eram frequentemente executados de imediato a golpes de cabo de enxada, diretamen-te no campo  e l abandonados, para servirem de exemplo. No caso de roubo de frutas ou legumes, havia maiores possibilidades de escapar com um simples espancamento. No entanto, algumas bananas colhidas por uma mulher faminta que amamentava o seu beb conduziram-na  morte. Adolescentes ladres de pomares eram "julgados" pelos seus camaradas (que no tinham possibilidade de recusa), condenados e executados no mesmo instante com uma bala na cabea: "Estvamos trmulos. Disseram-nos que era uma lio para ns." O abate clandestino de gado era menos frequente: a criao e os animais domsticos desapareceram rapidamente, ou eram muito bem guardados; a promiscuidade tornava muito difcil o desvio de gado. No entanto, uma famlia inteira podia ser assassinada por ter partilhado um bezerro.
	As visitas clandestinas  famlia, consideradas equivalentes a deseres, embora de curta durao, eram tambm muito perigosas. Todavia, parece que s se arriscava a vida em caso de reincidncia - na condio de no ter cometido o gravssimo erro de faltar ao trabalho. Gostar demasiadamente dos seus era mal-encarado; discutir com eles, ou com quem quer que fosse, podia tambm custar a vida (neste caso, tambm geralmente, nunca da primeira vez). Num clima de um puritanismo extremo  era recomendado que um homem se mantivesse a pelo menos trs metros da sua interlocutora, se no fosse uma parente prxima  as relaes sexuais fora do casamento eram sistematicamente punidas com a morte: infelicidade para os jovens amantes, infelicidade tambm para os quadros libidinosos, muitos dos quais "caram por isso". O consumo de bebidas alcolicas (geralmente sumo de palma fermentado) era um outro crime capital; mas isto era vlido sobretudo para os quadros e para os Antigos, pois os Novos arriscavam j suficientemente a vida procurando alimentar-se. No tocante s prticas religiosas, muito malvistas, no conduziam forosamente a uma condenao, desde que fossem discretas e puramente individuais (o que  possvel no budismo e muito difcil no islamismo); pelo contrrio, as cerimnias de transes podiam ser punidas com a morte. Claro que qualquer insubmisso era fatal. Os raros que se arriscaram, sobretudo nos primeiros tempos, aproveitando-se da suposta liberdade de crtica que lhes era concedida nas reunies para recordar a insuficincia dos alimentos ou das roupas, "desapareceram" muito rapidamente, do mesmo modo que estes professores deportados, organizadores, em novembro de 1975, de uma manifestao de protesto contra as raes de fome, embora a manifestao em si no tivesse sido reprimida. Os conceitos "derrotistas", desejar o desaparecimento do regime (ou a vitria do Vietn, coisa que um bom nmero de cam-bojanos pensava em 1978), e at reconhecer que se tem fome: tudo isso expe as pessoas ao pior. Os chhlop eram encarregados de registrar, e por vezes de provocar, essas palavras incriminadoras.
	No cumprir a tarefa atribuda, qualquer que fosse a razo, era tambm das faltas mais arriscadas. Toda a gente estava sujeita a erros ou acidentes menores, sempre potencialmente fatais, mas foi igualmente em nome dessa obrigao de resultados que grande nmero de deficientes, de invlidos e de doentes mentais foram assassinados: incapazes, sabotadores objetivos, eram ainda mais inteis do que a massa dos Novos. Bem entendido, os feridos e amputados de guerra do exrcito republicano estavam todos condenados a desaparecer. Particularmente vulnerveis eram os que se encontravam incapacitados de compreender ou aplicar instrues e proibies: um louco que levava um pouco de mandioca, ou que exprimia o seu desagrado em termos incoerentes, era geralmente liquidado. Os comunistas khmers aplicavam uma eugenia de facto.
	O nvel global de violncia no Kampuchea Democrtico era terrvel. Mas, para a maioria dos cambojanos, o que aterroriza  o mistrio que envolve os incessantes desaparecimentos, e no tanto o espetculo da morte. Essa era quase sempre discreta, oculta. Haver quem associe essa discrio no assassinato  invarivel delicadeza dos militantes e quadros do PCK: "As suas palavras eram cordiais, muito doces, at nos piores momentos. Chegavam ao assassinato sem perderem a cortesia. Administravam a morte com palavras afveis. [...] Eram capazes de fazer quaisquer promessas que quisssemos ouvir para anestesiar a nossa desconfiana. Eu sabia que as suas doces palavras acompanhavam ou precediam os crimes. Os Khmers Vermelhos eram delicados em quaisquer circunstncias, mesmo antes de nos abaterem como gado." Uma primeira explicao  ttica: como sugere Pin Yathay, manter a surpresa, evitar a recusa ou a revolta. Uma segunda  cultural: o domnio de si prprio  altamente valorizado no budismo; aquele que cede  emoo perde sua dignidade. Uma terceira  poltica: tratava-se, tal como nos bons tempos do comunismo chins (antes da Revoluo Cultural), de provar a implacvel racionalidade da ao do Partido - que nada deve a paixes momentneas ou a impulsos individuais  e a sua total capacidade de dirigir em qualquer circunstncia. Essa discrio nas execues bastaria para provar que eram amplamente coordenadas a partir do Centro: a violncia primitiva e espontnea, como, por exemplo, a dos movimentos populares, no hesita em exibir-se. No final de uma tarde, ou numa noite, soldados vm buscar as pessoas para "interrogatrio", para "estudarem", ou para a boa e velha "rotina do porrete". Muitas vezes, amarram-lhes os cotovelos atrs das costas, e pronto. Outras vezes, mais tarde, algum encontra na floresta um cadver no enterrado - talvez para inspirar ainda mais medo -, mas nem sempre identificvel. Sabe-se hoje que h numerosas valas comuns - mais de mil em cada uma das provncias completamente investigadas, e existem 20, ao todo  espalhadas pelos campos cambojanos. Por vezes era concretizada a sinistra ameaa, constan-temente repetida pelos Khmers Vermelhos, de ir servir de "fertilizante aos nossos arrozais": "Matavam-se constantemente homens e mulheres para fazer adubo. Enterravam-se os cadveres em valas comuns que eram onipresentes nos campos de cultivo, sobretudo nos de mandioca. Com freqncia, ao arrancar os tubrculos de mandioca, desenterrava-se um crnio humano atravs de cujas rbitas saam as razes da planta comestvel." Os senhores do pas parecem por vezes ter acreditado que no h nada melhor do que os cadveres humanos para a agricultura;184 embora tambm seja lcito ver aqui, em paralelo com o canibalismo (dos quadros), o ponto culminante da negao da humanidade dos "inimigos de classe".
	A selvageria do sistema reaparece no momento supremo, o da execuo. Para poupar as balas, mas tambm sem dvida para satisfazer o frequente sadismo dos executores,18 o fuzilamento no  o mais corrente: apenas 29% das vtimas, segundo o estudo de Sliwinski. Em compensao, seriam contados 53% de crnios esmagados (com barras de ferro, com cabos de enxada), 6% de enforcados e asfixiados (com saco plstico), 5% de decapitados e de espancados at  morte. Confirmao da totalidade dos testemunhos: somente 2% de assassinatos teriam ocorrido em pblico. Entre esses, um nmero significativo de execues "exemplares" de quadros cados em desgraa, utilizando mtodos particularmente brbaros, em que o fogo (purificador?) parece desempenhar um papel relevante: enterramento at o peito numa vala cheia de brasas; cremao das cabeas com petrleo.

	O arquiplago prisional

	No Kampuchea Democrtico no existiam, em princpio, prises. Segundo o prprio Pol Pot, falando em agosto de 1978: "Ns no temos prises e at nem utilizamos o termo priso'. Os maus elementos so ocupados em tarefas produtivas." Os Khmers Vermelhos orgulham-se disso, enfatizando a dupla ruptura com o passado poltico e com a tradio religiosa, sendo esse castigo diferido que  a deteno confundido com o karma budista, em que a soma de pecados das pessoas s  saldada numa existncia vindoura. Doravante, a sano  imediata190... Existiam no entanto "centros de reeduca-o" (munty operuni), por vezes designados "centros de polcia de distrito". Os antigos crceres de origem colonial, esvaziados como o resto da populao urbana, no foram alis reocupados, salvo em algumas pequenas cidades do interior - em que cerca de 30 detidos eram amontoados em celas concebidas para poucos prisioneiros. Foram com freqncia os antigos estabelecimentos escolares, agora inteis, e por vezes os templos, que os substituram.
	 verdade que estamos muito longe das prises clssicas, at de regime severo. No entanto, nada se faz,  o mnimo que se pode dizer, para facilitar a vida dos detidos, ou pelo menos no sentido da sua sobrevivncia: raes alimentares de fome (por vezes uma caixa de arroz para 40 pessoas),192 nenhum cuidado mdico, uma superlotao fenomenal, um acorrentamento permanente - uma grilheta para as mulheres e para alguns detidos masculinos "fracos", duas para os homens, com os cotovelos por vezes amarrados atrs das costas  a uma barra de ferro coletiva fixada ao cho (khnofi), nada de banheiros e nenhuma possibilidade de se lavarem... Compreende-se que, nessas condies, a esperana mdia de vida do novo detido possa ser avaliada em trs meses e que os sobreviventes sejam escassos. J93 Um dos que o conseguiram evoca favoravelmente o seu local de deteno, na zona Oeste: "L s matavam cerca de metade dos prisioneiros, talvez ainda menos." Teve sem dvida a "sorte" de ser preso no final de 1975, numa ocasio em que ainda no era inconcebvel ser libertado, tal como acontecera antes de 17 de abril: at 1976, de 20% a 30% dos prisioneiros foram postos em liberdade.  que, por vezes, levava-se a srio a funo reeducativa (que passava principalmente por um trabalho esgotante), cerne do modelo prisional sino-vietnamita: funcionrios do Antigo Regime, assim como soldados, tinham algumas possibilidades de serem libertados na condio de terem um bom comportamento e de trabalharem duramente, e isso ainda era verdade no incio das deportaes. A antiga terminologia foi depois preservada (assim, o aprisionamento  com freqncia disfarado de convocao para uma "sesso de estudos"  o termo "khmer"  decalcado do chins xuexi), embora esvaziada de todo o significado. O fato de o elemento pedaggico ter desaparecido completamente (exce-to talvez no campo de Bung Tra Bek  para cambojanos recm-chegados do estrangeiro, na sua maioria estudantes  descrito por Y Phandara) , por exemplo, indicado pela nota de uma direo local que mandava encarcerar as crianas com as respectivas mes, qualquer que fosse a sua idade, "de modo a desembaraarmo-nos de todos de uma s vez". Nesse caso, trata-se de concretizar o slogan: "Quando se arranca uma erva,  necessrio extirpar todas as razes", ele prprio uma verso radical da "hereditariedade de classe" to cara aos maostas extremistas. O destino dessas crianas, abandonadas a si mesmas, no exatamente presas, mas sem ningum para tomar conta delas, foi especialmente doloroso; pior ainda foi o caso dos "delinquentes", muito jovens, encarcerados sem consideraes de idade mnima.

	Crianas numa priso de distrito

	O que mais nos comovia era a sorte de 20 crianas, sobretudo filhos de pessoas deportadas depois de 17 de abril de 1975. Essas crianas roubaram porque
tinham muita fome. Estavam presas no para serem punidas, mas para serem mortas de uma forma particularmente selvagem:
	 os guardas de priso batiam-lhes ou chutavam-nas at  morte;
	- faziam delas brinquedos vivos; amarravam-nas pelos ps, penduravam-nas no teto, balanavam-nas, e depois tentavam estabiliz-las com chutes;
	 perto da priso havia um pntano; os carrascos atiravam para l os pequenos prisioneiros, empurravam-nos para o fundo com os ps, e quando os desgraados eram atacados por convulses, deixavam a cabea emergir, para recomearem de imediato a mergulh-los  fora na gua.
	Ns, os outros prisioneiros e eu prprio, chorvamos em segredo a sorte dessas pobres crianas que tinham abandonado esse mundo de um modo to atroz. Havia oito carrascos guardas de priso. Bun, o chefe, e Ln (s retenho na memria esses dois nomes) eram os mais selvagens, mas todos participaram nessa tarefa ignbil, todos rivalizaram em crueldade para fazer sofrer os seus compatriotas. 
	A principal clivagem entre os detidos opunha, se assim ousarmos dizer, os condenados a perecer lentamente, e os que seriam executados. Isso dependia sobretudo da razo por que se tinha sido preso: violao de uma proibio, origem social impura, desafeio manifesta face ao regime, incriminao por participao numa "conspirao". Nesses trs ltimos casos, era-se geralmente interrogado, fosse para confessar uma antiga ocupao "de risco", fosse para ser obrigado a reconhecer uma culpa e denunciar cmplices.  mais leve reticncia, recorria-se  tortura, com muito mais freqncia do que em qualquer outro regime comunista; os inquisidores khmers vermelhos deram provas de muita imaginao mrbida e sdica na matria; uma das modalidades mais vulgares parece ter sido a quase-asfixia por saco plstico enfiado na cabea. Muitos prisioneiros, j enfraquecidos, no sobreviviam a essas sesses  sobretudo as mulheres, vtimas das piores atrocidades. O carrascos justificavam a si prprios em nome de uma alegada eficcia da tortura na procura da verdade: num relato de interrogatrio, menciona-se que o detido "foi questionado com calma, sem lhe batermos. Por isso, no podemos saber com certeza se dizia a verdade ou no". Nos casos mais srios, ou quando as "confisses" pareciam especialmente promissoras no que diz respeito a futuras incriminaes, o detido era transferido para o estdio superior do arquiplago prisional: podia-se assim passar do crcere local para o do distrito, e chegar finalmente  priso central de Tuol Sleng. Qualquer que fosse o nvel atingido, a concluso tendia a ser a mesma: o prisioneiro, uma vez estabelecido que no tinha mais "informaes" a comunicar, pressionado a fundo pelos seus inquisidores (o que levava semanas, por vezes meses), podia ento ser "jogado fora"; as execues eram feitas na maior parte das vezes com arma branca, com particularidades locais, como, em Tramkk, o esmagamento do pescoo com uma barra de ferro. Alto-falantes transmitiam uma musica revolucionria bem barulhenta para abafar os gritos de agonia.
	Entre as causas de priso, encontram-se categorias anlogas s que na cooperativa valiam aborrecimentos ou o assassinato, mas no nas mesmas propores. Muitos dos simples ladres vo parar na priso, mas  geralmente necessrio que tenham atuado em larga escala, ou com cmplices. Em compensao, os casos de relaes sexuais fora do casamento so bastante frequentes, e mais ainda os de declaraes "subversivas": denncia de desigualdades de tratamento alimentar, da baixa de nvel de vida ou da submisso  China, dizer-se farto de uma agricultura apresentada como uma ofensiva militar permanente, gracejos sobre o hino da Revoluo, propagao de boatos relativos a guerrilhas anticomunistas, referncias s pregaes budistas que descreviam um mundo onde reina o atesmo, mas que est destinado a desaparecer. Uma mulher (portanto, era "70") quebrou uma colher na cantina, furiosa por ter perdido j quatro filhos devido  fome e por no ter conseguido autorizao para ficar junto do ltimo, moribundo no hospital. Em paralelo com esses "casos polticos", h um grande nmero de "casos sociais": os que ocultaram a sua antiga profisso, ou episdios comprometedores da sua biografia, como uma estada prolongada no Ocidente. A ltima especificidade da populao prisional  a de comportar uma massa no negligencivel (embora muito minoritria) de Antigos, e at de soldados ou funcionrios khmers vermelhos: 10% da amostra (46 processos em 477) na priso de Tramkk. Esses tambm manifestaram o seu cansao ou desertaram, geralmente para ir ver a famlia. Quanto aos quadros de nvel mdio ou superior, eles so na maior parte das vezes diretamente atirados, sob controle do Centro, para a priso de Tuol Sleng.
Sobreviver ao horror
   Pelo crime de falar ingls, fui preso pelos Khmers Vermelhos e levado, de corda no pescoo, mancando e cambaleante, para a priso de Kach Roteh, perto de Battambang. Era apenas o comeo. Fui acorrentado com todos os outros prisioneiros, com ferros que me cortavam a pele. Os meus tornozelos ainda conservam as marcas. Torturaram-me, repetidamente, durante meses. O meu nico alvio era quando desmaiava.
   Todas as noites, os guardas irrompiam nas celas e chamavam os nomes de um, dois ou trs prisioneiros. Levavam-nos, e no voltvamos a v-los - eram assassinados por ordem dos Khmers Vermelhos. Que eu saiba, sou um dos rarssi-mos prisioneiros a ter sobrevivido em Kach Roteh, um verdadeiro campo de tortura e de extermnio. S sobrevivi graas ao meu jeito para contar as fbulas de Esopo e contos khmers clssicos sobre animais aos adolescentes e s crianas que eram os nossos guardas. 
	A visita a esse antigo colgio, conhecido no organograma do PCK pelo cdigo S-21, provoca a sensao de tocar o fundo do horror. Trata-se, no entanto, de apenas mais um centro de deteno entre centenas de outros e, apesar das suas quase 20.000 vtimas, no era necessariamente o mais mortfero: as condies de encarceramento, certamente terrveis, no eram piores do que noutros lugares. Isso significa que apenas cerca de 2% dos assassinados, talvez 5% dos presos, passaram por Tuol Sleng, o que nada tem a ver com a centralidade de um Auschwitz no sistema concentracionrio nazista. No havia um modo de tortura verdadeiramente especfico, a no ser o uso corrente da eletricidade. As duas particularidades residem no carter de "priso do Comit Central", para onde so levados sobretudo quadros e dirigentes cados em desgraa, e de "buraco negro", do qual, em princpio, no se pode sair vivo: somente seis ou sete detidos escaparam  morte. A ltima particularidade provm da nossa informao: um registro completo das entradas, de 1975 at meados de 1978 (14.000 nomes); e sobretudo vrios milhares de confisses pormenorizadas e de relatos de interrogatrios, entre os quais alguns se referem a grandes do regime.
	Cerca de quatro quintos dos detidos eram Khmers Vermelhos, embora operrios e tcnicos, especialmente de origem chinesa, que tinham para l sido enviados em 1978, assim como alguns estrangeiros (marinheiros, na rnaior parte das vezes) que tinham tido o azar de cair nas mos do regime. Havia permanentemente entre mil e 1.500 detidos, mas o turnovereta. macio, o que  comprovado pelos registros de entrada (que so aproximadamente equivalentes ao nmero de vtimas do ano), em aumento constante: apenas 200 em 1975, 2.250 em 1976, 6.330 em 1977 e 5.765 s no primeiro semestre de 1978. Os inquisidores enfrentavam um cruel dilema: "Consideramos a tortura absolutamente necessria", l-se num dos seus livros de notas, mas, por outro lado, ela provoca a morte dos internados demasiado cedo, sem que tenham "confessado" o suficiente: isto representa, portanto, uma "derrota para o Partido". E da essa incongruncia: um mnimo de presena mdica num local onde todos tm morte certa. Certos detidos representavam casos mais fceis: as mulheres e filhos de prisioneiros (muitas vezes j executados), dos quais se desembaraavam rapidamente em datas certas. Assim, em l? de julho de 1977, 114 mulheres (das quais 90 eram esposas de torturados) foram assassinadas; no dia seguinte, foi a vez de 31 filhos e 43 filhas de detidos; 15 haviam sido previamente arrancados de um centro de infncia. O mximo dirio de execues foi atingido por altura da proclamao da existncia do PCK: 418, em 15 de outubro de 1977. Estima-se que cerca de 1.200 crianas foram assassinadas no S-21. 

	As razes da loucura

	Tal como em relao aos outros crimes em massa deste sculo, o excesso da monstruosidade cria a tentao de procurar a sua ultima ratio na loucura de um homem, ou no fascnio obtuso de um povo. No est em causa atenuar a responsabilidade de um Pol Pot; mas nem a histria nacional camboja-na, nem o comunismo internacional, nem a influncia de certos pases (a comear pela China) deveriam ficar isentos de responsabilidades: quintessn-cia do que de pior podiam produzir, a ditadura dos Khmers Vermelhos est no ponto de encontro dessas trs dimenses e, ao mesmo tempo, situada num contexto geogrfico e temporal preciso.

	Uma exceo khmer?

	"A revoluo khmer no tem precedentes. O que tentamos fazer nunca foi conseguido na histria passada." Os prprios Khmers Vermelhos, logo que se emanciparam dos seus protetores vietnamitas, insistiram constantemente na unicidade da sua experincia. Os seus discursos oficiais quase nunca fazem referncia ao estrangeiro, a no ser de forma negativa, e praticamente no citam os pais fundadores do marxismo-leninismo, ou mesmo Mao Zedong. O seu nacionalismo tem, em larga medida, o estranho mofo do que foi desenvolvido pelos seus antecessores, Sihanuk ou Lon Nol: a mistura de um dolorismo extremo e de pretenso desmedida; um pas-vtima, permanentemente oprimido por vizinhos prfidos, cruis, obstinados em derrot-los como se a sua prpria sobrevivncia disso dependesse, e entre eles, na primeira fila, o Vietn; um pas-de-abundncia, abenoado pelos deuses, com um passado prodigioso, com um povo sem igual, que teria vocao para se juntar  vanguarda do planeta, se ao menos... O triunfalismo no conhecia limites: "Estamos em vias de fazer uma revoluo nica. Conhece algum pas que ouse, como ns, suprimir o mercado e a moeda? Ns batemos de longe os chineses, que nos admiram. Eles tentam imitar-nos, mas ainda no o conseguiram. Seremos um bom modelo para o mundo inteiro - tal  o discurso de um intelectual pertencente aos quadros do Partido que viajou pelo estrangeiro. Mesmo depois de ter sido afastado do poder, Pol Pot continuou a considerar que o 17 de abril de 1975 foi o maior acontecimento revolucionrio da Histria, "com exceo da Comuna de Paris, em 1871".
	Ora a realidade, tristemente prosaica,  a de um pequeno pas h muito fechado sobre si mesmo, mantido pelo protetorado francs na posio de um amvel conservatrio de interessantes tradies, em que as diferentes classes em luta quase incessante pelo poder nunca recuaram diante do apelo  interveno estrangeira a seu favor, e no qual ningum parece ter se colocado seriamente a questo do desenvolvimento econmico: poucas empresas, classes mdias pouco significativas, poucos tcnicos, uma agricultura de subsistncia com um peso esmagador. Em suma, o "homem doente" por excelncia do Sudeste Asitico. Mas o irrealismo extremo favorece solues extremas; a combinao de uma desconfiana quase paranica em relao a terceiros e de um exagero megalmano das suas prprias capacidades propicia o voluntaris-mo e o isolamento; a fraqueza da economia e a pobreza da maioria dos habitantes reforam a atrao por aqueles que se apresentam como promotores de um possvel progresso. O Camboja era portanto um "elo fraco", tanto econmica como politicamente; a conjuntura poltica internacional, e mais particularmente a guerra do Vietn, fizeram o resto. Em relao  selvageria dos Khmers Vermelhos, ela teria a sua origem na contradio no assumida entre as ambies desmedidas e o peso das limitaes.
	Alguns autores consideram igualmente que certas caractersticas da nao cambojana podem ter favorecido a ao homicida dos Khmers Vermelhos.  o caso do budismo, com um papel todavia ambguo: a sua indiferena diante dos contrastes sociais e a transferncia para a existncia futura da retribuio dos mritos e demritos da vida presente contrastam perigosamente com a viso revolucionria. Mas o seu antiindividualismo corresponde bem  eliminao do "eu" pelos Khmers Vermelhos. O limitado valor de uma existncia, no meio do turbilho das reencarnaes, e o fatalismo que da decorre em face do destino inevitvel, minimizaram a resistncia dos crentes diante dos abusos do poder.
	Em Haing Ngor, muito combalida  sada da priso, uma velha acaba por dizer o que toda a gente pensa:
	"Samnang, talvez voc tenha feito algo de muito errado na sua vida anterior. Talvez esteja a ser castigado por isso.
- Sim, deve ser isso. Creio que o meu kama no est muito, muito
	O budismo,  certo que fortemente reprimido, no se constituiu em todo o caso como esse ncleo de resistncia aos Khmers Vermelhos que o isl foi para os Cham.
	O presente leva muitas vezes a rever o passado. No tanto para mudar os fatos estabelecidos, " norte-coreana" se quisermos, mas para lhes modificar a hierarquia e a interpretao. O aparentemente pacfico Camboja de Sihanuk, de h muito ilhota de neutralidade no meio das guerras indo-chine-sas, tinha levado a que se desse destaque ao "sorriso khmer" - o das apsars dos relevos angkorianos, dos monarcas bonaches, dos camponeses pequenos proprietrios recolhendo sem esforos desmedidos o paddy do arrozal, o peixe do lago e o acar da palmeira. A fria das trs ltimas dcadas chama a ateno para dimenses mais sombrias. Angkor tem um indiscutvel esplendor, mas os seus quilmetros de baixos-relevos representam majoritariamente cenas guerreiras. Os gigantescos edifcios e os ainda mais gigantescos reservatrios de gua (baray) exigiram deportaes e escravizaes em massa.
	Existem muito poucos documentos escritos relativos ao perodo angko-riano (sculos VHI-XIV), mas todas as monarquias indo-budistas do Sudeste Asitico peninsular (Tailndia, Laos, Birmnia...) foram constitudas segundo o seu modelo. A sua histria cheia de violncia assemelha-se  do Camboja; em toda essa regio as concubinas repudiadas eram levadas para serem pisoteadas por elefantes, ou inaugurava-se um reinado de massacres comeando por aquele de sua prpria famlia, e as populaes vencidas eram deportadas em massa para as zonas desrticas. O absolutismo est fortemente enraizado nessas sociedades, e qualquer contestao  assumida como um sacrilgio. O dspota iluminado no abusa disso: as estruturas administrativas, particularmente fracas, conduziriam rapidamente a uma situao de ruptura. Porm, a capacidade de aceitao por parte das populaes  bastante elevada: ao contrrio do que acontece no mundo chins, as revoltas antimonrquicas so raras, e a fuga para outros Estados (nunca muito distantes) ou para regies mais longnquas era a salvao mais procurada.
	O reinado de Sihanuk (desde 1941, embora o protetorado francs tenha durado at 1953) pode deixar uma recordao quase idlica em comparao com o que se seguiu a sua derrubada, em maro de 1970. O prncipe no recuou, no entanto, diante de um amplo uso da violncia, particularmente contra a oposio de esquerda. Em 1959-1960, inquieto com a popularidade crescente de uma esquerda comunista que criticava a corrupo do poder, ordenou ou consentiu o assassinato do redator-chefe do jornal Pracheachun (O Povo), depois mandou espancar em plena rua o diretor da revista bissema-nal francesa, L'Observateur (uma das maiores tiragens do pas), o futuro dirigente khmer vermelho Khieu Samphan; contam-se, em agosto de 1960, 18 prises, e os principais rgos da esquerda so proibidos. Em 1962, em condies ainda misteriosas,  com certeza a polcia secreta quem assassina o secretrio-geral do PCK clandestino, Tou Samouth  facilitando o acesso  respectiva direo de Saloth Sar. Em 1967, a revolta de Samlaut e a influncia da Revoluo Cultural em certas escolas chinesas provocam uma represso mais dura do que nunca, responsvel por vrias mortes: os ltimos comunistas que atuavam  luz do dia e uma centena de simpatizantes intelectuais reforam as primeiras guerrilhas khmers vermelhas. Assim, devemos seguir ento Henri Locard, quando escreve: "A violncia polpotista nasceu da brutalidade dos sihanukistas"? Sim, ao nvel da cronologia: o autocrata principesco e, depois de 1970, o marechal iluminado tornaram impotentes os que criticavam os seus ineptos regimes; mas, ao fazer isso, eles permitiram que o PCK passasse a subsistir como uma oposio credvel. No, no plano da genealogia: os fundamentos ideolgicos e os objetivos ltimos da ao dos Khmers Vermelhos no so reativos, antes retomam exatamente a "grande tradio", sada do leninismo e passada atravs dos sucessivos crivos de Stalin, Mao Zedong e Ho Chi Minh. A calamitosa evoluo do Camboja aps a independncia, e depois o seu envolvimento na guerra facilitaram a tomada do poder pelos extremistas do PCK e legitimaram o recurso a uma violncia inimaginvel; entretanto, nenhuma circunstncia externa explica o radicalismo em si mesmo.
1975: Umafratura radical
	No caso da revoluo cambojana,  mais fcil enunciar o que ela recusa do que dizer o que prope.  verdade que ela corresponde a uma vontade de vingana, e por a encontrou inegavelmente o essencial da sua base social, posteriormente desmobilizada pela coletivizao radical. Vingana dos camponeses contra os citadinos: os Antigos apoderam-se rapidamente dos bens dos Novos, seja atuando no mercado negro, seja, muito simplesmente, roubando-os das suas bagagens. Vingana, dentro do prprio povoado, dos camponeses mais pobres contra os "capitalistas" locais (entenda-se: aqueles que tm qualquer coisa para comercializar, ou empregam alguma mo-de-obra). Mas a vingana  tambm, e talvez sobretudo, interindividual, subvertendo as antigas hierarquias profissionais, familiares, etc. Os testemunhos insistem na surpreendente promoo aos postos de responsabilidade locais dos marginais do povoado, alcolatras, por exemplo: "Estes homens, reabilitados pela Angkar, investidos em funes de comando, eram capazes de matar os seus compatriotas sem remorsos, sem escrpulos." Haing Ngor v aqui a santificao poltica do que considera o mais vil da alma khmer: o kum, rancor assassino contra o qual o tempo nada pode. Entre aqueles de que tinha mais razo de se queixar, havia uma tia sua, que ficara no povoado familiar e que anteriormente se vira obrigada a pedir auxlio aos seus parentes urbanos; e um simples enfermeiro que ele conhecera quando era mdico de um hospital, que, embora fosse Novo, procurou fazer com que ele fosse condenado  morte, e acabou sendo promovido a chefe de equipe de trabalho, invertendo assim radicalmente a hierarquia que tivera de suportar. So todas as tenses da sociedade cambojana, das quais apenas algumas podem ser classificadas como "sociais" stricto sensu, que, desse modo, explodem.
	Inverso dos valores: empregos antes desprezados, como cozinheiro (ou at varredor da cantina) ou pescador, passaram a ser os mais procurados, porque permitiam fceis desvios de alimentos. Pelo contrrio, os diplomas nada mais so do que "papelada intil", e os que tentam ainda fazer-se valer deles tm de ter muito cuidado. A humildade tornou-se uma virtude cardeal: entre os quadros que regressaram ao pas, "a tarefa mais procurada foi estranhamente a limpeza dos sanitrios [...] vencer a sua repugnncia era uma prova de transformao ideolgica". A Angkar pretendia captar e monopolizar os laos de afeio familiares: as pessoas dirigiam-se a ela publicamente utilizando a designao coletiva de "pais-mes" (o que mantm a confuso entre o Partido-Estado e o conjunto da populao adulta, fenmeno caracterstico do comunismo asitico); e o perodo revolucionrio ps-1975 foi designado com o termo samay pouk-m ("era pais-mes"); os chefes militares eram tratados por "avs". O medo e o dio  cidade eram extremos: cosmopolita, dedicada exclusivamente ao consumo e ao prazer, Phnom Penh  para os Khmers Vermelhos "a grande prostituta do Mekong". Uma das justificaes dadas para a evacuao da capital foi a de que "um plano secreto poltico-militar da CIA americana e do regime de Lon Nol" previa em particular "corromper os nossos combatentes e enfraquecer o seu esprito combativo atravs das mulheres, do lcool e do dinheiro" depois da "libertao".
	Mais do que os prprios chineses, os revolucionrios do Camboja levavam a srio o famoso adgio de Mo: "E numa folha em branco que se escreve o mais belo dos poemas." Foi conveniente a todos se libertarem de tudo o que excedesse aquilo que se encontra num campons pobre: os cambojanos que regressavam ao pas tiveram de renunciar a quase todas as suas bagagens, incluindo os livros. Os escritos em "lngua imperialista"  francs ou ingls , bem como os escritos em khmer ("relquias da cultura feudal") estavam destinados  destruio; durante uma dezena de anos, Haing Ngor ouviu os soldados khmers vermelhos dizerem: "Agora, nada de livros capitalistas! Os livros estrangeiros so instrumentos do Antigo Regime que traiu o pas. Por que  que voc tem livros? Voc  agente da CIA? Nada de livros estrangeiros sob o regime da Angkar." Convinha tambm queimar diplomas, assim como bilhetes de identidade, e at lbuns de fotografias: a revoluo  o recomeo a partir do zero. Muito logicamente, eram as pessoas sem passado que se encontravam favorecidas: "S o beb recm-nascido no tem mancha", garantia um slogan. A educao foi reduzida  sua expresso mais simples: ou seja, nenhuma escola ou, na maior parte dos casos, alguns cursos de leitura, de escrita e sobretudo de cnticos revolucionrios, entre os 5 e os 9 anos, habitualmente no mais de uma hora diria; os prprios professores eram muitas vezes fracamente alfabetizados. A nica coisa que contava era o saber prtico: longe da intil cultura livresca, "as nossas crianas das zonas rurais sempre tiveram conhecimentos muito teis. Sabem diferenar a vaca calma da nervosa. Sabem aguentar-se sobre um bfalo nos dois sentidos. So os senhores do rebanho. Praticamente, tornaram-se senhores da natureza. Conhecem as variedades de arroz como as suas mos. [...] Conhecem e compreendem verdadeiramente [...] esse tipo de saber est muito adaptado  realidade da nao".
	Pol Pot, ou as crianas no poder... Todos os testemunhos confirmam a extrema juventude de uma grande parte dos soldados khmers vermelhos. So recrutados aos 12 anos, por vezes menos - Sihanuk teve pr-adolescentes entre os seus guardas, que se distraam torturando gatos. Ly Heng evoca a ltima campanha de recrutamento, estendida aos Novos, pouco antes da chegada dos vietnamitas: dirigia-se tanto aos rapazes como s moas, entre os 13 e os 18 anos; diante do pouco sucesso da convocao de voluntrios, brigadas mveis de jovens foram obrigadas a passar dos estaleiros para o exrcito. Os jovens recrutas perdiam todos os contatos com a famlia, e geralmente com o povoado natal. Vivendo nos acampamentos, relativamente afastados da populao que os temia e evitava, honrados pelo poder, eles se achavam todo-poderosos, e muito menos ameaados pelos expurgos do que os quadros. Para l do palavreado revolucionrio, a motivao de muitos, confessada at por alguns fugitivos, era "no precisar trabalhar e poder matar pes-soas". Os que tinham menos de 15 anos eram os mais temveis: "Eles eram recrutados muito novos, e s lhes era ensinada a disciplina. Simplesmente obedecer s ordens, sem necessidade de justificao [...] No acreditavam nem na religio nem na tradio, mas apenas nas ordens dos Khmers Vermelhos. Era por isso que matavam o seu prprio povo, bebs inclusive, como se matam mosquitos.
	Os soldados foram, at 1978, exclusivamente "70". Os filhos dos "75", esses eram frequentemente usados desde os 8 ou 9 anos como espies; no entanto, o grau de adeso ao regime era to fraco, que se instalou muitas vezes uma forma de cumplicidade tcita entre eles e os espionados, sempre arranjando-se uma maneira de avis-los discretamente da sua presena. Um pouco mais velhos, aps os expurgos em massa de quadros locais, eles se tornaram muitas vezes "crianas milicianas", suplentes dos novos chefes de cooperativas, encarregados de localizar, prender e espancar os culpados de auto-alimenta-o. A experincia de Laurence Picq, no Centro, mostra que, com o tempo, a "ditadura infantil" estava destinada a uma extenso de sua atuao ao domnio do enquadramento civil. Picq descreve a "formao" acelerada de um contingente de crianas dos campos:
	"Explicaram-lhes que a primeira gerao de quadros tinha trado e que a segunda no era melhor do que a primeira. Por isso, eles seriam chamados a substitu-la muito rapidamente [...].
	"Foi entre essa nova gerao que apareceram as crianas-mdicos. Elas eram seis meninas de 9 a 13 anos. Mal sabiam ler, mas o Partido confiou a cada uma delas uma caixa de seringas. Estavam encarregadas de dar as injees.
	"- As nossas crianas-mdicos - eles nos diziam - so oriundas do campesinato. Elas esto prontas a servir a sua classe. So notavelmente inteligentes.  s dizer-lhes que a caixa vermelha contm vitaminas, e elas se lembraro. Mostrem-lhes como se esteriliza uma seringa, e elas sabero faz-lo!
	"Essas crianas eram puras, incontestavelmente, mas ningum contara com a embriaguez que proporciona o saber dar uma injeo! Muito rapidamente, as crianas-mdicos mostraram-se de uma arrogncia e de uma insolncia sem precedentes."
	A ruptura resulta ainda da supresso da religio, e do extremo moralis-mo imposto em todos os domnios da vida quotidiana. Deixou de haver lugar, como vimos, para os "anormais" de todos os gneros, inclusive para os doentes crnicos, os loucos, os deficientes. Mas o sistema acaba por entrar em contradio com o projeto oficial de uma nao poderosa e numerosa: os constrangimentos impostos  sexualidade e ao casamento, e, mais ainda, a subali-mentao permanente destroem at o desejo240 e provocam a queda da natalidade, de 30 a cada mil habitantes em 1970 para (provavelmente) lia cada mil em 1978.
	Nada deve existir que se oponha, voluntria ou involuntariamente,  vontade do PCK.  menor das suas decises liga-se o dogma da infalibilidade. Temvel constrangimento para aquele que foi preso: como na China,  a que se encontra a "prova" de que  culpado, vindo as confisses posteriores apenas sobrelegitimar a ao decidida pela Angkar.  o caso de um prisioneiro de 1972: aps dois anos de interrogatrios, acabou por se livrar da acusao de ser um militar republicano; foi ento libertado, aps uma reunio de propaganda na qual se louvou a bondade da Angkar, que, "embora ele seja um oficial de Lon Nol", queria ter em conta a sua honestidade e a sua sinceridade. E isso se passava antes de todo o processo se degringolar depois de 17 de abril... A arbitrariedade  total: o Partido no tem de justificar as suas escolhas polticas, nem a seleo dos quadros, nem as suas mudanas, quer de orientao, quer de pessoal: ai daquele que no compreendeu a tempo que os vietnamitas eram inimigos, ou que tal lder histrico do movimento era de fato um agente da CIA!  do ngulo da traio, ou da sabotagem conduzida pelas antigas classes exploradoras e os respectivos aliados, que Pol Pot e os seus correligionrios analisam os fracassos (econmicos, e frequentemente militares) cada vez mais patentes do regime: da o exagero das medidas terroristas.

	O mundo novo

	"No Kampuchea Democrtico, sob o regime glorioso da Angkar, devemos pensar no futuro. O passado est enterrado, os 'novos' devem esquecer o conhaque, as roupas caras e os cortes de cabelo de acordo com a moda. [...] No temos necessidade da tecnologia dos capitalistas, de modo nenhum! No novo sistema, no h necessidade de enviar as crianas  escola. A nossa escola  o campo. A terra  o nosso papel, o arado a nossa caneta: escreveremos com nosso trabalho! Os certificados e os exames so imiteis; saibam trabalhar e saibam abrir os canais: eis os novos diplomas de vocs! E, quanto aos mdicos, tampouco precisamos deles! Se algum necessitar que lhe retirem os intestinos, eu prprio me encarregarei disso!"
	Fez o gesto de eventrar algum com uma faca, para o caso de algum de ns no ter percebido a aluso.
	"Como vocs vem,  fcil, no  necessrio ir  escola para isso! Tambm no necessitamos de profisses capitalistas como os engenheiros e os professores! No precisamos de professores em escolas para nos dizer o que  preciso fazer; eles so todos corruptos. Necessitamos simplesmente de pessoas que queiram trabalhar nos campos! No entanto, camaradas... h pessoas que recusam o trabalho e o sacrifcio... H agitadores que no possuem a boa mentalidade revolucionria... Esses, camaradas, so os nossos inimigos! E alguns deles encontram-se aqui mesmo, esta noite!"
	A assistncia foi invadida por um sentimento de mal-estar que se traduziu em diversos movimentos. O Khmer Vermelho prosseguia, olhando para cada rosto  sua frente.
	"Essas pessoas no largam a velha maneira de pensar capitalista! Podemos reconhec-las: vejo entre ns quem ainda usa culos! E usam culos por qu? Ser que no podem ver-me se eu lhes der uma bofetada?"
Avanou bruscamente para ns, de mo erguida:
	"Ah! Eles fogem com a cabea. Portanto, podem ver-me; portanto, no tm necessidade de culos! Usam culos para seguir a moda capitalista, julgando que isso os torna belos! Ns no temos necessidade disso: aqueles que desejam ser belos so preguiosos e exploradores que sugam a energia do povo!"
	Sucederam-se discursos e danas durante horas. Finalmente, todos os quadros se alinharam gritando a uma s voz: "O-SANGUE-VINGA-OSANGUE!" Ao pronunciar a palavra "sangue", batiam no peito cora o punho; ao gritar "vinga", saudavam de brao estendido e punho cerrado. "O-SANGUE-VINGA-O-SANGUE! O-SAN-GUE-VINGA-O-SANGUE!"
	Com expresses tensas, cheias de uma determinao selvagem, gritavam os slogans AO ritmo das pancadas no peito, terminando essa assustadora demonstrao com um vibrante: "Longa vida  revoluo cambojana!" 

	Nesse sistema pobre tanto em realizaes como em representaes, incapaz de ir alm da sua origem guerreira, o dio era objeto de um verdadeiro culto, que se exprimia atravs de uma mrbida obsesso de sangue.
	A primeira estrofe do hino nacional, A Brilhante Vitria do 17 de abril, , desse ponto de vista, significativa:

       Sangue escarlate que inunda a cidade e o campo da ptria
       kampucheana,
       Sangue dos nossos esplndidos operrios-camponeses,
       Sangue que se agitou em terrvel clera, em luta obstinada,
       Em 17 de abril, sob o estandarte da Revoluo
       Sangue libertador da escravatura, Viva, viva a brilhante vitria do 17 de abril! Grandiosa vitria, mais importante do que a poca de de Angkor!
       
       E Pol Pot comenta:
	"Como sabem, o nosso hino nacional no foi composto por um poeta. A sua essncia  o sangue do nosso povo inteiro, de todos aqueles que pereceram nos sculos passados. Esse chamamento do sangue foi incorporado ao nosso hino nacional."
	At uma cantiga de embalar termina com "Nunca deves esquecer a vingana de classe."

	Um marxismo-leninismo paroxstico

	A experincia khmer vermelha, excepcionalmente mortfera, suscita, como a Shoah, a tentao de se insistir na sua unicidade. Os outros regimes comunistas e os respectivos defensores, na sua grande maioria, acertaram o passo: a tirania polpotista seria ou um desvio ultra-esquerdista, ou, melhor, um "fascismo vermelho", simplesmente disfarado de comunismo. E, no entanto, com o distanciamento,  claro que o PCK no poder pertencia indiscutivelmente  "grande famlia"; as particularidades do caso cambojano so importantes, mas a Albnia tambm no foi a Polnia... Tudo somado, o comunismo cambojano est mais prximo do chins do que o chins do sovitico.
	Salientaram-se as vrias influncias possveis sobre os Khmers Vermelhos. A anlise da "pista francesa" impe-se: quase todos os dirigentes khmers vermelhos estudaram na Frana, e a maioria aderiu ao PCF, inclusive o futuro Pol Pot. Um certo nmero das suas referncias histricas provm dessa formao: Suong Sikoeun, adjunto de leng Sary, garante: "Fui muito influenciado pela Revoluo Francesa, e particularmente por Robespierre. Da, foi um passo para me tornar comunista. Robespierre  o meu heri. Robespierre e Pol Pot: os dois homens tm as mesmas qualidades de determinao e de integridade." Alm desse exemplo de intransigncia,  todavia difcil encontrar algo de significativo, na prtica ou no discurso do PCK, que tenha a sua origem claramente na Frana, ou no comunismo francs. Os dirigentes khmers vermelhos eram muito mais prticos do que tericos: so as experincias de "socialismo real" que os apaixonam verdadeiramente.
	Essa paixo teve momentaneamente por objeto o Vietn do Norte. Esse pas foi, muito mais do que o PCF, o padrinho do comunismo cambojano, e depois participou intimamente nas suas orientaes at cerca de 1973. O PCK , inicialmente, apenas uma das sees do Partido Comunista Indo-chins (PCI), no qual a hegemonia vietnamita  total, e que foi desmembrado em trs ramos nacionais (sem no entanto desaparecer) simplesmente pela vontade dos camaradas de Ho Chi Minh, em 1951. At ao princpio da guerra, o PCK parece no se beneficiar de qualquer autonomia em relao ao PCV, seja nos planos programtico, estratgico (o legalismo ou as aes armadas dos comunistas cambojanos so, antes de mais, meios para pressionar Sihanuk no contexto da guerra do Vietn^o), seja no plano ttico (armamento, enquadramento, logstica). Mesmo aps o golpe de Estado, so os vietnamitas que constituem os quadros da administrao revolucionria das "zonas libertadas" e os novos recrutas cambojanos. O abismo s comea a crescer aps os acordos de Paris, em janeiro de 1973: a estratgia de Hani empurrava o PCK para a mesa das negociaes, mas isso teria dado o papel principal a Sihanuk e arriscava-se a revelar a fraqueza organizacional dos Khmers Vermelhos. Por isso, pela primeira vez, recusaram-se a ser manipulados: a partir de ento, eles possuam os meios para faz-lo.
	Que marca especfica deixou o comunismo vietnamita no PCK? A resposta no  fcil: a grande maioria dos mtodos do PCV vem da China. Visto de Phnom Penh, como distinguir o que chega diretamente de Pequim do que transitou por Hani? Algumas caractersticas dos Khmers Vermelhos lembram todavia fortemente o Vietn. Primeiro, a obsesso pelo secreto e pela dissimulao: Ho Chi Minh apareceu em 1945 sem se referir ao seu rico passado de quadro da Internacional Comunista sob o nome de Nguyen Ai Quoc; perodos inteiros da sua carreira s comearam a ser conhecidos depois da abertura dos arquivos soviticos. O PCI declarou a sua autodissoluo a favor do Vietminh em novembro de 1945, reconstituiu-se em 1951 com o nome de Partido dos Trabalhadores do Vietn, e s retomou a etiqueta comunista em 1976; no Vietn do Sul, o Partido Popular Revolucionrio era apenas um dos componentes da Frente Nacional de Libertao. E, todavia, todas essas organizaes foram de fato dirigidas com pulso de ferro pelo mesmo pequeno grupo de veteranos comunistas. Nas metamorfoses da vida de Pol Pot (incluindo, aps a derrota de 1979, os anncios da sua "retirada", e, depois, da sua "morte"), no jogo entre a Angkar e o PCK, na opacidade da direo, podem-se ler fenmenos semelhantes, e no igualados em outros pontos do mundo comunista.
	Segundo trao comum, na realidade complementar do primeiro: o aproveitamento excepcionalmente longo da frente unida. Em 1945, o ex-imperador Bao Dai foi episodicamente conselheiro de Ho Chi Minh, que soube ele prprio conseguir o apoio dos americanos e decalcou a sua Declarao de Independncia na dos Estados Unidos; os Khmers Vermelhos eram parte ativa, em 1970, de um governo real de unio nacional, e retomaram esse tipo de estratgia aps a sua derrubada. Nem o Vietminh nem a Angkar fizeram referncia ao marxismo-leninismo e jogaram sem complexos com o nacionalismo, ao ponto de esse acabar por impor-se como dimenso autnoma e central. Finalmente, distingue-se nesses comunismos de guerra, que aparentemente s podem ser desenvolvidos no contexto de um conflito armado, uma forte tendncia militarista, em que o exrcito constitui a coluna vertebral e at a razo de ser do regime, ao mesmo tempo que proporciona um modelo para a mobilizao dos civis, em especial na economia.
	E quanto  Coreia do Norte? A imagem tipicamente coreana do cavalo voador (Chollima)  muitas vezes utilizada para ilustrar o progresso econmico. Pyongyang foi uma das duas capitais estrangeiras visitadas por Pol Pot enquanto chefe do governo, e numerosos tcnicos norte-coreanos ajudaram a repor em ordem a indstria cambojana. Do "kimilsungismo", Pol Pot talvez tenha retido os expurgos permanentes, o controle policial e a espionagem generalizados, assim como um discurso em que a luta de classes tende a passar para segundo plano em benefcio de uma dialtica todo o povo/punhado de traidores; isso significa efetivamente que a totalidade da sociedade pode ser atingida pela represso, e que nenhum grupo social tem vocao para se substituir ao Partido-Estado na conduo dessa mesma sociedade. Estamos aqui muito longe do maosmo, mas, na verdade, muito perto do stalinismo.
	Aps 1973, o PCK procurou mudar de "grande irmo". A China de Mao Zedong impunha-se, quer por motivos de afetividade (o seu radicalismo afirmado), quer por oportunismo (a sua capacidade de fazer presso sobre o Vietn fronteirio). O acolhimento na capital chinesa, em setembro de 1977, do ditador cambojano, quando da sua primeira viagem oficial ao estrangeiro, foi triunfal, e a amizade entre os dois pases era ento qualificada como "indestrutvel", colocando o Camboja na mesma e exclusiva categoria que a Albnia. A partir de maio de 1975, os primeiros tcnicos chineses chegavam a Phnom Penh, e atingiram a cifra de no mnimo quatro mil (15 mil, segundo Ben Kiernan), enquanto a China prometia imediatamente um bilho de dlares em diversos apoios.
	Era ao nvel da reorganizao do pas com base nos campos coletiviza-dos que a experincia chinesa parecia exemplar. A comuna popular, ampla estrutura de diversificadas atividades, autnoma tanto quanto possvel e contexto da mobilizao do trabalho assim como da administrao da populao, foi seguramente o modelo das cooperativas cambojanas. At nos pormenores se encontram as inovaes da China de 1958: as cantinas obrigatrias, a "colocao em comum" das crianas, a coletivizao dos prprios objetos de uso corrente, as grandes obras hidrulicas que absorvem uma enorme parte do trabalho, a concentrao (no fundo contraditria ao prprio projeto) em uma ou duas produes quase exclusivas, os objetivos quantificados totalmente irrealistas, a insistncia na rapidez de realizao, nas possibilidades ilimitadas de uma mo-de-obra corretamente mobilizada... Mao dissera: "Com o gro e o ao, tudo se torna possvel." Os Khmers Vermelhos respondiam: "Se tivermos arroz, temos tudo." Nota-se a ausncia do ao na verso cambojana: o irrea-lismo no ia ao ponto de inventar jazidas de ferro e de carvo, inexistentes no Camboja. Em compensao, ningum teve de dizer a Pol Pot como tinha terminado o Grande Salto chins259 - ou melhor, o problema no era dele. A prpria noo est no centro do discurso dos Khmers Vermelhos. Assim, o hino nacional termina com: "Construamos a nossa ptria para que ela realize um Grande Salto Adiante! Um imenso, um glorioso, um prodigioso Salto Adiante!" 
	O Kampuchea Democrtico foi fiel ao Grande Salto chins para alm de qualquer expectativa: como ele, teve como principal consequncia uma fome imensa e mortfera.
	Em contrapartida, a Revoluo Cultural teve poucos ecos diretos. Como os outros poderes comunistas, o de Phnom Penh tinha verificado at que ponto era arriscado mobilizar "as massas", mesmo enquadradas e severamente controladas, contra este ou aquele setor do partido. Tratava-se, por outro lado, de um movimento fundamentalmente urbano e sado dos estabelecimentos de ensino, sendo, portanto, intransponvel por definio. Encontram-se decerto no Camboja, decuplicados, o antiintelectualismo de 1966 e a negao da cultura simbolizada pelas "peras revolucionrias" de Jiang Qing (copiadas, ao que parece, durante o regime de Pol Pot261); a rura-lizao de milhes de ex-Guardas Vermelhos talvez tenha inspirado o esvaziamento das cidades.
	Tudo se passa como se os Khmers Vermelhos fossem mais inspirados pela teoria, ou melhor ainda, pelos slogans maostas, do que pelas prticas efetivas da RPC. Os campos chineses, focos de revoluo, foram,  certo, o local de exlio de milhes de intelectuais citadinos, sobretudo na esteira da Revoluo Cultural; o regime utiliza ainda hoje meios severos para limitar o xodo rural. Mas as grandes cidades continuaram a desempenhar um papel motor tanto depois como antes de 1949, e os operrios permanentes, em particular, foram os meninos queridos do regime. Nunca o PCC encarou a hiptese de esvaziar completamente as cidades das respectivas populaes, deportar os habitantes de regies inteiras, abolir a moeda ou todo o sistema escolar e perseguir a totalidade dos intelectuais. Mao nunca perdeu uma ocasio de lhes mostrar o seu desprezo, mas, no fundo, no via como passar sem eles. E os Guardas Vermelhos eram frequentemente oriundos de universidades da elite. Khieu Samphan utilizou uma retrica nitidamente maosta quando acolheu desse modo os intelectuais que voltavam ao Camboja para provar a sua fidelidade ao regime: "Vamos dizer isso claramente, no precisamos de vocs, precisamos de pessoas que saibam trabalhar a terra, e  tudo. [...] Aquele que est politizado, que assimilou bem o regime, pode fazer o que quer que seja, a tcnica vem depois [...]; no necessitamos de engenheiros para cultivar o arroz, plantar o milho ou criar porcos." Entretanto, nunca na China uma tal negao de qualquer especializao se tornou poltica consentida... Alm disso, por uma espcie de isostasia, cada guinada para um extremismo utopista, cada onda repressiva conduzia muito rapidamente, no "pas do Centro", a um regresso a mtodos e a princpios mais "normais", sendo tal iniciativa proveniente do prprio interior do Partido Comunista: foi inegavelmente o que assegurou a durabilidade do regime, enquanto o PCK se esvaziou da sua substncia.
	No que diz respeito a modalidades da represso, finalmente, encontram-se as mesmas contradies. A inspirao global  incontestavelmente chinesa (ou sino-vietnamita): sesses constantes e interminveis onde crticas e autocrticas so obrigatrias, numa vaga perspectiva educativa, ou reeduca-tiva; reexame da biografia e "confisses" escritas sucessivas; "registro social" (o nascimento, a profisso) determinando o "registro poltico", que por sua vez define o registro criminal, e hereditarizao/familiarizao cada vez mais acentuada do conjunto. Finalmente, tal como por toda a sia, a intensidade da participao e de adeso polticas exigidas tende a abolir a dicotomia Partido-Estado/sociedade, numa perspectiva obviamente totalitria.
	As especificidades cambojanas so, no entanto, considerveis, e todas vo no sentido de um agravamento relativamente ao prottipo. A principal diferena reside em que, pelo menos at aos anos 60,263 os comunistas chineses e vietnamitas levaram a reeducao a srio: foram feitos muitos esforos para convencer os presos da justeza da atitude do Partido a seu respeito, e isso implicava que fossem praticamente banidos os maus-tratos ou a tortura: j no Camboja, estes ltimos foram sistemticos. Era necessrio tambm que, por mais hipottico que fosse, um "bom comportamento" outorgasse ao preso a perspectiva de uma libertao, de uma reabilitao, ou pelo menos de um modo de deteno mais suave: os presos quase nunca foram libertados dos crceres cambojanos, e ali morria-se incrivelmente depressa. Na China ou no Vietn, a represso em massa chegava em ondas, intervaladas com perodos de calmaria; eram visados "gru-pos-alvos" mais ou menos vastos, mas que representavam sempre apenas uma pequena parte da populao  no Camboja, todos os "75", no mnimo, eram considerados suspeitos, e no havia qualquer pausa. Finalmente, no plano das modalidades, do "saber-reprimir", os outros comunismos asiticos do uma impresso, sobretudo no incio, de organizao, de eficcia, de uma relativa coerncia, de uma certa inteligncia (ainda que perversa). No Camboja, a brutalidade patente e a arbitrariedade dominam uma represso de iniciativa largamente local, embora os princpios venham de cima. No se tem notcia, em todo o resto da sia comunista, das ocorrncias de execues e de massacres locais como os cambojanos, com exceo, em certa medida, da China durante a reforma agrria (mas as vtimas foram somente os latifundirios) e no auge da Revoluo Cultural (embora de forma mais pontual, tanto no espao como no tempo). Em resumo, os maostas das margens do Mekong recorreram a um modo de stalinismo primitivo (ou, se preferirmos, degenerado).

	Um tirano exemplar

	A marca pessoal de um Stalin ou de um Mao foi to considervel, que a sua morte imprimiu rapidamente modificaes fundamentais, particularmente no que respeita  represso. Ser legtimo falar-se de polpotismo? O ex-Saloth Sar atravessa de uma ponta  outra a histria do comunismo cam-bojano:  difcil imaginar o que esse teria sido sem ele. Descobrem-se na sua personalidade alguns traos que vo no sentido das derivas mais sangrentas. Para comear, o que fazer com esse passado longnquo, to pouco de acordo com a lenda revolucionria e que ele tudo fez para negar? Ter uma irm e uma prima danarinas e concubinas do rei Monivong, um irmo funcionrio do Palcio at 1975, e ter ele prprio passado uma boa parte da sua infncia no corao de uma monarquia arcaica: no haver em tudo isto razes para que pretenda "desculpar-se" destruindo mais e mais o velho mundo? Pol Pot parece ter mergulhado sempre mais na negao da realidade, talvez por no assumir a da sua prpria histria. Homem do aparelho, desde cedo ambicioso, mais  vontade numa pequena reunio do que perante uma multido, viveu desde 1963 completamente afastado do resto do universo: acampamentos na selva, residncias secretas (ainda hoje ignoradas) numa Phnom Penh deserta. Parece ter cultivado desse modo uma profunda parania: apesar de ser todo-poderoso, aqueles que iam ouvi-lo eram revistados; mudava frequentemente de residncia, suspeitava de que os seus cozinheiros queriam envenen-lo, e mandou executar eletricistas "culpados" de cortes de energia.
	Como interpretar de outra maneira, seno pelas suas obsesses, esse alucinante dilogo com um jornalista da televiso sueca, em agosto de 1978:
	"- Vossa Excelncia quer dizer-nos qual  a realizao mais importante do Kampuchea Democrtico aps trs anos e meio?
	- A realizao mais importante [...]  o fato de ter derrotado todas as conspiraes e atos de ingerncia, de sabotagem, de tentativa de golpe de Estado, e os atos de agresso por parte de inimigos de toda espcie."
Involuntariamente, que confisso de fracasso para o regime!
	O professor sensvel e tmido, amante da poesia francesa e amado pelos seus alunos, o divulgador cativante e caloroso da f revolucionria que todos descrevem, dos anos 50 aos anos 80, era um ser de duas caras: no poder, mandou prender alguns dos seus mais velhos companheiros de revoluo, que se julgavam seus amigos pessoais, no respondeu s suas cartas suplicantes, autorizou a sua tortura "fone" e mandou execut-los;266 diz-se que talvez ele tenha participado do suplcio. O seu "arrependimento" aps a derrota, num seminrio para quadros do Partido, em 1981,  um modelo de hipocrisia:
	"Ele disse saber que numerosos habitantes do pas o odiavam e o consideravam responsvel pelas matanas. Disse saber que muitas pessoas tinham morrido. Ao dizer isto, quase desmaiou e desfez-se em lgrimas. Disse que devia assumir a responsabilidade porque a linha era demasiado  esquerda e que ele no acompanhara de perto o que se passava. Mencionou que era uma situao semelhante  do dono de uma casa que ignorava o que faziam os filhos e que dera demasiada confiana s pessoas. [...] Diziam-lhe coisas que no eram verdadeiras, que tudo ia bem, mas que essa ou aquela pessoa era um traidor. Afinal de contas, os verdadeiros traidores eram eles. O principal problema eram os quadros formados pelos vietnamitas."
	Devemos ento acreditar nesse outro velho companheiro de Pol Pot, o seu ex-cunhado leng Sary, que o acusa de megalomania: "Pol Pot considera-se um gnio incomparvel nos domnios militar e econmico, em higiene, em composio de canes,268 em msica e em dana, em arte culinria, em moda [sic], em tudo, inclusive na arte de mentir. Pol Pot considera-se acima de todas as criaturas do planeta.  um deus na terra?" Temos aqui algo muito prximo de certos retratos de Stalin. Coincidncia?

	O peso da realidade

	Para l da infeliz conscincia da histria nacional, e da influncia dos comunismos no poder, a violncia dos Khmers Vermelhos foi induzida pelo contexto temporal e espacial em que o regime se situava. Produto quase acidental de uma guerra que ultrapassava largamente o Camboja, o regime viu-se, com assombro, fraco e isolado no seu prprio pas logo que foi conseguida a vitria. A hostilidade do Vietn e os sufocantes abraos da China fizeram o resto.
	O 17 de abril chegou muito tarde a um mundo muito envelhecido. A primeira fraqueza dos Khmers Vermelhos, talvez a maior,  a de serem uma anomalia histrica, e menos uma utopia do que uma acronia. Trata-se de um "comunismo tardio", no sentido em que se fala de Antiguidade tardia, quando o mundo est j em vias de inclinar-se noutro sentido. Quando Pol Pot chega ao poder, Stalin j morreu (1953), Ho Chi Minh j morreu (1969), e Mao no se sente muito bem (morre em setembro de 1976). Resta Kim II Sung, mas a Coreia do Norte  pequena e distante. O modelo chins abre brechas diante dos olhos do novo ditador: o "bando dos Quatro" tenta relanar a Revoluo Cultural em 1975, mas nada resulta da; aps as ltimas manobras, a morte do Timoneiro basta para desmoron-la como um castelo de cartas; os Khmers Vermelhos tentam apoiar-se no que resta dos maostas tradicionais, mas estes ltimos, desde o final de 1977, esto envolvidos num combate de retaguarda contra o irresistvel regresso de Deng Xiaoping e dos seus partidrios reformadores; um ano depois,  o fim oficial do maosmo, e o Muro da democracia, enquanto se chacina violentamente no Camboja. Terminado o Grande Salto, viva o revisionismo! O resto da sia, visto de Phnom Penh,  ainda mais deprimente: depois do estmulo pontual fornecido pela vitria das foras revolucionrias na Indochina, os guerrilheiros maostas da Tailndia, da Malsia e da Birmnia retomam ou iniciam o seu declnio; os pases que compem a ala mercantil do continente, invejada e admirada, so agora, ao lado do Japo, os "pequenos drages" (Cingapura, Taiwan, Coreia do Sul, Hong Kong) to prsperos economicamente como politicamente anticomunistas, e todavia cada vez mais emancipados da tutela ocidental. Finalmente, o que eles podem saber de uma intelligentsia ocidental em que o marxismo inicia um declnio definitivo s pode confundi-los. O sentido da histria no estar em vias de se inverter?
	Para essa lenta queda, duas respostas possveis: o acompanhamento, e portanto a moderao, a reviso dos dogmas, e igualmente o risco de perderem a sua identidade e a sua razo de ser; ou o reforo daquilo que se , a radicalizao da ao, o descarrilamento em direo a um hipervoluntarismo -"teorizado" pelo regime norte-coreano. O eurocomunismo, que na poca conhecia a sua fase de esplendor, ou as Brigadas Vermelhas (Aldo Moro  assassinado em 1978): dois impasses histricos, podemos sab-lo agora -embora um tenha sido sangrento e o outro no. Tudo se passa como se os antigos estudantes da Frana dos anos 50 tivessem compreendido que, a menos que implementassem toda a sua utopia, imediatamente e a qualquer preo, no poderiam escapar  cilada dos compromissos com o presente realmente existente. Era necessrio impor o "ano zero" a uma populao privada de qualquer pausa para respirar, ou acabar por ser exterminado. O Grande Salto no dera os seus frutos? A Revoluo Cultural abortara? Foi porque se havia contentado com meias-medidas, porque os embries de resistncia ao servio da contra-revoluo no tinham sido todos eliminados: as cidades corruptoras e incontrolveis, os intelectuais confiantes no seu saber e pretendendo pensar por si mesmos, o dinheiro e as relaes mercantis elementares, precursores de uma restaurao capitalista, e os "traidores infiltrados no interior do Partido". Essa vontade de conseguir rapidamente uma sociedade diferente, um homem novo, s podia, apesar ou por causa da docilidade dos cambojanos, esbarrar na resistncia finalmente intransponvel da realidade. No querendo renunciar, o regime derrapou cada vez mais num oceano de sangue, que acreditava dever fazer correr sem trguas, a fim de se manter no poder. O PCK via-se como o glorioso sucessor de Lenin e de Mo: mas, do ponto de vista histrico, ele no deveria antes ser considerado como o antecessor desses grupos que traduziram o marxismo-leninismo na liberdade para cometer quaisquer atos de violncia: o Sendero Luminoso peruano, os Tigres de Eelam Tmiles (Sri Lanka), o Parado dos Trabalhadores do Curdisto (PKK), etc.?
	O drama dos Khmers Vermelhos , talvez, a sua fraqueza,  certo que cuidadosamente dissimulada atravs de uma verborragia triunfalista. Porm, no fundo, o 17 de abril teve duas razes fundamentais: o considervel apoio militar do Vietn do Norte e a inpcia do regime de Lon Nol (ainda agravada pelas incoerncias da poltica americana). Praticamente, Lenin, Mao e, em larga medida, Ho Chi Minh se valeram apenas dos seus prprios esforos para alcanar a vitria, e nem todos os seus adversrios foram medocres. Os seus partidos e, no que respeita aos dois ltimos, as suas foras armadas haviam sido paciente e lentamente edificados, e representavam, antes da chegada ao poder, foras considerveis. Nada disto aconteceu no Camboja. At meados da guerra civil, os Khmers Vermelhos estavam completamente dependentes de Hani. Mesmo em 1975> cita-se o nmero de cerca de 60 mil combatentes khmers vermelhos (menos de 1% da populao), que derrotaram cerca de 200 mil soldados republicanos desmoralizados.
	Exrcito fraco, partido fraco... Nenhuma fonte  verdadeiramente fivel, mas foram mencionados os nmeros de 4.000 membros em 1970, e 14.000 em 1975: de um grande grupsculo a um pequeno partido. Esses nmeros implicam tambm que os quadros experientes eram muito pouco numerosos at o fim do regime - e esse fato torna os expurgos que os atingiram ainda mais dramticos. As consequncias so visveis nos relatos dos deportados: por cada responsvel competente, quantos incapazes, tanto mais pretensiosos e cruis quanto mais limitados. "Os mais antigos promovidos a quadros eram ignorantes. Aplicavam e explicavam a torto e a direito os princpios revolucionrios. Essa incompetncia ampliava a loucura dos Khmers Vermelhos." Tudo se passa de fato como se a verdadeira fraqueza do regime, embora no confessada, e o sentimento de insegurana que provocava s pudessem ser compensados por um acrscimo de violncia; como essa acaba por gerar indiferena, o grau de terror deve aumentar mais, e assim por diante. Em consequncia, esse clima de insegurana, de desconfiana generalizada, de incerteza no dia de amanh que tanto traumatizou aqueles que o viveram. Essa atmosfera reflete a impresso (justificada) de isolamento experimentada no topo: os "traidores escondidos" esto em todo lado. Por isso, "podemos cometer um erro ao prender uma pessoa, mas nunca devemos nos enganar quando a libertamos", afirma um slogan khmer vermelho: encorajamento  represso cega. Pin Yadiay analisa corretamente o crculo infernal existente: "Os Khmers Vermelhos tinham, efetivamente, receio de libertar a clera do povo novo aliviando o aparelho repressivo. Obcecados pela ideia de uma eventual revolta, eles haviam decidido, pelo contrrio, fazer com que pagssemos essa impassibilidade da qual nos censuravam. Era o reino do medo permanente. Tnhamos medo das suas perseguies. Eles tinham medo de uma insurreio popular. E receavam, igualmente, manobras ideolgicas e polticas por parte dos seus camaradas de combate273..." Esse receio de insurreies populares era justificado? No existem indcios de muitos movimentos desse tipo,274 e todos foram desmantelados de modo fcil, rpido e... selvagem. Porm, na primeira oportunidade, quando, por exemplo, o enquadramento local se encontrava desestabilizado pelos expurgos,  significativo o fato de toda clera dos novos escravos ter vazado, mesmo com o risco de elevar o terror a um novo patamar.
	Houve revoltas de desespero, e outras provocadas por boatos loucos. A um nvel mais modesto de resistncia, podero ser evocadas as injrias dirigidas no escuro, do fundo do estaleiro de uma barragem, ao guarda khmer vermelho de vigia no alto do muro. Mais globalmente, os testemunhos deixam a sensao de uma grande liberdade de linguagem entre os Novos que trabalhavam em conjunto, de cumplicidades fceis de conseguir no roubo ou nas pausas clandestinas, e de um nmero reduzido de denncias: espionagem e delao no foram aparentemente muito eficazes. Isso confirma o corte completo entre os quadros e os "75". A soluo que os primeiros julgaram encontrar foi a manuteno de um clima de guerra, e depois o recurso  prpria guerra - o mtodo tinha dado as suas provas em outros locais. Alguns slogans so significativos: "Uma mo segura a enxada, a outra bate no inimigo",276 ou "Com a gua produz-se o arroz, com o arroz faz-se a guerra". Nunca os Khmers Vermelhos julgaram dizer uma verdade to grande: nunca houve arroz suficiente, e perderam a guerra.

	Um genocdio?

	 necessrio tomar a deciso de qualificar os crimes dos Khmers Vermelhos.  uma aposta cientfica: situar o Camboja relativamente aos outros grandes horrores desse sculo e inscrev-lo no respectivo lugar na histria do comunismo.  igualmente uma necessidade jurdica: uma parte significativa dos responsveis do PCK est ainda viva, e ativa. Devemos resignar-nos com o fato de que eles continuem a gozar de uma total liberdade de movimentos? Em caso negativo, sob que pontos de incriminao julg-los? 
	Que Pol Pot e os seus correligionrios so culpados de crimes de guerra  urna evidncia: os prisioneiros do exrcito republicano foram sistematicamente maltratados e muitas vezes executados; aqueles que depuseram as armas em 1975 foram seguidamente perseguidos sem piedade. O crime contra a humanidade no constitui problema: grupos sociais inteiros foram considerados indignos de existirem, e largamente exterminados. A menor divergncia poltica, verdadeira ou suposta, era punida com a morte. A verdadeira dificuldade reside no crime de genocdio. Se tomarmos a definio ao p da letra, arrisca-mo-nos a cair numa discusso um pouco absurda: aplicando-se o genocdio apenas aos grupos nacionais, tnicos, raciais e religiosos, e, como globalmente os Khmers no podem ser considerados alvos de extermnio, toda a ateno se concentra nas minorias tnicas, e eventualmente no clero budista. Mas, mesmo todos juntos, esses grupos apenas constituram uma parte relativamente reduzida das vtimas; alm disso, como vimos,  arriscado afirmar que os Khmers Vermelhos reprimiram especificamente as minorias, exceto os vietnamitas a partir de 1977 - embora restassem muito poucos nessa altura; os prprios Cham foram visados principalmente porque a sua f islmica representava um foco de resistncia. Alguns autores tentaram resolver o problema introduzindo a noo de politicidio2^ - definido em geral como um genocdio de base poltica (poder-se-ia utilizar tambm socioddicr. genocdio de base social). Trata-se de recuar para melhor saltar: devemos situ-lo, sim ou no, no mesmo nvel de gravidade que o genocdio? E, se sim, como esses autores parecem entender, por que razo embaralhar as pistas no mantendo o termo consagrado?  preciso lembrar que, durante as discusses prvias  adoo da Conveno do Genocdio pela ONU, s a URSS, por razes demasiado bvias, se ops  incluso do grupo poltico entre os qualificativos do crime. Mas, sobretudo, o termo racial (que no abrange, note-se, nem a etnia nem a nao) deveria proporcionar uma soluo: a raa, fantasma desmontado pelos progressos do conhecimento, s existe aos olhos de quem pretende delimit-la; na realidade,  to lgico falar de uma raa judaica como de uma raa burguesa. Ora, para os Khmers Vermelhos, como, alis, para os comunistas chineses, certos grupos sociais so globalmente criminosos, e por natureza; alm disso, esse "crime"  transmitido tanto aos cnjuges como  descendncia, atravs de uma forma de hereditarizao dos caracteres (sociais) adquiridos: Lyssenko no anda muito longe. Portanto, temos o direito de evocar uma racializao desses grupos sociais: o crime de genocdio pode ento aplicar-se  sua eliminao fsica, levada muito longe no Camboja, e seguramente conduzida com conhecimento de causa. Assim, Y Phandara ouve um Khmer Vermelho dizer, a propsito do "17 de abril": " o nome dos citadinos que apoiavam o regime do traidor Lon Nol. [...] H entre eles imensos traidores. O Partido Comunista teve a prudncia de eliminar uma boa parte deles. Os que ainda vivem trabalham no campo. J no tm energia para se erguerem contra ns."
	Para milhes de cambojanos de hoje, a fratura da "era Pol Pot" deixou a sua marca de fogo, irremedivel. Em 1979, 42% das crianas eram rfs, trs vezes mais de pai do que da me; 7% haviam perdido os dois progenitores. Em 1992,  entre os adolescentes que a situao de isolamento  mais dramtica: 64% de rfos. Uma parte dos males sociais gravssimos que ainda hoje fazem enormes estragos na sociedade cambojana, de um nvel excepcional relativamente  sia Oriental, provm desta desarticulao: criminalidade em massa e frequentemente violenta (as armas de fogo so encontradas por todos os lados), corrupo generalizada, desrespeito e falta de solidariedade, ausncia, em todos os nveis, do menor sentido do interesse geral. As centenas de milhares de refugiados no estrangeiro (150 mil s nos Estados Unidos) continuam, tambm eles, a sofrer o que viveram: pesadelos frequentes, a mais alta taxa de depresses nervosas de todos os oriundos da Indochina, uma grande solido para as mulheres que chegaram sozinhas, em numero muito maior do que os homens da sua gerao, assassinados. E, no entanto, a energia da sociedade cambojana no desapareceu: quando, em 1985, os ltimos resqucios da coletivizao foram abandonados, o aumento da produo permitiu quase de imediato o desaparecimento da penria alimentar.
	Em face dos responsveis da ditadura khmer vermelha, esse laboratrio de todos os desvios mais sombrios do comunismo, os cambojanos, nos quais se compreende o desejo primordial de regressarem a uma vida normal, no devem ser os nicos a suportar o fardo da liquidao de um passado terrvel. O mundo, que com freqncia teve tanta complacncia para com os seus carrascos, e to tardiamente, deve tambm tomar esse drama como seu.

	Concluso

	H comunismos no poder na sia; alis, praticamente, no existem em outras partes do mundo. Mas existir um comunismo asitico, no sentido, por exemplo, em que existiu um comunismo do Leste Europeu? A resposta  tudo, menos evidente. Na Europa, com exceo (e mesmo assim) da lugosl-via e da Albnia, os comunistas tiveram pelo menos em comum o fato de terem tido o mesmo pai. Morreram praticamente todos ao mesmo tempo (e at mesmo na lugoslvia e na Albnia) quando esse pai comeou a no andar nada bem; e eles o seguiram de perto no tmulo. Na sia, s se vislumbra relao semelhante entre o Vietn e o Laos, cujos destinos parecem ainda organicamente ligados. Em todos os outros lugares, o que ressalta  a singularidade dos processos de conquista e de consolidao do poder, ainda que a Coreia do Norte fosse, no perodo de Stalin, uma espcie de democracia popular, e tambm ainda que, para o Vietminh, a virada para a vitria tenha sido a chegada do EPL s fronteiras de Tonquim. No h nem nunca houve um "bloco" comunista na sia, a no ser nos desejos de Pequim: faltava a estreita cooperao econmica, a circulao em grande escala dos quadros e, principalmente, os laos discretos entre os aparelhos militar e policiais. Houve tentativas desse gnero, mas a uma escala reduzida, e duraram pouco (salvo, mais uma vez, entre o Laos e o seu "grande irmo" vietnamita): entre a China e a Coreia do Norte, durante e um pouco depois do conflito coreano; entre a China e o Vietn nos anos 50; entre a China e o Camboja de Pol Pot; entre o Vietn e o Camboja dos anos 80. Praticamente s existem na sia comunismos nacionais, principalmente capazes de assegurar a sua prpria defesa (salvo no Laos...), embora a ajuda chinesa (e s vezes sovitica) tenha em diversas ocasies sido essencial; alis, foi s naquela regio que se viram guerras "100% comunistas" no final dos anos 70, entre o Vietn e o Camboja, depois entre o Vietn e a China. Ao nvel da educao, da propaganda, dificilmente se encontram neste planeta regimes mais nacionalistas, e at mais estreitamente chauvinistas, do que os comunismos da sia, que se constituram todos na luta contra um imperialismo estrangeiro. Pelo menos isso representa um ponto comum; o problema  que esse nacionalismo se volta frequentemente contra o comunismo vizinho.
	Por outro lado, sempre que entramos no pormenor das polticas (e em especial das polticas repressivas, tema que aqui nos ocupa), as semelhanas no deixam de impressionar, e assinalamos numerosas no decurso dos captulos anteriores. Antes de retomar as principais, ser bom interrogarmo-nos sobre a cronologia comparada dos regimes estudados. Na Europa, as grandes etapas da histria de cada pas esto estreitamente articuladas com as dos outros, com exceo da Albnia e, em menor medida, da Romnia ou da Jugoslvia. Na sia, em primeiro lugar, os pontos de origem esto afastados no tempo, entre 1945 e 1975: o mesmo acontece com as reformas agrrias e a coletivizao, inclusive no Vietn entre o Norte e o Sul. Todavia, por outro lado, encontra-se sempre a sucesso dessas duas etapas, pouco tempo depois do acesso ao poder (sete anos no mximo, no caso da China, para a totalidade do processo). No plano poltico, o PC nunca age de face completamente descoberta na fase de conquista do poder;  mantida a aparncia de uma "frente unida" algum tempo depois da vitria (oito anos na China), mesmo que se trate simplesmente de no revelar a existncia do Partido, como no Camboja at 1977. No entanto, se muitos se deixam enganar antes pelas promessas de uma democracia pluralista (e isto contribuiu para o xito comunista, em especial no Vietn), a mscara cai muito rapidamente, logo depois: no Vietn, num campo de sulistas prisioneiros, at 30 de abril de 1975, mais ou menos corretamente alimentados e vestidos, no obrigados a trabalhar, redu-zem-se brutalmente as raes, a disciplina  reforada, e impem-se jornadas de trabalho extenuantes logo que  conseguida a "libertao" do Sul; os chefes do campo justificam assim essas medidas: "At aqui, vocs se beneficiaram do regime dos prisioneiros de guerra [...]. Agora, todo o pas est libertado, ns somos os vencedores, e vocs so os vencidos! Depois da Revoluo de 1917 na Rssia, todos os vencidos foram eliminados." As camadas sociais bem tratadas no quadro da frente unida (intelectuais e capitalistas "nacionais", em particular) sofreram, em pleno, o ostracismo e a represso quando a ditadura do Partido se instalou.
	Em um nvel mais sutil, as semelhanas cronolgicas so inconstantes. A Coreia do Norte tem os seus ritmos prprios desde o fim dos anos 50, e esse museu do stalinismo parece muito isolado desde h muito tempo. A Revoluo Cultural chinesa no teve mulos. Pol Pot triunfa quando Jiang Qing est  beira do naufrgio, e sonha com um Grande Salto abandonado h 14 anos. Mas, por toda pane onde os PCs j se encontram no poder, a poca de Stalin  marcada por expurgos e pelo desenvolvimento da Segurana. A onda de choque do XX Congresso provoca por todo lado a tentao da liberalizaco poltica, rejeitada quase que imediatamente a favor de um endurecimento dos regimes, e, no plano econmico, de uma tentao voluntarista e utpica - o Grande Salto, na China, e o seu sucedneo vietnamita, o Chollima coreano. Por todo lado, exceto na Coreia, os anos 80 e 90 so marcados por uma liberalizao da economia: no Laos e no sul do Vietn, ela segue de muito perto as medidas de coletivizao, de fato nunca terminada. Mais depressa do que se tem dito com muita freqncia, o reformismo econmico conduz a uma normalizao e a um abrandamento das prticas repressivas, embora o processo seja titubeante, contraditrio e incompleto.  exceo de Pyongyang, o terror em massa e a uniformizao das conscincias no passam de recordaes, e no h mais prisioneiros polticos do que numa banal ditadura sul-americana: no Laos, segundo os nmeros da Anistia Internacional, passou-se de 6.000 ou 7.000 em 1985 para 33 em maro de 1991, e os nmeros baixaram em propores semelhantes no Vietn ou na China. A nossa poca nos traz por vezes boas notcias, apesar de tudo, e isso prova, eventualmente, que a tendncia para o assassinato em massa j no  incontornvel nos comunismos da sia, tal como o foi nos da Europa. A fim de regressarmos  problemtica central dessa obra, o terror teve o seu tempo  que foi muitas vezes um tempo demasiado longo (at cerca de 1980) -, tendo ocasionado regularmente, por toda parte, crimes abominveis em maior ou menor grau. Atualmente o terror deu lugar a uma simples represso essencialmente seletiva e dissuasiva, embora cada vez mais banalizada pelo recuo da preocupao reeducativa.
	A chave dessas semelhanas cronolgicas que, no fim das contas, prevalecem sobre as disparidades localiza-se, desde 1956, muito mais em Pequim do que em Moscou, e o XX Congresso  o responsvel por isso: chocou e foi considerado uma ameaa por Mao Zedong, Ho Chi Minh ou Kim II Sung, e tambm por Maurice Thorez. Ao contrrio, o fato valoriza a audcia da iniciativa de Kruschev. O Centro chins, pelo menos depois de Yan'an, desempenhava, como assinalamos, o papel de uma segunda Meca para os comunistas de toda a sia; porm, o prestgio da URSS de Stalin era imenso, e o peso dos seus meios econmicos e militares fazia o resto. A interveno chinesa na Coreia, e depois o seu apoio macio ao Vietminh, foram os primeiros abalos, mas 1956 v Mao atirado para a liderana do campo "anti-revisionista" de facto, no qual esto alinhados, a partir de ento, os pases irmos da sia. Os erros da Revoluo Cultural enfraquecero o magistrio chins; as necessidades militares do Vietn o levaro, desde meados dos anos 60, a tentar uma aproximao oportunista  URSS. Mas a cronologia faz f: as iniciativas vm regularmente da China e so frequentemente adotadas at os menores detalhes. H um ar de famlia, que no engana, em todos os regimes comunistas; mas, entre os da sia, parece por vezes tratar-se de clonagem - pensemos, por exemplo, nas reformas agrrias chinesa e vietnamita.
	Se o "comunismo do gu/ash", to caro a Kruschev, atraiu to pouco os comunismos da sia, pelo menos at ao comeo da dcada de 80, foi porque os mesmos se encontravam ainda na fase das guerras revolucionrias, e tambm porque constituam ideocracias levadas a um ponto extremo. Na tradio confuciana da "retifcao dos nomes" (e por toda parte, excetuando o Camboja, existe a tradio confuciana),  a realidade que se deve curvar perante a palavra; no plano penal, o que conta no  o que as pessoas fazem, mas o veredicto que se obtm, e a etiqueta que se cola em cada um; ora, tanto um como a outra respondem a todo gnero de consideraes estranhas aos atos praticados.  menos a boa ao do que a palavra justa que estabelece a paz nos espritos. Em consequncia, este dptico dos comunismos da sia: sobrei-deologizao, mas tambm voluntarismo. A primeira decorre da nfase classi-ficatria e reorganizadora resultante da combinao do modo de pensar con-fuciano e da viso revolucionria de uma refundio total da sociedade. O segundo, na perspectiva ainda mais ampla de uma transformao do mundo, quer apoiar-se, como se se tratasse de uma alavanca, na completa penetrao das conscincias pelas "ideias justas". Evocamos essas contendas oratrias em que triunfava quem jogava sob o adversrio uma citao de Mao  qual no era possvel replicar. O Grande Salto foi tambm um festival de palavras. Como  evidente, o irrealismo dos Asiticos tem limites: quando a realidade resiste demasiado ao discurso, tal fato no lhes escapa. E depois de terem verificado a falncia de tantos discursos, assim como as inmeras catstrofes que os mesmos acarretaram, acabaram por s querer ouvir o de Deng Xiaoping, profundamente antiideolgico: "No importa que um gato seja preto ou cinzento; o importante  que ele apanhe ratos."
	Mas a verdadeira, a grande originalidade dos comunismos asiticos,  sem dvida terem conseguido transferir do partido f ara o conjunto da sociedade essa sobreideologizao e esse voluntarismo, dos quais se podem inegavelmente encontrar equivalentes, como, por exemplo, na URSS stalinista. Tambm aqui, puderam apoiar-se em duas tradies, elas prprias coordenadas. Na sia sinizada (que abrange portanto o Vietn e a Coreia, alm da China), no existe, desde h muito, a distncia que se verifica no Ocidente entre cultura de elites e cultura popular: o confucionismo, em particular, soube passar da classe dirigente para os campos mais distantes sem se modificar muito; foi igualmente o caso, na China, desde o incio do presente milnio, de uma instituio to aberrante como os ps enfaixados das mulheres. Alis, o Estado nunca se constituiu como uma instituio coerente, separada da sociedade e baseada num direito complexo: contrariamente  ideia que muitas vezes tentaram dar de si prprias, as monarquias de inspirao chinesa foram quase sempre privadas da maior parte dos instrumentos formais de interveno de que reinos do Ocidente j dispunham no fim da Idade Mdia. S podiam sobreviver e governar atravs do consentimento dos seus sditos - um consentimento obtido no por uma qualquer forma de consulta democrtica, nem pela arbitragem institucionalizada entre interesses divergentes, mas por uma ampla e profunda difuso de normas idnticas de moral cvica, sendo essa mesma baseada numa moral familiar e interindividual: isso  exatamente o que Mao denominou "linha de massa". O Estado moral (ou ideolgico) tem uma longa e rica histria na sia Oriental.  um Estado, no fundo, pobre e fraco; mas, se consegue a adeso da conscincia de cada grupo, de cada famlia, de cada indivduo s suas prprias normas e ideais, a sua fora, torna-se incrvel, sem quaisquer limites - excetuados os impostos pela natureza, a implacvel inimiga de Mao na poca do Grande Salto Adiante. Os comunismos asiticos procuraram, pois, e conseguiram numa dada fase (indiscutivelmente terminada em todo lado), criar sociedades profundamente balsticas. Da que esse chefe de cela vietnamita, ele prprio prisioneiro, se sinta no direito de gritar com o detido recalcitrante: "Voc se ope ao chefe de cela nomeado pela revoluo. Portanto, voc se ope  revoluo!" E da essa extraordinria vontade, paciente e obstinada, de fazer do ltimo dos detidos - e at mesmo de oficiais franceses sados de Saint-Cyr - portadores e difusores da mensagem do Partido. Enquanto a Revoluo Russa no consegue destruir o abismo entre "eles", e "ns", a Revoluo Cultural soube fazer crer a muitos, por um momento, que o Estado e o Partido eram tambm eles: em certos casos, Guardas Vermelhos que no eram membros do PC acharam-se no direito de decidir excluses do Partido. Os comunismos do Ocidente conheceram igualmente a crtica, a autocrtica, as interminveis reunies de "discusso", a imposio de textos cannicos. Mas isto foi geralmente reservado  esfera do Partido. Na sia, as mesmas normas so expandidas a todos.
	Tal fato teve duas consequncias principais, no que diz respeito s formas assumidas pela represso. A mais evidente  a ausncia, que j verificamos tantas vezes, de qualquer referncia, embora formal, ao direito,  lei,  justia: tudo  poltico, e apenas isso. A edio tardia de um Cdigo Penal (1979 na China e 1986 no Vietn) assinala de fato o fim dos grandes terrores. A outra  o carter ainda mais generalizado do que sangrento das grandes ondas repressivas: elas abrangem quer o conjunto das sociedades, quer camadas muito amplas, na sua totalidade (camponeses, urbanos, intelectuais, etc.). O regime de Deng Xiaoping afirmou que a Revoluo Cultural havia "perseguido" cem milhes de chineses - nmero inverificvel; mas provavelmente no fez mais do que um milho de mortos. A relao no foi a mesma nos grandes expurgos stalinistas. Para que dar-se ao trabalho de matar, quando se pode aterrorizar to eficazmente? O que, sem dvida, explica tambm a grande proporo de suicdios na mortalidade poltica: a intensidade das campanhas, difundidas pelos colegas, pelos amigos, pelos vizinhos, pela famlia  portadora de tenses absolutamente insuportveis para um certo nmero de indivduos: deixa de existir espao de manobra.
	O nosso raciocnio comporta o seu prprio limite: chama-se Camboja (e, numa medida muito menos intensa, Laos). Esse pas nunca foi penetrado pelo confucionismo; a sua tradio poltica  muito mais indiana do que chinesa. Seria necessrio ver, no desencadeamento de uma violncia to sangrenta como generalizada, que s o Camboja conheceu, o sobressalto de um poder que tentava aplicar as receitas sino-vietnamitas a uma populao em nada predisposta a receb-las? A est uma pista a aprofundar, embora conviesse tambm faz-lo quanto s exatas condies dessa experincia felizmente nica.
	Era nosso propsito sublinhar aqui as especificidades do comunismo asitico (ou pelo menos do da sia sinizada). O leitor do conjunto dessa obra descobrir mais facilmente por si prprio os laos muito fortes que o ligam ao sistema comunista mundial, e ao seu chefe de fila sovitico. Muitos dos fenmenos que mereceram a nossa ateno (a "pgina branca", essa nostalgia do recomeo absoluto, da tbua rasa; o culto e a manipulao da juventude) podem facilmente encontrar-se em outros lugares. Continua a ser verdade que os destinos do comunismo na Europa e na sia, j em si to divergentes, impem a interrogao acerca das diferenas estruturais que podem existir entre as variantes de um fenmeno planetrio.
	
	Seleo Bibliogrfica sia

	CAMBOJA

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	LAOS

	Martin Stuart-Fox e Mary Koogman, Historical Dictionary ofLaos, Metuchen & Londres, Scarecrow Press, 1992.

	QUINTA PARTE
	
	O TERCEIRO MUNDO
	por Pascal Fontaine, Yves Santamaria e Sylvain Boulouque

	1. A Amrica Latina e a experincia comunista
       por Pascal Fontaine

       CUBA. O INTERMINVEL TOTALITARISMO TROPICAL

	A principal das ilhas caribenhas conheceu desde o incio do sculo uma vida poltica agitada, com a ntida marca dos movimentos democrticos e sociais. J em 1933, um putsch militar encabeado pelo sargento estengrafo Fulgencio Batista derrubara a ditadura de Gerardo Machado. Ao se tornar chefe do exrcito, Batista fez e desfez durante 20 anos os presidentes de um poder com fone orientao social e oposto s ingerncias americanas. Eleito em 1940 presidente da Repblica, promulgou uma Constituio liberal. Em 1952, conduziu um ltimo golpe de Estado, interrompeu o processo democrtico, simbolizado por eleies livres previstas para esse mesmo ano, e governou apoiando-se alternadamente em diversos partidos polticos, entre os quais o Partido Socialista Popular, na realidade o Partido Comunista Cubano.
	Com Batista, Cuba conheceu um claro progresso econmico, mas com as riquezas muito mal distribudas, e principalmente com um grande desequilbrio entre os campos desfavorecidos e as cidades com fortes infra-estrutu-ras e dinheiro fcil proveniente do submundo talo-americano  em 1958, existiam 11.500 prostitutas em Havana. A corrupo e as negociatas caracterizaram a era Batista, e, pouco a pouco, a classe mdia afastou-se do regime. Os estudantes, liderados por Jos Antnio Etcheverria, criaram um Diretrio Estudantil Revolucionrio que patrocinou um grupo armado e atacou, em maro de 1953, o palcio presidencial. Foi um fracasso total; Etcheverria foi morto, e o Diretrio, decapitado. Porm, em 26 de julho desse mesmo ano, um outro grupo de estudantes atacou a caserna da Moncada. Alguns foram mortos, e um dos seus lderes, Fidel Castro, foi capturado. Condenado a 15 anos de priso, saiu em liberdade pouco depois, dirigiu-se ao Mxico e empenhou-se na formao de um movimento de guerrilha, o Movimento do 26 de Julho, composto essencialmente por jovens liberais. A luta armada entre Batista e os barbudos iria durar 25 meses.
	A represso conduzida pelo regime foi violenta e fez milhares de vtimas. As redes de guerrilha urbana foram as mais atingidas, com 80% de perdas, contra 20% das guerrilhas rurais da Sierra. Em 7 de novembro de 1958,  frente de uma coluna de guerrilheiros, Ernesto Guevara inicia uma marcha sobre Havana. Em 31 de dezembro, os sindicatos desencadeiam uma greve geral. Em l? de janeiro de 1959, Batista pe-se em fuga, acompanhado por todos os principais dignitrios da sua ditadura; Rolando Masferrer, patro da sinistra polcia paralela chamada "os Tigres", e Estebn Ventura, chefe da polcia secreta, dois torturadores, alcanaram Miami. O lder da Confederao dos Trabalhadores Cubanos (CTC), Eusebio Mujal, que assinara vrios acordos com Batista, achou prudente refugiar-se na embaixada da Argentina. A vitria fcil dos guerrilheiros eclipsou o papel desempenhado por outros movimentos na queda de Batista. Na realidade, a guerrilha s havia travado combates pouco significativos, e Batista foi vencido, antes de mais nada, porque perdeu o controle de Havana em face do terrorismo urbano. O embargo americano de armas jogou igualmente em seu desfavor.
	Em 8 de janeiro de 1959, Castro, Guevara e os barbudos fazem uma entrada triunfal na capital. Desde a tomada do poder, as prises de Cabana, em Havana, e de Santa Clara foram palco de execues em massa. De acordo com a imprensa estrangeira, essa depurao sumria fez 600 vtimas entre os partidrios de Batista, em cinco meses. Organizaram-se tribunais de exceo, criados unicamente para pronunciar condenaes. "As formas dos processos e os princpios sobre os quais o direito foi concebido eram altamente significativos: a natureza totalitria do regime estava ali inscrita desde o incio", comprova Jeannine Verds-Leroux. Realizaram-se simulacros de julgamentos num ambiente de feira: uma multido de 18.000 pessoas reunidas no Palcio dos Desportos "julga" o comandante batistiano Jesus Sosa Blanco, acusado de vrios assassinatos, apontando os polegares para o cho. " digno da antiga Roma!", exclamou. Ele foi logo fuzilado.
	Na Sierra, Castro dera, em 1957, uma entrevista ao jornalista Herbert Matthews, do New York Times, em que declarava: "O poder no me interessa. Depois da vitria, quero regressar  minha cidade e retomar a minha profisso de advogado". Declarao de inteno certamente hipcrita, de imediato desmentida pela poltica que a seguiu. Desde a tomada do poder, surdas lutas viscerais minaram o jovem governo revolucionrio. Em 15 de fevereiro de 1959, o primeiro-ministro Miro Cardona demitiu-se. J comandante-chefe do exrcito, Castro substituiu-o. Em junho, decidiu anular o projeto de organizar eleies livres, anteriormente prometidas para um prazo de 18 meses. Perante os habitantes de Havana, justificou a sua deciso atravs desta interpelao: "Eleies! Para qu?" Negava desse modo um dos pontos fundamentais inscritos no programa dos revolucionrios anti-Batista. Castro eternizava assim uma situao instaurada pelo ditador derrubado. Alm disso, suspendeu a Constituio de 1940, que garantia os direitos fundamentais, para governar exclusivamente por decreto  antes de impor, em 1976, uma Constituio inspirada na da URSS. Teve igualmente o cuidado de promulgar dois textos legais, a Lei n 54 e a Lei n 53 (texto relativo  lei sobre as associaes), que limitavam o direito dos cidados a associarem-se livremente.
	Castro, que trabalhava ento em estreita relao com os seus prximos, tratou de afastar os democratas do governo e, para conseguir esse objetivo, apoiou-se no seu irmo Raul (membro do Partido Socialista Popular, isto , do PC) e em Guevara, sovietfilo convicto. Em junho de 1959, cristalizava-se a oposio entre liberais e radicais acerca da reforma agrria lanada em 17 de maio. O projeto inicial visava constituir uma mdia burguesia fundiria atravs de uma redistribuio de terras. Castro escolheu uma poltica mais radical, sob a gide do Instituto Nacional de Reforma Agraria (INRA), confiado a marxistas ortodoxos e do qual ele foi o primeiro presidente. Rapidamente, anulou o plano proposto pelo ministro da Agricultura, Humberto Sori Marin. Em junho de 1959, e para acelerar a reforma agrria, ordenou ao exrcito que cornasse o controle de cem latifndios na provncia de Camagiiey.
	A crise, latente, explodiu em julho de 1959, quando o presidente da Repblica, Manuel Urrutia - um antigo juiz de instruo que corajosamente defendera os barbudos em 1956 -, apresentou a sua demisso. Pouco depois, o ministro dos Negcios Estrangeiros, Roberto Agramente, foi substitudo por Raul Roa, um castrista da primeira hora. O ministro dos Assuntos Sociais, que discordava de um veredicto pronunciado contra aviadores acusados de crime contra civis, demitiu-se, por sua vez. 5 No decorrer de 1960, o processo amplificou-se: em maro, Rupo Lopez Fresquet, ministro das Finanas desde janeiro de 1959, rompeu com Castro, passou  oposio e depois exilou-se. Um outro membro do governo, Anres Suarez, abandonou definitivamente o pas no mesmo ano. Os ltimos jornais independentes desapareceram, o silen-ciamento metdico chegava ao seu termo. Em 20 de janeiro de 1960, Jorge Zayas, diretor do jornal antibatistiano Avance, partiu para o exlio; em julho, Miguel Angel Quevedo, redator-chefe do Bohemia, deixou Cuba - o Bohemia reproduzira as declaraes de Castro quando do processo da Moncada. Restavam apenas os jornais comunistas Granmae Hoy. No outono de 1960, as ltimas figuras da oposio, polticas ou militares, foram presas, como William Morgan ou Humberto Sori Marin. Morgan, antigo comandante da Sierra, foi fuzilado no princpio de 1961.
	Pouco depois, os ltimos democratas retiravam-se do governo, como Manolo Ray, ministro das Obras Pblicas, ou Enrique Oltusky, ministro das Comunicaes. Foi nessa ocasio que se produziu a primeira grande onda de partidas: cerca de 50 mil pessoas, oriundas das classes mdias, que haviam apoiado a revoluo, escolheram o exlio. A ausncia de mdicos, de professores ou de advogados fragilizou durante bastante tempo a sociedade cubana.
	Depois das classes mdias, foi o mundo operrio que sofreu a represso. Logo de incio, os sindicatos mostraram-se rebeldes relativamente ao novo regime tal como o mesmo se perspectivava. Um dos seus principais lderes era o responsvel pelos sindicatos do acar, David Salvador. Homem de esquerda, rompera com o PSP quando esse ltimo se recusara a combater a ditadura de Batista; em 1955, ele havia organizado as grandes greves das centrais aucareiras; preso e torturado, ele dera o seu apoio  greve de abril de 1958, lanada pelos castristas do Movimento do 26 de Julho. Democraticamente eleito secretrio-geral da Confederao dos Trabalhadores Cubanos, em 1959, viu lhe serem impostos dois adjuntos, comunistas de primeira hora que no haviam sido submetidos  prova democrtica da eleio. Tentou tramar a infiltrao e o controle da sua central pelos comunistas, mas, a partir da primavera de 1960, Salvador foi relegado ao ostracismo. Passou  clandestinidade em junho. Preso em agosto de 1962, foi condenado a uma pena de 12 anos de cadeia. Mais uma outra grande figura da oposio a Batista estava sendo afastada. Finalmente, Castro conseguir, em 1962, que o sindicato nico, a CTC, pea a supresso do direito  greve: "O sindicato no  um rgo reivindicativo", clarifica um membro do aparelho do Partido.
	Depois da sua priso, em 1953, Fidel Castro tivera a cabea salva graas  interveno do arcebispo de Santiago de Cuba, Mons. Perez Serantes. O clero havia acolhido com grande alvio a sada de Batista. Alguns padres chegaram mesmo a acompanhar os guerrilheiros na Sierra. Mas a Igreja protestara contra os julgamentos expeditivos dos batistianos, tal como condenara os crimes dos "Tigres" de Masferrer. Desde 1959, ela vinha denunciando a infiltrao comunista. Castro aproveitou o pretexto da baa dos Porcos? para proibir, atravs de uma ordem governamental, a revista La Quincena. Em maio de 1961, todos os colgios religiosos foram fechados, e os respectivos edifcios, confiscados, inclusive o colgio jesuta de Belen, no qual Fidel fizera os seus estudos. Envergando o seu uniforme, o Lder Mximo declarou: "Que os padres falangistas se preparem para fazer as malas!" A advertncia no era gratuita, j que, em 17 de setembro de 1961, 131 padres diocesanos e religiosos foram expulsos de Cuba. Para sobreviver, a Igreja teve de voltar-se para si mesma. O regime orientou-se no sentido da marginalizao das instituies religiosas. Um dos procedimentos consistia em deixar cada cubano livre de expressar a sua f, arriscando-se porm a sofrer as medidas de represlia, como a proibio de acesso  universidade e s carreiras administrativas.
	A represso atingiu tambm com fora o mundo artstico. Em 1961, Castro definiu o papel dos artistas dentro da sociedade. Um slogan resume as suas concepes: "Dentro da revoluo, tudo; fora dela, nada!" O destino de Ernesto Padilla ilustra perfeitamente o estado da cultura. Escritor revolucionrio, Padilla acabou por abandonar Cuba em 1970, depois de ter sido forado a fazer a sua "autocrtica". Aps dez anos de vida errante, Reinaldo Arenas aproveitou o xodo de Mariel para, ele tambm, deixar Cuba definitivamente.

       Che Guevara, o reverso do mito

	Fidel Castro referia-se constantemente  Revoluo Francesa: a Paris jacobina tivera Saint-Just; a Havana dos guerrilheiros tinha o seu Che Guevara, verso latino-americana de Netchaiev.
	Filho de boa famlia, nascido em Buenos Aires em 1928, Ernesto Guevara j bastante jovem comea a percorrer o subcontinente americano. Esse jovem burgus, fragilizado por uma asma crnica, conclui os seus estudos de medicina aps um priplo entre os Pampas e a selva da Amrica Central. No incio dos anos 50, confronta-se com a misria na Guatemala, na poca do regime progressista de Jacobo Arbenz, que  derrubado pelos americanos  Guevara aprende ento a odiar os Estados Unidos. "Perteno, pela minha formao ideolgica, queles que acreditam que a soluo dos problemas desse mundo se encontra por detrs da chamada cortina de ferro", escreve ele a um amigo em 1957 (Carta a Ren Ramos Latour, citada por Jeannine Verds-Leroux, op. a.). Uma noite de 1955, no Mxico, Guevara encontra-se com um jovem advogado cubano exilado que prepara o seu regresso a Cuba: Fidel Castro. Ele decide ento seguir esses cubanos que desembarcaro na ilha em dezembro de 1956. Nomeado comandante de uma "coluna", ele rapidamente se destaca pela sua dureza. Um rapaz, guerrilheiro da sua coluna, que roubou um pouco de comida,  imediatamente fuzilado, sem qualquer processo. Esse "partidrio do autoritarismo implacvel", segundo o seu antigo companheiro da Bolvia, Rgis Debray (Lous soient nos seigneurs, Gallimard, 1996, p. 184), que j quer impor uma revoluo comunista, entra em conflito com vrios comandantes cubanos verdadeiramente democratas.
	No outono de 1958, abre uma segunda frente na plancie de Ls Villas, no centro da ilha. Obtm um brilhante sucesso ao atacar em Santa Clara um trem repleto de reforos militares enviado por Batista: os soldados fogem, recusando o combate. Conseguida a vitria, Guevara ocupa o cargo de "procurador", passando a decidir recursos de ltima instncia. Em todo o caso, a priso de Cabana, onde ele exerce,  palco de numerosas execues, principalmente de antigos camaradas de armas que permaneceram democratas.
	Nomeado ministro da Indstria e diretor do Banco Central, ele encontra nessas funes a oportunidade de aplicar a sua doutrina poltica, impondo a Cuba o "modelo sovitico". Desprezando o dinheiro, embora tenha vivido nos bairros seletos de Havana, ministro da Economia, mas desconhecedor das mais elementares noes de economia, acabou por arruinar o Banco Central. Encontra-se mais  vontade para instituir os "domingos de trabalho voluntrios", fruto da sua admirao pela URSS e pela China  saudar a Revoluo Cultural. Rgis Debray (op. cit., p. 185) faz notar: "Foi ele, e no Fidel, que inventou, em 1960, na pennsula de Guanaha, o primeiro 'campo de trabalho corretivo' (ns diramos de trabalhos forados)..."
	No seu testamento, esse aluno da escola do Terror elogia "o dio eficaz que faz do homem uma eficaz, violenta, seletiva e fria mquina de matar" (Rgis Debray, op. cit., p. 186). "No posso ser amigo de uma pessoa que no partilhe as minhas ideias", advoga esse sectrio que d ao filho o nome de Vladimir, em homenagem a Lenin. Dogmtico, frio e intolerante, "Che" (expresso argentina) est inteiramente afastado da natureza aberta e calorosa dos cubanos. Em Cuba, ele  um dos artesos da militarizao da juventude, sacrificando-a ao culto do homem novo.
	Desejoso de exportar a revoluo na sua verso cubana, cego por um antia-mericanismo primrio, ele se aplica na propagao da guerrilha atravs do mundo, de acordo com o seu slogan: "Criar dois, trs... inmeros Vietns!" (maio de 1967). Em 1963, ele est na Arglia, depois em Dar-es-Salam, antes de chegar ao Congo, onde se cruza com um certo Dsir Kabila, um marxista hoje tornado senhor do Zaire e a quem no repugnam as chacinas de populaes civis.
	Castro utilizou-o para fins tticos. Quando se d a ruptura entre ambos, Guevara dirige-se para a Bolvia. Tentando aplicar a teoria do foco de guerrilha, desdenhando a poltica do Partido Comunista Boliviano, ele no consegue encontrar apoio por parte dos camponeses, dos quais nem um sequer se juntou ao seu grupo itinerante. Isolado e encurralado, Guevara  capturado e executado em 8 de outubro de 1967.

	O exrcito dos antigos rebeldes tambm conheceu um processo de sujeio. Em julho de 1959, um parente de Castro, o comandante da Fora Area, Diaz Lanz, demitiu-se e passou para os Estados Unidos. No ms seguinte, foi iniciada uma onda de prises, a primeira, sob o pretexto de fazer abortar uma tentativa de golpe de Estado.
	Em 1956, Huber Matos j ajudava os barbudos na Sierra, procurando bases de apoio na Costa Rica, abastecendo-os de armas e munies com um avio particular, libertando Santiago de Cuba, a segunda cidade do pas,  frente da coluna n 9 "Antnio-Guiterras". Ele tornou-se governador da provncia de Camaguey; mas, em profundo desacordo com a "comunizao" do regime, abandonou as suas funes. Castro viu nesse ato uma conspirao e encarregou um heri da guerrilha, Camillo Cienfuegos, de prender Matos em virtude do seu "anticomunismo". Sem qualquer respeito por esse combatente exemplar, Castro infligiu-lhe um "Processo de Moscou  moda de Havana" no qual ele prprio interveio. Diante do tribunal, exerceu presses sem moderao: "Eu vou lhes dizer. Vocs devem fazer uma escolha: Matos ou eu!"; e proibiu as testemunhas favorveis ao acusado de se exprimirem. Matos foi condenado a 20 anos de priso, que cumpriu at o ltimo dia. Todos os seus familiares foram encarcerados.
	Privados da menor possibilidade de expresso, numerosos opositores de Castro passaram  clandestinidade, acompanhados pelos antigos organizadores da guerrilha urbana contra Batista. No incio dos anos 60, essa oposio clandestina transformou-se num movimento de revolta implantado nas montanhas de Escambray. Respaldado por autnticos barbudos, o movimento recusava a coletivizao forada das terras e a ditadura. Raul Castro enviou todos os seus meios militares, blindados e artilharia, assim como centenas de membros das milcias, para pr fim  rebelio. As famlias dos camponeses rebeldes foram deslocadas, a fim de minar as bases populares da revolta. Algumas centenas dessas famlias foram transferidas para a regio das plantaes de tabaco, em Pinar dei Rio, no extremo oeste da ilha, a centenas de quilmetros de Escambray. Foi a nica vez que o poder castrista recorreu  deportao de populaes.
	No entanto, os combates duraram cinco anos. Cada vez mais isolados, os grupos desapareceram uns aps outros. Para os rebeldes e os seus chefes, a justia foi rpida. Guevara teve a oportunidade de liquidar um dos seus antigos e jovens chefes da guerrilha antibatistiana, Jesus Carreras, que se opusera  sua poltica em 1958. Ferido no decorrer de uma emboscada, Carreras foi conduzido para o peloto de fuzilamento, tendo Guevara recusado conceder-lhe o perdo. Em Santa Clara, foram julgados 381 "bandidos" capturados. Na priso de La Loma de los Coches, nos anos que se seguem ao triunfo de 1959 e durante a liquidao dos grupos de Escambray, mais de mil "con-tra-revolucionrios" foram fuzilados.
	Aps a demisso do ministrio da Agricultura, Humberto Sori Marin tentou criar em Cuba ura. foco (centro de luta armada). Preso e julgado por um tribunal militar, foi condenado  pena capital. A me implorou o seu perdo junto a Castro, lembrando-lhe que ele e Sori Marin se conheciam desde os anos 50. Castro prometeu poupar-lhe a vida; alguns dias mais tarde, Humberto Sori Marin era fuzilado.
	Periodicamente, depois das guerrilhas de Escambray, houve tentativas de implantao de grupos armados em solo cubano. Na sua maioria, pertenciam aos comandos Liberacin, de Tony Cuesta, e aos grupos Alpha 66, criados no incio dos anos 60. A maior parte desses desembarques, inspirados no do prprio Castro, fracassou.
	Em 1960, os juizes perderam a sua inamovibilidade e passaram a ficar sob a autoridade do poder central, negao da separao dos poderes bem caracterstica da ditadura.
	A Universidade no podia escapar a essa onda geral de sujeio. Jovem estudante de engenharia civil, Pedro Lus Boitel candidatou-se  presidncia da Federao Estudantil Universitria (FEU). Antigo opositor de Batista, ele era tambm um ferrenho adversrio de Fidel Castro. Rolando Cubella, o candidato do regime, foi eleito com o apoio dos irmos Castro. Preso pouco depois, Boitel foi condenado a dez anos de priso e encarcerado num estabelecimento particularmente duro: Boniato. Por vrias vezes, ele fez greve de fome para protestar contra o tratamento desumano a que os detidos estavam sujeitos. Em 3 de abril de 1972, iniciou uma nova greve para obter condies decentes de encarceramento. Boitel protestou nestes termos a um dos responsveis da priso: "Fao essa greve para que me apliquem os direitos reservados aos prisioneiros polticos. Direitos que vocs exigem para os detidos das ditaduras dos pases da Amrica Latina, mas que recusam aos do seu (de vocs) prprio pas!" Mas nada aconteceu. Sem assistncia mdica, Boitel agonizava.
	A partir do 45 dia, o seu estado tornou-se crtico; ao 49, entrou em semico-ma. As autoridades continuaram a no intervir. Em 23 de maio, s trs horas da manh, aps 53 dias de greve de fome, Boitel morreu. As autoridades recusaram  me o direito de ver o corpo do filho.
	Muito rapidamente, Castro apoiou-se num eficaz servio de informaes. A "Segurana" foi confiada a Ramiro Valds, enquanto Raul Castro dominava o ministrio da Defesa. Reativou os tribunais militares, e em breve o paredn  o muro onde eram feitas as execues  se tornou um utenslio judicirio de recurso legal.
	Apelidado de "Gestapo Vermelha" pelos cubanos, o Departamento de Segurana do Estado (DSE), tambm conhecido sob o nome de Direccin General de Contra-Inteligencia, praticou suas primeiras aes entre 1959 e 1962, quando foi encarregado de infiltrar e destruir as diversas oposies a Castro. O DSE dirigiu a sangrenta liquidao dos resistentes de Escambray e tratou da implementao dos trabalhos forcados. Obviamente,  esse o departamento que detm o domnio sobre o sistema carcerrio.
	Inspirado no modelo sovitico, o DSE foi dirigido desde o incio por Ramiro Valds, um prximo de Fidel Castro desde o tempo de Sierra Madre. Com o decorrer dos anos, desempenhou um papel cada vez mais considervel, conquistando uma certa autonomia. Teoricamente, ele  subordinado ao "Minit", o Ministrio do Interior. Abrange vrios ramos, que foram bem detalhados pelo general da Fora Area, Del Pino, que se refugiou em Miami, em 1987. Algumas sees esto encarregadas de vigiar todos os funcionrios das administraes. A 3 seo controla os que trabalham no setor da cultura, dos desportos e da criao artstica (escritores, cineastas). A 4 seo ocupa-se dos organismos relacionados com a economia e com o Ministrio dos Transportes e Comunicaes. A 6 seo, que emprega mais de mil agentes, est encarregada das escutas telefnicas. A 8 seo vigia as correspondncias, quer dizer, viola o segredo postal. Outras sees vigiam o corpo diplomtico e os visitantes estrangeiros. O DSE sustenta a sobrevivncia do sistema castrista utilizando para fins econmicos os milhares de detidos condenados a trabalhos forados. Ele se constitui de um mundo de privilegiados que dispem de poderes ilimitados.
	A Direccin Especial el Ministrio dei Interior, ou DEM, recruta chiva-tos (informantes) aos milhares, a fim de controlar a populao. A DEM trabalha segundo trs eixos: o primeiro, chamado "informao", consiste em estabelecer um processo sobre cada cubano; o segundo, "o estado da opinio", sonda a opinio dos habitantes; o terceiro, designado por "linha ideolgica", tem por misso vigiar as igrejas e as congregaes atravs da infiltrao de agentes.
	Desde 1967, o Minit dispe das suas prprias tropas de interveno: as Fuerzas Especiales. Em 1995, elas contavam 50 mil homens. Essas tropas de choque colaboram estreitamente com a Direccin 5 e com a Direccin de Seguridad Personal(servio de proteo pessoal). Guarda pretoriana de Castro, a DSP  composta por trs unidades de escolta de mais de cem homens cada. Reforada por homens-r e um destacamento naval, deve proteger fisicamente Fidel Castro. Estimava-se, em 1995, em vrios milhares de homens os efetivos encarregados dessa tarefa. Alm disso, especialistas estudam os cenrios possveis de atentados contra o lder, provadores testam a sua alimentao, e um corpo mdico especial est  sua disposio 24 horas por dia.
	A Direccin 5  "especializada" na eliminao de opositores. Dois autnticos opositores de Batista que se tornaram anticastristas foram vtimas dessa seo: Elias de Ia Torriente foi abatido em Miami, e Aldo Vera, um dos chefes da guerrilha urbana contra Batista, foi assassinado em Porto Rico. No exlio em Miami, Hubert Matos  obrigado a fazer-se proteger por vrios guardas armados. As detenes e os interrogatrios conduzidos pela Direccin 5 realizam-se no centro de deteno de Villa Marista, em Havana, um antigo edifcio da congregao dos Irmos Maristas. Ali, num universo fechado, ao abrigo dos olhares, num extremo isolamento para o detido, praticam-se torturas mais psquicas do que fsicas.
	Outra unidade da polcia poltica  a Direccin General de Ia Inteligncia (Direo Geral da Informao), que mais se assemelha a um servio de informaes clssico. As suas reas prediletas so a espionagem, a contra-espiona-gem, a infiltrao nas administraes dos pases no comunistas e nas organizaes dos exilados cubanos.
	 possvel fazer um balano da represso dos anos 60: entre sete e dez mil pessoas foram fuziladas, e avaliava-se em 30 mil o nmero de detidos polticos. Em consequncia, o governo castrista teve muito rapidamente de gerir um nmero considervel de presos polticos, principalmente com os prisioneiros de Escambray e os de Playa Giron - a baa dos Porcos.
	A Unidade Militar de Apoio  Produo (UMAP), que funcionou entre 1964 e 1967, foi o primeiro ensaio de desenvolvimento de trabalho penitencirio. Operacionais em novembro de 1965, os campos da UMAP eram verdadeiros campos de concentrao, para onde eram desordenadamente atirados religiosos (catlicos, entre os quais o atual arcebispo de Havana, Mons. Jaime Ortega, protestantes, testemunhas de Jeov), proxenetas, homossexuais e quaisquer indivduos considerados "potencialmente perigosos para a sociedade". Os prisioneiros tinham de construir eles mesmos os seus abarraeamentos, principalmente na regio de Camaguey. As "pessoas socialmente descantes" eram submetidas a uma disciplina militar, que se transformou num regime de maus-tratos, de subalimentao e de isolamento. Para escapar a esse inferno, havia detidos que se automutilavam. Outros saram psiquicamente destrudos pelo encarceramento. Uma das funes da UMAP foi a "reeduca-o" dos homossexuais. Antes da sua criao, alguns deles unham perdido os empregos, principalmente na rea cultural; a Universidade de Havana foi alvo de depuraes anti-homossexuais, e era comum "julg-los" em pblico, no prprio local de trabalho. Eram forados a reconhecer os seus "vcios", a renunciar aos mesmos ou serem despedidos, antes de serem presos. Os protestos internacionais provocaram o encerramento dos campos da UMAP aps dois anos de existncia.
	Em 1964, foi implementado um programa de trabalho forado na ilha dos Pinheiros: o plano "Camillo-Cienfuegos". A populao penal foi organizada em brigadas divididas em grupos de 40 pessoas, as cuadrillas, comandadas por um sargento ou por um tenente; os prisioneiros eram destinados aos trabalhos agrcolas ou  extrao nas pedreiras, sobretudo de mrmore. As condies de trabalho eram muito duras, os detidos trabalhavam quase nus vestindo um simples calo.  guisa de punio, os recalcitrantes eram obrigados a cortar erva com os dentes, e outros foram jogados dentro de fossas de excrementos durante vrias horas.
	A violncia do regime penitencirio atingiu tanto os presos polticos quanto os de direito comum. Comeava com os interrogatrios conduzidos pelo Departemento Tcnico de Investigaciones, a seo encarregada dos inquritos. O DTI utilizava o isolamento e explorava as fobias dos detidos: uma mulher que tinha horror a insetos foi encarcerada numa cela infestada de baratas. O DTI usou presses fsicas violentas: havia prisioneiros que eram forados a subir escadas calando sapatos recheados com chumbo, e em seguida eram atirados degraus abaixo.  tortura fsica juntava-se a tortura psquica, frequentemente com acompanhamento mdico; os guardas utilizavam o pentotal e outras drogas, a fim de manter os presos acordados. No hospital de Mazzora, os eletrochoques eram usados com fins repressivos, sem qualquer restrio. Os guardas empregavam ces de guarda, procediam a simulaes de execuo; as celas disciplinares no tinham gua nem eletricidade; o detido que se pretendia despersonalizar era mantido em completo isolamento.
	Uma vez que em Cuba a responsabilidade  considerada coletiva, o mesmo acontece com o castigo. Trata-se de um outro meio de presso: os familiares do detido pagam socialmente o empenhamento poltico do seu parente. Os filhos no tm acesso  universidade, e os cnjuges perdem o emprego.
	H que se distinguirem as prises "normais" das prises de segurana subordinadas ao GII (a polcia poltica). A priso Kilo 5,5 - localizada exata-mente nesse quilmetro da auto-estrada de Pinar dei Rio -  um estabelecimento de alta segurana que ainda existe atualmente. Ela era dirigida pelo capito Gonzalez, apelidado El Nato, que misturava frequentemente presos polticos e de direito comum. Nas celas previstas para dois prisioneiros acumulavam-se sete ou oito, com todos dormindo no cho. As celas disciplinares se chamavam Tostadoras, em virtude do calor insuportvel ali reinante tanto no inverno como no vero. Kilo 5,5  um centro fechado, no qual os detidos confeccionam artigos de artesanato. Existe tambm uma seo para mulheres. Em Pinar dei Rio foram construdas celas subterrneas e salas de interrogatrio. Ali, a tortura , desde h alguns anos, mais psicolgica do que fsica, especialmente a tortura pela privao do sono, bem conhecida desde os anos 30 na URSS.  ruptura do ritmo de sono e  perda da noo do tempo acrescem as ameaas aos familiares e uma chantagem sobre a freqncia das visitas. A priso Kilo 7, em Camagiiey,  particularmente violenta. Em 1974, uma disputa causou a morte de 40 prisioneiros.
	O centro do GII de Santiago de Cuba, construdo em 1980, tem o terrvel privilgio de possuir celas com temperaturas bastante elevadas e celas com temperaturas muito baixas. Os prisioneiros so despertados de 20 em 20 ou 30 em 30 minutos. Esse procedimento pode durar vrios meses. Nus, totalmente isolados do mundo exterior, muitos prisioneiros que so submetidos a essas torturas psquicas apresentam ao fim de algum tempo perturbaes irreversveis.
	A priso mais tristemente clebre foi, durante muito tempo, a de Cabana, onde foram executados Sori Marin e Carreras. Ainda em 1982, cerca de cem prisioneiros foram ali fuzilados. A "especialidade" de Cabana eram as masmorras de reduzidas dimenses chamadas ratoneras (buracos de rato). Ela foi desativada em 1985. Mas as execues prosseguem em Columbio, em Boniato, priso de alta segurana onde reina uma violncia sem limites e onde dezenas de polticos so mortos de fome. Para no serem violentados pelos presos de direito comum, alguns se lambuzam com excrementos. Boniato continua a ser ainda hoje a priso dos condenados  morte, sejam polticos ou de direito comum.  clebre pelas suas celas de rede de arame, as tapiadas. Por falta de assistncia mdica, dezenas de prisioneiros encontraram a morte nessas celas. Os poetas Jorge Valls, que devia cumprir 7.340 dias de priso, e Ernesto Diaz Rodriguez, assim como o comandante Eloy Guttierrez Menoyo, testemunharam as condies particularmente duras que ali vigoram. Em agosto de 1995, ocorreu uma greve de fome lanada conjuntamente pelos presos polticos e pelos de direito comum, a fim de denunciar as condies de vida deplorveis: alimentao pssima e doenas infecciosas (tifo, leptospiro-se). A greve durou quase um ms.
	Algumas prises voltaram a pr em vigor as jaulas de ferro. No fim dos anos 60, na priso de Trs Macios dei Oriente, as gavetas (celas), destinadas originalmente aos presos de direito comum, foram ocupadas pelos presos polticos. Tratava-se de uma cela de l metro de largura por 1,8 metro de altura, e com um comprimento de uma dezena de metros. Nesse universo fechado, em que a promiscuidade  dificilmente suportvel, sem gua nem higiene, os prisioneiros permaneciam semanas, s vezes vrios meses.
	Nos anos 60, foram inventadas as requisas (buscas) com fins repressivos. Em plena noite, os detidos eram acordados e expulsos violentamente das suas celas. Atordoados pelas pancadas, muitas vezes nus, eram obrigados a aguardar em grupo o fim da inspeo antes de voltarem s celas. As requisas podiam repetir-se vrias vezes por ms.
	As visitas dos familiares proporcionavam aos guardas o ensejo de humilhar os detidos. Em Cabana, eles deviam se apresentar nus perante a famlia. Os maridos encarcerados eram obrigados a assistir  revista ntima das esposas.
	No universo carcerrio de Cuba, a situao das mulheres  especialmente dramtica, uma vez que elas so entregues sem defesa ao sadismo dos guardas. Mais de 1.100 mulheres foram condenadas por motivos polticos desde 1959. Em 1963 elas eram encarceradas na priso de Guanajay. Os testemunhos reunidos estabelecem o uso de sesses de espancamento e de humilhaes diversas. Um exemplo: antes de passarem pela ducha, as detidas deviam despir-se diante dos guardas, que lhes batiam. No campo de Potosi, na zona de Ls Victorias de Ias Tunas, contavam-se, em 1986, trs mil mulheres encarceradas  estando misturadas delinquentes, prostitutas e polticas. Em Havana, a priso de Nuevo Amenacer continua a ser a mais importante. Amiga de Castro de longa data, representante de Cuba na UNESCO nos anos 70, a doutora Martha Frayde descreveu assim esse centro carcerrio, onde as condies de vida eram particularmente duras: "A minha cela tinha seis metros por cinco. ramos 22 dormindo em catres sobrepostos a dois ou a trs. [...] Na nossa cela, chegou a acontecer de sermos 42. [...] As condies de higiene tornavam-se totalmente insuportveis. As tinas onde devamos nos lavar estavam cheias de imundcies. Tornara-se absolutamente impossvel fazer a nossa toilette. [...] Comeou a faltar gua. A limpeza dos banheiros tornou-se impossvel. Primeiro encheram e depois transbordaram. Formou-se uma camada de excrementos que invadiu as nossas celas. Depois, como uma onda irreprimvel, atingiu o corredor e depois a escada, escoando-se at o jardim. [...] As prisioneiras polticas fizeram um tal escarcu, que a direo da priso decidiu mandar vir um caminho-pipa. [...] Com a gua putrefata do caminho, varremos os excrementos. Todavia, a gua trazida no era suficiente, e foi preciso continuar a viver naquela imundcie nauseabunda que s foi resolvida alguns dias mais tarde."
	Um dos maiores campos de concentrao, o ElManbi, situado na regio de Camagiiey, comportava nos anos 80 mais de trs mil prisioneiros. O de Siboney, onde as condies de vida, como a alimentao, tambm so execrveis, possui o terrvel privilgio de ter um canil. Os pastores-alemes so utilizados na busca dos prisioneiros evadidos.
	Existem em Cuba campos de trabalho de "regime severo". Os condenados que no regressarem aos seus locais de deteno so julgados pelo tribunal popular interno do campo e transferidos para um campo de regime severo onde os Consejos de trabajo de los presos (conselhos de trabalho dos prisioneiros) desempenham uma funo semelhante  dos kapos dos campos nazistas: esses "conselheiros" julgam e punem os seus prprios companheiros de priso.
	Frequentemente, as penas so agravadas por iniciativa do enquadramento carcerrio. Aquele que se rebela v uma nova pena juntar-se  inicial. A segunda pena sanciona a recusa de se usar o uniforme dos presos de direito comum, ou de participar nos "planos de reabilitao", ou ainda uma greve de fome. Nesse caso, os tribunais, tendo em conta que o detido pretendia prejudicar a segurana do Estado, requerem uma pena de "medidas de segurana". Trata-se, de fato, de uma renovao de um a dois anos da deteno no campo de trabalho. No  raro os detidos cumprirem mais um tero ou ainda a metade da pena inicial. Condenado a dez anos de priso, Boitel acumularia por esse sistema 42 anos de encarceramento.
	Situado prximo de Santiago de Ls Vegas, o campo Arco-ris est concebido para receber 1.500 adolescentes. No  o nico: existe tambm o de Nueva Vida, no sudeste da ilha. Na zona de Paios, situa-se o Capitiolo, campo de internamento especial reservado a crianas com cerca de 10 anos. Os adolescentes cortam cana ou fazem trabalhos de artesanato, tais como as crianas enviadas para estgio em Cuba pelo MPLA de Angola ou pelo regime etope nos anos 80. Outros ocupantes dos campos e das prises, os homossexuais conhecem todo o gnero de regimes carcerrios: aos trabalhos forados e  UMAP sucedem-se os encarceramentos "clssicos" em priso. Por vezes, dispem de uma zona especial dentro da priso;  o caso da Nueva Carceral de La Habana dei Este.
	Desprovido de qualquer direito, o detido  no entanto submetido e integrado a um "plano de reabilitao", que supostamente o prepararia para a sua insero na sociedade socialista. Esse plano compreende trs fases: a primeira  o chamado "perodo de segurana mxima" e decorre na priso; a segunda  designada por "segurana mdia" e realiza-se numa granja; a terceira, dita de "segurana mnima", decorre em "frente aberta".
	Os detidos que "cursavam o plano" usavam o uniforme azul, como os de direito comum. De fato, o regime tentou por esse processo confundir os presos polticos e os de direito comum. Os polticos que recusavam o plano usavam o uniforme amarelo (amarillo) do exrcito de Batista, vexame insuportvel para os numerosos prisioneiros de opinio formada que vinham das fileiras da luta antibatistiana. Esses detidos "indisciplinados", opositores ao plano (plantado), recusavam energicamente tanto um uniforme como o outro. As autoridades os deixavam por vezes anos inteiros vestidos com simples cales, da o seu nome de calzoncillos, e no recebiam qualquer visita. Huber Matos, que foi um deles, testemunhou: "Vivi, portanto, vrios meses sem uniforme e sem visitas. Encontrava-me na solitria apenas por ter recusado submeter-me ao arbtrio das autoridades. [...] Preferi ficar nu, no meio dos outros prisioneiros tambm despidos, numa promiscuidade dificilmente suportvel".
	A passagem de uma fase para a outra depende da deciso de um "oficial reeducador", que, em geral, pretende impor a resignao ao detido em curso de reeducao atravs do esgotamento fsico e moral. Antigo funcionrio do regime, Carlos Franqui analisa desse modo o esprito do sistema: "O opositor  um doente, e o policial o seu mdico. O prisioneiro ser libertado quando inspirar confiana ao policial. Se no aceitar a 'cura', o tempo no conta".
	As penas mais pesadas cumprem-se na priso. A Cabana, que foi desati-vada em 1974, tinha uma zona especial reservada aos presos civis (a zona 2) e uma outra para os militares (a zona 1). Na zona 2, houve rapidamente mais de mil homens distribudos por galerias de 30 metros de comprimento por seis de largura. Existiam tambm prises dependentes do GII, a polcia poltica.
	Os condenados a penas leves de trs a sete anos de priso tm residncia fixa em frentes ou em granjas. A granja  uma inovao castrista. E constituda por acampamentos confiados aos guardas do Ministrio do Interior, os quais tm o direito de disparar sobre qualquer pessoa que tente fugir. Rodeada por vrias redes de arame farpado e torres de vigia, assemelha-se ao campo de trabalho corretivo sovitico. Algumas granjas podiam comportar de 500 a 700 prisioneiros. As condies de deteno so horrveis: trabalho de 12 a 15 horas por dia, com guardas que no hesitam em perfurar os detidos com as pontas das baionetas para acelerar o seu ritmo.
	Quanto  "frente aberta", trata-se de um canteiro de trabalho onde o prisioneiro tem residncia fixa, sendo geralmente posto sob comando militar. So sempre canteiros de construo onde o nmero de detidos  varivel, de 50 a mais de uma centena, e por vezes 200, se a obra  importante. Os detidos nas granjas - polticos ou de direito comum - produzem elementos pr-fabricados para uso dos presos das frentes abertas. O detido de uma frente aberta dispe de trs dias de licena no fim de cada ms. Segundo vrios testemunhos, a alimentao  ali menos m do que nos campos. Cada frente  independente, o que permite uma gesto mais fcil dos detidos, evitando uma concentrao demasiada de polticos que podiam criar focos de dissidncia.
	Esse tipo de sistema apresenta um interesse econmico indiscutvel. 10 Por exemplo, todos os detidos so mobilizados para o corte da cana-de-acar, a Zafra, O responsvel das prises em Oriente, no sul da ilha, Papito Struch, declarou em 1974: "Os detentos constituem a principal fora de trabalho de Cuba". Em 1974, o valor dos trabalhos realizados representava mais de 348 milhes de dlares. Todos os organismos do Estado recorrem aos prisioneiros. Assim, nos canteiros de trabalho do Desenvolvimento dos Trabalhos Sociais e Agrcolas (DESA) cerca de 60% da mo-de-obra utilizada  de detidos. Os prisioneiros trabalham em dezenas de stios em Los Valles de Picadura que se constituem como uma vitrine para os benefcios da reeducao pelo trabalho. Dezenas de convidados do governo visitaram essas instalaes, entre os quais chefes de Estado como Leonid Brejnev, Houari Boumediene e Franois Mitterrand, em 1974.
	Todas as escolas secundrias de provncia foram construdas por presos polticos com um enquadramento civil reduzido ao mnimo, como alguns tcnicos. Em Oriente, no Camagiiey, os presos construram mais de 20 escolas politcnicas. Em toda a ilha, numerosas centrais aucareiros existem graas ao seu trabalho. O semanrio Bohemia discriminou outros trabalhos realizados pela mo-de-obra carcerria: centrais leiteiras e centrais de criao de bovinos na provncia de Havana; oficinas de carpintaria e escolas secundrias em Pinar dei Rio; uma instalao suincola, uma central leiteira e uma oficina de carpintaria em Matanzas; duas escolas secundrias e dez centrais leiteiras em Ls Villas... Os planos de trabalho, cada ano mais exigentes, requerem uma quantidade cada vez mais significativa de prisioneiros.
	Em setembro de 1960, Castro criou os Comits de Defesa da Revoluo (CDR). Esses comits de bairro tm por base a cuadra, o conjunto de casas  frente do qual  colocado um responsvel encarregado de vigiar os compls "contra-revolucionrios" entre a totalidade de habitantes. Esse enquadramento social  particularmente estreito. Os membros do comit so obrigados a assistir s reunies do CDR e so mobilizados para rondas, a fim de frustrar a "infiltrao inimiga". A consequncia desse sistema de vigilncia e delao foi a intimidade das famlias ter deixado de existir.
	A finalidade dos CDRs tornou-se manifesta quando, em maro de 1961, por instigao de R. Valds, chefe da Segurana, se organizou e perpetrou uma grande ttenum fim de semana. Foi a partir das listas estabelecidas pelos CDRs que mais de cem mil pessoas foram interpeladas e vrios milhares delas conduzidas a centros de deteno: estdio, edifcios ou ginsios.
	Os cubanos foram profundamente abalados pelo xodo em massa do porto de Mariel, em 1980. Esse efeito foi agravado pela ao dos CDRs, que organizaram actos de repudio destinados a marginalizar socialmente e a quebrar o moral dos opositores  doravante designados pelo nome de gusanos (vermes) - e das suas famlias. Agrupada diante da casa do opositor, uma multido rancorosa bombardeia com pedras e injrias os seus moradores. Slogans castristas e insultos so inscritos nas paredes. A polcia s intervm quando "a ao revolucionria de massas" se torna fisicamente perigosa para a vtima. Essa prtica de quase-linchamento alimenta no interior da populao sentimentos de dio recproco numa ilha em que todos so conhecidos por todos. Os atos de repdio quebram os laos entre vizinhos, alteram o tecido social para melhor impor o todo-poderoso Estado socialista. A vtima - vaiada aos gritos de "Afitera, gusano!" ("Fora, verme!"), "Agente de Ia CIA!" e, claro, " Viva Fidel!" - no tem qualquer hiptese de defender-se na justia. O presidente do Comit Cubano para os Direitos do Homem, Ricardo Bofill, foi sujeito a um ato de repdio em 1988. Em 1991, foi a vez de Oswaldo Payas Sardinas, presidente do movimento cristo Libertao. Mais tarde, perante o cansao dos cubanos em relao a essas orgias de dio social, as autoridades comearam a utilizar pessoas provenientes de bairros diferentes dos das vtimas.
	Segundo o artigo 16 da Constituio, o Estado, "organiza, dirige e controla a atividade econmica em conformidade com as diretivas do Plano nico de Desenvolvimento Econmico e Social". Por detrs dessa fraseologia cole-tivista, esconde-se uma realidade prosaica: o cubano no dispe nem da sua fora de trabalho nem do seu dinheiro na sua prpria terra. Em 1980, o pas conheceu uma onda de descontentamento e de perturbaes: alguns armazns do Estado foram queimados. O DSE prendeu de imediato 500 "opositores", em menos de 72 horas. Depois, os servios de segurana intervieram na provncia contra os mercados livres camponeses, e, por fim, foi lanada em todo o pas uma vasta campanha contra os traficantes do mercado negro.
	Adotada em maro de 1971, a Lei n 32 reprimia o absentesmo no trabalho. Em 1978, foi promulgada a lei de "periculosidade pr-delituosa". Em outras palavras, um cubano podia, a partir de ento, ser preso sob qualquer pretexto, desde que as autoridades considerassem que o indivduo representava um perigo para a segurana do Estado, mesmo que no tivesse praticado qualquer ato nesse sentido. Efetivamente, essa lei institui como crime a manifestao de qualquer pensamento no conforme aos cnones do regime. E mais ainda, uma vez que todos e cada um se tornaram potencialmente suspeitos.
	Depois da UMAP, o regime utilizou detidos do Servio Militar Obrigatrio. Criada em 1967, a Colnia Juvenil do Centenrio11 tornou-se, em 1973, El Ejrcito Juvenil dei Trabajo. Organizao paramilitar, os jovens trabalham nos campos e participam em obras de construo em condies frequentemente terrveis, com horrios dificilmente suportveis, por um salrio ridculo de 7 pesos, ou seja, um tero de dlar em 1997.
	Essa militarizao da sociedade esteve presente desde antes da guerra em Angola. Qualquer cubano em ordem com o servio militar tinha o seu certificado de alistamento verificado por um comit militar, apresentando-se semestralmente para o controle de sua situao (trabalho, residncia).
	Nos anos 60, os cubanos "votaram com os remos". Em 1961, os primeiros a deixar Cuba em grande quantidade foram os pescadores. O balsero, equivalente cubano do boat-people do Sudeste da sia, pertence  paisagem humana da ilha, tal como o cortador de cana. O exlio  utilizado de modo sutil por Castro como meio de regulao das tenses internas na ilha. Esse fenmeno, presente desde a origem, foi constante at meados dos anos 70. Muitos foram para a Flrida ou para a base americana de Guantnamo.
	Mas o fenmeno foi levado ao conhecimento do mundo inteiro com a crise de abril de 1980. Milhares de cubanos cercaram a embaixada do Peru em Havana, exigindo vistos de sada para fugir a um cotidiano insuportvel. No fim de vrias semanas, as autoridades permitiram que 125 mil pessoas - numa populao que, na poca, era de 10 milhes de habitantes  abandonassem o pas embarcando no porto de Mariel. Castro aproveitou o ensejo para "libertar" os doentes mentais e os pequenos delinquentes. Esse xodo em massa foi uma manifestao do fracasso do regime, pois os Marielitos, como foram chamados, eram oriundos das camadas mais humildes da sociedade, s quais o regime dizia dar uma grande ateno. Brancos, mulatos e negros, frequentemente jovens, fugiam do socialismo cubano. Aps o episdio de Mariel, numerosos cubanos inscreveram-se em listas para conseguir o direito de abandonar o seu pas. Dezessete anos mais tarde, eles continuam  espera dessa autorizao.
	No decorrer do vero de 1994, Havana foi palco, pela primeira vez desde 1959, de violentos tumultos. Candidatos  partida, no podendo embarcar nas balsas, as jangadas improvisadas confrontaram-se com a polcia. Nas ruas do bairro Colomb, a avenida marginal  o Malecn  foi saqueada. O restabelecimento da ordem implicou vrias dezenas de detenes, mas, finalmente, Castro autorizou novo xodo de 25 mil pessoas. Posteriormente, as partidas no cessaram, e as bases americanas de Guantnamo e do Panam esto saturadas de exilados voluntrios. Castro tentou igualmente travar essas fugas em jangadas, enviando helicpteros para bombardear as frgeis embarcaes com sacos de areia. Cerca de sete mil pessoas pereceram no mar durante o vero de 1994. Ao todo, estima-se que um tero dos baheros morreu durante a fuga. Em 30 anos, teriam sido entre 25 mil e 35 mil os cubanos que tentaram a fuga pelo mar. No total, os diversos xodos fazem com que Cuba tenha atualmen-te 20% dos seus cidados no exlio. Numa populao global de 11 milhes de habitantes, perto de 2 milhes de cubanos vivem fora da ilha. O exlio desarticulou as famlias, e so incontveis as que esto dispersas entre Havana, Miami, Espanha ou Porto Rico...
	De 1975 a 1989, Cuba deu apoio ao regime marxista-leninista do Movimento Popular para a Libertao de Angola  MPLA  (ver a contribuio de Yves Santamaria), ao qual se opunha a UNITA de Jonas Savimbi. Aos inmeros "cooperantes" e s dezenas de "conselheiros tcnicos", Havana juntou um corpo expedicionrio de 50 mil homens. O exrcito cubano comportou-se na frica como em terreno conquistado. Os trficos foram numerosos (dinheiro, marfim, diamantes), e a corrupo, endmica. Quando, em 1989, os acordos de Nova York sancionaram o fim do conflito, as tropas cubanas, na maioria negros, foram repatriadas. Mas as suas baixas esto avaliadas entre 7 mil e 11 mil mortos.
	As convices de numerosos oficiais haviam sido abaladas por essa experincia. O general Arnaldo Ochoa - chefe do corpo expedicionrio em
12  constante em Castro a vontade de apoiar as revolues fora de Cuba at os anos 80. Em 1979-1980, ele envia 600 conselheiros militares para Granada, a fim de apoiar o regime socialista pr-sovitico de Maurice Bishop. Em 1983, apesar da sua interveno, os americanos aprisionaram 750 cubanos.

Angola e, alm disso, membro do Comit Central do Partido Comunista -decidiu organizar uma conspirao para depor Castro. Preso, foi julgado por um tribunal militar, na companhia de vrios altos responsveis das Foras Armadas e dos Servios de Segurana, entre os quais os irmos La Guardi. Estes ltimos tinham cooperado no trfico de drogas por conta do servio MC, servio especial apelidado pelos cubanos "Marihuana y Cocana". No era o caso de Ochoa, que s trouxera de Angola algum marfim e diamantes. Na realidade, Castro aproveitou a ocasio para livrar-se de um rival potencial que, pelo seu prestgio e pelas suas altas funes polticas, era suscetvel de canalizar o descontentamento. Com Ochoa condenado e executado, o exrcito foi depurado, o que desestabilizou e traumatizou ainda mais a instituio. Consciente do forte ressentimento dos oficiais relativamente ao regime, Fidel confiou a direo do Ministrio do Interior a um general prximo de Raul Castro, tendo o seu antecessor sido sacrificado por "corrupo" e "negligncia". Mas, a partir de ento, o regime s pode contar com certeza com a devoo cega das Foras Especiais.
	Em 1978, havia entre 15.000 e 20.000 prisioneiros de opinio. Muitos vinham do M-26, dos movimentos estudantis antibatistianos, das guerrilhas de Escambray ou dos antigos da baa dos Porcos. Em 1986, estimava-se de 12.000 a 15.000 o nmero de prisioneiros polticos encarcerados em 50 prises "regionais" distribudas por toda a ilha. A isto juntam-se hoje mltiplas frentes abertas reforadas por brigadas de 50, 100 e mesmo 200 prisioneiros. Ali, algumas frentes abertas esto organizadas em meios urbanos. Assim, Havana dispunha de seis no fim dos anos 80. Hoje, o governo reconhece a existncia de 400 a 500 prisioneiros polticos. No entanto, na primavera de 1997, Cuba conheceu uma nova onda de prises. Na opinio dos responsveis cubanos dos direitos do homem, eles prprios muitas vezes antigos presos, j no se pratica a tortura fsica em Cuba. De acordo com os mesmos responsveis e a Anistia Internacional, haveria, em 1997, entre 980 e 2.500 prisioneiros polticos (homens, mulheres e adolescentes).
	Desde 1959, mais de cem mil cubanos conheceram os campos, as prises ou as frentes abertas. Entre 15.000 e 17.000 pessoas foram fuziladas. "No h po sem liberdade, no h liberdade sem po", proclamava, em 1959, o jovem advogado Fidel Castro. Mas, como esclarecia um dissidente antes do incio do "regime especial" - o fim do auxlio sovitico: "Uma priso, embora abastecida de alimentos, sempre ser uma priso".
	Tirano que parece fora do tempo, Castro, perante os fracassos do seu regime e as dificuldades que Cuba enfrenta, afirmava, em 1994, que "preferia morrer a renunciar  revoluo". Que preo tero ainda de pagar os cubanos para satisfazer o seu orgulho?

	NICARGUA: O FRACASSO DE UM PROJETO TOTALITRIO

	Pequeno pas da Amrica Central, situado entre El Salvador e Costa Rica, a Nicargua  marcada por uma tradio de sobressaltos polticos sangrentos. Durante vrias dcadas, foi dominada pela famlia Somoza e pelo seu chefe, o general Anastasio Debayle Somoza, "eleito" presidente da Repblica em fevereiro de 1967. Pouco a pouco, graas a uma terrvel Guarda Nacional, a famlia Somoza apropriou-se de cerca de 25% das terras arveis, da maioria das plantaes de tabaco, de acar, de arroz e de caf e de uma grande quantidade de fbricas.
	Essa situao provocou o aparecimento de movimentos de oposio armada. Inspirando-se no modelo cubano, Carlos Fonseca Amador e Toms Borge fundaram a Frente Sandinista de Libertao Nacional (FSLN) (retirado do nome de Csar Sandino, antigo oficial que organizou a guerrilha na poca anterior  guerra e que foi assassinado em 1934). Sem apoio exterior, a Frente manteve com dificuldade alguns focos de guerrilha. Em 1967, estouraram tumultos em Mangua, e a Guarda Nacional matou pelo menos 200 pessoas nas ruas da capital. Depois do assassinato, em 1978, de Pedro Joaquim Chamorro, patro do jornal liberal La Prensa, a FSLN, apoiada durante vrios anos por Cuba, relanou a guerrilha. Desencadeou-se ento uma verdadeira guerra civil entre a Frente e a Guarda Somozista. Em 22 de fevereiro de 1978, a cidade de Masaya sublevou-se. Em agosto, um comandante da guerrilha, den Pastora, apoderou-se do palcio presidencial de Somoza, em Mangua, e conseguiu a libertao de numerosos responsveis da FSLN. Em setembro, a Guarda Nacional, para reconquistar Estel, bombardeou a cidade com napalm e massacrou grande quantidade de civis em confrontos de rua extremamente violentos. Saram da Nicargua 160.000 pessoas para a vizinha Costa Rica. Em abril de 1979, as cidades de Estel e de Len revoltaram-se novamente, assim como Granada. Mais bem coordenado do que no ano anterior, o esforo dos revolucionrios foi muito mais compensador, pois  certo que os somozistas j haviam conseguido juntar contra si a quase-totalidade da populao. Em junho, Mangua revoltou-se, e, em 17 de julho de 1979, o ditador, que tinha perdido todo o apoio internacional, foi obrigado a deixar o pas. O custo da guerra civil e da represso se situaria entre 25.000 e 35.000 mortos; os sandinistas avanam o nmero de 50.000 vtimas. De qualquer maneira, o preo pago por esse pas de trs milhes de habitantes era enorme.
Ortega-Pastora: dois itinerrios revolucionrios
	Ambos nicaragienses, conhecem desde muito jovens as masmorras de Somoza. Proveniente da mdia burguesia fundiria, Pastora tem cerca de 20 anos quando os barbudos triunfam em Cuba. Ortega nasceu em 1945, num meio modesto. No incio dos anos 60, participa na luta nas fileiras das organizaes de juventude anti-somozistas.
	A Frente Sandinista de Libertao Nacional, criada em 1961 por Carlos Fonseca Amador e Toms Borge, rene, de maneira precria, diversas tendncias. Alis, os dois fundadores demonstram sensibilidades diferentes. Amador  castris-ta, enquanto Borge se reclama de Mao Ts-tung. No decurso dos anos, distin-guem-se trs correntes no seio da FSLN: a "Guerra Popular Prolongada" (GPP, maosta) privilegia a luta a partir dos campos. A tendncia marxista-leninista ou "proletariana" de Amador e de Jaime Wheelock apia-se num proletariado embrionrio. A corrente "terceirista" ou "insurrecional", organizada pelos marxistas dissidentes e democratas, trabalha no sentido de construir a guerrilha urbana; Pastora idcntifica-se com essa tendncia, enquanto Ortega se junta aos proletaria-nos. Daniel Ortcga entrou na Revoluo por engajamento poltico; Pastora, para vingar o pai, opositor democrata abatido pela Guarda Somozista. Depois das greves insurrecionais de 1967 que se seguiram s pretensas eleies presidenciais, Pastora  preso. Torturado (ele foi ferido e obrigado a beber do seu prprio sangue) e depois solto, ele monta uma operao punitiva contra os seus carrascos. Os dois guerrilheiros que o acompanham chamam-se Daniel e Humberto Ortega. Em seguida,  a vez de Daniel Ortega cair nas garras da polcia somozista. den, por seu lado, continua a estruturar a guerrilha. Recebido por Fidel Castro, reafirma a sua preferncia por uma democracia parlamentar e tece laos com os democratas centro-americanos, como o costarriquenho Fugurs e o panamenho Torrijos. Ortega  libertado em 1974, aps a tomada, como refm, de um dignitrio somozista. Apressa-se a apanhar o primeiro avio para Havana. Pastora fica com os seus combatentes.
	Em outubro de 1977,  organizada uma sublevao em vrias cidades nica-ragiienses. Esmagados pela Guarda, batidos pela aviao somozista, Pastora e Ortega se retiram para a selva. Em janeiro de 1978, o pas inflama-se. Em agosto desse ano, Pastora toma de assalto a Cmara dos Deputados. Consegue, entre outras coisas, a libertao de todos os prisioneiros polticos, inclusive de Toms Borge. Daniel Ortega divide o seu tempo entre Havana e a Frente-Norte da Nicargua. Durante um ataque a Masaya, Camillo Ortega, um dos irmos de Daniel, encontra a morte. Bem-estruturada e apoiada pelos conselheiros cubanos, a insurreio ganha terreno. Os quadros da FSLN refugiados em Cuba regressam  Nicargua. Ao sul de Mangua, Pastora e seus muchachos lutam ferrenhamente contra as unidades de elite da Guarda.
	Aps o triunfo dos sandinistas, em julho de 1979, Pastora torna-se vice-ministro do Interior, enquanto Ortega , sem surpresa, eleito presidente da Repblica. Ortega se alinha abertamente com Cuba. Os conselheiros militares e "internacionalistas" cubanos abundam em Mangua. Pastora, cada vez mais isolado, reafirma a sua preferncia por uma democracia parlamentar. Desiludido, den Pastora demite-se, em junho de 1981, e organiza a resistncia armada no sul do pas.
	Vencedores, os anti-somozistas uniram-se de imediato numa Junta de Governo e de Reconstruo Nacional (JGRN), que agrupava os representantes das diferentes tendncias (socialistas, comunistas, mas tambm democratas e moderados). Essa Junta apresentou um programa com 15 pontos, o qual previa a implementao de um regime democrtico, baseado no sufrgio universal e na liberdade de organizao de partidos polticos. Entretanto, nesse meio tempo, o poder executivo permanecia nas mos da JGRN, no interior da qual os sandinistas vo se tornar preponderantes.
	Ajunta reconhece laos privilegiados com Cuba,14 embora no exclua uma participao ocidental na reconstruo da Nicargua, onde os estragos causados pela guerra civil so avaliados em 800 milhes de dlares. No entanto, muito rapidamente os democratas so marginalizados. Em maro de 1980, a viva de Pedro Joaquim Chamorro, Violeta Chamorro, uma das grandes figuras do combate anti-somozista, demitiu-se, seguida pouco depois por um outro lder, Adolfo Robelo. Entre outras coisas, eles recusavam o domnio da FSLN sobre o Conselho de Estado.
	Em paralelo a essa crise poltica, a Junta, doravante dominada pela FSLN, constituiu uma polcia secreta. Os sandinistas criaram as suas forcas armadas, transformando os 6.000 guerrilheiros de 1979 num exrcito que, dez anos mais tarde, contar 75.000 homens. O servio militar  instaurado a partir de 1980: os homens, dos 17 aos 35 anos, so mobilizveis e esto sujeitos  jurisdio dos tribunais militares, criados em dezembro de 1980. Qualquer estudante que no faa os seus cursos de instruo militar no pode ter esperana de obter um diploma. Esse exrcito devia tornar possvel a realizao de um sonho nascido na euforia da vitria: uma sequncia de vitrias das guerrilhas da Amrica Central, a comear por El Salvador. A partir de janeiro de 1981, as autoridades desse pas j denunciavam as incurses de combatentes sandinistas no seu territrio.
	O novo poder criou tribunais de exceo. O Decreto 185, de 5 de dezembro de 1979, instaurava instncias especiais para julgar os ex-membros da Guarda Nacional e os partidrios civis de Somoza. Os sandinistas pretendiam julgar os "criminosos somozistas", como os castrstas tinham julgado os "criminosos batistianos". Os detidos eram julgados segundo o Cdigo Penal em vigor  poca dos fatos imputados, mas os tribunais de exceo funcionavam  margem do sistema judicial normal, e o procedimento de recurso s podia ser apresentado perante a suprema corte desses mesmos tribunais. A estava um meio inelutvel para estabelecer uma jurisprudncia especial  margem do aparelho judicial ordinrio. Os procedimentos estavam plenos de irre-gularidades. Desse modo, havia por vezes crimes considerados como provados sem que tivesse sido produzida qualquer prova concreta. Os juizes no tinham em qualquer conta a inocncia presumida de todo acusado, e as condenaes baseavam-se mais frequentemente na noo de responsabilidade coletiva do que na prova de culpabilidade individual. Por vezes, foram condenadas pessoas sem o menor elemento suscetvel de provar a realidade do crime.
	A implementao dessa represso exigia dispor de um instrumento eficaz. O pas foi rapidamente controlado pelos 15.000 homens das tropas do Ministrio do Interior. Mas um servio - a Direccin General de Securidad dei Estado (DGSE) - foi mais especialmente encarregado da polcia poltica. Formada pelos agentes cubanos do GII, a DGSE dependia diretamente do Ministrio do Interior. Ela estava encarregada da deteno e do interrogatrio dos presos polticos e praticou a chamada "tortura limpa", aprendida junto dos peritos cubanos e alemes orientais. Nas regies rurais distantes, unidades do exrcito regular prenderam e detiveram, frequentemente durante vrios dias, civis suspeitos, em campos militares, antes de os enviarem  DGSE. Os interrogatrios desenrolavam-se principalmente no centro de deteno do Chipote, no complexo militar "German-Pomars", zona militar localizada nas encostas do vulco Loma de Tiscapa, nos arredores do Hotel Intercontinental, em Mangua. Dois membros do Partido Social Cristo, Jos Rodriguez e Juana Blandon, confirmam a utilizao de chantagens feitas sobre os familiares e de ruptura dos ritmos de sono. A Segurana recorria igualmente a tratamentos degradantes. Assim, havia presos mantidos em celas minsculas e escuras, de forma cbica, chamadas chiquitas (as pequenas). Era impossvel um homem sentar-se, e a rea do cho nunca ultrapassava um metro quadrado. As celas estavam mergulhadas numa escurido total, sem qualquer arejamento ou instalao sanitria. Houve prisioneiros que estiveram isolados nessas celas durante mais de uma semana. Os interrogatrios decorriam a qualquer hora do dia ou da noite, por vezes conduzidos sob a ameaa de uma arma, com simulaes de execuo ou ameaas de morte. Alguns presos eram privados de alimentao e gua aps a sua deteno. Ao fim de alguns dias de recluso, fisicamente extenuados, muitos deles acabaram por assinar depoimentos falsos que os incriminavam.
	Em 15 de maro de 1982, a Junta proclamou o estado de stio, o que lhe possibilitou encerrar as estaes de rdio independentes, suspender os direitos de reunio e limitar as liberdades sindicais, em virtude da resistncia das organizaes a tornarem-se rgos acessrios do poder que entendia limitar o seu papel na consolidao do regime. A tudo isso devem-se acrescentar as perseguies contra as minorias religiosas: protestantes, moravianistas ou testemunhas de Jeov. Em junho de 1982, a Anistia Internacional estimava esses prisioneiros em mais de 4.000 pessoas, entre as quais numerosos guardas somo-zistas, mas tambm vrias centenas de presos polticos. Um ano mais tarde, o numero de prisioneiros era calculado em 20.000 pessoas. Um primeiro balano da Comisso Permanente dos Direitos do Homem (CPDH), efetuado no fim de 1982, chamava a ateno para um fenmeno ainda mais grave, o dos mltiplos "desaparecimentos" de pessoas presas como "contra-revolucion-rios" e de mortos "no decorrer de tentativas de fuga".
	Paralelamente  implantao de um sistema repressivo, o regime empenhou-se numa centralizao econmica acelerada: o Estado controlava cerca de 50% dos meios de produo. Todo o pas teve de aceitar o modelo social imposto pela FSLN.  imagem de Cuba, o jovem poder sandinista cobriu o pas de organizaes de massa. Cada bairro tinha o seu Comit de Defesa do Sandinismo (CDS), cuja funo correspondia  dos CDRs cubanos: enquadrar militarmente o pas e vigiar os seus habitantes. As crianas, mais bem escolarizadas do que sob Somoza, pertenciam de fato s organizaes de pioneiros, os Camillitos- em memria de Camillo Ortega, o irmo do lder sandinista Daniel Ortega, morto em Masaya. As mulheres, os operrios e os camponeses viram-se incorporados em "associaes" estreitamente controladas pela FSLN. Os partidos polticos no gozavam de qualquer liberdade real. A imprensa foi rapidamente amordaada, e os jornalistas submetidos a uma censura terrvel. Gilles Bataillon caracterizou perfeitamente essa poltica: os san-dinistas pretendiam "ocupar a totalidade do espao social e poltico".

       Os sandinistas e os ndios

	Na costa atlntica da Nicargua viviam cerca de 150.000 ndios: Miskito, Sumu ou Rama, bem como Crioulos e Ladinos. Os sandinistas declararam-se muito rapidamente contra essas comunidades decididas a defender a sua terra e sua lngua e que tinham se beneficiado at ento de uma autonomia vantajosa, iseno de impostos e de servio militar, herdada da poca colonial. Em outubro de 1979, o lder da Alpromisu, Lyster Athders, foi assassinado dois meses depois de ter sido detido. No incio de 1981, os lderes nacionais de Misurasata, a organizao poltica que agrupava as diferentes tribos, so presos, e, em 21 de fevereiro de 1981, as foras armadas que intervinham contra os monitores da alfabetizao mataram sete miskitos e feriram outros 17. Em 23 de dezembro de 1981, em Leimus, o exrcito sandinista massacrava 75 mineiros que tinham reivindicado o pagamento de salrios atrasados. No dia seguinte, outros 35 mineiros tiveram a mesma sorte.
	Outro recurso da poltica sandinista consistia em deslocar as populaes, a pretexto de "proteg-las contra as incurses armadas dos antigos guardas somozis-tas instalados em Honduras". Durante essas operaes, o exrcito cometia imensas exaes. Milhares de ndios (7 a 15 mil, segundo as estimativas da poca) refugiaram-se em Honduras, enquanto vrios outros milhares (14.000) eram aprisionados na Nicargua. Os sandinistas disparavam sobre os fugitivos que atravessavam o rio Coco.  essa situao triplamente inquietante - massacres, deslocamento de populaes e exlio no estrangeiro - que autoriza o etnlogo Gilles Bataillon a falar de "poltica etnocidria".
	Essa virada autoritria levantou contra a administrao de Mangua as tribos indgenas, que se agruparam em duas guerrilhas, a Misura e a Misurata. A se encontraram misturados ndios Sumo, Rama e Miskito, cujo modo de vida comunitrio era incompatvel com a poltica integracionista dos Comandantes de Mangua.
	Escandalizado, den Pastora protestara a plenos pulmes no Conselho de Ministros: "O prprio tirano Somoza deixou-os em paz. Ele os explorou, mas vocs querem proletariz-los  fora!" Toms Borge, o ferrenho maosta ministro do Interior, retorquiu-lhe que "a Revoluo no pode tolerar excees".
	Com o apoio decisivo do governo, os sandinistas optaram pela assimilao forada. O estado de stio foi decretado em maro de 1982 e durou at 1987. Em 1982, o Exrcito Popular sandinista "deslocou" perto de dez mil ndios para o interior do pas. A fome tornou-se ento uma arma terrvel nas mos do regime. Assim, as comunidades ndias reunidas no centro do pas recebiam uma alimentao quantificada entregue por funcionrios do governo. Os abusos de poder, as flagrantes violaes dos direitos humanos e a destruio sistemtica das aldeias indgenas caracterizaram os primeiros anos do poder sandinista na costa atlntica.
	O pas, de norte a sul, sublevou-se rapidamente contra o regime ditatorial, de tendncia totalitria, de Mangua. Comeou uma nova guerra civil, atingindo numerosas zonas como as regies de Jinotega, Estel e Nueva Segovia, no norte, Matagalpa e Boaco, no centro, e Zelava e Rio San Juan, no sul. Em 9 de julho de 1981, o prestigiado comandante Zero - den Pastora, vice-ministro da Defesa - rompeu com a FSLN e abandonou a Nicargua. A resistncia aos sandinistas organizou-se, tendo-lhes sido abusivamente atribudo o nome de "Contra", quer dizer, contra-revolucionrio. No norte, encontrava-se a Fora Democrtica Nicaragiiense (FDN), onde combatiam ex-somozistas e autnticos liberais. No sul, antigos sandinistas, reforados pelos camponeses que recusavam a coletivizao das terras e pelos ndios que tinham fugido para Honduras ou para a Costa Rica, constituram neste ltimo pas a Aliana Revolucionria Democrtica (ARDE), cujo chefe poltico era Alfonso Robelo, e o responsvel militar era den Pastora.
	Em abril de 1983, para lutar contra os grupos oposicionistas, o Estado constituiu os Tribunais Populares Anti-somozistas (TPA), supostamente para julgar os rus acusados de manter relaes com os Contra, e at de participar em operaes militares. Os crimes de rebelio e os atos de sabotagem tambm estavam sob a alada dos TPAs. Os membros dos TPAs eram nomeados pelo governo e provenientes de associaes ligadas  FSLN. Os advogados, muitas vezes nomeados administrativamente, limitavam-se a cumprir as formalidades burocrticas. Os TPAs aceitavam regularmente como prova confisses extrajudiciais, conseguidas por outras instncias que no o juiz. Os TPAs foram dissolvidos em 1988.
	A nova guerra civil ganhou dimenso. Os combates mais violentos decorreram no norte e no sul do pas, de 1982 a 1987, com excessos de ambos os lados. O conflito na Nicargua inscrevia-se num contexto de oposio les-te-oeste. Os cubanos enquadravam o Exrcito Popular Sandinista e estavam presentes em cada uma das suas unidades. Assistiam inclusive ao Conselho de Ministros em Mangua, e Fidel Castro no recusou exercer o papel de mentor dos comandantes. Assim, den Pastora, antes de passar  oposio, assistiu, petrificado, a uma cena pouco comum em Havana. O governo sandinista, completo, encontra-se no gabinete de Castro, que passa em revista todos os ministros e lhes d "conselhos" sobre como gerir a Agricultura, a Defesa ou o Interior. Mangua dependia inteiramente de Cuba. O responsvel dos conselheiros militares cubanos foi durante algum tempo o general Amoldo Ochoa. No terreno, os sandinistas, apoiados por blgaros, alemes orientais e palestinos, decidiram deslocar as populaes para grandes distncias.
	Em 1984, o governo, que pretendia mostrar uma fachada democrtica e encontrar uma nova legitimidade, organizou uma eleio presidencial. Um discurso de maio de 1984 de Bayardo Arce, um dos nove membros da direo nacional da FSLN, deixa muito claras as intenes dos sandinistas: "Pensamos que  preciso utilizar as eleies para que se vote pelo sandinismo, porque  esse que est posto em causa e que se encontra estigmatizado pelo imperialismo. Isso permitir demonstrar que, no final das contas, o povo nicaragiense  a favor desse totalitarismo [o sandinismo], que  a favor do marxismo-leni-nismo. [...]  agora necessrio tratar de acabar com todo esse artifcio do pluralismo, com a existncia de um Partido Socialista, de um Partido Comunista, de um Partido Social Cristo e de um Partido Social Democrata; isso nos foi til at agora. Mas  chegada a hora de acabar com isso..." E Bayardo Arce convidava os seus interlocutores do Partido Socialista Nicaragiiense (pr-sovitico) a fundirem-se num partido nico.
	Diante da violncia dos turbas, os homens de ao do partido sandinis-ta, o candidato conservador Arturo Cruz retirou a sua candidatura e, sem surpresa, assistiu-se  eleio de Daniel Ortega, o que no contribuiu para frear as hostilidades. Em 1984-1985, o regime no poder organizou grandes ofensivas contra os resistentes anti-sandinistas. Em 1985-1986, as tropas de Mangua atacaram as zonas fronteirias com a Costa Rica. Apesar de um apoio popular inegvel, den Pastora interrompeu o combate em 1986 e recuou com os seus quadros para a Costa Rica. Enquadrada pelos comandos sandinistas, a Moskitia s ops, a partir de 1985, uma resistncia espordica. As foras contras e da "resistncia anti-sandinista" desagregaram-se, mas no desapareceram.
	O governo justificou a supresso de numerosas liberdades individuais e polticas invocando os ataques dos Contra. A esse fato juntou-se, em l? de maio de 1985, um embargo decretado pelos Estados Unidos, embargo contrabalanado pela atitude dos pases europeus. A dvida do pas disparou, a inflao atingiu os 36.000% em 1989. O governo instituiu as senhas de racionamento. Cerca de 50% do oramento estavam designados para as despesas militares. O Estado estava incapaz de velar pelas necessidades do povo. Faltavam leite e carne. As plantaes de caf estavam devastadas pela guerra.
	Em 1984-1986, foram desencadeadas vrias ondas de prises nas zonas rurais. Delegado da FSLN, Carlos Nuves Tellos defendia a priso preventiva prolongada argumentando com o fato de que isso "era uma necessidade imposta pelas dificuldades que representavam as centenas de interrogatrios nas zonas rurais". Membros de partidos da oposio - liberais, social-demo-cratas, democrata-cristos - e sindicalistas opositores foram presos pelo fato de suas atividades serem consideradas "favorveis ao inimigo". Em nome da defesa da Revoluo, multiplicaram-se as prises ordenadas pela DGSE. No era possvel qualquer recurso. Essa polcia poltica, alm da sua natureza violenta, tinha o poder de prender qualquer suspeito e de o manter sob deteno indefinidamente, secretamente, sem culpa formada. Podia igualmente decidir sobre as condies de deteno de um prisioneiro ou acerca dos seus contatos com o respectivo advogado e com a famlia. Alguns detidos nunca conseguiram se comunicar com um advogado.
	Certos centros carcerrios figuravam entre os mais duros. Assim, em Ls Tejas, os prisioneiros eram obrigados a se manter de p sem poder dobrar os braos ou as pernas. As celas, todas construdas a partir do mesmo modelo, no dispunham de eletricidade nem de sanitrios. Em perodos de estado de stio, os prisioneiros eram ali mantidos vrios meses. Na sequncia de uma campanha conduzida por organismos de defesa dos direitos humanos, as chi-quitas foram destrudas, em 1989. Segundo a Anistia Internacional, contavam-se muitos casos de morte nos centros da DGSE. No entanto, Danilo Rosales e Salomon Tellevia faleceram oficialmente de "ataque cardaco". Em 1985, o detido Jos Angel Vilchis Tijerino, espancado a coronhadas, viu um dos seus companheiros de priso morrer na sequncia de maus-tratos. A Anistia Internacional e diversas ONGs denunciaram abusos semelhantes nas zonas rurais. Um detido da priso de Rio Blanco, em Matagalpa, declarou ter sido encerrado com 20 outros presos numa cela to pequena, que tinha de dormir de p. Um outro, privado de alimento e de gua durante cinco dias, teve de beber a sua prpria urina para sobreviver.
	O sistema carcerrio  decalcado do modelo cubano. A lei de clemncia de 2 de novembro de 1981, inspirada em textos cubanos, estabelecia que fosse tomada em considerao a atitude do prisioneiro quando da sua eventual libertao. Os limites da lei foram rapidamente atingidos. Embora centenas de prisioneiros condenados pelos tribunais de exceo tivessem sido indultados, nunca foi iniciada qualquer reviso sistemtica dessas condenaes.
	As detenes respondiam  noo de "crime somozista", o que nada significa de rigoroso. Assim, em 1989, em 1.640 detidos por delitos contra-revo-lucionrios, havia apenas 39 quadros somozistas. Alis, nos efetivos dos Contra, a presena de ex-guardas somozistas nunca ultrapassou os 20%. Tratava-se do argumento de choque utilizado pelos sandinistas para encarcerarem os seus opositores. Entre esses, mais de 600 foram detidos no Crcel Modelo. As falsificaes de provas, e at as acusaes sem fundamento, caracterizaram os primeiros anos "judiciais" do sandinismo.
	Em 1987, mais de 3.700 presos polticos apodreciam nas masmorras nicaraguenses. O centro de Ls Tejas era conhecido pelos seus maus-tratos. Os detidos tinham de despir-se e vestir um uniforme azul antes de entrarem nas celas da DGSE. Essas, minsculas, dispunham de camas encastradas nas paredes de concreto. Desprovidas de janelas, eram iluminadas por um minsculo fio de luz filtrado atravs de uma estreita grelha de ventilao situada por cima da porta de ao.
	A isso juntava-se a readaptao pelo trabalho. Havia cinco categorias de encarceramento. Aqueles que eram declarados inaptos para os programas de trabalho por razes de segurana eram encarcerados nas zonas de Alta Segurana. S viam as famlias uma vez em cada 45 dias e s podiam sair das respectivas celas seis horas por semana. Os prisioneiros que integravam os programas de readaptao estavam autorizados a realizar trabalhos remunerados. Tinham direito a uma visita conjugal mensal e a uma visita dos familiares quinzenalmente. Aqueles que satisfaziam as exigncias do programa de trabalho podiam pedir transferncia para uma priso agrcola de regime menos rigoroso, dito "semi-aberto", e depois passar ao regime "aberto".
	Em 1989, encontravam-se 630 prisioneiros no centro de deteno de Crcel Modelo, a 20 quilmetros de Mangua. Trinta e oito ex-guardas somo-zistas cumpriam pena numa zona  parte. Os outros presos polticos estavam encarcerados em prises regionais: Estel, La Granja, Granada. Certos prisioneiros, principalmente em Crcel Modelo, recusaram-se, por razes ideolgicas, a participar desses trabalhos. O que no se fez sem violncias. A Anistia Internacional assinalou maus-tratos na sequncia de movimentos de protesto e de greves de fome.
	Em 19 de agosto de 1987, em El Chipote, uma dezena de presos foram espancados pelos guardas. Diversos presos denunciaram a utilizao de cassetetes "eltricos". Em fevereiro de 1989, para protestarem contra a dureza do seu encarceramento, 90 detidos de Crcel Modelo iniciaram uma greve de fome. Trinta grevistas foram transferidos para El Chipote, onde, como castigo, foram amontoados, nus, numa nica cela, durante dez dias. Noutras prises, vrios detidos foram mantidos nus, algemados e privados de gua.
	Alegando os atos de guerrilha, o governo deslocou populaes consideradas favorveis  oposio armada. As ofensivas e contra-ofensivas dos dois campos tornaram difcil a avaliao rigorosa das perdas. Em todo o caso, foram executadas vrias centenas de opositores nas zonas rurais onde os combates foram especialmente violentos. Ao que parece, os massacres eram uma prtica comum entre as unidades de combate do exrcito e nas do Ministrio do Interior. As tropas especiais do Ministrio dependiam de Toms Borge, ministro do Interior. Correspondiam s foras especiais do Minit cubano.
	Foram assinaladas execues de camponeses na regio de Zelaya. No dispomos de quaisquer nmeros exatos. Os corpos eram em geral mutilados, e os homens, castrados. Esses camponeses massacrados eram suspeitos de ajudarem ou pertencerem aos Contra. As suas casas eram arrasadas, e os sobreviventes, deslocados. Esses fatos so imputveis aos soldados do exrcito regular. O governo queria impor a sua poltica pelo terror e privar a oposio armada das suas bases. No podendo interceptar os resistentes, os sandinistas vingavam-se nos seus familiares. Em fevereiro de 1989, a Anistia Internacional dava conta de dezenas de execues extrajudiciais, principalmente nas provncias de Matagalpa e de Jinotega. Os corpos mutilados das vtimas foram encontrados e identificados por familiares nas proximidades das respectivas residncias. No decurso de toda a guerra, registram-se numerosos desaparecimentos imputveis aos elementos da DGSE. Isto foi acompanhado por deslocamentos forcados da populao para o centro do pas. Os ndios Miskito e os camponeses que viviam nas zonas fronteirias foram as grandes vtimas desses "desaparecimentos". A crueldade de um campo correspondia ao horror de outro. Assim, o ministro do Interior no hesitou em abater corn uma arma automtica prisioneiros polticos encarcerados em Mangua.
	No entanto, os acordos assinados em Esquipulas, na Guatemala, em agosto de 1987, relanaram o processo de paz. Em setembro de 1987, o jornal de oposio La Prensa foi autorizado a reaparecer. Em 7 de outubro do mesmo ano, foi declarado um cessar-fogo unilateral em trs zonas situadas nas provncias de Segovia, Jinotega e Zelaya. Mais de 2.000 prisioneiros polticos foram libertados, embora, em fevereiro de 1990, ainda existissem 1.200. Em maro de 1988, iniciaram-se negociaes diretas entre o governo e a oposio, em Sapoa, na Costa Rica. Em junho de 1989, oito meses antes das eleies presidenciais, a maioria dos 12.000 homens da guerrilha anti-sandinista tinha se retirado para as suas bases em Honduras.
	O custo humano da guerra situa-se  volta dos 45-000-50.000 mortos, civis na sua maioria. Pelo menos 400.000 nicaragiienses fugiram do seu pas para se refugiarem na Costa Rica, em Honduras ou nos Estados Unidos, principalmente em Miami e na Califrnia.
	Incapazes de impor duradouramente a sua ideologia, combatidos tanto no interior como no exterior do pas, minados por querelas no prprio seio da FSLN, os sandinistas foram forados a pr o seu poder democraticamente em jogo. Em 25 de fevereiro de 1990, a democrata Violeta Chamorro foi eleita presidente, com 54,7% dos sufrgios. Pela primeira vez em 160 anos de independncia, a alternncia poltica fez-se tranquilamente. A aspirao  paz levara a melhor sobre o estado de guerra permanente. Qualquer que tenha sido a causa - quer tenham finalmente compreendido a importncia da democracia ou tenham cedido a uma relao de foras , os comunistas nica-ragiienses no foram, como outros poderes comunistas, at o extremo de uma lgica de terror para conservar o poder a qualquer preo. Apesar de tudo isso, pela sua vontade de hegemonia poltica e de aplicao de doutrinas sem relao com as realidades, os sandinistas se desviaram de um justo combate contra uma ditadura sangrenta e provocaram uma segunda guerra civil que implicou um recuo momentneo da democracia e numerosas vtimas civis.

       PERU: A "LONGA MARCHA" SANGRENTA DO SENDERO LUMINOSO

	Em 17 de maio de 1980, dia das eleies presidenciais, o Peru foi teatro da primeira ao armada de um grupsculo maosta chamado Sendero Luminoso. Em Chuschi, jovens militantes apoderaram-se das urnas de voto e as queimaram, como fornia de enviar um sinal anunciador do comeo da "guerra popular", anncio a que ningum prestou ateno. Algumas semanas mais tarde, os habitantes da capital, Lima, descobriram ces dependurados nos candeeiros ostentando letreiros com o nome de Deng Xiaoping, o dirigente chins "revisionista" acusado de trair a Revoluo Cultural. Qual a origem desse estranho grupo poltico com prticas to macabras?
	No Peru, o fim dos anos 70 tinha sido particularmente agitado: seis greves gerais, com adeses em massa, entre 1977 e 1979, todas antecedidas de grandes mobilizaes nas principais cidades de provncia, Ayacucho, Cuzco, Huancayo, Arequipa e at Pucallpa. Essas greves tinham sido acompanhadas pelo aparecimento de Frentes de Defesa muito amplas, estruturadas em redor de reivindicaes. Esse tipo de organizao, que j existia em Ayacucho havia algum tempo, tornou-se a matriz do Sendero Luminoso. Em quchua, Ayacucho significa "o lugar dos mortos"; essa regio  uma das mais deserdadas do Peru: menos de 5% das terras so arveis, o rendimento anual por habitante  inferior a 100 dlares, a expectativa de vida de 45 anos. A mortalidade infantil atinge o recorde de 20%, embora seja "somente" de 11% para o conjunto do Peru. Foi nesse hmus de desesperana social que o Sendero encontrou as suas razes.
	Ayacucho  tambm um centro universitrio particularmente ativo desde 1959. Ali se ensinava Puericultura, Antropologia Aplicada e Mecnica Rural. Rapidamente, foi criada uma Frente dos Estudantes Revolucionrios, que desempenhou um papel importante no interior da Faculdade. Comunistas ortodoxos, guevaristas e maostas disputavam duramente o controle dos	estudantes. No incio dos anos 60, um jovem ativista maosta, professor de Filosofia, Abimael Guzman, desempenhava um papel de primeiro plano.
	Nascido em Lima em 6 de dezembro de 1934, jovem taciturno, Abimael Guzman fez estudos brilhantes. Membro do Partido Comunista em 1958, tornou-se rapidamente notado pelos seus dons de orador. Em 1965, participou na criao do grupo comunista Bandera Roja (Bandeira Vermelha), ciso que atingiu o Partido Comunista Peruano na sequncia do grande cisma sino-sovitico. Segundo alguns, ele chegou a ir  China; segundo outros, no. Em 1966, o governo fechou a Universidade, na sequncia de tumultos insurrecionais. Os maostas da Bandera Roja criaram ento a Frente de Defesa da Populao de Ayacucho. E, em 1967, Guzman militou a favor da luta armada. Em junho de 1969, participou do sequestro do subprefeito Octavio Cabrera Rocha, em Huerta, ao norte da provncia de Ayacucho. Preso em 1970 por delito contra a segurana do Estado, foi libertado alguns meses mais tarde. Em 1971, na IV Conferncia do Bandera Roja, uma outra ciso originou o aparecimento de um novo grupo comunista: o Sendero Luminoso. O nome foi tomado de emprstimo a Jos Carlos Mariatgui,18 que escrevera: "O marxismo-leninismo abrir o trilho (sender) luminoso da revoluo". Adulado pelos militantes, Guzman  chamado "a quarta espada do marxismo" (depois de Marx, Lenin e Mo). Vargas Llosa analisa desse modo o seu "pror jeto" revolucionrio: "Para ele, o Peru descrito por Jos Carlos Mariatgui nos anos 20  essencialmente semelhante  realidade chinesa analisada por Mao nessa poca - uma 'sociedade semifeudal e semicoloniaT -, e ele conseguir a sua libertao atravs de uma estratgia semelhante  da Revoluo Chinesa: uma guerra popular prolongada que, utilizando os campos como coluna vertebral, realizar o 'assalto' s cidades. [...] O modelo de socialismo que reivindica so a Rssia de Stalin, a Revoluo Cultural do 'bando dos quatro' e o regime de Pol Pot no Camboja."
	De 1972 a 1979, o Sendero parece encontrar-se limitado s lutas pelo controle das organizaes estudantis. Recebeu um reforo de estudantes da Universidade de Tecnologias de San Martin de Torres, de Lima. Infiltrou amplamente o sindicato dos professores primrios, e as suas colunas rurais de guerrilheiros foram muitas vezes enquadradas por professores. A partir do final de 1977, Guzman passou  clandestinidade. Assistiu-se ento ao culminar de um processo iniciado em 1978: em 17 de maro de 1980, durante a sua segunda sesso plenria, o partido maosta optou pela luta armada. Os efeti-vos do Sendero foram reforados por elementos trotskistas de Carlos Mezzich e por maostas dissidentes do grupo Pukallacta. Soara a hora da luta armada, e da a operao de Chuschi, seguida, em 23 de dezembro de 1980, pelo assassinato de um latifundirio, Benigno Medina, o primeiro caso de "justia popular". Contando originalmente com 200 a 300 ativistas, o Sendero eliminava sistematicamente os representantes das classes proprietrias e os membros das foras de ordem.
	Em 1981, os postos de polcia de Tots, San Jos de Secce e Quinca foram atacados. Em agosto de 1982, os maostas tomaram de assalto o posto de Viecahuaman; seis policiais antiguerrilha (os Sinchis- nome quchua, que significa valente, corajoso) foram mortos, e outros 15 fugiram ou foram feitos prisioneiros. Sem apoios externos, os guerrilheiros recuperaram armas nos depsitos da polcia e explosivos nos estaleiros, no hesitando em atacar os acampamentos de mineiros. O basto de dinamite arremessado com uma funda tradicional, o maraka, tornou-se a sua arma favorita. A par desses ataques, realizaram mltiplos atentados20 contra edifcios pblicos, linhas eltricas e pontes. Bem implantados em Ayacucho, os comandos cercaram a cidade em maro de 1982, atacaram a priso e libertaram 297 presos (polticos e de direito comum). A preparao minuciosa do ataque, a infiltrao na cidade, as operaes simultneas contra os aquartelamentos da polcia revelaram uma longa aprendizagem da subverso.
	O Sendero Luminoso empenhou-se na destruio das instalaes e das infra-estruturas realizadas pelo Estado, a fim de estabelecer as bases das suas "comunas populares". Desse modo, em agosto de 1982, um comando destruiu o centro de pesquisa e de experimentao agronmicas de Allpahaca: os animais foram abatidos, e as mquinas, incendiadas. Um ano mais tarde, foi a vez de o Instituto de Investigaes Tcnicas sobre os Cameldios (lhamas, guanacos, alpacas) desaparecer sob o fogo. De passagem, os engenheiros e os tcnicos, considerados vetores da corrupo capitalista, foram massacrados. Assim, Tino Alansaya, chefe de projeto, foi assassinado, e o seu corpo, dinamitado. Como justificao, os guerrilheiros declararam que se tratava "de um agente do Estado burocrtico-feudal!". Em oito anos, 60 engenheiros foram assassinados nas zonas rurais. Os cooperantes das ONGs no foram poupados: em 1988, o americano Constantin Gregory, da AID, foi executado pelo Sendero. Em 4 de dezembro do mesmo ano, dois cooperantes franceses so tambm assassinados.
	Guzman poderia ter predito: "O triunfo da Revoluo custar um milho de mortos!" - o Peru contava ento 19 milhes de habitantes. Em virtude desse princpio, os maostas encarregavam-se de eliminar todos os smbolos de uma ordem poltica e social odiada. Em janeiro de 1982, executaram dois professores diante dos respectivos alunos. Alguns meses mais tarde, "traidores" foram abatidos publicamente no decorrer de um "julgamento popular". No incio, a execuo de latifundirios e de outros proprietrios de terras no chocara os camponeses, esmagados pelos impostos e estrangulados pelos emprstimos a taxas usurrias. Em contrapartida, a eliminao da pequena burguesia e dos comerciantes privava-os de uma srie de vantagens (emprstimos a taxas suportveis, trabalho, ajudas diversas). Numa preocupao de pureza revolucionria, e para estabelecer a sua tirania, os guerrilheiros dizimaram igualmente os bandos de abigeos (ladres de gado) que assolavam as altas plancies. Essa luta contra a delinquncia era puramente ttica, e, em 1983, o Sendero comeou a colaborar com os narcotraficantes em Hunuco.
	Nas regies de conflitos tnicos, o Sendero soube alimentar o dio contra o poder central de Lima, vestgio de um "passado colonial execrvel" como se compraz em lembrar o presidente Gonzalo (Guzman). Afirmando-se defensor da indianidade como Pol Pot se referia  pureza khmer da poca de Angkor, o Sendero conquistou algumas simpatias junto de certas tribos ndias, que, com o tempo, comearam a suportar cada vez menos a violncia maosta. Em 1989, na Alta Amaznia, os ashaninkas foram recrutados  forca ou perseguidos. Desses, 25 mil viviam escondidos na selva antes de serem colocados sob a proteo do exrcito.
	Entregue  vingana maosta, a regio de Ayacucho viveu sob a nova ordem moral: raspavam-se o cabelos das prostitutas, os maridos volveis e os bbedos eram chicoteados, desenhavam-se uma foice e um martelo no couro cabeludo dos recalcitrantes, as festas consideradas doentias eram proibidas. As comunidades eram dirigidas por "comits populares",  frente dos quais estavam cinco "comissrios polticos", estrutura piramidal caracterstica da organizao poltico-militar do Sendero. Vrios comits constituam uma base de apoio dependente de uma coluna principal composta por entre sete e 11 membros. Os comissrios polticos tinham como adjuntos comissrios encarregados da organizao rural e da produo. Esses comissrios organizavam os trabalhos coletivos nas "zonas libertadas". No era tolerada qualquer recusa, e a menor afronta era punida com morte imediata. O Sendero escolhera uma poltica autrquica e destruiu as pontes, a fim de isolar as zonas rurais das cidades, o que suscitou de imediato uma forte oposio camponesa. Para assegurar o controle das populaes e exercer uma chantagem sobre os familiares, o Sendero no hesitou em recrutar crianas  fora.
	Numa primeira fase, o governo respondeu ao terrorismo atravs da utilizao dos comandos especiais (Sinchis) e da infantaria de marinha. Em vo. Em 1983-1984, a "guerra popular" passava  ofensiva. Em abril de 1983, 50 guerrilheiros do Sendero cercaram Luconamanca, onde 32 "traidores" foram massacrados a golpes de machado e a facadas, assim como outras pessoas que queriam fugir. O balano total ficou em 67 mortos, quatro dos quais sendo crianas. Com esse massacre, o Sendero pretendia fazer compreender s autoridades que seria impiedoso. Em 1984-1985, a sua ofensiva voltou-se para os representantes do poder. Em novembro de 1983, o presidente da cmara do centro mineiro Cerro de Pesco foi assassinado, e o seu corpo, dinamitado. Sentindo-se abandonados pelas autoridades, vrios presidentes de cmara e seus adjuntos demitiram-se, e os padres fugiram.
	Em 1982, a guerra tinha feito 200 mortos. Em 1983, esse nmero  multiplicado por dez. Em 1984, contaram-se mais de 2.600 atos terroristas. Mais de 400 soldados e policiais so mortos em operaes. Aos crimes do Sendero responderam os excessos do exrcito. Quando, em junho de 1986, os militantes desencadearam motins em trs prises de Lima, aparentemente para levar a guerra at as cidades, a represso foi feroz: houve mais de 200 mortos. Os maostas fracassaram ao tentarem uma infiltrao duradoura nos bem-estruturados sindicatos de mineiros e nos barrias (bairros) que dispunham de um corpo associativo slido. A fim de preservar um certo crdito, o Sendero concentrou ento os seus golpes no partido majoritrio no poder, a APRA. Em 1985, sete apristas foram mortos e sofreram as mutilaes reservadas aos espies: orelhas e lnguas cortadas, olhos vazados. No mesmo ano, o Sendero abriu uma nova frente em Puno. Os distritos de Ia Libertad, as provncias de Hunuco e de Ia Mar, e a Alta Amaznia foram atingidos pela guerrilha. As cidades de Cuzco e de Arequipa foram palco de atentados (com explosivos de plstico) contra as centrais eltricas. Em junho de 1984, os maostas provocaram o descarrilamento de um trem que transportava um concentrado de chumbo; pouco depois foi a vez de um trem que transportava cobre. Em 1984, era proclamado o estado de stio em 10 das 146 provncias do Peru.
	Para erradicar essa violncia, o exrcito contou primeiro com a represso: para cada 60 camponeses abatidos, o estado-maior prometeu eliminar trs guerrilheiros. Essa poltica teve como efeito, numa primeira fase, empurrar os indecisos para o campo dos maostas. No comeo dos anos 90, o governo mudou de poltica: o campons deixou de ser considerado um inimigo e passou a ser um parceiro. Uma completa mudana da hierarquia militar e um melhor recrutamento de homens possibilitaram a colaborao com os camponeses. Pelo seu lado, o Sendero aperfeioou a sua ttica; foram definidas quatro formas de luta quando da III Conferncia do grupo maosta: guerra de guerrilha, sabotagem, terrorismo seletivo e guerra psicolgica, como o ataque a feiras agrcolas.
	Uma breve onda de dissidncia nas fileiras do Partido foi seguida pela execuo dos "traidores defensores da linha burguesa". Com o objetivo de castigar aqueles que traam as "foras do povo", o Sendero criou, na Amaznia, campos de trabalho. Em dezembro de 1987, 300 mulheres, crianas e idosos famintos conseguiram fugir desse "Gulag peruano" e chegaram a Belm, nos confins da floresta virgem. Em 1983, camponeses sujeitos a trabalho forado haviam abandonado as zonas controladas pelo Sendero, que os obrigava a cultivar a terra, os campos de coca e a suprir as necessidades das colunas de guerrilheiros. Numerosas crianas nascidas nas altas plancies encontraram ali a morte, e as pessoas que tentavam escapar eram sistematicamente abatidas. Aprisionados nos campos, obrigados a participar nas sesses de estudo dos textos do presidente Gonzalo, os detidos depressa conheceram a fome. Foi o caso de 500 pessoas detidas num campo da regio de Convencin.
	Em setembro de 1983, a polcia marcara um primeiro ponto ao prender Carlos Mezzich, um dos chefes do estado-maior de Guzman. Cansados da crueldade de um Sendero incapaz de melhorar a sua sorte, a massa de camponeses no pendia mais para o lado da revoluo guzmaniana. Alm disso, o Sendero foi combatido por outros movimentos polticos. A esquerda unida, apoiada numa forte implantao sindical, ops-se com xito s tentativas de infiltrao do Sendero, que se mostrava, definitivamente, muito mais  vontade na utilizao de mtodos sanguinrios e expeditivos do que num trabalho comunitrio ou associativo. Com efeito, em 1988-1989, Lima e Cuzco tornaram-se alvos diretos do Sendero, e os bairros pobres passaram a ser a massa da cultura revolucionria, segundo as diretivas do presidente Gonzalo: "Trata-se de tomar os bairros pobres como bases e o proletariado como dirigente!" O Sendero procedeu ento ao enquadramento das favelas, e os insub-missos foram eliminados. Os seus militantes haviam se infiltrado em algumas organizaes de caridade, como o Socorro Popular do Peru. De fato, o grupo maosta tentava eliminar a implantao urbana da esquerda marxista clssica. Depois das tentativas para se apoderarem dos sindicatos, esse foi um novo fracasso. Alm disso, no seu caminho, o Sendero esbarrou com os Tupacamarus do MRTA. Os confrontos foram de uma violncia inaudita. Em 1990, 1.584 civis e 1.542 rebeldes encontraram a morte. Derrotado pelo MRTA, acossado pelo exrcito, o Sendero Luminoso comeou a se desagregar.
	Em 12 e 13 de setembro de 1992, Guzman e a sua adjunta, Elena Ipar-raguire, foram presos. Algumas semanas mais tarde, o nmero trs da organizao, Oscar Alberto Ramirez, caa nas mos da polcia. Em 2 de maro de 1993, a responsvel militar do Sendero, Margot Dominguez (Edith, na clandestinidade), foi presa. Finalmente, em maro de 1995, uma coluna de 30 guerrilheiros, sob o comando de Margie Clavo Peralta, foi desmantelada pelos servios de segurana. Apesar disso, um aumento de efetivos permitia ao Sendero Luminoso contar, em 1995, com 25.000 membros, 3.000 a 5.000 dos quais "regulares".
	A predio de Guzman no se realizou. O Peru no se afogou no seu prprio sangue. Segundo algumas fontes, o Sendero Luminoso  responsvel pela morte de 25.000 a 30.000 pessoas. As crianas dos campos pagaram um pesado tributo ao terrorismo de guerra civil do Sendero: entre 1980 e 1991, os atentados mataram 1.000 crianas e mutilaram cerca de 31.000. O esfacelamento das famlias nas zonas de guerra tambm deixou cerca de 50.000 crianas entregues a si prprias, entre as quais numerosos rfos.

	ORIENTAES BIBLIOGRFICAS

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       Louis Mercier-Vega. La Rvolution par l'tat. Une nouvelle classe dirigeante em Amrique Latine, Payot, 1978. Technique du contre-tat, Belfond, 1968; Ls Mcanismes du pouvoir en Amrique Latine, Belfond, 1967.       Publications de La Documentation Franaise, srie Amrica Latina.

	NICARGUA

	Genevive e lie-Georges Berreby, Commandant Zero, Robert LafFont, 1987.
      J. M. Caroit e V. Soul, L Nicargua, l modele sandiniste, L Sycomore, 1981. 
      Ren Dumont, Finis ls lendemains qui chantent, L Seuil, 1982.   Nicargua. Colonialisme et rvolution, difuso Inti, Paris, 1982. 
	Gilles Bataillon, "L Nicargua et ls indiens Miskito", Esprit, julho-agosto de 1982; "L Nicargua et ls indiens de Ia cote atlantique", Esprit, julho de 1983; "Nicargua: de Ia tyrannie  Ia dictature totalitaire", Esprit, outubro de 1983. nmero especial "Amriques latines  Ia une"; "Nicargua: ds lections  1'tat d'urgence" e "Paysage aprs Ia bataille (Nicargua)", Esprit, janeiro de 1986; TOpposition nicaraguayenne  Ia recherche d'une stratgie", Esprit, junho de 1987; "Communistes et sociodmocra-tes dans Ia rvolution", Communisme n 13, 1987.

	CUBA

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      Carlos Franqui, Journal de Ia rvolution cubaine, L Seuil, 1976. 
      Armando Valladares, Mmoires deprison, Albin Michel, 1986. 
      Jorge Valls, Mon ennemi, monfrre, Gallimard, L'Arpenteur, 1989. 
      Jeannine Vrds-Leroux, La Lune et l caudillo. L rev ds intellectuels et l regime cubain (1959-1971), Gallimard, EArpenteur, 1989.

	PERU

      Alain Hertoghe et Alain Labrousse, L Sentier Iumineux, un nouvel intgrsme dans l Tiers-Monde, La Dcouverte, 1989.

	2. Afrocomunismos: Etipia, Angola, Moambique
      por Yves Santamaria

	Para a opinio pblica, a relao entre a regio "ultramarina" e o movimento comunista foi funo do apoio dado por esse ltimo s lutas anticolo-niais, antes que a guerra fria viesse globalizar as apostas: perante as propenses colonizadoras de Washington, a IV Repblica Francesa tentou fazer crer que qualquer recuo em face dos nacionalistas indgenas se tornava ipso facto um convite s ambies de Moscou, segundo a mxima atribuda a Lenin: vista do Leste, a rota de Paris passa por Argel. Foi necessrio esperar, na glaciao que se seguiu  derrota americana no Vietn em 1975, a instaurao dos regimes pr-soviticos na frica ex-portuguesa e na Etipia, para que aparecesse uma delicada articulao entre dois temas furiosamente exticos e to familiares -a frica, o comunismo , a ideia de uma nocividade que no se limitava ao contexto geopoltico. Para alm do domnio eventual do campo socialista sobre setores considerados vitais para o Ocidente, eis que o comunismo, longe de revelar-se para o terceiro mundo como um remdio inexcedvel contra o subdesenvolvimento, parecia uma vez mais infligir s populaes locais punies j administradas por todo o mundo aos povos insuficientemente imbudos da misso que, aos olhos dos herdeiros da revoluo de outubro, lhes era atribuda pela Histria.

       O comunismo de cores africanas
	
       Os "Khmers Negros": assim eram ainda conhecidos em 1989, aps a queda do Muro de Berlim, os homens da Frente Patritica Ruandesa (tutsi), de tendncia declaradamente polpotiana. Todavia, o seu chefe, Paul Kagam, no escapava  denominao de "Americano" que lhe era atribuda por alguns responsveis franceses, conhecedores da sua formao nos Estados Unidos e sempre alerta em face das manobras anglo-saxnicas no territrio africano. Suficientemente complexo, o caso da regio dos Grandes Lagos ilustra, ainda hoje, a grande dificuldade dos observadores enquanto intrpretes da poltica africana: o continente "negro"  um lugar privilegiado de projeo dos fantasmas polticos ocidentais. Nessas condies, ser possvel invocar inocentemente um "comunismo africano", sem cair no pecado etnocntrico, numa ocasio em que o presidente moambicano Joaquim Chissano no hesitava em admitir, enquanto a Histria mudava de rumo no Leste Europeu, que, decididamente, "essa histria do marxismo comeava a nos criar problemas"?2 Efetivamente, os debates acerca da autenticidade de uma adeso dos africanos ao universo comunista assemelham-se tremendamente queles que agitaram os amantes desse tipo de polmicas a propsito de outras regies do planeta. No final das contas, j que para o general de Gaulle a URSS no deixara de ser a prezada e poderosa Rssia, por que motivo no seria o Movimento Popular para a Libertao de Angola (MPLA) a expresso "marxista-leninista" - por conseguinte, a traduo para uso do Ocidente - da colcha de retalhos tnica crioulos-ndios-mbundu? Quanto a Mengistu ter recusado ao "Negus vermelho" a dignidade de "comunista",  sabido que esse qualificativo foi escrupulosamente negado a Stalin por setores importantes da extrema-esquerda marxista, de que os trotskistas no so a subvariedade menos influente.
	Portanto, limitemo-nos a registrar o fato de a seriedade da referncia a Marx, ao bolchevismo e  URSS feita pelos partidos, Estados e regimes aqui mencionados no ter sido contestada, no decurso do perodo considerado (principalmente, entre 1974-1991), nem pelos protagonistas, nem pelos seus adversrios, e menos ainda pela instncia legitimadora, isto , a Unio Sovitica e o movimento comunista internacional.  certo que a filiao organizacional ao campo comunista foi uma caracterstica das minorias: as estimativas soviticas avanavam os nmeros de 5.000 para toda a frica em 1939, e de 60.000 no incio dos anos 70. No entanto, numerosos exemplos, principalmente europeus, a esto para recordar que, de acordo com a lgica leninista, apenas conta a conformidade ideolgica do poder (mais do que a do regime ou do Estado), e que esse  pouco sensvel aprior. impregnao prvia da sociedade pela cultura comunista. Logo que chegaram ao poder, os novos dirigentes cuidaram de enquadrar simbolicamente a paisagem, multiplicando os indcios de ruptura com o "socialismo africano" que florescera aps as primeiras independncias dos anos 50-60. A lio dos fracassos da primeira onda emanava da fonte: se a poltica agrria comunitria (ujamaa) conduzida na Tanznia por Julius Nyerere no atingira os resultados previstos, fora porque o partido TANU/ASP4 no era suficientemente "marxista-leninista": essa era a explicao encontrada tanto pela Frelimo5 quanto pelos peritos etopes. A adoo de um modelo "socialista cientfico" possibilitava s elites dirigentes atenuar o perigo "tribalista" - deriva natural, em sua opinio, de solidariedades camponesas no planificadas. Aceitando como regra bsica do jogo que o Estado constri a nao - conforme um modelo que no era desconhecido dos europeus -, as foras no poder inseriram-na na comunidade internacional. Ningum podia ignorar, ao aterrissar em Maputo, capital de Moambique, que se estava chegando a uma "zona libertada da humanidade".
	Longe de convidar a uma qualquer negao dos direitos do homem, o slogan que iluminava a fachada do aeroporto exibia as duas dimenses consubstanciadas no projeto comunista: diante da frica do Sul racista, o antiimperialismo; do lado dos Estados socialistas, a inscrio no sistema comunista mundial. Como Moambique, Angola e a Etipia encontraram lugar na categoria de pas de "orientao socialista". Efetivamente, depois de Kruschev os analistas soviticos tiveram o cuidado de aperfeioar a sua tipolo-gia: a ecloso de novas naes "progressistas" imps o uso de uma terminologia adequada, reservando um lugar quelas que, apesar de se terem distanciado da "via capitalista", no podiam valer-se (como Cuba ou o Vietn) do rtulo de "socialista".? Com efeito, esse rtulo se constitui como que uma garantia da parte da Unio Sovitica de compromissos cuja rentabilidade no parece assegurada na cena africana. Por isso, para assegurar as bases materiais do respectivo desenvolvimento, os Estados de orientao socialista devem contar sobretudo com os recursos autctones e os financiamentos ocidentais. Quanto ao plano militar da cooperao, ele se inscreve na longa tradio do "imperialismo vermelho", que teorizava, desde os primeiros passos da Internacional Comunista,8 a obrigao de assistncia proletria. Embora em termos de tecnologia militar a clientela sovitica na frica tenha excedido largamente os trs Estados que so objeto dessa abordagem, eles foram os principais beneficirios. E a profundidade da insero num sistema mundial permitiu aos respectivos governos beneficiar-se dos recursos diferenciados da galxia comunista: em paralelo com os 8.850 conselheiros soviticos agindo na totalidade do continente africano, foi possvel apurar a presena, em 1988, de 53.900 cubanos, sem que se tenha podido quantificar a importncia dos especialistas alemes orientais, particularmente apreciados junto dos Servios de Segurana envolvidos.
	 certamente lcito reconhecer, na adoo da retrica marxista-leninista pelo MPLA de Angola, pela Frelimo de Moambique ou pelo Derg/PTE da Etipia, o processo conhecido pelos historiadores da Antiguidade sob a designao de "interpretao", graas ao qual os deuses gauleses conheceram uma longa imortalidade sob as suas roupagens romanas.  certo que a "instrumentalizao" no  forosamente de sentido nico e que, por exemplo, a burocracia imperial etope soube canalizar em seu benefcio o potencial centralizador do modelo comunista realmente existente. Mesmo assim, e seja qual for a fora desse modelo explicativo, no deixa de haver uma poltica comunista na frica, identificvel como tal a partir de um slido conjunto de critrios de autenticao. Muitos desses critrios, se considerados isoladamente, concorrem para a caracterizao de outros Estados africanos, a comear pela recusa do pluripartidarismo associada  noo de vanguardismo, virtude exclusivamente reservada  faco no poder. No entanto, Moscou s atribuiu o rtulo de "partidos de vanguarda que se basearam numa teoria revolucionria" ao MPLA-Partido do Trabalho (Angola),  Frelimo-Partido dos Trabalhadores (Moambique) e tambm ao Partido Congeles do Trabalho; a esses ltimos juntou-se, em 1984, o Partido dos Trabalhadores da Etipia. O mesmo se passa relativamente  existncia de uma "poltica do ventre"i de tipo mafioso, em que, na ausncia de "classe burguesa", o controle do aparelho do Estado constitui a nica forma de enriquecimento pessoal.  bem verdade que se trata, nesse caso, de prticas nomenclaturistas, das quais a frica se encontra longe de deter o monoplio. E, certamente, poderamos limitar-nos a assimilar a especificidade comunista dos trs regimes aqui invocados, destacando neles a vontade  em cada caso e sob uma mesma retrica  de criar um "homem novo", confiando ao ministrio da Verdade autctone o cuidado de escolher o que na cultura ancestral merece folclorizao ou erradicao.
	Faltaria interrogarmo-nos sobre quais foram os motivos que, no bazar ideolgico do sculo XX, levaram elites que ascenderam  direo desses Estados a abastecerem-se na prateleira ideolgica marxista-leninista. Para nos limitarmos apenas a esse elemento de compreenso, no se exclui que o fascnio pelas potencialidades que a doutrina oferece a uma utilizao vertiginosa da violncia possa constituir um dos elementos do debate. E do mesmo modo que no Ocidente aparecem cada vez mais visveis aos investigadores os laos entre as manifestaes totalitrias e a "cultura de guerra", que prevaleceu na Europa de 1914 a 1945, tambm o episdio comunista na frica se insere na longa durao de uma violncia cujo estudo mal comea a ultrapassar as opo-sies maniquestas entre a harmonia (ou barbrie) pr-colo.nial, a ordem (ou represso) colonialista e a anomia consecutiva s independncias e/ou s cobias neocoloniais. A frica comunista no foi,  certo, um ilhu de violncia; longe disso: a Nigria, quando da guerra do Biafra, e a Ruanda, com o genocdio dos hutus, deram, cada uma na sua poca, considerveis contribuies para descrer do seu semelhante. A Etipia, Angola e Moambique mantm no entanto, alm das querelas de nmeros, a sua especificidade criminal, por um lado atravs dos processos de remodelao do tecido social marcados pelo "aldeamento" forado do mundo rural, e por outro pela utilizao poltica da fome. Proporcionam, alm disso, ao especialista do comunismo no africano, a tentao da paisagem familiar, tanto no plano da depurao do Partido ou da liquidao do esquerdismo, como no tratamento das oposies nacionalistas/tnicas, de militncia poltica ou religiosa.
	Uma vez que, apesar da profissionalizao da Agit-prop, a negao do assassinato em massa tinha cada vez mais dificuldade em contornar as redes mediticas internacionais, a dimenso criminal do comunismo africano suscitou um aumento das prticas absolutrias. Para os que tm tendncia a afastar a suspeita de intencionalidade que recai sobre os regimes sobretudo "progressistas", cada iniciativa do Estado marxista-leninista tende a apresentar-se como uma rplica adequada a foras contra-revolucionrias. Polmica que j vem do tempo do Terror revolucionrio francs, rejuvenescida pela Revoluo bolchevique, a invocao da "tirania das circunstncias" encontra, na conjuntura africana, ampla matria de discusso proveniente de reas que ultrapassam largamente as fileiras comunistas. A esse respeito, a amplitude  muito relativa, mas incomparvel com as suscitadas pelos outros pases africanos de orientao socialista - das polmicas levantadas no Ocidente por esses trs Estados bastaria para justificar a nossa escolha.  que s clssicas figuras do Mal (o legado do passado, a estratgia intervencionista imperialista) junta-se, na Etipia, em Moambique e at em Angola, a contribuio das foras naturais de um ambiente cuja dure/a o mundo comunista se compraz ento em salientar, mesmo que para isso tenha de pr a seca ao servio dos seus projetos prometicos. Desde as anomalias pluviomtricas ao peso das etnias, a argumentao nem sempre afasta a tentao de atribuir a barbrie africana a uma suposta africanidade. Todavia as sociedades africanas so pelo menos to dependentes do seu tempo como da sua herana e, a essa luz, no poderiam ter sido preservadas das sangrias totalitrias.

	O IMPRIO VERMELHO: A ETIPIA

	Quando desaparece, em 12 de setembro de 1974, o imprio encarnado pelo Negus Hail Slassi I, ento com 82 anos de idade, o diagnstico parece fcil. Fragilizado pela incerteza quanto  identidade do seu sucessor, assim como pelo choque petrolfero, esgotado pelas guerras fronteirias e pela penria alimentar, contestado pelas camadas urbanas provenientes da modernizao social, o regime desmorona-se sem grandes sobressaltos. Fruto das preocupaes geopolticas do soberano deposto, o exrcito  que se distinguira na Coreia em 1950 ao lado dos americanos... - instala-se no comando do Estado: 108 homens compem o Derg (Comit Militar Administrativo Provisrio), no interior do qual as oposies ideolgicas parecem sumir por detrs da palavra de ordem Ethiopia tikdem (a Etipia primeiro). No entanto, os equvocos dissipam-se muito rapidamente. Colocado na chefia do governo, o general Aman Andom, heri da guerra contra a Somlia, de origem eritria,  liquidado na noite de 22 para 23 de novembro. Algumas horas mais tarde,  a vez de 59 personalidades: seguindo uma tcnica j bastante experimentada, os polticos liberais sofreram a mesma sorte que os tradicionalistas ligados ao Antigo Regime. O destino dos membros do Derg estava doravante ligado ao do chefe que os dirigia em julho e que, em 21 de dezembro de 1974, compromete abertamente o pas na via do socialismo: Mengistu Hail Mariam.
	A biografia do ex-presidente ainda est por ser escrita. O homem gostou do seu papel de pria, jogando com a sua pele escura e a sua pequena estatura (compensada,  certo, pelo uso de saltos altos...) para aparecer na pose de bariah (escravo) perante o cl amhara, corao do regime imperial. No entanto, ele estava ligado a esse meio privilegiado pela me, autntica descendente da aristocracia. Apesar de ser bastardo (o pai era um cabo analfabeto), ele beneficiou-se da proteo de um tio que, sendo ministro do Negus, pde facilitar o seu comeo na carreira militar. A educao de Mengistu limitou-se, porm, a uma escolaridade primria, e  sem diploma que entra na Escola Militar de Holetta, reservada aos jovens desprotegidos. Comandante de brigada mecanizada, as suas qualidades proporcionaram-lhe, por duas vezes, um estgio em Fort-Levenworth (Texas). Sem bagagem terica conhecida, embora dotado de um grande apetite pelo poder, bastaram-lhe trs anos para afastar os seus rivais: aps a eliminao (por conspirao "direitista") do coronel Sisaye, chegou a vez, em 3 de fevereiro de 1977, do general Teferi Bante e de oito dos seus camaradas. Segundo a lenda, foi com tiros de metralhadora 12,7 que Mengistu selou o destino dos "capituladores", durante uma memorvel reunio das instncias dirigentes do Derg.
	No Grande Palcio construdo por Menelik II aps a fundao de Adis-Abeba em 1886, o chefe supremo da Etipia pode doravante tomar posse dos despojos imperiais, incluindo o Parlamento. O seu implacvel estilo de comando, popularizado por uma comunicao muito profissional, nada tem que possa causar embarao aos sditos do defunto "rei dos reis". A sua legitimidade  incontestada aos olhos do campo socialista: o golpe de fevereiro foi antecedido, em dezembro de 1976, por uma visita de Mengistu a Moscou. Em abril de 1977, a Etipia rompe as suas relaes militares com os Estados Unidos. Cubanos e soviticos fornecem ento um apoio macio, tanto em equipamento como em pessoal,17 que se vai revelar decisivo em face dos independentistas eritreus e da ofensiva somali de julho de 1977, em Ogaden. Os soviticos apreciam bastante os esforos de sovietizao empreendidos pelo regime, imitando por vezes o socialismo preconizado na Somlia, ento aliada da URSS. A "via etope", esboada em dezembro de 1974 pelo Comit Provisrio, ganha forma em janeiro de 1975, quando o Derg nacionaliza bancos e seguros, bem como o essencial do setor de transformao. Principalmente, em maro, a abolio da propriedade de terras e a limitao a um bem imobilirio por famlia testemunham a radicalizao do regime. Moscou encoraja a criao do nico instrumento capaz, em sua opinio, de fazer transpor aos dirigentes um limiar qualitativo essencial: o Partido. Porm,  preciso esperar por 1979 para que se constitua uma Comisso de Organizao do Partido dos Trabalhadores (COPTE). Os trabalhos do seu segundo Congresso, em janeiro de 1983, foram considerados suficientemente frutferos pelos soviticos, pelo que, em 11 de setembro de 1984, a criao do Partido dos Trabalhadores da Etipia (PTE) vem coroar as cerimnias do dcimo aniversrio da Revoluo. Reconhecendo-se herdeiro da "grande revoluo de outubro", o PTE tem acesso ao grau de integrao suprema no sistema comunista mundial: os acordos de partido a partido. nico seno, a Etipia no pode ainda elevar-se  categoria de "democracia popular". A fragmentao multi-tnica e a dependncia econmica relativamente ao Ocidente permanecem como molstias de momento redibitrias.
	O ritmo da construo do Partido no dependia de uma "boa" composio sociolgica. Imediatamente antes da sua fundao, apesar dos notveis esforos para fixar um quadro mais conforme com a ideia que se possa ter do "partido da classe operria", os referidos operrios representavam menos de um quarto dos efetivos. Smbolo da realidade das relaes sociais, militares e funcionrios representavam cerca de trs quartos dos membros em face de 3% de camponeses1' num pas em que o campesinato representa 87% da populao. Ao nvel das direes, a relao de foras tendia ainda mais maciamente a favor dos quadros do exrcito: o Politburo do PTE era composto principalmente por sobreviventes do Derg. Reduzido  dimenso conveniente, o lugar da intelligentsia explicava-se pela destruio fsica dos seus quadros e organizaes. Aps a chegada, da Europa e dos Estados Unidos, de estudantes formados em universidades bastante impregnadas do radicalismo da poca, uma campanha de cooperao (zamech) conduzida num esprito mao-popu-lista lanara 50 mil estudantes (e alguns professores) ao encontro do universo rural. O regresso  cidade saldou-se num reforo de organizaes de obedincia marxista-leninista, o PRPE e o MEISON. Aos olhos de uma populao bastante indiferente, a rivalidade entre os dois movimentos explicava-se pela sua composio tnica: de dominante amhara no PRPE e oromo no MEI-SON. Ideologicamente prximas, as duas organizaes separavam-se quanto ao tratamento da questo eritria, estando o MEISON mais ligado ao mtodo centralizador do Derg. Jogando com os confrontos armados entre as duas faces, habilmente qualificados de "terror branco", Mengistu procedeu ao seu extermnio em duas fases. Durante a primeira vaga, desencadeada no outono de 1976, o "terror vermelho" aniquilou o PRPE. Em 17 de abril de 1977, por ocasio de um discurso pblico, Mengistu lanou o povo ao assalto dos "inimigos da revoluo". Juntando os atos s palavras, partiu sucessivamente trs frascos de sangue (cr-se, pelo menos) destinados a simbolizar o "imperialismo", o "feudalismo" e o "capitalismo burocrtico". O MEISON deu um grande apoio  operao, infiltrando as 293 kebele, milcias urbanas constitudas pelo Derg segundo o modelo das "sees" parisienses da Revoluo Francesa21 e equipadas pelo exrcito para enfrentar qualquer circunstncia. Na sequncia da execuo, em 11 de novembro, do tenente-coronel Atnafu Abate,22 a sua principal fonte de apoio no interior do Derg, a armadilha fecha-se sobre o MEISON, por sua vez vtima dos tristemente clebres Peugeot 504 brancos dos "estranguladores", os esquadres da morte dos servios de segurana.
	Mesmo nos dias de hoje, conseguir elementos fiveis relativos s vtimas do terror continua fora do nosso alcance. Em relao ao perodo de fevereiro de 1977-junho de 1978, foi avanado o nmero de 10.000 assassinatos polticos, s na capital, no decurso das sesses do processo realizado em Ads-Abeba em maio de 1995. Poderia parecer deslocado proceder a uma distino entre as vtimas (dos pr-chineses aos falachas, judeus autctones vtimas de chacinas em 1979...): como lembrou Karel Bartosek a respeito da Tchecoslovquia, vai longe o tempo em que se ousava privilegiar no interior das valas comuns aqueles que alimentavam o tema do Saturno bolchevique, que, como se sabe, devora os seus prprios filhos. Voltando s misturadas sta-linistas, em que os mesmos espies eram pagos pelos oramentos de Hitler, Chamberlan, Daladier e do Mikado reunidos, os requisitrios apressados dos procuradores s ordens do Derg no hesitavam em classificar as hostes de prisioneiros do pronto-a-ser-liquidado ritual como: "Reacionrios, anti-revolu-cionrios, antipovo e membros anarquistas e subversivos do PRPE." Como na ex-URSS, no terminaram ainda as descobertas das valas comuns onde se acumulam "desaparecidos" recenseados pelos relatrios da Anistia Internacional. A exemplo da China, as famlias foram convidadas a custear juntamente com o Estado as despesas inerentes  execuo das sentenas, segundo o princpio dito "paying for the bullet" (pagar a bala). Smbolo distintivo do coronel Teka Tulu (chamado "a Hiena"), um dos chefes mais odiados da Segurana do Estado, o fio de nylon (a "gravata-borboleta de Mengistu") foi muito utilizado durante as sesses de matana. A tcnica foi alis experimentada, uma noite de agosto de 1975, na pessoa do imperador deposto. Oficialmente, o falecimento foi atribudo (como no caso da neta do monarca, a princesa Ijegayehu Asfa) ao fracasso de uma interveno cirrgica.
	A colaborao dos servios de segurana leste-alemes (Stasi) e soviticos foi bastante apreciada. Os estudantes residentes em Moscou no foram poupados, com as autoridades soviticas se encarregando, em vrios casos, de entreg-los ao brao etope competente. Em Adis-Abeba, o sargento Legesse Asfaw servia de intermedirio entre os especialistas europeus e os seus camaradas autctones. Esses ltimos impuseram prticas exemplares em matria de exposio de vtimas torturadas nos passeios de Adis-Abeba. Em 17 de maio de 1977, o secretrio-geral sueco do Save the Children Fund relatou que "cerca de mil crianas foram massacradas em Adis-Abeba, e os seus corpos, expostos nas ruas, so presa das hienas errantes. [...] Quando se sai de Adis-Abeba, podem-se facilmente ver na beira da estrada os corpos amontoados das crianas assassinadas, na sua maioria com idade dos 11 aos 13 anos".
	Os 1.823 processos instrudos desde 1991 pela justia do presidente Meles Zenawi28 referem-se principalmente a personalidades urbanas marcantes. Mas uma viso muito centrada na capital falsearia a realidade sociolgica e geogrfica do terror exercido contra um pas que, no interior das suas fronteiras da poca, se estendia por 1.222.000 km2, com uma populao aproximada de 40 milhes de pessoas. A regio do Wollo, onde o PRPE se beneficiava de uma relativa implantao, conheceu igualmente a sua parte de violncia. Em maio de 1997, diante da instncia criminal do Supremo Tribunal de Adis-Abeba, o coronel Fantaye Yhdego e os tenentes Hail Gebeyahu e Ambachew Alemu tiveram assim de responder pelos seus atos, entre os quais se contava o envenenamento por gs de 24 membros do PRPE, em fevereiro de 1977, em Dese e Kombalcha. Com exceo de Choa, a situao mais bem conhecida  a da Eritria, onde a oposio nacionalista, extremamente bem organizada e beneficiando-se de slidas bases nos meios marxo-terceiro-mundistas, teve possibilidade de recolher e difundir informaes cuja natureza desacreditava, junto da opinio pblica internacional o regime de Adis-Abeba. Esse regime havia reafirmado, em 20 de dezembro de 1974, a indivisibilidade da nao: qualquer secesso da antiga colnia italiana amputava efetivamente a Etipia da sua frente sobre o Mar Vermelho. Em relao ao Sudeste, em direo ao Oceano ndico, as tendncias pan-etopes esbarravam nas reivindicaes sobre o Ogaden feitas pela Somlia, onde, desde 1969, o regime de Siyad Barre adorara oficialmente o marxismo-leninismo. Alm disso, a aproximao entre Moscou e Mogadiscio acabava de culminar no tratado de amizade de 1974. Entre os seus dois protegidos, a URSS teve de escolher. Depois de terem jogado inutilmente a carta de uma federao Etipia-Somlia-Ymen do Sul, os soviticos apostaram em Adis-Abeba. Mengistu pde de imediato beneficiar-se, sob a denominao de "Operao Estrela Vermelha", da potncia de fogo e da logstica naval e area do Exrcito Vermelho, assim como do corpo expedicionrio cubano, a fim de rechaar as ofensivas da Frente Popular de Libertao da Eritria (mar-xista-leninista) e do exrcito somali, de julho de 1977 a janeiro de 1978.
	A eficcia da ao de Mengistu foi tal, que, quando da 39 sesso do Gabinete da Federao Sindical Mundial, realizada em Adis-Abeba, de 28 a 30 de maro de 1988, a organizao - na qual a CGT francesa, ento dirigida por Henri Krasucki, detinha responsabilidades importantes - lhe atribuiu a sua medalha de ouro pela "sua contribuio para a Luta pela paz e pela segurana dos povos, pela sua independncia nacional e econmica". Na prtica, isso traduzia-se por vezes dolorosamente para os povos em questo: pouco depois do encerramento da sesso, em junho de 1988, 2.500 habitantes de Hawzen pereceram sob as bombas; como em Guernica, no Pas Basco espanhol, era dia de feira livre. Guerra colonial ou represses antinacionalistas, as regies perifricas do Imprio (Eritria, Tigre, Oromo, Ogaden, Wollega, Wollo) eram abaladas por revoltas frequentemente enquadradas por "Frentes Populares" cujos quadros partilhavam com os seus adversrios pelo menos uma retrica marxista-leninista. Contra elas foram usados recursos militares diversificados, comprazendo-se algumas correntes esquerdistas e/ou pr-chi-nesas em salientar, nessa exploso (incontestvel) de barbrie, as responsabili-dades sucessivas dos Estados Unidos, da Rssia e de Israel. Seguindo o modelo das operaes montadas contra a interveno americana no Vietn, um "Tribunal Permanente da Liga Internacional para os Direitos e a Libertao dos Povos" reuniu-se em Milo, em maio de 1980. Publicados em 1981 pelo Comit Belga de Auxlio  Eritria, os seus considerandos refletem a posio da FPLE. A partir dos relatrios da Anistia Internacional, alguns elementos recolhidos permitem, no entanto, comparaes com um grande nimero de outros teatros de operaes, e o nome de Oradour-sur-Glane ocorre espontaneamente ao observador francs que narra os massacres de populaes civis refugiadas em igrejas. Assim, a publicao do "Tribunal Permanente" evoca o caso da aldeia de Wokiduba, em que 110 pessoas teriam sido massacradas na igreja ortodoxa durante o vero de 1975. Em lugar dos Peugeot brancos de Adis-Abeba, os esquadres da morte que agiram em Asmara preferiram as caminhonetes Volkswagen beges, encarregadas de transportar para os "matadouros" (valas comuns) aqueles para quem j no  oportuno serem encarcerados no campo de concentrao de Adi Qualla, perto de Mendefera. O balano da "guerra total" decretada por Mengistu em agosto de 1977 contra os "secessionistas" da Eritria permanece ignorado. Apenas no perodo de 1978-1980, 80.000 mortos civis e militares? A essa estimativa, e levando-se principalmente em considerao as vtimas das operaes de represlias macias e dos raieis de terror areo,  licito juntar as vtimas de uma poltica sistemtica de desorganizao da vida rural. Embora os centros urbanos tenham se beneficiado de um abastecimento prioritrio e de uma presena militar assalariada favorvel ao comrcio, a agricultura padeceu com a destruio do gado  especialmente pelos aviadores, com forte preferncia pela caa ao camelo , com a implantao de minas, o desflorestamento e a desorganizao autoritria das trocas. Protagonistas essenciais da produo agrcola, as mulheres foram particularmente atingidas pelas violaes sistemticas cometidas pela tropa, e contriburam grandemente para manter um clima de insegurana pouco propcio  atividade exterior.
	 difcil afirmar que a preocupao governamental de isolar os guerrilheiros das suas bases civis constituiu a razo inicial dos deslocamentos em massa de populao na ocasio da fome de 1982-1985, embora possam ter sido efetuadas localmente punes demogrficas significativas. Se a Eritria no foi afetada, o Wollo foi atingido em propores no negligenciveis: das 525.000 pessoas deslocadas entre novembro de 1984 e agosto de 1985, 310.000 (ou seja, 8,5% da populao dessa provncia) eram originrias do Wollo. E certas regies fronteirias (Gondar) j se encontravam literalmente esvaziadas de uma parte significativa (30% a 40%) das suas populaes, reunidas no Sudo em campos de concentrao controlados por organizaes oposicionistas. Crise de subsistncia grave, embora regional, que atingiu 25% da populao, a fome inscrevia-se numa srie multissecular cujo ltimo episdio (em 1972-1973) pesara na queda do regime imperial. Os seus efeitos foram agravados pelo empobrecimento dos camponeses, colocados frente a frente com a obrigao de se privarem das suas reservas, a fim de satisfazerem as quotas de entregas que lhes eram impostas pelo Estado. J pesadamente sobrecarregados de impostos, os camponeses viram-se por vezes forados a pagar a alto preo, no mercado livre, os gros que lhes haviam sido comprados pela administrao ao preo imposto. Muitos deles tiveram de desfazer-se do seu gado, encontrando-se particularmente desguarnecidos num perodo difcil. A fome que se iniciou em 1982 foi, a princpio, a consequncia de uma autntica seca. A crise foi aumentada pela paralisia das trocas, em que a perseguio aos comerciantes e a insegurana desempenharam cada qual o seu papel. Essa crise foi colocada pelo regime Mengistu, a servio de objetivos definidos no interior da sua Reliefand Rehabilitation Commission (RRC), ou, por outras palavras, a emanao ad hoc do Politburo etope. Atravs do controle dos auxlios e do deslocamento das populaes, a arma alimentar visava  realizao de vrios objetivos, entre os quais figuraram notadamente a submisso das dissidncias e o ordenamento "cientfico" do espao pelo Parti-do-Estado. A interdio estabelecida s entidades no governamentais de intervirem para alm das zonas do Wollo e o desvio da ajuda destinada ao Tigre tendiam a fazer afluir aos setores controlados pelo exrcito as populaes rurais at ento sob controle das guerrilhas. As transferncias foradas, frequentemente facilitadas pela notcia de distribuies de vveres, foram apresentadas como uma recolocao demogrfica do norte (seco) para o sul (mido/frtil). Essas transferncias afetaram prioritariamente no as vtimas da fome, mas realmente as populaes sob controle militar, fosse qual fosse a situao alimentar da sua regio de origem: a esse respeito, os habitantes das regies disputadas entre o Derg e a Frente de Libertao do Tigre constituem um exemplo caracterstico. O voluntariado, embora seja, pontualmente, inegvel, desaparece sob o aspecto macio das deportaes. Esse despotismo regulador foi elegantemente batizado pelos dirigentes com o nome de bego (boa vontade) teseno (coero), dito de outro modo "coero para o bem de outrem". J desde 1980 que ele se exercia  custa de outros "voluntrios", recrutados manu militari nos grandes aglomerados populacionais em benefcio das fazendas do Estado e cujas condies de existncia chamaram a ateno das sociedades antiescravagistas anglo-saxnicas.
	A poltica de aldeamento, ao atingir comunidades estruturadas, enfrentou importantes resistncias, por vezes sangrentas e de forma a enriquecer a sinistra antologia das guerras camponesas sob regime comunista. Tendo em vista, como em Moambique, reagrupar as comunidades rurais num local de residncia mais facilmente controlvel pelo Partido, tal poltica devia, no entanto, permitir ao campons "mudar a sua vida e o seu pensamento, e abrir um novo captulo no estabelecimento de uma sociedade moderna nas zonas rurais e ajudar a edificar o socialismo". Ligada ao programa de reinstalao, a mesma visava tanto ao aumento do setor sovkhoziano da agricultura quanto  criao de um "homem novo"; deve ser ainda salientado, como sustenta o gegrafo Michel Foucher, que "os efeitos da fome ultrapassaram amplamente os setores e as populaes afetados pela crise climtica, j que a mesma representou a ocasio para estimular uma vasta reorganizao autoritria do espao". Sem negar o xito de algumas operaes-vitrine,  nesse caso tambm extremamente arriscado pretender quantificar os custos humanos da operao. A taxa de mortalidade (14%) de certos campos de trnsito, como o de Ambassel, no Wollo, foi superior  registrada nos bolses de fome. s 200 a 300 mil vtimas da negligncia e do segredo no  ousado juntar-se um nmero igual de pessoas sacrificadas no altar da passagem acelerada do "feudalismo" para o "socialismo", voluntariamente deixadas fora dos circuitos de ajuda internacional, abatidas durante as prises em massa ou as tentativas de fuga, despressurizadas nos compartimentos de carga dos Antonov que as levavam para o Paraso, ou abandonadas sem reservas suficientes, sendo alvo da hostilidade por vezes assassina dos que tinham chegado primeiro. Em termos medi-ticos, o balano para o regime foi contrastado: depois de ter tentado dissimular a amplitude da fome, Mengistu contra-atacou. Tirando partido das imagens chocantes difundidas pelo Ocidente no outono de 1984, anunciou, em 16 de novembro de 1984, quando a emoo atingia o seu mximo, a sua deciso de proceder  transferncia de 2,5 milhes de pessoas, jogando uma partida cerrada na esperana de colocar o auxlio internacional que se anunciava a servio dos seus projetos, e isso a despeito da hostilidade da administrao Reagan. As reaes foram divididas na Frana, onde a imunidade concedida a uma parte da intelligentsia pela familiaridade cultural do comunismo esteve parcialmente na origem da deciso dos Mdicos sem Fronteiras, nica ONG a recusar caucionar a poltica de resettlement, sendo declarada persona non grata pelo regime, em 2 de dezembro de 1985. A nvel planetrio, em compensao, um exemplar comportamento na batalha da imagem, bem como o suporte de numerosos peritos da ONU, permitiram ao regime capitalizar - para fins militares ou sumpturios  os benefcios de uma onda de solidariedade humana sem precedentes, na qual participaram as mais diversas estrelas de rock, como Bob Geldorf e Michael Jackson, intrpretes, ao lado dos mais belos expoentes do showbiz americano, do hino We are the World, do qual se pode recear que fique como nico vestgio do drama etope na memria de dezenas de milhes de ex-adolescentes dos idos anos 80.
	A partir de 1988, o crepsculo de Mengistu se confunde apenas parcialmente com o da Unio Sovitica. A partida dos conselheiros soviticos para fora das zonas de combate  anunciada em maro de 1990. Nessa data, a relao de foras j se modificou: em todas as frentes, o exrcito recua diante dos rebeldes das Frentes Populares de Libertao da Eritria e do Tigre, e o regime no se cansa de fazer vibrar a corda da ptria em perigo. O progressivo cancelamento da poltica de reinstalao e o anncio ostentrio de medidas de liberalizao da economia conjugam-se com a depurao das foras armadas, nas quais, em 16 de maio de 1989, uma tentativa prematura de putschistas largamente infiltrados pelos servios de informaes foi afogada em sangue. Em 21 de junho de 1990, Mengistu decreta a mobilizao geral: teoricamente reservada aos maiores de 18 anos, essa nem sempre poupa os mais novos (entre 14 e 16 anos), apanhados nos estdios de futebol ou nas imediaes dos estabelecimentos escolares.  1991 o ano do fechamento de todos os estabelecimentos de ensino superior, sendo o conjunto dos estudantes convidado a participar no esforo de guerra exigido  nao. Enquanto o cerco se aperta sobre Adis-Abeba, em 19 de abril de 1991 Mengistu apela  constituio de um exrcito de recrutamento " iraquiana", que pretende fazer crescer at um milho de combatentes. Dispondo nessa ocasio de 450.000 homens (contra 50.000 em 1974), o exrcito mais numeroso da frica subsarana j no d resposta, e os seus novos aliados americanos e israelitas vem com satisfao esboar-se uma soluo alternativa. Em 21 de maio de 1991, o coronel Mengistu foge, via Qunia, para Harare: heri da luta contra os colonos brancos rodesianos, Robert Mugabe concede-lhe asilo poltico. No outono de 1994, convocado a comparecer, como principal responsvel pela tragdia etope, diante de um tribunal de Adis-Abeba, o Zimbabwe recusou a extradio daquele que inspirara aos jornalistas alemes orientais do Ethiopian Herald uma das suas proclamaes mais sonoras: "Liquidaremos a herana satnica do passado e colocaremos a natureza sob o nosso controle".

	VIOLNCIAS LUSFONAS: ANGOLA, MOAMBIQUE

	Presente desde o sculo XV nas costas africanas, Portugal s tardiamente empreendeu a colonizao do imenso imprio (25 vezes a sua superfcie...) que as rivalidades europeias lhe permitiram talhar no continente negro. Essa tardia e superficial ocupao do espao no facilitou certamente a difuso de um sentimento de dependncia homognea no interior dos territrios. As organizaes que se lanaram na luta armada no incio dos anos 60 tiveram de apoiar-se, em meio s populaes no-brancas, num sentimento anticolonial certamente mais virulento do que as suas eventuais aspiraes nacionais. Conscientes dos obstculos com que deparava o seu jacobinismo, as direes nacionalistas concederam rapidamente uma forte ateno ao Inimigo interno - chefes tradicionais, colaboradores do colonizador, dissidentes polticos - acusado de atacar e causar dano  ptria em perigo. Esses traos caractersticos de uma cultura poltica que o duplo cdigo gentico salazarista e stalinista no predispunha ao culto da democracia representativa iam acentuar-se a despeito da partida precipitada da potncia tutelar.

	A REPBLICA POPULAR DE ANGOLA
	
	No momento em que, para grande fria da populao branca, os oficiais no poder em Lisboa se manifestam a favor da independncia das colnias em 27 de julho de 1974, o exrcito portugus continua senhor do terreno angolano. O seu descomprometimento precipitado abre caminho s trs organizaes independentistas: Movimento Popular para Libertao de Angola (MPLA), Frente Nacional de Libertao de Angola (FNLA) e Unio para a Independncia Total de Angola (UNITA). Em 15 de janeiro de 1975, a nova Repblica Portuguesa reconhece-os, durante a assinatura dos acordos de Alvor sobre a independncia, como "os nicos representantes legtimos do povo angolano". O calendrio  promissor: eleies para a Constituinte no prazo de nove meses; proclamao da independncia em 11 de novembro de 1975. Todavia, enquanto o xodo de 400.000 portugueses se acelera, de fevereiro a junho de 1975, a viabilidade da coligao governamental (na qual o MPLA se instalou na Informao, na Justia e nas Finanas) aparece rapidamente como um logro. Os incidentes sangrentos multiplicam-se, e o cessar-fogo de Nakuru, em 14 de junho,  somente uma trgua aproveitada por cada movimento para acumular foras e preparar a interveno dos seus aliados estrangeiros.
	Desde outubro de 1974, as armas soviticas vm aumentar o potencial das milcias do MPLA, que se beneficiavam tambm do apoio da ala esquerda do exrcito portugus, reunido no Movimento das Foras Armadas (MFA). Influenciados pelo Partido Comunista Portugus, esses setores podem ento contar com a presena em Luanda, desde maio de 1974, do "almirante vermelho" Rosa Coutinho. No ms de maro de 1975, os primeiros elementos cubanos e soviticos desembarcam em Angola. Fidel Castro explicar a posteriori a. deciso: "A frica  hoje o n fraco do imperialismo.  l que existem perspectivas excelentes para se poder passar do tribalismo ao socialismo sem ter de percorrer as vrias etapas que tiveram de atravessar algumas outras regies do mundo."W Depois da dissoluo do governo (entre 8 e 11 de agosto), o Vietn Herico acosta em Luanda: a bordo, vrias centenas de soldados (negros, na sua maioria). J so 7.000 quando, em 23 de outubro, a Unio Sul-Africana intervm maciamente ao lado da UNITA, doravante relegada pelo Pravda para o estatuto de "fora fantoche, armada pelos mercenrios da China e da CIA com o auxlio dos racistas sul-africanos e rodesia-nos". A anlise no , certamente, destituda de pertinncia. Modelada com contornos maostas, a direo da UNITA tem efetivamente um agudo sentido de pacto com o diabo. Na circunstncia, a colcha de retalhos do inventrio dos apoios da UNITA vem inscrever-se no panteo do realismo lenino-sta-linista; o caminho tortuoso que havia de conduzir Savimbi at junto de Pieck Botha nada teve que possa decepcionar os defensores do pacto germano-sovi-tico de 1939. De momento, porm, a logstica aeronaval sovieto-cubana revela-se determinante para a sobrevivncia do regime. Em 11 de novembro de 1975, MPLA e UNITA proclamam cada qual por seu lado a independncia do pas,51 enquanto se desenha um novo mapa daquela que era a prola do Ultramar portugus: o MPLA domina os portos, o petrleo e os diamantes, isto , grosso modo, o litoral; os seus rivais (entre os quais a UNITA conquista em breve a supremacia) apiam-se no Norte e, sobretudo, nos planaltos centrais. A identificao dos protagonistas torna-se a partir de ento mais fcil aos olhos dos ocidentais, como alis dos comunistas da frica Austral. Para o dirigente moambicano Samora Machel, o carter implacvel da luta inscreve-se na configurao das foras: "Em Angola, h duas partes que se confrontam: por um lado, o imperialismo e os seus aliados e fantoches; por outro, as foras progressistas que apoiam o MPLA. Nada mais". Lder incontestado do Movimento, Agostinho Neto  negro, antigo assimilado proveniente de uma famlia de pastores protestantes e "organizado" pelo PC Portugus, de pr-sovietismo comprovado desde os anos 50. Fundado em 1956, o MPLA agenciou, no decorrer das estadas que se multiplicaram na URSS ao longo dos anos 60, um bom nmero dos seus quadros dirigentes (como J. Mateus Paulo ou A. Domingos Van Dunem) de acordo com o molde marxista-leninista que ento vigorava. Ao estudo do socialismo cientfico juntava-se, para alguns deles (J. N jamba Yemina), uma formao militar adequada, na Unio Sovitica, ou nas escolas de guerrilha de Cuba. Foi como consequncia da tomada do poder que o Congresso de Luanda (4-10 de dezembro de 1977) compreendeu a necessidade da passagem de um movimento de tipo frentista para uma estrutura de vanguarda decalcada do modelo bolchevique e apta a assumir o estatuto de "partido irmo" no movimento comunista internacional. Com efeito, o novo "MPLA-Partido do Trabalho" foi de imediato reconhecido por Raul Castro, presente no Congresso, como o nico "capaz de exprimir corretamente os interesses do povo trabalhador".
	A concepo de um Estado "instrumento capaz de aplicar as orientaes definidas pelo Partido nico", implicava para o novo partido uma vigilncia acrescida relativamente s formaes rivais, prontas a camuflar a sua natureza contra-revolucionria por detrs de uma fraseologia esquerdista, bem como um centralismo democrtico a toda a prova. Portanto, no  de espantar que se assista ao ressurgimento nas latitudes austrais de prticas antidesviacionis-tas at ento reservadas ao Hemisfrio Norte. Antes mesmo da oficializao do bolchevismo angolano, Neto j tinha uma considervel experincia nessa rea. Quando, em fevereiro de 1975, ele subjugou (com o apoio das tropas portuguesas) a faco "Revolta do Leste" organizada pelo quadro ovimbundu Daniel Chipenda, o episdio permitiu a esse ltimo uma denncia das liquidaes perpetradas contra dissidentes do MPLA desde 1967. Ento, decifra-se melhor o comunicado publicado pelo Movimento em fevereiro de 1974, segundo o qual esse tinha "frustrado e neutralizado" a conspirao da contra-revoluo interna que "visava  eliminao fsica do seu presidente e de muitos dos seus quadros".
	Ministro da Administrao Interna, rival de Neto, Nito Alves encontrava-se em Luanda durante os acontecimentos de 25 de abril de 1974, que significaram o canto de adeus do regime colonial. Na ausncia da direo exterior, ele conseguiu conquistar uma audincia no negligencivel junto dos negros urbanizados, negando principalmente aos brancos a nacionalidade angolana, salvo no caso de comportamento anticolonialista confirmado. Alves apoiou-se numa rede de comits de bairro, em nome de um Poder popular para cuja conquista no recuou nem mesmo diante das prticas mais stalinis-tas, pouco suscetveis, alis, de surpreender as suas vtimas, geralmente de obedincia maosta. Seguro das garantias que certamente lhe foram dadas pelos soviticos, pelos cubanos e pelos comunistas portugueses, ensaiou um golpe de fora em 27 de maio de 1977 para tentar evitar a depurao desencadeada pouco tempo antes contra os seus partidrios. Enquanto o fracasso da operao se tornava patente (principalmente em virtude da poltica de espera dos conselheiros estrangeiros de Nito Alves), Neto tomou a palavra na rdio: "Penso que nosso povo ir compreender as razes pelas quais estamos agindo com uma certa dureza contra aqueles que esto relacionados com esses acontecimentos". Acusados de "racismo, de tribalismo e de regionalismo", os des-viacionistas foram objeto de uma depurao radical. Enquanto o Comit Central e o aparelho eram profundamente remodelados e os confrontos ensanguentavam a capital, a represso estendia-se s capitais provinciais: em Ngunza (Cuanza Sul), 204 desviacionistas teriam sido abatidos apenas na noite de 6 de agosto, o que iria dar alguma credibilidade aos nmeros avanados depois de 1991 pelos sobreviventes, segundo os quais o MPLA teria realizado uma depurao de vrios milhares dos seus membros nessa ocasio. Os comissrios polticos das FAPLAs (Forcas Armadas) foram igualmente alvo da vigilncia de Sapilinia, membro do Comit Central que chefiou pessoalmente a respectiva liquidao em Luena (Moxico).
	A relativa popularidade de Nito Alves era mantida pela denncia, nas colunas do Dirio de Luanda e nos programas de rdio "Kudibanguela" e "Povo em Armas", da degradao das condies de vida. Essas fontes deixam entrever a existncia de penrias alimentares cruis (a expresso "fome"  utilizada pelos nitistas) em certas regies. As mesmas fontes denunciam um estado de esgotamento dos assalariados urbanos ainda em atividade e controlados pelo regime: uma lei de novembro de 1975 e um decreto de maro de 1976 tinham vindo garantir a disciplina no aparelho produtivo; a greve extra-sindi-cal (ou seja, antipartido)  equiparada a um crime em virtude das palavras de ordem de "produzir e resistir". Aparecem ento (apesar da sua instrumentalizao burocrtica) formas de contestao que j no se satisfazem com a denncia ritual da desorganizao provocada pelo xodo branco e pela guerra. Prspera desde os anos 60, a economia angolana desmoronou-se literalmente a partir de 1975, e o controle estatal do sistema esconde, cada vez com maior dificuldade, uma dolarizao generalizada: monoplio partidrio e capacidade de acesso a uma divisa que se negocia a 50 vezes o seu valor oficial conjugam os seus efeitos no aparecimento de uma nomenclatura bastante indiferente s condies de existncia do "povo trabalhador". Ningum tem capacidade, durante cerca de uma dezena de anos, para avaliar a situao alimentar em imensas zonas do territrio. Enquanto o governo consegue desligar o mercado urbano  alimentado pelo rendimento petrolfero  dos produtores locais, o Estado negligencia os campos afetados pela guerra e pressionados pelos dois lados na medida das necessidades de recrutamento. O termo "fome", cuidadosamente afastado at ento pelos meios oficiais, ressurgiu em 1985 sob a forma de um aviso da FAO. Na ocasio das grandes autocrticas desencadeadas pela perestroika sovitica, o governo angolano reconhecer ento a gravidade de uma situao que culminava na concluso formulada pela UNICEF no incio de 1987, segundo a qual vrias dezenas de milhares de crianas haviam morrido de fome no decorrer do ano anterior.
	Rico graas ao domnio do enclave petrolfero de Cabinda, mas pobre em recursos administrativos, militares e militantes, o regime pde dedicar poucos recursos aos seus projetos de coletivizao e de aldeamento rurais. Tais como se apresentavam, foram sentidos como uma ameaa por importantes setores campesinos. Principalmente as coletas fiscais, a insuficincia dos investimentos pblicos, os entraves  comercializao, o fechamento dos pontos de escoamento urbanos provocaram um recuo rural. Treze anos depois da independncia, o Estado angolano publicou num relatrio oficial a posio do agrnomo Ren Dumont, que denunciava em linguagem compreensvel para os seus interlocutores a "troca desigual", que espolia os camponeses das suas "mais-valias". Essa situao transformou-se rapidamente em hostilidade contra um mundo litoral dominado pela cultura (marxizante no caso) dos assimilados crioulos e mestios, muito presentes no topo do MPLA. Foi nessa base, reforada por um dio ao estrangeiro cubano, russo, alemo oriental ou norte-coreano, que a UNITA de Jonas Savimbi pde  apesar de os seus homens praticarem sem moderao a arte de viver  custa do habitante  beneficiar-se de um apoio crescente, muito para alm das terras dos ovim-bundos que representavam a sua base tnica desde o princpio. Nessas condies, mais do que uma guerra de tipo stalinista conduzida pelo MPLA contra o campesinato, seria mais rigoroso referir, no caso angolano, uma "guerra camponesa", noo que coloca os protagonistas em posio simtrica mais em conformidade com a relao de foras existentes no terreno. Apoiados pela administrao Reagan, mas impregnados de cultura maosta, os dirigentes da UNITA servem-se, alis, alegremente, da retrica da oposio cidade/campo, denunciando em nome do "povo africano" a "aristocracia mestia" do MPLA. Torna-se no entanto difcil avaliar a dimenso, em vsperas das convulses no Leste, da ligao camponesa a Savimbi. No seguimento do des-comprometimento sul-africano e cubano que se seguiu aos acordos de Nova York, de 22 de dezembro de 1988, a converso do MPLA produziu os efeitos esperados. A adoo pela sua direo, em julho de 1990, da economia de mercado, bem como a aceitao do pluralismo partidrio, implicaram, durante as eleies de 1992, a derrota da UNITA.
	O inegvel desenvolvimento dessa organizao no decurso dos 15 primeiros anos de independncia era essencialmente o sintoma de uma reao de rejeio em face do Estado-MPLA, ela mesma mais fruto do traumatismo provocado por 15 anos de desestruturao das trocas, de recrutamentos forados c de deslocamentos em massa de populaes do que da ausncia de garantias judiciais que presidiu a represso em massa aos opositores. O perodo de transio para o pluripartidarismo foi, alis, pouco propcio  investigao das res-ponsabilidades em matria de violao dos direitos humanos, e os membros da polcia poltica  com freqncia provenientes, como na URSS, de etnias minoritrias  nunca tiveram de responder pelas suas atividades anteriores, em razo da continuidade governamental. Com exceo das pequenas formaes em que se agrupavam os que tinham escapado s depuraes, nenhum dos dois grandes partidos julgou oportuno exigir que fosse esclarecido o que aconteceu s dezenas de milhares de vtimas, cujo destino no estivera, para manter a sobriedade prpria dos relatrios da Anistia Internacional, "em conformidade com as normas de equidade internacionalmente reconhecidas".

      MOAMBIQUE

	Em 25 de setembro de 1974, os militares portugueses ainda no tinham institudo o pluripartidarismo em Lisboa quando confiaram os destinos de Moambique exclusivamente  Frente de Libertao de Moambique (Frelimo). Fundada em junho de 1962, a Frente soubera, sob a autoridade do doutor (em antropologia) Eduardo Chivambo Mondlane, conquistar as simpatias da comunidade internacional e beneficiar-se do apoio militar tanto da China como da URSS. Ao contrrio do que acontecera em Angola, a Frelimo havia conseguido, antes da "revoluo dos cravos" portuguesa (25 de abril de 1974), colocar em dificuldade as tropas coloniais, alis majoritariamente compostas por africanos. Agrupando uma parte notvel das elites intelectuais nacionalistas, a Frente reflete as divises ideolgicas que a atravessam. Em 1974, porm, j no  possvel ocultar a impregnao marxista-leninista da sua dire-o. Depois do seu II Congresso (1968), o significado do combate antiimpe-rialista, desenvolvido por Samora Machel segundo a lgica chinesa das "zonas libertadas", aparecia cada dia mais conforme  afirmao feita, pouco antes do seu desaparecimento (1969), pelo prprio Mondlane: "Concluo hoje que a Frelimo  mais socialista, revolucionria e progressista do que nunca e que a nossa linha  diariamente mais orientada para o socialismo marxista-leninista". E, interrogando-se sobre as razes dessa evoluo, explicava: "Porque, nas condies de vida em Moambique, o nosso inimigo no nos deixa escolha".
	Em seguida  independncia, o inimigo pareceu querer conceder uma certa pausa aos novos senhores. Esses ltimos, em que o elemento urbano assimilado, branco, mestio ou indiano era hegemnico, lanaram-se com entusiasmo na obstetrcia nacional. Num pas rural, a inveno da nao pressupunha, a seus olhos, um enquadramento do Partido-Estado, nica forma de garantir uma poltica de "aldeamento", consequente, capaz, alm disso, de engendrar o homem novo, to caro ao poeta Srgio Vieira. J iniciada no comeo dos anos 70 nas "zonas libertadas", com resultados diversos, essa poltica foi sistematizada no conjunto do territrio. Todos da populao rural, a saber 80% do total, deveriam supostamente abandonar o seu habitat tradicional, a fim de se reagruparem em povoados. No entusiasmo da independncia, as populaes responderam favoravelmente s solicitaes da administrao, cultivando campos coletivos rapidamente abandonados nos anos seguintes, participando por vezes na edificao das construes exigidas, sem contudo concordarem em residir no local. No papel, porm, o pas estava coberto por uma administrao hierarquizada, teoricamente sob controle das clulas de um partido que, em 1977, tinha claramente reivindicado a herana bolchevique e apelado ao desenvolvimento da coletivizao das terras e ao reforo dos laos com o movimento comunista internacional. Haviam sido assinados diversos tratados com o Leste, e o fornecimento de armamento e de instrutores parecia autorizar um apoio acrescido aos nacionalistas rodesianos do Zimbabwe African National Union (ZANU).
	Em um momento em que Moambique se associava ao bloqueio que ameaava estrangul-la, foi como represlia que a Rodsia branca de lan Smith decidiu dar o seu apoio  resistncia que comeava a aparecer nos campos. Sob a direo de Afonso Dhlakama, a Resistncia Nacional Moambicana (Renamo) beneficiou-se de um apadrinhamento estreito dos servios especiais rodesianos at a independncia do Zimbabwe, data a partir da qual a tutela logstica passou a ser assegurada pela frica do Sul (1980). Para surpresa de numerosos observadores, a adeso  resistncia das populaes dos povoados foi crescendo, a despeito dos mtodos brbaros da Renamo, cuja ao assustava at os seus protetores rodesianos. Os fugitivos dos "campos de reeducao" que se multiplicaram a partir de 1975 sob a frula do Servio Nacional de Segurana Popular (SNASP) no eram os menos violentos. Na falta de adeso, o controle das populaes tornava-se uma questo vital para ambas as partes, e os raros estudos no terreno confirmam as observaes da Human Rights Watch quanto  amplitude e  bestialidade das exaes cometidas pelos dois campos contra as populaes civis. Menos enquadrada do que a violncia de Estado da Frelimo, a exercida pela Renamo no se resumiu em aes contra as "grandes companhias", a partir de ento entregues a si mesmas depois da desero dos seus responsveis. O apoio que apesar de tudo lhe  concedido exprime um dio ao Estado cuja dimenso testemunha violncias que a Frelimo procura justificar, numa linguagem estrangeira, como feita em nome da luta contra o "tribalismo", contra um apego s prticas religiosas qualificadas de "obscurantistas", e contra uma fidelidade continuada e relativa s linhagens de chefias tradicionais que foram rejeitadas em bloco  sob o rtulo de "feudalismo" - pelo regime depois da sua independncia.
	As prerrogativas do SNASP tinham sido bastante aumentadas antes mesmo de a amplitude da ameaa constituda pela Renamo ter sido percebida pelas autoridades de Maputo. Criada em outubro de 1975 a Segurana Popular estava efetivamente habilitada a prender e deter qualquer pessoa suspeita de "ataque  Segurana do Estado", noo que inclua os que cometessem delitos econmicos. O SNASP fora fundado para levar essas pessoas a tribunal e, nesses casos, encarregava-se da instruo. Podia igualmente envi-las diretamente para um "campo de reeducao". Negado aos detidos pelo artigo 115 do Cdigo de Processo Penal, o habeas-corpus era s uma recordao (admitindo que a sua aplicao tenha sido efetiva nos tempos salazaristas...) quando o primeiro ataque de envergadura da Resistncia visou, em 1977, o campo de reeducao de Sacuze. As "ofensivas pela legalidade", periodicamente conduzidas por Samora Machel, no limitaram as prerrogativas do SNASP. Visavam pr em concordncia o fato com o direito; tal foi a lgica da Lei 2/79, de 28 de fevereiro de 1979, sobre os crimes contra a segurana do povo e do Estado Popular, restabelecendo a pena de morte, abolida em Portugal e em todas as suas colnias desde 1867. O castigo supremo no era, alis, sempre aplicado dentro das regras, e principalmente quando se tratava de eliminar os dissidentes da Frelimo. Foi esse em especial o destino de Lzaro Nkavandame, Joana Simaio e Uria Simango, liquidados na ocasio da sua deteno em 1983 e cujo destino foi mantido secreto at que o Partido riscou o marxismo-leninismo da sua agenda. Esse mesmo ano de 1983 foi igualmente marcado, no plano jurdico, pelo fechamento da Faculdade de Direito Eduardo Mondlane, em Maputo; acreditando-se nas consideraes apresentadas pelo governo, era efetivamente claro que esse estabelecimento no preparava os juristas para defenderem os direitos do povo, mas unicamente os dos exploradores. De um modo geral, a intelligentsia caiu muito rapidamente num desencanto discreto, tingido de servilismo em relao  Associao dos Escritores Moambicanos, entregando-se em privado a comparaes iconoclastas entre KGB, CIA e SNASP. Mais raros foram aqueles que, como o poeta Jorge Viegas, pagaram a sua dissidncia com o hospital psiquitrico e depois com o exlio.
	O recrudescimento poltico ento verificado andava a par, segundo uma lgica j comprovada quando dos primeiros passos da Rssia sovitica, de uma abertura econmica. Indubitavelmente, essa no tinha necessidade de uma maior abertura em face do estrangeiro, uma vez que os investimentos ocidentais foram sempre bem recebidos, como convm a um pas de "orientao socialista" ao qual a URSS recusou a entrada no Comecon. O IV Congresso (1983) voltou a sua ateno para a populao rural, pondo fim  poltica de coletivizao, de efeitos desastrosos. Ao fazer uma das denncias de que tanto gostava, Samora Machel deixou as coisas muito claras: "No esqueamos o fato de que o nosso pas , antes de mais nada, constitudo por camponeses. Ns persistimos em falar da classe operria e relegamos para segundo plano a maioria da populao." Cada incndio de palhoas pelas milcias governamentais, por ordens (tericas) de superiores hierrquicos preocupados com as quotas de aldeamento, reforava automaticamente a Renamo. Alm disso, a desestruturao dos sistemas de cultivo, a degradao das condies de troca de bens de consumo/culturas alimentares e a desorganizao do comrcio concorriam para um agravamento das dificuldades de alimentao. No parece que a arma da fome tenha sido utilizada de forma sistemtica, tanto pelas autoridades como pela Renamo. No entanto, o controle do auxlio alimentar representou para a Frelimo um trunfo essencial para o reagru-pamento das populaes que os dois campos disputavam. Por esse fato, a concentrao improdutiva de agricultores colocados de frente com a impossibilidade de regressarem s suas terras era ela mesma geradora de dificuldades alimentares futuras. No total, segundo a Human Rights Watch, a insuficincia das raes globalmente disponveis durante o perodo de 1975-1985 esteve na origem de uma quantidade de mortos superior  causada pela violncia armada. A avaliao  confirmada pela Unicef, que estima em 600 mil o nmero de vtimas da fome no decorrer da dcada em questo e no hesita em esboar uma comparao com a Etipia. A ajuda internacional traduziu-se, para muitos, na sobrevivncia das populaes expostas. Em janeiro de 1987, o embaixador dos Estados Unidos em Maputo enviou ao Departamento de Estado um relatrio que quantificava em 3,5 milhes o nmero de moambicanos ameaados pela fome, desencadeando um auxlio imediato de Washington e de vrias organizaes internacionais. No entanto, as zonas mais isoladas e expostas s instabilidades climticas foram vtimas de fomes brutalmente mortferas de amplitude dificilmente estimvel, como a regio de Memba, onde, segundo as organizaes humanitrias, oito mil pessoas morreram de fome na primavera de 1989 Nas reas abrangidas pela solidariedade estrangeira, o mercado retomou rapidamente os seus direitos. , em todo o caso, uma das ilaes de um relatrio da Comunidade Europeia de 1991,76 do qual ressalta que somente 25% da ajuda alimentar eram vendidos ao preo acordado, ficando 75% nas mos do aparelho poltico-administrativo, o qual, depois da puno de rigor, negociava os excedentes no mercado paralelo. O homem novo que Samora Machel e os seus teimavam em construir era bem "o produto patolgico desse compromisso, o qual, no sujeito individual,  vivido como desonra, mentira, loucura esquizofrnica. Ele quer viver, mas para isso tem de dividir-se, levar uma vida escondida e verdadeira e uma vida pblica e falsa, querer a segunda para proteger a primeira, mentir incessantemente para guardar em algum lugar um caminho de verdade".
	O repentino desmoronamento dos Partidos-Estado do Leste levou, num movimento muito natural, a prestar mais ateno  sua fraqueza e a acentuar a resistncia das sociedades civis. Embora, no decorrer dos 15 anos considerados, a caracterizao pblica do comunismo africano como "legitimao poltica moderna" pudesse ter tido consequncias dolorosas para um universitrio autctone, essa percepo nem por isso deixa de conservar a sua carga explicativa. A pouca durao da experincia africana, conjugada com a percepo dominante de uma frica tautologicamente votada  violncia em razo da sua prpria africanidade, poderia levar a atenuar - a despeito das nossas precaues iniciais - os contornos do nosso tema. A fim de resistir  tentao, no , sem dvida, intil inverter a perspectiva. Se  verdade que a especificidade da violncia observada nos Estados de obedincia marxista-leninista dificilmente sobressai num continente marcado pelo partido nico, os massacres e a fome no sero devidos, como escrevia A. Mbembe, ao fato de que, embora os pases africanos "tenham sido colonizados e conduzidos  independncia pelas potncias ocidentais, foram definitivamente os regimes de tipo sovitico que lhes serviram de modelo", no tendo os esforos de democratizao "modificado a natureza profundamente leninista dos Estados africanos"?

	3. O comunismo no Afeganisto
	por Sylvain Boulouque

	O Afeganisto estende-se por 640.000 km2, isto , uma superfcie um pouco maior do que a de um pas como a Frana, e se situa nos confins de quatro Estados: a Unio Sovitica a norte, o Ir a oeste, o Paquisto a leste e a sul, e marginalmente, em algumas dezenas de quilmetros, a China a leste. Mais de um tero do seu territrio  composto por altas montanhas, algumas das quais ultrapassam os 7.000m. Em 1979, a populao afegane contava 15 milhes de habitantes distribudos por diversas etnias. A etnia dominante, com seis milhes de pessoas, implantada principalmente no sul do pas,  a dos pachtos, populao de maioria sunita, que fala a sua prpria lngua, o pachto. Os tadji-ques, principalmente persfonos sunitas, exprimem-se em dari e esto representados por quatro milhes de pessoas instaladas sobretudo no leste do pas. Os uzbeques, tambm eles sunitas, populao turcfona instalada no norte, representam um milho e meio de pessoas. Igualmente estimados em um milho e meio de pessoas, os hazaras so predominantemente xiitas e vivem no centro do pas. As outras etnias, entre as quais se contam turcomanos, quirgui-zes, baluches, aymaqs, kohistanes e nuristanes, esto distribudas por toda a extenso do territrio e constituem, no total, 10% da populao afegane.
	O principal fator de unio nacional  o isl. 99% dos afeganes so muulmanos, 80% dos quais, sunitas, e 20%, xiitas. Existem minorias sikhs e hindus e uma pequena comunidade judaica. Era um islamismo moderado que marcava o ritmo da vida cotidiana do Afeganisto, tanto nas cidades como nos campos. As estruturas tradicionais do sistema tribal foram mantidas at h pouco tempo, em que os chefes de tribo dirigiam pequenas comunidades. Esmagadoramente rural, o Afeganisto dispunha, em 1979, de uma grande cidade, com mais de 500 mil habitantes, Cabul, a capital, localizada no leste do pas, e de algumas cidades de menor importncia, como Herat, no oeste, Candahar, no sul, Mazar-e-Charif e Cunduz; nenhuma dessas ultrapassava os 200 mil habitantes. Uma longa tradio de resistncia s tentativas de conquista constitui um outro capital comum dos afeganes. Eles haviam resistido a tentativas de invaso dos mongis e, depois, dos russos. O Afeganisto esteve sob tutela inglesa desde meados do sculo XIX at 1919. Enquanto a Inglaterra e a Rssia, posteriormente a Unio Sovitica, se defrontavam atravs dos povos da sia Central, a monarquia afegane procurou sempre afirmar a sua independncia relativa, uma vez que foi frequentemente o prmio de rivalidades entre as potncias. A tomada efetiva do poder pelo rei Zaher, em 1963, acelerou a onda de modernizao cultural, econmica e poltica. A partir de 1959, as mulheres haviam sido desobrigadas de usar o vu, tiveram acesso  escola, as universidades passaram a ser mistas. O rei tinha escolhido democratizar o regime, e o Afeganisto encontrava-se na via do sistema parlamentar: os partidos polticos foram reconhecidos em 1965, e realizaram-se eleies livres. O golpe de Estado comunista de 27 de abril de 1978 e a consequente interveno sovitica modificaram o equilbrio do pas e desorganizaram os quadros tradicionais em plena mutao.

	O Afeganisto e a URSS de 1917 a 1973

	Os laos entre a Unio Sovitica e o Afeganisto eram antigos. Em abril de 1919, o rei Amanollah estabeleceu relaes diplomticas com o novo governo de Moscou, o que permitiu a esse ltimo abrir cinco consulados. Em 28 de fevereiro de 1921, foram assinados um tratado de paz e um acordo de cooperao, e os soviticos participaram na construo de uma linha telegrfica. Pagavam ao rei um subsdio anual de 500.000 dlares. Esse entendimento marcava para os soviticos no s a vontade de contrabalanar a influncia inglesa no pas, mas tambm de estender a revoluo aos pases sob domnio colonial ou semicolonial. Desse modo, quando do Congresso dos Povos do Oriente, realizado em Bacu, de l a 8 de setembro de 1920, os responsveis da Internacional Comunista consideraram que o anticolonialismo e o antiim-perialismo poderiam atrair para o seu campo os povos "sob domnio" e lanaram-se em declaraes em que a expresso "luta de classes" era substituda por Jihad ("guerra santa"). Parece que trs afeganes participaram nesse congresso: Agazad pelos comunistas afeganes, Azim pelos "sem-partido", e Kara Tadjiev, que se tornou mais tarde o representante dos sem-partido junto ao Congresso. Nessa mesma linha, as resolues do IV Congresso da Internacional Comunista, o qual se iniciou em 7 de novembro de 1922, preconizavam o enfraquecimento das "potncias imperialistas" atravs da criao e organizao de "frentes nicas antiimperialistas".
	Ao mesmo tempo, as tropas soviticas comandadas pelo general Mikhail Vassilievitch Frunz (1888-1925), um dos responsveis do Exrcito Vermelho que participara na represso contra o movimento anarquista ucra-niano de Nestor Makhno, anexaram, em setembro de 1920, o Khanat (provncia de Bukhara), que, anteriormente, fizera parte do reino do Afeganisto, e multiplicaram as operaes contra os camponeses, os basmatchis- designados como "bandidos", que sempre haviam recusado o domnio russo e depois bolchevique na regio -, utilizando mtodos semelhantes aos usados contra os camponeses revoltosos na Rssia. A anexao dessa regio tornou-se definitiva em 1924, mas os combates prosseguiram, enquanto um milho de basmatchis se refugiavam no Afeganisto. S em 1933 os basmatchis foram definitivamente esmagados pelo Exrcito Vermelho. A influncia dos comunistas nas esferas dirigentes do Afeganisto j se fazia sentir; muitos oficiais afeganes iam formar-se na URSS. Paralelamente, "diplomatas soviticos" realizavam ativi-dades clandestinas: um adido militar e vrios engenheiros foram expulsos por esse tipo de trabalho. A presena de agentes da GPU no Afeganisto est igualmente atestada, na pessoa de Georges Agabekov, membro da Tcheka desde 1920, integrado ao servio Inostrany Otdel (a seo estrangeira), de que se tornou o residente ilegal, primeiro em Cabul e depois em Istambul, onde continuou a ocupar-se do Afeganisto at a sua ruptura com a GPU, em 1930.
	Em 1929, o rei Amanollah iniciou uma poltica de reforma agrria. Conduziu em paralelo uma campanha anti-religiosa. As leis foram decalcadas do modelo do reformador turco Kemal Ataturk e provocaram um levante campons, encabeado por Batcha-y-Saqqao, "o Filho do Aguadeiro", que derrubou o regime. Inicialmente, esse levante foi visto pela Internacional Comunista como anticapitalista. Depois, a URSS ajudou as tropas do Antigo Regime, comandadas pelo embaixador afegane em Moscou, Gulam-Nabi Khan, a entrar no Afeganisto. As tropas soviticas (as melhores unidades de Tachkent, apoiadas pela aviao russa) penetraram no Afeganisto com uniformes afeganes. Cinco mil afeganes que representavam as forcas governamentais foram mortos, todos os camponeses encontrados durante a passagem do Exrcito Vermelho foram imediatamente executados. O rei Amanollah e Gulam-Nabi Khan fugiram para o estrangeiro, e o apoio sovitico terminou. Nader Shah, precipitadamente de volta do seu exlio na Frana, assumiu a chefia do exrcito afegane, os notveis e as tribos proclamaram-no rei, e "o Filho do Aguadeiro", que iniciara uma fuga, foi preso e executado. Nader Shah procurou o entendimento com os ingleses e com os soviticos. Era reconhecido e escutado em Moscou, em troca do fim do apoio aos insurrectos bas-matchis. O dirigente dos basmatchis, Ebrahim Beg, foi rechaado pelo exrcito afegane para o territrio sovitico, onde foi preso e executado. A 24 de junho de 1931, foi assinado um novo tratado de no-agresso. Nader Shah morreu assassinado por um estudante, e Zaher Shah, seu filho, tornou-se rei em 1933.
	Depois de 1945, o pas conheceu vrias ondas de "modernizao", principalmente sensveis na capital, com a implementao de planos quinquenais e septenais. Foram assinados novos acordos de associao e de amizade com a Unio Sovitica, entre os quais o de dezembro de 1955, que preconizava a no-ingerncia, ao mesmo tempo que numerosos conselheiros soviticos eram enviados para o Afeganisto, notadamente a fim de contribuir para a modernizao do exrcito.
	O prncipe Mohammed Daud, primo do rei e primeiro-ministro, governou de 1953 a 1963. Participou na criao do movimento dos no-ali-nhados. Com o decorrer do tempo, a influncia sovitica tornou-se preponderante, os soviticos introduziram-se no exrcito e nos setores-chave da vida do pas. Os acordos econmicos foram orientados de modo quase exclusivo a favor da URSS, embora o prncipe tentasse regularmente aproximaes com os Estados Unidos. Em 1963, Daud foi demitido pelo monarca, Zaher Shah, que doravante exerceria realmente o poder. No decurso da dcada de 1963-1973, Zaher tentou transformar o regime numa monarquia constitucional. Os partidos polticos foram legalizados, e as primeiras eleies livres realizaram-se em janeiro de 1965. Um segundo escrutnio foi organizado em 1969. Na ocasio das duas eleies, os resultados deram a vantagem a notveis locais e a grupos favorveis ao governo. O Afeganisto ocidentalizava-se e modernizava-se, embora o pas no fosse ainda uma verdadeira democracia: "O regime real estava longe de ser perfeito: altivo, privilegiado, frequentemente corrupto", sublinha Michael Barry. "Mas estava longe de ser esse abismo de barbrie que os comunistas afeganes se comprazem em descrever. Alm disso, a realeza, desde 1905, abolira a tortura, e at os castigos corporais previstos pela Charia haviam cado em desuso: nesse domnio, o regime comunista representa uma regresso selvagem."

	Os comunistas afeganes

	O Partido Comunista Afegane, que permanecera clandestino, apareceu  luz do dia sob o nome de Partido Democrtico do Povo Afegane (PDPA). As eleies permitiram a Babrak Karmal e  sua companheira, Anathih Ratebzd, serem eleitos deputados. Outros comunistas, entre os quais Hafizullah Amin, foram eleitos nas eleies de 1969. Um Congresso do PDPA, realizado no incio do ano de 1965, designou, com o aval dos soviticos, Nur-Mohammed Taraki como secretrio-geral. No entanto, por detrs de uma unio de fachada, existiam rivalidades e divergncias, que eram de ordem tanto poltica como tribal e pessoal. Babrak Karmal era um kabuli, aristocrata pertencente  famlia real; filho do general Mohammed Hosayan Khan, Karmal era apenas um pseudnimo, "o Amigo dos Trabalhadores". Segundo um desertor da KGB, Karmal teria pertencido a essa instituio durante muitos anos. O outro fundador do Partido, Nur-Mohammed Taraki, era filho de um campons abastado, nascido num povoado da provncia de Ghazni. Era um pachto que atingira as esferas governamentais graas aos seus conhecimentos de ingls. Hafizullah Amin era tambm um pachto, nascido nos arredores de Cabul, no seio de uma famlia de pequenos funcionrios.
	O PDPA era formado por dois movimentos, dispondo cada um do seu jornal, o Khalq (O Povo) e o Partcham (Estandarte ou Bandeira). O Khalq agrupava os pachtos do sudeste do pas, e o Partcham reunia as classes abastadas persfonas e queria implementar a teoria da frente unida. Ambos eram abertamente ortodoxos e seguiam de muito perto a poltica sovitica, embora o Partcham parecesse mais sensvel aos desgnios de Moscou. A ciso entre as duas faces durou de 1966 a 1976, com cada uma delas reivindicando o ttulo de comunista afegane e agindo em nome do PDPA. O Khalq e o Partcham foram reunificados em 1976. O Partido nunca ultrapassaria de 4.000 a 6.000 membros. Ao lado desses dois movimentos agrupados no seio do PDPA, existiam variantes pr-chinesas do comunismo. A Chama Eterna (Sho-l-y-Jawid), que recrutava os seus militantes principalmente entre os xiitas e os estudantes, dividiu-se mais tarde em vrias tendncias. O conjunto dos grupos maostas se juntaria posteriormente  resistncia. Entre 1965 e 1973, os comunistas afeganes conduziram uma campanha de descrdito sistemtico do governo e da monarquia. Multiplicaram as manifestaes e as interrupes das sesses do Parlamento. Paralelamente, os militantes do PDPA procuravam recrutar adeptos, sobretudo nas esferas dirigentes.

	O golpe de Estado de Mohammed Daud

	Daud, afastado do poder em 1963 pelo rei Zaher, fomentou e conseguiu levar a cabo um golpe de Estado em 1973, graas ao apoio dos oficiais comunistas.  necessrio notar que as interpretaes divergem: uns tendem a pensar que se tratou de uma ao teleguiada de Moscou,12 enquanto outros admitem que Daud utilizou os comunistas. Como quer que seja, o governo de Daud inclua sete ministros comunistas pertencentes ao Partcham. As liberdades constitucionais foram suspensas. Foi desencadeada uma primeira fase de represso, por instigao dos comunistas. "O dirigente nacionalista Hashim Maiwandwal (antigo primeiro-ministro de tendncia liberal entre 1965-1967)  preso por conspirao, juntamente com cerca de outras 40 pessoas, das quais quatro so executadas. Maiwandwal 'suicida-se' (verso oficial) na priso. A opinio geral  que se trata de um assassinato, constituindo um golpe montado, a fim de retirar a Daud qualquer soluo alternativa credvel e para eliminar certas personalidades no comunistas." ^ A tortura e o terror tornaram-se mtodos correntes, e a sinistra priso de Pol-e-Tcharki foi inaugurada em 1974.
	No entanto, em 1975, Daud expulsou os comunistas e assinou novos acordos comerciais com os pases do bloco do Leste, mas tambm com o Ira e a ndia. As relaes com a URSS deterioraram-se, e, na ocasio de uma visita  Unio Sovitica, Daud aborreceu-se com Leonid Brejnev e procurou afirmar a independncia econmica do seu pas. Os seus dias estavam contados, e acabou por ser derrubado em 27 de abril de 1978. Michael Barry resume muito bem a situao nos dias anteriores ao golpe de Estado: "O Afeganisto anterior a 1978 era um Estado laico, que nunca tolerou a oposio integrista muulmana, oficialmente neutra, complacente em relao  Unio Sovitica,  qual no contestava as fronteiras nem o domnio sobre outros muulmanos. [...] Afirmar que a URSS tomara a dianteira para bloquear o crescimento do integrismo muulmano no faz sentido; ao liquidar Daud, antes reforou uma contestao islmica que at aquele momento ela tivera tendncia de subestimar; quando muito, o golpe de Estado comunista foi acelerado para impedir que o Afeganisto escapasse  ltima hora ao domnio da URSS."

	O golpe de Estado de abril de 1978 ou a "Revoluo de Saur"

	O incidente que desencadeou o golpe de Estado comunista foi o assassinato de Mir-Akbar Khaybar, um dos fundadores do PDPA, em condies que permanecem misteriosas. Uma primeira verso, avanada depois da tomada do poder pelo Partcham,  a sua eliminao pelos homens do Khalq dirigidos por Hafizullah Amin. A segunda verso  que o seu assassinato foi cometido por Mohammed Najibullah, o futuro dirigente dos servios secretos afeganes, com a cumplicidade dos servios secretos soviticos. Esse assassinato teve como consequncia a multiplicao das manifestaes comunistas e a derrubada de Daud. Parece, efetivamente, que a tomada do poder foi premeditada. Amin, chefe do Khalq, que estava particularmente bem implantado ao lado dos militares, havia projetado um golpe de Estado para o ms de abril de 1980. Com efeito, a implantao do comunismo no Afeganisto teve a particularidade de ter retomado os mtodos inaugurados na Espanha e seguidamente aplicados nas "democracias populares": introduo nas esferas dirigentes, infiltrao no exrcito e na alta administrao, depois tomada do poder pela fora, quando do golpe de Estado de abril de 1978, qualificado de "Revoluo de Abril" ou "Revoluo de Saur" (do touro). A marginalizao dos comunistas por Daud e o assassinato de Mir-Akbar Khaybar aceleraram os preparativos. As manifestaes comunistas multiplicaram-se. Daud mandou prender ou manter em residncia vigiada os principais dirigentes comunistas. Amin, com residncia fixa, beneficiou-se da cumplicidade dos policiais, ao que parece membros do PDPA, que vigiavam a sua residncia, e pde, portanto, organizar o golpe de Estado a partir de sua casa. 
	O palcio presidencial foi tomado de assalto, em 27 de abril de 1978, por tanques e avies. Daud, os seus familiares e a guarda presidencial recusaram render-se. Ele e 17 membros da sua famlia foram eliminados no dia seguinte. Em 29 de abril, foi efetuada uma primeira depurao, que fez 3.000 vtimas entre os militares no comunistas. A represso conduzida contra os partidrios do Antigo Regime fez cerca de 10.000 vtimas. Entre 14.000 e 20.000 pessoas foram detidas por razes polticas.
	O novo governo, dirigido por Nur-Mohammed Taraki, foi proclamado em 30 de abril. Taraki, do Khalq, foi nomeado presidente da Repblica Democrtica do Afeganisto; Babrak Karmal, do Partcham, vice-presidente e vice-primeiro-ministro, e Hafzullah Amin, do Khalq, segundo vice-presidente e ministro dos Negcios Estrangeiros. A Unio Sovitica foi o primeiro Estado a reconhecer o novo governo, ^ com o qual assinou um acordo de cooperao e assistncia mtua. Taraki decretou reformas que, segundo todos os observadores e testemunhas, quebraram os quadros tradicionais da sociedade afegane. As dvidas rurais e as hipotecas sobre as terras foram eliminadas, a escola tornou-se obrigatria para todos, implementou-se uma propaganda anti-religiosa. Taraki foi proclamado "o guia e o pai da Revoluo de Abril". No entanto, as reformas provocaram um descontentamento geral, e as primeiras revoltas explodiram, em julho de 1978, em Asmar, no sudeste do Afeganisto. A violncia poltica tornou-se onipresente. A 14 de fevereiro de 1979, o embaixador americano, Adolph Dubs, foi raptado pelo grupo maosta Setem-i-Milli, que reclamava a libertao de um dos seus dirigentes, Barru-dim Bhes, que entretanto havia sido executado pelo KHAD - os servios de segurana afeganes, aconselhados pelos soviticos. Os homens do KHAD intervieram e mataram o embaixador americano e os seus raptores. "Alguns diro que essa operao foi sub-repticiamente dirigida com o objetivo de comprometer a situao diplomtica do regime khala." No existe qualquer testemunho desse rapto.
	Pouco depois, o governo comunista decretou uma campanha anti-reli-giosa. O Alcoro era queimado nas praas pblicas. Vrios responsveis religiosos (ims) foram presos e assassinados. Assim, no cl dos Mojaddedi, grupo religioso muito influente de uma etnia xiita, todos os homens, ou seja, 130 pessoas de uma mesma famlia, foram massacrados na noite de 6 de janeiro de 1979. A prtica religiosa foi proibida a todas as confisses, inclusive  pequena comunidade judaica composta por 5-000 membros com residncia principalmente em Cabul e em Herat e que encontrou refgio em Israel.
	A rebelio se alastrou, multiforme, sem estrutura real. Primeiro progrediu nas cidades e depois estendeu-se aos campos. "Cada tribo, cada etnia, com as suas prprias tradies, vai constituir-se numa rede de resistncia. A resistncia  formada por mltiplos grupos em contato permanente com a populao, e cujo lao primordial  o isl." Face a essa recusa generalizada em aceitar a sua tomada do poder, os comunistas afeganes recorreram ao terror, auxiliados por conselheiros soviticos. Michael Barry recorda: "Em maro de 1979, o povoado de Kerala foi palco de um massacre: 1.700 adultos e crianas, toda a populao masculina do povoado, foram reunidos na praa e metralhados  queima-roupa; os mortos e os feridos foram enterrados uns sobre os outros em trs valas comuns, com um bullcozer. As mulheres, apavoradas, vem, durante longos momentos, os montculos de terra agitarem-se, porque os enterrados vivos tentavam escapar. Depois, mais nada. As mes e as vivas fugiram todas para o Paquisto. Essas patticas 'contra-revolucion-rias-feudais-vendidas-aos-interesses-chineses-e-americanos' do testem unho, entre soluos de dor, nas suas cabanas de refugiados."
	Os comunistas afeganes pediram ento uma ajuda discreta, mas cada vez maior, aos soviticos. Em maro de 1979, alguns Migs decolaram da Unio Sovitica e bombardearam a cidade de Herat, que acabara de cair nas mos dos rebeldes que se opunham ao poder dos comunistas. O bombardeamento e depois a represso fizeram, conforme as fontes, entre 5.000 e 25.000 mortos numa populao de 200.000 habitantes, porque o exrcito se encarregou seguidamente de limpar a cidade de rebeldes. Portanto, no existem elementos sobre a amplitude da represso. A rebelio alastrou-se  totalidade do pas, e os comunistas viram-se obrigados a pedir de novo ajuda aos soviticos, que a forneceram: "Material especial no montante de 53 milhes de rublos, incluindo 140 canhes, 90 veculos blindados (50 dos quais de urgncia), 48.000 espingardas, cerca de 1.000 lana-granadas, 680 bombas de aviao [...]. Como ajuda prioritria, os soviticos forneceram 100 reservatrios de lquido incendirio, 150 caixas de granadas; porm se desculparam por no poderem satisfazer o pedido afegane de bombas carregadas com gs txico e de pilotos de helicpteros." Entretanto, o terror reinava em Cabul. A priso de Pol-e-Tcharki, localizada na zona oriental da cidade, tornou-se um campo de concentrao. O diretor da priso, Sayyed Abdullah, explicou aos prisioneiros: "Vocs esto aqui para serem reduzidos ao estado de lixo". A tortura era moeda corrente: "O castigo supremo da priso era ser enterrado vivo na fossa das latrinas". Os detidos eram executados ao ritmo de vrias centenas por noite, "os cadveres e os agonizantes eram enterrados com a ajuda de bulldozers. Os mtodos que Stalin utilizava contra os povos punidos voltaram a uso. Desse modo, em 15 de agosto de 1979, 300 pessoas da etnia dos Hazras, suspeitas de apoiarem a resistncia, foram presas. "Dessas, 150 foram enterradas vivas por bulldozerr, as da outra metade foram regadas com gasolina e queimadas vivas." Em setembro de 1979, as autoridades da priso reconheciam que 12.000 detidos tinham sido eliminados. O diretor da priso de Pol-e-Tcharki afirmava a quem quisesse ouvi-lo: "S deixaremos um milho de afeganes vivos;  o suficiente para construir o socialismo!" 
	Enquanto o Afeganisto se transformava numa priso gigantesca, os confrontos entre o Khalq e o Partcham prosseguiam no interior do PDPA. Deu-se uma reviravolta que favoreceu o Khalq, Os representantes do Partcham foram enviados para as embaixadas dos pases do Leste; o seu dirigente, Babrak Karmal, que fora agente da KGB, foi destacado para a Tchecoslovquia, a pedido expresso da Unio Sovitica. Em 10 de setembro de 1979, Amin tornou-se primeiro-ministro e secretrio-geral do PDPA. Eliminou os seus alegados opositores, mandando assassinar Taraki, o qual, segundo a verso oficial, teria morrido na sequncia de uma doena prolongada quando regressava de uma viagem  URSS. Os diferentes observadores assinalaram a presena de 5.000 conselheiros soviticos no Afeganisto, e particularmente a do coronel-general Ivan Gregorevitch Pavlosky, chefe do esta-do-maior das foras terrestres soviticas.
	Pouco mais de um ano aps o golpe de Estado comunista, o balano era aterrador. Shah Bazgar explica: "Babrak Karmal confessou ele prprio que os expurgos dos seus dois antecessores, Taraki e Amin, haviam feito pelo menos 15-000 vtimas. Na verdade, foram no mnimo 40.000. Entre elas, infelizmente, dois dos meus primos maternos desapareceram na penitenciria de Pol-e-Tcharki. Um, Selab Safay, era um prestigiado homem de letras, cujos poemas eram lidos no rdio e na televiso. Eu tinha por ele um afeto profundo. O meu outro primo, seu irmo, era professor. Toda a elite do pas se encontrava decapitada. Os raros sobreviventes testemunhavam as atrocidades comunistas. As portas das celas eram abertas: de listas na mo, os soldados soletravam nomes de detidos. Esses levantavam-se. Alguns instantes mais tarde, ouviam-se rajadas de metralhadora. Esses nmeros s levam em considerao os acontecimentos de Cabul e das principais cidades do pas. As execues nos campos, onde os comunistas faziam reinar a ordem pelo terror com o objetivo de aniquilar qualquer forma de resistncia, e os bombardeamentos desses mesmos campos provocaram a morte de cerca de 100.000 pessoas. O nmero de refugiados afeganes que fugiam desses massacres foi calculado em mais de 500.000 pessoas.
 
      A interveno sovitica

	O Afeganisto soobrava na guerra civil. Os comunistas, apesar da represso, no conseguiam estabelecer o seu poder e pediram uma vez mais a ajuda sovitica. Em 27 de dezembro de 1979, foi desencadeada a operao "Borrasca 333", e as tropas soviticas entraram no pas. Elas haviam sido chamadas, nos termos do tratado de cooperao e de amizade, para vir em auxlio dos "irmos" de Cabul. "Um grupo de assalto dos comandos da KGB, chefiado pelo coronel Boiarinov, [...] encarrega-se do assalto ao palcio e assassina Amin e todas as testemunhas suscetveis de descrever os acontecimentos." Amin parecia querer desligar-se da tutela sovitica, tivera contatos com os americanos  por ocasio dos seus estudos nos Estados Unidos, nos anos 50 - e multiplicara as ligaes com pases que no estavam diretamente sob a influncia sovitica. De fato, a deciso sovitica estava tomada desde 12 de dezembro de 1979. Babrak Karmal o substituiu. Amin deveria ter se retirado e aceitado uma aposentadoria dourada. Em face da sua recusa, o novo governo foi anunciado, no decorrer de uma emisso de rdio difundida a partir do sul da Unio Sovitica, antes mesmo do seu assassinato.
	As hipteses acerca da interveno sovitica so numerosas. Alguns vem nela o prosseguimento da expanso russa tendo por finalidade atingir os mares quentes. Para outros,  uma vontade de estabilizao da regio, diante da expanso de um islamismo radical. A menos que essa interveno no seja a expresso da expanso do imperialismo sovitico, assim como do carter messinico do regime marxista que pretendia submeter o conjunto dos povos ao comunismo. A isso juntava-se a vontade de defender um Estado governado por comunistas e supostamente ameaado por "agentes do imperialismo".
	As tropas soviticas chegaram ao Afeganisto em 27 de dezembro de 1979. No incio de 1980, o contingente representava cerca de 100.000 homens. A guerra do Afeganisto desenrolou-se em quatro fases. As tropas soviticas ocuparam o pas entre 1979 e 1982. A fase mais dura dessa guerra total decorreu nos anos de 1982-1986, a retirada efetuou-se entre 1986 e 1989- Duzentos mil soldados soviticos estiveram permanentemente estacionados no Afeganisto. A ltima fase caracterizou-se, entre 1989 e 1992, pela manuteno, na direo do Estado, de Mohammed Najibullah, que tentou representar o papel de Gorbatchev afegane ao propor uma reconciliao nacional, perodo durante o qual a Unio Sovitica entregou, a ttulo de auxlio, 2,5 bilhes de rublos em tecnologia militar aps a partida das tropas em 15 de fevereiro de 1989 e 1,4 bilho em 1990. O governo de Najibullah s caiu em 1992, aps o desaparecimento da Unio Sovitica.
	Desde ento, combinaram-se duas tcnicas: por um lado, a ttica da guerra total, conduzida pelos soviticos, que praticavam a poltica da terra queimada; por outro, os mtodos de terror de massa e a eliminao sistemtica dos opositores, ou supostos como tais, nas prises especiais da AGSA (Organizao para a Proteo dos Interesses do Afeganisto), que se transformou no KHAD (Servio de Informao do Estado) em 1980, e depois no WAD (Ministrio da Segurana do Estado) em 1986, o qual dependia direta-mente da KGB tanto pelo financiamento quanto pelos instrutores. Esse mtodo de governo pelo terror durou at 1989, data da retirada das tropas soviticas do Afeganisto. Na realidade, prolongou-se at 1992, data da queda do governo de Mohammed Najibullah.
	Ao longo desses 14 anos de guerra, os soviticos e os comunistas afega-nes nunca dominaram mais de 20% do territrio. Contentaram-se em manter os grandes eixos, as principais cidades, as zonas ricas em cereais, em gs e em petrleo, cuja produo estava certamente destinada  Unio Sovitica. "A explorao dos recursos e a valorizao do Afeganisto entram no quadro de uma economia de explorao colonial tpica: a colnia fornece as mat-rias-primas e deve absorver os produtos industriais da metrpole, fazendo desse modo funcionar a sua indstria. [...] Segundo a tcnica russa bem conhecida, o ocupante faz o pas pagar os custos da conquista e da ocupao. Os exrcitos, os tanques, os bombardeamentos das cidades so faturados e pagos com o seu gs, o seu algodo e, mais tarde, o seu cobre e a sua eletricidade." Durante esses 14 anos, os soviticos, apoiados pelo exrcito afegane, travaram uma guerra total. Mas o exrcito afegane, dispondo de 80.000 homens em 1978, sofria a hemorragia provocada pela multiplicao das deseres. Quase no ultrapassava os 30.000 homens dois anos mais tarde. Em 1982, foram convocados os reservistas. Em maro de 1983, foi decretada a mobilizao geral de todos os homens com 18 anos ou mais. Jovens de 15 anos foram recrutados  fora.
	Os soldados soviticos enviados para o Afeganisto, excetuando os das unidades de tropas especiais, eram principalmente cidados das repblicas perifricas, ucranianos, letnios, lituanos, estnios. Substituram os contingentes de muulmanos soviticos, visto que o poder receava o contgio de um islamismo radical. Pelo menos 600.000 recrutas foram enviados para o Afeganisto. O nmero de soldados soviticos mortos teria sido superior a 30.000. Os seus corpos nunca foram entregues s respectivas famlias nem levados para a URSS. Nos caixes chumbados e selados, os cadveres eram substitudos por areia ou por corpos de outros soldados42 Desmoralizados por uma guerra sem nome, os soldados afundavam-se no alcoolismo e nas drogas (haxixe, pio e herona). Certos trficos foram organizados pela KGB. Os lucros da produo da droga afegane suplantavam os do Tringulo de Ouro. A fim de serem repatriados, os soldados mutilavam-se voluntariamente. Quando regressavam para casa, eram abandonados  sua sorte, tendo alguns sido enviados para hospitais psiquitricos devido a perturbaes psquicas,43 e outros caram na delinquncia. Outros ainda desenvolveram uma retrica nacionalista, a qual originou o movimento ultranacionalista e anti-semita Pamiat, que se beneficiou da cumplicidade benevolente da KGB.
	Diante da invaso sovitica, a Resistncia afegane organizou-se. O nmero de resistentes foi calculado entre 60.000 e 200.000 homens. Eles beneficiavam-se do apoio da populao. A Resistncia afegane era composta por sete partidos sunitas, cuja base de retaguarda estava localizada no Paquisto, e oito partidos xiitas, instalados no Ir. Todos os grupos nascidos da Resistncia se reclamam do islamismo radical ou moderado - como o do comandante Massud. A Resistncia beneficiou-se do apoio do Congresso americano, que lhe forneceu armas, entre as quais, a partir de meados dos anos 80, msseis terra-ar Stinger, que possibilitaram aos resistentes impedir os ataques areos dos soviticos, um dos elementos fundamentais da guerra conduzida pelo invasor. A estratgia utilizada pelos soviticos era a do terror.
      Qualquer pessoa, qualquer povoado suspeito de ajudar muito ou pouco a Resistncia era de imediato vtima de represlias. A represso abatia-se por toda parte e continuamente.
	As atrocidades so comuns a todas as guerras. A violncia originada pela brutalizao das massas e pela guerra generalizada46 conduzidas pelos soviticos abateu-se sobre o Afeganisto. Tambm os resistentes afeganes perpetraram algumas chacinas. Embora no sejam aqui evocadas, as exaes da resistncia continuam a ser inaceitveis e indesculpveis. Diferentemente de outros conflitos, como o do Vietn, com o qual o do Afeganisto foi comparado, convm salientar que essa guerra no foi mediatizada; foram obtidas muito poucas imagens do conflito. Tratou-se de uma insurreio generalizada, em resposta a um golpe de Estado comunista seguido de uma invaso. Torna-se necessrio, por outro lado, notar que as potncias que apoiaram os resistentes prestaram pouca ateno  atitude de alguns desses ltimos quanto ao respeito aos direitos humanos, favorecendo por vezes os mais obscurantistas dentre eles. Mesmo assim, a responsabilidade dos acontecimentos que se produziram no Afeganisto cabe diretamente aos comunistas e aos seus aliados soviticos. O governo pelo terror de massa e o sistema coercivo implementados continuam a ser uma constante na histria do comunismo.

      A amplitude da represso A questo dos refugiados

	O nmero de refugiados aumentou incessantemente. No final de 1980, estava estimado em mais de um milho. Sabe-se que 80% dos intelectuais tinham fugido do pas na data de 4 de julho de 1982. No incio de 1983, contavam-se cerca de trs milhes de refugiados numa populao total de 15 milhes de habitantes. Em 1984, o nmero de refugiados ultrapassava quatro milhes, ou seja, mais de um quarto da populao total, e atingia cinco milhes no comeo dos anos 90. Aos refugiados que haviam deixado o Afeganisto juntavam-se os "refugiados do interior", que abandonavam os seus povoados para escaparem  guerra e  represso, elevando-se o seu nmero a cerca de dois milhes. Segundo a Anistia Internacional, os refugiados que abandonaram o Afeganisto constituem "o grupo numericamente mais importante do mundo". Mais de dois teros encontravam-se instalados principalmente no Paquisto, um tero vivia no Ira, e uma minoria nfima conseguira chegar  Europa e aos Estados Unidos. Um observador verifica: "No outono de 1985, no decurso de uma misso clandestina, a cavalo, em quatro provncias do Leste e do Centro efetuada pela Federao Internacional dos Direitos do Homem, o mdico sueco Johann Lagerfelt e eu prprio [Michael Barry] conseguimos recensear 23 povoados e avaliar nesses locais uma taxa de despovoamento da ordem dos 56,3%." No conjunto do territrio, cerca de metade da populao afegane fora forada a exilar-se, sendo a sua partida consequncia direta do terror em grande escala, usado pelo Exrcito Vermelho e pelos seus auxiliares afeganes.

      A destruio despovoados e os crimes de guerra

	Desde o comeo da interveno, os ataques soviticos concentraram-se especialmente em quatro direes: ao lado da fronteira, no vale do Panjshir e nas regies de Candahar, no sul do pas, e Herat, no leste, duas zonas que foram ocupadas em fevereiro de 1982. A guerra total conduzida pelos soviticos foi muito rapidamente condenada pelo Tribunal Permanente dos Povos, herdeiro dos antigos "tribunais Russell", que "se inspiram diretamente no Tribunal de Nuremberg, do qual so uma filiao jurdica". O Tribunal Permanente dos Povos conduziu um inqurito sobre esse assassinato coletivo. A misso foi confiada ao afeganlogo Michael Barry, ao jurista Ricardo Frail e ao fotgrafo Michel Baret. O inqurito confirmou que, em 13 de setembro de 1982, em Padkhwab-e-Shana (a sul de Cabul, na provncia do Logar), 105 camponeses escondidos num canal de irrigao subterrneo tinham sido queimados vivos pelos soviticos, que tinham efetivamente utilizado petrleo e di-nitrotolueno - um lquido altamente inflamvel - a partir de tubos ligados a caminhes para matar os afeganes escondidos. A sesso do Tribunal dos Povos realizada na Sorbonne em 20 de dezembro de 1982 condenou oficialmente esse crime. O representante do governo afegane em Paris denunciou o Tribunal como joguete dos imperialistas e negou o crime, argumentando que "tendo os karez [as condutas dos tneis] apenas alguns centmetros de altura, [] impossvel que l tenham penetrado seres humanos".
	Fora cometido um assassinato semelhante no povoado de Khasham Kala, na provncia do Logar. Uma centena de civis que no ofereceram qualquer resistncia haviam encontrado a morte da mesma maneira. Quando o exrcito sovitico entrava numa cidade, instalava-se o terror: "A coluna detm-se diante de um povoado. Aps uma preparao de artilharia, so bloqueadas todas as sadas; em seguida, os soldados descem dos seus blindados para vasculhar a cidade, procurando 'inimigos'. Muito frequentemente, e aqui os testemunhos so inmeros, essas buscas em povoados so acompanhadas de atos de barbrie cega, mulheres e idosos so liquidados se porventura esboam um gesto de medo. Soldados, soviticos, mas tambm afeganes, apoderam-se dos aparelhos de rdio ou dos tapetes e arrancam as jias das mulheres." Os crimes de guerra ocorriam com extrema freqncia: "Soldados soviticos jogaram gasolina sobre os braos de um rapaz e puseram fogo na presena dos pais porque eles se recusavam a fornecer informaes. Vrias pessoas foram foradas a permanecer descalas na neve a uma temperatura de vrios graus negativos, a fim de os obrigar a falar". Um soldado explicou: "Ns no fazamos prisioneiros de guerra. Nenhum. Geralmente, matavam-se os prisioneiros ali mesmo [...]. Quando se verificavam expedies punitivas, no matvamos as mulheres e as crianas a tiro. Ns as fechvamos num cmodo e atirvamos granadas ali dentro."
	O objetivo dos soviticos era semear o terror, amedrontar as populaes e dissuadi-las de ajudar a Resistncia. As operaes de represlia eram condu zidas no mesmo esprito. Mulheres eram atiradas nuas de dentro de helicpteros, e, para vingar a morte de um soldado sovitico, povoados inteiros eram destrudos. Assim, os observadores registravam: "Na sequncia de um ataque a uma coluna prximo dos povoados de Muchkizai, na regio de Candahar, em 13 de outubro de 1983, a populao de Kolchabd, Muchkizai e Timur Qalatcha foi massacrada como represlia. O nmero total das vtimas foi de 126: em Timur Qalatcha, 40, ou seja, a totalidade da populao desse povoado; 51 em Kolchabd; e 35 em Muchkizai. Trata-se majoritariamente de mulheres e crianas; 50 mulheres com idades entre 20 e 32 anos e 26 crianas; todos os homens tinham abandonado os povoados quando a coluna se aproximava para fugir aos recrutamentos." Por outro lado, esses povoados eram sistematicamente bombardeados para impedir a Resistncia de lanar con-tra-ofensivas. Assim, em 17 de abril de 1985, os soviticos destruram vrias cidadezinhas, a fim de minar as bases de retaguarda da Resistncia na regio de Laghman, tendo sido mortas cerca de mil pessoas. Em 28 de maio de 1985, os soviticos abandonaram a zona de Laghman-Kunar e "limparam" as localidades.
	As convenes internacionais foram sistematicamente violadas. O napalm e o fsforo foram utilizados de modo intensivo quando foram bombardeados os campos afeganes pela aviao sovitica.^ Foram igualmente utilizados gases txicos de diversos tipos contra as populaes civis. Diferentes testemunhos deram nota de gases irritantes, asfixiantes e lacrimogneos. Em l de dezembro de 1982, assinalava-se o uso de gases neurotxicos contra a Resistncia afegane, embora o nmero de vtimas no seja conhecido. Em 1982, o Departamento de Estado americano assinalava o emprego de micoto-xina - uma arma biolgica. A revista Ls Nouvelles d'Afghanistan indicava, em dezembro de 1986: "Os soviticos teriam usado nesse vero uma arma qumica em Candahar; segundo o L Point, de 6 de outubro de 1986, a utilizao de produtos qumicos mortferos foi igualmente assinalada em Paghman." Paralelamente, o exrcito sovitico lanava substncias txicas nas fontes de gua potvel, provocando desse modo a morte de pessoas e do gado. O comando sovitico mandava bombardear os locais onde os desertores se encontravam refugiados, a fim de desencorajar os afeganes de lhes concederem abrigo. Esse mesmo comando mandava os soldados afeganes para a retirada das minas das estradas ou para os postos avanados. No fim do ano de 1988, para "limpar" os eixos principais e desse modo preparar a sua retirada, o Exrcito Vermelho utilizou msseis Scud e Ouragan. Em 1989, as tropas soviticas retomaram o caminho utilizado dez anos antes, controlando os eixos virios, a fim de evitarem ataques dos resistentes. Antes da sua retirada, eles haviam iniciado uma nova estratgia: o assassinato dos refugiados. A Anistia Internacional nota que "grupos de homens, mulheres e crianas, ao fugirem das suas cidades, so submetidos pelas forcas soviticas e afeganes a intensos bombardeamentos como represlia por ataques da guerrilha. Entre os casos citados: um grupo de uma centena de famlias do povoado de Sher-khudo, na provncia de Faryab, na extremidade noroeste do pas, foi atacado duas vezes durante a sua fuga de mais de 500 quilmetros em direo  fronteira paquistanesa. Durante o primeiro ataque, em outubro de 1987, as foras governamentais teriam cercado e liquidado 19 pessoas, entre as quais sete crianas com menos de 6 anos. Quinze dias mais tarde, helicpteros teriam aberto fogo sobre esse grupo, matando cinco homens." Por vrias vezes, as cidades de refugiados no Paquisto, suscetveis de servirem de base de retaguarda  Resistncia, foram igualmente bombardeadas, como o campo Matasangar, em 27 de fevereiro de 1987.
	Os observadores puderam verificar a utilizao macia de minas anti-pessoais. Vinte milhes de minas foram colocadas principalmente em redor das zonas de segurana. Essas minas eram utilizadas para proteger as tropas soviticas e as exploraes industriais que forneciam produtos  Unio Sovitica. Foram igualmente lanadas a partir de helicpteros nas zonas de agricultura, a fim de impossibilitar a explorao das terras. As minas anti-pessoais teriam causado no mnimo 700.000 mutilados e, ainda hoje, continuam a fazer vtimas. Para aterrorizar as populaes civis, os soviticos escolheram como alvos as crianas, oferecendo-lhes "presentes": bombas disfaradas de brinquedos, frequentemente lanadas de avies. Quando Shah Baz-gar descreve as destruies sistemticas dos povoados, ele conclui: "Os soviticos atacavam cada residncia, pilhando, violando as mulheres; eles sabem que, ao cometerem tais atos, quebram os fundamentos da nossa sociedade."
	Essa estratgia de terra queimada e de guerra total era igualmente acompanhada pela destruio sistemtica do patrimnio cultural do Afeganisto. Cabul, que era uma cidade cosmopolita, onde o "esprito cabuli, muito vivo, [era] feito de bom humor, no limite do licencioso, [alardeava] uma descontra-o e uma liberdade de costumes [afastados] da austeridade dos campos". Essa cultura caracterstica desaparecera em virtude da guerra e da ocupao sovitica. Herat tornou-se uma cidade mrtir na sequncia dos repetidos bombardeamentos dos soviticos, como represlia pela insurreio generalizada que se desenvolveu no Oeste do pas a partir de maro de 1979. Os monumentos dessa cidade, como a Grande Mesquita, que data do sculo XVII, e a velha cidade, construda no sculo XVI, foram gravemente danificados, e a sua reconstruo impedida pela ocupao sovitica.
	 guerra perpetrada contra as populaes civis juntou-se o terror poltico que foi exercido continuamente nas zonas controladas pelos comunistas afeganes, ajudados pelos soviticos. O Afeganisto sovietizado foi transformado num gigantesco campo de concentrao. A priso e a tortura eram sistematicamente utilizadas contra os opositores.

      O terror poltico

	A ordem encontrava-se nas mos do KHAD, a polcia secreta afegane, equivalente  KGB russa. Esse servio controlava os locais de deteno e praticava a tortura e o assassinato em grande escala. Embora o KHAD fosse oficialmente chefiado por Mohammed Najibullah, "a partir da ocupao sovitica  Vatanshh, um tadjique sovitico, com cerca de 40 anos [...], que assume a direo do servio de tortura e de interrogatrio nas instalaes do KHAD". A priso de Pol-e-Tcharki, situada a 12 quilmetros a leste de Cabul, fora esvaziada aps a anistia decretada quando Babrak Karmal chegou ao poder. Em fevereiro de 1980, Karmal instaurou a lei marcial, e as prises encheram-se mais uma vez. "Essa priso  composta de oito alas dispostas como os raios de um ncleo circular central. [...] O bloco n l est reservado aos acusados, aqueles cujos interrogatrios terminaram, mas que no foram julgados. O bloco n 2 rene os prisioneiros mais importantes, em particular os sobreviventes dos funcionrios comunistas das faces que perderam o poder. [...] O bloco n 4 alberga prisioneiros importantes [...]. O bloco n 3  o mais temido, porque, oculto no meio dos outros, no recebe a luz do sol; e  nessas masmorras que os prisioneiros mais agitadores esto detidos. As celas desse bloco n 3 so to pequenas que as pessoas no podem levantar-se nem estender-se. So celas superlotadas. [...] A priso foi ampliada na primavera de 1982 atravs da escavao de celas subterrneas. Trata-se provavelmente das celas de que falam os prisioneiros quando evocam com horror os 'tneis'. [...] Existem, na realidade, de 12.000 a 15-000 prisioneiros em Pol-e-Tcharki. H que se adicionarem a esse nmero, no mnimo, 5.000 presos polticos suplementares detidos nas outras prises de Cabul e nos oito principais centros de deteno."
	No incio de 1986, um relatrio publicado pelas Naes Unidas sobre a situao dos direitos humanos no Afeganisto71 arrasava o KHAD, qualificado de "mquina de torturar". O relatrio indica que o KHAD controla sete centros de deteno em Cabul: "1) O servio n 5 do KHAD, mais bem conhecido atravs do nome Khad-i-Panj. 2) O quartel-general do KHAD no distrito de Shasharak. 3) O edifcio do Ministrio do Interior. 4) O servio central de interrogatrios conhecido pelo nome de Sedarat. 5) Os servios do ramo militar do KHAD, conhecidos pelo nome de Khad-i-Nezami, e duas casas particulares nas proximidades do edifcio Sedarat. 6) A casa Ahmad Shah Khan. 7) A casa Wasir Akbar Khan, os servios do KHAD no distrito de Howzai Bankat." 
	O KHAD tinha igualmente requisitado "200 casas" particulares na circunvizinhana da capital, bem como nos arredores das grandes cidades, das prises e dos postos militares. "No tocante  natureza das torturas", prossegue o documento, "foram assinaladas ao relator especial toda uma srie de tcnicas de tortura que seriam utilizadas. No seu testemunho, um antigo oficial da polcia de segurana descreveu oito tipos de tortura: as torturas por eletro-choque geralmente utilizadas nos rgos genitais dos homens e nos seios das mulheres; extirpao das unhas com introduo de choques eltricos; proibio aos prisioneiros de fazerem as suas necessidades, de modo que, ao fim de algum tempo, eram obrigados a faz-las na presena dos outros detidos [...]; introduo de pedaos de madeira no nus dos homens, especialmente dos prisioneiros mais idosos e respeitados; arrancada da barba de certos prisioneiros, particularmente homens idosos ou personalidades religiosas; compresso do pescoo dos prisioneiros, a fim de obrig-los a abrir a boca para que fosse possvel urinar l dentro; utilizao de ces contra os detidos; suspenso pelos ps durante um perodo indeterminado; violao de mulheres, de ps e mos atados, e introduo na vagina de toda a variedade de objetos." A essas torturas fsicas h que se acrescentar todo o gnero de torturas psicolgicas: assassinato simulado, violao de um familiar na presena do prisioneiro, falsa libertao. Os conselheiros soviticos participavam nos interrogatrios e colaboravam com o carrasco. Christopher Andrew e Oleg Gordievsky lembraram que "KGB reviveu em terra afegane alguns dos horrores do seu passado stalinista". O KHAD empregava 70.000 afeganes, dos quais 30.000 civis controlados por 1.500 oficiais da KGB.
	A despeito do terror poltico que se fazia sentir em Cabul desde o golpe de Estado comunista, os grupos de resistncia multiplicaram-se, e as bombas visavam as instalaes dos responsveis comunistas. As manifestaes aumentaram. Assim, os estudantes entraram em greve na semana de 27 de abril de 1980 para celebrar,  sua maneira, o aniversrio do golpe de Estado. Durante a manifestao, 60 estudantes, seis dos quais eram mulheres bem jovens, teriam sido abatidos. A greve durou um ms e implicou a priso de numerosos estudantes, rapazes e moas, alguns dos quais foram alvo de torturas. "Os que tiveram mais sorte foram expulsos dos respectivos liceus, provisria ou definitivamente." As interdies profissionais atingiram os no-comu-nistas. A represso contra os alunos e os professores foi ainda mais dura. Para impressionar os estudantes liceanos, os algozes os levam para as 'cmaras de horror', onde os resistentes so torturados; Farda Ahmadi v membros cortados e espalhados na 'cmara' do KHAD. [...] Essas vtimas seledvas do mundo estudantil so por vezes soltas para semearem o horror entre os colegas atravs dos seus testemunhos pessoais.
	No outono de 1983, a Anistia Internacional publicou um documento e lanou um apelo para conseguir a libertao de determinados prisioneiros. O professor Hassan Kakar, chefe do departamento de Histria, especialista em histria afegane, que ensinara em Boston e em Harvard, foi preso por ter ajudado membros da faco Partcham (embora no fosse membro do PDPA) e ter dado abrigo a vrias pessoas. O seu julgamento decorreu a portas fechadas, sem advogado. Foi acusado de delitos contra-revolucionrios e condenado a oito anos de priso. Dois colegas, igualmente professores, foram condenados a dez e oito anos de priso. O nico fsico atmico afegane, Mohammed Yunis Akbari, foi suspenso das suas funes em 1983, preso e detido sem acusao (j tinha sido detido por duas vezes, em 1981, e de novo em 1983)82 e depois condenado  morte, em 1984. Foi executado em 1990. Os intelectuais que participavam nos grupos de reflexo, a fim de procurarem meios para conseguir a paz, foram presos. Qualquer pessoa suscetvel de se tornar uma "ameaa" para o regime era sistematicamente eliminada.
	A informao era rigorosamente controlada. Os estrangeiros no acreditados pelo regime eram personae non gratae, e mdicos e jornalistas sofreram a mesma sorte. Aps a deteno, eram conduzidos pelos soviticos para a priso central e submetidos a um interrogatrio. No eram fisicamente torturados, uma vez que as associaes humanitrias tinham conhecimento de que eles residiam no Afeganisto e pediam de imediato a sua libertao. No entanto, eram obrigados a confessar, no decorrer de processos falsificados, atividades de espionagem a favor de potncias estrangeiras e a participao nos combates da Resistncia, a despeito da sua presena a ttulo humanitrio.
	Embora os estrangeiros fossem testemunhas incomodativas, no eram torturados nem assassinados. Em contrapartida, qualquer afegane suspeito era habitualmente preso, torturado e depois geralmente assassinado. Desse modo, os militantes do Partido Social Democrata pachto (Afghan Mellat), fundado em 1966, foram detidos em 18 de maio de 1983, apesar de, segundo informaes, no apoiarem a Resistncia afegane. A Anistia Internacional publicou uma lista  posteriormente completada  de 18 militantes presos, que teriam feito "confisses pblicas". Oficialmente, o governo anunciou, entre 8 de junho de 1980 e 22 de abril de 1982, mais de 50 condenaes  morte por atividades contra-revolucionrias, 77 em 1984 e 40 em 1985.
	Em 19 de abril de 1992, a priso de Pol-e-Tcharki foi tomada, tendo sido libertadas 4.000 pessoas. Em maio de 1992, foi descoberta nas proximidades da referida priso uma vala comum contendo 12.000 cadveres. No vero de 1986, Shah Bazgar estabelecera uma lista na qual recenseava 52.000 prisioneiros em Cabul, 13.000 em Djalalabad. Segundo os seus nmeros, o total dos prisioneiros ultrapassava 100.000 pessoas.
	Em 1986, Babrak Karmal foi demitido das suas funes e substitudo pelo presidente bastante gorbatcheviano Mohammed Najibullah, que se fazia chamar "camarada Najib", a fim de evitar a referncia a Al, e retomou o nome de Najibullah quando foi necessrio defender a ideia da reconciliao nacional. Najibullah era um homem a servio de Moscou, antigo mdico, embaixador no Ir, membro do Partcham. Dirigiu o KHAD de 1980 a 1986, o que lhe valeu, pelos servios prestados, as felicitaes de luri Andropov, o antigo dirigente da KGB que se tornou secretrio-geral do Partido. O irmo, Seddiqullah Rahi, o chamava de "o Boi" e o comparava a Beria. E esclarecia que ele teria assinado a ordem de execuo de 90.000 pessoas no espao de seis anos. Alm da direo dos servios especiais, Najibullah tinha submetido  tortura um grande nmero de pessoas. Assim, um dos raros sobreviventes testemunha: "[...] Tendo negado por diversas vezes as acusaes que me imputavam, Najibullah aproximou-se de mim e deu-me vrios socos no estmago e no rosto. Estatelei-me no cho. No solo, semi-inconsciente, fui chutado no rosto e nas costas. Escorria-me sangue da boca e do nariz. S recuperei a conscincia vrias horas mais tarde, quando j me tinham levado para a minha cela."
	Ao terror poltico juntava-se a mais absoluta arbitrariedade. Assim, um negociante, antigo deputado da Assembleia Nacional no tempo do rei Zaher, foi preso por engano, torturado e depois solto. "A minha deteno teve lugar por volta das 9h30m da noite. [...] Fui colocado numa cela onde se encontravam dois outros prisioneiros, um operrio da construo de Calahan, ao norte de Cabul, e um funcionrio da provncia de Nangahar, que trabalhara no Ministrio da Agricultura. Era manifesto que o operrio fora gravemente maltratado. Tinha as roupas cobertas de sangue, e os seus braos apresentavam graves contuses. [...] Fui levado para interrogatrio. Disseram-me que eu me deslocara no decorrer das ltimas semanas a Mazar-e-Charif e Candahar, e que a finalidade da minha viagem havia sido a de semear o descontentamento contra o governo [...]. Eu no saa de Cabul havia mais de seis meses. Protestei a minha inocncia, mas, logo que o fiz, a pancadaria comeou. [...] Ligaram-me os dedos dos ps a um telefone de manivela e comearam a aplicar-me choques eltricos. f...] Depois disso, no voltei a ser interrogado. Dois dias depois, um dos homens do KHAD que participara no meu interrogatrio veio  minha cela para me comunicar que eu iria ser libertado. Disse-me que o KHAD estava agora convencido de que a minha deteno fora um engano..."
	O terror aplicava-se igualmente s crianas. Eram arrebanhadas, enviadas para a Unio Sovitica e formadas como espies encarregados de se infiltrar na Resistncia. Naim contou a Shah Bazgar: "Eu sou de Herat. Aos 8 anos, tiraram-me da escola para me fazerem ingressar na Sazman [a Juventude Comunista Afegane], e depois passei nove meses na URSS. Alguns pais eram forcados a aceitar. No que me diz respeito, o meu pai, que  a favor dos comunistas, estava de acordo. A minha me tinha morrido. Ele voltou a casar-se. Em casa, excetuando um irmo e uma irm, toda a gente era do Khalq. O meu pai vendeu-me aos soviticos. Durante vrios meses, recebeu dinheiro. [...] Ns devamos fazer espionagem". As crianas eram drogadas para limitar a sua autonomia, e os mais velhos beneficiavam-se dos "servios" de prostitutas.

      "- J viu uma criana morrer  tua frente?
	- Vrias vezes. Uma delas foi por choques eltricos. O corpo deu um salto, talvez de um metro, e depois caiu no cho. A criana havia se recusado a desempenhar a tarefa de espio. De outra vez, uma criana foi levada  nossa presena. Era acusada de no ter denunciado um dos seus amigos que tinha se enfiado debaixo de um blindado russo, ao que parece para incendi-lo. Foi enforcada diante dos nossos olhos, numa rvore. Os responsveis gritavam: "Isso  o que pode lhes acontecer se vocs se recusarem a fazer o que lhes mandam", testemunha Naim.
	No total, 30.000 crianas, dos 6 aos 14 anos, foram enviadas para a URSS. Os pais que protestavam eram comparados aos resistentes, e presos.
	O terror atingiu o conjunto da populao; todas as faixas etrias foram vtimas dessa guerra total e dessa poltica totalitria. As tropas de ocupao procuravam por todos os meios eliminar os bolses de resistncia. Para isso, utilizavam o terror em grande escala: bombardeamentos das populaes civis, assassinatos em massa nos povoados, xodo imposto aos seus habitantes. A esse terror contra as populaes civis somava-se o terror poltico; em todas as grandes cidades havia prises especiais onde os detidos eram torturados e muito frequentemente assassinados.

      As consequncias da interveno

	O golpe de Estado comunista e, depois, a interveno sovitica no Afeganisto tiveram consequncias trgicas para o pas. Enquanto essa nao conhecera, a partir dos anos 60, um desenvolvimento econmico, uma modernizao e um esboo de funcionamento democrtico, todo o processo foi claramente destrudo pelo golpe de Estado de Daud, apoiado pelos comunistas. A tomada do poder pelos homens de Moscou interrompeu o impulso econmico do pas. O Afeganisto mergulhou na guerra civil. A economia transformou-se numa economia de guerra, particularmente voltada para o interesse dos soviticos. Foram organizados trficos de todos os gneros (armas, drogas...). A economia foi rapidamente arruinada. A amplitude do desastre  ainda hoje dificilmente mensurvel. Numa populao total de cerca de 16 milhes, mais de cinco milhes fugiram para o Paquisto e para o Ira, onde vivem em condies miserveis. O nmero de mortos  muito difcil de se estabelecer: a guerra teria feito, conforme os testemunhos, entre um milho e meio e dois milhes de vtimas, 90% das quais sendo civis. Teria havido entre dois e quatro milhes de feridos. O papel direto e indireto do comunismo no desenvolvimento dos movimentos islmicos e no despertar das tenses inte-rtnicas  incontestvel, embora ainda hoje continue difcil de se analisar. Lanado na via da modernizao, o Afeganisto foi transformado num pas onde a cultura de guerra e a violncia se tornaram as nicas referncias.
	
      POR QU?
      por Stphane Courtois

      "Os olhos azuis da Revoluo brilham com uma crueldade necessria."
      Louis Aragon 
      L Front Rouge
 
	Para l da cegueira, das paixes partidrias, das amnsias voluntrias, este livro tentou esboar um quadro que mostrasse o conjunto dos atos criminosos cometidos no mundo comunista, desde o assassinato individual at os massacres em massa. Numa reflexo geral sobre o fenmeno comunista no sculo XX, trata-se apenas de uma etapa num momento de mudana: o desmoronamento do mago do sistema, em Moscou, no ano de 1991, e o acesso a uma documentao rica, at ento mantida sob o mais estrito segredo. Todavia, o estabelecimento, indispensvel, de um conhecimento mais aprofundado e mais documentado no pode bastar para satisfazer a nossa curiosidade intelectual nem a nossa conscincia. Fica, na verdade, a questo fundamental do "Por qu?". Por que foi que o comunismo moderno, surgido em 1917, se transformou quase imediatamente numa ditadura sangrenta e depois num regime criminoso? Os seus objetivos s podiam ser atingidos atravs da violncia mais extrema? Como explicar que o crime tenha sido encarado e praticado pelo poder comunista, durante dcadas, como uma medida banal, normal e vulgar?
	A Rssia Sovitica foi o primeiro pas de regime comunista. Era o corao, o motor de um sistema comunista mundial, construdo pouco a pouco, que viria a conhecer, a partir de 1945, um formidvel desenvolvimento. A URSS de Lenin e de Stalin foi a matriz do comunismo moderno. O fato de essa matriz ter adquirido, repentinamente, uma dimenso criminosa  ainda mais surpreendente, se considerarmos que esse fato a situa na contramo da evoluo do movimento socialista.
	Ao longo de todo o sculo XK, a reflexo sobre a violncia revolucionria foi dominada pela experincia fundadora da Revoluo Francesa, a qual conheceu, em 1793-1794, um episdio de violncia intensa que adotou trs formas principais. A mais selvagem surgiu com as "matanas de setembro", durante as quais mais de mil pessoas foram assassinadas em Paris por amotinados, sem que tivesse havido qualquer interveno governamental ou de qualquer partido. A mais conhecida baseava-se na instituio do Tribunal Revolucionrio, dos Comits de Vigilncia (de delao) e da guilhotina, que enviaram para a morte 2.625 pessoas em Paris e 16.600 em toda a Frana. Oculto durante muito tempo, o terror praticado pelas "colunas infernais" da Repblica tinha por misso liquidar a Vendia, fazendo dezenas de milhares de mortos entre uma populao desarmada. No entanto, esses meses de terror no foram mais do que um episdio sangrento, que se inscreve como um momento numa trajetria de mais longa durao, simbolizada pela criao de uma repblica democrtica, com a sua Constituio, a sua Assembleia e os seus debates polticos. Quando a Conveno se afirmou, Robespierre foi derrubado, e o Terror acabou.
	Franois Furet mostra-nos, no entanto, como surgiu ento uma certa ideia da Revoluo, inseparvel de medidas extremas: "O Terror  o governo do medo, que Robespierre teoriza como governo da virtude. Criado com a finalidade de exterminar a aristocracia, o Terror torna-se um meio de submeter os malvados e combater o crime. , por isso mesmo, um aliado da Revoluo, inseparvel dessa porque s ele permite a construo futura de uma Repblica de cidados. [...] Se no  ainda possvel a existncia de uma Repblica de cidados livres,  porque os homens, pervertidos pela histria passada, so maus; atravs do Terror, a Revoluo, essa histria indita, inteiramente nova, criar um homem novo."
	Sob certos aspectos, o Terror prefigurava a atitude dos bolcheviques  a manipulao das tenses sociais pela faco jacobina, a exacerbao do fanatismo ideolgico e poltico e a conduo de uma guerra de extermnio contra um campesinato revoltado. Robespierre colocou incontestavelmente a primeira pedra no caminho que mais tarde havia de conduzir Lenin ao terror. Pois foi ele prprio quem afirmou, na Conveno, durante a votao das leis do Prairial: "Para punir os inimigos da Ptria,  suficiente saber a sua identidade. No se trata de castig-los, mas de destru-los."
	Essa experincia fundadora do terror no parece ter inspirado minimamente os principais pensadores revolucionrios do sculo XIX. O prprio Marx dedicou-lhe pouca ateno; sublinhou e reivindicou,  certo, o "papel da violncia na Histria", mas via nele uma proposta muito generalizada, que no visava pr em prtica, de uma forma sistemtica e voluntria, o uso da violncia contra as pessoas, ainda que no estivesse isenta de uma certa ambiguidade, de que se aproveitaram os defensores do terrorismo como forma de resolver os conflitos sociais. Apoiando-se na experincia, desastrosa para o movimento operrio, da Comuna de Paris e da durssima represso que se seguiu  pelo menos vinte mil mortos , Marx criticou com firmeza esse tipo de ao. No debate travado no interior da I Internacional entre Marx e o anarquista russo Mikhail Bakunin, os pontos de vista do primeiro pareciam ter claramente prevalecido. Nas vsperas da guerra de 1914, o debate interno sobre a violncia terrorista no movimento operrio e socialista parecia praticamente encerrado.
	Paralelamente, o rpido desenvolvimento da democracia parlamentar na Europa e nos Estados Unidos era um elemento novo e fundamental. A prtica parlamentar provava que os socialistas podiam ser um elemento de peso no campo poltico. Nas eleies de 1910, a SFIO elegeu 74 deputados, juntamente com trinta socialistas independentes, cujo chefe de fila, Millerand, j vinha participando, desde 1899, de um governo "burgus"; Jean Jaurs era o homem da sntese entre a velha logomaquia revolucionria e a ao reformista e democrtica no dia-a-dia. Os socialistas alemes eram os mais bem organizados e os mais poderosos da Europa; nas vsperas de 1914, contavam j com um milho de filiados, 110 deputados, 220 representantes nas landtagde provncia, 12.000 vereadores municipais, 89 jornais dirios. Na Inglaterra, o movimento trabalhista tambm era numeroso e organizado, fortemente apoiado em poderosos sindicatos. Quanto  social-democracia escandinava, era muito ativa, bastante reformista e de orientao claramente parlamentar. Os socialistas poderiam esperar conquistar, num dia no muito distante, uma maioria parlamentar absoluta que lhes permitisse implementar, de uma maneira pacfica, reformas sociais fundamentais.
	Essa evoluo era ratificada, no plano terico, por douard Bernstein, um dos principais tericos marxistas do final do sculo XIX e executor testa-mentrio de Marx (juntamente com Karl Kautsky), o qual, considerando que o capitalismo no mostrava os sinais de desmoronamento anunciados por Marx, preconizava uma passagem progressiva e pacfica para o socialismo, baseada numa aprendizagem, por parte da classe operria, da democracia e da liberdade. Em 1872, Marx expressara a esperana de que a revoluo pudesse revestir formas pacficas nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Holanda. Essa orientao era aprofundada pelo seu amigo e discpulo Friedrich Engels no prefcio  segunda edio do texto de Marx, As Lutas de Classes na Frana, publicado em 1895.
	Os socialistas mantinham, no entanto, uma atitude ambgua relativamente  democracia. Por ocasio do caso Dreyfus, na Frana, na virada do sculo, eles adoraram posies contraditrias: enquanto Jaurs se colocava ao lado de Dreyfus, Jules Guesde, a figura central do marxismo francs, declarava desdenhosamente que o proletariado no tinha nada que envolver-se numa querela interna do mundo burgus. A esquerda europeia no era homognea, e algumas das suas correntes - anarquistas, sindicalistas, blanquistas - sentiam-se ainda atradas por uma contestao radical do parlamentarismo, inclusive sob uma forma violenta. Todavia, na vspera da guerra de 1914, a II Internacional, oficialmente de obedincia marxista, orientava-se para solues pacficas, baseadas na mobilizao das massas e no sufrgio universal.
	Desde o incio do sculo que, no interior da Internacional, se distinguia uma ala extremista  qual pertencia a faco mais dura dos socialistas russos, os bolcheviques, liderados por Lenin. Embora ligados  tradio europeia do marxismo, os bolcheviques mergulhavam tambm as suas razes no terreno do movimento revolucionrio russo. Ao longo do sculo XDC, esse ltimo manteve uma estreita afinidade com uma violncia minoritria, cuja primeira expresso radical se deve ao famoso Serguei Netchaiev, em quem Dostoievski se inspirou para criar Piotr Vierkhovienski, a personagem revolucionria do seu famoso romance Os Demnios; em 1869, Netchaiev redigiu um Catecismo do Revolucionrio, onde se definia: "Um revolucionrio  um homem antecipadamente perdido; no tem interesses particulares, negcios privados, sentimentos, ligaes pessoais, bens, e nem sequer um nome. Tudo nele  totalmente absorvido por um nico interesse que exclui todos os outros, por um nico pensamento, por uma paixo  a revoluo. No seu ntimo, no apenas por palavras, mas tambm por atos, rompeu todos os laos com a ordem pblica, com todo o mundo civilizado, com todas as leis, convenincias, convenes sociais e regras morais do mundo em que vive. O revolucionrio  um inimigo implacvel desse mundo e s continuar a viver para mais seguramente o destruir."^
	Em seguida, Netchaiev especificava os seus objetivos: "O revolucionrio no se integra no mundo poltico e social, no mundo dito culto, e s vive ali com a esperana da sua mais completa e rpida destruio. Nunca ser um revolucionrio, se mostrar compaixo, seja pelo que for, nesse mundo."^ E, imediatamente, visiona a ao: "Toda essa sociedade imunda deve ser dividida em vrias categorias. A primeira compreende os condenados  morte imediata. [...] A segunda categoria dever abranger os indivduos aos quais a vida  concedida provisoriamente, a fim de que, atravs dos seus atos monstruosos, incitem o povo  insurreio inelutvel."
	Netchaiev teve seguidores. Em l? de maro de 1887, deu-se um atentado contra o czar Alexandre III; falhou, mas os seus autores foram presos: entre eles, contava-se Alexandre Ilitch Ulianov, irmo mais velho de Lenin, que foi enforcado juntamente com quatro dos seus cmplices. O dio de Lenin por esse regime estava profundamente enraizado, e foi alis Lenin pessoalmente quem,  revelia dos membros do Politburo, decidiu e organizou o assassinato da famlia imperial dos Romanov, em 1918.
	Na opinio de Martin Malia, esse ato de violncia por parte de uma faco da intelligentsia, "regresso imaginrio  Revoluo Francesa, marcou a chegada  cena mundial do terrorismo como ttica poltica sistematizada (muito diferente do terrorismo do atentado solitrio). E foi assim que a estratgia populista de insurreio vinda das bases (das massas), conjugada com o terror vindo de cima (das elites que as guiavam), conduziu a Rssia a uma legitimao da violncia poltica que ultrapassava a legitimao inicial dos movimentos revolucionrios da Europa Ocidental, de 1789 a 1871".
	Essa violncia poltica, marginal, alimentava-se todavia da violncia que ao longo dos sculos atravessou a vida da Rssia e que, como sublinha Hlne Carrre d'Encausse, no seu livro L Malheur russe. "Esse pas, no seu infortnio sem par, surge como um enigma aos olhos dos que investigam o seu destino. Foi ao tentar esclarecer as origens profundas desse infortnio secular que um vnculo especfico nos pareceu ligar - sempre para o pior - a conquista ou a conservao do poder e o uso do assassinato poltico, individual ou coletivo, real ou simblico. [...] Essa longa tradio mortfera formou, sem dvida alguma, uma conscincia coletiva onde a esperana de um universo poltico pacificado no tem lugar."
	O czar Ivan IV, cognominado "o Terrvel", no tem ainda 13 anos quando, em 1543, manda os seus ces despedaarem o prncipe Chuiski, seu pri-meiro-ministro. Em 1560, a morte da mulher lana-o numa fria vingativa; v em cada pessoa um potencial traidor, extermina, em crculos concntricos, todos os prximos dos seus inimigos reais ou imaginrios. Cria uma guarda de corpo, a opritchnina, que tem todos os poderes e exerce o terror individual e coletivo. Em 1572, liquida os membros da opritchnina, antes de assassinar o seu prprio filho e herdeiro. E  durante o seu reinado que se institui a servido dos camponeses. Pedro, o Grande, no se mostra mais brando, nem com os inimigos declarados da Rssia, nem com a aristocracia, nem com o povo; e tambm ele assassinou com as prprias mos o seu filho e herdeiro.
	De Ivan a Pedro, a Rssia conheceu um dispositivo especfico que ligava a vontade de progresso emanante de um poder absoluto a uma servido cada vez mais acentuada do povo e das elites ao Estado ditatorial e terrorista. Vassili Grossman escreveu a propsito da abolio da servido, em 1861: "Esse acontecimento, como o sculo seguinte veio demonstrar, foi ainda mais revolucionrio do que o advento da Grande Revoluo de Outubro. Esse acontecimento abalou os alicerces milenares da Rssia, alicerces em que nem Pedro nem Lenin tocaram: a sujeio do progresso  escravatura." E, como sempre, s foi possvel manter essa escravatura durante sculos atravs da aplicao contnua de um alto grau de violncia permanente.
	Tomas Masaryk, um homem de Estado de grande cultura, fundador da Repblica Tcheca em 1918, grande conhecedor da Rssia revolucionria por l ter vivido entre 1917el919, estabeleceu imediatamente a relao entre as violncias czarista e bolchevique. Em 1924, escrevia: "Os russos, os bolcheviques e os outros so filhos do czarismo. Foi dele que receberam, durante sculos, a educao e a formao. Conseguiram suprimir o czar, mas no acabaram com o czarismo. Continuam a usar o uniforme czarista, ainda que ao avesso. [...] Os bolcheviques no estavam preparados para uma revoluo administrativa, positiva, mas apenas para uma revoluo negativa. E isso quer dizer que, por fanatismo doutrinal, pobreza de esprito e falta de cultura, cometeram um grande nmero de destruies suprfluas. Censuro-lhes especialmente o fato de, a exemplo dos czares, terem um verdadeiro prazer em matar."
	Essa cultura da violncia no era prpria dos meios do poder. Quando as massas camponesas se revoltavam, a matana dos nobres e o terror selvagem estavam na ordem do dia. Duas dessas revoltas deixaram marca na memria russa: a de Stenka Razine, entre 1667 e 1670, e, sobretudo, a de Pugatchev, que, entre 1773 e 1775, encabeou uma vasta insurreio camponesa, fez tremer o trono de Catarina, a Grande, e deixou um rasto sangrento ao longo de todo o vale do Volga, antes de ser preso e executado em condies atrozes -esquartejado, cortado em pedaos e lanado aos ces.
	Acreditando-se em Mximo Gorki, escritor, testemunha e intrprete da misria russa anterior a 1917, essa violncia emanava da prpria sociedade. Em 1922, ao mesmo tempo que reprova os mtodos bolcheviques, ele redigiu um longo texto premonitrio:
	"A crueldade - eis o que toda a minha vida me espantou e atormentou. Onde se encontra a origem da crueldade humana? Refleti muito a esse respeito e no compreendi, nem nunca hei de compreender. [...] Hoje, depois da terrvel demncia da guerra na Europa e dos acontecimentos sangrentos da revoluo, [...] devo salientar que a crueldade russa no parece ter evoludo; dir-se-ia que as suas formas no se alteram. Um analista do princpio do sculo XVII conta que no seu tempo se praticavam estas torturas: 'A uns, enchiam-lhes a boca de plvora e deitavam-lhe fogo; a outros, introduziam-lhes a plvora por baixo. Furavam os seios das mulheres e, passando cordas atravs das feridas, penduravam-nas'. Em 1918 e 1919, fazia-se o mesmo no Don e no Ural: introduziam no nus de um homem um cartucho de dinamite e faziam-no explodir. Julgo ser exclusivo do povo russo  assim como o sentido de humor para os ingleses - o sentido de uma crueldade especial, uma crueldade de sangue-frio, como que desejosa de experimentar os limites da resistncia humana ao sofrimento e de estudar a persistncia e a estabilidade da vida. Sente-se na crueldade russa um refinamento diablico; h nela qualquer coisa de sutil, de requintado. No  possvel explicar essa particularidade usando palavras como psicose ou sadismo, palavras que, no fundo, nada explicam. [...] Se esses atos de crueldade fossem apenas a expresso da psicologia pervertida dos indivduos, poderamos nem sequer falar dela: seria da alada do psiquiatra e n3o do moralista. Mas aqui refiro-me apenas ao divertimento coletivo pelo sofrimento. [...] Quais so os mais cruis? Os Brancos ou os Vermelhos? Provavelmente, tanto uns como os outros, porque todos so russos. De resto, nessa questo de grau de crueldade, a histria responde claramente: o mais ativo  o mais cruel."?
	No entanto, desde meados do sculo XDC, a Rssia parecia ter adotado um curso mais moderado, mais "ocidental", mais "democrtico". Em 1861, o czar Alexandre II aboliu a servido e emancipou os camponeses; criou os zemstvos, rgos de poder local. Em 1864, com o objetivo de fundar um Estado de direito, instituiu um sistema judicirio independente. As universidades, as artes, as revistas floresceram. Em 1914, uma boa parte do analfabetismo nos campos - que representavam 85% da populao - tinha sido reabsorvida. A sociedade parecia implicada numa corrente "civilizadora" que a conduzia a uma atenuao da violncia a todos os nveis. E at mesmo a revoluo fracassada de 1905 deu um impulso ao movimento democrtico do conjunto da sociedade. Paradoxalmente, foi exatamente no momento em que a reforma parecia poder impor-se  violncia, ao obscurantismo e ao arcasmo que a guerra veio mudar tudo e que, no dia 19 de agosto de 1914, a mais intensa violncia de massas irrompeu bruscamente na cena europia.
	Martin Malia escreveu: "O que o Orestes de Esquilo demonstra  que o crime engendra o crime, a violncia a violncia, at que o primeiro crime da corrente, o pecado original da humanidade, seja expiado pela acumulao do sofrimento. De igual modo, o sangue vertido em agosto de 1914  uma espcie de maldio de Atrides na casa Europa, que engendrou essa concatenao de violncias internacionais e sociais que dominaram todo um sculo: a violncia e as matanas dessa Primeira Guerra Mundial foram desproporcionadas relativamente aos ganhos que qualquer das partes poderia esperar. Foi a guerra que gerou a Revoluo Russa e a tomada do poder pelos bolcheviques." Essa anlise no teria sido desmentida por Lenin, que, desde 1914, apelava  transformao da "guerra imperialista em guerra civil", e profetizava que da guerra capitalista sairia a revoluo socialista.
	Essa violncia intensa, contnua ao longo de quatro anos, sob a forma de uma matana ininterrupta e sem sada, levou  morte de 8,5 milhes de combatentes. Correspondia a um novo tipo de guerra, definida pelo general alemo Ludendorff como uma "guerra total", implicando a morte tanto de militares como de civis. E, no entanto, essa violncia, que atingiu um nvel jamais visto na histria mundial, foi limitada por todo um conjunto de leis e costumes internacionais.
	Entretanto, a prtica de hecatombes cotidianas, muitas vezes em condies horrveis  os gases, os homens enterrados vivos pela exploso das granadas, as longas agonias entre as linhas , pesou consideravelmente nas conscincias, enfraqueceu as resistncias psicolgicas dos homens em face da morte - a sua e a dos outros. Desenvolveu-se uma certa insensibilizao, at mesmo uma certa dessensibilizao. Karl Kautsky, o principal dirigente e terico do socialismo alemo, voltou ao assunto em 1920: "  guerra que devemos atribuir a principal causa dessa transformao de tendncias humanitrias numa tendncia de brutalidade. [...] Durante quatro anos, a guerra mundial absorveu a quase-totalidade da populao masculina saudvel, as tendncias brutais do militarismo atingiram o auge da insensibilidade e da bestialidade, e o prprio proletariado no conseguiu escapar  sua influncia. Foi contaminado ao mais alto grau e saiu embrutecido sob todos os pontos de vista. Os que regressaram, habituados  guerra, estavam mais do que dispostos a defenderem, em tempo de paz, as suas reivindicaes e os seus interesses, atravs de atos sangrentos e violncias exercidas sobre os seus concidados. Esse fato forneceu  guerra civil um dos seus elementos."
	Paradoxalmente, nenhum dos chefes bolcheviques participou da guerra, quer por estarem no exlio - Lenin, Trotski, Zinoviev -, quer por terem sido relegados para os confins da Sibria - Stalin, Kamenev. Na sua maioria, eram homens de gabinete ou oradores de comcio, sem experincia militar, nunca tinham participado de qualquer combate real, com mortos verdadeiros. At a tomada do poder, as suas guerras tinham sido sobretudo verbais, ideolgicas e polticas. Tinham uma viso abstrata da morte, do massacre, da catstrofe humana.
	Essa ignorncia pessoal dos horrores da guerra jogou a favor da brutalidade. Os bolcheviques faziam uma anlise de classe bastante terica que ignorava a profunda dimenso nacional, seno mesmo nacionalista, do conflito. Responsabilizavam o capitalismo pela matana, justificando apriori a violncia revolucionria: pondo termo ao reinado do capitalismo, a revoluo acabava com os massacres, mesmo que isso significasse a destruio do "punhado" de capitalistas responsveis. Macabra especulao, fundamentada na hiptese errnea de que se devia combater o mal com o mal. Durante os anos 20, um certo pacifismo, alimentado pela revolta contra a guerra, revelou-se muitas vezes como um vetor ativo de adeso ao comunismo.
	No deixa de ser verdade, como sublinhou Franois Furet em L Passe d'une illusiorr. "A guerra  feita por massas de civis arregimentados, que passam da autonomia do cidado para uma obedincia militar por um perodo de tempo cuja durao desconhecem e so mergulhados num inferno de fogo, onde se trata mais de 'aguentar' do que de calcular, de ousar ou de vencer. Nunca a servido militar apareceu to despida de adornos de nobreza como aos olhos desses milhes de homens transplantados, acabados de sair do mundo moral da cidadania. [...] A guerra  o estado poltico mais estranho ao cidado. [...] O que a tornou necessria situa-se ao nvel das paixes, sem relao com o dos interesses, que transige, e menos ainda com a razo, que reprova. [...] O exrcito em guerra constitui uma ordem social na qual o indivduo deixa de existir e cuja prpria inumanidade explica uma fora de inrcia quase impossvel de quebrar." A guerra deu nova legitimidade  violncia e ao desprezo pelo indivduo, ao mesmo tempo que enfraqueceu uma cultura democrtica ainda adolescente e revitalizava uma cultura de servido.
	Na aurora do sculo XX, a economia russa tinha entrado numa fase de crescimento vigoroso, e a sociedade desenvolvia a sua autonomia a cada dia que passava. A violncia excepcional de uma guerra repentina e a sua influncia sobre as pessoas, a produtividade e as estruturas puseram a nu as limitaes de um regime poltico a cujo chefe faltavam a energia e a clarividncia para salvar a situao. A revoluo de fevereiro de 1917 foi uma resposta a uma situao de catstrofe e tomou um rumo "clssico", uma revoluo "burguesa" e democrtica, com eleio de uma Assembleia Constituinte, duplicada por uma revoluo social, operria e camponesa. Com o golpe de Estado bolchevique, em 7 de novembro de 1917, tudo mudou, e a revoluo entrou numa era de violncia generalizada. Fica uma pergunta: por que razo, na Europa, a Rssia foi a nica a sofrer uma tal calamidade?
	A guerra mundial e a tradicional violncia russa permitem,  certo, compreender melhor o contexto no qual os bolcheviques chegaram ao poder; no explicam, no entanto, o caminho extremamente brutal que adoraram logo de incio e que contrastava singularmente com a revoluo iniciada em fevereiro de 1917, a qual tinha nos seus comeos um carter largamente pacfico e democrtico. O homem que imps essa violncia, assim como imps ao seu Partido a tomada do poder, foi Lenin.
	Lenin instaurou uma ditadura que depressa se revelou terrorista e sanguinria. A violncia revolucionria deixou ento de aparecer como uma violncia reativa, reflexo de defesa contra as forcas czaristas desaparecidas havia meses, mas como uma violncia ativa, que despertou o velho hbito russo da brutalidade e da crueldade e atiou a violncia latente da revoluo social. Embora o Terror Vermelho s tenha sido "oficialmente" inaugurado em 2 de setembro de 1918, existiu um "terror antes do terror"; a partir de novembro de 1917, Lenin dedicou-se a organizar o terror, e isto na ausncia total de qualquer manifestao de oposio por parte dos outros partidos ou dos diferentes componentes da sociedade. No dia 4 de janeiro, ele dissolveu a Constituinte, eleita por sufrgio universal  pela primeira vez na histria da Rssia , e mandou disparar sobre os seus defensores que protestavam na rua.
	Essa primeira fase terrorista foi imediatamente denunciada, com grande vigor, por um socialista russo, o chefe dos mencheviques, Yuri Martov, que, em agosto de 1918, escrevia: "Desde o momento em que conseguiram chegar ao poder, e tendo j abolido a pena de morte, os bolcheviques comearam a matar. A matar os prisioneiros da guerra civil, como fazem todos os selvagens. A matar os inimigos que se renderam aps o combate, contra a promessa de que seriam poupados. [...] Depois dessas matanas organizadas ou toleradas pelos bolcheviques, o prprio poder assume a tarefa de liquidar os seus inimigos. [...] Depois de terem exterminado sem julgamento dezenas de milhares de indivduos, os bolcheviques efetivaram as execues... dentro das normas. Foi assim que criaram um novo Supremo Tribunal Revolucionrio para julgar os inimigos do poder sovitico."
	Martov tinha sombrios pressentimentos: "A besta lambeu o sangue quente do homem. A mquina de matar pessoas ps-se em marcha. Os senhores Medvedev, Bruno, Peterson, Karelin - os juizes do tribunal revolucionrio - arregaaram as mangas e tornaram-se aougueiros. [...] Mas o sangue clama por sangue. O terror poltico instaurado pelos bolcheviques em outubro espalhou sobre a Rssia os seus sangrentos vapores. A guerra civil contribui com as suas atrocidades, rebaixando os indivduos  selvageria e  ferocidade; cada vez mais se esquecem dos grandes princpios de verdadeira humanidade, desde sempre inerentes  doutrina do socialismo". Martov repreende Radek e Rakovski, dois socialistas que haviam aderido aos bolcheviques; um, judeu polons, o outro, romeno-blgaro: "Vieram  nossa casa para cultivar a nossa antiga barbrie, usada pelos czares, para incensar o velho altar russo do assassinato, para levar a um grau ainda desconhecido, mesmo no nosso selvagem pas, o desprezo pela vida alheia, para finalmente organizarem a obra pan-russa da carrascocracia. [...] O carrasco voltou a ser a figura central da vida russa!"
	Contrariamente ao Terror da Revoluo Francesa, que, com exceo da Vendia, s atingiu uma pequena faixa da populao, o terror de Lenin visava todas as formaes polticas e todas as camadas da populao: nobres, grandes burgueses, militares, policiais, mas tambm democratas-constitucionais men-cheviques, socialistas-revolucionrios, e at o povo em geral, camponeses e operrios. Os intelectuais foram especialmente maltratados, e em 6 de setembro de 1919, aps a deteno de vrias dezenas de conhecidos cientistas, Gorki dirige a Lenin uma carta curiosa: "Para mim, a riqueza de um pas, a fora de um povo, medem-se pela quantidade e qualidade do seu potencial intelectual. A revoluo s tem sentido se favorecer o crescimento e o desenvolvimento desse potencial. Os homens de cincia devem ser tratados com a mxima cortesia e respeito. Mas ns, para salvarmos a pele, cortamos a cabea ao povo, destrumos o nosso crebro."
	A brutalidade da resposta de Lenin esteve  altura da lucidez da carta de Gorki: "Faramos mal assimilando as 'foras intelectuais' do povo s 'foras' da intelligentsia burguesa. [...] As foras intelectuais dos operrios e dos camponeses crescem e amplificam-se na luta para derrubar a burguesia e os seus aclitos - esses pequenos intelectuais miserveis, lacaios do capitalismo, que se pretendem o crebro da nao. Na realidade, no  um crebro,  merda". Essa anedota sobre os intelectuais  um primeiro indicativo do profundo desprezo que Lenin votava aos seus contemporneos, incluindo os espritos mais eminentes. Do desprezo, depressa passou ao assassinato.
	O objetivo prioritrio de Lenin era manter-se o mais tempo possvel no poder. Ao fim de dez semanas, quando conseguiu ultrapassar a durao da Comuna de Paris, deu asas  imaginao, e a sua vontade de conservar o poder decuplicou. O curso da histria comeou a bifurcar, e a Revoluo Russa, dominada pelos bolcheviques, enveredou por caminhos at ento desconhecidos.
	Por que seria a conservao do poder to importante, ao ponto de justificar o uso de todos os meios e o abandono dos princpios morais mais elementares? Porque s ela permitiria a Lenin concretizar as suas ideias, as da "construo do socialismo". A resposta revela a verdadeira mola real do terror: a ideologia leninista e a vontade perfeitamente utpica de aplicar uma doutrina totalmente defasada da realidade.
	A esse respeito, pode-se legitimamente perguntar: o que existe de marxista no leninismo anterior a 1914 e, sobretudo, posterior a 1917?  certo que Lenin baseava a sua posio em algumas noes marxistas elementares: a luta de classes, a violncia inerente  Histria, o proletariado como classe portadora do sentido da Histria. No entanto, em 1902, no seu famoso texto Que fazer?, propunha uma nova concepo do partido revolucionrio formado por profissionais, reunidos numa estrutura clandestina, de disciplina quase militar. Retomava e desenvolvia o modelo de Netchaiev, muito distante da concepo das grandes organizaes socialistas alems, inglesas ou mesmo francesas.
	Foi em 1914 que se deu a ruptura definitiva com a II Internacional. Enquanto a quase-totalidade dos partidos socialistas, brutalmente confrontados com a fora do sentimento nacional, apoiava os respectivos governos, Lenin lanou-se numa fuga em frente terica: profetizou "a transformao da guerra imperialista em guerra civil". Num momento em que o frio raciocnio levava a concluir que o movimento socialista ainda no era suficientemente poderoso para contrariar o nacionalismo e que, aps uma guerra inevitvel -uma vez que no fora possvel evit-la -, ele seria convocado a reunir as suas forcas para impedir qualquer recidiva belicosa, a paixo revolucionria prevaleceu em Lenin: ele quis um ato de f, props uma aposta, um tudo ou nada. Durante dois anos, a profecia leninista pareceu estril. Depois, subitamente, foi a divina surpresa: a Rssia entrava em revoluo. Lenin convenceu-se de que se devia ver nisso uma clara confirmao do seu vaticnio. O voluntaris-mo netchaieviano suplantava o determinismo marxista.
	Se o diagnstico sobre a possibilidade de tomar o poder era formidavelmente exato, a hiptese de a Rssia estar pronta a enveredar pela via do socialismo, que lhe proporcionaria um progresso fulgurante, revelou-se radicalmente falsa.  nesse erro de apreciao que reside uma das causas profundas do terror, nessa defasagem entre a realidade - uma Rssia que aspirava a alcanar a liberdade  e a vontade leninista de deter o poder absoluto para aplicar uma doutrina experimental.
	Trotski definiu bem, em 1920, esse encadeamento implacvel: " perfeitamente evidente que, se definirmos como objetivo a abolio da propriedade privada individual dos meios de produo, no haver outra maneira de consegui-lo seno atravs da concentrao de todos os poderes do Estado nas mos do proletariado, a criao de um regime de exceo durante um perodo transitrio. [...] A ditadura  indispensvel porque no se trata de mudanas parciais, mas da prpria existncia da burguesia. Nessa base, nenhum acordo  possvel; s a fora pode decidir. [...] Quem quer atingir um fim no pode repudiar os meios."
	Apanhado entre o desejo de aplicar a sua doutrina e a necessidade de conservar o poder, Lenin imaginou o mito da revoluo bolchevique mundial. Em novembro de 1917, ele quis acreditar que o incndio revolucionrio iria devastar todos os pases implicados na guerra, e sobretudo a Alemanha. Ora, no houve qualquer revoluo mundial e, aps a derrota alem, em novembro de 1918, instalou-se uma nova Europa, pouco preocupada com as fascas revolucionrias rapidamente extintas na Hungria, na Baviera e at em Berlim. Patente por ocasio da derrota do Exrcito Vermelho em Varsvia, em 1920, e admitida com dificuldade em 1923, aps o fracasso do outubro alemo, a falibilidade da teoria leninista sobre a revoluo europeia e mundial deixou os bolcheviques isolados, frente a frente com uma Rssia em plena anarquia. Mais do que nunca, o terror esteve na ordem do dia, o que permitia conservar o poder, comear a remodelar a sociedade  imagem da teoria e impor silncio a todos aqueles que, pelos seus discursos, pela sua prtica ou somente pela sua existncia  social, poltica, intelectual  denunciavam todos os dias a vacuidade da teoria. A utopia no poder torna-se uma utopia mortfera.
	Essa dupla defasagem entre a teoria marxista e a teoria leninista, e depois entre a teoria leninista e a realidade, deu origem ao primeiro debate fundamental sobre o significado da revoluo russa e bolchevique. Em agosto de 1918, Kautsky pronunciou uma sentena sem apelo: "Em caso algum  permitido supor que na Europa Ocidental se repetiro os acontecimentos da grande Revoluo Francesa. Se a Rssia atual apresenta tanta similitude com a Frana de 1793, isso  a prova de que se encontra prxima da fase da Revoluo Francesa. [...] O que l se passa no  a primeira revoluo socialista, mas sim a ltima revoluo burguesa."
	Deu-se ento um acontecimento crucial: a mudana radical do estatuto da ideologia no movimento socialista. J antes de 1917, Lenin mostrara a sua convico profunda de que era o nico detentor da verdadeira doutrina socialista, capaz de decifrar o verdadeiro "sentido da Histria". A irrupo da Revoluo russa, e sobretudo a tomada do poder, foram fatos interpretados por Lenin como "sinais do Cu", uma confirmao gritante, irrefutvel, de que a sua ideologia e sua anlise eram infalveis. A partir de 1917, a sua poltica e a elaborao terica que a acompanha tornam-se a palavra do Evangelho. A ideologia transforma-se em dogma, em Verdade absoluta e universal. Essa sacralizao tem consequncias imediatas, bem referenciadas por Cornelius Castoriadis: "Se existe uma teoria verdadeira da Histria, se existe uma racio-nalidade ativa nas coisas,  claro que a direo do desenvolvimento deve ser confiada aos especialistas dessa teoria, aos tcnicos dessa racionalidade. O poder absoluto do partido [...] tem um estatuto filosfico; fundamenta-se na razo da concepo materialista da Histria. [...] Se essa concepo  verdadeira, o poder deve ser absoluto, e toda a democracia no passa de uma concesso  falibilidade humana dos dirigentes ou processo pedaggico que s eles podem administrar em doses correias."
	 a elevao da ideologia e da poltica  condio de Verdade absoluta, porque "cientfica", que fundamenta a dimenso "totalitria" do comunismo.  ela que comanda o partido nico.  ainda ela que justifica o Terror. E  ela que obriga o poder a permear todos os aspectos da vida social e individual.
	Lenin afirma a justeza da sua ideologia proclamando-se representante de um proletariado russo numericamente muito fraco e que no hesitar em esmagar quando ele se revoltar. Essa apropriao do smbolo proletariado foi uma das grandes imposturas do leninismo e provocou, a partir de 1922, a rplica cruel de Alexandre Chliapnikov, o nico dirigente dos bolcheviques vindo do operariado, que, quando do XI Congresso do Partido, apostrofava assim Lenin: "Vladimir Ilitch afirmou ontem que o proletariado, enquanto classe e no sentido marxista, no existia na Rssia. Permita-me felicit-lo por exercer uma ditadura em nome de uma classe que no existe". Essa manipulao do smbolo proletariado encontra-se em todos os regimes comunistas da Europa e do terceiro mundo, da China a Cuba.
	Reside aqui uma das caractersticas principais do leninismo, na manipulao da linguagem, no divrcio entre as palavras e a realidade que so supostas representar, numa viso abstrata em que a sociedade, os indivduos, perderam toda a espessura e no passam de peas de uma espcie de Meccano histrico e social. Essa abstrao, estreitamente ligada  posio ideolgica,  um elemento fundamental do terror: no se exterminam pessoas, mas apenas "burgueses", "capitalistas", "inimigos do povo"; no se asassina Nicolau II e a sua famlia, mas "partidrios do feudalismo", "sugadores de sangue", parasitas, piolhos...
	Essa postura ideolgica depressa adquiriu um impacto considervel, graas  deteno do poder do Estado, que procura legitimidade, prestgio e meios. Em nome da verdade da mensagem, os bolcheviques passaram da violncia simblica para a violncia real, e instalaram um poder absoluto e arbitrrio, a que chamaram "ditadura do proletariado", retomando uma expresso que Marx havia utilizado, por acaso, numa carta. Alm disso, os bolcheviques empenham-se num formidvel proselitismo: criam uma nova esperana dando a impresso de devolverem toda a sua pureza  mensagem revolucionria. Essa esperana encontra rapidamente eco, tanto naqueles que, finda a guerra, alimentam desejos de vingana, como naqueles  muitas vezes os mesmos  que sonham com uma reativao do mito revolucionrio. Bruscamente, o bolchevismo adquire um alcance universal e encontra mulos nos cinco continentes. O socialismo situa-se numa encruzilhada de caminhos: democracia ou ditadura.
	Com o seu livro A Ditadura do Proletariado, escrito no vero de 1918, Kautsky pe o dedo na ferida. Num momento em que os bolcheviques esto no poder h apenas seis meses e s alguns indcios permitem pressagiar as hecatombes que o seu sistema poltico provocar, Kautsky define exatamente o que est em jogo: "A oposio das duas correntes socialistas [...] baseia-se na oposio de dois mtodos fundamentalmente diferentes: o mtodo democrtico e o mtodo ditatorial. As duas correntes querem a mesma coisa: a emancipao do proletariado e, com ele, da humanidade, atravs do socialismo. Mas o caminho escolhido por uns  tido pelos outros como errado e infalivelmente conducente  runa. [...] A reivindicao da livre discusso coloca-nos, de sada, no terreno da democracia. O objetivo da ditadura no  tanto refutar a opinio oposta, como suprimir violentamente a sua expresso. Por isso, os dois mtodos, democracia e ditadura, opem-se j de uma forma irredutvel antes mesmo do incio da discusso. Um exige o debate, o outro recusa-o."
	Colocando a democracia no centro do seu raciocnio, Kautsky interroga-se: "A ditadura de uma minoria encontra sempre o seu apoio mais slido num exrcito devotado. Mas, quanto mais substitui a maioria pela fora das armas, mais obriga a oposio a procurar a salvao no recurso s baionetas e aos punhos em vez de no voto que lhe  negado; ento, a guerra dvil torna-se o meio pelo qual so resolvidas as oposies polticas e sociais. Enquanto no reinam a mais perfeita apatia poltica e social ou o mais completo desalento, a ditadura de uma minoria est constantemente ameaada por golpes de Estado ou por uma permanente guerrilha. [...] Como consequncia, no consegue livrar-se da guerra civil e  confrontada a todo instante com o perigo de se ver esmagada por essa mesma guerra civil. Mas no existe maior obstculo  construo de uma sociedade socialista do que um conflito em suas entranhas. [...] Numa guerra civil, cada partido combate pela sua prpria sobrevivncia, e aquele que sucumbir fica  merc de um total aniquilamento.  a conscincia desse ato que torna as guerras civis to cruis."
	Essa anlise premonitria exigia imperativamente uma resposta. Com raiva, e apesar das suas obrigaes esmagadoras, Lenin escreveu um texto que se tornou clebre, A Revoluo do Proletariado e o Renegado Kautsky. O prprio ttulo j era um bom indicador do tom do debate... ou, como Kautsky dissera, da recusa do debate. Lenin define claramente o cerne do seu pensamento e da sua ao: "O Estado , nas mos da classe dominante, uma mquina destinada a esmagar a resistncia dos seus adversrios de classe. Nesse aspecto, a ditadura do proletariado em nada se distingue, no fundo, da ditadura de qualquer outra classe, uma vez que o Estado proletrio  uma mquina que serve para esmagar a burguesia". Essa concepo muito sumria e redutora do que  o Estado leva-o a explicitar a essncia da ditadura: "A ditadura  um poder que se apoia diretamente na violncia e no est de mos atadas por qualquer lei. A ditadura revolucionria do proletariado  um poder conquistado e mantido pela violncia, que o proletariado exerce sobre a burguesia, poder esse que no est de mos atadas por qualquer lei."
	Confrontado com a questo fulcral da democracia, Lenin se desvia com uma pirueta: "A democracia proletria, de que o poder dos sovietes  uma das formas, desenvolveu e difundiu a democracia como em nenhuma outra parte do mundo, em proveito justamente da imensa maioria da populao, em proveito dos explorados e dos trabalhadores." Retenhamos bem essa expresso "democracia proletria". Durante dcadas, ela dar que falar e servir de capa aos piores crimes.
	A querela Kautsky/Lenin destaca os maiores desafios surgidos com a revoluo bolchevique, entre um marxismo que quer cingir-se s chamadas "leis da Histria", e um subjetivismo ativista ao qual tudo serve para alimentar a paixo revolucionria. A tenso subjacente  posio de Marx, entre o messianismo do Manifesto do Partido Comunista, de 1848, e a fria anlise dos movimentos da sociedade de O Capital, transforma-se, sob o efeito de triplo acontecimento da Guerra Mundial, da Revoluo de Fevereiro e da Revoluo de Outubro, numa profunda e irremedivel ruptura que far dos socialistas e dos comunistas os mais clebres irmos inimigos do sculo XX. O que est em jogo no deixa por isso de ser essencial: democracia ou ditadura, humanidade ou terror.
	Totalmente imbudos de uma paixo revolucionria, confrontados ao turbilho dos acontecimentos, os dois principais atores dessa primeira fase da revoluo bolchevique, Lenin e Trotski, vo teorizar a sua ao. Ou, mais precisamente, vo dar forma ideolgica s concluses que a conjuntura lhes inspira. Inventam a revoluo permanente: na Rssia, a situao permite passar diretamente da revoluo burguesa (Fevereiro) para a revoluo do proletariado (Outubro). Do uma roupagem ideolgica  transformao da revoluo permanente em guerra civil permanente.
	Medimos por aqui todo o impacto que a guerra teve na posio dos revolucionrios. Trotski escreve: "Kautsky v na guerra, na sua terrvel influncia sobre os costumes, uma das causas do carter sanguinrio da luta revolucionria.  incontestvel." Mas os dois homens no chegam  mesma concluso. O socialista alemo, em face do peso do militarismo,  cada vez mais sensvel  questo da democracia e da defesa da pessoa humana. Para Trotski, "o desenvolvimento da sociedade burguesa, de onde saiu a democracia contempornea, no constitui de modo algum o processo de uma democratizao gradual, que j era, antes da guerra, o sonho de um dos maiores utopistas da democracia socialista, Jean Jaurs, e  agora o sonho do mais sbio de todos os pedantes, Karl Kautsky. "
	Generalizando o seu pensamento, Trotski fala da "implacvel guerra civil que grassa por todo o mundo". Considera que o planeta entrou numa poca "em que a luta poltica se transforma rapidamente em guerra civil", em que cedo se confrontaro apenas "duas forcas: o proletariado revolucionrio, liderado pelos comunistas, e a democracia contra-revolucionria, encabeada por generais e almirantes". O erro de perspectiva  duplo: por um lado, a Histria demonstrou que a aspirao  democracia representativa e a sua implantao se tornaram um fenmeno mundial, mesmo na URSS de 1991. Por outro, Trotski, como Lenin, tem uma forte tendncia para generalizar a importncia do caso russo, ele prprio interpretado de uma forma caricatural. Os bolcheviques esto convencidos de que, pelo fato de uma guerra civil ter se desencadeado na Rssia  largamente por culpa deles prprios , ela vai  e deve ir - estender-se  Europa e ao mundo inteiro.  todavia sobre esse duplo erro de interpretao que, durante dcadas, vai ser construda a justificao do terror comunista.
	Baseado nessas premissas, Trotski tira concluses definitivas: "Podemos e devemos explicar que durante a guerra civil exterminamos os guardas brancos para que eles no exterminem os trabalhadores. Portanto, o nosso objeti-vo no  suprimir vidas humanas, mas, pelo contrrio, preserv-las. [...] O inimigo deve ser posto na impossibilidade de fazer mal, o que, em tempo de guerra, s pode traduzir-se na sua eliminao. Na revoluo, como na guerra, trata-se de quebrar a vontade do inimigo, de for-lo a capitular aceitando as condies do vencedor. [...] A questo de saber a quem vai pertencer o poder nesse pas, ou seja, se a burguesia deve viver ou morrer, no se resolver pela invocao dos artigos da Constituio, mas pelo recurso a todas as formas de violncia." Encontramos na escrita de Trotski as expresses que fundamentam, em Ludendorff, a concepo da guerra total. Os bolcheviques, que se julgavam grandes inovadores, eram na realidade dominados pela sua poca e pelo ultramilitarismo ambiente.
	Os comentrios de Trotski sobre a questo da liberdade de imprensa mostram a que ponto est instalada essa mentalidade de guerra: "Em tempo de guerra, todas as instituies, organismos do poder governamental e de opinio pblica tornam-se, direta ou indiretamente, rgos auxiliares da guerra. Isso refere-se sobretudo  imprensa. Nenhum governo, empenhado numa guerra sria, pode permitir no seu territrio a difuso de publicaes que, abertamente ou no, apoiem o inimigo. E com mais forte razo, em tempo de guerra civil. A natureza desse tipo de guerra  tal que os dois campos em luta tm, na retaguarda das suas tropas, populaes aliadas ao inimigo. Na guerra, onde a morte sanciona os xitos e os fracassos, os agentes inimigos que se infiltram na retaguarda dos exrcitos so submetidos  pena de morte. Lei desumana, sem dvida, mas nunca ningum considerou a guerra uma escola de humanidade, e muito menos uma guerra civil."
	Os bolcheviques no so os nicos implicados na guerra civil que rebenta na Rssia na primavera-vero de 1918 e que vai, nos prximos quatro anos, desencadear uma loucura de crueldades, de ambos os lados: pessoas crucificadas, empaladas, decapitadas e queimadas vivas. Mas s os bolcheviques teorizam a guerra civil, a reivindicam. Sob o efeito conjugado da doutrina e dos novos costumes gerados pela guerra, a guerra civil torna-se, para eles, uma forma permanente de luta poltica. A guerra civil dos Vermelhos contra os Brancos esconde uma outra guerra, muito mais importante e significativa, a guerra dos Vermelhos contra uma parte importante do mundo operrio e uma grande parte do campesinato que, a partir do vero de 1918, comeam a no suportar o castigo bolchevique. Essa guerra no ope mais, como no esquema tradicional, dois grupos polticos em conflito, mas sim o poder instalado, por um lado, e a maioria da sociedade, por outro. Com Stalin, ela vir opor o Partido-Estado ao conjunto da sociedade.  um fenmeno novo, indito, que s pode ter uma certa durao e conhecer uma certa expanso graas  instaurao de um sistema totalitrio que controla todo o conjunto de atividades da sociedade e se apoia num terror de massa.
	Estudos feitos recentemente com base nos arquivos mostram que essa "guerra suja" (Nicolas Werth) dos anos 1918-1921 foi a verdadeira matriz do regime sovitico, o crisol onde sero forjados os homens que iam iniciar e desenvolver essa revoluo, o caldeiro infernal onde foi cozinhada essa mentalidade to especial do comunismo leninista-stalinista  miscelnea de exaltao idealista, de cinismo e de crueldade desumana. Essa guerra civil, que do territrio sovitico deve se alastrar ao mundo inteiro, foi convocada para durar o tempo necessrio at o socialismo conseguir conquistar o planeta e instaurar a crueldade como um modo de relacionamento "normal" entre os homens. Ela provocou a ruptura das barreiras tradicionais contra uma violncia absoluta e fundamental.
	Entretanto, nos primeiros dias da revoluo bolchevique, os problemas postos por Kautsky atormentavam os revolucionrios russos. Isaac Steinberg, socialista-revolucionrio de esquerda, aliado aos bolcheviques, que foi comissrio do povo para a Justia, de dezembro de 1917 a maio de 1918, falava, em 1923, a propsito do poder bolchevique, de um "sistema de terror de Estado metdico" e punha a questo fulcral dos limites da violncia na revoluo: "O desabamento do velho mundo, a sua substituio por uma vida nova, mas que conserva os mesmos males, que est contaminada pelos mesmos velhos princpios, coloca o socialista face a uma escolha crucial: a violncia antiga (czaris-ta, burguesa), ou a violncia revolucionria no momento da luta decisiva. [...] A violncia antiga no  mais do que uma proteo doentia da escravatura; a nova violncia  a via dolorosa para a emancipao. [...]  isso que determina nossa escolha: pagamos no instrumento da violncia para acabar de uma vez por todas com a violncia. Porque no existe outro instrumento para lutar contra ela.  aqui que se situa a ferida moral, escancarada, da revoluo.  aqui que se revelam a sua antinomia, a sua dor interna, a sua contradio."
	E acrescenta: "Tal como o terror, a violncia (considerada igualmente sob a forma da sujeio e da mentira) contamina sempre os tecidos essenciais da alma do vencido em primeiro lugar, posteriormente do vencedor, e em seguida de toda a sociedade".
	Steinberg estava consciente dos enormes riscos da experincia socialista, do simples ponto de vista da "moral universal" ou do "direito natural". Gorki tinha os mesmos sentimentos quando, em 21 de abril de 1923, escreveu a Romain Rolland: "No tenho o menor desejo de regressar  Rssia. No poderia escrever se tivesse de desperdiar o meu tempo a repisar a mesma antfona: 'No matars'." Todos os escrpulos desses revolucionrios no bolcheviques e as ltimas dvidas dos prprios bolcheviques foram varridos pelo furor de Lenin, revezado por Stalin. No dia 2 de novembro de 1930, Gorki, que acabava de aliar-se ao "chefe genial", escrevia ao mesmo Romain Rolland: "Parece-me, Rolland, que voc julgaria os acontecimentos internos da Unio [Sovitica] com mais serenidade e equidade se admitisse esse simples fato: o regime sovitico e a guarda avanada do partido operrio encontram-se em estado de guerra civil, ou seja, guerra de classes. O inimigo contra o qual lutam - e devem lutar -  a intelligentsia, que se esfora por restaurar o regime burgus, e o campons rico, que, ao defender os seus escassos bens, base do capitalismo, impede a obra da coletivizao, recorrendo ao terror, ao assassinato dos coletivistas, ao incndio dos bens coletivizados e outros mtodos da guerra de guerrilha. Na guerra, mata-se."
	A Rssia conheceu ento uma terceira fase revolucionria que, at 1953, foi encarnada por Stalin. Caracterizou-se por um terror generalizado, simbolizado pelo grande expurgo dos anos 1937-1938. Doravante, toda a sociedade  visada, mas tambm o aparelho do Estado e do partido. Stalin definiu sucessivamente os grupos inimigos a exterminar. E esse terror no esperou pela excepcional conjuntura da guerra para se desencadear. Estabeleceu-se em perodo de paz externa.
	Enquanto Hitler, salvo exceo, nunca se ocupou da represso, deixando essas tarefas "subalternas" a homens de confiana como Himmler, Stalin interessa-se de perto por ela, sendo simultaneamente seu iniciador e organizador. Rubrica pessoalmente as listas de milhares de nomes de pessoas a serem fuziladas e obriga os membros do Politburo a fazerem o mesmo. Durante o Grande Terror, em 14 meses, de 1937 a 1938,1,8 milho de pessoas so detidas, no decorrer de 42 operaes ciosamente preparadas; cerca de 690.000 pessoas so assassinadas. O clima de guerra civil, mais ou menos "quente" ou "frio", intenso e aberto ou disfarado e insidioso,  permanente. A expresso "guerra de classes", muitas vezes preferida  de luta de classes, no  de modo algum metafrica. O inimigo poltico no  tal ou tal opositor e nem sequer a "classe inimiga", mas toda a sociedade.
	Era inevitvel que, com o passar do tempo, e por contgio, o terror que visava  destruio da sociedade atingisse essa contra-sociedade constituda pelo partido no poder. J sob a liderana de Lenin, em 1921, os dissidentes ou os oposicionistas tinham sofrido sanes. Mas os potenciais inimigos continuavam a ser os que no eram membros do Partido. No tempo de Stalin, os membros do Partido tornam-se por sua vez inimigos potenciais. No entanto, foi preciso esperar pelo assassinato de Kirov para que Stalin, aproveitando o pretexto, conseguisse aplicar a pena capital aos membros do Partido. Retoma desse modo as teses de Netchaiev, a quem, na sua carta de ruptura, Bakunin escrevia em junho de 1870: "Na base da nossa atividade deve estar essa simples lei: verdade, honestidade, confiana em todos os irmos [revolucionrios]; a mentira, a astcia, a mistificao e - por necessidade - a violncia s sero utilizadas contra os inimigos. [...] Enquanto voc, meu caro  e  esse o seu principal e colossal erro -, voc est muito afeioado ao sistema de Loyola e de Maquiavel. [...] Apaixonado por mtodos policiais e jesuticos, voc teve a ideia de construir sobre eles a sua prpria organizao [...], razo pela qual age com os seus amigos como se fossem seus inimigos."
	Outra inovao de Stalin: os carrascos passam por sua vez a vtimas. Aps o assassinato de Zinoviev e de Kamenev, seus velhos camaradas de partido, Bukharin diz  sua companheira: "Estou bastante satisfeito por terem mandado fuzilar esses ces!" Menos de dois anos mais tarde,  ele, Bukharin, que  fuzilado como um co. Esse procedimento stalinista pode ser encontrado na maioria dos regimes comunistas.
	Antes de exterminar certos "inimigos", Stalin reservou-lhes uma sorte especial: fez com que comparecessem em julgamentos-espetculo. A frmula tinha j sido inaugurada por Lenin, em 1922, com o primeiro julgamento montado, o dos socialistas-revolucionrios. Stalin aperfeioou-a e fez dela uma constante do seu dispositivo de represso, continuando a aplic-la no Leste Europeu depois de 1948.
	Annie Kriegel descreveu muito bem o formidvel mecanismo de profilaxia social que constituam esses julgamentos cuja dimenso de "pedagogia infernal" substitua, na Terra, o Inferno prometido pela religio. Simultaneamente, era posta em prtica a pedagogia do dio de classe, da condenao do inimigo. No comunismo asitico, esse procedimento  levado ao extremo: organizam-se jornadas do dio.
	 pedagogia do dio Stalin acrescentou a pedagogia do mistrio: o segredo mais absoluto rodeava as detenes, as causas, as condenaes e o destino das vtimas. Mistrio e segredo, estreitamente ligados ao terror, alimentavam uma enorme angstia em toda a populao.
	Uma vez que se consideram em guerra, os bolcheviques criam uma terminologia para os inimigos: "agentes inimigos", "populaes coniventes com o inimigo", etc. De acordo com o modelo guerreiro, a poltica  reduzida a termos simplistas, definida como uma relao amigo/inimigo, como reivindicao de um "ns" oposto a "eles". Implica uma viso em termos de "campo" - ainda uma expresso militar: o campo revolucionrio, o campo con-tra-revolucionrio. E, sob pena de morte, todos so intimados a escolher o seu campo. Grave regresso a um estado poltico arcaico, que anula 150 anos de esforos da burguesia individual e democrata.
	Como definir o inimigo? Estando a poltica reduzida a uma guerra civil generalizada que ope duas foras - a burguesia e o proletariado -, e havendo necessidade de exterminar uma das duas por meios muito violentos, o inimigo no  apenas o homem do Antigo Regime, o aristocrata, o grande burgus, o oficial, mas todos os que se opem  poltica bolchevique e so classificados como "burgueses". O "inimigo"  representado por qualquer pessoa ou categoria social que, dentro da tica dos bolcheviques, constitua um obstculo ao poder absoluto. O fenmeno manifesta-se imediatamente, inclusive nas instncias de onde o terror est ainda ausente: as assembleias eleitorais dos sovie-tes. Kautsky, que j pressentia esse acontecimento em 1918, escreveu: "Os nicos com direito a voto [nos sovietes] so aqueles que 'ganharam os seus meios de subsistncia graas a um trabalho produtivo ou proveitoso para o conjunto'. Mas o que  um 'trabalho produtivo ou proveitoso para o conjunto'?  uma 'palavra de borracha'. E 'palavra de borracha'  tambm a ordenana relativa aos excludos do direito de voto, incluindo os que 'empregam assalariados para deles obterem um lucro'. [...] Percebe-se perfeitamente que no  preciso muito para ser etiquetado como capitalista no regime eleitoral da Repblica Sovitica, e para perder o direito de voto. A natureza elstica das definies das palavras da lei eleitoral abre a porta ao reino da arbitrariedade mais evidente, e no se deve ao sistema legislativo, mas ao seu objeto.
	Nunca se conseguir definir, de uma maneira juridicamente inatacvel e precisa, o termo proletrio."
	O fato de o termo "proletrio" ter substitudo o de "patriota" usado no tempo de Robespierre mostra que a categoria "inimigo"  de geometria varivel e pode inchar ou desinchar conforme a poltica do momento. Essa categoria torna-se um elemento fundamental do pensamento e da prtica comunistas. Tzvetan Todorov precisa: "O inimigo  a grande justificativa do terror; o Estado totalitrio no existe sem inimigos. Se lhe faltarem, ele os inventar. Uma vez identificados, no merecem piedade. [...] Ser inimigo  uma tara incurvel e hereditria. [...] Insiste-se por vezes no fato de os judeus terem sido perseguidos no pelo que fizeram, mas pelo que eram: judeus. Passa-se precisamente o mesmo com o poder comunista: exige a represso (ou, em momentos de crise, a eliminao) da burguesia enquanto classe. O simples fato de pertencer a essa classe  suficiente, no sendo mais necessrio fazer o que quer que seja."
	Resta uma questo essencial: por que exterminar "o inimigo"? O papel tradicional da represso , segundo o ttulo de uma obra clebre, "vigiar e punir". Essa frase, "vigiar e punir", estava ultrapassada? O "inimigo de classe" era "irrecupervel"? Soljenitsyne traz-nos uma primeira resposta, mostrando que no Gulag os prisioneiros de direito comum eram sistematicamente mais bem tratados do que os polticos. No s por razes prticas  desempenhavam funes de enquadramento -, mas tambm por razes "tericas". Com efeito, o regime sovitico empenhava-se em criar um "homem novo", procurando inclusive reeducar os criminosos mais empedernidos. Esse foi at um dos vetores mais frutferos da sua propaganda, tanto na Rssia de Stalin como na China de Mao ou na Cuba de Castro.
	Mas por que razo se torna necessrio matar o "inimigo"? Com efeito, no constitui novidade que a poltica consiste, entre outras coisas, em identificar amigos e inimigos. J o Evangelho declarava: "Quem no est comigo est contra mim". A novidade reside no fato de Lenin decretar que no s "Quem no est comigo est contra mim", mas ainda que "Quem  contra mim tem de morrer", e generalizar essa proposta do domnio da poltica  sociedade na sua globalidade.
	Com a prtica do terror, assiste-se a uma dupla mutao: o adversrio, primeiro inimigo e depois criminoso, passa a excludo. Essa excluso conduz quase que automaticamente  ideia do extermnio. Na verdade, a dialtica amigo/inimigo  doravante insuficiente para resolver o problema fundamental do totalitarismo: a procura de uma humanidade unificada, purificada, sem antagonismos, de acordo com a dimenso messinica do projeto marxista de unificao da humanidade no e atravs do proletariado. Esse projeto justifica a tentativa de uma unificao forada - do Partido, da sociedade e depois do imprio , que rejeite como refugo os que no se incluem no produto refinado. Passa-se, muito rapidamente, de uma lgica de combate poltico para uma lgica de excluso, depois para uma ideologia de eliminao e, finalmente, de extermnio de todos os elementos impuros. No final dessa lgica, est o crime contra a humanidade.
	A atitude de certos comunismos asiticos  China, Vietn   um pouco diferente. Sem dvida, por efeito da tradio confuciana, d-se mais valor  reeducao. O Laogai chins distingue-se por essa instituio que obriga o prisioneiro - denominado "aluno" ou "estudante" - a reformar o seu pensamento sob o controle de carcereiros-professores. No haver nesse tipo de "reeducao" uma atitude menos franca, mais hipcrita ainda do que no assassinato puro e simples? No ser pior forcar o inimigo a renegar-se e a submeter-se ao discurso dos seus algozes? Os Khmers Vermelhos, pelo contrrio, optaram logo de sada por uma soluo radical: considerando que a reeducao de uma parte do povo era impossvel, por estar j demasiado "corrompida", decidiram mudar de povo. Da o extermnio em massa de toda a populao intelectualizada e urbanizada, visando, tambm nesse caso, destruir primeiro o inimigo no plano psicolgico, desagregar a sua personalidade impon-do-lhe uma "autocrtica" que o desonra e que, de qualquer maneira, no o poupa ao castigo supremo.
	Os lderes dos regimes totalitrios reivindicam o direito de enviar os seus semelhantes para a morte em nome da "fora moral". A justificao fundamental  sempre a mesma: a necessidade baseada na cincia. Refletindo sobre as origens do totalitarismo, Tzvetan Todorov escreveu: "Foi o cien-tificismo e no o humanismo que contribuiu para lanar as bases ideolgicas do totalitarismo. [...] A relao entre cientificismo e totalitarismo no se limita  justificao dos atos por pretensas necessidades cientficas (biolgicas ou histricas);  preciso j praticar o cientificismo (ainda que 'selvagem') para acreditar na transparncia da sociedade e, logo, na possibilidade de transform-la em funo do nosso ideal atravs de uma revoluo."
	Em 1919, Trotski ilustrava poderosamente esse propsito: "O proletariado  uma classe historicamente ascendente [...]. A burguesia , atualmente, uma classe decadente. No apenas j no desempenha um papel essencial na produo, como, pelos seus mtodos imperialistas de apropriao, destri a economia mundial e a cultura humana. No entanto, a vitalidade histrica da burguesia  colossal. Aferra-se ao poder e no o larga. Por isso, ao cair, ameaa arrastar consigo toda a sociedade.  nossa obrigao arranc-la do poder e cortar-lhe as mos. O terror vermelho  a arma utilizada contra uma classe condenada a perecer e que no se resigna a isso." E conclua: "A revoluo violenta tornou-se uma necessidade na exata medida em que as exigncias imediatas da Histria no podem ser satisfeitas pelo aparelho da democracia parlamentar. " Reconhecemos aqui a divinizao da Histria,  qual tudo deve ser sacrificado, e a incurvel ingenuidade do revolucionrio que imagina, graas  sua dialtica, poder favorecer a emergncia de uma sociedade mais justa e mais humana utilizando mtodos criminosos. Doze anos mais tarde, Gorki dizia o mesmo, de uma forma ainda mais brutal: "Temos contra ns tudo o que cumpriu o seu tempo tal como a Histria mediu, e isso nos d o direito de nos considerarmos sempre em guerra civil. Donde, naturalmente, a concluso: se o inimigo no se rende, exterminamo-lo." No mesmo ano, Aragon disse-o em verso: "Os olhos azuis da Revoluo brilham com uma crueldade necessria".
	Inversamente, em 1918, Kautsky abordava a questo com muita coragem e franqueza. Despindo as palavras de fetichismos, escreveu: "Na verdade, o nosso objetivo ltimo no  o socialismo, mas sim abolir 'todas as formas de explorao e de opresso, quer sejam dirigidas contra uma classe, um partido, um sexo ou uma raa'. [...] Se conseguissem demonstrar-nos que estamos errados no acreditando que a libertao do proletariado e da humanidade em geral pode tornar-se uma realidade unicamente, ou mais comodamente, com base na propriedade privada dos meios de produo, deveramos ento lanar o socialismo janela afora, sem com isso renunciarmos ao nosso objetivo final, e nesse caso deveramos at faz-lo precisamente no interesse desse mesmo objetivo final." Kautsky dava claramente primazia ao humanismo sobre o cientificismo marxista, de que era, todavia, o mais eminente representante.
	O ato de matar propriamente dito requer uma pedagogia: em face das reticncias que qualquer pessoa tem em matar o seu prximo, a pedagogia mais eficaz ainda consiste em negar a humanidade da vtima, em "desumaniz-la" previamente. Alain Brossat faz muito justamente notar: "O rito brbaro dos expurgos, o funcionamento em pleno vapor da mquina exterminadora, no se dissociam, nos discursos e prticas de perseguio, dessa animalizao do Outro, da reduo dos inimigos, imaginrios ou reais, ao estado zoolgico."
	E, efetivamente, durante os grandes julgamentos de Moscou, o procurador Vychinski, intelectual, jurista e homem de slida educao clssica, entregou-se a uma orgia de "animalizao" dos acusados: "Matem-se os ces raivosos! Morte a esse bando que esconde das massas populares as suas presas de fera, os seus dentes rapaces! Maldito sejas, abutre-Trotski, espumando uma baba peonhenta com a qual salpicas as grandes ideias do marxismo-leninis-mo! Eliminemos esses mentirosos, esses histries, esses miserveis pigmeus, esses ces fraldiqueiros, esses chacais que importunam o elefante! [...] Sim, abaixo essa abjeo animal! Acabemos com esses detestveis hbridos de raposas e de porcos, essas carcaas fedorentas. Faamos calar os seus grunhidos porcinos. Exterminemos os ces raivosos do capitalismo, que querem despedaar os melhores entre os homens da nossa terra sovitica! Faamos com que eles engulam o dio bestial que votam aos dirigentes do nosso Partido!" Mas no foi Jean-Paul Sartre quem, em 1952, injuriou cruamente: "Todo antico-munista  um co!"? Essa retrica diablico-animalesca parece-nos reforar a hiptese de Annie Kriegel sobre a funo essencialmente pedaggica dos julgamentos montados e transformados em grandes espetculos. Como nos mistrios da Idade Mdia,  posta em cena, para edificao do bom povo, a figura do "malvado", do hertico, do "trotskista" e, pouco depois, do "sionista-cos-mopolita", em resumo, do Diabo...
	Brossat relembra que foi atravs de folias e de carnavais que se instalou uma verdadeira tradio da animalizao do Outro, que encontramos na caricatura poltica desde o sculo XVIII. Esse rito metafrico permitia, precisamente atravs do animal, a expresso de crises e de conflitos latentes. Nos anos 30, em Moscou, nada  metafrico: o adversrio "animalizado"  tratado como um animal de caa antes de tornar-se carne para a forca  na ocorrncia, candidato a uma bala na nuca. Se Stalin sistematizou e generalizou esses mtodos, eles foram largamente retomados pelos seus sucessores chineses, cambojanos e outros. E Stalin no os inventou. O prprio Lenin no est isento de culpa: aps a tomada do poder, chamava aos seus inimigos "insetos nocivos", "piolhos", "escorpies" e "vampiros".
	Na ocasio do julgamento-fantoche do chamado "partido industrial", a Liga dos Direitos Humanos publicou um protesto assinado, entre outros, por Albert Einstein e Thomas Mann; Gorki respondeu a essa publicao com uma carta aberta: "Considero que essa execuo foi perfeitamente legtima.  perfeitamente natural que o poder operrio e campons extermine os seus inimigos como se fossem piolhos."
	Alain Brossat tira as seguintes concluses dessa deriva zoolgica: "Como sempre, os poetas e os carniceiros do totalitarismo traem-se em primeiro lugar pelo seu vocabulrio: esse 'liquidar' dos carrascos moscovitas, primo direto do 'tratar' dos industriais do genocdio nazista, constitui o microcosmo lingustico da irreparvel catstrofe mental, cultural, que se expe ento em plena visibilidade no espao sovitico: a vida humana deixou de ter valor, o pensamento por categorias ('inimigos do povo', 'traidores', 'elementos seguros') substituiu a noo carregada de positividade tica da espcie humana [...]. No discurso, nas prticas polticas e nos mtodos de extermnio dos nazistas, a ani-malizao do Outro, indissocivel da obsesso da mcula e do contgio, est estreitamente ligada  ideologia da raa.  concebida nos termos implacavel-mente hierrquicos do discurso da raa, do sobre e do subumano; [...] mas, na Moscou de 1937, o discurso de raa e os dispositivos totalitrios inerentes esto vedados, indisponveis.  da que decorre a importncia da animalizao do Outro, para elaborar e pr em prtica uma poltica baseada no 'tudo  permitido ao totalitrio'."
	No entanto, alguns no hesitaram em ultrapassar a barreira ideolgica, e passar do social ao racial. Numa carta escrita em 1932, Gorki, que, recordemos, era nesse momento um amigo pessoal de lagoda, chefe da GPU, e cujo filho era um assalariado dessa mesma GPU, dizia: "O dio de classes deve ser cultivado pela repulsa orgnica relativamente ao inimigo, enquanto ser inferior.  minha ntima convico que o inimigo  efetivamente um ser inferior, um degenerado no plano fsico, mas tambm 'moral'."
	Gorki levar at as ltimas consequncias essa posio, promovendo a criao do Instituto de Medicina Experimental da URSS. No incio de 1933, escreveu: "Est muito breve o tempo em que a cincia vai perguntar aos seres ditos normais: querem que todas as doenas, as incapacidades, as imperfeies, a senilidade e a morte prematura do organismo sejam minuciosa e apro-fundadamente estudadas? Esse estudo no pode ser feito com experincias em ces, em coelhos, em cobaias. A experimentao com o prprio homem  indispensvel;  imprescindvel estudar nele prprio o funcionamento do seu organismo, os processos de alimentao intracelular, a hematopoese, a qumica dos neurnios e, mais geralmente, todos os processos orgnicos. Para isso, sero necessrias centenas de unidades humanas para prestar um verdadeiro servio  humanidade, o que ser com toda a certeza mais importante e mais til do que o extermnio de dezenas de milhes de seres saudveis para conforto de uma classe miservel, fsica e moralmente degenerada, de predadores e de parasitas." Aos efeitos mais negativos do cientificismo scio-histrico juntam-se assim os do cientificismo biolgico.
	Essa deriva "biolgica" ou "zoolgica" permite-nos compreender melhor por que  que numerosos crimes do comunismo se enquadram na categoria dos crimes contra a humanidade e por que razo a ideologia marxis-ta-leninista pde praticar e justificar esses crimes. Voltando s decises jurdicas ligadas s recentes descobertas da biologia, Bruno Gravier escreve: "O teor das leis sobre a biotica [...] vem balizar outras ameaas, mais insidiosas porque ligadas ao progresso da cincia, das quais desconhecemos que papel desempenham na gnese de ideologias buscadas no terror 'enquanto lei do movimento' (J. Asher) [...]. O desgnio eugnico contido nos textos de mdicos famosos, como Richet ou Garrei, foi a base em que assentaram o extermnio em massa e os atos aberrantes dos mdicos nazis."
	Ora, existe no comunismo um eugenismo scio-poltico, um darwinis-mo social. Dominique Colas escreveu: "Senhor do conhecimento sobre a evoluo das espcies sociais, Lenin decide quais devem desaparecer por estarem condenadas pela Histria." A partir do momento em que se decreta, em nome de uma cincia - ideolgica e poltico-histrica como o marxis-mo-leninismo -, que a burguesia representa uma etapa ultrapassada da evoluo da humanidade, justifica-se a sua liquidao enquanto classe e, logo a seguir, a liquidao dos indivduos que a constituem ou que so supostos de pertencer-lhe.
	Referindo-se ao nazismo, Mareei Colin fala: "As classificaes, segregaes, excluses e critrios puramente biolgicos so veiculados pela ideologia criminosa. Pensamos nesses pressupostos cientficos (hereditariedade, hibrida-o, pureza de raa), at de contribuio fantasmtica, milenarista ou planetria, que so muito marcados historicamente e inultrapassveis." Esses pressupostos cientficos aplicados  histria e  sociedade - o proletariado detentor do sentido da Histria, etc. - relevam sem dvida de uma fantasmagoria milenarista e planetria e so onipresentes na experincia comunista. So eles que fixam uma ideologia criminognica que determina, segundo critrios puramente ideolgicos, uma segregao arbitrria (burguesia/proletariado), e classificaes (pequena burguesia, alta burguesia, camponeses ricos, camponeses remediados, camponeses pobres, etc.). Fixando-as - como se fossem definitivas e como se os indivduos no pudessem passar de uma categoria para a outra -, o marxismo-leninismo instala o primado da categoria, da abstrao, sobre o real e o humano; qualquer indivduo ou grupo  encarado como arqutipo de uma sociologia primria e desencarnada. O que torna o crime mais fcil: o delator, o inquiridor, o carrasco do NKVD no denunciam, no perseguem, no matam um homem; eliminam uma abstrao nociva  felicidade geral.
	A doutrina tornou-se uma ideologia criminognica pelo simples fato de negar um dado fundamental, a unidade daquilo a que Robert Antelme chama "espcie humana", ou o que no prembulo da Declarao dos Direitos Humanos, de 1948,  chamado "famlia humana". Seriam as razes do marxismo-leninismo menos profundas em Marx do que num darwinismo aberrante, aplicado  questo social e conducente aos mesmos erros que na questo racial? Uma coisa  certa: o crime contra a humanidade  o resultado de uma ideologia que reduz o homem e a humanidade a uma condio no universal mas restrita: biolgico-racial ou scio-histrica. Tambm aqui, e por um efeito de propaganda, os comunistas conseguiram fazer crer que a sua posio era universal, que tinha em conta a humanidade na sua globalidade. Considera-se at frequentemente que existe uma diferena radical entre o nazismo e o comunismo baseada no fato de o projeto nazista ser particularizante - estritamente nacionalista e racial -, enquanto o projeto leninista  universalista. Nada mais falso: na teoria e na prtica, Lenin e os seus seguidores excluram claramente da humanidade o capitalismo, a burguesia, os contra-revolucionrios, etc. Retomando palavras correntes do discurso sociolgico ou poltico, fizeram deles inimigos absolutos. E, como Kautsky dizia em 1918, so as palavras "de borracha" que permitem excluir da humanidade quem se quer, quando se quer e como se quer e que conduzem diretamente ao crime contra a humanidade.
	Mireille Delmas-Marty escreveu: "Os bilogos, como Henri Atlan, so os primeiros a reconhecer que a noo de humanidade ultrapassa a abordagem biolgica e que a biologia 'tem muito pouco a dizer sobre a pessoa humana'. [...]  verdade que podemos perfeitamente considerar a espcie humana como mais uma espcie animal entre outras, uma espcie que o prprio homem aprende a fabricar, como j  capaz de fabricar espcies animais ou vegetais." No ter sido isto que os comunistas tentaram fazer? No estaria a ideia do "homem novo" no cerne do projeto comunista? Os "Lyssenko" megalmanos no teriam j tentado criar, alm de outras espcies de milho ou de tomate, uma nova espcie de homem?
	Essa mentalidade cientificista do fim do sculo XIX, contempornea do triunfo da medicina, inspirou Vassili Grossman a fazer essa observao sobre os chefes bolcheviques: "Os homens dessa tmpera comportam-se como os cirurgies numa clnica. [...] Eles tm a alma na faca. O que caracteriza esses homens  a sua f fantica na onipotncia do bisturi. O bisturi  o grande terico, o lder filosfico do sculo XX." A ideia  levada ao extremo no caso de Pol Pot, que, com um terrvel golpe de bisturi, amputa a parte "gangrenada" do corpo social - "o povo novo" - e conserva a parte "s" - "o povo antigo". Por muito louco que fosse, o conceito no era totalmente novo. J em 1870, Piotr Tkatchev, revolucionrio russo e digno emulo de Netchaiev, props o extermnio de todos os russos com mais de 25 anos, considerados incapazes de conceber a ideia revolucionria. Na mesma poca, numa carta que dirigiu a. Netchaiev, Bakunin mostrava a sua indignao contra essa proposta louca: "O nosso povo no  uma folha em branco na qual qualquer sociedade secreta pode escrever o que quiser, como, por exemplo, o vosso programa comunista.'^  verdade que a Internacional clama "Faamos do passado tbua rasa!" e que Mao se compara a um genial poeta escrevendo sobre a famosa folha em branco. Como se uma civilizao vrias vezes milenar pudesse comparar-se a uma folha em branco!
	O conjunto dos processos de terror que acabamos de invocar foi,  certo, iniciado na URSS por Lenin e Stalin, mas contm um determinado nmero de elementos invariveis que se encontram, com diferentes graus de intensidade, em todos os regimes que se reclamam do marxismo-leninismo. Cada pas ou partido comunista teve a sua histria especfica, as suas caractersticas, locais e regionais, os seus casos mais ou menos patolgicos, mas esses inscreveram-se sempre na matriz elaborada em Moscou em novembro de 1917 e que, por esse fato, imps uma espcie de cdigo gentico.
	Como compreender os atores desse sistema aterrador? Teriam caractersticas especiais? Parece que todos os regimes totalitrios suscitaram vocaes e souberam descobrir e promover os homens capazes de os fazerem funcionar. O caso de Stalin  singular. No domnio da estratgia, foi um digno herdeiro de Lenin, capaz de investigar um caso local e de abarcar uma situao mundial. Surgir sem dvida aos olhos da Histria como o mais brilhante poltico do sculo XX, tendo conseguido elevar a pequena Unio Sovitica de 1922  categoria de uma superpotncia mundial e impor, durante dcadas, o comunismo como uma alternativa ao capitalismo.
	Foi tambm um dos maiores criminosos de um sculo rico em carrascos de grande envergadura. Deveremos ver nele um novo Calgula, como o descreviam Boris Suvarin e Boris Nicolaievski, em 1953? A sua ao ter sido a de um puro paranico, como Trotski d a entender? No ser, pelo contrrio, a de um fantico extraordinariamente dotado para a poltica e que repudiava os mtodos democrticos? Stalin levou s ltimas consequncias a posio definida por Lenin e j preconizada por Netchaiev: adotou medidas extremas para implementar uma poltica extrema.
	O fato de Stalin ter enveredado deliberadamente pela via do crime contra a humanidade como mtodo de governo remete-nos tambm para a dimenso propriamente russa da personagem. Oriundo do Cucaso, toda a sua infncia e adolescncia foram embaladas por histrias de generosos bandidos, os abrek, montanheses caucasianos banidos dos seus cls ou que, tendo jurado uma vingana sangrenta, combatiam movidos pela coragem do desespero. Ele prprio adotou o pseudnimo de Koba, o nome de um desses mticos prncipes-bandidos, uma espcie de Robin Hood, o protetor das vivas e dos rfos. Ora, na sua carta de ruptura com Netchaiev, Bakunin dizia-lhe:
	"Voc se lembra de como se ofendeu comigo quando lhe chamei abrek, e ao seu catecismo um catecismo de abreki; voc dizia que todos os homens deveriam ser assim, que a abnegao total de si mesmo e a renncia a todas as necessidades pessoais, a todas as satisfaes, aos sentimentos, aos apegos e ligaes, deveriam ser o estado normal, natural e cotidiano de todos, sem exceo. Quer, ainda hoje, que sua crueldade cheia de abnegao, o seu extremo fanatismo, sejam uma regra de vida da comunidade. Deseja inpcias, coisas impossveis, a negao total da natureza, do homem e da sociedade."
	A despeito do seu total empenho revolucionrio, Bakunin j havia percebido, em 1870, que at a atividade revolucionria deve submeter-se a certas regras morais fundamentais.
	O terror comunista foi muitas vezes comparado ao da Santa Inquisio catlica de 1199. E, aqui, o romancista esclarece-nos, sem dvida, melhor do que o historiador. No seu magnfico romance La Tunique d'infamie, Miguel dei Castillo observa: "A finalidade no  torturar ou queimar: consiste apenas em fazer as perguntas certas. No h terror sem verdade, que  o seu fundamento. Se no conhecssemos a verdade, como reconheceramos o erro? [...] A partir do momento em que temos a certeza de estarmos de posse da verdade, como poderamos deixar o nosso prximo mergulhado no erro?"
	A Igreja prometia o perdo do pecado original e a salvao no Alm, ou o fogo de um inferno sobrenatural. Marx acreditava numa auto-redeno pro-metica da humanidade. Foi o sonho messinico da "Grande Noite". Mas, para Leszek Kolakowski: "A ideia de que o mundo em que vivemos est to corrompido, que  impossvel melhor-lo, e que, precisamente por isso, o mundo que lhe suceder trar a plenitude da perfeio e a libertao ltima,  uma das aberraes mais monstruosas do esprito humano. [...] Claro que essa aberrao no  uma inveno do nosso tempo; mas  preciso reconhecer que, no pensamento religioso que ope a fora da graa sobrenatural  globalidade dos valores temporais, ela  bem menos abominvel do que nas doutrinas mundanas que nos garantem que poderemos garantir a nossa salvao com um nico salto do abismo dos infernos at o topo dos cus."
	Ernest Renan fora sem dvida premonitrio quando, nos seus Dilogos Filosficos, dizia que, para assegurar o poder absoluto numa sociedade de ateus, no basta ameaar os insubmissos com o fogo do inferno mitolgico, sendo necessrio instituir um "inferno real", um campo de concentrao destinado a quebrar os revoltosos e intimidar todos os outros, servido de uma polcia especial composta por seres desprovidos de escrpulos morais e inteiramente dedicados ao poder institudo, verdadeiras "mquinas obedientes, prontas s maiores ferocidades".
	Aps a libertao da maioria dos prisioneiros do Gulag, em 1953, e mesmo depois do XX Congresso dos PCUS, quando uma certa forma de terror no estava j na ordem do dia, o princpio do terror conservou a sua funo e continuou a ser eficaz; a lembrana do terror bastava para paralisar as vontades, conforme recorda Aino Kuusinen: "Era a recordao desse terror que pesava no esprito das pessoas; ningum parecia acreditar que Stalin tinha verdadeiramente desaparecido de circulao. Quase no havia em Moscou uma famlia que no tivesse sofrido com as suas perseguies, e, no entanto, nunca ningum falava nisso. Assim, por exemplo, eu nunca invocava na presena dos meus amigos as minhas recordaes da priso ou do campo de concentrao. E eles nunca me faziam perguntas. O medo estava demasiado enraizado nas suas mentes." Se as vtimas conservavam vivas as memrias do Terror, os carrascos continuavam a apoiar-se nelas. Em pleno poder brejnevia-no, a URSS editou um selo comemorativo do qiiinquagsimo aniversrio da Tcheka e publicou uma compilao de textos de homenagem  instituio.
	Para concluir, vamos dar, uma ltima vez, a palavra a Gorki, no seu texto de homenagem a Lenin, em 1924: "Um velho conhecido meu, um operrio de Sormov, um homem naturalmente doce, queixava-se de que era duro trabalhar na Tcheka. Respondi-lhe: 'Tambm me parece que no  um trabalho para voc. No condiz com o seu modo de ser'. Ele confirmou, tristemente: 'No, de maneira nenhuma. Mas, depois de ter refletido, acrescentou: 'No entanto, quando penso que seguramente o prprio Ilitch  muitas vezes obrigado a segurar a sua alma pelas asas, tenho vergonha da minha fraqueza'. Aconteceria a Lenin ter de 'segurar a sua alma pelas asas'? Dava to pouca ateno  sua pessoa, que nunca falava de si mesmo com os outros; melhor do que ningum, sabia calar-se sobre as mais secretas tempestades da sua alma. Uma vez, porm, disse-me, enquanto acariciava umas crianas: 'A vida deles ser melhor do que a nossa; muito do que ns sofremos lhes ser poupado. A sua vida ser menos cruel'. Com o olhar perdido na lonjura, acrescentou, sonhador: 'Mesmo assim, no os invejo. A nossa gerao concretizou uma tarefa espantosa pela sua importncia histrica. A crueldade da nossa vida, imposta pelas circunstncias, ser compreendida e perdoada. Tudo ser compreendido, tudo!'"
	Sim, tudo comea agora a ser compreendido, mas no no sentido em que o entendia Vladimir Ilitch Ulianov. Que resta hoje dessa "tarefa espantosa pela sua importncia histrica"? No uma ilusria "construo do socialismo", mas uma imensa tragdia que continua a pesar sobre a vida de centenas de milhes de pessoas e que ir marcar a entrada no terceiro milnio. Vassili Grossman, o correspondente de guerra de Stalingrado que viu a KGB confiscar-lhe o manuscrito da sua obra-prima e que por isso morreu, tira, no entanto, de tudo isso uma lio otimista, que retomamos por nossa conta: "O nosso foi o sculo em que a violncia exercida pelo Estado sobre o homem atingiu o seu mais alto grau. Mas  a, precisamente, que residem a fora e a esperana dos homens: foi o sculo XX que abalou o princpio hegeliano do processo histrico universal: 'Tudo o que  real  racional', princpio de que se reclamavam, em apaixonadas polmicas que duraram dezenas de anos, os pensadores russos do sculo passado. E  justamente agora, na poca do triunfo do poder do Estado sobre a liberdade dos homens, que os pensadores russos, vestindo o farrapo dos campos, enunciam, invertendo a lei de Hegel, o princpio supremo da histria universal: Tudo o que  desumano  insensato e intil'. Sim, nesses tempos do triunfo total da desumanidade, tornou-se evidente que tudo o que foi criado pela violncia  insensato, intil, sem alcance, sem futuro."

	OS AUTORES

	Stphane Courtois, pesquisador-chefe do CNRS (GODE - Paris X); diretor da revista Communisme, especialista em histria do comunismo. Publicou principalmente: L PCF dans Ia guerre (Ramsay, 1980); Qui savait quoi? Lextermination desjuifi, 1941-1945 (La Dcouverte, 1987, como colaborador); L Communisme (MA ditions, 1987, com M. Lazar); Le Sangde l'tranger. Les immigrs de Ia MI dans Ia Rsistance (Fayard, 1989, como colaborador); Cinquante ans d'une passion franaise. De Gaulle et ls communistes (Balland, 1991, com M. Lazar); Rigueur et passion. Hommage  Annie Kriegel (Le Cerf/L'Age d'homme, 1994, como colaborador); L'tatdu monde en 1945 (La Dcouverte, 1994, com A. Wieviorka); Histoire du Parti communistefran-ais (Presses Universitaires de France, 1995, com M. Lazar); Eugen Fried. L grandsecret du PCF (Le Seuil, 1997, com A. Kriegel).
	Nicolas Werth, professor agrgde histria, pesquisador do Instituto de Histria do Tempo Presente, dedicou-se ao estudo da histria da URSS. Publicou principalmente: tre communiste en URSS sous Staline (Gallimard, 1981); La Vie quotidienne dspaysans russes de Ia Rvolution  Ia collectivisa-tion, 1917-1939 (Hachette, 1984); Histoire de 1'Union Sovitique, de l'Empire russe  Ia C7(PUF, 1992); Rapports secrets sovitiques. La socit russe dans ss rapports confidentiels, 1921-1991 (Gallimard, 1995, com Gael Moullec).
	Jean-Louis Pann, historiador. Colaborou para a execuo do Dictionnaire biographique du mouvement ouvrier franais (1914-1939); autor (com Emmanuel Wallon) de LEntreprise sociale, l pari autogestionnaire de Solidarnosc, L'Harmattan, 1987; Boris Souvarine, l premier dsenchant du communisme, Robert Laffont, 1993.
	Andrzej Paczkowski, vice-diretor do Instituto de Estudos Polticos da Academia Polonesa de Cincias, membro do Conselho Cientfico dos Arquivos do Ministrio do Interior e da Administrao.  autor de: Stanislaw Mikolajczyk (1901-1966) ou Ia dfaite d'un raliste. Essai de biographie politi-que, 1991; UAppareilde Ia. Scurit, 1944-1956 (documentos); 2 vol., 1994 e 1996; Un demi-sicle d'histoire de Ia Pologne, 1939-1989, 1995 (prmio Clio de melhor livro de histria, 1996).
	Karel Bartosek, historiador de origem tcheca, pesquisador do IHTP (CNRS) de 1983 a 1996, diretor da revista La Nouvelle Alternattve, especialista na histria da Europa Central e Leste Europeu. Publicou, entre outros: The Prague Uprising, 1945 (em tcheco, eslovaco, alemo e ingls, entre 1960 e 1965); De l'exil Ia Rsistance, Refugies et immigrs d'Europe Centrale en Fran-ce, 1933-1945 (codir., Arcantre, 1989); Confession (entrevistas com Bedrich Fucik, Toronto, 1989); L tmoin du procs de Husak tmoigne (entrevistas com Ladislav Holdos, Praga, 1991); LsAveuxdsarchives. Prague-Paris-Prague, 1948-1968,LeSeui\, 1996.
	Jean-Louis Margolin, professor agrg de histria, maitre de confrences da Universit de Provence, pesquisador do Instituto de Pesquisa sobre o Sudeste Asitico (CNRS). Publicou Singapour, 1959-1987. Gnese d'un nou-veau pays industriei (EHarmattan, 1989).

	Colaboradores:

	Remi Kauffer, especialista em histria da informao, do terrorismo e dos aparelhos clandestinos. Publicou principalmente: com Roger Faligot, Service B (Fayard, 1985); KGB objectif Pretria (Lausanne, 1986); Kang Sheng et ls services secrets chinois, 1927-1987 (Robert Laffont, 1987); As-tu vu Cremet (Fayard, 1991); Histoire mondiale du Renseignement (2 volumes, Robert Laffont, 1993-1994, como colaborador).
	Pierre Rigoulot, pesquisador do Instituto de Histria Social. Redator-Chefe dos Cahiers d'histoire sociale. Publicou principalmente: Ds Franais au Goulag (Fayard, 1984); La Tragdie ds Malgr-nous (Plon, 1990); Lespaupi-res lourdes, Ls Franais face au Goulag: aveuglement et indignation (ditions Universitaires, 1991).
Pascal Fontaine, jornalista especializado em Amrica Latina.
	Yves Santamaria, professor de histria, maitre de confrences do IUFM de Mans e do IEP de Paris. Autor de Du Printemps dspeuples  Ia Socit ds nattons (La Dcouverte, 1996, com Brigitte Wach).
	Sylvain Boulouque, estudante de histria, pesquisador associado do GEODE (Universidade Paris X).
	
FIM